Um explorador

Pierre Pellegrini
Fotografia de Pierre Pellegrini

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Durante a noite Emerenciano Castanheira voava. O corpo descobria-se livre e leve, abria os braços e punha-se a subir e a esvoaçar à volta da casa, cada vez mais depressa, cada vez mais alto, cada vez mais amplamente, em círculos, como um pássaro enlouquecido.

Era um sonho recorrente. Emerenciano via-se a encostar a escada de eucalipto à parede nascente, junto ao limoeiro, a trepar por ela até ao telhado, como se fosse limpar uma chaminé, e depois, empoleirado sobre uma das empenas, contemplado o casario ao redor, acontecia exatamente o que se disse atrás: Emerenciano batia os braços e voava.

A vertigem da ascensão compensava-a a vista: tudo tão pormenorizado, tão realista, tão coerente que não podia ser senão verdade: o defeito das telhas, a casota do cão lá em baixo, e o animalzinho com as patas de fora, os grandes postes de eletricidade com ninhos de cegonhas, a torre piramidal da igreja que afinal se parecia um quadrado cortado por um enorme X entre os ângulos, a copa dos grandes choupos e as veias averdiscadas dos arroios pelo meio da terra ocre, tudo coerente, realista, pormenorizado, até chegar ao branco das nuvens e aí se perder de susto, na confusão láctea do nevoeiro.

Quando despertava, Emerenciano Castanheiro sentia-se muito bem-disposto. Orgulhoso até. No final destes seus voos oníricos, a vida parecia-lhe outra, mais divina, mais sabedora de coisas indiscretas (nos sonhos, a sua visão de ave atingia amores clandestinos de mulheres casadas com moços da tropa, negócios proibidos de candongueiros de café e cigarros, roubos nos alambiques e nos lagares de azeite, até as lágrimas que as mulheres camponesas engoliam, quando triplamente vergadas pela condição de género, do trabalho, de mães pobres). Do alto apanha-se tudo e os braços valentes e os olhos acutilantes de que Emerenciano Castanheira dispunha eram armas nada despiciendas. Numa palavra, sentia-se um explorador.

Admitamos que um felizardo, também. Quantos de nós não gostaríamos de, no despudor dos sonhos, ampliada pela lente destes voos, termos da vida e da vizinhança uma visão tão certa?

Felizmente, Emerenciano era ajuizado e discretíssimo. As palavras precisam de um travão e ele sabia-o. O que à sua cabeça vinha na sua cabeça ficava. Era melhor assim. Muito melhor!

Quantos de nós não gostaríamos de um tal poder?

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Milagres de Natal

Homem Velho
Fotografia de Pete Linforth

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para a Elsa, para a Marta, para a Catarina

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Meter lenha na fornalha era, em todo o caso, o melhor que tinha a fazer. Enquanto os filhos discutiam, o ancião enfiava gravetos e cavacos pela portinhola do fogão e dava um jeito às costas para que quando o calorzinho as encontrasse as pudesse aquecer com outro cuidado.

Mas o que discutiam os filhos?

Justamente o que fazer consigo. E não era fácil. Viviam todos em lugares muito separados entre si, cada qual com a sua ranchada de miúdos, cada um a contas com a vidinha respetiva. E deve fazer-se bem as contas, oh se se deve! Falecida e enterrada a mãe, estando todos ali reunidos, a oportunidade era de ouro.

Quem tomaria conta do velho?

Nenhum dos oito rapazes, nem sequer a rapariga mostrou interesse, paciência ou disponibilidade para ficar com ele ou levá-lo para longe.

O velhote escutava absorto. Era mister que se começasse com os preparativos da Quadra: a casa precisava de ser limpa; ele mesmo iria com a tesoura da poda cortar os ramos de gilbardeira e fazer com eles a vassoura e varrer com ela a fuligem incrustada nas telhas. Era tempo de lavar com sabão as panelas de ferro, tirar do sal as peças de carne, tirar do serrim as uvas guardadas em setembro, tirar das arcas o linho e as pratas. Era mister que se preparasse o presépio e os quartos e essa comprida mesa onde se haveria de sentar a multidão de filhos, noras e netos que haveriam de partilhar a noite de Consoada.

O frio punha-lhe os ouvidos em riste: a gritaria batia-lhe nos tímpanos como lâminas de gelo. Porque discutiam aqueles rapazes? Aquela moça tão boa, tão igual à mãe, tão parecida com essa mulher que em quase três das quatro partes do século foi a sua?

Em todo o caso, o melhor era manter vivo o lume, esquecer as misérias do mundo, trazer de volta os gestos de antigamente – aqueles de que se alimenta genuinamente um homem. As costas e os pés esquentados são um consolo para o qual não existem palavras…

Sim, quem tomaria conta do velho?

Verdade seja dita: já poucos hoje acreditam em milagres de Natal.

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A igrejinha

Pete Linforth - abbey
Fotografia de Pete Linforth

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Em Albitreccia, a meio do vilarejo, numa colina sobre o bosque, ergue-se como uma ilhota de pedra a pequena igreja medieval. Ou o que dela sobrou.

Os séculos despiram-na impiedosamente. Primeiro dos sinos e do ouro litúrgico, depois das imagens ricamente esculpidas em cedro e dos frescos, por fim dos vitrais e dos telhados, das portas e da pia batismal. Os lavradores chegaram a usá-la para guardarem as reses. Agora nem os vadios ali querem entrar. É só um amontoado de granito e tábuas mal pregadas, dispersas pelo chão barrento.

Um professor estrangeiro afirma que na pedra do tímpano, em letras quase apagadas, se lê que foi consagrada no ano de 701 a Santa Luzia de Siracusa. Com efeito, muitos são aqueles que, saindo ou entrando no bosque nos últimos dias de outono ali veem luzes misteriosas. Falam em centenas de velas acesas, ardendo no meio da solidão.

Os céticos admitem que a lua cheia, reluzindo em folhas húmidas da carvalho, criam esse revérbero magnífico. Especialmente quando as neblinas não ocultam inteiramente a paisagem e ampliam o efeito ótico.

Muitos são aqueles que creem que os mortos ali rezam de novo, uma vez por ano, não sabem se sabe se pela sua, se pela nossa salvação.

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Prémio Nacional de Poesia da Vila de Fânzeres – discurso de agradecimento

João Ricardo Lopes
Crédito fotográfico: União de Freguesias de Fânzeres e S. Pedro da Cova (2022)

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Excelentíssimas senhoras e excelentíssimos senhores,

Permitam-me que encete, deste modo, o meu discurso de agradecimento. Gostaria de o fazer, aludindo à luz…

Tal como o silêncio, ou como as palavras, a luz pode encher-nos de uma felicidade imensa, ou pode arremessar-nos com violência contra as coisas. Não ignoramos a natureza prodigiosa de que é feita, nem o despudor da sua força, quando ao revelar mostra, quando ao mostrar-nos esfacela.

Aprendemos nas aulas de Ciências que a luz é uma radiação eletromagnética propagada ao longo do vácuo, uma corrente de ondas e de partículas, de fotões e de neutrinos, de elementos subatómicos, cuja designação nos aguça a curiosidade e nos atira para fora do senso comum. A luz é feita de nada, mas por causa dela tudo existe. «Faça-se a luz!» principia assim o Génesis.

Aprendi, sobretudo, nas viagens que, matinal e diariamente, faço para o trabalho que a luz é uma espécie de milagre, uma transformação, um eclodir de vida que à hora certa atinge a massa escura das montanhas do Marão e cai obliquamente sobre a paisagem para nela acordar a visão dos campos, das vinhas, dos riachos recobertos de névoa, dos pássaros, dos canteiros repletos de verde e de olor.

A luz é essa proximidade repentina com aquilo que nos rodeia: com o asfalto atafulhado de folhas outoniças, com o reflexo além no vidro de uma qualquer janela sobranceira, com a cor quase feérica dos bordos, dos plátanos, dos choupos, dos carvalhos, dos castanheiros, de tantas outras árvores benditas nesta altura do ano.

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Marco Martins (Presidente da Câmara de Gondomar) e José António Gomes/João Pedro Mésseder (professor universitário e escritor)

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As viagens demoram-nos no que nelas há de dádiva da luz. Por exemplo, as memórias que se foram e se vão alojando por dentro dos olhos. A vela transbordante, a tremeluzir nas noites de tempestade. O fósforo riscado numa cave antiquíssima na casa dos avós. O candeeiro a petróleo com o seu halo estampado na parede, onde a caliça e o caruncho se entendem. Por exemplo, as labaredas da lareira, a desenhar sulcos no rosto infantil. Por exemplo, o rouquejar das panelas de ferro, com o unto a dissolver-se em bolhas translúcidas pelo meio do caldo. Por exemplo, a gambiarra suspensa das traves, a dançar entre teias de aranha, a pendular com o vento, a brincar com as sombras que sobem da terra batida ao teto. Por exemplo, ainda, o vinho a vidrar nas tigelas, ou as contas do terço, rebrilhantes, a passar entre os dedos de uma avó lendária, numa sonolência que não sabe morrer. A luz é um cismar, também, um pasmo longínquo, uma saudade que regressa por instantes, enquanto o automóvel nos balança nas curvas da estrada e se escuta na rádio um adágio pungente de Barber, ou Bach, ou Marcello, ou Vivaldi. A luz dimana, voluteia, rasga, disseca, queima.

A luz, permitam-me que dela fale um pouco mais, vi-a maravilhosamente em Milão, na Ceia de Emaús de Caravaggio. A mesma que se acende, em chiaroscuro, entre as figuras da Ronda da Noite de Rembrandt, uma das melhores recordações que guardo do Rijksmuseum. É a mesma presença vivificante que abre mais as rugas de São José, no quadro de Georges de la Tour que me inspirou um dos poemas deste livro. Ou que explode nos girassóis de van Gogh. Ou que serenamente nos acolhe nos quadros de Vilhelm Hammershøi.

A luz é, ainda, o reino insuperável de leveza e de simetria, ao mesmo tempo do colosso e da bizarria das catedrais que tanto amo, em cujos vitrais saturados de cor e de narrativa os nossos olhos se esquecem do pouco que somos e do escasso que podemos viver.

A luz sentimo-la às vezes perdida na pele. E depois na alma. Também assim o escreveu Dostoievski, no primeiro capítulo de Humilhados e Ofendidos, quando pela voz do narrador exclama, emocionado: “É extraordinário o poder de um raio de sol sobre a alma de um homem!” Sentimo-la nós assim, especialmente nos dolorosos dias em que nos mingua o ânimo e nos pesa mais o corpo.

A luz – admitamos em suma a sua natureza indefinível e irrepetível (em nós, contra nós, depois de nós) – talvez não ilumine. Talvez nós é que ardamos como insetos atraídos pela lâmpada e atravessados, algures, no seu caminho. Sabemo-nos feridos e consolados por ela. Sabemo-nos despidos e cobertos pelo seu manto. Sabemo-la a viajar pelo tempo e pelo espaço e a deter-se às tantas num pormenor. Esse pormenor em que ela e nós nos encontramos é a poesia.

É dessa luz que, muito particularmente, eu necessito. Dessa luz-silêncio, dessa luz-palavra, dessa luz-poesia. É por causa dela, em obediência ao seu poder que nasceu este e todos os meus outros livros.

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José Augusto Nunes Carneiro (editor), João Ricardo Lopes, Marco Martins e José António Gomes

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Estou em Fânzeres pela segunda vez.

Há vinte anos recebi aqui um prémio da maior importância para o percurso na escrita que então começava: foi essa distinção, atribuída a Além do Dia Hoje que o desencadeou. Aqui se fez publicar o meu primeiro livro.

Duas décadas volvidas, regresso com Em Nome da Luz. Tomando de empréstimo um verso de Emmanuel Hocquard, «Esse livro passou a ser o meu primeiro livro». Toda a luz que com ele encontrei partilho-a convosco!

Sinto-me profundamente agradecido a esta terra. Agradeço à Junta de Freguesia de Fânzeres e de São Pedro da Cova, na pessoa da Senhora Presidente (Sofia Martins), este Prémio, o livro publicado, este serão verdadeiramente inesquecível e repleto de dignidade. Endereço-lhe, a si, aos autarcas que a antecederam, também, as minhas sinceras felicitações por terem sabido, não apenas sustentar este projeto literário, como sobretudo aquilatar com ele e para ele prestígio nacional.

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Executivo da União de Freguesias de Fânzeres e de São Pedro da Cova (em destaque, a Presidente de Junta, Sofia Martins)

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Agradeço, de modo igual, aos três distintos membros do júri deste Prémio, que primeiramente me leram: a Augusta Cosme; a José Augusto Nunes Carneiro (poeta, editor); ao Professor José António Gomes (cujas palavras há pouco escutadas verdadeiramente me tocaram, e cuja poesia – sob o nome de João Pedro Mésseder – há tantos anos venho estudando com os meus alunos).

Agradeço, de um modo particular, de um modo fraterno, a todas e a todos (família, amigos, conhecidos, curiosos, autarcas, funcionários, artistas presentes), a todas e a todos os que hoje, aqui, nesta Casa de Montezelo, se associaram à cerimónia, partilhando a sua presença, o seu tempo, o seu afeto, a sua luz.

Bem hajam, por isso! Muito obrigado!

Fânzeres, 11 de novembro de 2022

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A tokarev

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Fotografia de Bananayota

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O desespero levou Bartinik Sendecki, na manhã do vigésimo nono aniversário, a procurar certo tijolo esburacado onde escondia uma anacrónica Tokarev TT 30. Não pôde retirá-la de dentro da peúga sem estremecer: ao fim e ao cabo, uma arma – qualquer que seja a sua forma origem, a sua idade, a sua forma de matar, é um objeto incerto e um teste ao livre-arbítrio.

Cansado, doente, sem dinheiro, vítima do azar, da solidão, de si mesmo (aos poucos começava a odiar-se com fanatismo), Sendecki dispunha de um recurso inestimável: o poder de fogo de uma pistola que andara no coldre do bisavô durante a Segunda Grande Guerra e que desaparecia e reaparecia agora a cada vinte anos, à medida que mudava de casa e de mãos e que por uma ou por outra razão, era preciso ocultá-la das rusgas da polícia.

O que fazer?

Sendecki imaginou todos os cenários: suicidar-se, assaltar um banco, penhorá-la. O desespero, embora seja bastante dramático. Abandonou o apartamentozinho decrépito na Wawrzyszew disposto a mudar alguma coisa, a cometer um ato, a avançar nalguma direção.

Tinha fome. Para sermos rigorosos, não comia em condições desde que lhe comera um prato de Żurek cinco dias antes. Quando cruzou a terceira esquina, na Sándora Petöfiego, em direção ao Parque Wyspa, deteve-se diante de uma furgoneta amarela e azul. Era um dos milhares de negócios ambulantes de Varsóvia. Vendia cachorros quentes e sodas. O cheiro das salsichas aquecidas, embrulhadas em molho e pão, tão perto das suas narinas e da sua boca embruteceu-o.

Decidiu roubar ali mesmo o primeiro instante da sua nova vida. O que tinha a perder?

Mas não foi capaz. A rapariga, de um louro fulvo e sedoso, Anna Gralówna, sorriu-lhe com enorme simpatia. Tinham sido colegas de carteira na escola preparatória, tinham fumado juntos um dos primeiros cigarros, tinham dados beijos e trocado carícias.

«Há quanto tempo, Bart!» foi o que conseguiu escutar, antes de cair de borco no cimento duro.

Nada mais terrivelmente humilhante do que confessar a imprudente tristeza de não ter que comer. Anna fez questão de lhe segurar o cachorro nas mãos, enquanto disfarçadamente secava as lágrimas com as costas da mão. «Bartinik Sendecki, temos muito que conversar. Temos sim, meu menino!»

No interior do bolso, a Tokarev pouco pesava. Muda e cheia de vergonha, esforçava-se por se manter quieta. Muito mudados estavam os tempos na Polónia. Limitar-se a ficar oculta, como uma mentira precocemente inutilizada. Se isto era coisa que se fizesse a uma filha da Revolução! Se era!

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Motivos de orgulho

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Fotografia de Robert Balog

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A minha avó era enfermeira, chamava-se Mabília Roriz, disse o fulano lingrinhas. Cuidava de hortênsias e fazia abortos nas traseiras de sua casa, onde entravam as moças, mas nunca a polícia. Foi a primeira mulher a fumar nos cafés da vila, onde a vinham escutar os bufos e os bons.

Percebia-se nestas palavras e noutras um enorme orgulho filial.

A minha avó chamava-se Amélia. Teve dez filhos, de que vingaram sete. Criou-os como pôde, sem mais dados relevantes que isto: manejava teares mecânicos com a mesma destreza com que punha uma enxada na terra. Era desbocada, honesta e amiga dos pobres.

Deverei ufanar-me?

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A divergência

Dylan Gillis
Fotografia de Dylan Gillis

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«Pimenta no cu dos outros é doce» respondeu com a costumada contundência Venceslau Rodrigues.

E tendo-o dito, encarou o chefe, um indivíduo que fora homem e sorria agora petizmente, falsamente, mansamente, um tipo que se pretendera grande e luzia agora numa vermelhez apequenadora e terrível, um nédio que enganara três partes do mundo e que agora segurava nas partes extremadas da calva – hemisfericamente ridículos e ralos – tufos de uma pilosidade suja, situada sobre um crânio balofo de onde lhe saíam, por hábito, frases ocas, melódicas, melosas, idiotas.

Venceslau detestava-o. Detestava-o como se detesta um traste. Como se detesta um vendido. Um pulha. Aquele chefe era uma puta política.

«Não conte comigo. Não entrarei nesse seu jogo, Mascarenhas. Não mesmo!»

O corado recompunha o sorriso, recebia a negação com regozijo íntimo, numa mistura antecipada de ressentimento vingável e de vingança exemplar.

Escutava o vogal como o escutavam os outros todos na mesa em forma de ovo, na mesa que era a sua cabeça cintilante e ovular e quase lisa.

«Meu caro, Venceslau: o Partido (pronunciava partido com uma entoação magnífica, com uma oclusão artificialíssima da letra pê, de modo a torná-la mais explosiva), como bem sabe, nunca prescindiu do direito de cada um opinar ou de manifestar as suas convicções, ou de proferir as suas opiniões, ou de discorrer sobre as suas opções. Sempre foi apanágio deste Partido ouvir, debater, conciliar. Aprovo muito esse seu impulsivo verbal.»

O nédio olhava em volta para reclamar a unanimidade.

«O Venceslau faz-se vincar pelo apelo do coração, o que muito louvo. Este Partido, mau grado as apreciações da comunicação social e de alguma oposição, é um Partido permeável à multiplicidade de tendências e juízos…»

Na mesa comprida, oval, cintilante, sem pó, repleta de excelentes canetas de aparo e de impecável papel, os outros rostos viam, ouviam e calavam com sossego e naturalidade. A questão extremava-se. Era uma divergência entre o vogal Venceslau Rodrigues e o presidente-chefe Pompílio Mascarenhas. Uma quezília quase pessoal.

Nestas ocasiões, deve imperar o máximo silêncio, o máximo mutismo, a máxima inexpressão. Quando muito, um rosto destes (que veem e ouvem e calam) aspirar o oxigénio com um pouco mais de veemência, pode arquear as sobrancelhas, principiar o que em princípio há de parecer uma tossidela. Mas sem certezas. E, por isso, o melhor nestas lutas é não tossicar, franzir o sobrolho, respirar.

«Conheço bem a pluralidade e a democracia deste partido.» redarguiu o outro. «O que o senhor pretende é criar uma caça às bruxas cá dentro. Quer expulsar os incómodos, ponto. Admita-o, Mascarenhas! Propõe uma revisãozinha estatutária, aperta a malha, às tantas acusa, depois persegue, por fim expulsa.»

Venceslau Rodrigues falava para o invisível. Na mesa comprida e oval e cintilante, sem pó, as suas palavras caíam num dos pratos da balança. No outro sopesava o sorriso maligno de Mascarenhas. O silêncio era o fiel, a travessão, o cutelo, o próprio ato de avaliar. A questão extremava-se. Era uma divergência.

Nestas coisas, a inexpressão é imperiosa. Leitor, nem um cocegar nas mãos, nem uma tremura nos olhos, nem um pio!

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O silêncio

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Fotografia de L. Powell

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Enquanto não poisava completamente a noite, ele ia passando em revista as notas de agenda. Era cada vez mais complicado tê-las organizadas na memória. O jantar, no fogão, dava mostras de estar quase pronto. No chuveiro terminara o som da água a correr. Daí a nada ela viria juntar-se-lhe.

O tempo do desejo acabara irremediavelmente. Agora, só uma força irresistível, cheia de hipocrisia os colava um ao outro.

Comeram em silêncio. Um silêncio mastigado, interrompido, tilintante. Ela levantou-se e retirou do frigorífico um refrigerante. Quis saber se ele beberia sumo ou vinho ou água.

Às vezes há no modo de perguntar um ódio a que se pode responder apenas com um ódio ainda maior. Quis responder, preferiu não beber coisa nenhuma.

Terminada a refeição, ele levantou-se e trouxe um cestinho com fruta. Descascou uma laranja para si, mas quis dar-lha. Ela recusou. Precisava de telefonar, coisa rápida. Os cafés tirava-os a seguir. Algo lhe vinha ao fundo da alma como uma expectativa, uma adivinhação, um ressentimento.

Limpou tudo, arrumou a mesa, guardou o pão sobrante, devolveu os frascos do ketchup e da mostarda ao frigorífico, varreu a cozinha, passou a esfregona sobre as tijoleiras brancas. Verificou o balde do lixo, achou ser altura de lhe trocar o saco. Desceu à rua, depositou o saco num lugar próprio e subiu. Nessa altura, ela falava ainda, mais baixo, quase abafando a voz.

Ele quis fumar. Já a noite derrubara tudo. Já a cidade afundava no seu torpor de animal morrente. Às vezes o ódio é mais do que um estado. É um convencimento. Digamos, uma salvação.

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Creta

Albrecht Fietz
Fotografia de Albrecht Fietz

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A casa estava imunda.

Por cima da velha mobília, dos lavatórios, da cerâmica, dos fogões, dentro dos quartos e da cozinha, nas casas de banho, pelo meio dos corredores, atravancando, entulhando, asfixiando fardos e fardos de palha, e pó, um pó imenso e fundo, e excrementos de pombos, e urina de ratos. Imunda.

Foi assim que a encontraram Theo e Larissa Minakis, o jovem casal de músicos. Haviam aterrado hora e meia antes em Heraclião, vindos de Frankfurt, depois de quase oito horas de voo desde que deixaram o Aeroporto Internacional John Kennedy. A casa estava imunda e eles exaustos, perplexos, enojados.

– Há anos que aqui ninguém vem. – explicou, dando safanões numa das janelas para as traseiras, o Tio Panos. – A casa, meu filho… Tu sabes, desde que o teu pai partiu, nunca mais cá ninguém veio…

A reputação de Theo como um dos maiores oboístas da sua geração corria mundo. Larissa, a mulher russa com quem casou, granjeara-a tocando harpa, embora encantasse também no violino e até no violoncelo. Ambos pertenciam à Orquestra Filarmónica de Berlim, pertenciam a Camille Saint-Saëns, a Fauré, a Debussy e a Ravel, pertenciam um ao outro, ao mundo inteiro, aos palcos onde a música pudesse sublimemente ser interpretada.

Agora, contornando as velhas paredes da casa, era como se tivessem descido ao mundo impiedoso dos homens. Havia bichos fossilizados no soalho, que os sapatos pisavam como grandes migalhas de pão seco. Havia mascarras nos tetos e nos vidros, pesando como grandes úlceras nos lugares onde existiu outrora brilho e aconchego. Havia teias infinitas e sujas, descendo de todos os ângulos retos de todos as esquinas, ensarilhando-se-lhes no rosto e nas mãos de quem passava. Larissa segurava com esforço um lenço sobre o nariz, disposta a ceder a qualquer instante aos impulsos eméticos provocados por aquele labirinto de lixo.

– Os meus irmãos? – arriscou, desconcertado, o mais novo dos Minakis.

– Nem um vaso de manjerona sobre a campa dos teus pais…

O Tio Panos teve de assoar o nariz e de limpar as lágrimas. Uma vez na rua, via-se uma coluna de pó amarelo a sair do antro aberto.

Theo estendeu os olhos até ao porto de Atherinolakos. Era um pouco maior do que antes, mas igualmente deprimente, com pequenos barcos coloridos ziguezagueando na barra, com as grandes chaminés listradas de vermelho e branco das fábricas em pose militar, com os homenzinhos de barrete e o azul tristonho da praia a rolar diante do betão e do cimento escaldante.

– Ficais em minha casa, filho. É um gosto…

Theo traduziu o convite, a esposa sorriu.

– Tio, não queremos dar-lhe trabalho. De qualquer forma, temos reserva no hotel. Amanhã começaremos a limpar tudo isto.

Era melhor assim. Cortesias para o demo, ninguém ali parecia à vontade.

O Tio Panos não tardou a queixar-se da anca: seria impossível ajudá-los! E o trabalho que os dois tinham pela frente!

– Oh, oh, uma esfrega, filhos…

De resto, o Tio Panos não tinha a certeza se algum dos seus dois rapazes podia ajudar naquele biscate. A fábrica de conservas de Demóstenes, primogénito, Theo desconhecia-o certamente, abrira falência e agora «O bom do teu primo dobra a espinha nos pomares de nectarinas de Messara e de Asterúsia», terraplanando e metendo estrume, arrancando ervas de sol a sol, quando não colhendo e encaixotando, patrulhando (patrulhando sobretudo) carradas de turcos preguiçosos. O mais novo, Giannis sofria de um tipo raro de doença de pele. Pior do que isso, tinha asma e aquela maleita que nos põem tontos, por causa do ouvidos.

– Ah, Theo, aqui o clima gasta-nos a puta da vida. O melhor é não contares com ninguém para isto, filho. Aqui todos morremos antes do tempo, à conta deste sol, deste sal, desta pobreza infinita. Tu ao menos…

Theo fez um sinal afirmativo com a cabeça. Ele e Larissa não vinham com pressa. Pretendia dedicar-se à memória do pai e da mãe, a única coisa que não podia ser disputada nem desbaratada, a única herança que valia todos os sacrifícios.

O Tio Panos escutou-o de olhos arregalados, sem ripostar.

«Sacrifícios? Que percebia ele de sacrifícios?»

Em bom rigor, a cabeça também é uma casa. Possui áreas solares (salas abertas, varandas largas, jardins comunicantes, arrumos fáceis de localizar no tempo, sempre próximos da boca). Possui, por outro lado, as suas gelosias, os seus desvãos, corredores sombrios, portas e escadas interiores, possui caves, compartimentos imersos em nostalgia, lugares de noturnas e infantis e impartilháveis rememorações.

Theo teve de empilhar vários sacos de bagatelas no pátio. A ferrugem consumira grande parte da antiga armação de ferro que emoldurava ainda a ramada e o lugar do poço. Trabalhava sem pressa e sem descanso.

Logo na primeira manhã a mulher chamou a sua atenção para algo encontrado nos fundos do lagar de azeite, soterrado em camadas asfixiantes de serrim. Era uma gaida. A velha gaida familiar!

Theo passou devagar os dedos pelo corpo articulado do instrumento, sentindo com uma excitação assustada a pele de ovelha e a madeira.

– Meu Deus, este objeto vem de longe. Vem de há tanto tempo, Larissa!

Receava alguma escoriação, algum golpe, algum rombo fatal. Mas não. Miraculosamente a gaida permaneceu íntegra e intacta, submersa e protegida pelo entulho. Theo limpou o bocal e levou-o aos lábios. Depois pôs-se a soprar. O som que principiou (vindo das profundezas da casa ou das profundezas da sua memória) era poderoso. Theo sentiu-se recuar centúrias, ou mesmo milénios. Sentiu-se embalado em viagens de barco e atravessar caminhos empoeirados até aldeias de pastores, nos confins de uma montanha. Na lonjura espremida dos dias, aquele som era toda a sua origem, toda a memória da sua gente, da sua coragem, da sua errância, do seu fado. Aquela gaida, mais do que um objeto envelhecido, queimava como um vínculo, ardia como um vulcão acordado.

O fascínio de Larissa era o deslumbramento do marido, mas dificilmente podiam ser o mesmo sentimento.

– O meu pai recebeu-a em herança do avô. Nunca imaginei que tivesse ficado para trás.

Theo explicou a origem balcânica do instrumento, que parecia conter em si o ânimo de um guerreiro invencível e o lamento de um homem eternamente em crise. A toada, que a custo começou, tornou-se um fluxo, um jorro de angústia e de amor, uma manifestação de fé na vida e de veneração pela morte.

Larissa sentia-se subjugada. Que som maravilhoso no meio de tanto esterco!

– O teu primo estica até aos cinquenta mil. Nem a casa vale mais do que isso.

– Não a vendo nem por cinco, nem por cinquenta, nem por quinhentos mil…

– Mas, filho, para que hás de querer tu manter de pé este tugúrio?

Não, definitivamente, o Tio Panos não podia compreender aquela estúpida decisão. Theo cortou, como costumava fazer o seu pai, a conversa.

– A decisão está tomada.

Larissa, que pouco entendia de grego, mas que compreendeu todo o diálogo, poisou a mão esquerda sobre a mão direita do marido e encarou com uma carga mal medida de desprezo as fuças do velho tio resmungão. Este sentiu-a, sem dúvida, porque (fincando-se na bengala) imediatamente se ergueu e se encaminhou para a saída.

– Bem. A nossa proposta é esta. Tu, claro está, faz como entenderes… Amanhã mesmo devolvo-te o molho das chaves.

– Não precisa. Todas as portas e janelas serão mudadas. As obras começam em breve.

– E os teus irmãos? Hão de querer por ela alguma coisa, não?

– Com os meus irmãos entendo-me eu. Não se preocupe, tio!

Pelo rosto de Panos Minakis pisou lenta uma sombra imensa, como a que as nuvens fazem na água quando as vemos da janela de um avião.

Então, sem mais palavras, deixou-os.

Theo sentia-se esplendidamente bem-disposto.

Acocorou-se e apertou a polpa dos dedos nas folhas de citronela do vaso que tinha diante de si. Agora que a casa se via desentupida de tudo quanto nela haviam depositado usurpadoramente, usando-a e confundindo-a com uma pocilga, via outra vez o desenho limpo de cada ação familiar. Podia até imaginar o sorriso galhofeiro da mãe, descendo ao pátio com as suas maravilhosas travessas fumegantes, com as suas saladas e as suas espetadas de cabrito. Podia ver a grande mesa que a ramada defendia do sol cheia de gente. Podia ver o irmão Filipos, à esquerda, com o cachimbo de meerschaum, dando grandes fumaças, enquanto folheava os poemas da Ritsos. Podia ver no lado oposto o irmão Andreas, a cardar a superfície pilosa da gaida, acariciando-a como à nuca de uma mulher. Podia ver à cabeceira o pai, Nikos Minakis, erguendo à luz clara de junho um jarro do seu melhor Kotsifali, «O vinho dos imperadores, meus filhos», dizia antes de o verter num dos copos de cristal que se tiravam do aparador em cada boa ocasião.

Eram uma família orgulhosa. E tinham razões para isso.

O reflexo da luz sobre a água transparente do tanque foi a última imagem que Larissa fixou. Sentia-se bem ali. Mas agora tinham de voltar.

Em rigor nunca se deixa Creta. Os homens vão e voltam. Sós ou acompanhados, regressam sempre. Os gregos fazem culminar na chegada todo o caminho para a perfeição. Só atingindo de novo a soleira da porta paterna se compreende o movimento de sair. «Se Ulisses tivesse prescindido da última viagem, não valeria um dracma» dizia a mãe às vezes.

Theo e Larissa consultaram o painel eletrónico. Saíam por tempo indeterminado, convencidos, porém, de que algo novo tinha principiado. Para os gregos, todo o tempo é uma oportunidade de começo.

Ao rodar a gazua na porta principal, o mais novo dos Minakis sentiu o que sentem os filhos empossados de uma missão: nostalgia, arrependimento, esperança e uma dose necessária de soberba. Era de si que precisava a casa. De si e de obras, de gente nova que a continuasse, da gente velha que a não deixasse morrer.

No interior de um saco magnífico de couro italiano, Larissa transportava a primeira memória que aquele lugar fabricou: também na Rússia havia pastores e montanhas e camponeses tresmalhados pelo horizonte. Também na Rússia se chorava de saudade, quando se encontrava, fortuita, uma brecha no destino.

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Logótipo Oficial 2024

Belle Époque

Jean Béraud, Sortie des ouvrières de la Maison Paquin, 1902
Jean Béraud, Saída das Operárias da Casa Paquin, 1902

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‒ Nestas circunstâncias, o melhor é contar sempre com um segurozinho de acidentes pessoais. – explica o cavalheiro anafado, que enverga um casaco de peles zibelinas.

‒ Melhor, sem dúvida… – assentem os outros senhores, ensalsichados noutros casacos de pele e de charuto ao canto da boca.

Um paquete do Grand Hotel ajuda a levantar a rapariguita. Bem se vê quem ela é: uma pobre, uma aprendiza de costureira. Escorregou nas pedras polidas do pavimento. Está agora a recalçar o botim esgarçado. O moço apanha o embrulho, que ela num instante recolhe e faz sobraçar. Quer seguir, ir, fugir. Sente embaraço. Muita vergonha.

‒ Uma apolicezinha hoje em dia é tudo. – conclui o cavalheiro obeso, que vigorosamente atravessa o peristilo do hotel, seguido pelos outros conspícuos senhores do grupo síndico. – É preciso cautela. Paris no inverno é particularmente traiçoeira. Quem está habituado à patinagem sabe do que se trata: um movimento em falso e zás, está-se estatelado no chão. Muita cautela, Messieurs

A rapariga tem pressa. Quer sair dali, escapar aos olhos de peixe dos transeuntes. O moço de farda pergunta-lhe se se sente bem. Sente-se bem, já disse que sim. Bom trabalho teve ela para engomar os vestidos de Madame Dousseau. Tudo embalde, como se vê… Um joelho esfolado, um braço dormente, pouco mais. Que bracinhos tão finos. Lembram os gravetos do Bois de Boulogne que os garotos usam para os bonecos de neve. Ela aconchega o casaco. É engraçado. Tão curto nas mangas que faz sorrir. Que tonta.

Alguns caem, outros levantam-se, todos seguem a estrada do seu destino. O da moça já lá vai à frente, na esquina do Magasin Fragonard. O paquete gostou do seu rosto, das suas lágrimas escondidas. Gostava de lhe ter falado, de lhe ter valido, de a ter acalentado. É uma manhã de dezembro, como tantas outras. A Belle Époque é sobretudo isto: bela!

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