EUTRAPELIA – novidade

Título: EUTRAPELIA

Autor: João Ricardo Lopes

N.° de páginas: 68

ISBN: 978-989-53038-5-4

Preço de capa: 10€

Garanta o seu exemplar em pré-venda até ao próximo dia 1 de julho , com desconto de 20% (8€) e portes grátis para Portugal, enviando mensagem para editoralabirinto@gmail.com

Sobre o livro:

Recuperando o nome de uma das antigas virtudes cristãs, com o qual titula 50 poemas escritos em 2020, João Ricardo Lopes assinala com Eutrapelia a sua preferência pelas coisas simples, pela terra e pelo silêncio, viajando (e convidando o leitor a consigo viajar) pela Europa física e pela Europa da literatura, da música, da pintura, do cinema, naquela que é, também, uma viagem pela sua própria existência. Poesia de minudências, de flagrantes, de momentos avulsos, singulariza-a a obsessão pelo instante eternamente fugaz e belo da criação, «este ponto exato / em que o ínfimo e o infinito segregam o instante / e em vidro solidificam»

Eutrapelia assinala o vigésimo ano de vida literária do autor.

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O TÚMULO

Foto: Gianluca Morello

Da janela e portas da sua oficina, Andreas Agrafiotis, artesão, professor, escultor, septuagenário, avista uma das faces das montanhas Zas. O sol refulge nos cumes e pedreiras arduamente estriadas e escarvadas de mármore, marga, calcário, produzindo um efeito de sede a que ele se habituou há muito. Em Naxos, os minerais coexistem com algumas espécies de árvores características da Cíclades. Não é impossível que na linha descendente dos vales se sucedam pinheiros, oliveiras e até abetos azuis. Mas a mancha de floresta é escassa, não serve senão para acentuar a sensação de que a ilha é uma gigantesca bossa lítica branquejando o ano inteiro.

Durante praticamente toda a sua existência, Agrafiotis perscrutou a melhor pedra das melhores marmoreiras. Viu separar da rocha-mãe blocos imponentes que camiões e carretas puxadas por animais transportaram até ao seu local de trabalho. Depois a sua cabeça, as suas mãos, os seus olhos ávidos e exigentes viram surgir da matéria informe estátuas de numes (Zeus, Poseidon, Afrodite, Atena), de semideuses (Hércules, Jasão, Prometeu), de heroínas trágicas (Medeia, Electra, Jocasta), de homens e mulheres comuns, de colunas, de bustos, de ornamentos eclesiásticos, de criaturas fabulosas, nascidas da tradição quimérica, que o estado grego muitas vezes subsidiou, comprou e fez migrar para os templos arruinados e espoliados pelo tempo e pelos povos estrangeiros.

Agora, perto dos oitenta anos, Andreas tem uma obsessão: criar o seu próprio túmulo de mármore. Imagina-o como uma cápsula para a eternidade, uma grande bolota de lajes finamente ligadas entre si, desenhadas com o escopro, contendo um punhado de versos da Ilíada (os versos 146 a 149 do Canto VI, os mais belos de todo o poema, os mais belos de toda a história de literatura), assinalando na terra a sua passagem pelo mundo dos vivos. 

Mas fascina-o igualmente a ideia de um dia ser encerrado no âmago selvagem de uma destas colinas rochosas, à maneira dos imperadores chineses que desistiram de construir desastrosas pirâmides de argamassa para se emparedarem no solo humilde das montanhas sagradas. Fascina-o desde sempre o mito daquela que o rei Creonte fez encerrar viva numa garganta pedregosa. Naxos, como o lugar sombrio de castigo de Antígona – sepulcro e, simultaneamente, ventre materno – é um cemitério natural e um berço cósmico. Aqui morreram e nasceram forças que vão para além do entendimento humano.

Todas as tardes, um pouco antes do pôr do sol, o velho escultor percorre os caminhos ínvios de Apollonas, de Koronos, de Skado, de Apiranthos, de Stavros. Pretende que a última réstia de sol lhe marque como um traço de grés, o local onde deve principiar a sua derradeira obra. Há de construí-la em segredo e em segredo há sepultar-se nela, como se sepulta o grito do mar no pequeno promontório da praia de Azalas, em Montsouna.

Nenhum sonho da sua vida foi tão belo, tão ousado ou tão legítimo: abrir a cavidade onde há de o seu corpo acamar, esculpir o silêncio, polir o invólucro final onde não possa existir qualquer diferença entre os seus ossos e a pedra. Imagina que precisará de pelo menos vinte anos para o concluir. Mas nada é impossível na vida de um homem. Nada é impossível na ilha de Naxos. 

Andreas Agrafiotis gostaria (para nos servirmos da expressão homérica, tanto do seu agrado) que a escuridão lhe cobrisse os olhos no preciso instante em que terminasse a sua tarefa, em que, morrendo, nascesse.

PIEVE DI SANTA MARIA ASSUNTA

Foto: retirada daqui

A igreja é pequena, antiga, no cimo de uma colina. Todo o seu encanto advém justamente destas três características: da sua dimensão modesta, do românico tardio, do modo como domina o vilarejo, mesmo agora, em tempos de prédios, grandes fábricas e armazéns industriais.

Pietro Foragini é um dos cuidadores deste lugarzinho santo. Com paciência, com gosto, com a ajuda de uma colher de trolha ou às vezes de uma faca de cozinha, dedica-se a extirpar as ervas e as hastes das gramíneas do meio das pedras. Elas nascem nas paredes, na boca das gárgulas, no meio do adro, no cimo da cruz, entre as linhas ogivais dos pórticos. São obstinadas, persistentes, ubíquas. O grande orgulho do senhor Foragini é o de garantir que este templo se mantém asseado, sem sinais excessivos do atrevimento herbáceo, da ferrugem, da imundície das pombas. Justamente, o guano é um dos grandes inimigos do granito, tal como urina dos bêbedos ou as sementes que o vento mistral costuma disseminar nos intervalos mais insuspeitos.

O interior da igreja é responsabilidade das mulheres. São elas quem encera o soalho, quem limpa o pó da talha, quem limpa as teias de aranha à bela rosácea na fachada principal, quem espalha óleo de cedro sobre as madeiras, quem tapa e destapa o rosto dos santos, quem cuida dos altares, quem acende e apaga os círios, quem cuida dos linhos e paramentos sacerdotais. 

Ele, Pietro Foragini, lubrifica o mecanismo dos sinos, cuida-lhes do bronze e do badalo tonitruante. Duas a três vezes por ano sobe aos telhados, verifica a integridade das telhas e das caleiras, dá pequenas pancadas nalgum cubo de pedra suspeita, estuda-lhe a resposta, avisa o padre Giovanni de anomalias sobre a cupulazinha e sobre a abside. É uma autoridade ali. Ele decide quando é preciso intervir.

Nem sempre o entendimento é fácil. Delimitar a jurisdição de cada um é árduo na Pieve di Santa Maria Assunta. Entre a boa intenção e a boa ação corre um rio de diferenças.

Esta semana, por exemplo, Ornella Sforza travou-se de razões com Pietro Foragini. Discutiram por causa das glicínias. “Sem autorização”, Foragini segou e fez desaparecer perto do cruzeiro toda a latada destas flores lilases. Foi um debate acalorado. As senhoras tinham ficado coléricas.

– Não se faz! – repetia a senhora Sforza, descontrolada, cheia de ódio. 

– Ora essa. Era só o que me faltava, ter de pedir licença para limpar o esterco da nossa igreja.

Também há a questão dos vidros. Estão sempre sujos do outro lado. Elas acrescentam os maus fígados de Foragini, que não se importa de martelar, perfurar, lavar a pedra com o compressor, arrastar ferramentas ruidosas pelo campanário e à porta da igreja quando as senhoras estão a ensaiar os salmos. Ele não esquece a voz esganiçada de Ornella, o tom autoritário com que se lhe dirige e lhe dita ordens. Era só o que lhe faltava, aturar a antiga professora, baixar a orelha, obedecer-lhe.

Não sem motivo, exige-se amiúde a voz meiga e apaziguadora do padre Giovanni, sempre pronto a velar pela reconciliação, pelo bom entendimento do seu rebanho. 

Quem visita esta igreja no Piemonte e se fecha na penumbra do seu granito, ou se ilumina na beleza dos seus afrescos magníficos, sente a paz, a boa paz herdada dos tempos da cavalaria, dos romeiros, dos homens e mulheres que buscavam a salvação da alma acima de todos os tesouros do mundo. É um bem precioso, raro, quase impossível de explicar. 

Não há dúvida que a igreja está impecavelmente conservada. Quem aqui vem não imagina a que preço.

O ESTRANGEIRO

Foto: Raymond Hoffmann

Empoleirado no alto rochoso das serras nevadas, no cimo dos juníperos e dos pinheiros bravios, o vento torna os dias nesta fase do ano mais insuportáveis. Aqui chamam araucárias aos pinheiros e “El triste” ao vento. É uma metonímia. Não é o vento que é triste, mas a solidão daqueles que se aventuram há séculos a dividir esta paisagem com as lamas e os condores e os coiotes. Mais a sul, na Patagónia, erguem-se os contrafortes das Torres del Paine, uma das rotas de peregrinação do turismo internacional. Para norte e oeste estende-se o enxuto Atacama, santuário do silêncio e das estrelas, dos remoinhos de pó, das paisagens lunares, dos astrofísicos, dos arqueólogos.

Aqui não há forasteiros. Há gente pobre, pastores e tecelões, oleiros e obstinados cultivadores de batata e de uma espécie de milho raquítico, mas saboroso, a quem dão o nome de “pan del diablo”. É realmente uma proeza que a agricultura sobreviva em latitude e altitude tão duras. 

Não há forasteiros exceto um. Já a coletiva memória se esqueceu de que veio de fora, há tanto tempo que isso foi, aquele que habita uma das casas mais altas da aldeia. Falamos de Frei Juan Miguel Ibañez, o padre, o doutor, o filósofo, o eremita que gasta os seus dias há mais de cinquenta anos em oração, contemplação, leitura e escrita. 

Entrando no seu casebre entra-se numa biblioteca. O ar entrincheirado por baixo da porta volta-lhe as folhas, faz tremelicar a luz da vela, sacode-lhe as farripas brancas do cabelo. Está habituado a esta brincadeira. Há muito que deixou de pertencer às preocupações do mundo e se concentra na sabedoria dos homens. Grossos fólios, tomos, atlas, dicionários, missais, textos de teologia, exemplares da Bíblia e de exegese bíblica, manuais de anatomia, biografias, volumes de poemas e de teatro, discursos e tratados filosóficos empilham-se nas suas paredes. É tudo o que possui. Foi condiscípulo de Hubert Reeves, aluno outrora de mestres do pensamento moderno, sacerdote admirador da vida dos santos anacoretas. Hoje sente-se um estrangeiro no mundo e por isso lê-o, estuda-o, interpreta-o.

– Ler é o meu modo de agradecer à Providência. Só Deus poderá dizer-me quando parar.

Os aldeãos respeitam-no, procuram-no às vezes, estranham o seu parco comer, sentem-se fascinados pelas palavras tocadas de música que ele usa, mais belas do que o som da flauta ou da ocarina. Mas nunca o entenderam verdadeiramente. 

– O que faz um homem da cidade, um homem do outro lado do mundo, aqui? Foge de quem? Que crime terá cometido? Como poderemos nós saber se é verdade tudo quanto ele afirma?

O padre Juan Miguel Ibañez amassa o seu próprio papel, pacientemente, com materiais e métodos arcaicos. Deixa secar longas tiras que depois corta com precisão, servindo-se do gume de uma obsidiana. Cose os seus próprios cartapácios, recobre os seus livros com peles de animais. Quando não está nestes ofícios, nem a rezar, nem a ler, nem a estudar os nativos, gosta de subir aos píncaros azulados das montanhas desta parte do Chile e de anotar nos seus cadernos o sopro intraduzível da existência.

– Existir é o mais extraordinário milagre sobre o universo. Tudo o que existe é o prodigioso dedo de Deus sobre o vazio, irmão do mesmo ar que os lábios do Senhor sopraram sobre as narinas de Adão. E por isso todas as estrelas e todos os planetas, todas as plantas e todos os animais, todo o pó e todos os pensamentos são a mesma fórmula e o mesmo intento e a mesma miraculosa revelação…

Meio século de escrita é mais do que tiveram alguns dos grandes autores da história da humanidade para compor e criar. Juan Miguel Ibañez escreve sobre o sentido da vida e sobre a perfeição de todos os corpos, escreve sobre a espantosa alegria das palavras combinadas umas com as outras e sobre o espírito original que existe em cada poema, escreve sobre a sublime e sobre a miserável evolução da nossa espécie, dada a capítulos de luminosa sensibilidade e a capítulos de abjeta selvajaria, escreve sobre a matemática omnipresente nas formas físicas e sobre o profundo mistério que se esconde do outro lado da cortina da ignorância humana. 

– Porque quererá o Senhor esconder-nos a verdade toda? Quem seríamos nós se a conhecêssemos? Destruí-Lo-íamos? Destruir-nos-íamos? Será o nosso próprio fim o propósito da Criação?

A tinta dos cadernos mais antigos é já ténue, como uma tatuagem semiapagada. Talvez ninguém venha a aceder a este manancial de literatura e de filosofia e de antropologia. Ultimamente, um pesadelo ocupa-lhe a cabeça com persistência durante a noite. Vê-se no meio de um incêndio, de um fogo voraz que tudo consome, madeiras, papel, a sua própria carne. Sofre com este sinal, julga que Deus lhe envia uma mensagem.

– Se o Senhor assim quiser, assim será. Do pó ao pó. Sempre soubemos que tudo é pó, vaidade, vento que passa…

O TEATRO

Foto de Constantin Shestopalov

Na aldeia de San Romano criara-se um grupo de aficionados de teatro, que uma ou duas vezes por ano levava a palco uma nova peça, sempre muito aplaudida, fosse qual fosse a qualidade do texto, o rigor da encenação, a exuberância do guarda-roupa ou a beleza do cenário. Investira-se ultimamente numa estrutura amovível de madeira, com uma porta ao centro e duas saídas nas laterais, de forma a permitir a movimentação dos atores e impregnar a atmosfera de um certo sabor clássico, imitativo das tragédias e comédias antigas.

Em novembro, o novo encenador, um bem-intencionado professor de literatura, Carlo Ettori, sugeriu a representação de Bodas de Sangue. A peça deveria estrear em março do ano seguinte, funcionando como uma continuação de A Casa de Bernarda Alba e uma ponte desta para Yerma, que talvez representassem no ano a seguir. Era ambicioso, era curto e ignorante o elenco, escasso o tempo. Mas a magia do teatro, segundo Ettori, consistia em tornar possível o impossível, dar à luz o fruto da obscuridade, arrebatar do público a boa catarse que tudo compensa e nos enche de fascínio.

Ettori não perdeu tempo. Traduziu, à falta de uma boa edição italiana, a obra de Federico García Lorca, enchendo-a de glosas e de apontamentos, na mesma altura em que sondava vizinhos para enriquecerem o grupo. Precisava nada mais nada menos do que vinte e uma personagens, juntando a este número o contrarregra, técnicos de som e de luz, cenógrafos, costureiras, maquilhadoras, além de um ou outra alma caridosa, que pudesse assisti-los nos ensaios, abrindo armários, auxiliando na roupa, distribuindo e recolhendo guiões, trazendo água, varrendo o sobrado, desligando por fim as luzes, encerrando as portas. Seria imprescindível, mais tarde, acrescentar um ou dois miúdos versados em filmografia, entendidos em design, especialistas em tecnologia e comunicação social, tudo para produzir fotografias e vídeos, cartazes e notícias, publicidade e público.

O mais difícil de tudo, porém, era preparar cada um sete “quadros” em que se organiza o texto, alimentar do primeiro para o segundo atos e deste para o último a sensação de poético desconcerto e beleza simbólica com que Lorca nos recebe em cada uma das suas peças. Havia as negras paisagens da floresta noturna, onde os lenhadores esgrimiam supersticiosas frases em forma de lâmina e havia as doces imagens da boda, entre as quais se passeava o marialva Leonardo, arrogante, desafiador, desprezando a honesta mulher pela cobiça da outra, da noiva, da noiva a quem as raparigas solteiras tinham ornado a casta cabeça com flores de laranjeira e cujos olhos viam somente o noivo e depois o viram criminosamente a ele. Havia a lua cantando a sua litania sangrenta. Havia a estranha mendiga que ia aos poucos desvelando (como quem revolve nevoeiro) o bafo de morte. Misturavam-se nessa espantosa produção sonho e mistério, realidade e maravilhamento.

Ettori emocionava-se com os progressos, com as vozes que debaixo dos holofotes faziam vibrar as palavras, com os gestos cada vez mais harmoniosos e obedientes, com o rebuliço nos bastidores, com o entusiasmo com que lhe faziam chegar adereços, tecidos, mobília, objetos de antiquário capazes de fazer recriar o espírito andaluz. Tinha o grupo consigo e dentro de si. Mesmo as crianças sabiam já de cor as suas deixas. Mesma a personagem Morte, tão dura de ouvidos, débil no timbre vocálico e presa de movimentos, conseguia já dar o ar da sua graça, abarcando e engolindo com o seu xaile negro e os seus braços abertos a imensidão da sala, cada um dos pequenos estalidos, a própria respiração do encenador, cujo pescoço no final dos ensaios parecia estar empalado, de tão rígido e dorido que ficava.

Uma das grandes alegrias do teatro é justamente poder descomprimir depois do grande momento. Em palco cada ator é a personificação da vida. Cada fala que diz, cada gesto que faz e refaz, cada movimento que desenha entre poscénio e proscénio, cada olhar que deixa petrificado durante a sua atuação, o tom da sua voz, a dignidade do seu sofrimento, a liberdade do seu riso, o jogo de luzes e de sombras, o acerto do silêncio e das falas, a honestidade da representação, tudo isso era para Ettori a essência desta arte que se confundia no antanho com a própria religião.

Costumava proferir no fim dos ensaios uma breve palestra. E foi numa delas que pediu a Cinzia Pelegrino, a quem cabia o papel de esposa traída de Leonardo, mulher simples e de discreto fogo artístico, que preferisse uns sapatos rasos ou mesmo umas meias grossas. A razão não podia parecer-lhe mais evidente e inofensiva: evitar o sistemático e enervante estampido que os tacões da atriz produziam sobre o tablado. Carlo Ettori escandalizava-se que uma figura tão parcamente espetacular na peça pretendesse nos exercícios realizados duas noites por semana dar tanto nas vistas. Era cada vez mais indisfarçável, quase escandaloso, que Cinzia viesse vestida como uma rameira, abusando dos vestidos de couro, justos e decotados, calçando botas altas, de tacão, procurando destabilizar a harmonia reinante.

Ettori ouvia comentários, percebia os gracejos, media o ódio crescente de mulheres veteranas como Valeria Carbone ou Claudia Rizzo, entendia que no bastidor se compunha uma teia invisível. Cinzia provocava os homens, tinha sem dúvida algum na mira, desejava com toda a certeza desforrar-se do pouco protagonismo que Lorca e, ele próprio lhe destinavam. A Carlo Ettori só lhe faltava essa, que uma puta lhe estragasse os planos. Não foi simpático o diálogo que se seguiu. Cinzia não se conteve. De dedo em riste, fez saber que tinha “tudo no sítio”, tinha “uma boa cabecinha para pensar, olhos para ver e boca para falar”. Ser “divorciada” não tirava no seu entender nenhum um pedaço à condição de mulher digna, emancipada, moderna, bem pelo contrário. Disse-o diante de todos, atirou-o com uma malignidade feroz, cravando no encenador olhos felinos e ardentes.

Ettori, perplexo, atrapalhado, com um lápis e um exemplar de Bodas de Sangue nas mãos, demorou a responder. Tinha ali a sua personagem mais veemente, o Leonardo que lhe faltava. Se nos ensaios este lhe parecia frouxo (não havia meio de Mattia Fiore deixar de lhe parecer pusilânime e artificial no seu papel de protagonista), ela, a mulher traída, cuspia lume e revolucionava.

– Não faltava mais nada. Nem o meu ex-marido me ditava o que vestir. Eu visto-me como quero. Ninguém tem nada a ver com o que visto ou deixo de vestir!

– Senhora Pelegrino, não confundamos as coisas. Não me interessa a sua condição civil, as suas preferências indumentárias, a relação que possui com o passado. O meu papel aqui é de olhar pelo grupo, nada mais. Nada de pessoal, nada de particular. Nas minhas peças, os atores fazem o que eu peço. A partir daqui, fora daqui, a senhora vista-se e calce-se como quiser. É problema seu…

Havia uma grande ansiedade no rosto de todos. O anfiteatro pesava tremendamente sobre os ombros de todos. Acrisolava-se a disputa. Ettori desferiu a ameaça.

 – Pois muito bem. A senhora aqui veste-se como eu lhe digo. De outra forma, pode sair e não volte.

– Mais depressa sai o senhor. O grupo sabe organizar-se, não precisa de si para nada!

O encenador fez uma ronda com o olhar. Os atores e o pessoal baixavam instintivamente os olhos à passagem do seu rosto. Percebeu que a cobardia tomara posse daquele amontoado de amadores, habituados a literatura basculha e a teatro de revista da qualidade mais medíocre que se fabricava na província. Poisou o lápis e o guião e saiu em silêncio.

Ninguém o seguiu. Ninguém lhe rogou que regressasse.

Daí a semanas a peça estreou. No folheto não constava qualquer referência, alusão ou implicação do grupo de teatro de San Romano com o professor de literatura e tradutor. A própria fotografia do cartaz era uma mise-en-scène sua, apenas adulterada pela pose atrevida, ridícula, da mulher de Leonardo, que também aí surgia como um macho diminuído e não como o protagonista da tragédia.

Carlo Ettori sentiu-se enojado. Sempre amara a arte de Dioniso, mas aquele golpe teatral, aristofanesco, ardiloso, absurdo, fazia-lhe pensar numa peripécia de ópera bufa. Era uma punhalada nas costas. Lorca haveria de abominar aquilo. Mas quem se importava?

PERDÃO DIVINO

Foto: Thierry Boitelle

No ano de 1317 morreram nos curtos dias do mês do fevereiro o abade de Saint-Michel e três dos seus frades. Sujeita ao luto, ao rigor das chuvas intermináveis do inverno, à fome prolongada, ao medo de alguma incontrolável fulminação divina, o mosteiro manteve-se numa penumbra obstinada até fins de março. Fecharam o scriptorium e a sala do capítulo e os monges permaneciam quase todo o tempo em oração, encerrados nas suas celas, meditando na calamidade imensa que se abatera sobre o mundo sem poupar os próprios servos do Senhor.

Mas uma manhã o sino, empurrado por uma brisa amena que juntava a respiração do mar e os perfumes das flores, das ervas e da terra seca, começou a tocar sozinho. Os frades saíram para o claustro e para os jardins, atravessaram os pátios iluminados pelo clarão das magnólias, voltaram a olhar para a luz benévola onde o canto dos pássaros parecia sussurrar a própria voz do Criador. Tinha passado a Quaresma, era o domingo da Ressurreição. Nunca até aí os meandrosos caminhos da Providência lhes haviam parecido tão bem explicados.

Abriram os pesados portões e as leves janelas de vitrais em forma de treliça. Deixaram que o ar morno se passeasse pelos corredores, lavasse as escadarias empoeiradas, erguesse um pouco as folhas de pergaminho coloridas, subisse aos altares e ao zimbório.

Nada existia na vida terrena como o sinal do perdão de Deus. E por isso todos choravam. 

A VELHA CASA

Foto: Sven Fennema

Aquele lugar tinha sido magiar, romano, bizantino, otomano, húngaro, soviético. Agora era de que tivesse muitos euros e bom gosto. Sobre os velhos hotéis foram levantados novos e luxuosos empreendimentos turísticos, rivalizando em número de quartos, prestação de serviços e anúncios em línguas estrangeiras. À entrada da cidade, uma placa dizia «Üdvöljük Tihanyban», querendo dizer «Bem-vindo a Tihany». Na verdade, deveria antes explicar «Desfrute o Lago Balaton». Pela sua arquitetura e decoração vintage, destacava-se na vertente sul o Hotel Olympus. Aí, em qualquer varanda e com alguma sorte pode estar-se no paraíso.

A vista é, indubitavelmente, soberba. Sobranceiros ao curso de água avistam-se belos palacetes ao gosto da Renascença, perfilando-se compridos ciprestes e pátios com colunas de mármore, aonde sobe volta e meia a elite para uma boda, um pôr do sol ou para uma sessão fotográfica nos meses de verão. No inverno as montanhas ao redor do Balaton cobrem-se de nevoeiro e depois de neve e todo aquele lugar é uma pintura romântica, para onde convergem artistas, filósofos, magnatas, predadores de toda a espécie e de todas as vocações. São especialmente assíduos os cineastas e fotógrafos americanos, sequiosos de génio, antiguidade e mulheres europeias.

Em dezembro de 98, o californiano Mike Juno alojou-se no Olympus no momento em que fazia uma tour com uma assistente argumentista para preparar a rodagem do filme de ação com que tencionava alcançar recordes de bilheteira no final do ano seguinte. Aí conheceu, também por circunstâncias profissionais, a fotógrafa franco-canadiana Danielle Ducrot. Conviveram duas manhãs, duas tardes e uma noite. Os hóspedes vizinhos do quarto 507 denunciaram sucessivamente nessas noite e madrugada o ruído escandaloso que dali chegava. O jovem na receção tentou sem sucesso fazer alguma coisa, convencido de que o problema se resolveria sozinho. E resolveu. Porém demoradamente.

Após isso, a fotógrafa regressou a Budapeste, de onde seguiria para Nice e de lá para Vancouver. O americano ficava mais uns dias. Deixou-se cair, entretanto, numa melancolia extática, a que jamais havia cedido em toda a sua existência de quase meio século.

Prova do que dizemos foi a caminhada que decidiu fazer até a um miradouro lá no alto da peninsulazinha. Fê-la sozinho, levando consigo uma mochila e a sua Leica vetusta de celuloide. Era uma manhã solar, silenciosa, sem excitações de espécie alguma. Danielle partira e da anterior lascívia restava apenas uma memória contaminada. Em Los Angeles esperavam por si uma mulher jovem e um filho pequeno. Havia semanas que a sua viagem de volta ia sendo protelada. Ocorreu-lhe a semelhança com Ulisses. Por um breve momento, coincidiram dentro de si o orgulho, a vergonha, o medo e o desejo de catarse. Era simultaneamente um homem velho e um homem novo, um bandido e um contrito. Aquilo nunca lhe havia acontecido. Sentia uma propensão quase irresistível para as lágrimas. Apeteceu-lhe abandonar o mau filme em que se via aprisionado e começar ab radice uma película nova, complexa, abstrata, a que chamaria “A velha casa”.

Mas foi somente um instante, uma iluminação, uma turvação, provavelmente por culpa daquele sol, daquele espelho de água, daquela maldição que ata os europeus a labirintos sinistros.

A TANGERINEIRA

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Fotografia de Lydia Jacobs

O leproso tinha um cão. Procurava todos os dias o amparo de uma grande pedra para se pôr ao sol. O vento sacudia as crinas, mas sem lhe magoar excessivamente a pele ulcerada. Primeiro morreu o cão. O leproso enterrou-o num sítio onde viria a nascer e a crescer uma grande árvore.

Em dezembro o vento é glaciar, a bela tangerineira mexe os seus canos carregados de fruto. Ali, no que era um lugar ermo, construíram uma gafaria. Os curiosos vistoriam a pedra onde há um buraco semelhante à casca de uma pevide, mas sem a semente, sem a luz do sol aninhada no seu interior.

A única parecença com o lume é a das tangerinas maduras. Quem as vê enche-se de piedade. Sob o impulso do vento gélido, elas baloiçam como carvões acesos. São pequenas chamas aquecendo o olhar.

O NEVOEIRO

Foto: Mikael Stålsäter

Tinha chovido toda a semana. Quando os ossos de Lev Volodya começaram a palpitar de incómodo pôde assegurar com toda a convicção:

– Vamos ter muda de tempo.

Com efeito na véspera, ao princípio da tarde, a chuva parara e o vento tornou-se apenas um burburinho encanando aqui e além na rua. Ao crepúsculo notava-se já a humidade a subir do rio e do alcatrão, em grandes mechas vaporosas que roçavam as pontes, as estátuas, os postes elétricos, as torres altas das igrejas, os edifícios governamentais, as grandes antenas da televisão, toldando o céu num efeito de gaze ou algodão a esconder uma ferida.

Na manhã seguinte, toda a cidade tinha sido engolida pelo nevoeiro mais cerrado de que havia memória. Tão espesso e ubíquo que não se via vinte palmos à frente dos olhos. Saía-se de casa e ficava-se imobilizado. Os pés não se encontravam. 

Yelizaveta Dmitrievna, agasalhada no seu casaco polar, calçando luvas de pelica e botas altas, teve a sensação de estar dentro de uma pista de dança. O velho guarda-freios Maksim Krutaya, por causa da sua pequena estatura, quase anã, era só uma cabeça, andando para a frente e para trás como um carreto avariado. Esta imagem faria rir sem dúvida se o assunto fosse para brincadeira. A uns bons sessenta ou setenta centímetros do chão não se descortinava absolutamente nada.

Durante o dia a treva húmida e esbranquiçada acomodou-se ainda mais entre as formas, penetrou portas e paredes, colocou-se mesmo diante dos óculos do professor Vasily Grisha e da sua esposa, Mariya Irinushka, que não parava de os desembaciar, enquanto lia calmamente o jornal diante do samovar.

– Sabe, estou a tentar recordar-me da última vez…

Vasily Grisha calou-se assim mesmo, a meio da frase.

– Ora esta… Esqueci-me do que estava a dizer…

Mariya Irinushka não prestou atenção. Mas pouco depois, quando o telefone tocou e teve de indicar o próprio nome não foi capaz de o fazer. 

O fundo do corredor era uma vaga memória, como quando se olha de longe um caminho, no meio de uma charneca, entre cercas infindáveis de madeira. As fotografias dos filhos, das noras, dos netos, pareciam desbotar num grito silencioso de afogado. Que estranho!

Nessa noite, uma grande paz caiu sobre São Petersburgo. Embaçados e esquecidos das sólidas certezas, os olhos de todos preferiam voltar-se para dentro, descer escadarias mais arriscadas, procurar lugares de sol que apenas cada um por si podia lobrigar. 

O ASSASSINO

Tom Baetsen
Foto: Tom Baetsen

 

Esperava amar e ser amado. Porém, ela deixou-o e no lugar do amor ficou o ressentimento.

Deu-se conta, no início, de que o irritavam os risinhos dos jovens casais na rua, o estalar dos beijos entre sucções bruscas (por causa da pastilha elástica), o efeito moroso de certas interjeições demasiado teatrais.   

Depois tornaram-se-lhe abomináveis os operários da construção civil, rebarbando eternamente pontas metálicas. E os táxis buzinando a toda a hora e em toda a parte. E as sereias das ambulâncias. E os apitos dos elevadores e dos micro-ondas. Com o tempo, o seu ódio estendeu-se aos latidos dos cães à noite, ao miar imaginado do persa que ela levou depois do divórcio, à algazarra das crianças no recreio ou no parque defronte o seu apartamentozinho. Não tolerava os estalidos de madeira, o zumbir do frigorífico, o súbito aumento de decibéis no intervalo dos programas televisivos, o timbre metálico de certas vozes que o chamavam, interpelavam, interrogavam.

A misofonia e crescente misantropia eram nomes, uma explicação. Nada mais.

Nos sonhos, a cena do crime e o cadáver profanado, desfeito, transportado com empenho e ardil até ao alto do paredão e trinta e três vezes lançado à albufeira em trinta e três meticulosos e sinistros sacos herméticos, todo esse empenho vinha à boca e ele falava. Os pesadelos dobravam-no, enlouqueciam-no. Eram como terramotos que retorcem e amesquinham o aço.

Esse o seu castigo.

Ninguém suporta que lhe digam, especialmente nos sonhos, que até a vida indigna de um assassino o é por alguma razão. Que até para ela há um sentido, uma cura, um perdão.