BUCÓLICO

avó e neto, grandpa, grandfather and grandson, love
Foto: Steffi Atze

 

Ao cimo da colina fica o centro do mundo. Dali avista-se tudo: a aldeia poisada nas encostas, a igreja medieval, o rio mais abaixo com a sua pontezinha romana, os carros de feno e os rebanhos deslocando-se devagar, iguais aos carros de feno e aos rebanhos de há mil anos.

Aí, protegido pelas ramagens de um velho freixo repleto de vergônteas e raízes, escutamos o seguinte diálogo:

– A minha vida foi covarde, fraca, miseravelmente vivida…

– Porque diz essas coisas tão feias?

– Porque fui sempre um covarde, um fraco, um miserável…

– Não diga essas coisas tão feias…

– Mas tu podes ter outro destino, meu filho!

– Como assim, avozinho?

– Podes pôr em mim os teus olhos, ver o que não queres para ti, olhar-te agora num tempo futuro…

– Mas, avozinho, como pode acreditar nessas coisas tão feias? Foi sempre tão amigo de toda a gente.

– Matei todos os meus sonhos, desprezei todas as mulheres com medo que me desprezassem, ignorei os avisos, descri nos conselhos, supus-me velho em todas as idades da minha vida… Não fui sequer, por fim, capaz de pôr termo ao terrível remorso que por dentro me devora como uma Erínia!

– O que quer dizer com isso?

– Tu sabes… Acabar com tudo…

– Avozinho!

– Mas tu és diferente, filho! Digo-te que tens outro destino à tua espera. Digo-te que vás! Vai enquanto a sombra dos teus pés não é suficientemente pesada para te emperrar ou demasiado forte para te fazer voltar o pescoço… Vai e nunca olhes para trás!

As nuvens adejam lá em cima. A colina é suave como o contorno de um fruto. Todos os que gostam de uma boa história sabem como as palavras são vaidosas e o quanto apreciam um bom cenário em fundo.

«Nunca olhes para trás!». Realmente, quando se caminha nunca se deve voltar os olhos para trás. É uma verdade universal.

 

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PERFEIÇÃO

Poet, reader, Alfredo Yañez
Foto: Alfredo Yañez

No quinto andar do prédio na extremidade da avenida dos grandes plátanos vive o poeta. É um prédio antigo, sem elevador. Sempre que ao chegar a casa mete a chave na fechadura, o poeta lamenta a sua sorte, sobretudo, se tem de carregar sacos de compras ou uma bilha de gás. É uma lástima não se ter nascido rico.

Quando na rua os ruídos começam a diminuir, o poeta põe-se a fantasiar. Para que os seus sonhos pareçam um pouco mais sérios e um pouco menos irrealizáveis, gosta de ouvir música. «Boa música» é para ele uma sonata de Buxtehude, um concerto de Mozart ou um noturno de Chopin. Às vezes, aventura-se pelo jazz, mas sente-se sempre um pouco engolido pela prolixidade e pelo frenesim incompreensível dos instrumentos. Muitas vezes, sobretudo, de madrugada, põe-se a caminhar descalço e de olhos fechados pela casa. É quando lhe ocorrem as melhores palavras.

Na noite em que escrevemos estas linhas, o poeta deixou-nos aberto em cima da mesa da cozinha um caderno. Sobre a folha da esquerda permanece uma garrafa esvaziada em modo de pisa-papéis, na da direita está o pedaço de texto que reproduzimos a seguir:

 

há versos a estalar de luz, como sinapses,
na minha cabeça

 

o que é a perfeição? um voo?

 

Celan, Pavese, Crevel, Bjørneboe, Sylvia Plath, 
tantos outros,
eles escreveram instantes perduráveis
que o lápis sublinhou e a boca vai repetindo

 

Depois é uma nuvem de rasuras, cruzes e pontos de exclamação. O texto admite dúvidas de toda a espécie, pois o poeta justapõe palavras e não parece satisfeito com nenhuma delas: por exemplo, «estorninho», «felosa» e «cerrezina» pulam alternadamente na sua «relva», que é também «telhado», «janela» e «varanda». A palavra «universo» foi escrita no lugar de «cosmos» e «cosmos» reposta no lugar da palavra «universo». Há manchas de cinza do cigarro no papel e círculos pegajosos deixados pelo uísque. Dois traços oblíquos cruzam-se de alto e a baixo. Nenhum título foi anotado. Não podemos afirmar que o poema não esteja concluído.

O poeta foi visto à varanda antes do nascer do sol pelo carro da polícia que fazia a ronda. Quando os vizinhos começaram a sair para o trabalho, viram-no, também, caído (miraculosamente sem danos maiores) no passeio ao lado do coletor do lixo. 

Foi, então, levado para um hospital do centro da cidade. Por causa da ingestão de álcool não sabe ainda que está vivo, nem o que seja a perfeição.

TELA EM BRANCO

Foto: Peter Davidson
Foto: Peter Davidson

 

Mesmo à sua frente o pintor tem o cavalete e apoiada nele uma tela de razoáveis proporções imaculadamente branca. O pintor está sentado. Os olhos estão fixos no vazio e as mãos quietas.

Ao lado, sobre a única mesa do ateliê, repousa um sem-número de espátulas, godés, frascos de resina e diluentes, aerossóis, pincéis, pedaços de madeira, palhetas, um boneco de madeira, jornais chapiscados.

O pintor colocou lado a lado, em montículos de pó colorido, todos os pigmentos de que se serviu ao longo da vida: chumbo branco, barite, gesso, cré, óxido de ferro, carvão vegetal, lápis-lazúli, composto de cobalto, azurite, malaquite, viridian, verde de crómio, verdete, açafrão, limonite, pó de ouro, ouro-pimenta, amarelo de nápoles, antimoniato de chumbo, ocre, carmim, vermelho-cinábrio, hematite, vermelho de cádmio, castanho-siena, úmbria, betume. É uma imagem alegre, como a que sentimos num bazar de Marrocos.

O pintor sente a cabeça fervilhar. Aos oitenta anos os olhos fraquejam, mas a visão é nítida, saturada de contrastes, relevo e pormenores. Fascinado, contempla a tela em branco. É um instante genesíaco. Tudo é ainda possível. Assim que lhe atravessar a primeira pincelada rebaixá-la-á à condição humana.

As imagens ocorrem-lhe vertiginosas, como aceleradas no disco de um caleidoscópio. Cada uma delas é simultânea e parte de todas as outras.

O pintor está agora deitado num parque. Vê ao modo do suprematismo um líquen trepar pelo ramo de um ulmeiro e vê o baloiçar suave dos ramos e das pequenas folhas trémulas e iluminadas.

E vê num pontilhado cor de toranja o sol descer sobre as torres arabescas e vastas planícies de heliantos da Andaluzia.

E vê um a um, cubisticamente, os maravilhosos desenhos da Catedral de Charles, alumiando em certa manhã as entranhas da sua fé perdida.

E vê ao modo de Monet as varandas e cúpulas caiadas de Creta. E vê as colunas vermelhas do palácio de Cnossos.

E, surrealista, uma lua quase azul por entre os pilares hieroglíficos de Luxor.

E vê como van Gogh os socalcos de arroz no Cambodja, os soldados de terracota do imperador Qin Shi Huang Di, e os jardins de Quioto, repletos de silêncio e de sombra.

E vê como Jackson Pollock o formigueiro frenético nas ruas de Tóquio.

Vê-se a si mesmo, jovem outra vez, amando a sua mulher num atol da Micronésia. Sério, meticuloso, absorvido pelo cromatismo de cada recordação, reconstitui como Gauguin as águas do Pacífico e a íris verde-azulada onde pela primeira vez descobriu o seu próprio rosto apaixonado.

E, numa quinta do sertão brasileiro, sobre uma toalha de linho, vê em chiaroscuro o brilho de uma jarra de cobre entre orquídeas e frutos tropicais. Não a mostrariam de outro modo os mestres italianos da renascença.

E vê no alto de uma montanha no deserto do Atacama a linguagem colossal do universo, com as suas cifras inumeráveis de constelações e poeira sideral. Se fosse Kandinsky esse seria o seu quadro.

E vê, num banco de jardim do Central Park, uma mulher índia com o traje ancestral dos Sioux contemplando as nuvens alaranjadas que cobrem Manhattan e lhe parecem as nuvens ao crepúsculo da sua cidadezinha nas margens do Missouri. Vieira da Silva amaria esse retrato.

O pintor vê com apreciável precisão a turba fuliginosa que sai das entranhas de uma mina de carvão no Botswana. Vê os vincos e sulcos profundos no rosto dos jovens negros e o complexo aracnídeo das máquinas (tapetes rolantes, engrenagens e braços basculantes) que tornam mais árida a paisagem. E vê as grandes fossas abertas na rocha escalavrada e o nome da companhia multinacional no topo de um dos abismos. Um dos operários leva ambas as mãos à boca para impedir-se de tossir. O pintor vê como a terra esquálida lhe absorve a expetoração sanguinolenta e como ninguém ao redor parece importar-se. Assim é o preço da vida humana. Edvard Munch, Frida Kahlo e Jean-Michel Basquiat mostrá-lo-iam de modos tão distintos quanto inesquecíveis.

E vê um oásis no Magreb, com as suas palmeiras e sicómoros e uma cáfila sequiosa deslizando nas dunas avermelhadas. E vê o Estreito de Messina, as Colunas de Hércules e a costa irregular da Cantábria com a sua linha de imponentes faróis. O pintor vê agora o verde puro da Irlanda, os castelos arruinados da Escócia, os grandes albatrozes sulcando as vagas e temporais do Atlântico. E vê no amplo horizonte do oceano o movimento sincronizado e argênteo de todo um cardume de sardinhas, e a respiração veemente de uma baleia azul na Gronelândia, e as pequenas traineiras dos portugueses. Caspar David Friedrich e William Turner veriam nestas paisagens o supremo heroísmo da solidão.

O pintor vê agora a sua infância. Como pintado ele próprio por Joaquín Sorolla, está a brincar no areal de uma praia quase deserta. Há limos e sargaço, búzios e salsugem. Nas mãos alvas e enregeladas segura o corpo ainda vivo de um peixe palhaço dada à costa. Um prodígio de cor e de correntes marítimas. Nesse dia, soube que seria esse o seu destino: colorir o vazio.

Aos oitenta anos viveu talvez tudo. Na tela vazia vê, não sabe se ao gosto clássico, alegórico, romântico, pré-rafaelita, impressionista, expressionista, surrealista, dadaísta, concetualista, neoconcetualista, neo-expressionista, as formas iluminadas e umbrosas da sua própria alma e da alma de todos.

A melhor das galerias está disposta a pagar-lhe uma fortuna por um quadro original, pelo trabalho de uma vida, pela sua magnum opus.

Como ser original?

O cavalete permanece imóvel, a tela intocada. Sem se mexer, de olhos fechados, o pintor atinge todas as cores, formas e texturas inominadas. Sabe que o primeiro gesto comprometerá para sempre a sua visão. Em branco, a tela é todo o seu génio magnífico, intraduzível e divino. Assim a entregará.

Hão de pagar-lhe milhões por ela.

ASSOBIO

Osamu Asami
Foto: Osamu Asami


Na esquadra local da polícia de Poznań, o agente Mirosław Ciepluch manuseia distraidamente uma lupa. As horas do turno da noite, exceto quando faz a ronda, podem ser bastante enfadonhas. Estudar a sua coleção de selos ajuda-o a manter-se acordado.

Nesta altura do ano, a neblina cresce durante a madrugada e vê-se bem a sua passagem debaixo do halo alaranjado dos postes elétricos. Começa nas águas do Warta e aos poucos propaga-se por toda a cidade, encobrindo os telhados e as torres das igrejas. Um apaixonado por literatura policial veria neste fenómeno o cenário ideal para o crime mais hediondo. Um sobressalto, com efeito, esconde-se nesse manto. Campeia nas ruas, e com a maior das impunidades diga-se, o perfume das tílias. 

Ciepluch sabe o que é esse cheiro. Ao longo do ano dá-se conta da chegada e da partida misteriosa de ocorrências similares. Os narizes no ar, cheios de lascívia, respondem aos eflúvios das frésias, papoilas, magnólias, glicínias, das flores de laranjeira, dos jaracandás, dos agapantos, até das ervas e da relva aparada. 

O nosso agente policial conhece o poder destabilizador destas entidades. Lastima, nestas matérias nada despiciendas, a passividade das autoridades superiores. Os viciados em aromas, em especial botânicos, casais de namorados e poetas, exibem terríveis sinais de agitação nos bancos dos jardins públicos (como se nas suas vidas nada importasse mais do que o hausto, o êxtase e o amor).

‒ Boa noite, menina Agnieszka!

‒ Boa noite, Ciepluch. – cumprimenta, com a maior secura, a jovem bibliotecária.

Quando rodava a chave na porta, antes de entrar em casa e de ser cumprimentada, a bela loira sorria. Além, prestes a ser engolido pela bruma mas ainda ao alcance de uma vista treinada, um rapaz estuga o passo. Ciepluch, que detesta insubordinação e ruídos noturnos, ouviu-o assobiar.