Jerome Zakka Bajjani
Fotografia de Jerome Zakka Bajjani

 

Enquanto num canal de música estrangeiro se reproduzia uma nova versão de Teardrop, Elena organizava e colava fotografias das mulheres da família. Levou anos a conseguir alguns dos espantosos retratos que agora lhe pesavam como ouro nas mãos. Nas primeiras páginas juntou os seus, em sequência anacrónica, começando na última (que um fotojornalista americano lhe tirou (meses antes da gravidez no Metropolitan) e andando sempre para trás, de viagem em viagem, de tour em tour, até aos primeiros anos na Academia de Ballet, chegando à escola secundária e à infância e aos dias de recém-nascida.

Depois vinham três fotografias da mãe Maria Lyubomirova, de um colorido desmaiado (no dia da formatura, no casamento e consigo ao colo). Seguiam-se, andando sempre para trás no tempo, retratos em tons de sépia da avó Marina, e a preto e branco da bisavó Yeva e da trisavó Ania (este último num daguerreótipo, muito ulcerado, quase sumido). Finalmente, em estampas que lembravam pagelas, encaixou as ilustrações da tetravó Oxana e da pentavó Maria Andreïevna.

Algo de visceral se transmitiu naquelas sete mulheres: o desprezo pelos homens. Todas elas foram ou ficaram divorciadas nalgum momento das suas vidas, preferindo a companhia das suas semelhantes em detrimento daqueles que ajudaram a parir as filhas. Todas elas perceberam que o mundo seria melhor se os homens caíssem do seu pedestal de ferro e as mulheres o adquirissem, por direito, devoção e catarse. Entre caloteiros, batoteiros, putanheiros, traiçoeiros, pederastas e vis, resumia-se a longa história dos machos da sua árvore genealógica.

Elena observava com carinho as faces maceradas de todas essas mulheres que a antecederam. Reparou na curiosa expressão igual que todas desenhavam no arquear das sobrancelhas, uma espécie de ar inquisitivo como quem pergunta “Quanto tempo?”

A bailarina não sabia a qual das matrioscas atribuir cada um daqueles rostos e do seu próprio rosto, se à maior de todas, se à semente mais funda. A maternidade impressionava-a de um modo veemente. Era um orgulho enorme pertencer àquelas mulheres, nascidas umas das outras, ser uma mais, uma também, na cadeia infinita que as unia como uma dinastia de dor: acariciou por isso o ventre dilatado.

Chamaria à sua filha Svetlana, que na língua russa significa “luz”, “bela”, “abençoada”. Svetlana haveria de principiar (possuía já essa certeza) um outro ciclo de sete mulheres, fortes, artistas, honestas. Dentro de si, no oco do seu corpo, novas matrioscas seriam geradas, bolotas, bolotazinhas… Um dia, uma pentaneta teria a responsabilidade de continuar a linhagem…

Elena folheava o álbum, acariciava a barriga. Na televisão a música acabava. Que orgulho!