Andreas Agazzi
Foto: Andreas Agazzi

Entre o alfarrabista e o escritor cresceu com o tempo a amizade: um vende os livros que procura e coleciona, o outro coleciona os livros que compra e lê, um pela necessidade de viver, o outro pela necessidade de existir, ambos por amor aos escritos raros de outrora, de cuja sabedoria se alimentam uma boa pena e uma loja de alfarrábios.

Por exemplo, este Elucidário do frade Joaquim de Santa Rosa de Viterbo, espécie de antigo dicionário de que o escritor gostaria de servir-se para ficcionar um tempo anterior ao seu, começando e concluindo-o com as palavras que deveriam sair das mãos, da boca e do pensamento das suas personagens.

O alfarrabista soube da existência dos dois volumes, editio princeps, em excelente estado de conservação em Bojnice, uma cidadezinha a quatro horas de Bratislava (espantoso o caminho que as palavras tomam) e num lanço medido, com a cautela que a experiência e a devoção ensinam, arrematou-os. Pede agora uma fortuna por eles e a obra merece-a, tanta a qualidade que nela pôs o franciscano, tão longe a foi resgatar, tamanha a sorte de a ter encontrado, tanto o empenho e meticulosidade tidos no leilão, tão surpreendente o preservado aspeto das fragílimas páginas que, de luvas calçadas, folheia.

O escritor conhece bem estes degraus, este cheiro (de papel húmido, tabaco e óleos de lubrificar as muitas maquinetas que também aqui se exibem e às vezes transacionam), esta sensação de alegria pueril misturada com tristeza nostálgica, como antecipando nos seus livros futuros o destino dos velhos, este infindável cemitério de tomos, tombados uns (como manda a etimologia), outros de pé, às cavalitas uns dos outros, postergados, dispostos por toda a parte em pilhas bárbaras, amarelando, expostos à indignidade de uma morte certa e lenta. Enfim, salvar deste inferno todos os livros que o habitam é impossível, um ou outro isso sim, é como tirar a sombra de Virgílio do marasmo secular e fazê-la (dando-lhe uma segunda vida) subir a uma floresta para chamar um poeta tresmalhado e conduzi-lo à presença da mulher que amou, não é muito mas sempre é alguma coisa, e estes dois volumes são um luxo, o escritor delicia-se com eles, já esqueceu a mágoa de há pouco, já lá vai a pungência dos títulos assim malbaratados, já a sua atenção é toda (já que de títulos falamos) para esse que na oficina de Simão Thaddeo Ferreira se fez duplamente imprimir no ano de 1798 e que por inteiro se lê assim ELUCIDARIO DAS PALAVRAS, TERMOS, E FRASES, QUE EM PORTUGAL, ANTIGUAMENTE SE USÁRÃO, E QUE HOJE REGULARMENTE SE IGNORÃO: OBRA INDISPENSAVEL PARA ENTENDER SEM ERRO OS DOCUMENTOS MAIS RAROS, E PRECIOSOS, QUE ENTRE NÓS SE CONSERVÃO: PUBLICADO EM BENEFICIO DA LITTERATURA PORTUGUEZA, E DEDICADO AO PRINCIPE N. SENHOR.

De tanto o desejar possuir um, de muito o pretender vender o outro, escritor e alfarrabista apertam as mãos e dão um abraço. É incrível a semelhança desta cena com a que faria uma criança ao receber na manhã de Natal um divertimento para dele gouvir e com ele anpróóm folgar (já do precioso cartapácio nos servimos) e daí essa mesura do vendedor, esse gracir do comprador, este bitafe de amizade sã que assim sela um negócio mais, um negócio como os outros, talvez um tudo ou nada mais ingenioso, o alfarrabista diz o preço, o outro assina o cheque (raro é também este proceder, que o uso é um cultivador de letras ser pobre e muito regatear) e logo logo vêm os dois tomos numa sacola, muito protegidos (como um par de recém-nascidos), escadas abaixo, inequívoco o facto de que doravante farão a delícia de quem bem ou mal escreverá com eles sobre o que sabe e sobre o que não sabe, até pode ser que saia daqui uma obra-prima e que a não condenem futuramente a coisa pior do que esta arrecadação de papel, inequívoco também a circunstância de terem os dois volumes redigidos pelo menor observante da real província da Conceição (franciscano, já se dissera) custado o equivalente a muitos salários mínimos neste país de exploradores e explorados, e pronto, ficaram feliz o escritor, satisfeito o alfarrabista, contentíssimo o autor destas palavras, todos cansados, é hora de ir dormir, não sem antes um ir verificar se o cheque está bem assinado (como não, que escrúpulo tão desapropriado!), outro reabrir esta e a outra partes do Elucidário (que excitação essa a de remexer em tantas palavras deixadas de usar-se na nossa língua, que pena!), outro ainda verificar se nada falta e tudo condiz com a ideia original (mas qual ideia, se sozinho se escreveu o conto?), e todos a gozar um bocadinho mais essa sensação de conquista, que amanhã é outro dia e tudo terá passado já, já as emoções da véspera serão cinzas, já parecerá certíssimo o ditame de que nada de novo há debaixo do sol e que tudo é vaidade e vento que passa.