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João Ricardo Lopes publicou em 2001 a obra A pedra que chora como palavras, galardoada com o Prémio Revelação de Poesia Ary dos Santos (sendo o júri composto por José Correia Tavares, Manuel Frias Martins e Baptista-Bastos). No mesmo ano venceu o Prémio Nacional da Vila de Fânzeres com o livro Além do dia hoje (presidindo ao júri o escritor Fernando Campos).
Numa análise a esta poesia inicial, a Professora Maria de Fátima Saldanha sublinhou:
O leitor desta poesia vê-se frequentado pela surpresa dos limites interpretativos, aliciado a pulverizar a barreira do não-entendimento, a vencer por si a resistência das leituras refractadas, devendo incorporar novos significados do mundo e novas relações intrínsecas ao homem e entre os homens. Nenhuma evocação é tão expressiva neste território como a própria “palavra” escavada no silêncio e lançada como cura contra a hemorragia ancestral, permita-se-me a imagem, que é a fuga do tempo através do ser existente. Este, aliás, um dos tópicos mais reiterados, “leitmotiv” fundamental de poemas onde a perenidade e a efemeridade se entrechocam num combate devastador para o ser que dele depende (…).
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Em 2002, foi editado o seu terceiro livro, Contra o esquecimento das mãos. Sobre ele dissertou o poeta moçambicano Sebastião Monteiro:
De uma inovação singular, João Ricardo Lopes apresenta-se como um poeta do futuro, com uma linguagem profundamente penetrante e um estilo que, sem recorrer ao da poesia arcaica (a chamada clássica), se apresenta moderno e erudito com belas imagens poéticas o que nos permite antever um poeta de labor estético prometedor. Com Contra o esquecimento das mãos estamos plenamente com João Ricardo Lopes, um homem/poeta que desta vez (mais uma vez) põe a sua sensibilidade criadora ao alcance do leitor e mobiliza a sua visão ao testemunho da difícil arte de existir.
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Foi incluído na seleção de novíssimos poetas portugueses, na coletânea Anos 90 e agora, das Quasi Edições, publicada em 2005, segundo a organização de Jorge Reis-Sá. Também em 2005 teve a sua primeira tradução, para servo-croata, por Tanja Tarbuk, integrando um conjunto de dezassete poetas portugueses dados a conhecer no separador Nova portugalska poezija : [Aantologija] da revista “Europski Glasnik” da Društvo Hrvatskih Književnika.
No mesmo ano, publicou Dias desiguais, o seu quarto poemário. Catarina Nunes anotou acerca dele:
Em Dias desiguais somos interpelados pela brevidade e sinceridade dos versos, na emotiva e sempre renovada forma de abordar ou olhar o dia-a-dia, ou, diria mesmo, o poema-a-poema, num alude expressivo que nos impele e comove à leitura. Deste modo, é através desse olhar que imprime a não existência de repouso absoluto, que significa que o poeta não atribui aos dias uma posição plena e perfeita, demonstrando uma ânsia pelo entendimento da ordem subjacente no mundo. Porque sendo o poeta quem pergunta, sabe que não é dele o mundo, mas cabe a ele localizar-se a si e aos outros pelo seu pensamento.
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Em 2007 reuniu e publicou o seu primeiro volume de crónicas, intitulado Dos maus e bons pecados, sobre o qual dissertou o escritor Cláudio Lima:
Iniciei a leitura destas crónicas munido de circunspecta dúvida metódica e que cheguei à última com a satisfação plena e limpa de quem usufruiu horas e páginas de inegável e inequívoca qualidade, quer no aspecto meramente formal — uma escrita tersa e escorreita — quer, sobretudo, na multiplicidade, oportunidade e argúcia dos temas e problemas abordados. Mesmo tomando em conta a natural suspeição que nestes casos o elogio suscita, não me coíbo de vaticinar ao jovem autor um promissor percurso, queira ele manter acesa a chama que o anima e evitar entusiasmos fáceis de ruidosas consagrações. Mais do que uma promessa, esta obra confere ao cronista o estatuto de confirmado, não tendo eu engulhos em considerar estes textos na linha do que de melhor no género vão escrevendo Lobo Antunes, Mário Cláudio, Baptista Bastos ou Fernando Venâncio e escreveram os infelizmente já desaparecidos Alexandre O’ Neill, Cardoso Pires ou Eduardo Prado Coelho.
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No ano de 2008, o poeta e tradutor Jesús Losada verteu para língua castelhana um poema do autor, integrado no volume 9 de 9. Poesía actual portuguesa, editado pelo Centro de Estudios Literarios y de Arte de Castilla y León (Celya).
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Assinalando a primeira década da sua carreira literária, publicou Reflexões à boca de cena / Onstage reflections, obra bilingue, traduzida por Bernarda Esteves. Victor Oliveira Mateus sublinhou o seguinte:
(…) este relacionar que adquire mesmo foros de miscigenação, é, no meu entender, um dos pontos altos da voz poética de João Ricardo Lopes: viver é estar num palco de múltiplos cenários, viver é representar dados papéis repletos de conflitos (não só inter-papéis, mas também intrapapel!), viver é esta incessante procura de um Equilíbrio Instável (…), equilíbrio entre o dentro e o fora de nós, mas viver é, acima de tudo, a lucidez e a fidelidade: a nós próprios, aos que nos amam (porque no esboroado palco do hoje já só esses contam!), ao indizível milagre de estarmos vivos neste espaço que nos foi concedido e de que urge cuidar.
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Em 2017, vários poemas seus foram integrados na Antologija Portugalske Poejije, uma coletânea de 75 poetas portugueses traduzidos por Tanja Tarbuk para croata, dada à estampa pela editora OKE na República de Montenegro pela editora OKE, com o apoio do Instituto Camões: são antologiados, além de João Ricardo Lopes, autores como Jorge de Sena, Sophia de Mello Breyner Andresen, Fiama Hasse Pais Brandão, Eugénio de Andrade, Vasco Graça Moura, Nuno Júdice, Al Berto, Ana Luísa Amaral ou Gonçalo M. Tavares.
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Em 2018, editou O moscardo e outras histórias, volume de 86 contos de pendor humorístico e satírico, nos quais o autor ilustra o absurdo da condição humana, com alusões a diversos campos do conhecimento literário, filosófico e científico. No posfácio, Paula Morais assinala:
(…) estes contos presenteiam o leitor com uma visão crítica e reflexiva da existência humana, como se fossem fotogramas, quadros, telas vivas que o instigam a uma autorreflexão contínua, a indagar e a exorcizar o seu próprio quotidiano.
(…) a solidão do leitor rapidamente é esbatida pela imersão na cultura e história da humanidade que povoam as mais diversas narrativas. Cria-se, deste modo, uma ponte entre o indivíduo e o coletivo, uma aula cultural infindável, por onde passam figuras históricas como Cristo, o imperador Nero, o oficial romano que presenciou a morte de Cristo, Lavoisier, cantoras de ópera como Maria Callas, teorizadores literários como Bakhtine, poetas e escritores (Tranströmer, Edgar Allen Poe, Kafka, Homero, Saramago), compositores como Bach, Rachmaninoff, Donizetti, cineastas como Tarkovski e muitos outros representantes da história mundial. Contudo, mais uma vez, nenhuma dessas figuras ou as suas obras surgem na narrativa para apaziguar as angústias do leitor; tal como a reflexão sobre o ato da escrita e o valor das palavras amplia o zumbido do moscardo já que, afinal, a originalidade de um lapidador de palavras não reside na capacidade para narrar o não dito, mas sim na habilidade para reelaborar o já dito, o já acontecido.
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Em 2021, assinalando o vigésimo aniversário da sua vida literária, João Ricardo Lopes publicou Eutrapelia, conjunto de 50 poemas, com que o autor apresenta notas de viagens e diálogos com a pintura, música, cinema ou a literatura. Desta obra foram divulgados em língua castelhana diversos poemas, traduzidos por Alfredo Pérez Allencart e por Santiago Landero Aguaded.
Paula Morais a respeito deste poemário afirma:
(…) o leitor é convidado a acompanhar as palavras numa viagem pluridimensional: misto de sensações – ora visuais, ora auditivas, ora táteis, ora olfativas – e de memórias intelectualizadas de situações, espaços, músicas, objetos artísticos e pessoas; num regresso ao universo da infância, ao contacto com a terra e os antepassados numa espécie de reviver pueril e incrédulo do Eu, numa tentativa de resgatar as coisas simples e aparentemente negligenciáveis do esquecimento.
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Em 2022, com a publicação de Em nome da luz, venceu novamente o Prémio Nacional de Poesia da Vila de Fânzeres, acerca da qual José António Gomes / João Pedro Mésseder escreveu:
Mas (sem contar com a própria voz poética) passam pessoas, também, nesta escrita, tais como os ciganos – que louvados são por existirem – ou amigos e companheiros doutros tempos, além de figuras humanas queridas, ou ainda de outro tipo de figuras, as quais povoam a pintura (este, aliás, é um livro dum poeta culto, tanto do ponto de vista musical e das artes visuais como do ponto de vista literário). Menciono a pintura, porque «vemos» muitos quadros neste livro, começando por um que funciona quase como paradigma ou, se se preferir, como elemento desencadeador e orientador da leitura: São José Carpinteiro, de Georges de La Tour (…). A mim agrada-me deveras esta poesia serena, rigorosa, buscadora de luz, consciente do ofício do poeta e dialogante com muitas e variadas obras artísticas e literárias, desde logo sinalizadas pelas epígrafes, mas não só (…).
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O poeta integrou, ainda, entre outras, as antologias:
Águas Furtadas n.ºs 4/5 (Jornal Universitário do Porto, Porto, 2003); Anos 90 e Agora (Quasi Edições, V. N. Famalicão, 2004); Isto é Poesia (Labirinto, Fafe, 2004); Nova Portugalska Poezija (Hrvatsko Drustvo Pisaca, Zagrev, 2005); Saudade n.º 8 (Associação Amarante Cultural, Amarante, 2006); 9 de 9 – Poesia Actual Portuguesa (CELYA, Salamanca, 2007); Saudade n.º 9 (Associação Amarante Cultural, Amarante, 2007); Um Poema para Fiama (Labirinto, Fafe, 2007); Os Dias do Amor (poesia, Ministério dos Livros, Lisboa, 2009); 100 poemas para Albano Martins (Labirinto, Fafe, 2012); Cintilações da Sombra (Labirinto, Fafe, 2013); Cintilações n.º 1 (Labirinto, Fafe, 2017); Antologija Portugalske Poezije (OKE, Montenegro, 2017); Cintilações n.º 2 (Labirinto, Fafe, 2018); 30 Anos de Poesia (Elefante Editores, Fânzeres, 2020); No Cerco da Pandemia – Antologia de Poesia (Labirinto, Fafe, 2021); Madeiro – Fólios de Poesia II (Município de Penamacor, 2021); 30 Anos Poesia – Antologia de Prémio Nacional de Poesia da Vila de Fânzeres (1990-2020) [edição em arménio traduzida por Hakob Simonyam] (Erevan, Areal, 2022); Oceano de Palavras (NALF, 2024); Numa rua completamente às escuras movem-se estes versos (Poética Edições, Lisboa, 2025).
Recentemente, poemas seus foram traduzidos para outras línguas, através da Rede de Centros Europeus de Tradução Literária: em 2025, para italiano por Fabrizio Poli; para francês por Emma Vousseur e Guillaume Meunier; para alemão por Anne-Marie Treichel; para castelhano por Alba María Iglesias; para sueco por Nora Frostenson; para polaco por Michał Cieślik e Elżbieta Dąbrowski; para dinamarquês por Peter Østergaard e Jørgen Koch; para irlandês por Friga Medeiros e Eiléan O’Donnell; para neerlandês por Petrus van der Laan; para romeno por Ileana Ardeleanu.
Em 2026, foram traduzidos para checo por Hana Srbová e Jakub Janeček, para húngaro por Lukács Ágnes e Szanyi István, para búlgaro Nikol Bagryana e Sílvia Ferreira; para grego por Dimitrios Lenakis e Christos Katsaros.

