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João Ricardo Lopes publicou em 2018 o seu primeiro livro de contos, O Moscardo e Outras Histórias, um conjunto de 86 pequenas narrativas, tendo como denominador comum imediato a sua brevidade, incisão satírica e culto do absurdo.

Paula Morais, autora do posfácio, sublinha nesta obra o facto de se tratar de «um conjunto de narrativas que permite ao leitor posicionar-se numa das muitas janelas do pátio ou ficar na esquina e brincar a uma espécie de jogo de “silêncio e sombra”, de “dito e não dito”, vivenciando quadros da vida moderna com todas as suas incongruências, deceções, ilusões, surpreender-se com as situações narradas e sentir nascer dentro de si a dúvida, a necessidade de observar de outro ângulo a realidade.»

Capa do Livro

 

UM DIA NORMAL, AO ANOITECER

Debaixo do halo intenso de um abajur (embora sem qualquer lâmpada), o vizinho do 3.º direito lê o jornal. Particularidade: a gazeta é integral e imaculadamente branca. O vizinho folheia-a devagar, dando sacudidelas para endireitar as folhas. Aqui e ali franze o sobrolho; se precisa de concentrar-se, volta um pouco atrás e reinicia o parágrafo.

A mulher, a senhora D. Isaura, gosta de preparar as refeições com tempo. Neste instante já as panelas (não muito grandes, completamente vazias) estão ao lume. São um regalo para o olfato. O jantar adivinha-se sem dificuldade: é o mesmo de há oito dias, embora com um pouco mais de tempero.

O casal tem um filho adolescente. Com os headphonespostos nas orelhas parece vibrar com a música que passa na sua estação de rádio favorita: que é absolutamente nenhuma, em virtude de o aparelho estar desligado.

Os três são uma família típica. Por causa da crise (das «adstringências financeiras», para nos servirmos das palavras finas de um economista que percebe muito de contas e nada de pessoas), estão agora a gastar um pouco menos do que antes.

O Moscardo e Outras Histórias (2018)

 

O percurso literário do autor tem início em 2001. Nesse ano, João Ricardo Lopes publicou um volume de pouco mais de trinta poemas, intitulado a pedra que chora como palavras (Labirinto), obra vencedora do IX Prémio Revelação de Poesia Ary dos Santos, atribuído por um júri composto por José Correia Tavares, Baptista-Bastos e Manuel Frias Martins, em representação da Associação Portuguesa de Escritores e da Câmara Municipal de Grândola.

2001 (a pedra que chora como palavras)

 

 

anoitece

anoitece
talvez sejas o mar e
eu vá descendo pelas pernas
azuis do teu corpo,
a bola de fogo que se introduz mais dentro
nas linhas demasiadas do caderno
ou nos recônditos músculos

do oceano

a pedra que chora como palavras (2001)

 

No mesmo ano, e no âmbito de outro concurso nacional, foi galardoado com o XII Prémio Nacional de Poesia da Vila de Fânzeres, distinguindo o volume de inéditos além do dia hoje, obra hoje esgotada.

2002 (além do dia hoje)

 


depois das tempestades

depois das tempestades
tudo é belo, sobretudo
as coisas quietas:
o caderno, o sítio da roupa
a cortina, a rua e as portas brancas

o café, os jornais e o quiosque

a fala das mulheres na praça
é diferente das outras tardes:
hoje não falam dos outros

não fedem ao lixo da boca

talvez tenha enganado a peste

mais uma vez

além do dia hoje (2002)

Em 2002, o escritor publica contra o esquecimento das mãos (Labirinto), um conjunto de 84 poemas, divididos em sete quadros: «o lugar de onde viemos», «contra o esquecimento das mãos», «das tardes», «a noite de um homem», «memórias», «pequenas ilhas interiores» e «dos silêncios».

Trata-se de uma experiência poética de maior fôlego, que lhe abriria caminho para as primeiras traduções: para servo-croata, por Tania Tarbuk (Nova portugalska poezija, Hrvatsko Drustvo Pisaca, Zagrev, 2005); e para castelhano, por Jesús Losada (9 de 9 – Poesía actual portuguesa, CELYA, Salamanca, 2007)

Em rigor, contra o esquecimento das mãos apresenta-se como um polígono, onde os diversos tópoi do universo poético de João Ricardo Lopes se percebem já completamente definidos, entre eles a preponderância da memória, o jogo poesia-morte e a metapoesia.

2002 (contra o esquecimento das mãos)

raras vezes trespassam a pupila (a noite de um homem)

raras vezes trespassam a pupila

tão duras casas de pedra

sob a concha do luar, azul e amarela

o homem sorri de dentro, de muito dentro de si

é um homem de memórias

aturdido pela sombra dos colossos

mas é difícil saber o que pensa esse homem

é difícil saber o que sonha esse homem

está quieto, inerte, poisado na lonjura

como se fizesse uma despedida

e nós que o olhamos assim

sentimos todo o frio da terra inundar-nos o corpo

contra o esquecimento das mãos (2002)

*

raras veces traspasan la pupila

raras veces traspasan la pupila

tan duras casas de piedra

bajo la concha del resplandor de la luna, azul y amarillo

el hombre sonríe desde dentro, desde muy dentro de sí

es un hombre de memorias

aturdido por la sombra de los colosos

pero es difícil saber lo que piensa ese hombre

es difícil saber lo que sueña ese hombre

está quieto, inerte, parado a gran distancia

como si fuese una despedida

y nosotros que así lo miramos

sentimos todo el frío de la tierra inundarnos el cuerpo

(Trad. Jesús Losada)

No ano de 2004, sai a terreno (aquando doa Dia Mundial da Poesia) o volume Isto é poesia, coordenado e prefaciado pelo escritor, no qual se compilam, entre outros, poemas de António Ramos Rosa, Fernando Pinto do Amaral, daniel gonçalves, José Luís Peixoto, Jorge Reis-Sá ou Nuno Júdice. Trata-se, de acordo, com o texto preambular de uma homenagem à poesia portuguesa, numa altura em que “verificamos a fraca relevância do texto poético no mercado editorial, onde os grandes romances, ensaios e reportagens (para não falar de outros) passam das estantes às mãos do público como navios descomunais num oceano onde apenas um ou outro livro de poesia incontornável granjeia medir forças.” (p.7)

Ainda em 2004, João Ricardo Lopes é integrado na terceira, última e mais alargada edição da antologia Anos 90 & Agora (Quasi Edições), aquela que o antologiador, Jorge Reis-Sá, considerou ser a portadora dos “novos líricos portugueses” (p.9).

No final do mesmo ano, João Ricardo Lopes participa no projeto Histórias para um Natal(Labirinto), estreando-se na ficção com um pequeno conto intitulado «Desconto de Natal».

2005-dias-desiguais.jpg

 

2005 assinala o regresso à poesia com dias desiguais (Labirinto), livro que estabelece uma procura de distanciamento em relação às obras anteriores, patente sobretudo na sua terceira parte da obra, onde o apego ao quotidiano e o recurso a traços retórico-discursivos próprios da oratória parecem evidenciar a preferência pela lição de Wisława Szymborska, escritora que profundamente marcará a sua arte poética nos anos subsequentes.

Klee
aconteceu por mero acaso
naquela nova cidade
naquele ano quentíssimo
no dia mais quente desse ano
eu e tu não tínhamos nome
viajávamos por mero prazer
em não sei qual museu
apontaste
«Klee»
era um beco de luz muito forte
a empurrar-nos de encontro a tudo.
quisemos pertencer àquele quadro
e nunca mais ao corpo
aconteceu por mero acaso
uma nova cidade
um beco de luz
Klee que nos despiu
eu e tu não tínhamos nome
viajávamos por mero prazer
*
apontamento
um dia acontece na estrada
entre as casas que passam
e as árvores que para trás deixamos:
fantasmas em que não acreditávamos
misturam-se no olhar
e dão às lágrimas um peso insuportável
paramos o carro.
à nossa volta paira a indiferença daqueles
que nunca nos viram
e cujo olhar fraco e vazio
nos obriga a pensar no inútil da partida
fazemos inversão de marcha
interceptamos as mesmas casas
as mesmas árvores
interceptamos o que supúnhamos ser
o fio esquecido do tempo
de repente somos pássaros com medo
da solidão e perguntamos:
a quem pertencemos nós
senão àqueles que nos amam?

dias desiguais (2005)

Depois de quatro livros de poesia, João Ricardo Lopes publicou em 2007 o seu primeiro livro de crónicas, Dos Maus e Bons e Pecados (Opera Omnia), uma coleção de pequenas narrativas onde o escritor desenvolve a sua apetência pela ficção e onde assume, não raras vezes, uma postura ideologicamente ativa e comprometida com causas sociais.

Cláudio Lima resume deste modo a obra: “Mais do que uma promessa, esta obra confere ao cronista o estatuto de confirmado, não tendo eu engulhos em considerar estes textos na linha do que de melhor no género vão escrevendo Lobo Antunes, Mário Cláudio, Baptista Bastos ou Fernando Venâncio e escreveram os infelizmente já desaparecidos Alexandre O’ Neill, Cardoso Pires ou Eduardo Prado Coelho. São cinquenta e três peças de natureza vária, reunidas sob um título tão sugestivo e provocatório como ferido de heterodoxia. Pela moral religiosa não há pecados bons; eles são, em essência, todos maus, apenas variando a sua maldade (ou malignidade) de acordo com o preceituário transgredido e o maior ou menor grau de consciência transgressora. O título foi retirado de uma das crónicas (pg. 85) e nela o autor fala dos pequenos prazeres induzidos ou deduzidos pelas circunstâncias propiciadoras de pecado, sobretudo para a malta jovem: os locais de diversão nocturna com as insinuações eróticas de Madonna, um pifozito, umas passas ou tragadas e, sobretudo, umas teens frenéticas e liberadas, se possível em mini-saia de cabedal…” (Lima, 71-2).[1]

2007 (Dos Maus e Bons Pecados)

 

Pendulando entre a ficção e a realidade, entre a crónica propriamente dita e o conto, Dos Maus e Bons Pecados representa a primeira tentativa consolidada do autor de superar a tirania do lirismo, dando continuidade ao diário que mantém no seu blogue e ao anseio de enveredar futuramente pela ficção.

 

DEVO TER ENVELHECIDO

Devo ter envelhecido.

Dou-me conta do absurdo de ficar em casa neste sábado à noite, com um cobertor enrolado nos pés e a máscara facial reduzida a um escombro de tristeza, em lugar de ir tomar um banho com aquele gel refrescante comprado na Rituals, em vez de uma roupa justa e eventualmente escandalosa em direcção ao Bar M. a atiçar o desejo dos homens casados e a fúria das namoradas inseguras.

Sinto-me esquisita.

É o que me disseram todas — Estás esquisita, filha, o que tens? —, a Mónica a ficar de pé atrás, a dizer-me que vinha cá a casa, e eu a explicar-lhe que não se passa nada, que na verdade não me ocorre nada, estou só um pouco cansada.

Cansada disse-lhe eu. Farta de levar apalpões e discutir só um bocadinho, farta das súplicas dos tipos dos bancos, muito bem vestidos, cheirando maravilhosamente, farta que me convidem para os seus apartamentos nas Amoreiras, que me prometam uma dedicação sem limites, farta que me usem o corpo, que me agradeçam, me digam que foi uma noite espectacular, querida.

Hoje de tarde, vi o Luís no Colombo. Foi tão por acaso que a coisa durou vinte segundos. Não reparou em mim, não me avistou sequer. Pareceu-me mais bonito, elegante, sólido. De modo que a loira ao lado dele tem sorte, tem o Luís bem tratado, a partilhar provavelmente um T3 no Mar da Palha, à espera da altura certa para darem o nó.

Devo ter envelhecido.

Tripliquei sem dar por ela o número de cremes de beleza, as loções hidratantes, os bálsamos anti-rugas, os minutos passados diante do espelho, no pânico dos primeiros sinais.

De modo que a Mónica e a Sofia e a Adelaide também foram hoje sem mim num táxi para o Bairro Alto, e tenho a certeza de que os indivíduos de fato e porta-chaves com o emblema da Mercedes, e as namoradas ciumentas dos universitários vão dar pela minha falta, quando na pista eu não estiver semidespida a concentrar todas as atenções.

Os meus pais ligaram, fizeram de conta que faziam algazarra, e foi assim que tive a certeza de não estar equivocada.

Não me apetece sair (Estás esquisita, filha. O que tens?), fiquei em casa, de serviço, velando-me, comemorando sozinha esta data feliz.

Devo ter envelhecido.

Não me recordo de quantas vezes já esqueci já as velas, o bolo, o marido, os dois filhos, todos na mesma casa, com os amigos a juntar os flutes, a desejar muitos anos de vida, num brinde cheio de sorrisos e que alguém haveria de querer de fotografar para mim, numa Kodak descartável.

Dos Maus e dos Bons Pecados (2007)

 

Em 2011, ano em que assinala uma década da sua estreia, João Ricardo Lopes regressa à poesia, género em que melhor (ou mais naturalmente) respira a literatura, partilhando o volume bilingue reflexões à boca de cena (português/ inglês).

reflexões (2011)

 

proscénio

abre-se o pano e eles existem

um vocifera de calças arregaçadas, que ridículo
outro chora das tréguas da fortuna, pungentíssimo
e divertem à luz viva, fingem a contraluz.
existem num aparato de alma, guindastes à mistura
e solilóquios, grandes cenas dramáticas, gritos
sarabandas, momices, intrigas, tudo escrito e
decorado

por vezes junta-se a nós uma serena escuridão.

a vida aos pedaços corre num sentido que
é decerto a grande peripécia rebentando-nos nos olhos

— qual das réplicas foi afinal esquecida?

abre-se o pano e eles chegam-nos maquilhados de
um amor só a fazer de conta.
e porém choram que é de arrepiar a alma
e gesticulam alto como deuses e demónios colossais.
no palco eles contracenam, dizem, renegam, mentem
concretos e sinceros como as linhas de uma máscara

uma escuridão funda de poço sem fundo escuta-nos sempre
uma espécie de soluço seco, um sufoco
um derrame de piedade, remorso, tudo a fingir
que do lado de cá a vida é mais engraçada ainda

o nome que nos deram a princípio, apenas ele
compreende a corda negra do teatro

reflexões à boca de cena (2011)

*

proscenium

 

the curtain opens and they exist

one blusters in rolled up trousers, how ridiculous
the other cries about the truce of fortune, pungently
and they amuse at plain sight, feigning at backlight.
they exist in a display of soul, contraptions in the mix
and soliloquies, big dramatic scenes, screams
bustles, antics, intrigues, all written and
memorized

sometimes a peaceful darkness comes over us.
life in pieces goes on in a way which
is certainly the great adventure bursting before us

— which of the retorts was forgotten after all?

the curtain opens and they come to us made-up of
a make-believe love.
and nonetheless they cry making you cringe
and gesticulate loudly like colossal gods and demons.
on stage they act, say, deny, lie
concrete and sincere as the lines of a mask

a deep darkness of a bottomless well listens to us always
a sort of a dry wail, a choke
a shedding of pity, remorse, all pretence
that on this side life is even funnier
the name they gave us at first, only it

understands the dark rope of theatre

onstage reflections (trad. B. Esteves)

 

Entre 2002 e 2018 foram diversas as participações do autor em revistas e edições antológicas: Vozes várias (poesia, NALF, 2002) * Águas Furtadas nºs 4/ 5 (poesia, JUP, 2003) * Mar de manhãs (poesia, NALF, 2005) * Afectos 1 (poesia, Labirinto, 2006) * Saudade nº 8 (poesia, Associação Amarante Cultural, 2006) * Dias do Pai (contos e crónicas, Ave Rara, 2006) * Afectos 2 (poesia, Labirinto, 2007) * Saudade nº 9 (poesia, Associação Amarante Cultural, 2007) * Um poema para Fiama (poesia, Labirinto, 2007) * Os dias do amor (poesia, Ministério dos Livros, 2009) * O prisma das muitas cores (poesia, Labirinto, 2010) * Palavras de cristal (poesia, NALF, 2011) * 100 poemas para Albano Martins (poesia, Labirinto, 2012) * Cintilações da sombra(poesia, Labirinto/ NALF, 2013) * Cintilações(poesia, Labirinto/ NALF, 2017)

texto: Marta Lopes


[1] Lima, Cláudio (2011), “Dos Maus e Bons Pecados – Crónicas de João Ricardo Lopes”, in Os meus amores – Letras do Minho, Braga, Calígrafo (pp.71-6).

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