M. D. Larson
Foto de arquivo pessoal

 

É uma tradição: todos os anos o velho lavrador empilha no meio de um campo lenha da poda, cascas de eucalipto, pequenos toros, ergue uma estaca de mimosa e nele prende um boneco feito de colmo e palha (com umas pantalonas de ganga e uma esfarrapada camisa aos quadrados, um boné ou um barrete enfiado na cabeça obclávea), a que dá o nome de Januário.

À noite a miudagem traz consigo a rapaziada e esta atrai as raparigas em idade de casar. Com estas vêm as mães, com as mães os pais, com todos os nostálgicos avós, para quem as tradições são sagradas e sem mácula (só os que as não têm trazem as imprestáveis tradições de fora) e com a multidão vem o vinho. Faz-se uma roda, canta-se, ri-se, chora-se em tom jocoso o boneco que às tantas fica em chamas. É a morte do inverno, o convite a que a primavera entre. O braseiro levanta-se tão alto e é tanta a algazarra que de ano para ano se alarga o círculo e o ruído alastra. Todos se divertem à custa do carnavalesco Januário, do Pai das Orelheiras, do Entrudo bisonho, em breve reduzido a cinzas, enquanto em volta a turba gira e canta.

O lavrador sente, então, um aperto. Em silêncio, compreende essa grande lei, essa necessidade de a natureza se limpar do velho para que o novo tome o seu lugar. No auge da folia, ninguém repara no como se avermelham os olhos cansados, e se o notam é do fumo, das brasas, do vinho. É fácil confundir!