O PADRE

Young priest short-story
Fotografia: nini_filippini

 

Ao sol está agora uma roupa tão branca que parece, sob a força do primeiro, uma cascata de lâmpadas acesas. O jovem padre olha-a enternecido. Gosta de contemplar a castidade onde quer que ela se encontre.

Na sua terra natal, a esta hora cheirará ao preparo das cozinhas, a alho e a azeite, a refogados e a estrugidos. Em breve rescenderá a peixe frito. No lugar onde costumava beber o seu café matinal, três esquinas adiante da velha Sé de pedra basáltica, ver-se-á o recorte da costa no Atlântico, a sombra azul das ilhas desertas, e há de misturar-se no corpo atento de quem ali um instante repousar o lume roxo dos jacarandás, a aragem das casuarinas e araucárias, o travo vestigial e amargo do café, o paladar doce do papel velho, o ruído manso dos transeuntes na Baixa e pela marina.

Mas vive agora na grande cidade. Aqui são o rio e o Cristo gigante de braços abertos que dominam a sua atenção. E essa luz forte que chega a doer. E esse rumor indecifrável de um milhão de coisas simultâneas e em conflito entre si.

O padre bem se esforça por anotar ideias, juntar frases, trazer de volta o seu dom. Depois do serviço religioso, vem até esta parte. Caminha largos minutos a pé, em absoluto silêncio, procurando absorver a paisagem. Visita os jardins, vê os telhados, escuta os barcos no meio do azul. Os novos paroquianos saúdam-no. Ele acena-lhes. A brisa de junho é macia, impregnada no aroma das tílias.

Morar aqui não é assim tão diferente de viver lá. 

E, no entanto, a poesia ainda não regressou. A sua alma verdadeiramente virá quando ela vier, somente quando ela chegar. Entristece-o saber que assim é e que assim será. É uma espécie de pecado mortal que não pode sequer confessar.

Se o fizesse, quem o absolveria?

MÃE

Mãe
Fotografia: Tatyana Tomsickova

 

A rapariguinha estugou o passo. Não demoraria a chuva. Era uma tarde estranha, uma rua comprida, uma gente de rosto frio. De quando em quando, sempre que a acometia ao de leve uma suspeita, uma voz mais alta, uma ameaça, acariciava o ventre: bendito o fruto que ali devagar, desapressada, maravilhosamente, crescia.

A rapariguinha levava as golas do sobretudo erguidas, a bolsa a tiracolo, o coração aos pulos. Queria chegar a casa, descalçar os sapatos, abrigar-se no seu canto, sentir o aconchego das paredes e do silêncio, ser tocada pelo pulsar dos objetos conhecidos. Havia muito de umbilical ali: uma promessa de conforto, uma sensação de perenidade e de paz, uma resistência contra tudo e contra todos. Era dentro dela que gostava de pensar, de sonhar o futuro, de acalentar o rebento por nascer.

A rapariguinha à noite, quando ninguém a poderia escutar, dizia ao gato e ao sofá e às lâmpadas acesas, dizia como quem gostasse de ser ouvido «Este meu filho triunfará», «A este menino não faltarão o amor ou que comer», «Ninguém fará mal a esta criança, que eu não deixo».

A rapariguinha estremecia ao murmurar estas palavras. E era toda ela uma coragem, toda ela uma certeza, toda ela o encarnar de uma força desconhecida. E não chovia. E ninguém se atravessava entre si o tempo. E nenhum perigo se aproximava sequer do filho acalentado. E ela era tão franzina. E a criança tão pequena.

A CORAGEM DE TOBIAS

Jeffrey Van Daele
Fotografia: Jeffrey Van Daele

 

para o João Dinis, como presente de aniversário

 

Era uma vez um rapazinho que vivia numa aldeia com poucos habitantes, numa das encostas de uma grande montanha. Aí todos se conheciam pelo nome e sabiam todos os costumes uns dos outros, porque as pessoas tinham tempo umas para as outras.

Esse rapazinho chamava-se Tobias. Tinha acabado de fazer sete anos, quando o pai lhe pediu para o acompanhar na guarda do grande rebanho. Um rebanho é uma família de ovelhas ou de cabras, às vezes de ovelhas e de cabras misturadas. Os rebanhos são valiosos, por isso precisam de ser guardados. À noite dormem em casotas de pedra ou de madeira, fechados entre portas seguras. Mas durante o dia é preciso levá-los aos melhores prados, muitas vezes distantes, para que possam comer.

O pai de Tobias era pastor. Foi ensinado a cuidar das reses, a conduzi-las por planícies, vales e montes. Aprendeu desde muito novo a aproveitar o leite das cabras e a lã das ovelhas. Com o leite fazia-se um queijo maravilhoso, muito fresco, que forasteiros de terras às vezes longínquas vinham comprar.

Diziam “Não há queijo como este!” e todos na aldeia sentiam um grande orgulho ao escutar estas palavras. E, por ouvi-las muitas vezes, as gentes da serra percebiam que o seu trabalho era reconhecido e que certas coisas só se conseguem pelo muito amor que lhes temos.

Da lã tosquiada às ovelhas fazia-se agasalhos para o inverno. Quando a neve cobria os telhados das casas e a torre da igreja, deixando brancos os campos e as pequenas estradas solitárias, nada aconchegava tanto como as peúgas, os gorros, as mantinhas, os casacos feitos desse tecido grosseiro.

Tobias tinha muitos amigos. Moravam todos muito perto, porque as casas da aldeia tinham sido construídas juntas, porta com porta, com escuras lâminas de pedra sobrepostas. Olhadas de longe, à noite, com as suas lareiras e candeias acesas, essas casas de xisto assemelhavam-se a um presépio.

Desde há muito que os aldeões sabiam que nas encostas de uma montanha se vive entre perigos e dificuldades e que para vencê-los, para resistirem, todos precisam de se apoiar e ajudar.

Havia aldeões que trabalhavam a terra: deles se esperava o centeio para se fazer o pão, batatas e a hortaliça para a sopa, e a forragem para o gado. Havia outros que cuidavam das abelhas e que, por essa razão, se chamavam de apicultores: quando iam aos cortiços retirar o mel e a própole, tinham de usar luvas e uma fatiota de colmo e estamenha, que as crianças achavam engraçada. Na aldeia havia também quem cuidasse dos sapatos, quem costurasse os vestidos e as calças, quem tratasse das forjas e dos ferros, quem moesse a farinha, quem fabricasse as mesas e as cadeiras, quem ensinasse na escola. Todos trabalhavam si e para as suas famílias e para que nada faltasse aos demais.

Uma vez por mês, a aldeia era visitada pelos almocreves. Os almocreves eram comerciantes, gente que ia de terra em terra, com as suas mulas, para vender e para comprar. Desde tempos muito recuados o faziam, subindo e descendo ao longo de estreitos caminhos a montanha, cheios de paciência e sem pressa, levando não só mercadorias e ensinamentos, como notícias e lendas que muito impressionavam que os esperava,

Quando os almocreves paravam no adro da igreja, formava-se uma multidão. De dentro dos alforges, de sacos de lona, de caixotins, de bornais de couro saía um pouco de tudo: brinquedos, latas de sardinha, frascos com óleo de rícino, parafina, torcidas para candeias, bacalhau seco, caramelos, café, açúcar, frutos secos, tudo.

A chegada destes mercadores à aldeia era uma grande festa. Sobretudo para as crianças. Elas viam com espanto que no mundo se iam inventando coisas, coisas que os antepassados jamais puderam imaginar que pudessem ser inventadas: aparelhos de ouvir notícias, lampiões leves e seguros, esferográficas que dispensavam o uso da pena e do tinteiro, máquinas de somar, livros sobre os astros, revistas de moda.

“Ah, se o meu pai visse isto!”, suspirava um velho, coberto de cãs. “O mundo está a mudar, a mudar muito depressa. Aonde iremos parar?”

Tobias gostava da sua aldeia. Os seus amigos, a sua família, a sua alegria, pertenciam àquela paisagem. Ali tudo era calmo e pachorrento. As novidades vindas de outras aldeias e cidades pareciam-lhe irreais e desnecessárias. O mundo cabia todo nesse redondo que os seus olhos avistavam a toda volta de si. Para quê cobiçar o que para lá desse horizonte existia?

Porém, uma madrugada, no início da primavera, aconteceu algo de que há muito se não falava.

Tobias acordou como de costume muito cedo. Um vizinho conversava com o pai, descrevia-lhe um problema, lamentava-se e pedia conselho. O rebanho comunitário havia sido atacado.

Era costume, naquela altura do ano, os aldeões juntarem todos os seus animais num rebanho só e ir apenas um pastor guiá-lo até aos melhores pastios. Assim, os homens da aldeia ficavam livres para se dedicarem a outro tipo de trabalhos. Um único pastor, acompanhado por dois ou três cães adultos, podia apascentar centenas de cabeças de gado.

Mas havia agora um problema.

Quando nessa madrugada se preparava para empurrar as pesadas trancas do cancelo que mantinha fechado o curral, o vizinho reparou em manchas de sangue na pelagem de algumas ovelhas. Contou-as. Faltava uma. Na véspera, sucedera o mesmo. O pai de Tobias escutou palavras preocupantes.

– Os lobos estão a atacar-nos o rebanho: andam por perto, conhecem os nossos passos, atacarão de novo.

– Sabes o que precisamos de fazer…

– Sim! Vamos chamar os outros!

O pai de Tobias foi buscar o cajado. Encaminhou-se de seguida para a pequena praça, onde se juntaram todos os homens adultos e mancebos. Então, subindo os degraus do cruzeiro, um deles falou.

– Vizinhos, um lobo faz mossa, atacando o rebanho, apanhando desprevenido um cordeirinho. Uma alcateia, porém, pode atacar-nos a nós, a um dos nossos. Enquanto não formos capazes de a apanhar ou afugentar, estaremos à sua mercê!

Concordaram todos que era preciso fazer uma busca e enfrentá-la. Uma alcateia é uma família de lobos. Todos devem saber que estes animais são antigos, inteligentes e organizados. Em grupo, são capazes de caçar presas do tamanho de vacas, veados ou cavalos.

As névoas iam-se esfarrapando com a algazarra. Os homens, servindo-se de paus, enxadas, foices, machados e forquilhas, dividiram-se em dois grandes grupos: um foi para norte, outro para sul. Batiam em tambores e panelas, gritavam, urravam, faziam o maior barulho que pudessem.

O objetivo era espantar as feras com o alarido e fazê-las sair do esconderijo. Assustadas, estas saltar-lhes-iam ao caminho. Depois, os homens, munidos das suas armas, brandindo tochas, convergindo uns para os outros, haveriam de as empurrar para o fojo que ficava no alto de um penhasco.

Os fojos eram armadilhas gigantescas, feitas de muros altos de pedra, que se apertavam mais e mais, um contra o outro, como um grande V maiúsculo: impelidos para esse lugar, os lobos ficavam encurralados e, sentindo o espaço a afunilar-se, corriam mais depressa até caírem no extremo no abismo. Não podiam escapar.

Tobias queria participar nesta aventura, mas o pai proibiu-o.

– Filho, tens sete anos. Precisas de compreender que o nosso lugar no mundo é muito frágil.

– O que quer isso dizer, pai? 

– És uma criança. A obrigação dos pais é defender os filhos a todo o custo! Ficarás em casa, com a tua mãe. Enquanto não nos livrarmos deste mal, ninguém está a salvo em lado nenhum nesta aldeia.

Quando o dia clareou, não se falava de outra coisa.

Com o coração aos pulos, morto de curiosidade, espicaçado pela narrativa que construíam os seus amigos, o rapazinho deixou-os logo que pôde. Enveredou, então, por um carreiro apertado, subiu a encosta, afastou-se. Conhecia tão bem aqueles caminhos!

Numa cumeeira pôs-se a ver e a escutar. Nada alcançava com os olhos, mas às vezes, numa viração, conseguia ouvir muito ao longe, muito além, o ruído dos homens. Que pena não poder estar entre eles. Gostava tanto de observar um lobo!

Caminhou sem destino. Sentia a brisa a passar nas grandes penedias, fazendo baloiçar as urzes pregadas no granito, desalinhando-lhe as farripas do cabelo.

Aqui e acolá, no meio do musgo seco, através das fissuras nas pedras, seguiam carreiros de formigas. Uma joaninha, fechando as asas, poisou na sua mão. Mais à frente, viu a toca de um grilo. Cortou uma palhinha e pôs-se de cócoras a remexê-la dentro do buraquito, enquanto repetia uma quadra cantarolada que soava a oração. Em breve o animalzinho assomou. Tobias, ao invés dos seus amigos, não gostava de colecionar grilos em caixas de fósforos e de os prender em casotas. Preferia que vivessem nas suas pequeninas luras, comendo livremente a sua serradela e a sua alface.

 “Este é um lugar maravilhoso”, pensou. “Não há no mundo outro onde mais gostasse de estar”.

Tobias aproximou-se, entretanto, de um carvalhal. Há muito que ali não entrava. Apanharia bugalhos, algum ramo em forma de ípsilon para preparar uma fisga. Talvez avistasse algum ninho de gaio, ou algum esquilo. Ah, se os seus amigos soubessem de ovos novos!

Depois, sem querer, viu um tronco humedecido com fungos e líquenes a toda a volta. Achou bizarras as formas dos pequenos cogumelos saindo da madeira. Sabia que alguns deles eram malcheirosos e venenosos, por isso não lhes tocaria com as mãos, mas com algum graveto. De gatas, começou a procurá-lo no chão coberto de folhas.

Quando reergueu os olhos, viu à sua frente, a não mais do que dez passos de distância, um lobo.

Ficou paralisado pelo terror. Durante um bom pedaço, com o coração aos pulos, com imensa vontade de chorar, não foi capaz de nada. O animal também não se mexeu. Os olhos amarelos pareciam estudá-lo. Apenas as orelhas felpudas, fitadas, se moviam lentamente.

Para grande surpresa sua, daí a pouco, vindos dalgum esconderijo, soltando pequenos latidos, surgiram três cachorrinhos. O pelo (acastanhado, basto, mais escuro sobre os olhos e o focinho e no dorso) era enternecedor.

Tobias viu então a extremosa mãe lamber-lhes a nuca. As crias deram pela sua presença, principiaram a caminhar na sua direção. A loba rosnou, arreganhando os dentes. Os lobinhos recuaram.

Sem um gesto, mantendo os joelhos no chão, o rapazinho sentia a coragem renascer dentro si. Disse baixinho “Não vos faço mal”, “Não vos faço mal”. As crias, curiosas, recomeçaram o movimento. Se a mãe franzia o focinho e lhes mostrava os dentes, interrompiam-se. Mas logo em seguida, faceiros, abanando a cauda, davam mais dois passos. Por fim, alcançaram-no.

Depois de o farejarem, puseram-se a mordiscá-lo. Os dentes mal afiados e a língua tonta procuravam-lhe os braços e as mãos, mordiam-no como alguém que desafia outro para a brincadeira.

Por instinto, achando-lhes muita graça, Tobias principiou a fazer-lhes cócegas na nuca e na barriga. Eles, em resposta, deitavam-se com as patas para cima e davam cambalhotas.

A loba, ao cabo de algum tempo, veio também fariscá-lo. Depois, tranquilizada, sentou-se.

Era bom poder contar com alguém para ajudar a cuidar dos seus filhotes. Tobias mal podia acreditar que a seu lado repousasse uma fera tão temida.

Ao serão, enquanto ceavam, o pai declarou.

– Amanhã vamos para a outra banda. O lobo não apareceu hoje. Mas amanhã sentirá fome e terá de se mostrar.

A mãe perguntou.

– Falas como quem espera um lobo só. Como sabes que se trata de um e não de muitos?

– Uma alcateia não se esconde. Acredito que se trate apenas de um. Penso que seja uma loba e que tenha dado à luz há poucos meses. Só uma loba mãe tem a coragem de desafiar os nossos cães e a esperteza de os enganar.

– Os lobos são animais malditos. Sempre ouvi dizer que matam por gosto e não por necessidade.

– Tens razão, mulher. Os lobos são parentes do diabo.

Tobias sentiu um arrepio e uma grande tristeza.

Nessa noite, não conseguiu dormir. Na sua cabeça misturavam-se frases do pai e da mãe e as suas próprias frases. Sentia preocupação pelas ovelhas, mas também pela loba e pelas crias. “Como é difícil perceber o que é certo e o que é errado”, pensava. “Era tão bom se todos conseguíssemos viver juntos e em paz”.

Enquanto nisto cismava, teve uma ideia.

Dormiam todos ainda, quando o rapaz subiu a serra. Levava consigo o lampião do pai para se alumiar no caminho. Ia com pressa.

O farfalhar das árvores, os estalidos no chão, o choro das aves de rapina, soavam-lhe horrivelmente. Sentia presenças nas sombras, olhos malignos espreitando da escuridão. Era enorme o receio, mas não podia voltar para trás: se o fizesse, se se acobardasse, os homens iriam chegar, descobririam a toca dos lobinhos, matá-los-iam a eles e à progenitora e ele já nada poderia fazer.

Só a custo reconhecia o percurso do dia anterior. Mas tão assustador era agora o caminho, tão duro o que tinha de fazer, tão incerto o resultado da sua ideia que as lágrimas lhe andavam muito perto dos olhos e o coração da boca. Melhor era não perder tempo com medos e morder os lábios. Tobias falava alto, discutia consigo mesmo, era como se uma grande onda de ânimo lhe viesse dessas palavras ditas a si mesmo. Por fim avistou o carvalhal, sombrio e sinistro. Penetrar nele era como saltar para dentro de um poço. Mais do que nunca, afligia-o o pavor de que a luz se apagasse. Balançou levemente lampião. Sentiu a oscilação do petróleo e o rebrilhar da chama.

Então, Tobias entrou, avançou até uma pequena clareira e, como alguém que tivesse decidido bem o que fazer, começou a juntar pequenos paus e folhas secas. Formou uma pilha e acendeu um fósforo. Soprou até que a labareda principiou a crescer. Juntou mais lenha e, animado por esta, multiplicou as fogueiras. Aos poucos, no meio do carvalhal, nasceu uma claridade vermelha. Não se via vivalma.

Depois, batendo numa panela, o rapazinho começou a gritar. “Arre, lobo!”, “Arre, lobo”, “Arre, lobo!”

Horas depois, já o dia havia nascido há muito, um grupo de homens espantou-se de ver montículos de cinzas e carvalhos chamuscados num bosque remoto. Viram até uma espécie de toca, acoitada no meio de fetos e troncos apodrecidos. Alguém, com razão, considerou.

– Se eu fosse lobo, era aqui que me escondia…

Acenderam uma tocha e, pelo sim pelo não, apontaram uma estaca afiada para a boca do covil. Lançaram-lhe lume, mas estava vazio. Lá dentro, lobo nenhum.

10.04.2020

OS COLECIONADORES

Gabriel Jablonsky
Foto: Gabriel Jablonsky

 

A casa encheram-na os três com lixo.

Primeiro o anexo e o pátio, onde depositaram vasos, bidões vazios, serapilheiras que encontravam em estado razoável, lonas e plásticos perfeitamente bons, vassouras e baldes ainda de aproveitar, colchões com molas ao dependuro, uma ou outra ferramenta comida pelo óxido, tábuas cheias de musgo, telhas e blocos de cimento, chapas dignas de ser polidas e reutilizadas, mas sobretudo (no meio do quintal, em cima de uns barrotes) uma estátua de gesso decapitada.

Depois, aos poucos, foram atravancando a despensa, os corredores, as arcas, as estantes, as gavetas dos armários, a parte de baixo das camas. A casa engordava com todo o tipo de objetos: uma coleção impressionante de bagatelas, maquinetas incompletas, sacolas, adereços, caixotins, relíquias, revistas, coisas obsoletas e sem préstimo, tudo muito depositado e arquivado, já não numa certa lógica taxonómica que no início dispunha a colheita por género e semelhança de produtos, mas a esmo, ao calhas, onde pudesse ser.

Os três farejavam em grupo, tomavam como seu o que entendessem ter sido desprezado injustamente pelos outros, levavam para reciclar. Era a sua missão na terra. Com o tempo reduziu-se a ela a razão por que existiam. No pouco espaço sobrante entre as paredes, repetia-se com esforço cada vez mais acrescido as tarefas básicas. Cozinhar, evacuar, tomar banho não despertavam nem uma terça parte do entusiasmo que se punha na sorte de encontrar um tecido, uma bugiganga, uma louçainha, um manipanso, uma piaçava, um desperdício qualquer.

Assustaram-se os vizinhos, vendo crescer imparável o cemitério de quinquilharia. Sentiam asco pelos três, cujo fedor os anunciava e denunciava. Dirigiam-lhe preces que se transformaram em injúrias e ameaças. Dizia-se, por exemplo, que o velho não deixava a mulher e a filha já cinquentona alimentar-se devidamente, citavam-lhe as máximas de que “O muito cagar ensina a pouco comer” e de que “Poupando água e sabão, ganharás o teu milhão”, sabia-se de fonte (talvez não muito limpa) que a banheira a guardavam eles para algum traste que pudesse servir-lhes e para não para se servirem eles do fundamento de terem inventado as banheiras.

As autoridades foram alertadas. Uma, duas, três, mais vezes ainda. Demoraram a aparecer. Quando finalmente o fizeram, o trio havia-se amotinado no seu antro. Esquálidos, macérrimos, de olhos exorbitados pela fome e falta de luz, quase grunhindo, receberam de má vénia as vomitantes e atónitas assistentes sociais, que mal podiam manter-se em pé e ainda assim foram capazes de uma resolução.

O delegado de saúde explicou à presidente da junta que se tratava de um deplorável caso da síndrome de Diógenes e que era preciso, a bem da higiene pública, agir de imediato. Foi com urros e pranto que a família foi retirada à força do ninho de imundície em que vivia. Com espanto e náusea viu a vizinhança, camião atrás de camião, despejar-se o bojo imundo da casa, o que a muitos lembrou (não sem propriedade, acrescente-se) uma valente uma diarreia, ou uma disenteria, limpando-nos sem dó nem piedade as tripas.

BRUXA

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Fotografia: Cristian Lee

 

Nas tardes soalheiras os vidros faíscam, os diospireiros vermelhejam, as velhas procuram no seu passo vagaroso (coturnos nos pés, lenços na cabeça) os estendais.

O som das árvores, o amor das rolas, o fosforejar do céu são dádivas de que se alimenta o sono. O tempo para, adormece-se só de olhar, cai sobre os camponeses uma poalha repleta de luz.

Derreada, muito para lá do alpendre, Amância fareja as ervas certas. É preciso que alguém acredite esta noite. Com todo o cuidado, usando um velho punhal, separa os talos das flores amarelas de damiana. Depois junta-os num cestinho.

Um sino ouve-se ao longe, desperta-nos do torpor: no inverno, as tardes soalheiras escrevem o seu poema devagar.

Esta noite um homem fará outra vez amor vigoroso. Se sim se não, amanhã toda a aldeia o saberá.

MATRIOSCAS

Jerome Zakka Bajjani
Fotografia de Jerome Zakka Bajjani

 

Enquanto num canal de música estrangeiro se reproduzia uma nova versão de Teardrop, Elena organizava e colava fotografias das mulheres da família. Levou anos a conseguir alguns dos espantosos retratos que agora lhe pesavam como ouro nas mãos. Nas primeiras páginas juntou os seus, em sequência anacrónica, começando na última (que um fotojornalista americano lhe tirou (meses antes da gravidez no Metropolitan) e andando sempre para trás, de viagem em viagem, de tour em tour, até aos primeiros anos na Academia de Ballet, chegando à escola secundária e à infância e aos dias de recém-nascida.

Depois vinham três fotografias da mãe Maria Lyubomirova, de um colorido desmaiado (no dia da formatura, no casamento e consigo ao colo). Seguiam-se, andando sempre para trás no tempo, retratos em tons de sépia da avó Marina, e a preto e branco da bisavó Yeva e da trisavó Ania (este último num daguerreótipo, muito ulcerado, quase sumido). Finalmente, em estampas que lembravam pagelas, encaixou as ilustrações da tetravó Oxana e da pentavó Maria Andreïevna.

Algo de visceral se transmitiu naquelas sete mulheres: o desprezo pelos homens. Todas elas foram ou ficaram divorciadas nalgum momento das suas vidas, preferindo a companhia das suas semelhantes em detrimento daqueles que ajudaram a parir as filhas. Todas elas perceberam que o mundo seria melhor se os homens caíssem do seu pedestal de ferro e as mulheres o adquirissem, por direito, devoção e catarse. Entre caloteiros, batoteiros, putanheiros, traiçoeiros, pederastas e vis, resumia-se a longa história dos machos da sua árvore genealógica.

Elena observava com carinho as faces maceradas de todas essas mulheres que a antecederam. Reparou na curiosa expressão igual que todas desenhavam no arquear das sobrancelhas, uma espécie de ar inquisitivo como quem pergunta “Quanto tempo?”

A bailarina não sabia a qual das matrioscas atribuir cada um daqueles rostos e do seu próprio rosto, se à maior de todas, se à semente mais funda. A maternidade impressionava-a de um modo veemente. Era um orgulho enorme pertencer àquelas mulheres, nascidas umas das outras, ser uma mais, uma também, na cadeia infinita que as unia como uma dinastia de dor: acariciou por isso o ventre dilatado.

Chamaria à sua filha Svetlana, que na língua russa significa “luz”, “bela”, “abençoada”. Svetlana haveria de principiar (possuía já essa certeza) um outro ciclo de sete mulheres, fortes, artistas, honestas. Dentro de si, no oco do seu corpo, novas matrioscas seriam geradas, bolotas, bolotazinhas… Um dia, uma pentaneta teria a responsabilidade de continuar a linhagem…

Elena folheava o álbum, acariciava a barriga. Na televisão a música acabava. Que orgulho!

CALIMA

Mohammadreza Momeni
Fotografia: Mohammadreza Momeni

Em março o vento subitamente mudou. Sobre a ilha pôs-se a alastrar uma cortina de pó tão espessa que por ela se podia olhar diretamente o sol. O ar tornou-se insuportavelmente seco e sujo, cansando e ferindo o pouco verde dos catos e dos arbustos, entre os quais se via o sulco e às vezes o corpo dos lagartos negros que aí habitam.

Lanzarote ficou coberta por essa neblina de africanas areias durante um mês. Os naturais não sabiam a que santo ou a que deus suplicar, ou com que demónio negociar, o fim da provação. Não faltava quem predissesse que todos acabariam sepultados, vivos ou mortos, debaixo do tenebroso e prolongado calima que não dava mostras de terminar.

Um eremita de nome Hilário, já no fim da sua vida, disse:

– Abençoada é esta terra, pois nem aqui o mal tenteia as suas raízes!

Havia nas palavras de Hilário orgulho e amargura. Cinquenta anos antes havia ele plantado uma figueira e nela não colhera um único fruto. Velho, embrulhado em andrajos, feito de pele e osso, insistiu:

– O diabo tem medo desta ilha. Aqui os vulcões limpam com fogo e lava as avarentas coisas dos homens, as areias lavam os olhos cobiçosos, o sal extermina o que possa sobrar dos nossos pecados.

De novo se percebia júbilo e tristeza na sua fala. Os que os escutavam, porém, asfixiados pela nuvem vinda do deserto, não sabiam escolher se tamanha era a maldição de se ser puro, se enorme a fortuna de se ser desgraçado.