ESTAMOS QUASE, FILHO!

family day
Foto: Samanta

Daqui tenho da cidade uma visão ótima: ao mesmo observo-lhe os céus, as torres das igrejas, os telhados, as águas-furtadas, as luzes de conjunto (as que emanam das lâmpadas dos semáforos e das montras, dos campanários e dos holofotes dos grandes edifícios do Estado, dos faróis dos carros e dos postes elétricos); e observo-lhe os becos, a pacatez de uma ou duas travessas mais próximas e mais escondidas, a escuridão que cai sobre o pavimento e sobre as acácias, os lanços de escadas que compõem os labirintos (como num desenho de Escher) e por onde sobem e descem, assim sucede agora mesmo, mães com filhos ao colo.

Os meus olhos voam para esta ternura. No empedrado ecoam as solas de uns botins e a mulher de sobretudo preto que os calça aperta mais o cobertor que envolve a sua criança.

– Estamos quase a chegar, filho!

Novembro está prestes a terminar e é este vapor. Mal o sol se põe, ele cresce dos canaletes e avança até à soleira das portas, engolindo os gatos e os tapetes de rua, fazendo mais misteriosa a aparência das esquinas seguinte e anterior, tornando extraordinário o gesto de rodar a chave na ranhura e de entrar em casa.

– Já estamos, filho! Já cá estamos!

Daqui é-me mais saudosa a alegria das horas nos sinos. Tocam as Trindades, repenica-se o som, que começa a lembrar o Natal. No colo da mãe, a criança aconchegada, protegida, acalentada, vê e escuta e sente a mutação destes dias de quase inverno que o são já. Ainda há instantes o fascinavam o efeito de neve nos vidro da loja de brinquedos, o vivo das cores misturadas nas butiques e retrosarias (dourados e vermelhos, o azul de um estrela no cocuruto de um pinheiro, os prateados e alaranjados e verdes, as fitas e laços e pais natais e presépios que surgem nos recantos), os néones nos mercadinhos de bacalhau e nas pastelarias. Tudo mais belo, porque contrastante com o húmido dos passeios e o bafo esforçado das bocas silenciosas.

– O Menino Jesus está quase a nascer, sabes?

Há, apesar da soturnidade do frio, algo que faz encontrar os transeuntes consigo mesmos. A criança, bem embrulhada, gosta desta sensação que principia a reconhecer, mesmo não a compreendendo.

– E ele vai trazer-te uma prendinha!

Se não estivesse tão rouco, se não lhe doesse tanto a garganta, se lhe não soubesse tão bem esse cómodo abraço da mãe, esse silêncio entrecortado por frases repletas de feerismo, talvez lhe perguntasse «O quê?», «O que me vai trazer o Menino Jesus?». Mas hoje só lhe apetece chegar a casa, sair do espaço fumegante e gélido onde os passos da mãe soam expostos e desamparados. Hoje só quer encontrar as boas paredes de sua casa, dentro das quais se sentirá seguro e segura a mulher que o trouxe ao mundo.

É tarde. Novembro está no fim. Daqui vê-se tudo. As imagens surgem duplicadas, como num filme, como numa história que corresse somente nas retinas próprias. Tenho, por isso, de guardá-lo para mim. Nem podia ser de outro modo!

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MUITO OBRIGADO!

IMG_4779.JPGNão podia deixar de me dirigir e de agradecer a todos os amigos que ontem viajaram até Fafe e/ou se deslocaram ao auditório da Biblioteca Municipal para assistirem ao lançamento do meu O Moscardo e Outras Histórias.

Foi magnífica, afetuosa e soberba a sessão. Revi pessoas de quem gosto muito e de quem há muito os trabalhos da vida me vinham separando. Fui surpreendido pela presença de ex-alunos, colegas, vizinhos, camaradas, leitores que quiseram conhecer os meus contos, empregando nas suas palavras de afeto o que na vida em sociedade há de mais belo e bondoso: a estima!

Agradeço, por isso, à Regina Novais e ao Renato Leite o terem trazido Mozart ao convívio dos presentes. E com que doçura!

IMG_4781Agradeço ao vereador, escritor e amigo Pompeu Miguel Martins o introito generoso e intimista que proporcionou, recordando como ninguém o faria o meu percurso literário, desde a pedra que chora como palavras e o Prémio de Revelação de Poesia Ary dos Santos, que a ambos nos fez jornadear até Grândola no outono de 2001 (17 anos passaram já).

Agradeço à Paula Morais a fantástica recensão que escreveu e que partilhou com o público, aventurando-se pel’ O Moscardo com a segurança de um mestre, que é, e de uma amiga, que tem sido. Impagável é esse gesto de me ler tão bem e tão em profundidade. E tão repleta de simpatia!

Agradeço à minha irmã Catarina a produção deste vídeo, que me enche de orgulho e de alegria.

IMG_4799.JPGE agradeço-lhe, ainda, a ela, à Marta e à Céu o apoio logístico dado durante a sessão, na organização e na venda do livro.

Agradeço aos funcionários da Biblioteca Municipal, em particular ao sr. Joaquim Gonçalves e à Carla Vaz, ligados à preparação do espaço e à receção dos visitantes.

E no fim volto ao começo deste agradecimento. A todos os que viajaram (do Porto, de Leiria, de Lanzarote, de Cinfães, de Matosinhos, de Póvoa de Lanhoso, de Felgueiras, de Guimarães, de Santo Tirso, de Braga, de Famalicão, de Amarante), a todos os que sendo de Fafe (tendo porventura tantos outros afazeres) não quiseram deixar de me acompanhar neste passo, o meu MUITO OBRIGADO!

GRANDES HOMENS

Captura de ecrã 2018-11-11, às 15.28.00
Foto: Aníbal Augusto Milhais (“Soldado Milhões”)

 

 

 

 

 

 

 

 

Nas poucas conversas de café que vou mantendo com os escassos amigos, regressa amiúde a discussão em torno dos grandes homens.

Em primeiro lugar, surpreende a raridade deste tipo humano: ainda não há muito, na infância ou na puberdade, os havia por aí em todas as casas e eiras, malhando no ferro ou abrindo a terra, porque não era forçoso que se comandasse exércitos e nações, ou se escrevesse sobre o futuro da humanidade, para que se pudesse ser um grande homem. Julgo que aos poucos os mortos os levaram consigo, deixando-nos o implacável papel de os substituirmos e de mantermos acesa a sua memória.

Em segundo lugar, a opinião do que possa ser um grande homem nunca é unívoca ou consensual, exceto talvez num ponto: a marca que ele deixa nos outros mede-se pela distância de anos entre a dor da sua perda e o contentamento da lição que nos deixou. Decerto um de nós citou a frase, que leu nalgum livro importante, e com ele sintetizou um pensamento harmonioso.

Em terceiro lugar, admito que as nossas discussões, além de muitíssimo interrompidas, são injustamente machistas, porque os grandes homens dependem de grandes mulheres e normalmente elas não estão por perto nestas discussões, onde (tenho a certeza) deplorariam o narcisismo e a ingratidão, a falta de visão histórica, a ausência de sentido prático, a vacuidade dos discursos.

Numa das nossas tardes de sábado, um idoso levantou-se da sua mesa, aproximou-se, pediu licença a nossas senhoriase, corroborando a visão do Saldanha, que recordava o avô Mendo, um grande antifascista, explicou-nos a sua teoria sobre os grandes homens, enquanto lhe lacrimejavam os olhos e o devastava uma espécie de asma sem fundo, que o obrigava a falar com grande sofrimento:

– Permitam-me os senhores que lhes conte qualquer coisa sobre um grande homem, um sujeito que me salvou a vida três vezes em poucas horas.

Cada um no seu lugar, no seu modo sonoro e gestual, no seu estilo bonacheirão ou desajeitado, desejou não escutar a longa história que se adivinhava.

– Os senhores são muito novos. De certeza que não sabem que eu sou… Mas já devem ter ouvido falar de mim. Sou Honório de Sá!

O desconforto cresceu. O nome não produziu senão um eco áspero. Tremelicando, o velho sorriu como quem tivesse percebido que ninguém ali dava o devido valor à sua pessoa.

– Eu fui o único soldado destas bandas a voltar da Guerra de 14. Consegui escapar dos alemães, em Armentières, depois de La Lys e fui o único a regressar à terra. A Guerra foi um desastre, mas nós mostrámos coragem, senhores! Mostrámos muita galhardia!

Uma vaga de ternura avançou pelos olhos entrincheirados do ancião. Rostos e imagens do passado deviam estar a subir-lhe à superfície, pois não reparou que lhe entregávamos uma cadeira para se juntar a nós. Sempre de pé, fincado no castão da bengala, pedia auditório.

– Quando fui para a guerra, a minha irmã mais nova disse-me que eu havia de voltar porque lho dissera em sonhos a alma da nossa mãezinha. Daqui destas bandas arregimentaram-se mais de duzentos moços, todos muito novos ainda, solteiros, casados, muitos com a boda assente, alguns com filhos pequenos. Foi uma debandada, senhores! Éramos todos lavradores, rapazes do campo, que vieram arrancar aos pais para os enfiar na guerra!

A princípio levaram-nos daqui para o Porto e mais tarde para Tancos, onde conheci o Milhais, ou Milhões… Já ouviram falar do Milhões? O mais bravo lutador português que existiu, senhores… Em Tancos não havia fome, mas era treino duro de manhã à noite. O Norton de Matos queria-nos prontos para as trincheiras e no final de 17 lá embarcámos para a guerra. Aos milhares, senhores, nas flotilhas dos ingleses… A mim puseram-me nas transmissões, na Companhia de Telegrafistas do Corpo Expedicionário, porque tinha a instrução básica toda e aprendera Latim com o Cónego Vieira, muito amigo de meu pai e que me quis levar para o Seminário…

Lá na fronteira da França, aquilo era um metralhar a toda a hora, canhões, obuses, morteiros. E então, sim, a puta da fome. Aquilo era uma fome de roer os ossos por dentro. Não fazem ideia da fome que nós tínhamos ali, enfiados na terra como as toupeiras, evacuando e urinando no sítio onde metíamos à boca a pouca e má vianda que nos davam.

Mas os alemães devolviam-nos a vontade de viver, senhores. Aqueles demónios faziam-nos buscar forças onde as não tínhamos. Passávamos tudo, mas não dobrávamos a espinha, porque eles vinham por aí abaixo, se não os travássemos. Vinham-nos buscar as mulheres e as irmãs. E era assim que lhes virávamos os fuzis das baionetas e os matávamos quando podíamos como quem se desforra da própria fome de morte… Não fazem ideia os cavalheiros da nossa alegria quando matávamos um desses desgraçados!

No café junta-se mais o grupo para lhe escutar a narrativa. O funcionário esquece-se da bandeja. Faz-se silêncio.

– Na madrugada de 9 de abril de 18, uma terça-feira, vejam os senhores como a memória me não deixa ficar mal, começou a batalha em Calais. Nós sabíamos que a guerra em começando era uma questão de dias, porque não dispúnhamos de armamento. Aquilo era uma aflição. O melhor que tínhamos era a Lewis, mas a maior parte dos soldados usava carabinas, a Kropatschek. Os ingleses tinham melhor armamento, mas nada que se comparasse ao armamento dos alemães.

Logo às primeiras horas do dia veio uma chuvada de morteiros que nos quebrou os ouvidos. Foi um martírio, ninguém se entendia no meio dos rebentamentos e na trincheira eram bocados de corpos por todo o lado…Um dos que ficou ali sem braços era meu amigo de criança. Vejam os senhores a carnificina e a dor que me saltou aos olhos, ao ver ali desfeito o Zacarias, o nosso Zacarias… Os alemães tinham a MG08, uma arma terrível, senhores. Aquilo era uma sucessão de tiros, que nunca acabava. Vi muitos dos meus amigos tombarem crivados das balas dos grandes filhos da puta!

Sei que quando o sol começava a querer mostrar-se só se via colunas de fumo e labaredas, como só as há de haver no inferno. Levei com uma bala no pescoço e fiquei enterrado no meio da lama. E lá asfixiaria, se não me valesse o Milhões. Já lhes conto! Esse bravo levou-me em ombros e salvou-me da morte certa, quando por mim passavam as botas dos meus companheiros e me enterravam naquele chafurdar de sangue, tripas, dejetos, pedaços de carne, roupa queimada. Enfim…

Médicos havia-os poucos, e todos lá trás, na retaguarda. O Milhões levou-me como a uma criança, arriscando a levar com uma rajada nas costas. Eu estava muito mal. Veem esta cicatriz, senhores? Foi aqui que o chumbo entrou! Ele é que me não deixou ali. Pegou em mim e levou-me à enfermaria e obrigou um médico francês a dar-me cuidados.

Éramos para ali uma cambada de mutilados e moribundos. Os da Cruz Vermelha não tinham mãos a medir, coitados. Berraram-lhe qualquer coisa, mas o meu amigo, o melhor soldado da nossa história, senhores, não desistiu de mim. Tapou-me o buraco com o lenço que tinha, da noiva, senhores, e não deixou que me esvaziasse o sangue…

O velho tropeça agora nas palavras. Galgado o dique da emoção, as palavras saem-lhe em jorros. Precisa de assoar-se muitas vezes, de limpar os piscos olhos encarnados.

– O safado do Milhões safou-me, ouviram? Empunhou o punhal que levava e apontou-a ao pescoço do doutor. No meio daquele pandemónio, que lhe importava ao francês safar este ou aquele? O safado era mesmo assim. Um amigo como não tive outro na vida, e lá me salvou a vida outra vez. E não contente com isto, tornou a rastejar para o sítio donde viera e ali ficou até caírem todos para o lado. Saibam os senhores que o desgraçado ficou sozinho na trincheira a metralhar contra os alemães…

O narrador dá agora uma risada engasgada de lágrimas, coisa sui generis, o ronco da gargalhada e o do choro misturados, ou então um só e mesmo ronco…

– A batalha estava perdida. De uma maneira ou de outra, estávamos perdidos, que eles mais que nós e tinham armas… Nós não tínhamos nada de jeito… baionetas, senhores, carabinas de ir ao monte à caça do lebrão.

Depois, quando os alemães chegaram, berrando muito, eu estava numa maca, sumido, tomado de febres. Não entendia o que diziam. Alguns queriam disparar sobre nós, mas um cão maior mandou os soldados meter os doutores e enfermeiras num camião e deixaram-nos assim, ao deus dará, no meio de nenhures.

Éramos um ror de feridos, gemendo… Os que podiam andar levaram-nos eles a todos, em fila, como a bandidos, dando-lhes coronhadas e cuspindo-lhes. A nós, os aleijados, deixaram-nos os bochesentregues à morte, assim, daquela maneira…

O café era um respirar só. Alguns conhecidos de pé, muitos sentados, escutando. 

– Mas o tratante do Milhões tinha de aparecer outra vez. Apareceu com um médico estrangeiro, um ruivo. Soube-se mais tarde que também a ele o tinha salvado da morte certa. Ora vejam só se isto não é a mão de Deus! O homem a morrer e o Milhões aparece-lhe, deita-lhe a mão, salva-o de se afogar e depois apanha-me no meio de nenhures, a tremer da febre, e é o médico estrangeiro que me salva a mim e a outros… Muitos morreram à mesma, antes que chegasse socorro…Mas a mim, o Milhões salvou-me a vida pela terceira vez…

Saibam os senhores que se não morri e aqui estou é por causa do Aníbal Augusto Milhais, esse grande homem, o maior que conheci desde que vim ao mundo no tempo dos reis, em 94…

Estranha mistura de sentimentos. De um lado e de outro da mesa, os homens menearam ligeiramente a cabeça, admirados; cumprimentaram o velho, abraçaram-no com ternura, apertaram-lhe a mão. O ruído regressou como sucede no despertar de um devaneio ou no final de um filme. Havia cavalheiros a levantar-se e a arrastar a respetiva cadeira, outros pagando a conta, alguns conversando paralelamente, lembrando histórias da Guerra em África, cenas incríveis, lances de heroísmo comparáveis aos do Soldado Milhões.

Por fim também eu me aproximei para cumprimentar Honório de Sá, para lhe expressar qualquer coisa como um indefinível agradecimento.

– Bela história e porém terrível, senhor Sá. Não há dúvida que me tinha enganado a respeito dos portugueses. Parece que nas horas de aflição mostram afinal o que valem! Foi um prazer enorme conhecê-lo, a si e a esta edificante história!

O ancião saiu por fim, na companhia de um rapaz, porventura seu descendente. Não voltámos a vê-lo.

O DOMINGO ESTÁ PRESTES A FECHAR

Lars van de Goor
Foto: Lars van de Goor

 

Apresento-me à entrada do bosque como fiz durante anos por esta altura. O cão segue-me, farejando com o contentamento eufórico deste regresso dos dois a um lugar de ambos.

O bosque é o mesmo e é outro. A nostalgia faz crescer em cada uma destas grandes árvores uma sombra mais triste. A ausência parece irreparável, como se em mim algo me não perdoasse os muitos dias perdidos, a indiferença, o envelhecimento.

Já quase é noite. Convém a intrusos como nós que assim seja. Vimos saquear o ar frio, tomar de assalto a terra húmida, esmagar o corpo inteiriço das bolotas num horror de insetos esmagados, invadir junto com o alvoroço das gralhas as mesmas neblinas que descem até ao rio, até às ruínas do moinho onde tantas vezes a lua me pareceu arder sozinha num poema por escrever.

Sou um melancólico, assumo.

Vou atrás do Nilo. Ele saberá guiar-me pelos mesmos lugarejos musguentos de outrora. Quem sabe, mediar a reconciliação do homem com o espaço. Sigo-o sem uma fala, como um penitente, arrependidíssimo. É domingo e eu fujo, fujo de mim mesmo, vazio e repleto, voltado do avesso, entrando num lugar onde a lanterna mal alumia e tudo é uma luz.

Acabei um livro, venci uma doença, ensinei a uma fornada de alunos mais, amei e fui amado, amo e sou amado, vejo à minha volta o contorno de cada coisa e de cada pessoa, reconheço em mim o poder de fazer mexer algo, de empurrar um ramo, de pontapear uma pedra, de ultrapassar um regato ou uma lamaçal. E, no entanto, sinto-me um saco vazio, uma boca e um ouvido escancarados para o abismo, um par de pernas e de pés caminhando num modo de autómato para o negrume.

Sou um lamechas, admito.

Neste preciso ponto da caminhada, acocoro-me para erguer uma folha de carvalho: o halo incide sobre as nervuras, os dedos seguem o recorte, percorrem cada uma dessas linhas radiais, regressam à grande estrada ao centro. Centenas de outras folhas iguais, de um tom indeciso (vermelhas, douradas, castanhas, alaranjadas) cobrem o chão e são cobertas pela líquida itinerância dos vapores noturnos. E eu penso que todas (centenas, milhares de folhas juncando o chão) são a metáfora das nossas vidas, cada qual uma história, cada uma qual história distinta, com os seus episódios principais e secundários e terciários. Todas caídas, outonais, derrotadas pelo mesmo sopro que nos sepulta e torna anónimos recortes amontoados no bosque umbroso da história.

O cão ladra. Reclama a minha presença agora que descortinou o fio perdido de um qualquer novelo temporal. Sigo-o. É domingo. É noite cerrada. Odeio os domingos. Preciso de andar sempre com uma lanterna ligada aos domingos, como se tudo à minha volta fosse tão de breu como de breu é o âmago deste bosque.

Sou um insatisfeito, reconheço.

Fujo muitas vezes de mim. Fujo para uma autoestrada, para uma saída sem nome, depois para uma estrada de terra batida, até ser impossível fugir mais. Fujo como os dedos fogem pelas nervuras de uma folha de carvalho, cheio de uma terrível utopia, saturado de boas e péssimas decisões.

O cão envelheceu terrivelmente. Mesmo sem o ver, adivinho-lhe o pelo áspero, desarranjado, em tufos. O caminhar incerto. As orelhas descaídas. O focinho encarquilhado, esfolado. É o mesmo e é outro, ainda que repetindo os passos exatos das outras vezes, dos tempos em que se aventurava a trepar os muretes divisórios e a penetrar as luras sob as grandes raízes das faias.

Já quase é inverno. O frio de novembro não é brincadeira nenhuma. Agarro-me ao casaco com o ar desesperado do náufrago que encontrou uma tábua. O bafo é agora mais branco, como uma cortina breve. O domingo está prestes a fechar. Ao fim de tanto tempo sou eu quem me não me reconhece. A lanterna acendeu a lua. Ela veio. Salvar-me talvez. Escrever com a sua voz sublime o que as palavras estão querendo dizer. E não sabem ainda.

CONVITE

convite bom

Caríssim@s amig@s,

O meu abraço, antes de mais!

Depois de um período de sete anos sem publicar, partilharei neste final de 2018 O Moscardo e Outras Histórias, um livro de ficção que reúne 86 contos, numa viagem que principia no Rijksmuseum, em Amesterdão, e termina na Casa de Saramago, em Lanzarote.

O lançamento do livro terá lugar no Auditório da Biblioteca Municipal de Fafe, no próximo dia 17 (sábado), pelas 15h30, cabendo a sua apresentação a Paula Morais, professora e investigadora que também o posfacia.

Honrar-me-ia sobremaneira a vossa presença nesta sessão!

Saudações amigas,

João Ricardo Lopes

O HOMEM MUITO TRISTE

sadness, o homem muito triste
Foto: Miroslav Mominski

Cruzo-me com este homem quase todos os dias no caminho para a escola. No ângulo de cimento de um murete, acompanhando a curva apertada de um caminho secundário, ocupa com a sua sombra todo o lado esquerdo do vidro do carro, e tão singular a sua comum figura que nunca resisto a deitar-lhe, muito de viés, uma mirada curiosa.

É um velho triste. Apoiado numa bengala (seria mais correto admitir que a bengala se tornou um grande braço caindo na terra), lança o rosto num movimento de rede, como quem não sabe se vai ou o que vai apanhar do dia. Julgo que me vê passar e que me não vê passar. Porque gasta os dias a olhar sem ver, fixado num ponto onde nenhum automóvel chega, nem decerto nenhuma mirada curiosa e comovida, a bengala debaixo da mão como um pilar muito hirto, pensando quem sabe, quem sabe lembrando, quem sabe cismando na curta viagem entre a infância e essa idade de tão frias e de tão feias emanações.

É um velho triste. Barba branca e rala, aguçando o queixo numa expressão inquisidora. Pele tão velha como a boca velha e escancarada, que parece arfar. Uma máscara. Todo ele numa expressão que tanto se diria alheada, distante da realidade, como nela achando e arregalando uma epifania.

O carro leva-me por lugares que me dão muitas vezes o primeiro verso, a primeira linha, a primeira impressão de uma fotografia. Às vezes, como aqui e agora, ao interceptar este ancião, sinto uma cobardia inexplicável. Finjo que não percebo o que é óbvio, que não toco o que palpável. Ponho-me a mexer nalgum manípulo, troco de estação de rádio, fiscalizo criminosamente o ecrã do telemóvel. Aquela expressão triste do velho, porém, está lá, entrou, já me não permite evasivas. Volto-me, esforço-me por não olhar, mas zás, olhei-o nos olhos! O carro já me pôs noutra rua, noutra estrada, noutro ângulo de outra luz.  Mas aquela expressão de casa abandonada enche-me o vidro dianteiro. É inútil fazer de conta. É ridículo. É, provavelmente, hipócrita e cruel.

Ponho-me em devaneios morais. E, se em lugar de acelerar, eu encostasse, me apeasse, lhe propusesse um cigarro, quisesse saber o nome, lhe escutasse a vida? Se, em vez de fingir que o dever me chama muitos quilómetros à frente, admitisse que me chama aqui o dever de confortar, de saber, de vestir pele humana  e tripas humanas, cabeça humana, coração humano?

É um velho triste. Encontro-o rodeado pelas mesmas casas solitárias, pelas mesmas ervas bravas, pelo mesmo céu mortiço, junto ao mesmo alcatrão sujo e irregular. Uma cena de meia dúzia de segundos, enquanto o carro resfolega e ao longe uma sirene apita para a mudança de turnos. Dou por mim a observá-lo pelo retrovisor, como quem se dá conta que a oportunidade passou, que a separar o futuro do passado há uma estreitíssima ponte,  o presente não existe, braços e tronco vergados, lá atrás, como se ameaçasse despenhar-se, estilhaçar-se, partir-se todo, lá muito atrás, mal se vê agora, como se somente a bengala se importasse, agora é um pontinho, a reta levou-me a uma rua mais larga, uma lomba, agora já não se vê, uma subida, uma curva, e zás, já o horizonte é outro.

É um velho tristíssimo. A cena repete-se. Fica-me no vidro, junto com o cadáver dos mosquitos e a meia-lua do pó. Sou forçado a rememorá-la, preso a um remorso que os outros perdoariam, mas eu não perdoo.

Acabo por esquecê-lo, assim que retiro a chave ignição e me lanço numa corrida para a porta da escola, em cima da hora, sempre a pisar o risco, homem livre, homem preso, cheio de fé e sem fé. Caminho com o rosto um pouco levantado demais, olhos num ponto indecifrado do infinito, incapaz de pensar no que quer que seja.

Antes que o pergunte a mim mesmo, respondo: não, não sei porque tem de ser assim!