A VELHA CASA

Foto: Sven Fennema

Aquele lugar tinha sido magiar, romano, bizantino, otomano, húngaro, soviético. Agora era de que tivesse muitos euros e bom gosto. Sobre os velhos hotéis foram levantados novos e luxuosos empreendimentos turísticos, rivalizando em número de quartos, prestação de serviços e anúncios em línguas estrangeiras. À entrada da cidade, uma placa dizia «Üdvöljük Tihanyban», querendo dizer «Bem-vindo a Tihany». Na verdade, deveria antes explicar «Desfrute o Lago Balaton». Pela sua arquitetura e decoração vintage, destacava-se na vertente sul o Hotel Olympus. Aí, em qualquer varanda e com alguma sorte pode estar-se no paraíso.

A vista é, indubitavelmente, soberba. Sobranceiros ao curso de água avistam-se belos palacetes ao gosto da Renascença, perfilando-se compridos ciprestes e pátios com colunas de mármore, aonde sobe volta e meia a elite para uma boda, um pôr do sol ou para uma sessão fotográfica nos meses de verão. No inverno as montanhas ao redor do Balaton cobrem-se de nevoeiro e depois de neve e todo aquele lugar é uma pintura romântica, para onde convergem artistas, filósofos, magnatas, predadores de toda a espécie e de todas as vocações. São especialmente assíduos os cineastas e fotógrafos americanos, sequiosos de génio, antiguidade e mulheres europeias.

Em dezembro de 98, o californiano Mike Juno alojou-se no Olympus no momento em que fazia uma tour com uma assistente argumentista para preparar a rodagem do filme de ação com que tencionava alcançar recordes de bilheteira no final do ano seguinte. Aí conheceu, também por circunstâncias profissionais, a fotógrafa franco-canadiana Danielle Ducrot. Conviveram duas manhãs, duas tardes e uma noite. Os hóspedes vizinhos do quarto 507 denunciaram sucessivamente nessas noite e madrugada o ruído escandaloso que dali chegava. O jovem na receção tentou sem sucesso fazer alguma coisa, convencido de que o problema se resolveria sozinho. E resolveu. Porém demoradamente.

Após isso, a fotógrafa regressou a Budapeste, de onde seguiria para Nice e de lá para Vancouver. O americano ficava mais uns dias. Deixou-se cair, entretanto, numa melancolia extática, a que jamais havia cedido em toda a sua existência de quase meio século.

Prova do que dizemos foi a caminhada que decidiu fazer até a um miradouro lá no alto da peninsulazinha. Fê-la sozinho, levando consigo uma mochila e a sua Leica vetusta de celuloide. Era uma manhã solar, silenciosa, sem excitações de espécie alguma. Danielle partira e da anterior lascívia restava apenas uma memória contaminada. Em Los Angeles esperavam por si uma mulher jovem e um filho pequeno. Havia semanas que a sua viagem de volta ia sendo protelada. Ocorreu-lhe a semelhança com Ulisses. Por um breve momento, coincidiram dentro de si o orgulho, a vergonha, o medo e o desejo de catarse. Era simultaneamente um homem velho e um homem novo, um bandido e um contrito. Aquilo nunca lhe havia acontecido. Sentia uma propensão quase irresistível para as lágrimas. Apeteceu-lhe abandonar o mau filme em que se via aprisionado e começar ab radice uma película nova, complexa, abstrata, a que chamaria “A velha casa”.

Mas foi somente um instante, uma iluminação, uma turvação, provavelmente por culpa daquele sol, daquele espelho de água, daquela maldição que ata os europeus a labirintos sinistros.

O COSTA

Foto: Ludwig Riml

«Comer onde comem poucos, trabalhar onde trabalham muitos» repetia o Costa, enquanto irritado com a garlopa ia desbastando e alisando o pau do eucalipto que trouxera do monte. Tinha quarenta e três anos. O cabelo e a barba haviam tomado a feição rala e grisalha de um velho, os dentes escasseavam, o lombo curvava, os olhos e as mãos mostravam-se nervosos e sem encanto. Aos pés da burra as aparas enroladas de madeira empilhavam-se. 

Setembro principiava, precisava-se de uma escada nova. Mas ele, circunstância imperdoável, não podia contar senão consigo mesmo. Enfurecia-o o facto de os filhos irem procurar as moças em vez de lhe deitarem uma mão. Noutros tempos teria funcionado o cinto, mas agora não lhe restava outro remédio senão murmurar. A mulher de quando em vez mirava-o, amaldiçoando aquele azedume, aquela expressão vingativa, aquele zelo hipócrita que a meio da tarde haveria de curar na taberna, com dois ou três quartilhos de vinho entre meia dúzia de partidas de sueca.

O Costa escolhera e serrara o tronco, agora alisava-o com a garlopa e com o rebote, para em seguida o medir cuidadosamente e marcar com giz. Depois, sempre com o cigarro no canto da boca e praguejando alto, chamou pela mulher e por uma das raparigas, para que lhe segurassem as pontas, enquanto ele fizesse rodar o trado perfurando a madeira vinte e cinco vezes, no lugar onde deveriam posteriormente ser apertados os vinte e cinco degraus.

«Bem diz Caifás: manda e faz e servido serás!» repetia, sempre a meia voz, sempre de olhos postos no tronco, para que ali se soubesse que a culpa daquela desfeita dos filhos varões se devia unicamente a ela e não podia ele calar-se ou perdoar, visto que se era certo não dever trabalhar-se no dia de Nosso Senhor (essa era outra das máximas do Costa), ele o fazia-o apenas nesse domingo por incúria dos filhos, que daquele modo e tão perto já das vindimas o despreveniram.

– Moça, segura bem. Não o deixes mexer! 

A cada fala mais alta e mais severa dele, mais fundo se desenhava nos olhos da mulher a sanha. Bem sabia ela como gostaria aquele velho de ter aproveitado melhor o dia de descanso para dividir na taberna infusas e bazófias, provavelmente uma meretriz de ocasião com os parceiros de jogatina. Mas estava ali, preso, debaixo da ramada, a construir um escadote de vinte e cinco passadas, como competia ao homem da casa e a um pai de família honrada.

Feitos os furos, o Costa teria de passar o fio do serrote de alto a baixo, dividindo o tronco nas duas pernas que em breve seriam içadas e usadas. Tinha o talento de todos os camponeses, de trabalhar simultânea e indistintamente nos muitos ofícios que a terra impunha, metendo com o mesmo desenrasque e o mesmo denodo as mãos à farinha e ao estrume, tanto fazendo de alvenel se fosse preciso reconstruir um muro, como de tanoeiro quando se precisava de construir um pipo. Tudo o Costa sabia fazer. Até bastardos. Inimigos até.

A mulher passava agora com o balde da lavadura. Ia cevar os bácoros. Ninguém lhe tirava da ideia que aquele homem azedo podia ter sido melhor pai e melhor marido, e de que em algum momento passara a odiá-lo, como ele a odiava a ela. Porém, estava-lhe grata, pois no mundo dos deveres, o primeiro de todos era sustentar a família, e esse dever cumpria-o o Costa.

De cócoras, cuspindo nas mãos, o velho terminava a tarefa aramando os degraus da escada. Se alguma vez um eles (corroído pelo tempo ou pelo bichedo) desabasse, sempre podia o corpo lá no alto segurar-se ao fio de metal que o capeava, livrando-se assim de uma queda certamente fatal.

A tarde ia já a meio. O Costa libertara finalmente a miudita que lhe servia de cavalete. Talvez nesse domingo não fosse beber. Pelo menos seria como nos primeiros tempos de casados, pensava a mulher, enquanto na esquina da eira espreitava. Ninguém lhe tirava da ideia de que lá no fundo ele ainda gostava de si. Em coisas de amor e de ódio ninguém sabe bem o que dizer. Isso ela o dizia, ele não. O Costa não conhecia esse adágio. 

A TANGERINEIRA

tangerinei
Fotografia de Lydia Jacobs

O leproso tinha um cão. Procurava todos os dias o amparo de uma grande pedra para se pôr ao sol. O vento sacudia as crinas, mas sem lhe magoar excessivamente a pele ulcerada. Primeiro morreu o cão. O leproso enterrou-o num sítio onde viria a nascer e a crescer uma grande árvore.

Em dezembro o vento é glaciar, a bela tangerineira mexe os seus canos carregados de fruto. Ali, no que era um lugar ermo, construíram uma gafaria. Os curiosos vistoriam a pedra onde há um buraco semelhante à casca de uma pevide, mas sem a semente, sem a luz do sol aninhada no seu interior.

A única parecença com o lume é a das tangerinas maduras. Quem as vê enche-se de piedade. Sob o impulso do vento gélido, elas baloiçam como carvões acesos. São pequenas chamas aquecendo o olhar.

UM MESTRE TAOISTA

Foto: Gunarto Song

Yuan Chen e Zhou Zhao eram os discípulos mais madraços e descuidados na escola de Li Bei. Durante os primeiros anos serviram de exemplo e chacota aos jovens aprendizes da sua classe, tantas tinham sido as ocasiões em que o velho mestre lhes repreendeu publicamente a preguiça e as outras imperfeições e ainda mais as vezes em que despertaram a risota dos colegas.

– O sábio aprende por si mesmo, antecipa as lições, adivinha o percalço, evita o erro e a desonra. 

Uma manhã, após uma noite de vigília e chuva intensa, o sol regressou ao cimo das árvores e fazia rebrilhar as inumeráveis perolazinhas suspensas dos ramos da cerejeira vermelha e dos zimbros azulados.

Zhou Zhan admirou-se com a dureza da luz assim refletida nos pingos supervenientes da chuva. Eram como minúsculas estrelas alumiando o jardim e ao mesmo tempo queimando os seus olhos. Lavou o rosto, passou água pela cabeça e pelo pescoço, depois orou, depois bebeu um gole de chá, depois escreveu sobre tiras de bambu em belos ideogramas, pincelados com amor:

 

cada coisa tem o seu fogo,
Cada homem tem a sua luz,
Todos nós ardemos por dentro
E por fora ardemos de novo,
Morremos como o sol e a chuva,
E a cada instante renascemos.

 

Além soou o gongo. Li Bei chamava. Se não se apressasse, Zhou Zhao seria mais uma vez advertido com veemência, sentindo-se cada vez mais afastado do caminho celestial prefigurado por Chang Tao-ling, mestre dos mestres, sábio maior entre os sábios. Sentia vergonha da sua conduta, pois andava de boca em boca como os ensinamentos de Lao-Tsé e do Daozang e bem o via no olhar trocista dos rapazes que à sua frente se distinguiam na filosofia e nas artes marciais.

– O caminho de cada um de vós há de levar-vos como tigres às montanhas mais altas, mas só alguns podereis alcançar o coração dos mortais e, como o vento, unir-lhes o coração de pedra às coisas que se encontram a seu lado. Esses, de entre vós, serão admirados por muitos séculos, pois é pura a sua sabedoria.

Yuan Chen aprendera a contentar-se com uma tigela de arroz. Zhou Zhao, por seu turno, sentia um grande desgosto. Jamais seria um “candil no meio da noite”, jamais compreenderia os mistérios a natureza e os segredos do universo, jamais alcançaria a beleza íntima das coisas. Era uma vergôntea teimosa e não um tronco direito, liso e leve.

E por isso escrevia. Por isso olhava a superfície dos fenómenos, anestesiando-se com o canto da água e o doce farfalhar do bosque, refugiando-se nas mínimas labaredas que a todo o momento deflagravam à sua volta. Queria ver: era nisso que se concentrava ultimamente. 

O PARAÍSO

O velho Malojo entrou na cozinha com as giestas secas e duas laranjas apanhadas pelo caminho. Roubar fruta não era pecado, pecado era deixá-la aos pássaros ou a apodrecer nos ramos. Dobrou as giestas de modo a caberem no fogãozinho e pôs-lhes lume. A névoa azul encheu a penumbra até à soleira, vogando entre as paredes mascarradas e o teto baixo. Depois colocou a cafeteira encardida sobre a placa de ferro, procurou o frasco da chicória e trouxe-a para cima da mesa. Possuía ainda o suficiente para duas ocasiões. Pão também lhe restava algum, assim como toucinho, e juntava a tudo isto as duas formidáveis laranjas trazidas da propriedade do antigo patrão.

Quando a noite vinha, gostava de ligar o aparelho de rádio e de se entreter com as notícias. Também gostava de chocalhar as ave-marias convencionais e de soltar as suas duas ou três lágrimas de cada novo dia. Ligou, portanto, o aparelho e pôs-se à escuta. Era a hora de ouvir e rezar.

Do outro lado do mundo, na realidade a somente duas centenas de quilómetros de distância, os craques da Seleção preparavam o desafio com a França. Ronaldo em dúvida constituía indubitavelmente o tormento do apressado jornalista. Sempre o fado dos portugueses, sempre o nunca poder contar com a sorte para nada, sempre a miséria de sofrer até ao último instante, a ver se sim se não. 

Depois, noutro tom, o mesmo jornalista fanhoso informou que prosseguiam as buscas da Judiciária no escritório de um conhecido empresário do futebol e na sede dos clubes mais importantes do principal escalão. A mesma descarada vergonha do costume, pensou o velho Malojo. Isto vai mal, a roda do mundo está empenada, uns a trabalharem por uma côdea, a terem em casa mulher e filhos para manterem, outros com categoria a pilharem milhões.

O velho Malojo não se dera conta ainda de que os pais de família já não sustentavam sozinhos o rancho e que as mulheres, entretanto, se tinham transformado em pais de família. E também que o Estado, o Estado que lhe enviava todos os meses duzentos e trinta e oito euros, fazia as vezes dos pais de família, sustentando o rancho, incluindo as mães e também os modernos pais de família.

Mas não teve tempo para lamentar o mau estado o futebol. A Renascença mudava o foco da atenção dos ouvintes, seguia para Fátima onde de seguida se iria recitar o terço.

O velho Malojo espreitou à porta. O céu admitia entre as suas tonalidades cores tão diferentes como o magenta, a púrpura ou o laranja, ou mesmo o negro-carvão de uma banda e na outra o azul celeste, o azul ferrete e de novo o negro, à medida que o horizonte se afastava do lugar do sol posto. Naquele barranco não morava mais ninguém. Ele era um eremita. Deus, Nosso Senhor, dava-lhe o bastante para sobreviver, para ser digno, para não alimentar ambições ou sobressaltos. De algum modo, pensava o velho Malojo, a sua vida era privilegiada, ele tinha tudo, aquilo era como viver no paraíso.

SALOMÉ

Foto: Erhan Dayi

Era a bailarina de que todos falavam. 

Graciosa, leve e desprendida, parecia bailar como um dente de leão pelos jardins numa manhã de maio. Chamava-se Ebba Lindberg, mas podia chamar-se Salomé. Possuía uma grande beleza e por causa dela impunha um enorme respeito. A beleza e a graciosidade costumam esmagam o coração dos que amam e às vezes também a cabeça dos que pensam. Havia entre estes últimos um rei, melhor, um rei e o seu filho. 

Esse rei podia, mas Salomé (ou seja, Ebba) podia ainda mais, porque se apoderara não só do coração e da cabeça do rei, como do coração e da cabeça do príncipe. Dir-se-ia que não apenas do afeto e do juízo destes dois, mas do coração e da cabeça dos súbditos, talvez não de toda a nação, mas seguramente da que nessa noite enchia os camarotes e a plateia da Kungliga Operan, em Estocolmo. 

O velho monarca Gustav escutava no foyer o entusiasmo do filho, que, indiferente ao incómodo crescente da noiva Margareta, tecia extáticos elogios à protagonista de La Sylphide. O intervalo felizmente não demorava muito. Ebba (Gustav teimava em recordar Salomé) bailava intensamente, como uma corola de papoila que se tivesse soltado do caule e fosse subindo sem custo a leve colina de um país inteiro. O ciúme roía as cordas a que Gustav se segurava. Era como uma espada de vento, macia e letal. O filho amado parecia-lhe simplesmente odioso, quando assim desafiava as regras sociais.

Chamava-se Ebba Lindberg, mas podia chamar-se Salomé. Graciosa, leve e desprendida, parecia nem suspeitar de como por sua causa cabeças rolavam, entontecidas, fascinadas.

SÓ QUERIA DORMIR

Foto: Vito Guarino

Olhada do quinto andar a rua era toda ela chuva. Chuva miúda, persistente, escorrendo nos vidros, dos telhados, debaixo dos candeeiros, contra as pernas apressadas das senhoras que entravam e saíam na estação de metro.

Ao tipo do 5.º D apetecia-lhe dormir, dormir indefinidamente. O asfalto molhado, o som dos pneus a cortar os charcos lá em baixo, o cheiro húmido na roupa deixada negligentemente no estendal, o facto de ter recebido más notícias do hospital funcionavam juntos como um comprimido dos fortes. Ao tipo só lhe apetecia cair de borco na cama, fechar os olhos e apagar-se. 

O telefone tocou.

Que porra. Quem seria? Fez um esforço sobre-humano para se erguer e aguentar nas pernas, caminhar até à mesinha da sala, apanhar o aparelho e atendê-lo.

Viu no ecrãzinho o número sem o reconhecer. O telefone continuava a tocar, as mãos pareciam encarquilhar-se-lhe sob o peso do objeto, a chuva esbarrava-se nos vidros, um cão ladrava, o elevador estremecia nos cabos, o telefone tocou mais duas vezes e, por fim, calou-se.  

Arrastando os chinelos, o tipo regressou à cama. O cinto do roupão dançava-lhe à frente, atirando-se à toa para aqui e para ali à medida que ele caminhava. Deixou-se cair na cama, puxou como pôde a roupa e respirou fundo. Era bom poder estar assim, enfiado naquele ninho como no ventre de uma mãe. 

Simplesmente alguém tinha urgência em falar-lhe. O telefone recomeçou a tocar. Que martírio trágico para a humanidade terem-lhe retirado o direito ao silêncio. Quantas vezes iria aquele energúmeno dispositivo amofiná-lo? QUANTAS VEZES? Teria de o rebentar todo? Mandá-lo janela fora?

O silêncio que se seguiu desta feita era diferente. Era um silêncio enervado, crispado, quase com ódio. Na sua existência de trinta e cinco anos o mais parecido que tinha visto com o seu íntimo desejo de silêncio eram as pinturas de Vilhelm Hammersøi Gostaria de viver dentro de paredes assim castas e caladas, iluminadas pela enxuta luminosidade de um sol matinal, lendo o seu poemário, ouvindo Bach, Barber, Chopin, Marcello, Schubert, pintando retratos da moderna civilização, bebendo whisky.

A sua paciência estava claramente a ser testada. No mesmo instante em que se levantava o vento e a chuva parecia salpicar a varanda, o telefone voltou a tocar. 

Desta vez a cólera acendeu um sentimento mais forte. Encaminhou-se para a mesinha, tomou conta do pequeno demónio e atendeu com toda a rudeza de que foi capaz. 

– SIM???

– Estou a falar com o Sr. Miguel Santos?

– ESTÁ A FALAR COM O SR. MIGUEL RODRIGO ALBUQUERQUE SANTOS. POSSO SABER PORQUE ME ESTÁ A LIGAR???

Era da contabilidade do hospital. 

–  QUANTO?!

– Trezentos e cinco euros e quarenta cêntimos… é um valor acumulado… respeitante a várias consultas, Sr. Santos. 

O tipo passou-se. Uma onda de calor atravessou-lhe a moleira, dava-lhe a impressão de que ia ter um AVC.

– PAGUEI TODAS AS TAXAS MODERADORAS. TODAS, MINHA SENHORA! MEXAM O CU E FAÇAM O VOSSO TRABALHO. NÃO ME FODAM A CABEÇA. VÃO PARA O RAIO QUE AS PARTA!

Havia num canto da varanda um canteiro improvisado onde se cingia meia dúzia de vasos com begónias. Foram lá parar os restos mortais do telefone. Pedaços de plástico e de borracha por toda a parte.

O tipo sentou-se. Empurrou o volume de uma Enciclopédia de Pintores Impressionistas para os pés do sofá. Deitou-se, puxou o cobertor. Que dor de cabeça. Era imprescindível respirar e acalmar-se. Procurou no bolso do roupão. Tirou um Alprazolam, engoliu-o e fechou os olhos.

O silêncio tornava cada móvel, o cavalete, os quadros guardados e cobertos com um lençol branco testemunhas angustiadas daquele sofrimento.

– Foda-se. Que farrapo!

La fora a chuva ensopava a tarde, reluzia por cima dos toldos e sobre o tecido dos guarda-chuvas, tornava o ar pesado, quase viscoso. Dentro as assoalhadas pareciam impregnadas pelo cheiro característico do mofo. Era de cortar os pulsos.

O tipo já praticamente roncava, anestesiado pelo miligrama do Alprazolam, quando o telefone se acendeu todo, as luzes esventrando as camadas de plástico resistente, o visor mostrando como uma boca desdentada somente metade de um número, o grilar rouco anunciando como podia uma nova urgência. 

Não podia ser verdade. Era mofa. O grande cabrão não morrera, ainda tocava do outro lado do vidro, moribundo, tinhoso, servil.

O tipo só queria dormir. Estava quase lá. Só precisava de um pouco mais de tempo, quase lá, de mais um pouco…

O NEVOEIRO

Foto: Mikael Stålsäter

Tinha chovido toda a semana. Quando os ossos de Lev Volodya começaram a palpitar de incómodo pôde assegurar com toda a convicção:

– Vamos ter muda de tempo.

Com efeito na véspera, ao princípio da tarde, a chuva parara e o vento tornou-se apenas um burburinho encanando aqui e além na rua. Ao crepúsculo notava-se já a humidade a subir do rio e do alcatrão, em grandes mechas vaporosas que roçavam as pontes, as estátuas, os postes elétricos, as torres altas das igrejas, os edifícios governamentais, as grandes antenas da televisão, toldando o céu num efeito de gaze ou algodão a esconder uma ferida.

Na manhã seguinte, toda a cidade tinha sido engolida pelo nevoeiro mais cerrado de que havia memória. Tão espesso e ubíquo que não se via vinte palmos à frente dos olhos. Saía-se de casa e ficava-se imobilizado. Os pés não se encontravam. 

Yelizaveta Dmitrievna, agasalhada no seu casaco polar, calçando luvas de pelica e botas altas, teve a sensação de estar dentro de uma pista de dança. O velho guarda-freios Maksim Krutaya, por causa da sua pequena estatura, quase anã, era só uma cabeça, andando para a frente e para trás como um carreto avariado. Esta imagem faria rir sem dúvida se o assunto fosse para brincadeira. A uns bons sessenta ou setenta centímetros do chão não se descortinava absolutamente nada.

Durante o dia a treva húmida e esbranquiçada acomodou-se ainda mais entre as formas, penetrou portas e paredes, colocou-se mesmo diante dos óculos do professor Vasily Grisha e da sua esposa, Mariya Irinushka, que não parava de os desembaciar, enquanto lia calmamente o jornal diante do samovar.

– Sabe, estou a tentar recordar-me da última vez…

Vasily Grisha calou-se assim mesmo, a meio da frase.

– Ora esta… Esqueci-me do que estava a dizer…

Mariya Irinushka não prestou atenção. Mas pouco depois, quando o telefone tocou e teve de indicar o próprio nome não foi capaz de o fazer. 

O fundo do corredor era uma vaga memória, como quando se olha de longe um caminho, no meio de uma charneca, entre cercas infindáveis de madeira. As fotografias dos filhos, das noras, dos netos, pareciam desbotar num grito silencioso de afogado. Que estranho!

Nessa noite, uma grande paz caiu sobre São Petersburgo. Embaçados e esquecidos das sólidas certezas, os olhos de todos preferiam voltar-se para dentro, descer escadarias mais arriscadas, procurar lugares de sol que apenas cada um por si podia lobrigar. 

ABSURDOS

Foto: Hans-Wolfgang Hawerkamp

A vida é repleta de absurdos, que a ficção dificilmente consegue imitar, explica a professora Margot Renouard. 

Um dos estudantes da plateia parece querer contrariá-la, redarguir que a literatura e o cinema e as artes em geral estão sempre um passo à frente, ou até dois ou três passos, provando que a imaginação humana é (além de criativa) pioneira, muitas vezes terrivelmente prenunciadora.

A cada frase do rapaz acena com bonomia, notando-se a subtil contração da pele na zona dos olhos, como sempre acontece quando se dilatam as maçãs do rosto. Não usasse a máscara, vê-la-íamos sorrir, saberíamos que tudo quanto o estudante disse (limitamo-nos aqui ao essencial) já lhe ocorrera antes, possivelmente já o havia pensado, sopesado, escutado noutras palestras (mais preenchidas de público e sem o distanciamento entre cadeiras que o vírus atual impõe a todos os atos públicos), já nelas não encontra qualquer novidade, já só aguarda que nessa questão (como noutras do foro da teoria literária), avance alguém da assistência para discutir o ponto, exigir uma clarificação, insistir na ideia de que uns mais, outros nem tanto, todos os que negociamos com palavras somos júlios vernes, h. g. wells, jonathans swifts, kafkas, etc.

A professora Margot retoma a palavra. Explica que à semelhança do lojista Roberto do filme Conto Chinês de Sebastián Borensztein (ninguém no anfiteatro o conhecia) coleciona recortes de notícias, repletos de absurdidade. Que se lembre, nos últimos tempos despertaram a sua curiosidade a história do camionista norte-americano que comendo pão, batatas fritas ou pizza fica completamente embriagado, em virtude de o seu atípico e defeituoso metabolismo processar os hidratos de carbono como se de litros de cerveja se tratasse. Achou imensa piada à história de Mairead, Joeline e Bernie, as três irmãs irlandeses que deram à luz no mesmo dia (Christina, a quarta irmã, teve o filho horas mais tarde). Surpreendeu-se com o rapaz vietnamita que nasceu com dois corações e com fim de vida de Philip Kahn, o homem centenário que tendo combatido na Segunda Grande Guerra morreu um século exato depois do desaparecimento do irmão gémeo Samuel, um vitimado pela gripe espanhola com poucos meses de vida, o outro levado pela maldição do coronavírus.

A professora narrou outros casos, antigos alguns, outros mais recentes, todos tocados pela arte do absurdo que o mestre Camus tão bem trabalhou, por exemplo em O Estrangeiro.

– No dia 11 de setembro de 2001, vimos pessoas a saltar das Torres Gémeas em chamas. Não digo que um escritor, ou um realizador, ou um artista plástico não pudessem ter concebido esta imagem antes de a termos visto nas televisões. Aceito que a tivessem encontrado na sua cabeça e que num dado momento a tivessem desejado plasmar nas suas obras. Soar-lhes-ia, porém, horrorosamente imoral, como se lhes acudisse a ideia de que só um monstro a poderia aproveitar. Talvez por prudência tenham acabado por autocensurar-se.

Nesta fase todos os ouvidos a acompanhavam.

 – A realidade, contudo, não se deixa prender a padrões éticos, simplesmente porque é amoral e não refém de qualquer medo, muito menos do medo das coincidências e da falta de verosimilhança. A realidade é fresca, viva, brutal. Acontece e pronto. Nesse sentido, quando muito continuaremos sempre a preferir imitá-la, como Aristóteles predicava.

Nem toda a gente no auditório concordará com a última afirmação. A professora Margot Renouard também nem sempre concordou consigo mesma e não é de descrer que venha de novo a questionar-se sobre o tópico. Um dos grandes absurdos do pensamento humano reside precisamente no facto de todas as certezas terem deixado de o ser algures para que tivessem voltado a sê-lo no futuro, verdades demolidas com que se edificaram axiomas complexos. Sempre assim foi. 

Nós também colecionamos recortes de jornal. Se para mais não servirem, prestarão para o lúdico, para o sarcástico, para o cómico desafio que as nuvens (idênticas a tudo e a nada) pedem a toda a hora.

A PESTE

Fotografia: Hamze Dashtrazmi

A peste rondava. 

Meses antes chegara ela, vinda de longe, às praias de Messina, baloiçando-se nos conveses, escondendo-se nos porões, guinchando pelo meio das cordas e por entre as frinchas das tábuas. Viera de longe e tão rápida, tão mortífera, tão devastadora nas suas múltiplas feições de aniquilar que as prédicas dos frades a vestiam como uma embocadura para o inferno. Aqueles que dela tomavam conhecimento pelos macabros pormenores trazidos na boca dos almocreves, pescadores ou mercenários vindos dalguma guerra vizinha, aterrorizavam e benziam-se.

– Glorioso mártir São Sebastião, protegei-nos contra a peste, a fome e a guerra; defendei as nossas plantações e os nossos rebanhos, que são dons de Deus para o nosso bem e para o bem de todos.

Dizia-se que em certa cidade de Aragão se metiam defuntos e enfermos numa grande cova comum e que sobre eles, indistintamente, se lançara toros e lume, ardendo os corpos e as labaredas tão alto que cresciam sobre as torres da catedral.

Narrava-se que nas vilas e aldeias do reino de Nápoles se faziam fumigações e não sabendo os vivos como lidar com as pilhas de mortos, os deixavam aos cães e estes morriam a seguir, tomados pela mesma espantosa praga, pustulentos, suados, cuspindo sangue.

Contava-se que nos arredores de Paris a fome grassava e não havendo que comer, nem quem pudesse cultivar os campos devolutos, sucumbindo uns ao furor dos inchaços, outros à negra miséria que por via da mortandade se abatia sobre todos, imperava a libertinagem, a ladroagem, a completa anarquia.

Caso de estarrecer eram os abomináveis atentados ao pudor. Entregavam-se ao deboche aqueles que, deixando de recear a lei dos homens, afrontavam as tábuas de Moisés e de tudo escarneciam, rapinando riquezas, subjugando damas, infamando a moral das indefesas almas que a Providência deixara de amar e cuidar.

Nunca, desde o Egipto de Moisés, se vira na Terra tal sanha ao Anjo da Morte. Nem nos tenebrosos dias de Job. Nunca os Quatro Cavaleiros do Apocalipse haviam ceifado tantas almas em tão escasso tempo. Exceto, talvez, no dilúvio. 

Mas aí foi tudo a eito, homens e bichos e ervas, tudo limpo e de uma só vez, sem as sórdidas repercussões e contágios que desta vez dilaceravam antes, durante e depois da enfermidade. Um deus escarninho, cruel e enlouquecido permitia que a sua criação chafurdasse na sua própria podridão.

Ia-se a empurrar uma carroça repleta de cadáveres e caía-se com ela e com eles, alagado em dor e espanto. Pousava-se um pano molhado na testa ardente de uma criança e ficava-se moribundo horas mais tarde. Limpava-se para uma tina a boca sanguinolenta de um velho pai ou de uma velha mãe e ficava-se saturado de bubões. Era o fim do mundo, que outra não podia ser a explicação.

O abade de Arões seguia com o pobre dedo tremente as linhas recebidas de um seu primo, monge beneditino em São Julião de Samos. A luz palidíssima do círio mal alumiava os doestosos e funestos acontecimentos narrados: o mal subira os campos da Toscânia, escalara os Alpes, viajara nos alforges e bornais dos mercadores, descera os Pirenéus, caminhara nas sacolas e sandálias dos peregrinos, chegara a Compostela e a Finisterra, às agulhas de Covadonga e também a Ourense e às Rias Baixas. Era uma questão de tempo até que se condividisse por todas as nações e reinos da terra.

Estávamos em setembro, tempo do vinho novo, tempo dos figos e das primeiras castanhas, tempo do mel e da própole, tempo das conservas e dos celeiros protegidos, tempo dos bacorinhos e das ninhadas de pintos, tempo da paz e da concórdia. Reinava em Portugal Alfonso, filho dileto de Isabel, a santa, e de D. Denis (ou Deliz, ou Dinis). Era arcebispo de Braga, Primaz das Espanhas, D. Gonçalo Pereira, filho de Gonçalo Peres Pereira e Urraca Vasques Pimentel. Era abade de Arões, Basílio Mendes, filho de Mendo Garcia e de Mécia Vaz.

– Deus Nosso Senhor, tenha piedade das nossas almas. Que o Seu dedo magnânimo e todo poderoso afaste de nós e desta terra os propalados males que aí virão. E nos guarde, como guarda a porta da casa do lobo sorrateiro, de tudo quanto se sabe e de quanto se espera. Ámen!