GRANDES HOMENS

Captura de ecrã 2018-11-11, às 15.28.00
Foto: Aníbal Augusto Milhais (“Soldado Milhões”)

 

 

 

 

 

 

 

 

Nas poucas conversas de café que vou mantendo com os escassos amigos, regressa amiúde a discussão em torno dos grandes homens.

Em primeiro lugar, surpreende a raridade deste tipo humano: ainda não há muito, na infância ou na puberdade, os havia por aí em todas as casas e eiras, malhando no ferro ou abrindo a terra, porque não era forçoso que se comandasse exércitos e nações, ou se escrevesse sobre o futuro da humanidade, para que se pudesse ser um grande homem. Julgo que aos poucos os mortos os levaram consigo, deixando-nos o implacável papel de os substituirmos e de mantermos acesa a sua memória.

Em segundo lugar, a opinião do que possa ser um grande homem nunca é unívoca ou consensual, exceto talvez num ponto: a marca que ele deixa nos outros mede-se pela distância de anos entre a dor da sua perda e o contentamento da lição que nos deixou. Decerto um de nós citou a frase, que leu nalgum livro importante, e com ele sintetizou um pensamento harmonioso.

Em terceiro lugar, admito que as nossas discussões, além de muitíssimo interrompidas, são injustamente machistas, porque os grandes homens dependem de grandes mulheres e normalmente elas não estão por perto nestas discussões, onde (tenho a certeza) deplorariam o narcisismo e a ingratidão, a falta de visão histórica, a ausência de sentido prático, a vacuidade dos discursos.

Numa das nossas tardes de sábado, um idoso levantou-se da sua mesa, aproximou-se, pediu licença a nossas senhoriase, corroborando a visão do Saldanha, que recordava o avô Mendo, um grande antifascista, explicou-nos a sua teoria sobre os grandes homens, enquanto lhe lacrimejavam os olhos e o devastava uma espécie de asma sem fundo, que o obrigava a falar com grande sofrimento:

– Permitam-me os senhores que lhes conte qualquer coisa sobre um grande homem, um sujeito que me salvou a vida três vezes em poucas horas.

Cada um no seu lugar, no seu modo sonoro e gestual, no seu estilo bonacheirão ou desajeitado, desejou não escutar a longa história que se adivinhava.

– Os senhores são muito novos. De certeza que não sabem que eu sou… Mas já devem ter ouvido falar de mim. Sou Honório de Sá!

O desconforto cresceu. O nome não produziu senão um eco áspero. Tremelicando, o velho sorriu como quem tivesse percebido que ninguém ali dava o devido valor à sua pessoa.

– Eu fui o único soldado destas bandas a voltar da Guerra de 14. Consegui escapar dos alemães, em Armentières, depois de La Lys e fui o único a regressar à terra. A Guerra foi um desastre, mas nós mostrámos coragem, senhores! Mostrámos muita galhardia!

Uma vaga de ternura avançou pelos olhos entrincheirados do ancião. Rostos e imagens do passado deviam estar a subir-lhe à superfície, pois não reparou que lhe entregávamos uma cadeira para se juntar a nós. Sempre de pé, fincado no castão da bengala, pedia auditório.

– Quando fui para a guerra, a minha irmã mais nova disse-me que eu havia de voltar porque lho dissera em sonhos a alma da nossa mãezinha. Daqui destas bandas arregimentaram-se mais de duzentos moços, todos muito novos ainda, solteiros, casados, muitos com a boda assente, alguns com filhos pequenos. Foi uma debandada, senhores! Éramos todos lavradores, rapazes do campo, que vieram arrancar aos pais para os enfiar na guerra!

A princípio levaram-nos daqui para o Porto e mais tarde para Tancos, onde conheci o Milhais, ou Milhões… Já ouviram falar do Milhões? O mais bravo lutador português que existiu, senhores… Em Tancos não havia fome, mas era treino duro de manhã à noite. O Norton de Matos queria-nos prontos para as trincheiras e no final de 17 lá embarcámos para a guerra. Aos milhares, senhores, nas flotilhas dos ingleses… A mim puseram-me nas transmissões, na Companhia de Telegrafistas do Corpo Expedicionário, porque tinha a instrução básica toda e aprendera Latim com o Cónego Vieira, muito amigo de meu pai e que me quis levar para o Seminário…

Lá na fronteira da França, aquilo era um metralhar a toda a hora, canhões, obuses, morteiros. E então, sim, a puta da fome. Aquilo era uma fome de roer os ossos por dentro. Não fazem ideia da fome que nós tínhamos ali, enfiados na terra como as toupeiras, evacuando e urinando no sítio onde metíamos à boca a pouca e má vianda que nos davam.

Mas os alemães devolviam-nos a vontade de viver, senhores. Aqueles demónios faziam-nos buscar forças onde as não tínhamos. Passávamos tudo, mas não dobrávamos a espinha, porque eles vinham por aí abaixo, se não os travássemos. Vinham-nos buscar as mulheres e as irmãs. E era assim que lhes virávamos os fuzis das baionetas e os matávamos quando podíamos como quem se desforra da própria fome de morte… Não fazem ideia os cavalheiros da nossa alegria quando matávamos um desses desgraçados!

No café junta-se mais o grupo para lhe escutar a narrativa. O funcionário esquece-se da bandeja. Faz-se silêncio.

– Na madrugada de 9 de abril de 18, uma terça-feira, vejam os senhores como a memória me não deixa ficar mal, começou a batalha em Calais. Nós sabíamos que a guerra em começando era uma questão de dias, porque não dispúnhamos de armamento. Aquilo era uma aflição. O melhor que tínhamos era a Lewis, mas a maior parte dos soldados usava carabinas, a Kropatschek. Os ingleses tinham melhor armamento, mas nada que se comparasse ao armamento dos alemães.

Logo às primeiras horas do dia veio uma chuvada de morteiros que nos quebrou os ouvidos. Foi um martírio, ninguém se entendia no meio dos rebentamentos e na trincheira eram bocados de corpos por todo o lado…Um dos que ficou ali sem braços era meu amigo de criança. Vejam os senhores a carnificina e a dor que me saltou aos olhos, ao ver ali desfeito o Zacarias, o nosso Zacarias… Os alemães tinham a MG08, uma arma terrível, senhores. Aquilo era uma sucessão de tiros, que nunca acabava. Vi muitos dos meus amigos tombarem crivados das balas dos grandes filhos da puta!

Sei que quando o sol começava a querer mostrar-se só se via colunas de fumo e labaredas, como só as há de haver no inferno. Levei com uma bala no pescoço e fiquei enterrado no meio da lama. E lá asfixiaria, se não me valesse o Milhões. Já lhes conto! Esse bravo levou-me em ombros e salvou-me da morte certa, quando por mim passavam as botas dos meus companheiros e me enterravam naquele chafurdar de sangue, tripas, dejetos, pedaços de carne, roupa queimada. Enfim…

Médicos havia-os poucos, e todos lá trás, na retaguarda. O Milhões levou-me como a uma criança, arriscando a levar com uma rajada nas costas. Eu estava muito mal. Veem esta cicatriz, senhores? Foi aqui que o chumbo entrou! Ele é que me não deixou ali. Pegou em mim e levou-me à enfermaria e obrigou um médico francês a dar-me cuidados.

Éramos para ali uma cambada de mutilados e moribundos. Os da Cruz Vermelha não tinham mãos a medir, coitados. Berraram-lhe qualquer coisa, mas o meu amigo, o melhor soldado da nossa história, senhores, não desistiu de mim. Tapou-me o buraco com o lenço que tinha, da noiva, senhores, e não deixou que me esvaziasse o sangue…

O velho tropeça agora nas palavras. Galgado o dique da emoção, as palavras saem-lhe em jorros. Precisa de assoar-se muitas vezes, de limpar os piscos olhos encarnados.

– O safado do Milhões safou-me, ouviram? Empunhou o punhal que levava e apontou-a ao pescoço do doutor. No meio daquele pandemónio, que lhe importava ao francês safar este ou aquele? O safado era mesmo assim. Um amigo como não tive outro na vida, e lá me salvou a vida outra vez. E não contente com isto, tornou a rastejar para o sítio donde viera e ali ficou até caírem todos para o lado. Saibam os senhores que o desgraçado ficou sozinho na trincheira a metralhar contra os alemães…

O narrador dá agora uma risada engasgada de lágrimas, coisa sui generis, o ronco da gargalhada e o do choro misturados, ou então um só e mesmo ronco…

– A batalha estava perdida. De uma maneira ou de outra, estávamos perdidos, que eles mais que nós e tinham armas… Nós não tínhamos nada de jeito… baionetas, senhores, carabinas de ir ao monte à caça do lebrão.

Depois, quando os alemães chegaram, berrando muito, eu estava numa maca, sumido, tomado de febres. Não entendia o que diziam. Alguns queriam disparar sobre nós, mas um cão maior mandou os soldados meter os doutores e enfermeiras num camião e deixaram-nos assim, ao deus dará, no meio de nenhures.

Éramos um ror de feridos, gemendo… Os que podiam andar levaram-nos eles a todos, em fila, como a bandidos, dando-lhes coronhadas e cuspindo-lhes. A nós, os aleijados, deixaram-nos os bochesentregues à morte, assim, daquela maneira…

O café era um respirar só. Alguns conhecidos de pé, muitos sentados, escutando. 

– Mas o tratante do Milhões tinha de aparecer outra vez. Apareceu com um médico estrangeiro, um ruivo. Soube-se mais tarde que também a ele o tinha salvado da morte certa. Ora vejam só se isto não é a mão de Deus! O homem a morrer e o Milhões aparece-lhe, deita-lhe a mão, salva-o de se afogar e depois apanha-me no meio de nenhures, a tremer da febre, e é o médico estrangeiro que me salva a mim e a outros… Muitos morreram à mesma, antes que chegasse socorro…Mas a mim, o Milhões salvou-me a vida pela terceira vez…

Saibam os senhores que se não morri e aqui estou é por causa do Aníbal Augusto Milhais, esse grande homem, o maior que conheci desde que vim ao mundo no tempo dos reis, em 94…

Estranha mistura de sentimentos. De um lado e de outro da mesa, os homens menearam ligeiramente a cabeça, admirados; cumprimentaram o velho, abraçaram-no com ternura, apertaram-lhe a mão. O ruído regressou como sucede no despertar de um devaneio ou no final de um filme. Havia cavalheiros a levantar-se e a arrastar a respetiva cadeira, outros pagando a conta, alguns conversando paralelamente, lembrando histórias da Guerra em África, cenas incríveis, lances de heroísmo comparáveis aos do Soldado Milhões.

Por fim também eu me aproximei para cumprimentar Honório de Sá, para lhe expressar qualquer coisa como um indefinível agradecimento.

– Bela história e porém terrível, senhor Sá. Não há dúvida que me tinha enganado a respeito dos portugueses. Parece que nas horas de aflição mostram afinal o que valem! Foi um prazer enorme conhecê-lo, a si e a esta edificante história!

O ancião saiu por fim, na companhia de um rapaz, porventura seu descendente. Não voltámos a vê-lo.

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O DOMINGO ESTÁ PRESTES A FECHAR

Lars van de Goor
Foto: Lars van de Goor

 

Apresento-me à entrada do bosque como fiz durante anos por esta altura. O cão segue-me, farejando com o contentamento eufórico deste regresso dos dois a um lugar de ambos.

O bosque é o mesmo e é outro. A nostalgia faz crescer em cada uma destas grandes árvores uma sombra mais triste. A ausência parece irreparável, como se em mim algo me não perdoasse os muitos dias perdidos, a indiferença, o envelhecimento.

Já quase é noite. Convém a intrusos como nós que assim seja. Vimos saquear o ar frio, tomar de assalto a terra húmida, esmagar o corpo inteiriço das bolotas num horror de insetos esmagados, invadir junto com o alvoroço das gralhas as mesmas neblinas que descem até ao rio, até às ruínas do moinho onde tantas vezes a lua me pareceu arder sozinha num poema por escrever.

Sou um melancólico, assumo.

Vou atrás do Nilo. Ele saberá guiar-me pelos mesmos lugarejos musguentos de outrora. Quem sabe, mediar a reconciliação do homem com o espaço. Sigo-o sem uma fala, como um penitente, arrependidíssimo. É domingo e eu fujo, fujo de mim mesmo, vazio e repleto, voltado do avesso, entrando num lugar onde a lanterna mal alumia e tudo é uma luz.

Acabei um livro, venci uma doença, ensinei a uma fornada de alunos mais, amei e fui amado, amo e sou amado, vejo à minha volta o contorno de cada coisa e de cada pessoa, reconheço em mim o poder de fazer mexer algo, de empurrar um ramo, de pontapear uma pedra, de ultrapassar um regato ou uma lamaçal. E, no entanto, sinto-me um saco vazio, uma boca e um ouvido escancarados para o abismo, um par de pernas e de pés caminhando num modo de autómato para o negrume.

Sou um lamechas, admito.

Neste preciso ponto da caminhada, acocoro-me para erguer uma folha de carvalho: o halo incide sobre as nervuras, os dedos seguem o recorte, percorrem cada uma dessas linhas radiais, regressam à grande estrada ao centro. Centenas de outras folhas iguais, de um tom indeciso (vermelhas, douradas, castanhas, alaranjadas) cobrem o chão e são cobertas pela líquida itinerância dos vapores noturnos. E eu penso que todas (centenas, milhares de folhas juncando o chão) são a metáfora das nossas vidas, cada qual uma história, cada uma qual história distinta, com os seus episódios principais e secundários e terciários. Todas caídas, outonais, derrotadas pelo mesmo sopro que nos sepulta e torna anónimos recortes amontoados no bosque umbroso da história.

O cão ladra. Reclama a minha presença agora que descortinou o fio perdido de um qualquer novelo temporal. Sigo-o. É domingo. É noite cerrada. Odeio os domingos. Preciso de andar sempre com uma lanterna ligada aos domingos, como se tudo à minha volta fosse tão de breu como de breu é o âmago deste bosque.

Sou um insatisfeito, reconheço.

Fujo muitas vezes de mim. Fujo para uma autoestrada, para uma saída sem nome, depois para uma estrada de terra batida, até ser impossível fugir mais. Fujo como os dedos fogem pelas nervuras de uma folha de carvalho, cheio de uma terrível utopia, saturado de boas e péssimas decisões.

O cão envelheceu terrivelmente. Mesmo sem o ver, adivinho-lhe o pelo áspero, desarranjado, em tufos. O caminhar incerto. As orelhas descaídas. O focinho encarquilhado, esfolado. É o mesmo e é outro, ainda que repetindo os passos exatos das outras vezes, dos tempos em que se aventurava a trepar os muretes divisórios e a penetrar as luras sob as grandes raízes das faias.

Já quase é inverno. O frio de novembro não é brincadeira nenhuma. Agarro-me ao casaco com o ar desesperado do náufrago que encontrou uma tábua. O bafo é agora mais branco, como uma cortina breve. O domingo está prestes a fechar. Ao fim de tanto tempo sou eu quem me não me reconhece. A lanterna acendeu a lua. Ela veio. Salvar-me talvez. Escrever com a sua voz sublime o que as palavras estão querendo dizer. E não sabem ainda.

CONVITE

convite bom

Caríssim@s amig@s,

O meu abraço, antes de mais!

Depois de um período de sete anos sem publicar, partilharei neste final de 2018 O Moscardo e Outras Histórias, um livro de ficção que reúne 86 contos, numa viagem que principia no Rijksmuseum, em Amesterdão, e termina na Casa de Saramago, em Lanzarote.

O lançamento do livro terá lugar no Auditório da Biblioteca Municipal de Fafe, no próximo dia 17 (sábado), pelas 15h30, cabendo a sua apresentação a Paula Morais, professora e investigadora que também o posfacia.

Honrar-me-ia sobremaneira a vossa presença nesta sessão!

Saudações amigas,

João Ricardo Lopes

O HOMEM MUITO TRISTE

sadness, o homem muito triste
Foto: Miroslav Mominski

Cruzo-me com este homem quase todos os dias no caminho para a escola. No ângulo de cimento de um murete, acompanhando a curva apertada de um caminho secundário, ocupa com a sua sombra todo o lado esquerdo do vidro do carro, e tão singular a sua comum figura que nunca resisto a deitar-lhe, muito de viés, uma mirada curiosa.

É um velho triste. Apoiado numa bengala (seria mais correto admitir que a bengala se tornou um grande braço caindo na terra), lança o rosto num movimento de rede, como quem não sabe se vai ou o que vai apanhar do dia. Julgo que me vê passar e que me não vê passar. Porque gasta os dias a olhar sem ver, fixado num ponto onde nenhum automóvel chega, nem decerto nenhuma mirada curiosa e comovida, a bengala debaixo da mão como um pilar muito hirto, pensando quem sabe, quem sabe lembrando, quem sabe cismando na curta viagem entre a infância e essa idade de tão frias e de tão feias emanações.

É um velho triste. Barba branca e rala, aguçando o queixo numa expressão inquisidora. Pele tão velha como a boca velha e escancarada, que parece arfar. Uma máscara. Todo ele numa expressão que tanto se diria alheada, distante da realidade, como nela achando e arregalando uma epifania.

O carro leva-me por lugares que me dão muitas vezes o primeiro verso, a primeira linha, a primeira impressão de uma fotografia. Às vezes, como aqui e agora, ao interceptar este ancião, sinto uma cobardia inexplicável. Finjo que não percebo o que é óbvio, que não toco o que palpável. Ponho-me a mexer nalgum manípulo, troco de estação de rádio, fiscalizo criminosamente o ecrã do telemóvel. Aquela expressão triste do velho, porém, está lá, entrou, já me não permite evasivas. Volto-me, esforço-me por não olhar, mas zás, olhei-o nos olhos! O carro já me pôs noutra rua, noutra estrada, noutro ângulo de outra luz.  Mas aquela expressão de casa abandonada enche-me o vidro dianteiro. É inútil fazer de conta. É ridículo. É, provavelmente, hipócrita e cruel.

Ponho-me em devaneios morais. E, se em lugar de acelerar, eu encostasse, me apeasse, lhe propusesse um cigarro, quisesse saber o nome, lhe escutasse a vida? Se, em vez de fingir que o dever me chama muitos quilómetros à frente, admitisse que me chama aqui o dever de confortar, de saber, de vestir pele humana  e tripas humanas, cabeça humana, coração humano?

É um velho triste. Encontro-o rodeado pelas mesmas casas solitárias, pelas mesmas ervas bravas, pelo mesmo céu mortiço, junto ao mesmo alcatrão sujo e irregular. Uma cena de meia dúzia de segundos, enquanto o carro resfolega e ao longe uma sirene apita para a mudança de turnos. Dou por mim a observá-lo pelo retrovisor, como quem se dá conta que a oportunidade passou, que a separar o futuro do passado há uma estreitíssima ponte,  o presente não existe, braços e tronco vergados, lá atrás, como se ameaçasse despenhar-se, estilhaçar-se, partir-se todo, lá muito atrás, mal se vê agora, como se somente a bengala se importasse, agora é um pontinho, a reta levou-me a uma rua mais larga, uma lomba, agora já não se vê, uma subida, uma curva, e zás, já o horizonte é outro.

É um velho tristíssimo. A cena repete-se. Fica-me no vidro, junto com o cadáver dos mosquitos e a meia-lua do pó. Sou forçado a rememorá-la, preso a um remorso que os outros perdoariam, mas eu não perdoo.

Acabo por esquecê-lo, assim que retiro a chave ignição e me lanço numa corrida para a porta da escola, em cima da hora, sempre a pisar o risco, homem livre, homem preso, cheio de fé e sem fé. Caminho com o rosto um pouco levantado demais, olhos num ponto indecifrado do infinito, incapaz de pensar no que quer que seja.

Antes que o pergunte a mim mesmo, respondo: não, não sei porque tem de ser assim!

CRÓNICA UM DOMINGO DE OUTONO

Yvette Depaepe
Foto: Yvette Depaepe

 

Foi bom ter vindo.

É sempre bom chegar a esta praia, desagrilhoar-me do carro, seguir longamente pela marginal, pedir nesta e em nenhuma outra casa um café tirado, bebê-lo às escondidas do mar, deixar-me em paz, como um desses áceres ou plátanos da anterior avenida, com a sensação de que sou um derrotado mas um herói, cansado mas digno, silencioso mas cheiinho de palavras (às quais dou ordem para se absterem, enquanto o café aquece), descontente mas satisfeito, sem pressa mas ansioso por regressar ao cheiro forte da salsugem. Regressar é sempre bom, ótimo, revigorante.

«Deseja mais alguma coisa?»

Desejo, sim. Em primeiro lugar, libertar-me da gente estúpida (é impressão minha, ou a gente estúpida vem sempre morar para o pé da nossa porta?). Em segundo lugar, prender-me definitivamente aos gestos de excelência, às pessoas maravilhosas que os sabem interpretar, como essa garota que me não sai da cabeça, cuja história me repetiram há dias.

«Olhe, professor, então não é que um desses meninos com trissomia se apaixonou por ela! Todos a fazerem troça no recreio e ele a chorar. Então, a garota foi ter com o menino, limpou-lhe as lágrimas, abraçou-o, deu-lhe a mão e levou-o…»

Gosto de vir também por esta razão. Para estar comigo, para pôr estas narrativas na ordem (a nossa cabeça é um caderno caótico), para descortinar lógicas submersas nas máscaras que as coisas vestem todos os dias.

«Aqui tem o seu troco, senhor…»

Gosto da sensação do frio, da brisa veemente que me faz inchar o casaco de náilon e me enche o rosto com salpicos de espuma. Gosto destes prédios à retaguarda, calados, inofensivos, como molduras de vinhetas de banda-desenhada. Gosto destas palmeiras baloiçando, baloiçando agora e sempre que aqui estou, fazendo-me sentir em território amigo, mesmo se o outono obscureceu já demasiadamente a paisagem.

«De modo que a rapariguinha, esta mesma de que estamos a falar, teve um acidente na sexta-feira à noite. Um horror…»

Os ténis têm, é incrível, o seu modo automático de me guiar, de me levar sem que os sinta. Nem dou pelos semáforos deixados para trás, do paredão e dos pescadores solitários, do farol, das rugas de água verde acinzentadas (além quase negras), que crescem e se desfazem no molhe, pelas gaivotas que me vistoriam com o seu movimento circular, pelas folhas de jornal com restos de castanhas assadas que civilizadamente algum transeunte deixou de presente ao mundo.

«A coitadinha tirou carta há tão pouco tempo. O carro ficou debaixo de um camião, todo desfeito, professor! Morreu logo ali! Uma rapariguinha tão boa, tão educada… Um horror!»

Nem damos conta.

As palavras atam-se-nos com perícia. Por mais que as expulsemos, elas têm um modo muito seu de voltar. E nunca vêm sós. Trazem imagens, memórias, cenas inverosímeis. Como este magote que se acotovela do lado de fora da janela da mercearia, onde o senhor da funerária cola o fúnebre papel debruado de preto, com a sua cruz, com a foto, com o nome da rapariguinha bonita, com as informações imprescindíveis, com a dor da família enlutada.

«Sempre lhe digo, professor: vão os melhores e os filhos da mãe ficam, nunca lhes acontece nada… Passam sempre entre os pingos da chuva… Não percebo!»

Não demora a chuva.

Gosto deste lugar, do modo como a cabeça se me enche aqui de vazio. Nem damos conta de como a cabeça precisa tanto do vazio, tanto do silêncio, tanto da sombra, tanto de se apagar como se apaga às vezes o azul do mar debaixo de nuvens tão carregadas de dor como estas nuvens aqui!

«Tenho muita pena deste rapazinho deficiente, nem imagina! Ainda não percebeu bem o que sucedeu à amiga…»

É sempre bom caminhar sem destino, o casaco mais apertado, a tarde levando-me para muito longe (nunca sei para vou nestas tardes em que me vejo sem âncora), o frio lavando-me, a cabeça cada vez mais leve, os ténis voando (em breve estarei noutra dimensão), o mar sempre ao lado, o mar correndo quem sabe, às tantas, dentro de mim.

O MOSCARDO

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Acabar um livro é uma pretensão inútil. Um livro não é acabado nunca, pela simples razão de que o autor o rescreveria mil vezes se tivesse oportunidade e paciência, pela mais correta razão de que o leitor (juiz absoluto) o há de ler de um modo em que lhe pareça sempre mais acertado, mais correto e mais perfeito, pela definitiva razão de que o tempo o recontextualiza, o mantém em aberto (mesmo que pareça fechado), agitando as suas palavras, as suas ideias, o seu alcance…

E, por isso, me parece quase doentio que tenha sofrido nas últimas semanas para concluir, terminar, encerrar O Moscardo. Pede-mo a gráfica (em desespero de causa, que os prazos são imperiosos). Pede-mo a família (contagiada pela loucura e pelo cansaço das minhas sucessivas correções). Pedem-mo os amigos (desejosos que a promessa de anos se cumpra e os contos vejam a luz do dia – que a da noite, a luz das lâmpadas e a do ecrã do computador, já eles têm por mãe neste demoradíssimo parto). Pedem-mo os colegas de escola (para quem estes textos serão, assim esperam eles e eu, motivo de análise e de estudo e, mais ainda, de entretenimento e deleite nas aulas). Pedem-mo a minha consciência e a minha vontade e o meu orgulho, seguros de que chegado eu à idade de quarenta e um anos devo acreditar no que acredito sem reservas e contaminação, valendo isto para O Moscardo como para o enorme resto de que a minha vida é feita.

Arrisco a frase: acabei há cerca de uma hora a derradeira correção. E, com ela, ou depois dela, guardo a terrível sensação de que as 274 páginas aquilatam muito e muito pouco! E não é falsa modéstia, nem oxímoro gratuito, nem obsessão. É antes a manifestação em mim do quanto poderia ter escrito em vez daquilo. É a angústia de saber que mais uns meses e talvez pudesse chegar a outro lado, não diria a uma obra-prima, mas a uma obra-irmã, dando à voz que discorre nas 86 histórias uma maior ousadia, uma volúpia mais sublime, uma atenção mais apaixonada sobre o objeto do seu interesse. O único mérito que julgo ter-me escapado aqui e acolá: a coragem de se despir integralmente!

Para o bem ou para o mal, O Moscardo voará. A partir de agora, deixa de estar nas minhas mãos.