CALETON BLANCO

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viajamos no tempo quando nele se equivoca o corpo, revendo-se no acontecido, ou porventura antecipando-o. grande enigma, porém, é a sensação de regresso aonde nunca se esteve, como este asfalto interminável em linha reta (uma lomba além, outra mais longe ainda), esta mole de lava e lapili, esta areia branca em pequenas dunas até ao mar (mais branca onde o basalto é mais negro), este verdeazul da água que agora mesmo me parece um convite libidinoso, assim tão calçado e tão vestido eu, grande enigma será, porque me sinto de novo em casa não a tendo antes conhecido, e ainda a viagem não acabou. chega-se a Caleton Blanco por estraditas empoeiradas, entre filas de automóveis e jipes estacionados onde calhou. é-se recebido pelo flamenco, pelo cheiro bendito da carne na grelha (famílias inteiras à roda das salsichas, do entrecosto, das costeletas), que um pai, um tio, um avô diligentes manuseiam com a arte, acompanhados sempre da inevitável Tropical,que outras mãos, zelosas, lhes municiam, ou que vão buscar à geleira, essa também parte do ritual. repito que me parece isto uma viagem no tempo e que viajamos no tempo quando, como aqui, nos parece a ida à praia uma grande festa e a não incomodam os anúncios publicitários nem o velhaco snobismo de quem a transformou num estado social, onde a carne rescendente, a música popular e as famílias inteiras já não são bem-vindas nem cabem onde a vaidade e o pedantismo ergueram restaurantes com estrelas Michelin e resortsà prova de pobres. em Caleton Blanco a soberba água transparente e cálida, de um toque aveludado que nos faz estremecer, ainda é de todos e, também por isso, viajamos no tempo, também por isso fotografamos o que por instantes nos parece um paraíso quem sabe gozando derradeiros dias tranquilos. é uma da tarde. prosseguimos viagem. uma tabuleta indica-nos Órzola à direita, Arrieta em sentido oposto. o aroma da carne grelhada persegue-nos alguns quilómetros. sentimos fome. uma fome descomunal

Caleta de Famara, 26.08.2018

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LOS CHARCONES (PLAYA BLANCA)

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depois de atravessarmos, a pé e debaixo de um sol inclemente, uma vasta planície de terra árida, onde cicatrizam sulcos de chuvadas distantíssimas no tempo e piroclastos repletos de pó (aqui e além um desses prodigiosos arbustos carnudos, nascidos e crescidos rente ao chão, acizentados e em forma de cato), chegámos ao hotel em ruínas. dizes-me que aqui moraram os ciganos. e de facto a cerca de arame foi derribada e nas varandas postas portadas de madeira, estores, pequenas peças de mobiliário, provas de um improviso de vida que víramos já lá atrás, em restos de fogo no meio de pedras que para esse fim terá juntado quem aqui pernoitou. nunca terminaram este edifício, que alberga aos ombros, como o gigante Atlas, um pedaço do mundo. estamos na costa, o oceano bate com ímpeto nas rochas, rochas tortuosas, em cujas arestas pomos os pés em modo de degraus, descendo com prudência até ao lugar que me querias mostrar. chamam-lhe Los Charcones e é esplendoroso. a maré baixou, as cavidades sem água rutilam com os estiletes do sal, de um branco que fere os olhos. mas a beleza a que me trazes é outra, são estes olhos que a toda a volta impressionam, pequenas lagoas de um sem-fim de verdes graduados, profundos, como vidros para as entranhas do estranho mar que neles se encafuou, vertiginosos anfractos que não paramos de fotografar e entre os quais caminhamos com um arrepio. isto é bonito, não achas? julgo que sorrio em vez de responder-te, um pouco embriagado, vendo o azul e o verde digladiar-se num empenho de espuma e de espanto. é meio-dia, o sol bate-nos em cheio, não sei bem em que planeta 

Caleta de Famara, 29.08.2018

MIRADOR DEL RÍO (LANZAROTE)

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para a Catarina

entre as escarpas e os talhões de terra vulcânica, há uma estrada limpíssima, bordejada por um contínuo muro não muito alto de pedra basáltica, perfeitamente geométrico e a perder de vista. de um lado o oceano, em baixo, e a mansuetude da ilha Graciosa. do outro lado, a terra ocre e os retângulos frisados desse chão de grânulos negros onde os nossos sapatos caminham com dificuldade. ao fundo, a encosta imponente do La Corona. são sete da tarde. O nevoeiro sobe rapidamente do mar, galgando os píncaros e atravessando à nossa frente a estrada de que falo. ocultado e desocultado no vapor, o sol deixa tudo a contraluz: e é a beleza das imagens assim nascida da neblina, a silhueta dos nosso corpos depurada, a distância tão breve do abismo, o som das vozes que aparecem e desaparecem, que se desvanecem ao longo da estrada, é esse instante antes do crepúsculo, acima das origens, o que fica

Caleta de Famara, 24.08.2018

VERÃO, UM COLÓQUIO A MEIO DA TARDE

Richard Bland
Foto: Richard Bland

 

– Aqui tem o seu troco, senhor.

– Não, não. Guarde-o para si. Faça o favor!

Era um punhado de cêntimos. A rapariga agradeceu e recolheu-os sem entusiasmo.

– Você é muito generoso, Gustavo!

O cavalheiro balançou o copo de conhaque, visivelmente envaidecido. Disse apenas:

– É uma questão educacional. Fui ensinado a obsequiar aqueles que me servem.

Cortou com os dentes a ponta de um charuto e principiou a procurar nos bolsos.

– Como lhe estava a dizer, Gustavo, o meu filho mais velho trocou inesperadamente a filial de Aberdeen pela de Vancouver. Tão impulsivo aquele rapaz!

– Ah, sim?

O cavalheiro fez estalar um no outro, como se tocasse castanholas, os dedos médio e polegar. Outra rapariga aproximou-se.

– O mais novo vive agora no Dubai. Veja só que há menos de um mês tinha ido para Melbourne. Foi tudo de repente…

Num gesto interruptor, que poderia entender-se como «Só um momento!», o cavalheiro inclinou-se para a funcionária e sussurrou entre outras a palavra «lume». Ela retirou-se depois de ter esboçado ao de leve com a cabeça o meneio de anuência.

– Muito me apraz. E o Bernardo? Como anda ele?

A mulher deslizou uma mão repleta de anéis pelo cabelo loiro, encarando-o com um sorriso.

– Ora, Gustavo. Você quer lá saber do meu marido… Não finja interessar-se por aquele traste!

A primeira das raparigas poisou uma caixa de fósforos na mão do cavalheiro, que a observou com ar desconfiado.

– Sabe, Gustavo: sonhei consigo uma noite destas…

O cavalheiro deitou-lhe uma mirada, enquanto, sem sucesso, desperdiçando um atrás de outro os pequenos paus encerados, se esforçava por incinerar as folhas de tabaco, que mastigava com sorvos veementes.

– Olhe, Gustavo, sonhei que os nossos dedos se encontravam debaixo dos lençóis e que você me puxava para si, como fazia antigamente…

– Maldição!

A mulher estremeceu, surpreendida pelo vozeirão. Do lado de dentro das vidraças, uma terceira funcionária, que acompanhou sem querer a cena, soltou uma risada.

–Maldição! Que estupidez: queimei-me!

– O meu filho mais novo é tão parecido consigo. Imagine só que…

– Menina, faça o favor!

A funcionária divertida, entretanto recomposta, acercou-se do empresário Gustavo Herédia para se inteirar do pedido. Este, que molhava o dedo chamuscado com saliva, devolveu a caixa de fósforos e pediu por favor (disse «por favor» num tom desprovido de qualquer cortesia) um isqueiro.

A rapariga não sabia se tinham um isqueiro. Toda a cafetaria trabalhava há meses só com equipamentos elétricos. A caixa de fósforos fora já «uma sorte» ter sido encontrada numa gaveta.

– Veja só, Gustavo. As modernices só nos arranjam complicações…

O cavalheiro bebericou o conhaque, fazendo arquear as sobrancelhas espessas num modo que podia ser lido como de dúvida em relação à qualidade do que bebia.

Canteiros de margaridas comuns ornavam o pátio. A esplanada não era sequer grande. Ocupava o terraço da parte sul do complexo desportivo. Podia ouvir-se nela, por exemplo, o tap-tapdas bolas e o alvoroço dos atletas no corte de ténis ali perto.

– Lembra-se daquela vez em que viajámos os dois para Genebra? Oh, foi um fim de semana tão bonito, Gustavo!

– Sim.

A primeira das raparigas informou que possuíam apenas um velho isqueiro-acendedor de fogão. Se o cavalheiro estivesse interessado, podia servir-se dele à vontade. O homem viu-se com o comprido objeto de plástico amarelo, a lançar chamar irregulares sobre o charuto. A boca amargava-lhe já e a irritação mal a conseguia dominar.

– Bem… – disse a mulher. – O que tenho estado a tentar dizer-lhe neste tempo todo, Gustavo, é que…

– Raios me partam! Raios me partam!

A mulher assustou-se. O cavalheiro vociferava, dando murros na mesa. O canhão do isqueiro mal usado hesitava na chama. Canhestramente, o cavalheiro apertara sem sucesso o canhão ignitivo que, de um momento para o outro, decidiu disparar uma comprida bola de fogo, abrindo-lhe uma cratera na gravata.

Cheio de raiva, o empresário levantou-se, descompôs a funcionária, reclamou do serviço, do mau conhaque, do cheirete das flores, do atravancado das mesas.

– Calma, Gustavo. Calma! – repetia, nervosamente, a mulher de cabelo loiro. Depois de várias tentativas, não achou mais palavras que dizer.

Todos os colóquios (podemos afiançá-lo nós que conduzimos a narrativa) têm uma forma distinta de acabar.

TODOS OS SEUS SONHOS SERIAM REALIZADOS

Fernand Hick
Foto: Fernand Hick

 

Tinha a certeza de que todos os seus sonhos seriam realizados. Quando passou para a contabilidade do vendedor as notas contadas e devidas ao chaço, exultou. Era o seu primeiro carro. Velhíssimo, mas o seu primeiro carro.

– Estás feliz?

– Muito, papá. Não o podia estar mais!

O rapaz calçou as mitenes, pôs-se a acariciar o tejadilho manchado, os jerricãs repletos, o volante forrado de pelo. Todos os seus sonhos esperavam a força da ignição.

Não muito distante dali era a escola primária.

Dois a dois, dando as mãos, os meninos costumam atravessar a passadeira debaixo do olhar atento da funcionária responsável.

É uma operação tranquila, embora um pouco demorada. «O perigo espreita de todas as partes: cuidado!» costuma sensibilizar a diretora da escola. Nunca se sabe em que estado e a que velocidade, tão pouco com que desfecho e por que artes do diabo, isso acrescentamos nós.

LAVOISIER

Christophe Kiciak
Foto: Christophe Kiciak

 

Ao alto, a máquina tem o imponente aspeto de uma parede interrompendo o caminho da cidadela para os subúrbios. Mas a populaça grita, e com a populaça chiam as rodas dos carros e com as rodas dos carros resmungam homens esfarrapados, que pontapeiam e empilham cabeças em cestos de vime. Estamos no 19.º dia do mês de Floreal. Maximilien é o sumo pontífice da nova religião do Estado.

Antoine Laurent de Lavoisier segue com sua mulher, Marie-Anne, na proa de uma carroça, puxada por uma pileca. Chovem os impropérios e os escarros. Agitam-se forquilhas e varapaus. Também as rameiras de Paris se juntam para uivar o seu ódio ao aristocrata. Com elas increpam as vendedoras de peixe, os açougueiros, os taberneiros, os tecelões, os curtumeiros, os sapateiros, os carvoeiros, os camponeses, os alfaiates, os boticários, os doentes, os mendigos, os ladrões, os trânsfugas, os clérigos apóstatas, os loucos. Engrossa das ruelas para a praça a multidão execradora. Antoine leva os pulsos presos em cordas, como um criminoso vulgar. Marie-Anne traz o vestido rasgado e tingido de sangue. Por toda a praça se atiça o fervor sanguinolento. O incorruptível chefe da Convenção vibra. É de peso o nobre cientista. «Roubar-lhe a cabeça não servirá senão para nos afogar mais ainda no sangue da ignomínia» lamenta Joseph-Louis de Langrage.

A tropa revolucionária encarniça-se na execução de Marie-Anne Pierrette Paulze. Fá-lo desta vez com requinte, metodicamente, e não à bruta. Lavoisier, assim visto pelo exterior de vidro, não vacila. Por dentro, as moléculas possíveis da miséria humana eclodem num frenesim, quando se escuta o desamparo rude da lâmina sobre o corpo da mulher de Lavoisier. Dois pares de sujas mãos envolvem agora o pescoço do eminente cientista-filósofo, constringindo a traqueia e as parótidas. Cheiram mal as imundas mãos, cheiram nauseabundamente, se é possível dizer assim. Cheiram à pura impregnação do sangue.

Um dos supliciadores diz em horrível francês «Vais-te cagar todo, meu porco». Fede a boca que o diz. Os escassos dentes encavalitados sublinham o grotesco da cena. É a alma da própria França nestes dias de igualdade, fraternidade, revoltosa liberdade.

Fazem tombar o homem numa espécie de carreto e apertam-lhe bem os pulsos e os tornozelos. Imobilizam-no horizontalmente e empurram-no em direção ao garrote, em linha perpendicular à força que o há de matar. É uma morte abrupta esta, que inventou o Dr. Joseph-Ignace Guillotin. As crianças sorriem. É um jogo. O fascínio de uma execução pública é como andar às cavalitas ou fazer uma dança de roda, brincadeiras tão afamadas neste século das luzes.

Lavoisier pensa. Dentro de alguns segundos juntar-se-á ao tempo de outro modo. «Também a matéria se revolve, como a água em círculos depois de uma pedrada. Mas tudo se aquieta novamente. Toda a matéria se recompõe, se reequilibra e remistura. Nada mais inútil do que pretender a permanência ou a imutabilidade». São pensamentos desordenados, quase nebulosos, porém intensos, como os pilares dogmáticos de uma religião nova. «Tudo se transforma», pensa Lavoisier.

A multidão escuta agora Maximilien Robespierre, que, inflamado, perora sobre a nação que se limpa, sobre o povo sublime que «extirpa as perniciosas ervas daninhas», sobre a sociedade que se cura «da ferida das antigas abomináveis sanguessugas», sobre «o futuro que se levanta do charco atroz da peçonha de todos os viperinos cortesãos».

Robespierre é jovem, tem o rosto ruborizado pela exaltação, os olhos de quem sabe amestrar a multidão, a expressão de quem fará triunfar princípios morais há muito sonhados. A lâmina da guilhotina, tantas vezes levantada e descida, pode bem aguardar. É imperioso que aguarde. É-o a bem da doutrina, para que esta penetre mais e mais no crânio desta feliz geração de analfabetos raquíticos, a quem a Providência destinou o papel de fazer erguer um patamar novo da história da humanidade. Robespierre apregoa ab imo corde, tem as rédeas da manipulação, tem o rastilho da ideia. Sabe que o veem como um messias, um jovem messias no cataclisma que a Europa está prestes a viver.

«Todo o universo é regido pelos mesmos princípios, leis, regras físicas», pensa Antoine Laurent. Não teme a morte, como não temeu a vida. «Em todo o esplendor da ideia há o formoso acaso da matéria revelada». O mecanismo circular das moléculas torná-lo-á irmão de cada mosca, das pedras, do sangue derramado e da alma dos mártires da violência, dos de agora e dos de toda a infindável geografia do tempo.

Já Robespierre se calou. Já a mão do algoz se soltou. Já o geométrico aço desce, dividindo o que antes era um portentoso espírito da humanidade. Já Langrage profere a célebre máxima de que «Não bastará um século para produzir uma cabeça igual à que se fez cair num segundo». Já a aclamação do vil poviléu se alastra, passando muito para lá da Praça da Bastilha, por todos os meandros desse coração às artérias menores… Já Lavoisier, ou a cabeça dele, é segurada por um palafreneiro embriagado, que a sacode como um troféu. Já o seu corpo restante é retirado do palanque para dar lugar a outros nobres que aí vêm, em carroças de bois, uns enjaulados, outros caídos, outros a pé, sofrendo o enxovalho final de suas desconcertantes existências.

Há de um cronista qualquer, meu mestre, tomar a sério o duro ofício de narrar estes funestos acontecimentos. Estamos a 8 de maio de 1794, 19 do mês de Floreal.

SFILARTEN

Tatyana Tomsickova
Foto: Tatyana Tomsickova

 

As tardes de verão são belas em toda a parte. Neste preciso momento, o jovem presbítero Henrik Sfilarten arregaça as mangas da camisa e corrige o chapéu de palha, de modo a que os raios de sol que dançam nos ramos do ulmeiro o não atinjam e lhe não firam os olhos claros.

Aqui mesmo, encostado ao tronco da grande árvore, sente-se em paz. A Suécia nesta época do ano parece-se uma cópia do Paraíso. Atravessou até aqui chegar campos imensos de trigo e de lavanda, sorriu aos agapantos e às margaridas, descobriu como nos tempos de menino a azáfama doce das abelhas, por entre os talhões de flores silvestres, e a pressa das libélulas ao longo do ribeiro e sobre os açudes. Não faltam nesta paisagem a cabana tosca de bétula nem o moinho solitário no cimo de uma colina ligeira atapetada de girassóis.

Mais aprazível ainda (Sfilarten degusta-o como um verdadeiro néctar) é o cheiro das ervas ripícolas. Junta-lhes o pipilar dos pássaros, especialmente dos chapins e dos gaios, e depois pode pensar que esta singeleza condiz com as palavras dos Evangelhos e que as palavras dos Evangelhos soam mais profundamente assim, no âmago da criação, na áurea mediania em que Criador e criaturas se entregam a uma recíproca blandícia.

Há pouco, num lugarejo afastado da paróquia, entre cascas de pinheiro e pés de amoreira, ajoelhou para colher um morango maduro, enorme, suculento. Confirmou nessa inesperada oferenda a sábia lição de Cristo de que as todas as aves do céu se satisfazem sem angústia ou ganância. «Deveríamos todos viver deste modo, agradecendo a Deus cada instante que nos concede e o que nos concede a cada instante.»

Adormentado pela tranquilidade da sua fé, ou pelo calor de julho, ou mesmo pelo rumor sempre renovado da corrente, o presbítero boceja em intervalos cada vez mais curtos. Em breve será vencido pelo torpor da sua existência feliz. Como numa historieta infantil, personagens suas conhecidas entrarão à vez, a sua cabeça sentir-se-á vogar sem controlo, velhas imagens decorarão o cenário do sonho. Esta maciez solar da estação, por exemplo. Ressona já. Não intensa, mas levemente, como a própria brisa que afaga a haste do lólio à beira da estrada. Vê-se a si mesmo a passar a vau num lugar onde belas carpas prateadas correm contra o fluir da água. Depois, sem transição, vê-se a pedalar num sobe e desce de caminhos estreitos, com a Bíblia no regaço, até à pontezinha medieval; daí, com o coração descompassado e o cabeço a esvoaçar, alcança a propriedade do Senhor Larsson, o governador da comuna. Vê o modo como a aragem faz agitar poeticamente as espigas loiras dos campos de cevada. No meio delas, numa pose de elegância inimitável, sobraçando um cesto de vime, a mulher mais fascinante e formosa de toda a região. Oh, é a bela Inga! E Inga adivinha-lhe a presença, pois se volta, devagar, com meneios de difícil tradução, mostrando um sorriso meigo, corando um pouco. Como uma figura de Chagall, Sfilarten vê-se no ar, voando para ela, levando-lhe na mão uma flor de taráxaco.

Jamais trocou com Inga uma réplica em privado. Fá-lo-á desta vez. Porventura lhe dirá que o olhar eutrapélico de Nosso Senhor aprova estes colóquios íntimos, porque Nosso Senhor vê com aquiescência (com simpatia até) o desvelo de todos os seus filhos para que amem e sejam amados, e é amor este carinho, este dente de leão soprado por ambas as bocas num sopro só. É o rosto do circunspeto Larsson que se desfaz, se evola em mil fragmentos de algodão. Tão belas que és, minha Inga. Beijo-te, acaricio-te, tomo-te como minha. Oh, Inga! Não é pecado que uma mulher e um homem se amem assim. Não é cobiçar a mulher do próximo se a mulher do próximo também nos cobiça. Pois não é assim, Inga louçã? Que importa que sejas a esposa do governador de Sundsvália, se assim nos amamos os dois? Ela pensa o mesmo. Vê só. Este é o nosso filho. Carrego-o neste cesto como prova do nosso vínculo para sempre!

Sfilarten estremece. O pescoço poisado no sulco de uma raiz dá sinal de si, todo ele tornado dor. Esfrega os olhos. Levanta-se para forçar o corpo e a cabeça. Uma sensação de mal-estar flui dentro de si, como que transportada por sangue empeçonhado. Sente-se tonto e enjoado, sente os lábios e a língua sujos, repletos de sal.

Para diante a jornada é inversa à que antes fez. Segue a pé, ladeando, ziguezagueando explorações agrícolas.

Alguns transeuntes saúdam-no numa meia vénia. A hora canicular passou. Mais à frente, o presbítero é engolido por um rebanho de ovelhas suffolk. Tresmalhado, apático, ele caminha com elas na direção da aldeia. O pastor é um homem de idade. Tem a voz terna de quem já muito viu e ouviu neste mundo.

VOLTO ÀS CRÓNICAS

Jay Satriani
Foto: Jay Satriani

Recomeçar é o mais difícil. Destapo, tapo, volto a poisar a caneta, ponho-me a andar pela casa, a tocar nos objetos, a retocar-lhes a posição (as gavetas guardam ainda segredos), a anotar mentalmente os ruídos que me chegam de todas as partes, regresso à mesa, abro o caderno, destapo a caneta, a cabeça parece oca, cheia de ecos e de pó, digo em voz alta coisas obscenas, a noite sufoca, tapo e volto a poisar a caneta.

(«Deves fazê-lo com tesão, com paixão, com amor, com tudo. De outro modo não o faças!»)

A casa é curta, as coisas estão tão perto que lhe escuto o respirar, cansa-me a polpa dos dedos. Não há meio de descortinar um fio condutor, uma ideia razoavelmente capaz, um devaneio suficientemente promissor. Falta-ma às palavras profundidade, abertura, sentido. Sufoco nelas como numa gruta. Sufoco. Ponho-me a caminhar de novo às escuras, num derradeiro esforço de espeleólogo, através de obstáculos invisíveis e intransponíveis.

(«O pior de um escritor é esse desespero de homem falido, de macho que confessa a sua impotência na cama!»)

Às vezes o sofá é uma solução. Embrutecido como uma alimária no meio do lamaçal, ligo a televisão e ponho-me a clicar à toa. Às vezes tenho sorte, quando me esbarro com uma dessas relíquias da era monocromática. Há dias revi um programa do Bob Ross (o mesmo despenteado volumoso, a mesma camisa, o mesmo timbre paralisante da voz, os mesmos nomes fabulosos na paleta (branco titânio, azul prussiano, siena escuro, ocre amarelo, castanho van dike), o mesmo «Beat the devil out of it», o mesmo riso cheio de bonomia). Mas a maior parte limito-me a fechar os olhos, a esperar que as coisas deslizem, circulem, corram no movimento de caleidoscópio por dentro dos olhos. Adormeço entre frases soltas como um elefante sedado.

(«Quando sabes que não podes ganhar a guerra, limita-te a garantir que não morres na guerra. Dias melhores virão.»)

Às vezes os sonhos escrevem tudo sozinhos. Vejo-me de repente no meio de uma praça ampla, ornada de colunas brancas e estátuas de mármore. Tu voltaste inteira, com o teu rosto bonito, a tua voz melodiosa, com o teu decote generoso, o teu medo de errar as perguntas e não saber ouvir as respostas. É horrível. Beijamo-nos e fazemos amor, mas num piscar de olhos estamos de costas voltadas, tu a choramingar, eu a pensar que era bom desaparecer num passe de mágica, poder escapulir-me como uma lagartixa pela fresta de uma parede. Tudo tão vivo e tão claro, tão competentemente paragrafado, que acabo por acordar com os olhos cavados e uma sensação de vómito na boca.

(«Não escrevas com o aparo. Tão pouco com as palavras. Escreve com a vida. Que ela desenhe círculos de ar e de luz no teu caderno.»)

Recomeçar é uma tarefa desmedida. Há rabiscos e rasuras nas folhas que violento com ímpetos de homicida. À minha volta, vindos da janela, há cheiros complexos (talvez dessas plantas repletas de veneno nesta terra que as multiplica: umbelas de cicuta, tintureiras infestantes, ramos de lobélias, cachos de dedaleiras), há a presença multiplicada dos vizinhos desamparados pela inteligência (insultando-se por causa dos estacionamentos, do fedor provindo dos sacos do lixo, do patear e do ganir do cachorro), há o ácido paladar das ameaças que faço a mim mesmo, indeciso entre sair e ficar, continuar ou desistir.

(«Convenhamos, meu caro: a literatura excita, a mediocridade oscita!»)

Debato-me entre querer muito e não querer mais, entre sentar-me à mesa de trabalho, com a Pelikan alinhada com o Moleskine, e sentar-me à mesa da cervejaria Munique, com uma Erdinger a escorrer gotas de âmbar e um prato de tremoços a compensar-me aos poucos a poética desapiedada. De maneira que penso nas palavras do velho professor de Estudos Literários e me ocorre que a maior humilhação é não perceber o instante em que se é humano e não se tem forma para subir ao Olimpo, o pavoroso instante em que um indivíduo puxa de um cigarro e renasce na miserável solidão de saber que tudo é inútil e estéril como vento que passa.

JOAQUÍN

conto «Joaquín»
Foto: theo peekstok

 

Joaquín Moro faz todos os dias este percurso a pé. Sai de casa cedo, atravessa três avenidas, cruza-se com o melhor hotel da cidade (há sempre turistas a entrar nas suas portas rotativas), vê os automóveis topo de gama estacionados perto das grandes lojas, evita aos domingos os magotes de miúdos a cambalear e aos berros à saída dos bares da moda, caminha com o corpo muito direito e em silêncio, raramente cumprimentando, raramente cumprimentado, até ao porto.

Caminha em passo medido (de sua casa ao estaleiro marítimo são três quartos de hora), organizando mentalmente a sua vida, filtrando no ar os seus próprios pensamentos, tomando decisões.

Nesta zona, a paisagem é dominada por gruas gigantescas que operam a carga intercontinental. Não há casas, há barracões. Os jardins cedem lugar a terrenos baldios e cercas de arame delimitando cemitérios de âncoras e barcos de pesca desmantelados, completamente invadidos pelo óxido e pela nostálgica miséria dos poucos pescadores que ali resistem em jejuada sobrevivência. Em fundo, para lá destas ruelas feias e repletas de lixo velho nas bermas, para lá dos cartazes desbotados a anunciar espetáculos tauromáquicos de há três verões, montanhas de contentores.

Joaquín  caminha agora sem pressa, com as mãos nos bolsos do corta-vento, por causa da brisa mais forte. Gosta de ler as matrículas pintadas nos paralelepípedos metálicos empilhados, de imaginar-lhes o conteúdo, o trajeto, os dias de trânsito no oceano. Aqui pode respirar livremente. Das pequeninas coisas às maiores, o seu olhar voga com volúpia, como nos tempos de garoto. Dentro de cada uma destas caixas que os homens esvaziam e voltam a repletar há um sem-número de mercancias misturadas, mãos ajuntadas no mesmo propósito comercial, algumas coincidências talvez, para que o longe e o perto se conheçam, para que visões se fundam, culturas se fecundem. O mundo é uma casa de espanto. Joaquín puxa do maço de cigarros. Aqui as palavras aquietam-se, o casaco (como a vida) apetece-lhe mais, os olhos voltam a ver. Anota duas linhas vagarosas no bloco de apontamentos, considera com prazer que entre si e a solidão há somente o trabalho dos estivadores. E não, esta solidão não é má.

Enquanto puder há de aproveitar-se dela. Há de ouvir o som chiante das suas botas sobre os charcos ocasionais. Há de despejar-se das solicitações inúteis da boa sociedade indo para os arrabaldes, frequentando os sombrios lugares de urtigais e canas emplumadas, onde infindáveis cargueiros de pavilhões desconhecidos o esperam e o convidam a ir mais longe. Não, não morrerá aos poucos como os colegas pensionistas que à tarde o incitam às mesas de bridgee de póquer.

O cigarro está no fim. Corre uma aragem gélida. Apetece-lhe deitar lume a outro, mas não o fará. Prefere aquilo que é moderado e bom, sem excesso. Duas frases mais para apontar. «Para que a paz seja completa, tudo deve chegar a um fim. Naturalmente.»

FOTOGRAFIA

Alexei Sovertkov
Foto: Alexei Sovertkov

 

Na noite de 23 de junho desse ano, o único candeeiro aceso na residência universitária era o meu. Do terceiro piso podia inteirar-me dos céus iluminados da cidade e da festa. No Porto é obrigatório divertirmo-nos na véspera de S. João. Os pátios, escadarias, becos, vãos, pracetas, avenidas enchem-se de ruído, concertinas coloridas de papel, escamas de sardinha. É obrigatório sair, conviver, algazarrar, beber até dizer basta, empunhar e esfregar alhos-porros no nariz benevolente das raparigas. A tradição diz que é a noite de solstício. Se não é a noite mais curta do ano, é a mais longa. Todos os foliões o sabem.

Quanto a mim, teimei fechar-me no quarto a estudar Linguística. De fora o mundo chegava com estrondo, cheio de vida, como uma punhalada. Podia apreciar da vidraça os telhados e as torres das igrejas por onde subia o rasto de lume dos balões. Podia avistar as inúmeras varandas apinhadas e as churrasqueiras acesas, os grupos retardatários, correndo com os martelinhos plásticos. Podia jurar que as dezenas de quartos dos estudantes se encontravam vazios. Desde o meio da tarde não avistei ninguém nos corredores, nem escutei uma única voz no interior do edifício.

Os apontamentos de Martinet pareceram-me monstruosamente enfadonhos. Sublinhava-os com um marcador fluorescente e recitava em voz alta as glosas do caderno. Estava só.

Foi nessa solidão que me dei conta das cores cada vez mais verde-negras, estranhamente semelhantes ao óxido de crómio, que afundavam o espaço e o asfixiavam. O primeiro relâmpago e o primeiro trovão confundi-os com o aparato da festa. Mas depois vieram outros. A tempestade não demorou a sacudir as janelas e a empurrar a chuva mais pródiga de vingança a que assisti em toda a minha vida.

Multiplicaram-se de um momento para o outro gritos de confusão, histéricos, perplexos. As bátegas metravalhavam sem piedade as mesas compridas nos terraços. Os fogareiros eram arrastados de qualquer maneira para debaixo das lonas. Velhos e novos apinhavam-se como podiam nos coretos e abrigos das portas. A imagem do rebuliço pareceu-me tão divertida e tão amorosa que abri a gaveta e retirei de dentro dela a minha Leica.

Apesar dos vidros embaciados e do ar saturado, a paisagem era outra agora. Dir-se-ia que bela, humana, protetora, aconchegante.

Lá ao longe, os holofotes das igrejas alumiavam o temporal. Ao perto, os postes elétricos deixavam perceber o desastre. Desci para ver melhor. Mal abri a porta dei de caras com um desses pobres que abundam, infelizmente, nas nossas cidades.

‒ Não queria assustar-te, rapaz. Desculpa-me!

‒ Não assustou. Esteja descansado!

Fiquei um instante sem saber se saía ou se o convidava a entrar. Havia sob o alcatrão uma mistura de fumo e de vapor. A máquina fotográfica estava pronta.

‒ Esta chuva. Quem podia imaginar!

O homem não respondeu. Limitou-se a encolher os ombros. Segurava numa das mãos uma maçã, na outra um saco de serapilheira. Aquela chuva parecia não ser para ele nada extraordinária.

‒ De maneira que vai ficar todo ensopado… Entre e proteja-se!

Sem uma palavra, o homem obedeceu.

Olhei a rua, uma caixa de pimentos no chão, cervejas abandonadas, gritos, gatos debaixo dos carros, fumaça. Estava constatada a falta de decência do santo. Não conseguia decidir-me a disparar o flash. Então o homem disse.

‒ Em todo o caso, estás a sentir agora um déjà vu

Com efeito, sentia que toda aquela cena me era familiar, como se nalgum elo da minha memória se tivesse acendido a impressão de que já vivera aquele momento. O homem, embora nunca o tivesse visto antes, era (podia jurá-lo) bastante familiar.

‒ Vais acabar por não fazer um único disparo com essa máquina. Os objetos não te importam. Só o sujeito que tens diante de ti é digno de nota. Não é verdade?

Os modos quase arrogantes impressionaram-me. O homem prosseguiu.

‒ Estás agora a pensar em como sair desta alhada. A rua já não é o lugar mais estranho do mundo, mas este bocado aqui, sim. Não é verdade? Estás a pensar em como aquela caixa de pimentos no chão, aquelas cervejas abandonadas, aqueles gritos, aqueles gatos escondidos debaixo dos carros, aquela fumaça em nada se comparam com o caos que reina na tua cabeça.

‒ E como pode o senhor saber tudo isto?

‒ Os Elementos de Linguística Geral de André Martinet lá em cima são a prova de que ambos nos deixámos afundar na mesma miserável solidão.

‒ Quem é você?

‒ Escolhes sempre uma saída lateral e nunca o corredor em frente… Pensas ainda em labirinto. E, no entanto, desde que nos vimos pela primeira vez há pouco sabes que somos os dois a mesma pessoa!

‒ Somos a mesma pessoa?

‒  A mesma personagem, sim! Mas não fiques muito surpreendido. Borges, que ainda não conheces, faz o mesmo no primeiro conto do Livro de Areia. Dickens, de que já te esqueceste, faz o mesmo com Ebenezer Scrooge. Dante, que estás prestes a conhecer, sonha com a sua própria alma cirandando nos círculos dos Inferno, do Purgatório e do Paraíso.

‒ E vem você mostrar-me o meu futuro, é isso? Provar alguma coisa? Que eu sou má pessoa e preciso de emendar-me?

‒ Não venho provar absolutamente nada…

O meu outro eu pôs-se a comer a maçã e de trouxa às costas saiu para a noite, sem medo do dilúvio, engolido pelo reflexo sujo das mil e uma luzes quebradas.

Com a Leica apagada nas mãos vi-o partir sem ter podido acrescentar alguma coisa. A fotografia, essa, como sucede muitas vezes com os sonhos, renasce vezes sem conta na cabeça.