Prémio Nacional de Poesia da Vila de Fânzeres – Discurso de Agradecimento

João Ricardo Lopes
João Ricardo Lopes, lendo o discurso de agradecimento

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Excelentíssimas senhoras e excelentíssimos senhores,

Permitam-me que encete, deste modo, o meu discurso de agradecimento. Gostaria de o fazer, aludindo à luz…

Tal como o silêncio, ou como as palavras, a luz pode encher-nos de uma felicidade imensa, ou pode arremessar-nos com violência contra as coisas. Não ignoramos a natureza prodigiosa de que é feita, nem o despudor da sua força, quando ao revelar mostra, quando ao mostrar-nos esfacela.

Aprendemos nas aulas de Ciências que a luz é uma radiação eletromagnética propagada ao longo do vácuo, uma corrente de ondas e de partículas, de fotões e de neutrinos, de elementos subatómicos, cuja designação nos aguça a curiosidade e nos atira para fora do senso comum. A luz é feita de nada, mas por causa dela tudo existe. «Faça-se a luz!» principia assim o Génesis.

Aprendi, sobretudo, nas viagens que, matinal e diariamente, faço para o trabalho que a luz é uma espécie de milagre, uma transformação, um eclodir de vida que à hora certa atinge a massa escura das montanhas do Marão e cai obliquamente sobre a paisagem para nela acordar a visão dos campos, das vinhas, dos riachos recobertos de névoa, dos pássaros, dos canteiros repletos de verde e de olor.

A luz é essa proximidade repentina com aquilo que nos rodeia: com o asfalto atafulhado de folhas outoniças, com o reflexo além no vidro de uma qualquer janela sobranceira, com a cor quase feérica dos bordos, dos plátanos, dos choupos, dos carvalhos, dos castanheiros, de tantas outras árvores benditas nesta altura do ano.

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Marco Martins (Presidente da Câmara de Gondomar) e José António Gomes (escritor e professor universitário)

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As viagens demoram-nos no que nelas há de dádiva da luz. Por exemplo, as memórias que se foram e se vão alojando por dentro dos olhos. A vela transbordante, a tremeluzir nas noites de tempestade. O fósforo riscado numa cave antiquíssima na casa dos avós. O candeeiro a petróleo com o seu halo estampado na parede, onde a caliça e o caruncho se entendem. Por exemplo, as labaredas da lareira, a desenhar sulcos no rosto infantil. Por exemplo, o rouquejar das panelas de ferro, com o unto a dissolver-se em bolhas translúcidas pelo meio do caldo. Por exemplo, a gambiarra suspensa das traves, a dançar entre teias de aranha, a pendular com o vento, a brincar com as sombras que sobem da terra batida ao teto. Por exemplo, ainda, o vinho a vidrar nas tigelas, ou as contas do terço, rebrilhantes, a passar entre os dedos de uma avó lendária, numa sonolência que não sabe morrer. A luz é um cismar, também, um pasmo longínquo, uma saudade que regressa por instantes, enquanto o automóvel nos balança nas curvas da estrada e se escuta na rádio um adágio pungente de Barber, ou Bach, ou Marcello, ou Vivaldi. A luz dimana, voluteia, rasga, disseca, queima.

A luz, permitam-me que dela fale um pouco mais, vi-a maravilhosamente em Milão, na Ceia de Emaús de Caravaggio. A mesma que se acende, em chiaroscuro, entre as figuras da Ronda da Noite de Rembrandt, uma das melhores recordações que guardo do Rijksmuseum. É a mesma presença vivificante que abre mais as rugas de São José, no quadro de Georges de la Tour que me inspirou um dos poemas deste livro. Ou que explode nos girassóis de van Gogh. Ou que serenamente nos acolhe nos quadros de Vilhelm Hammershøi.

A luz é, ainda, o reino insuperável de leveza e de simetria, ao mesmo tempo do colosso e da bizarria das catedrais que tanto amo, em cujos vitrais saturados de cor e de narrativa os nossos olhos se esquecem do pouco que somos e do escasso que podemos viver.

A luz sentimo-la às vezes perdida na pele. E depois na alma. Também assim o escreveu Dostoievski, no primeiro capítulo de Humilhados e Ofendidos, quando pela voz do narrador exclama, emocionado: “É extraordinário o poder de um raio de sol sobre a alma de um homem!” Sentimo-la nós assim, especialmente nos dolorosos dias em que nos mingua o ânimo e nos pesa mais o corpo.

A luz – admitamos em suma a sua natureza indefinível e irrepetível (em nós, contra nós, depois de nós) – talvez não ilumine. Talvez nós é que ardamos como insetos atraídos pela lâmpada e atravessados, algures, no seu caminho. Sabemo-nos feridos e consolados por ela. Sabemo-nos despidos e cobertos pelo seu manto. Sabemo-la a viajar pelo tempo e pelo espaço e a deter-se às tantas num pormenor. Esse pormenor em que ela e nós nos encontramos é a poesia.

É dessa luz que, muito particularmente, eu necessito. Dessa luz-silêncio, dessa luz-palavra, dessa luz-poesia. É por causa dela, em obediência ao seu poder que nasceu este e todos os meus outros livros.

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José Augusto Nunes Carneiro (editor), João Ricardo Lopes, Marco Martins e José António Gomes

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Estou em Fânzeres pela segunda vez.

Há vinte anos recebi aqui um prémio da maior importância para o percurso na escrita que então começava: foi essa distinção, atribuída a Além do Dia Hoje que o desencadeou. Aqui se fez publicar o meu primeiro livro.

Duas décadas volvidas, regresso com Em Nome da Luz. Tomando de empréstimo um verso de Emmanuel Hocquard, «Esse livro passou a ser o meu primeiro livro». Toda a luz que com ele encontrei partilho-a convosco!

Sinto-me profundamente agradecido a esta terra. Agradeço à Junta de Freguesia de Fânzeres e de São Pedro da Cova, na pessoa da Senhora Presidente (Sofia Martins), este Prémio, o livro publicado, este serão verdadeiramente inesquecível e repleto de dignidade. Endereço-lhe, a si, aos autarcas que a antecederam, também, as minhas sinceras felicitações por terem sabido, não apenas sustentar este projeto literário, como sobretudo aquilatar com ele e para ele prestígio nacional.

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Executivo da União de Freguesias de Fânzeres e de São Pedro da Cova (em destaque, a Presidente de Junta, Sofia Martins)

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Agradeço, de modo igual, aos três distintos membros do júri deste Prémio, que primeiramente me leram: a Augusta Cosme; a José Augusto Nunes Carneiro (poeta, editor); ao Professor José António Gomes (cujas palavras há pouco escutadas verdadeiramente me tocaram, e cuja poesia – sob o nome de João Pedro Mésseder – há tantos anos venho estudando com os meus alunos).

Agradeço, de um modo particular, de um modo fraterno, a todas e a todos (família, amigos, conhecidos, curiosos, autarcas, funcionários, artistas presentes), a todas e a todos os que hoje, aqui, nesta Casa de Montezelo, se associaram à cerimónia, partilhando a sua presença, o seu tempo, o seu afeto, a sua luz.

Bem hajam, por isso! Muito obrigado!

Fânzeres, 11 de novembro de 2022

João Ricardo Lopes

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EM NOME DA LUZ (CONVITE)

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Na próxima sexta-feira, dia 11 de novembro, será apresentado em Fânzeres (na Casa de Montezelo) o meu nono livro, Em Nome da Luz, o sétimo volume de poesia.

Nenhum livro é igual aos outros. Cada um possui a sua história particular, a sua dor absolutamente específica, a sua alegria inefável, a sua vitalidade irrepetível. Amei cada um de um modo diferente, mais os últimos, importado em colher da vida o que da vida recolhe um pingo de mel: tudo, tudo o que importa.

Em Nome da Luz tem, por isso, a sua história também. Os 40 poemas que o compõem procuraram desesperadamente a luz, como a procuram as ervas e as árvores, como a procuram os nossos olhos cegos de amor. Essa história hei de revelá-la aqui.

Ainda não senti o livro nas mãos. Essa é outra bonita experiência, tocar um trabalho publicado pela primeira vez. Mas estou certo de que o vou fazer com a ternura e o entusiasmo que se nutre por um filho. A metáfora está gasta, mas aprecio-a. Será o filho mais nova desta pequena biblioteca que me nasceu ao longo de 21 anos de caminhada literária.

O convite para a sessão de apresentação já antes o fiz. Refaço-o agora, tomando de empréstimo as palavras da Junta de Freguesia de Fânzeres e São Pedro da Cova. Venham!

PRÉMIO NACIONAL DE POESIA DA VILA DE FÂNZERES (31.ª EDIÇÃO)

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Recebi na passada segunda-feira, pela voz da senhora Presidente da Junta da Freguesia de Fânzeres, Dra. Sofia Martins, a notícia da atribuição do Prémio Nacional de Poesia da Vila de Fânzeres este ano ao livro original EM NOME DA LUZ, distinção que recebo pela segunda vez, depois de em 2001 a ter conseguido com o volume ALÉM DO DIA HOJE.

Soube-o na escola, no final de uma aula, entre corredores apinhados. Confesso que a novidade me abalou e me comoveu profundamente. Não foi fácil o percurso deste livro, iniciado no parque de estacionamento do IPO, no Porto, e construído como uma defesa, como uma resposta, como um caminho de salvação, como um ir para onde a poesia somente nos sabe levar.

Quem me conhece sabe que uso as palavras para que elas signifiquem e para que dentro delas signifiquem as pessoas. Nem sempre sou entendido, ou estimado, ou lembrado. Às vezes vivo longe (numa espécie de voluntário eremitério, como o que Nietzsche atribui a Zaratustra). Quem me conhece sabe o quanto tenho devotado à poesia o melhor da minha vida. E sabe o quanto me vem a poesia guindando bem alto, para lá de certa luz impura (de panegírico fácil e amizade hipócrita), onde o seu silêncio apenas me pode tocar.

Mas agradeço aos deuses tutelares esta espécie de fuga. Ao cabo de tantos anos, receber um novo prémio literário sabe bem. Sobretudo, porque este reconhecimento chega de quem me não conhece, mas às minhas palavras sim.

E não se pode pedir mais. Nem melhor.

A TOKAREV

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Fotografia de Bananayota (Pixabay)

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O desespero levou Bartinik Sendecki, na manhã do vigésimo nono aniversário, a procurar certo tijolo esburacado onde escondia uma anacrónica Tokarev TT 30. Não pôde retirá-la de dentro da peúga sem estremecer: ao fim e ao cabo, uma arma – qualquer que seja a sua forma origem, a sua idade, a sua forma de matar, é um objeto incerto e um teste ao livre-arbítrio.

Cansado, doente, sem dinheiro, vítima do azar, da solidão, de si mesmo (aos poucos começava a odiar-se com fanatismo), Sendecki dispunha de um recurso inestimável: o poder de fogo de uma pistola que andara no coldre do bisavô durante a Segunda Grande Guerra e que desaparecia e reaparecia agora a cada vinte anos, à medida que mudava de casa e de mãos e que por uma ou por outra razão, era preciso ocultá-la das rusgas da polícia.

O que fazer?

Sendecki imaginou todos os cenários: suicidar-se, assaltar um banco, penhorá-la. O desespero, embora seja bastante dramático. Abandonou o apartamentozinho decrépito na Wawrzyszew disposto a mudar alguma coisa, a cometer um ato, a avançar nalguma direção.

Tinha fome. Para sermos rigorosos, não comia em condições desde que lhe comera um prato de Żurek cinco dias antes. Quando cruzou a terceira esquina, na Sándora Petöfiego, em direção ao Parque Wyspa, deteve-se diante de uma furgoneta amarela e azul. Era um dos milhares de negócios ambulantes de Varsóvia. Vendia cachorros quentes e sodas. O cheiro das salsichas aquecidas, embrulhadas em molho e pão, tão perto das suas narinas e da sua boca embruteceu-o.

Decidiu roubar ali mesmo o primeiro instante da sua nova vida. O que tinha a perder?

Mas não foi capaz. A rapariga, de um louro fulvo e sedoso, Anna Gralówna, sorriu-lhe com enorme simpatia. Tinham sido colegas de carteira na escola preparatória, tinham fumado juntos um dos primeiros cigarros, tinham dados beijos e trocado carícias.
«Há quanto tempo, Bart!» foi o que conseguiu escutar, antes de cair de borco no cimento duro.

Nada mais terrivelmente humilhante do que confessar a imprudente tristeza de não ter que comer. Anna fez questão de lhe segurar o cachorro nas mãos, enquanto disfarçadamente secava as lágrimas com as costas da mão. «Bartinik Sendecki, temos muito que conversar. Temos sim, meu menino!»

No interior do bolso, a Tokarev pouco pesava. Muda e cheia de vergonha, esforçava-se por se manter quieta. Muito mudados estavam os tempos na Polónia. Limitar-se a ficar oculta, como uma mentira precocemente inutilizada. Se isto era coisa que se fizesse a uma filha da Revolução! Se era!

MOTIVOS DE ORGULHO

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Fotografia de Robert Balog

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A minha avó era enfermeira, chamava-se Mabília Roriz, disse o fulano lingrinhas. Cuidava de hortênsias e fazia abortos nas traseiras de sua casa, onde entravam as moças, mas nunca a polícia. Foi a primeira mulher a fumar nos cafés da vila, onde a vinham escutar os bufos e os bons.

Percebia-se nestas palavras e noutras um enorme orgulho subfilial.

A minha avó chamava-se Amélia. Teve dez filhos, de que vingaram sete. Criou-os como pôde, sem mais dados relevantes que isto: manejava teares mecânicos com a mesma destreza com que punha uma enxada na terra. Era desbocada, honesta e amiga dos pobres.

Deverei ufanar-me?

O SILÊNCIO

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Fotografia: English

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Enquanto não poisava completamente a noite, ele ia passando em revista as notas de agenda. Era cada vez mais complicado tê-las organizadas na memória. O jantar, no fogão, dava mostras de estar quase pronto. No chuveiro terminara o som da água a correr. Daí a nada ela viria juntar-se-lhe.

O tempo do desejo acabara irremediavelmente. Agora, só uma força irresistível, cheia de hipocrisia os colava um ao outro.

Comeram em silêncio. Um silêncio mastigado, interrompido, tilintante. Ela levantou-se e retirou do frigorífico um refrigerante. Quis saber se ele beberia sumo ou vinho ou água.

Às vezes há no modo de perguntar um ódio a que se pode responder apenas com um ódio ainda maior. Quis responder, preferiu não beber coisa nenhuma.

Terminada a refeição, ele levantou-se e trouxe um cestinho com fruta. Descascou uma laranja para si, mas quis dar-lha. Ela recusou. Precisava de telefonar, coisa rápida. Os cafés tirava-os a seguir. Algo lhe vinha ao fundo da alma como uma expectativa, uma adivinhação, um ressentimento.

Limpou tudo, arrumou a mesa, guardou o pão sobrante, devolveu os frascos do ketchup e da mostarda ao frigorífico, varreu a cozinha, passou a esfregona sobre as tijoleiras brancas. Verificou o balde do lixo, achou ser altura de lhe trocar o saco. Desceu à rua, depositou o saco num lugar próprio e subiu. Nessa altura, ela falava ainda, mais baixo, quase abafando a voz.

Ele quis fumar. Já a noite derrubara tudo. Já a cidade afundava no seu torpor de animal morrente. Às vezes o ódio é mais do que um estado. É um convencimento. Digamos, uma salvação.

CRETA

Albrecht Fietz
Fotografia de Albrecht Fietz (via Pixabay)

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A casa estava imunda.

Por cima da velha mobília, dos lavatórios, da cerâmica, dos fogões, dentro dos quartos e da cozinha, nas casas de banho, pelo meio dos corredores, atravancando, entulhando, asfixiando fardos e fardos de palha, e pó, um pó imenso e fundo, e excrementos de pombos, e urina de ratos. Imunda.

Foi assim que a encontraram Theo e Larissa Minakis, o jovem casal de músicos. Haviam aterrado hora e meia antes em Heraclião, vindos de Frankfurt, depois de quase oito horas de voo desde que deixaram o Aeroporto Internacional John Kennedy. A casa estava imunda e eles exaustos, perplexos, enojados.

– Há anos que aqui ninguém vem. – explicou, dando safanões numa das janelas para as traseiras, o Tio Panos. – A casa, meu filho… Tu sabes, desde que o teu pai partiu, nunca mais cá ninguém veio…

A reputação de Theo como um dos maiores oboístas da sua geração corria mundo. Larissa, a mulher russa com quem casou, granjeara-a tocando harpa, embora encantasse também no violino e até no violoncelo. Ambos pertenciam à Orquestra Filarmónica de Berlim, pertenciam a Camille Saint-Saëns, a Fauré, a Debussy e a Ravel, pertenciam um ao outro, ao mundo inteiro, aos palcos onde a música pudesse sublimemente ser interpretada.

Agora, contornando as velhas paredes da casa, era como se tivessem descido ao mundo impiedoso dos homens. Havia bichos fossilizados no soalho, que os sapatos pisavam como grandes migalhas de pão seco. Havia mascarras nos tetos e nos vidros, pesando como grandes úlceras nos lugares onde existiu outrora brilho e aconchego. Havia teias infinitas e sujas, descendo de todos os ângulos retos de todos as esquinas, ensarilhando-se-lhes no rosto e nas mãos de quem passava. Larissa segurava com esforço um lenço sobre o nariz, disposta a ceder a qualquer instante aos impulsos eméticos provocados por aquele labirinto de lixo.

– Os meus irmãos? – arriscou, desconcertado, o mais novo dos Minakis.

– Nem um vaso de manjerona sobre a campa dos teus pais…

O Tio Panos teve de assoar o nariz e de limpar as lágrimas. Uma vez na rua, via-se uma coluna de pó amarelo a sair do antro aberto.

Theo estendeu os olhos até ao porto de Atherinolakos. Era um pouco maior do que antes, mas igualmente deprimente, com pequenos barcos coloridos ziguezagueando na barra, com as grandes chaminés listradas de vermelho e branco das fábricas em pose militar, com os homenzinhos de barrete e o azul tristonho da praia a rolar diante do betão e do cimento escaldante.

– Ficais em minha casa, filho. É um gosto…

Theo traduziu o convite, a esposa sorriu.

– Tio, não queremos dar-lhe trabalho. De qualquer forma, temos reserva no hotel. Amanhã começaremos a limpar tudo isto.

Era melhor assim. Cortesias para o demo, ninguém ali parecia à vontade.

O Tio Panos não tardou a queixar-se da anca: seria impossível ajudá-los! E o trabalho que os dois tinham pela frente!

– Oh, oh, uma esfrega, filhos…

De resto, o Tio Panos não tinha a certeza se algum dos seus dois rapazes podia ajudar naquele biscate. A fábrica de conservas de Demóstenes, primogénito, Theo desconhecia-o certamente, abrira falência e agora “O bom do teu primo dobra a espinha nos pomares de nectarinas de Messara e de Asterúsia”, terraplanando e metendo estrume, arrancando ervas de sol a sol, quando não colhendo e encaixotando, patrulhando (patrulhando sobretudo) carradas de turcos preguiçosos. O mais novo, Giannis sofria de um tipo raro de doença de pele. Pior do que isso, tinha asma e aquela maleita que nos põem tontos, por causa do ouvidos.

– Ah, Theo, aqui o clima gasta-nos a puta da vida. O melhor é não contares com ninguém para isto, filho. Aqui todos morremos antes do tempo, à conta deste sol, deste sal, desta pobreza infinita. Tu ao menos…

Theo fez um sinal afirmativo com a cabeça. Ele e Larissa não vinham com pressa. Pretendia dedicar-se à memória do pai e da mãe, a única coisa que não podia ser disputada nem desbaratada, a única herança que valia todos os sacrifícios.

O Tio Panos escutou-o de olhos arregalados, sem ripostar.

“Sacrifícios? Que percebia ele de sacrifícios?”

*

Em bom rigor, a cabeça também é uma casa. Possui áreas solares (salas abertas, varandas largas, jardins comunicantes, arrumos fáceis de localizar no tempo, sempre próximos da boca). Possui, por outro lado, as suas gelosias, os seus desvãos, corredores sombrios, portas e escadas interiores, possui caves, compartimentos imersos em nostalgia, lugares de noturnas e infantis e impartilháveis rememorações.

Theo teve de empilhar vários sacos de bagatelas no pátio. A ferrugem consumira grande parte da antiga armação de ferro que emoldurava ainda a ramada e o lugar do poço. Trabalhava sem pressa e sem descanso.

Logo na primeira manhã a mulher chamou a sua atenção para algo encontrado nos fundos do lagar de azeite, soterrado em camadas asfixiantes de serrim. Era uma gaida. A velha gaida familiar!

Theo passou devagar os dedos pelo corpo articulado do instrumento, sentindo com uma excitação assustada a pele de ovelha e a madeira.

– Meu Deus, este objeto vem de longe. Vem de há tanto tempo, Larissa!

Receava alguma escoriação, algum golpe, algum rombo fatal. Mas não. Miraculosamente a gaida permaneceu íntegra e intacta, submersa e protegida pelo entulho. Theo limpou o bocal e levou-o aos lábios. Depois pôs-se a soprar. O som que principiou (vindo das profundezas da casa ou das profundezas da sua memória) era poderoso. Theo sentiu-se recuar centúrias, ou mesmo milénios. Sentiu-se embalado em viagens de barco e atravessar caminhos empoeirados até aldeias de pastores, nos confins de uma montanha. Na lonjura espremida dos dias, aquele som era toda a sua origem, toda a memória da sua gente, da sua coragem, da sua errância, do seu fado. Aquela gaida, mais do que um objeto envelhecido, queimava como um vínculo, ardia como um vulcão acordado.

O fascínio de Larissa era o deslumbramento do marido, mas dificilmente podiam ser o mesmo sentimento.

– O meu pai recebeu-a em herança do avô. Nunca imaginei que tivesse ficado para trás.

Theo explicou a origem balcânica do instrumento, que parecia conter em si o ânimo de um guerreiro invencível e o lamento de um homem eternamente em crise. A toada, que a custo começou, tornou-se um fluxo, um jorro de angústia e de amor, uma manifestação de fé na vida e de veneração pela morte.

Larissa sentia-se subjugada. Que som maravilhoso no meio de tanto esterco!

*

– O teu primo estica até aos cinquenta mil. Nem a casa vale mais do que isso.

– Não a vendo nem por cinco, nem por cinquenta, nem por quinhentos mil…

– Mas, filho, para que hás de querer tu manter de pé este tugúrio?

Não, definitivamente, o Tio Panos não podia compreender aquela estúpida decisão. Theo cortou, como costumava fazer o seu pai, a conversa.

– A decisão está tomada.

Larissa, que pouco entendia de grego, mas que compreendeu todo o diálogo, poisou a mão esquerda sobre a mão direita do marido e encarou com uma carga mal medida de desprezo as fuças do velho tio resmungão. Este sentiu-a, sem dúvida, porque (fincando-se na bengala) imediatamente se ergueu e se encaminhou para a saída.

– Bem. A nossa proposta é esta. Tu, claro está, faz como entenderes… Amanhã mesmo devolvo-te o molho das chaves.

– Não precisa. Todas as portas e janelas serão mudadas. As obras começam em breve.

– E os teus irmãos? Hão de querer por ela alguma coisa, não?

– Com os meus irmãos entendo-me eu. Não se preocupe, tio!

Pelo rosto de Panos Minakis pisou lenta uma sombra imensa, como a que as nuvens fazem na água quando as vemos da janela de um avião.

Então, sem mais palavras, deixou-os.

Theo sentia-se esplendidamente bem-disposto.

Acocorou-se e apertou a polpa dos dedos nas folhas de citronela do vaso que tinha diante de si. Agora que a casa se via desentupida de tudo quanto nela haviam depositado usurpadoramente, usando-a e confundindo-a com uma pocilga, via outra vez o desenho limpo de cada ação familiar. Podia até imaginar o sorriso galhofeiro da mãe, descendo ao pátio com as suas maravilhosas travessas fumegantes, com as suas saladas e as suas espetadas de cabrito. Podia ver a grande mesa que a ramada defendia do sol cheia de gente. Podia ver o irmão Filipos, à esquerda, com o cachimbo de meerschaum, dando grandes fumaças, enquanto folheava os poemas da Ritsos. Podia ver no lado oposto o irmão Andreas, a cardar a superfície pilosa da gaida, acariciando-a como à nuca de uma mulher. Podia ver à cabeceira o pai, Nikos Minakis, erguendo à luz clara de junho um jarro do seu melhor Kotsifali, “O vinho dos imperadores, meus filhos”, dizia antes de o verter num dos copos de cristal que se tiravam do aparador em cada boa ocasião.

Eram uma família orgulhosa. E tinham razões para isso.

*

O reflexo da luz sobre a água transparente do tanque foi a última imagem que Larissa fixou. Sentia-se bem ali. Mas agora tinham de voltar.

Em rigor nunca se deixa Creta. Os homens vão e voltam. Sós ou acompanhados, regressam sempre. Os gregos fazem culminar na chegada todo o caminho para a perfeição. Só atingindo de novo a soleira da porta paterna se compreende o movimento de sair. “Se Ulisses tivesse prescindido da última viagem, não valeria um dracma” dizia a mãe às vezes.

Theo e Larissa consultaram o painel eletrónico. Saíam por tempo indeterminado, convencidos, porém, de que algo novo tinha principiado. Para os gregos, todo o tempo é uma oportunidade de começo.

Ao rodar a gazua na porta principal, o mais novo dos Minakis sentiu o que sentem os filhos empossados de uma missão: nostalgia, arrependimento, esperança e uma dose necessária de soberba. Era de si que precisava a casa. De si e de obras, de gente nova que a continuasse, da gente velha que a não deixasse morrer.

No interior de um saco magnífico de couro italiano, Larissa transportava a primeira memória que aquele lugar fabricou: também na Rússia havia pastores e montanhas e camponeses tresmalhados pelo horizonte. Também na Rússia se chorava de saudade, quando se encontrava, fortuita, uma brecha no destino.

OS PEQUENOS GESTOS

OS PEQUENOS GESTOS

Os pequenos gestos são os que prefiro. Sei-o desde sempre, mas gosto de o lembrar. Fecho a porta do carro, caminho sem destino, vou considerando devagar as diferentes perspetivas da cidade, as casas, as pessoas, as cores, os cubos de pedra no chão, os sítios de que gosto mais e gosto menos. O ar frio trespassa-me por inteiro corpo e alma, aragem de Outono, lavada, repleta de memórias, estímulos que se agarram a mim, intensos e inexplicáveis…

Cismando nesta coisa que é estar-se vivo, passo e repasso pelas mesmas ruas, mãos nos bolsos, o olhar aceso, registando mentalmente movimentos, impulsos, ideias, até me deixar arrebatar de súbito, num canto qualquer, pelo aroma sublime do pão acabado de cozer, o mais puro e poético dos cheiros! Aroma extraordinário! Ocorre-me com um sorriso provável o quanto eu queria ser padeiro naquela idade em que todas as outras crianças queriam ser doutores, mecânicos e bailarinas.

Itinerário de escritor. Alimentado pelo impulso do pão, da memória e do frio, mergulho nas palavras. Junto-lhes o sabor do café, e sobre o tampo da mesa destapo a parker, entre todas a mais fiel das canetas, disparando-a como um raio sobre a brancura das folhas, plasmando de riscos e correções o papel, umas atrás das outras letras, frases tresmalhadas, pequenos versos, apontamentos incertos, rascunhos de literatura. Sinto vontade de escrever, de saciar essa fome que não se explica, mas que não raro tortura!

Fantasio sobre a cidade, sobre os pequenos gestos, sobre os meus sentidos da estação, destapados, desentorpecidos, julgando captar as coisas, os objetos, os estímulos como numa primeira vez! Repito para mim que Os pequenos gestos são os que prefiro. Sei-o desde sempre, mas gosto de o lembrar. Fecho a porta do carro, caminho sem destino, vou considerando devagar as diferentes perspetivas da cidade, as casas, as pessoas, as cores, os cubos de pedra no chão, os sítios de que gosto mais e gosto menos.

Os pequenos gestos nunca são pequenos! São tudo! Gestos como escrever uma carta no impulso da amizade, gestos como observar a quantidade de ternura de um pai ou de uma mãe a tomar o filho pela mão, gestos como avaliar o calor que se concentra num abraço ou num beijo, ou saborear intensamente os minúsculos rituais que nos cercam e que por capricho se tornam invisíveis, rituais como tomar café e limpar os grãos de açúcar derramados em torno da chávena, rituais como saborear a suavidade do sol, aí pelo meio da tarde, nestes últimos dias de novembro.

Talvez me lamente por tê-los ignorado tanto tempo, por me haver parecido a vida um escombro, ou um puzzle de peças soltas, ou esse vazio onde todos os triunfos e conquistas não silenciam a falta de algo, a dor de algo, a urgência de algo…

Reentro no carro, fecho a porta. Com o caderno em cima do volante e antes de regressar a casa, assento em letra miúda e pausada: O ar frio trespassa-me por inteiro corpo e alma, aragem de Outono, lavada, repleta de memórias, estímulos que se agarram a mim, intensos e inexplicáveis…

Ao cruzar o cinto, com a chave na ignição, transmudado, em paz, prometo-me apreciar melhor os instantes únicos do tempo, os pequenos flagrantes de um quotidiano tantas vezes baço e estúpido, instantes como abrir um presente ou escutar a água, apertar os atacadores ou sentir o afago de uma mão no rosto, segurar até esta velha parker, que comigo vem dividindo a luz e as sombras de existirmos ambos, assim, um para o outro.

In DOS MAUS E BONS PECADOS (Opera Omnia, 2007)

NÁPOLES

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Fotografia: Peter H.

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O calor morde impiedosamente. Na laguna a poente da cidade, os pombos proporcionam um espetáculo invulgar, abrindo e fechando as asas dentro de água, num modo de peixes desesperados. De resto, não se vê um único gato nos jardins ou nas varandas. Só os trabalhadores da construção civil aguentam firmes no posto, embrulhados numa nuvem de pó e sentindo dentro do capacete o suor gotejar como uma fonte.

Nesta altura do ano, o asfalto (repleto de excreções e de gordura) fede. Fedem as caixas das sarjetas, às quais assoma o bafo pestilento das esgotos. Fede o lixo abandonado, acumulado, fermentado um pouco por toda a parte.

Drusiana Abbagnano caminha à pressa. O seu trajeto: sair da Chiesa del Gesù Nuovo e abrigar-se no claustro do Complesso Monumentale di Santa Chiara, pouco mais de duzentos metros. Apesar de curta, a sua jornada faz-se num palco ababelado, onde turistas de todo o mundo se atropelam e atordoam, iguais a uma cainça.

Aqui, nas imediações do Vesúvio, todos os ângulos parecem formidáveis.

Drusiana é uma monja. Estuda e ora, trabalha e presta assistência no Ospedale degli Incurabili. Na sua cela poisam livros incontáveis de História Medieval. Por exemplo, os Historiarum Libri Quinque de Rudolfo, o Glabro. Interessa-lhe conhecer, sentir o pasmo das almas viajantes, que se descobrem ingenuamente próximas tanto do passado como do futuro. Se a Idade Média é a imensa madrugada, durante a qual a Cristandade ergueu as suas paredes vetustas, o porvir é a manifestação de um propósito. E se estudar as origens da sua fé, amar a música gregoriana, reaprender Agostinho, Tomás de Aquino, Francisco e Clara de Assis constitui para si um deleite imenso (uma imersão em sabedoria e paz), apenas nas obras e no trabalho se realiza. Os outros são a prova de que Deus nos fez nascer incompletos e ignorantes. E, por isso, lhes devota a vida.

Mas este calor, esta sujidade maligna, esta confusão da cidade vendendo-se aos forasteiros perturbam-na.

Tem pressa, sim, procura a quietude, a frescura, o som revigorante da água que sai dos repuxos e corre nos canaletes, através da relva e da murta, ao longo dos arcos e das lajes rebrilhantes e sombrias.

Esse refúgio é o seu paraíso na Terra. Nele (privilégio imenso) ciranda muitas vezes sozinha. Ouve o sapatear das suas próprias sandálias, o canto das rolas-coleiras, o murmúrio das palavras que sempre recita a meia voz dos livros santos.

Peripatética é esta freira clarissa: ensina e aprende, caminhando sempre; a ninguém mais ensina, a si sim, dando voltas ao pátio do convento e repetindo os cânticos fraternos da sua ordem.

Às vezes a chuva vem. Chega de supetão. A monja escuta-a e observa-a, poderosa, abluente, caindo sobre a pátina urbana como uma graça infinita do Senhor!

Em Nápoles, a chuva não é despicienda ou arbitrária: Deus serve-se dela e do pó, como da tinta e do papel se servem os homens. Depois da chuva todas as coisas se parecem humildes e reabilitadas, como depois de um perdão.

Mas hoje o calor é imenso. Insuportável.

Não lhe pertencem, ainda assim, os pensamentos de Drusiana.

Pensa, isso sim, na velha senhora, de aspeto débil e pálido, que lhe estendeu as mãos esta manhã e lhe disse “Adeus”. “Onde estão os teus filhos?” perguntou. Como é seu hábito, a monja repete num modo recitativo as palavras em que medita. Escuta e repete, repete e cisma:

“A ‘o cane viecchio tutte quante lle scarpesano ‘a coda”.

Já em muitas ocasiões, no leito de morte de outros doentes, sentiu a mesma vivíssima impressão de amor. Têm talvez a mesma idade, histórias diferentíssimas e, por fim, quem sabe o mesmo destino.

Drusiana pensa na expressão bela, pungente, quase feliz, que a anciã juntou no fim de tudo, como um chiste:

“‘A vecchiaia è carogna, ma pe’ chi nun’ n’ce arriva è vriogne.”

Nós, que entendemos algum dialeto napolitano, traduziremos ambos os provérbios: “Ao cão velho todos pisam a cauda” e “A velhice é uma podridão, mas vergonhoso é não chegar lá”.

Dia de calor insuportável, sem dúvida. Igual a um grande inseto mordendo sem piedade. Todos aqui conhecem a dureza deste aferroar. Em Nápoles até as pedras gemem debaixo do sol.

Também elas cismam e repetem velhos pensamentos dolorosos. Dificilmente traduzíveis.

O TRADUTOR

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Fotografia recolhida no banco de imagens Pixabay

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«Não desejes o que não sabes encontrar, não busques a fonte do que não podes compreender. Uma âncora desce da tua alma para que não se te confundam os olhos, não te ensoberbe a língua, não se te tresmalhe a razão.»

Sem grande esforço, o noviço ia traduzindo do latim as palavras piíssimas de São Germano, desatento a anacronismos como o da âncora que o eremita jamais poderia ter usado como metáfora, se por inventar se encontrava o mecanismo. Não era mau traduzir. Noutro século teria ele de replicar aquelas palavras medievas, enchendo com laboriosa e abnegada e infatigável mão o seu pergaminho no Scriptorium de todos. Precisaria de uma pena de ganso, e de tinta avonde, e de arte de desenho. Agora bastava-lhe um dicionário e uma certa capacidade equitativa de disfarçar bocejos e de provocar à sorrelfa os outros irmãos.

Porque raio lhe atribuíra o mestre um dos velhos não fazia ele ideia? Seria punição, ou má vontade, possivelmente ambas. Só por castigo se obrigava alguém a mergulhar num discurso tão resseco (ou recesso, tão insosso, tão ressentido) de um homem que via, que ouvia, que pressentia Deus no brilho da mica, no farfalhar das árvores, no hálito dos lobos, mas que desconfiava do sopro sulfuroso das minas, do sibilar das ervas e, sobretudo, do olhar das mulheres.

«Porque diabo o prazer pode ser tão mau, se tudo o que a ele diz respeito se parece tão dúlcido, saboroso e vivo? Tão próximo do maravilhamento e do êxtase divinos?»

O moço fazia perguntas, mas mantinha-as bem calafetadas na cabeça. Não eram sequer perguntas. Talvez desabafos, corredios pensamentos, entoações da sua retórica juvenil já ornamentada. Nada que uma careta ocasional, vinda de um dos cantos da grande sala, logo não abafasse e lhe provocasse um ar de contidíssimo riso.

«Não cobices o esterco do mundo.»

De quando em quando, as palavras do santo iam longe de mais.

«Não macules a nívea candura da tua alma com os pífios apetites da carne.»

Traduzir era o seu forte. Mesmo se tropeçando, como acabámos de notar, em pleonasmos. O moço cismava na forma libidinosa de certa rapariga morena que todos os dias o ia espiar, para lá das grades do claustro. O bater do coração era então um rufar de sangue. Porque havia de ser mau, perverso, pecaminoso, amar?

Traduzia sem esforço. Enquanto o fazia, as palavras iam e vinham. Dificilmente ficavam.