HERANÇA

Foto de Arquivo Familiar

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A nossa mãe queria ter sido professora. E tê-lo-ia sido melhor do que muitas professoras que nos ensinaram na escola. Arrancava-nos ao marasmo da lareira, enquanto a ajudávamos a cortar linhas aos bordados da fábrica, com historietas da Branca Flor e de almas penadas. E punha-nos ao corrente das peripécias da avó Amélia, determinada a manter a ordem da casa mesmo que à distância. E recitava-nos a catequese, ditava-nos a tabuada, exigia-nos o terço familiar todos os fins de tarde, ao som da Rádio Renascença. Mas, sobretudo – e isso é uma grande saudade – rematava quase sempre os pensamentos com um provérbio certeiro, com um adágio prodigioso, com uma daquelas suas frases que pareciam chegadas de milénios de sabedoria.

– Meus filhos, comer onde comem poucos, trabalhar onde trabalham muitos.

Crescemos a escutar-lhe coisas. No preciso lugar onde escrevo esta crónica, num escritório que foi, há trinta e muitos anos, um armazém e o poiso de máquinas de costura, vieram palavras de insulto, de cansaço, de desabafo. Uma das máquinas desobedecia-lhe constantemente e, então, o pedal, pisado com uma fúria lendária, ao jeito de Aquiles (às vezes seguida de uma risada louca de descompressão), provocava em nós um espanto imenso, um susto sem palavras, como se compreendêssemos já que algo ruía nela antes do tempo.

– Como diziam os antigos: pelo bom não te poupes, pelo mau não te mates!

No final dos anos oitenta, tinha a seu cargo a fábrica entretanto posta de pé, a avó acamada e nós. Nestas paredes que o silêncio calafetou, vejo-a a trocar as toalhas pelas notas de mil escudos, vejo-a ao telefone com os clientes caloteiros, a vociferar contra os fornecedores mentirosos, a fazer contas com o lápis vermelho da Viarco, a chorar nos dias difíceis dos saldos bancários contrários. Porque uma coisa a mortificava mais do que as outras: dever dinheiro. Julgo que nos passou a todos esse desgosto. E nunca se deitou sem fazer cálculos, cismando no modo de pagar as dívidas depressa e bem, sem inveja da fortuna dos outros, mas sem abdicar da sua porção de sucesso, do retorno do muito investimento que fez ao lado do pai.

– Não quero que ninguém morra, mas quero que a minha vida corra.

A nossa mãe teria sido uma excelente professora. Gostava de conversar (as modulações da sua voz denunciavam maravilhosamente os estados de espírito, sobretudo quando o fazia com alguma amiga dos tempos da escola primária). Gostava de repetir chalaças, provocações, citações, alcunhas, paródias de acontecimentos antigos, episódios que apenas ela e o pai subentendiam e que a divertiam muito, a ponto de lhe soltarem gargalhadas mordazes. Gostava de dizer adivinhas, poemas, anedotas, esconjuros, orações. Sabia de cor milhares de pequenos imensos textos, colhidos aqui e ali e acolá, nos lugares e nas ocasiões mais e menos impróprias.

– Ricardo, eu te talho em cruz; Deus te livre do acanho e de quem te acanhou e a má vista te deitou. A casa dessa pessoa vá ter tudo quanto te quer fazer…

Escrevo convencido de que lido ainda mal com as memórias. Está um dia bonito — aliás, absolutamente formidável — nem demasiado quente, nem frio; um dia de verão antecipado, uma manhã doce, com o perfume das laranjeiras e das cravinas (de que tanto gostava) a ondular desde os jardins em volta da casa até ao lugar onde me escondi para isto. Trouxe café. Julgo que o café de borra se tornou outra das suas influências sobre nós os quatro. Escrevo procurando a lucidez que dominou e a dominou até ao fim. Vejo-a na cama, na última cama, com os fios presos às veias, o olhar periclitante mas sem medo, a bater-nos com força, a ditar (já sem paciência, mas repleta de amor) as últimas lições, a rematar com um:

– Pois é assim, meus filhos: com papas e com bolos se enganam os tolos.

E as minhas irmãs muito fortes a ouvir, eu a sangrar pelo nariz, elas a sorrir, eu esganado pelas lágrimas, todos a decorar aquela que foi sempre a sua dádiva mais alta. Não tivesse sido a obstinada recusa do avô (que obscuramente o não permitiu jamais), a nossa mãe teria sido uma professora exímia. Não por acaso lhe seguimos o rasto e o fazemos todos os dias como ganha-pão. Algures, num dos inumeráveis pedaços do universo, ela continua a proferir verdades num tom magistral e nós a escutá-la:

– O mal e o bem sempre à cara nos vem.

Ou aquele, em especial, quando a nossa preguiça a exasperava:

– É bem certo: manda e faz e servido serás.

Ou, ainda, aquela lengalenga que dizia em tom bem-disposto, todos os anos por altura das ceifas, aprendida seguramente nos serões da sua juventude, quando com a avó e as tias fazia a trança:

– Diz o milho ao centeio: “Ah, meu Gandarela. Andas sete meses na terra…” Responde o centeio: “Ah, meu reboludo. Quando tu faltas, eu acudo!”

A nossa mãe completa hoje setenta anos (recuso a ideia de que não o faça). Vim ao computador como quem necessita de se confessar a um padre amigo. Os provérbios, emersos de algum esconderijo misterioso, dançam-me agora na cabeça. Preciso de os anotar nalgum caderno. Seria bom que o fizesse. São a prova de como a pedagogia lhe corria no sangue. De como fomos privilegiados. Do quanto precisamos de não deixar esquecer, recordar, de deixar tudo isto aos pequenos em herança.

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© João Ricardo Lopes (2026)

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Nimbo

Fotografia de Ali Rowshani

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Então à tardinha, o sol decide juntar-se todo e – um pouco esfarrapado, é certo – bater em cheio no vidro poente da casa. É preciso que se note o quanto por ele se perguntou ao longo do dia, especialmente de manhã.

A mulher, que agora se consola com a boa luz para lá e para cá da cortina, acalentada pelo silêncio tépido instalado entre as paredes, enfureceu-se com os aguaceiros açulados pelo vento, com a casa que ficou por abrir, com a roupa que não pôde estender, com a saída que precisou de adiar. Olhando agora o patiozinho e os telhados em volta, os gatos adormecidos nos beirais, o céu retomando as cores citrinas do bom tempo, sente-se tentada a sorrir.

O terço em cima da cómoda e as pagelas, o retrato do marido e dos filhos, o cofrezinho de nácar onde guarda os anéis e o colar, a própria madeira reluzente, expressam-se num tom ameno de condescendência, como se dissessem tudo vale a pena, tudo vale a pena ainda.

Este é o momento em que o rapaz da vizinha chega da escola e se põe a tocar o violoncelo. A mulher gosta muito de escutar os sons graves que nascem das suas cordas. Sentada na beira da cama a meditar, a lembrar, a rezar, descobre que um punhado de coisas pode bastar para que se viva bem, com amor suficiente, com leveza que chegue para reconhecer outra vez todo o caminho.

O sol conta muito. O solzinho é como um velho amigo que se espera e que sabe exatamente o que dizer quando precisamos que nos digam alguma coisa.

A mulher às vezes interrompe-se no repetir das ave-marias. Vem-lhe à cabeça que decerto amar tanto o sol e sentir por causa dele vontade de perdoar todas as ofensas sofridas e pedir perdão por todas as lástimas provocadas, assim mesmo, a meio do terço, como um parágrafo especial com Deus, é também um modo de orar. Sente a pele eletrizar-se, engelhar-se como tomada por um arrepio de descoberta.

Mas depois arrepende-se. Decide que foi talvez longe demais. Talvez tenha blasfemado só de pensá-lo.

E retoma a mastigação das palavras, quase a ceder ao sono, quase com um sorriso galante a enformar-se-lhe nos lábios. Sente-se rejuvenescida, como se em vez do agora vivesse outro tempo, como se no lugar do sol outro lume viesse, sorrateiro, benévolo, cheio de ternura, a beijar-lhe as mãos.

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© João Ricardo Lopes (2026)

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Em louvor do trabalho e dos trabalhadores

José de Uría y Uría, Depois de uma greve, 1895

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Longe de imaginar o meu futuro, vivi o meu passado. Trabalhei descalço na terra, semeando e colhendo batatas, por exemplo. Trabalhei numa pequena fábrica têxtil, assegurando o funcionamento de uma máquina industrial, o caneleiro de dez fusos, e dei o meu melhor no armazém, onde, juntamente com as minhas jovens irmãs, recortei peças de tecido e embalei toalhas às dúzias, para além do serviço de limpeza geral. Esse tempo coincidiu com o fim da infância e o início da adolescência, tendo com ele aprendido regras básicas e indeléveis, como a necessidade de justiça no trabalho, o dever de excelência do trabalhador, a prerrogativa do descanso e, sobretudo, o direito à ascensão social.

Num tempo em que se negoceia um pacote laboral cheio de armadilhas e traições políticas, algo que me enoja, e numa era em que se fala de despedimentos incomensuráveis por via da generalização da mão de obra robótica (ainda recentemente o vi num hospital privado, onde o serviço de admissão ao balcão está a ser substituído por quiosques e por uma aplicação), medito sobre várias coisas em simultâneo: o que perguntarão às crianças do futuro no lugar da famigerada questão «O que queres ser, quando fores grande?»; que aplicações irão pescar-nos a sardinha e o bacalhau em alto mar?; que robôs nos mudarão a fralda, nos ensinarão a escrever, nos darão consulta, nos defenderão em tribunal?

Há dias, repassando um dos corredores mais brilhantes do Prado, voltei a deslumbrar-me com os grandes quadros dedicados às grandes transformações sociais em Espanha, na era da industrialização: são obras-primas de Joaquín Sorolla, Santiago Rusiñol, Juan Martínez Abades, Juan Luna, Darío de Regoyos ou José Jiménez Aranda. E são, muito especialmente, o testemunho da força, da coragem, do sofrimento, da dívida épica que os Estados têm para com os seus trabalhadores (como tão eloquentemente José Saramago o escreveu em Memorial do Convento), a quem, mais do que aos reis e senhores, devem tudo. Estes pintores mostraram o que viram, e o que viram permanece como uma voz silenciosa das muitas vidas destruídas – crianças, homens e mulheres, idosos – pelas tenazes poderosas do dinheiro.

Um quadro me cativou sobremaneira: Después de una huelga, de José Uría y Uría (1895). A violência da cena, apenas compreensível pelos elementos de fundo (os guardas e a cavalaria), e as grandes dimensões da tela contrastam com o plano principal. O assassinato de grevistas é, sempre foi, o último reduto dos regimes podres. Dos regimes cínicos e dos líderes fracos e intolerantes. Dos líderes que se deixam abocanhar pela mordedura lenta dos patrões, banqueiros e donos das fortunas.

Num tempo em que as grandes empresas empilham milhões e os trabalhadores não conseguem pagar casa, numa era em que as máquinas escorraçam das fábricas, dos mercados, dos aeroportos e, qualquer dia, das escolas e (não apenas dos postos de admissão) dos hospitais, o que significa olhar esse passado doloroso? Que futuro imaginar? Como valorizar ainda o trabalho? E – sem segundos sentidos, partidários ou ideológicos – os trabalhadores?

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Nada houve que tivesse valido a pena

Fotografia de Joakim Honkasalo

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Por uma razão ou por outra, ou por todas, há aqueles dias em que nos descobrimos miseráveis. Os ossos gemem, comprimem mais as linhas frontais da nuca, impedem-nos de respirar. O sangue enlameia-se na boca, galga as narinas, conspurca a cerâmica do lavatório. A cabeça e provavelmente a alma, com que se associa às escondidas, erram pelos dedos e provocam tremuras.

Antecipamos o parágrafo.

Trazem-nos comida a casa, digitam-nos uma mensagem, preocupam-se com os nossos olhos vazios. Algures, numa voluta indefinida do cérebro, o comércio da informação opera-se tão devagar quanto possível a um filho de Deus demasiado vivo, ou demasiado morto. As palavras entram e partem em grandes vagões sem mercadoria: não nos servem de nada, não atingem a profundidade, não nos respaldam contra o breu ao redor dos outros, não respiram o mesmo ácido que nos sobe e desce pela traqueia.

O que é isto?

Talvez fosse boa altura para engastar aqui uma frase inteligente. Sublinhei a lápis grosso milhares delas. Tenho-as anotadas, arrumadas, avulsas, postas no interior de livros e de cadernos de que me esqueci, ou em guardanapos, em papelitos irrisórios da publicidade religiosa, em bilhetes de cinema, nos recibos das finanças. Uma frase inteligente é sempre capaz de acelerar o raciocínio e de filtrar o absurdo do tempo numa firmeza tonta de génio. Uma frase de Borges. Uma frase de Kundera. Uma frase de Lobo Antunes. A miséria nutre-se conspicuamente destas certezas que a humanidade gosta de cinzelar.

Como te salvarás?

Dias e dias de solidão, soterrado nos compromissos balofos, a vasculhar na carne mole dos papéis difíceis, trazem-nos o grande mal. O grande mal é a tolerância, a mansidão de escravo, a paciência. Criador e criatura caem juntos na mesma água limpa e diluem-se até ao ponto de se não reconhecerem já, de se odiarem implacavelmente, de se mutilarem. Sobrevém a fúria súbita de Aquiles, a vontade destemperada de apagar todos e tudo, a ordem, a memória, o pedestal do amor, Deus, as galáxias. Um homem riposta com desmesura, odeia e exige. O homem exige que um grande mal vassoure a natureza medíocre das coisas. Futuro, presente e passado querem devorar-se como o dragão do Apocalipse voltado para a sua cauda espinhosa.

Um homem miserável sabe o que isto é.

Mas, então, sombriamente, come-se um pouco de chocolate. Amargo, 100% de cacau. Sai-se à varanda, aspira-se o rumor, bebe-se uma chávena de café, fuma-se um cigarro descoberto numa gaveta de baixo entre postais desbotados e cartas cheias de úlceras amarelas. Recita-se com pudor religioso versos de um poeta arcaico. Olha-se o nevoeiro e o triângulo formado pela luz dos postes elétricos. Existe na vertigem das ações prestes e excessivamente próximas dalgum fim um delírio de felicidade. Parece maravilhosa a potência dos impotentes, a dor física dos extraviados, a loucura dos metros que nos separam do asfalto.

Ponho o violoncelo de Yo-Yo Ma a tocar.

Um homem necessita de escrever. Para todo o sempre ou para a ninharia dos alfarrábios, um homem necessita sempre de um lápis e de um caderno sobre a mesa. Na sua doença mais vil, no lugar onde o orgulho se despenhou mais desastroso, precisa um homem de tudo o que acabou de dispensar: de Deus, do medo, das frases repletas de opacidade, do gato que se reergue do sono, do aconchego do candeeiro atrás da poltrona. Um homem precisa de comer, de dormir, de se perdoar, de fingir que não o ferem horrorosamente a lucidez, o vexame, a fome, a condição mendiga da carne e do osso, da carne e do espírito, da carne e da podridão.

E o que é a sua miséria?

Por uma razão ou por outra, por todas, decerto, há aquelas noites em que apertamos o botão e decidimos riscar de alto a baixo a folha da agenda. Nada houve que tivesse valido a pena. Nem o desengano.

Acerca da eternidade do Führer

Fotografia de Rasa Kasparaviciene

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Sempre que pode, Sven Vogel atravessa a pé velhas províncias da Europa à cata de lugares arruinados. Investe pelo interior de túneis e de caminhos ferroviários abandonados, invade o segredo de florestas, devassa o silêncio de portões enferrujados, e aí, no lugar onde as teias de aranha amortalham e os grandes silvados escondem, Vogel fotografa.

Fascinam-no especialmente os castelos, os antigos sanatórios, os edifícios estatais reduzidos a escombros, os teatros mal seguros nos pilares, os hotéis maravilhosos da Belle Époque caídos numa decadência luxuosa e sem piedade. A objetiva das suas câmaras alimenta-se deste entulho, deste silêncio podre, do pó, da oxidação dos ferros e dos vitrais ultrajados, da coisa humana comida já pela morte.

Recentemente, numa das suas deslocações à Baixa Baviera, Vogel descobriu o que resta de uma antiga escola primária.

Na mesa que outrora pertenceu ao professor, dentro de uma pesada gaveta que precisou de arrombar, ao lado de obsoletas canetas de tinteiro e de sujíssimos frascos de vidro fosco, os seus dedos tocaram um caderno pequeno, de contornos arredondados, em cuja capa (sobre a águia e a suástica), o tempo lavrou um líquen peculiar em forma de caranguejo.

No papel amarelecido, entre cálculos e exercícios de gramática, no meio de frases da propaganda nazi e de pequenos improvisos pueris, podia ler-se o seguinte:

Meu querido Franz,

Enobreces a tua escrita com a paixão de um poeta e a lucidez de um filósofo. Graças à nossa escola e a alunos como tu, a sagrada pátria alemã permanecerá para sempre viva e pujante. A tua composição é um hino ao Führer. Ele, expoente da força e da superioridade, há de guiar-nos através da eternidade.

Vogel olhou em volta. O estuque derruído, as janelas estilhaçadas, as fezes dos pombos, e a intensa impregnação devida à urina dos ratos estrafegavam a sombra, mal permitindo respirar.

Debaixo do carimbo desbotado da suástica, assinava o panegírico Karl Oberheim. A data, completamente tomada pelo bolor, não a conseguiu o fotógrafo decifrar.

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Ritual

Fotografia de Hannah Reding

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Adquirira o hábito de lavar meticulosamente as mãos e de aparar as unhas antes de discursar. Passava as palmas e as costas dos dedos por água, ensaboava-as com Clarim e voltava a oferecê-las ao fio que saía da torneira quase a ferver. Era um ritual.

Depois, antes de sair do gabinete, lia uma última vez o texto e corrigia-o com um lápis barato, riscando mais palavras do que as que reintroduzia no papel. Desagradava-lhe o encontro com as fórmulas, os lugares-comuns, as frases que soavam a muito e não diziam nada.

Por fim, olhava-se ao espelho.

Fazia-o em silêncio, procurando lobrigar no rosto à sua frente os mínimos sinais da infância. Ia por aí, atrás do garoto de socos, de camisola rota e buço feio, cuja bravura no trabalho de outrora ele parecia estimar mais do que o prestígio por si alcançado com os anos. Esse miúdo era a sua inspiração.

Permanecia num mutismo quase absoluto muito tempo, tempo incontável, uma hora, um minuto, uma eternidade, até que uma assessora lhe batia à porta.

Esperavam-no.

Era agora. Milhões de espetadores tinham a televisão sintonizada num canal por onde as suas palavras ecoariam, urbanas, escolhidas, talvez um pouco rudes, competentes, em voo picado até ao âmago dos problemas.

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Limpidez

Fotografia de Matt Hoffman

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Há um só modo fiável de amar a vida: chegar perto da limpidez que exige paciência, coragem, sacrifício, muitas vezes silêncio e abnegação. E, também, derrotas, o confronto com o contraditório, aprendizagem permanente. Zbigniew Herbert, num poema notável, diz que «Gostaria de descrever a emoção mais simples», trocando «todas as metáforas / por um termo / arrancado do peito como uma costela / por uma palavra / que caiba / nos limites da minha pele».

Com efeito, aprendemos com a idade que nada é tão difícil como a limpidez da infância, uma dádiva equívoca, mas preciosa. Aprendemos que a verdade (como o sol) continua a irradiar luz e calor, mas mudou de posição no horizonte. A ironia não pode ser mais flagrante: à medida que envelhecemos e enfrentamos a miopia física, olhamos mais profundamente para dentro dos fenómenos, do carácter das pessoas (do nosso próprio carácter), da perplexidade da vida, para o sentimento que os pequenos seres despertam, para a dor que nos infligem a ignorância e a selvajaria humana; olhamos mais densamente para o interior do cosmos, da morte, da genuína felicidade nascida num poema; olhamos para o conforto das vozes amigas, para a sageza solene dos quadros de Vilhelm Hammershøi ou para o enfeitiçamento dos acordes de guitarra de Isaac Albéniz ou de Joaquín Rodrigo. A vida não exige fortuna ou génio para ser meritória. Exige apenas bondade e quietude. E nós aprendemos com a idade que nada importa mais do que estarmos próximos do nosso destino, ainda que o nosso destino seja uma miragem. Reconhecemos o destino pela confiança e pela alegria com que abrimos a porta em cada manhã. Ao fim e ao cabo, a compaixão é o prémio da nossa descoberta.

Escrevo estas palavras numa manhã luminosa de dezembro, com uma chávena de café nas mãos. Sinto muito para lá de mim a harmonia do espaço e a impetuosidade da mente em esforço. Podia ter usado o lápis e o papel para escrever outra coisa qualquer. Mas precisava de anotar este pensamento. A vida escolheu-nos, como o amor nos escolhe, ou o olhar de alguém que procura o nosso. Suponho que corresponder a esse desvelo vale não só a pena, como sobretudo o coração.

29.12.2025

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O leproso

Fotografia de Yash Banerjee
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Era um penhasco, no cimo do qual antigos ermitões haviam edificado pedra a pedra uma pequena igreja. Olhada de longe, mal se distinguia da massa granítica. De perto, assemelhava-se a um abrigo de animais, com uma cruz empoleirada no topo.

Soeiro Ramires, falcoeiro, ou talvez ourives, ou alfaiate, ou peleiro real, conforme a versão do relato que até nós chegou, era portador da terrível hanseníase e encontrou no tosco e santo amontoado de calhaus o seu esconderijo. Não apenas para morrer, mas porque fugia da justiça. O seu crime, o ter mantido com outro homem relações contranaturais. A lepra e a culpa perseguiam-no implacavelmente.

Foi no tempo dos primeiros reis de Portugal. Também Afonso, filho de Sanches, neto de Afonso, morria como um gafo. Outros monarcas da cristandade haviam padecido e de padecer de igual enfermidade. Ele, Soeiro Ramires, fora tomado por um só pensamento: subir, subir o mais que pudesse, antes que demasiado tarde, a um lugar solitário onde a misericórdia do nosso Salvador mais depressa o descobrisse que o mísero discernimento humano, e esperar, senão a cura da pele, a absolvição da alma.

No alto do penhasco, lá, onde os pinhais se ocultam no nevoeiro, desceu da montada e instalou-se como pôde. Fazia lume e cobria-se com uma manta grossa, comia pão e orava.

«O amor escolhe-nos», pensava. «Com este grande pecado de amar ofendi o Criador, que assim conspurcou a minha face, as minhas mãos, os meus braços e todo o meu corpo».

O frio punha a sua veste branca a toda a volta. Grandes nevões mergulhavam do céu e faziam rebrilhar as montanhas beirãs do sopé aos ossos agudos dos seus cumes. Tremendo, este infeliz colhia alguma lenha e punha-a a arder.

Certa noite, uma grande estrela riscou o horizonte de lés a lés, caindo em cinza luminosa sobre a sua cabeça. Soeiro Ramires admirou-se muito. Não só as tremuras e o prurido da carne deixaram de o torturar, como uma grande paz, uma impressão de renascimento e de leveza inexplicável o reerguiam da vileza do mundo.

Conta-se que a doença o deixou, tão misteriosamente como chegara. Ramires entregou-se à vida religiosa, tornando-se um dos primeiros franciscanos a professar no reino. Um templo, de consideráveis dimensões, foi construído no lugar do primitivo, a Igreja de São Francisco, de São Sebastião e da Natividade.

Hoje, pouco frequentado, quase ao abandono, é onde se dirigem ainda os crentes desesperados, em busca de um milagre e de redenção.

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Um mendigo

Fotografia de Mark Williams

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Certas frases soam ao brilho frio das igrejas, pensou Ricardo Navajo, enquanto acariciava, cheio de esquecimento de si mesmo, o pequeno cão a seu lado.

Neste canto da cidade, as esmolas são, de certo modo, menos avarentas, mas bastante mais barulhosas. Um homem colado ao chão ouve de tudo, inclusive palavras articuladas com mecânica sabedoria.

«Devemos sentir-nos gratos pelo que Ele nos reservou e reconhecer que é tão importante o bocado de pão, como a beleza da saxífraga.»

Quem o afirmou fê-lo com certeza tranquila, que era ao mesmo tempo a expressão exterior de uma frenética procura da alma. Depois, voltado para os seus ouvintes, numa espécie de prédica improvisada, também disse:

«Vede: há todo um fundo para onde nos pesa o corpo e todo um céu para onde devemos elevar a alma. Abaixo de nós a terra para nos cobrir, acima de nós as galáxias que nos hão de guiar para todo o sempre o espírito».

Ricardo Navajo coçou o queixo com os dedos enregelados e as unhas grandes. Depois, coçou o ventre maldisposto pela fome. A seguir, pôs-se a massajar a nuca do rafeirito de companhia, deslembrado da tigela de plástico onde dormiam alguns cêntimos em paz.

Nesta esquina da cidade, caminha-se quase sempre com pressa e quase nunca com piedade. As conversas que se atiram ao ar lembram muito os fogos de artifício: são lumes-fogachos que rutilam sem aquecer.

O orador acabou de entrar no Seminário com os discípulos; os automóveis buzinam com regular ferocidade; os semáforos abrem e fecham numa indiferença de deuses ancestrais.

Navajo possui o hábito de cismar no que os outros deixam, à sua passagem, em suspenso. O pensamento humano, se mais algum existe, organiza-se numa estrutura de andaimes. Cada homem vê o mundo da maneira que lhe convém, supondo-o único e universal do alto, ou do baixo da sua visão.

Que existem belas flores e estrelas à nossa volta, o mendigo não duvidava. Mas uma côdea de pão e dinheiro para a terra nos receber dignamente os ossos é outro campeonato.

Navajo recebeu agora mesmo o estampido firme que faz a moeda de um euro. A quadra do Natal é uma boa safra, responderia, se alguém lhe quisesse saber como anda a vida. Agradece-a com uma vénia estudada, enquanto a palma da mão lhe corre pelo lombo de Riquinho. Assim se chama o melhor amigo.

Era o que diria, se alguém lho perguntasse.

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Torben Bjørnsen

Fotografia de Clem Onojeghuo

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Houve uma época na vida de Torben Bjørnsen em que as ações fluíam e os aplausos chegavam de toda a parte. O sucesso parecia ilimitado e ele impunha-o nos gestos e nas palavras, porque era um escritor excelente e mais exímio orador ainda. As iniciais TB reluziam em letreiros livrescos e nas publicações universitárias, mas sobretudo nos panfletos e placares que punham à entrada dos esgotadíssimos anfiteatros onde ele amiudamente comparecia.

Mas isso foi noutro tempo.

Sem explicação que possamos dar a quem nos lê, Torben Bjørnsen lançou-se num voo cruel de autoapagamento: recusou entrevistas, repeliu convites, esqueceu mecenas e admiradores, calafetou-se num mutismo e numa solidão perturbadores, como se de súbito tivesse precisado de transformar a pele empática da sua pessoa num couraçado de escamas e de puas. Desde há quase duas décadas que lhe não conhecemos novos escritos, nem sequer os breves poemas em prosa de que gostávamos tanto.

À celebridade seguiram-se o ressentimento e a vendeta.

Uma espécie de ódio ao homem tem-se instalado na Dinamarca, país que como todos os outros acumula nobres e podres criadores de opinião pública. Há quem assegure que Torben fugiu apressadamente à justiça, por culpa de um qualquer crime do espetro das aberrações sociais. Há quem justifique o seu silêncio com uma conversão religiosa profunda, daquelas que não se esperam em dias tão desossados de espiritualidade, como são os nossos. Há, igualmente, quem legitime esta mudança com uma simples palavra: cansaço.

Ida Kjær, uma amiga comum, contou-nos recentemente que o reencontra uma vez por ano.

Torben não vive na Gronelândia, nas Ilhas Faroé, nem sequer numa dessas ilhotas a caminho da Suécia. Vive onde sempre viveu, com o seu gato, com a sua coleção de presépios, com os seus cadernos intermináveis onde rabisca emendas e símbolos rúnicos. «Apenas mais velho, muito mais velho, cheio desse brilho infantil que nos leva, neste Dia de Santa Lúcia, em multidão para os canais iluminados. Torben estará lá, anónimo e feliz, partilhando e recebendo lussebullar. Verás!»

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