ATRAVÉS DO COSMOS (3)

Foto: Lazy Vlad
Foto: Lazy Vlad

 

pelas janelas abertas, a manhã é uma longa corda de pássaros cantantes. não há sol, mas nuvens claras, e uma brisa de aldeia ecoando nos estendais e nas ramagens. sai-se para o pátio como quem é libertado de uma prisão, os olhos mal acostumados à luz e a boca em silêncio. é uma manhã sóbria. no pensamento, alinhado pela singular beleza do que é simples, o poema de Alberti. está morto o general. o mundo pode recomeçar

o ranger da nora através do espaço, os arbustos vacilantes, o vidro limpo de todas as palavras engavetadas. a manhã, imaculada, lisa como uma linha, amadurece nas mãos. os pássaros saltitam, desprezam o eco, são livres. não há ninguém ao pé de mim. também eu tremo de amor. os cílios soerguem devagar, alcançam verdades que não podem ser omitidas nem reveladas. razão tinhas, Alberti: o mundo recomeçou

maio de 2017

ASSIM É O AMOR, MÃE!

Foto: Elena Patria, mother
Foto: Elena Patria

Neste dia feliz em que todos somos amigos da nossa mãe (publiquemos no Facebook o quanto amamos a nossa mãe!), e isto vem tanto ao caso como viria um ramo de rosas ou uma joia da Swarovski, hão de perdoar o esforço se não for bonito (nem sempre as coisas bonitas são as que valem a pena), quero partilhar as palavras que se seguem. São para ti.

Mãe, tu sabes que és teimosa. Teimosa e casmurra. Fazes o que te apetece e muitas vezes o que te apetece não devias. No que a comer respeita, nem sei por onde começar. Nós opomo-nos e tu fazes carão, nós replicamos e tu dizes asneiras, nós protestamos e tu fazes braço de ferro, nós insistimos e tu dizes que quem manda és tu. No que a beber se refere, idem, aspas. Café de chicória, duas a três vezes por dia. Água às refeições, com uma estranha cobertura de vinho, só para tingir o copo (chamo-lhe troçosamente “vinágua”), matando os dois líquidos com a mesma pertinácia com que matas a paciência de um santo, especialmente quando te pões a sugar pela colher os grãos de arroz da sopa ou um pedaço retardatário de repolho…

A mesma obstinação mantém-te horas amuada, a tricotar, a cortar, a coser, num rasto de linhas, tecido e agulhas por toda a casa. Num rasto de descuidos, também, comida torrada, animais por alimentar. Como se nesse trabalho discreto e silencioso te esquecesses de tudo o mais. Como se nele pudesses ausentar-te do mundo e, através dele, conseguisses unir pontas soltas da tua vida.

Em que pensarás, mãe, quando te encontro distante, esquecida das próprias mãos?

Há dias em que o sol parece penetrar mais fundo. Então, iluminada até às cavernas da alma, vens de regador para o pátio matar saudades do mundo. É quando gosto mais de te ver. Quando me dou conta dos tempos de antigamente, quando mantinhas de pé uma fábrica e criavas três filhos e cuidavas da avó entrevada. Quando amparavas nos braços um mundo difícil, arregalando às vezes os olhos com fúria, mas segurando-o. Quando aguentavas a dureza das contas, com queixas, mas sem desistir. Quando sustinhas os telhados, com lágrimas, mas sem quebrar. Vinham os problemas, uns pela corda dos outros, e tu barafustavas, lastimavas, fungavas, mas os problemas iam pela mesma porta, outros atrás de uns…

E nunca nós te dissemos que eras super, mãe. Brava, extraordinária, leal, mãe!

Um dia fui para a universidade. E tu choraste como se eu fosse ainda um bebé. Um dia a Elsa foi para a universidade. E tu choraste como se ela ainda devesse caber nas tuas mãos. Um dia a Marta foi para a Universidade e a cena foi a mesma. Um domingo triste, a parar pelos cantos, a enxugar os olhos. Um dia, a pequena, de malas feitas, sozinha, foi para a Eslováquia. E tu, a quem temíamos episódios maus, lá te resignaste a vê-la partir, como compete a uma mãe que, pese a dor (quiçá imedível) deseja o melhor para os seus filhos.

Porque, ao invés de tanta mãe, sempre te importaste connosco! De mais, talvez!

Vejo-te muitas vezes dobrada sobre os teares a unir pacientemente as teias. A dar banho às miúdas. A mudar a fralda à tua própria mãe. Vejo-te grávida da Catarina, incrédula, a pensar no que pensariam os vizinhos. Vejo-te muitas vezes sentada na máquina de costura, a acelerar sobre o felpo das toalhas. A carregar pesos como um homem. A insultar o porco esquivo. A dar farelo amassado com couves ao rancho de galinhas. A pôr panelas e tachos ao lume. A dar de comer e a rezingar com a avó (outra teimosa). A ensinar-nos coisas práticas, úteis, a ser um homem, a serem umas mulherzinhas…

Nunca soube onde ias buscar tanta força. Tanta energia. Tanta vontade!

Os provérbios. Os terços rezados a seguir ao jantar. As histórias da Branca-Flor. As histórias de quando eras nova. As façanhas dos avós nos tempos da fome, dos tios teus irmãos enquanto eram moços, do pai na altura em te cortejava…

Lembro-me de tudo.

E sempre como quem cumpre um dever, sem falhas, sem oscilações, sem cedências. Até mesmo quando te agulhava a pedra nos rins. Até mesmo quando te aniquilava a dor ciática. Até mesmo quando os ossos (esse calcanhar de Aquiles) cederam e com elas a força de outrora e a alegria da mocidade.

Houve vezes em que pensei que nos morrias.

Daquela noite em que a freguesia foi infestada de sirenes e pirilampos, trânsito cortado na Nacional, gente espavorida a falar de mulheres atropeladas, e ninguém jurava que elas fossem á, bê ou cê, apenas que vinham (como tu vinhas) da missa, três, juntas (como tu e as tias), e ninguém sabia quem eram as infelizes, e a GNR impedia, imperiosa, que se transpusesse as barreiras, e o coração me parecia o coração de um elefante irrigando-me de pavor…

Ou daquela vez em que à mesa nos pregaste um valente susto, com as mãos a tremer, a língua atravessada, a tartamudear, numa comoção de vómito e de urina, os senhores do INEM a entrar-nos em casa num aparato de máquinas e maquinetas, com cara de caso, as horas infindáveis no hospital, à espera de um exame, de uma TAC, de uma resposta…

Ou daquela vez em que à chegada da escola nos fizeste reviver tudo, inerte e sem cor, como se o horrível susto e as verdades horríveis precisassem de repetir-se de vez em quando para nos repetir a verdade cósmica de que ninguém é eterno. Outra vez a ambulância, outra vez os bipes sinistros, outra vez a maca e o alarme e a pressa e o pânico espalhado nos gestos incapazes de perceber a gravidade da situação

Houve vezes em que pensei que podia ter sido o pior dia da minha vida.

Mas tu és teimosa, mãe.

Tu, que dispensas (sempre dispensaste) palavras, presentes caros, manifestações de amor (públicas, então!), homenagens gratuitas, reconhecimentos e galhardias literárias, almoços em restaurantes, tu, que és uma casmurra, que comes ainda o caldo (caldo, porque a sopa não a suportas) com garfo e a massa com uma colher, tu, que não ensaias o palavrão se te irritam e deixaste de ir à missa, por não veres utilidade em bater com a mão no peito e negar a seguir uma esmola, tu és a mãe impressionante que derrota todas as mulheres que conheci, incapazes de rivalizar com a tua intrínseca honestidade, com a tua imbatível tenacidade, com o teu sentido de sacrifício, com a sofisticação dos teus silêncios produtores de gestos de grandeza (pois que sempre te vejo a ajudar alguém que precisa), com a enorme verdade dos teus gestos, com o teu ódio à hipocrisia e demais mesquinhices da coisa humana…

Neste dia feliz em que todos somos amigos da nossa mãe, também eu quero dizer que te amo, mãe. Talvez à minha maneira (que é a maneira de um rezingão, de um carrancudo, de um teimoso como tu), talvez à maneira desajeitada que não se dá bem com as elegâncias, mas que é verdadeira.

Amo-te, mãe. Se nunca to disse assim, digo-o agora. Porque um filho nunca deve calar a sua gratidão. Amo-te, com este amor cheio de terra, de memória, de cheiros, de idades, de desencontradas certezas, porque o amor é estranho e às vezes vem por caminhos tortuosos. Não sei porque me não calei. Tu não gostas destas paródias, destes preitos, destas petulâncias estilísticas. Mas um filho, mesmo que escritor, mesmo que habituado a fingimentos e subtilezas de cronista, não deve calar o que corre mais fundo, o que aprendeu mais longe, o que sente mais perto.

Assim é o amor, mãe!

 

 

O CAMPEÃO

Foto: Carlos Lopes Franco
Foto: Carlos Lopes Franco

Há em todos nós um campeão, um campeão verdadeiro e irredutível, um campeão invencível, para lá dos trastes que nos tornámos (ou nos tornaram), um campeão de calções e berlindes no bolso a olhar pasmado o capador de porcos com a subtração orgulhosa ao alto, um campeão de ditados e contas de dividir, de lágrimas e joelhos esfolados, a correr pelo meio de carreiros de tojo, atrás das melhores cascas de eucalipto para fazer ventoinhas

(alguém acredita que duas casquinhas cruzadas de eucalipto e um pauzito a meio, a intersecioná-las, davam duas horas de brincadeira?),

um campeão cheio de resina no cós e lama nos sapatos, de cabelo muito macio, loiro, atrevido até, sonhando com minas e cisternas abandonadas, a cismar de boca aberta e com um fio de baba a sair-lhe sorrateiro no aspeto que teria um gambuzino

(“vê lá se te apanha um gambuzino!”),

rindo de um riso inequívoco e belo, de um riso maravilhoso com dentes incisivos em falta, de tudo o que fosse inseto e passasse pachorrento pelo meio das mãos,  das lagartas peludas aos lucanos 

(as célebres “bacaloiras”), 

mãos que se intrometiam nervosamente (às vezes, desajeitadamente) nos ninhos dos pardais e se comoviam com o ar esgrouviado dos pintos acabados de nascer, rindo de um mundo que era então muito mais do que tempo e espaço, réguas relógios, um mundo em que tudo se fazia a direito e pelo direito, sem pressa e sem ânsia, apenas pelo prazer de se descobrir e viver.

Há um campeão aí. Um campeão que se está a rir de nós, daquilo em que nos tornámos (ou nos fizeram tornar), um campeão de nariz moncoso, a rir do tipo de ar fino e voz melodiosa que abre a porta de nossa casa e atende o nosso telefone e responde a cada frase com um “Certamente, sôtor!”, um campeão que vem de muito longe e se ri da mulher (das crianças) diante do movimento de acrobata da aranha que desce do estuque

(“Jorge! Tira-me essa coisa daqui! Tira-me essa coisa daquiiiiiiii!”).

Esse campeão, esse rosto cheio de segurança, de cinco anos, a ajudar a chamuscar o porco, a raspar-lhe o pelo com uma faca velha, afiada numa correia de cabedal. Esse campeão do sarrabulho e das sopas de vinho, a correr outra vez pelo meio dos pedregulhos e das urzes, saltitando como um animal montês, caindo e pondo-se em pé numa fração de segundos, com o coração aos pulos, atrás de grilos e joaninhas, a cantar “Lá em cima está o tiro-liro-liro”

(“Lá em cima está o tiro-liro-liro,  ⁄  Cá em baixo está o tiro-liro-ló…),

é nele que eu penso agora, como num santo protetor, a quem pedisse a especial graça de me sacudir o torpor, de me afastar as ideias amaneiradas, de me exorcizar o mau-humor, de me endireitar as costas vergadas pela escoliose e pela deceção, de me fazer olhar em profundidade a paisagem, sem metafísica (como o Caeiro), feliz apenas, intacto apenas, vivo apenas

(Há quanto tempo não olho uma paisagem como deve ser!).

O tempo pega-se-nos. Apaga os campeões. Avilta-nos. Tão limpos e exatos, tão politicamente precisos, e polidos, e doces neste ar de eunucos de fato e gravata

(Querido, não te esqueças do jantar dos Croft! Doutor, a reunião com o Secretário de Estado ficou marcada para as dezassete! Jorge, estás proibido de faltar ao meeting amanhã à noite!).

O tempo arrasa. Aboneca-nos. Faz de nós marionetas, uma espécie de homenzinhos de palha para me servir de Eliot

(Jorge, não acho nada bem que andes a falar aos nossos filhos dessas pinderiquices de quando eras garoto!),

torna-nos uns velhacos, uns frouxos, incapazes de defender o sagrado quinhão da nossa memória mais acesa

(Vê lá, comporta-te, querido, não dês azo a selvajarias cá em casa!).

E, no entanto, o campeão continua inteiro. Não cedeu só um milímetro. Transpira por todos os poros a saúde indefetível dos seres que se não vergam, se não envergonham, se não deixam subornar, boicotar, asfixiar pela cobardia

(Estás cá, querido? Vais ao menos a prestar atenção ao volante?),

a correr, a foçar entre os taludes, a agarrar répteis e pássaros distraídos, a observar com minúcia operações e cerimoniais de matadouro, a comer e a beber rijamente feliz, indestrutivelmente feliz, como quando a prova dos nove confirma um cálculo, como quando o coro das meninas ergue brados ao ar, como quando a funcionária em seu auxílio avança com uma vassoura em riste, e nós fugimos, e nós rimos, e nós sentimos o prazer indizível de missão cumprida…

TODAS AS MELHORES CONVERSAS COMEÇAM POR ACASO

Foto: Omar Biagi
Foto: Omar Biagi

Todas as melhores conversas começam por acaso. Foi desse modo que começou a nossa. Tu, bigodes de chocolate ao largo da boca, como os garotos (logo vi que eras um patusco!), eu com a neura (não me venhas falar das minhas neuras, sou a única autorizada a falar das minhas neuras!), por causa da entrevista de emprego.

As entrevistas de emprego anunciadas são uma vigarice. Os empregadores que precisam de publicitar entrevistas de emprego pertencem a um clube restrito (cada vez mais bojudo, embora) de facínoras, patrões da têxtil, engajadores da construção civil, uns mafiosos, uns trapaceiros, espoliadores de empregadas domésticas, recrutadores de vendedores de banha da cobra (ou, no meu caso, de produtos ortopédicos), uma cambada de intrujões sem alma (se eu fosse do governo pendurava-os a todos pelo pescoço!), uma gentinha desalmada pronta a endrominar a própria mãe (ah se fosse do governo, ou juiz, era um bulir permanente de cordas), uma turbamalta do pior feitio, sempre a enganar o pobre, a fazer perguntas difíceis, a dar-lhe esperanças… Enfim, calo-me por aqui.

E tu não me venhas falar das minhas irritações, sabes lá como estava eu nesse dia, ou melhor, nessa tarde. Nervos à flor da pele, acabada de sair daquela salinha manhosa, no piso de cima do centro comercial, naquele corredor abafado, quase deserto, às escuras, daquela sala cheio da tabaco, daquela mesa onde um tipo me mediu da cabeça aos sapatos, e tu, muito alapado na esplanada, pele irradiante, com o gelado a rodar na boca suja, de olhos fixos em mim, como se te regalassem duplamente o chocolate e o meu minivestido preto (o que julgas tu?, pensas que ia à entrevista sem dar o meu melhor?), sem uma palavra, só a olhar, como se tanto se te desse que a vida corresse de uma maneira ou de maneira contrária…

Mas vá lá, foste um querido. Reconheço que nesse dia, quer dizer, nessa tarde estava uma pilha (Para onde pensa que está a olhar? Julga que sou um bocado ou quê? E limpe essa boca, seu porco!). Tu não respondeste, fizeste tu muito bem, limitaste-te a desviar os olhos, a limpar os beiços sujos, a pedir a conta do gelado e do café (não sei como podes misturar sempre as duas coisas), a levantar-te, a ir e (por essa não esperava eu) a voltar, a postar-te à minha frente, determinado, esclarecedor.

As melhores conversas podem começar assim. Com um olhar sem rancor, um nadinha atrevido, olhos nos olhos, como quem quer explicar uma coisa e sabe o que vai dizer. Sabes como em certos dias a nossa paciência de mulheres é pequena, curtíssima, mais débil do que um fino de cabelo. Não sei como gostei logo do teu sorriso, do teu blazer (reparando bem, até nem eras mau de todo, logo ali percebi como te fica bem o azul!), dos teus dentes certinhos, da tua voz sem azedume e arroucada, sussurrante.

Olhe que é feio atingir uma pessoa assim em público, no meio da praça. De mais a mais, não estava a olhar para si, mas para o senhor que está atrás de si.

Qual senhor, qual carapuça. Essa é revelha. Mentiroso. Voltei-me para ver. Com um grande livro estendido sobre o tampo metálico da mesa, um velhinho invisual dava uma aula de anagliptografia a uma rapariga loira, que percorria cada sulco com um sorriso envergonhado. Qual senhor, qual carapuça. Mentirosão. A loira sim, a loira vistosa, que aprendia com o velhote, para lá olharias tu, meu bandido. E ainda sem uma leve viração de ressentimento, concluíste.

Como terá podido constatar, cada um faz o que quer e pode numa esplanada. Até dizer disparates. E lamento , já agora, que me tenha visto a boca suja. É só.

Não me venhas falar tu de mau humor. Nem de vexames, muito menos do que senti nesse instante (onde estão os buracos no chão quando precisamos deles?). Nem de como e quando sucedeu ao certo a peripécia de estarmos os dois, lado a lado, de um momento para o outro, a gesticular, falar, rir, dizer muitas vezes ‹‹claro››, ‹‹exatamente››, ‹‹tem razão››. Nem como terminámos a rir outra vez, a trocar números de telemóvel, a começar com ‹‹tu›› onde até há pouco era ‹‹você››, a embaraçar um aperto de mão logo corrigido por um beijo (um beijinho), o teu perfume com o meu perfume, a tua pele com a minha pele, encarnados os dois, esquecidos do olhar fixo e dos bigodes de chocolate, da neura e da aluna loira de braille.

Nem sempre a vida nos corre bem. Vê só o que uma desgraça pode trazer à vida de uma pessoa. Se é uma boa história? É uma excelente história. De fadas não será, mas das que contamos com gosto, sim. Esse dia, perdão, essa tarde nem prometia grande coisa, mas a vida é assim, carambolamos, às tantas uma inexplicável leva de sucessos faz-nos girar noutro sentido. Não gozes comigo, vá lá, eu gosto que gostes de mim, não me fales em mau aspeto, olha lá os teus bigodes de chocolate, meu porquinho, foi assim que nos conhecemos, qual humor de cão (ou de cadela) qual quê, todas as melhores conversas começam por acaso, foi assim que nos conhecemos, é uma excelente história, de fadas não será, mas das que contamos com gosto, sem dúvida!

O ÚLTIMO DIA É SEMPRE UM PRIMEIRO DIA

Clemens Geiger
Foto: Clemens Geiger

A avenida cheia de gente, gente cheia de pressa, faz-me esquecer tudo. Levo encontrões, pisam-me os pés, olham-me como a um animal ferido (com o seu rasto de morte, largo como um cometa). Mas não me importo. Prefiro assim. Os rostos desfilam vertiginosos, belos, muito belos, horríveis, disformes. Não consigo lembrar-me de nenhum. Só da quantidade. Tantos rostos, tantas histórias, tantos eus engastados uns nos outros, tantos futuros incertos, possivelmente brilhantes, provavelmente encurtados, tantos passados cheios de mossas, tantas cicatrizes escondidas, disfarçadas pelos pírcingues e tatuagens. Da quantidade, sim.

No fim de contas, há o antes e aquele momento em que nos damos conta de que não fazemos diferença nenhuma, absolutamente nenhuma, num mundo repleto de drama, num mundo incapaz de aceitar o drama, num mundo cheio de gente com dramas e absolutamente incapaz de lidar com o drama. Não fazemos falta nenhuma, porra, nenhuma.

O que me fica na memória é a gente à margem, a gente assim como eu, a alimentar os pombos, a gente excluída do caudal, a gente velha, a gente que cisma cada movimento do corpo e o faz rodar devagar, a gente que tem a barba por fazer, a gente que veste casacões de fazenda e rugas descomunais, rugas pronunciadas e verdadeiras como grand canyons, a gente atrelada a cachorros feios e tão sujos que são mesmo uma fotografia, a gente que cheira a óleo e urina e suor e outras secreções talvez secretas.

A avenida é interminável. Todos cabem nalgum lugar. E eu, que me entretenho a não pensar em nada, penso como é engraçado isto de ocuparmos algum lugar, como algures, suspensa num andaime sinistro, há gente-gárgula, como além, no bojo prateado de um boeing, viaja quem sabe o próximo grito da moda, como ali, em frente aos espelhos descomunais das lojas chiques aporta a outra gente, a gente dominadora, a gente a quem se mostra a cabeça subitamente desalojada de chapéus e uma pequena vénia respeitosa. A avenida é interminável. Os vermes têm de esperar a sua vez. Só à noite podem mostrar-se. A noite pertence-lhes. À hora certa os rostos escoarão, trocarão de lugar. Quando a mais ninguém puder pertencer, a avenida há de acoitar estes rostos que olham o vazio e dão de comer aos pássaros. O espaço parecerá maior, desolador, gigantesco. A verdadeira solidão será, portanto, essa.

Mas, neste momento, sou apenas um corpo em movimento, atropelado, empurrado, levado na corrente. Os pés e os olhos esforçam-se por coordenar uma narrativa. A mole de rostos macera, deixa a sua impressão inumana, o seu toque desleal, voyeurista, como se todos fossem um só e um só fosse apenas um sonho. Não consigo lembrar-me de nenhum. Nem sequer da beleza ou da profunda fealdade de um olhar. Aqui sou maquinal e doente como todas as máquinas. Talvez tenha vindo por essa inconfessada razão.

No fim de contas, há o antes e aquele momento em que nos damos conta de que nada em nós é melhor, ou mais legítimo, ou mais perfeito do que nos outros, nestes todos que caminham, reptam, voam diante os nossos olhos. Não fazemos falta nenhuma, nenhuma, porra. E essa é ainda uma outra solidão, uma lídima solidão sem nome, que nos obriga a viver, a pertencer aos gestos, a ser, a durar, a existir para lá de todos os lapsos de memória e amor.

A avenida é interminável. Não sei há quanto tempo me não dou conta de caminhar. Caminho. Limito-me a não pensar. Em breve, terei todo um novo texto pronto. Não sei qual. Definitivamente, não sei.

RECREIO

Foto: Anja Buehrer
Foto: Anja Buehrer

 

O som sobe do recreio escolar onde a manhã se demora. As vozes veementes, os gritos,  o alvoroço das crianças abrem rachaduras no meu pensamento. Sou já tão velho que me oiço em diferentes partes de mim como num corredor aberto. Um e outro e outro eu juntam-se a este instante como animais furtivos da floresta que emergem por acaso à mesma clareira. Março. O vidro da vida é um balão sujo que passamos por água quente e sabão. A infância! A grande pincelada debaixo da qual o nosso nome é um rasgão de luz. O som sobe do recreio escolar com o seu cheiro morno de codessos e urze, as suas rolas frenéticas, o seu pó em torvelinhos. No halo coado da minha janela há um aluvião poderoso de memórias. Corro desalmadamente com os joelhos esfolados. Como um jorro feliz de água entre lâminas de xisto, ela salpica e adormece. Salpica e adormece.

março de 2017

CRÓNICA DE UMA INVENÇÃO

Foto: Michael Papendieck

Foto: Michael Papendieck

Não reparam, acaso, nos pássaros que pairam sobre eles, protraindo e recolhendo as suas asas? Ninguém os mantém no espaço, senão O Clemente, porque é Omnividente.
Alcorão, LXVII, 19

Viajar no tempo é coisa que muitos afirmam ser impossível. Afirmamos nós o contrário. Quantas outras julgadas igualmente impossíveis deixaram de o ser todos os dias, ao longo de milénios? AGORA mesmo estamos AQUI, dois segundos mais tarde percorremos a pé as ruas de Córdova, guiados pelo relato atónito de Yussuf ibn-Haroun, cronista, filho de Haroun al-Muzaffar, o mais rico comerciante de gemas e metais de todo o emirado.

As tâmaras e o açafrão, alcachofras e figos secos, mel e resinas do Oriente incensam nesta altura do ano os bazares da cidadela. O perfume serpenteia por entre eles com as notícias trazidas e levadas pelos mercadores e almocreves, vindos de todo o al-Andalus, mas também do reino fronteiro de Alfonso e de muitos outros da inimiga Cristandade. Assim foi no tempo do poderoso Abderramão, antecessor de Maomé; assim será nos dias que se seguirão de Al-Mundhir, que nela há de governar somente por um par de anos.

Transpondo os arcos em ferradura da almedina os estrangeiros escutam a derradeira proeza de Abbas ibn-Firnas, que a voz rouca de Muça al-Jamil não cessa de lembrar. Podia um tal prodígio da humanidade ser realmente ignorado? Yussuf ibn-Haroun escuta-a também, e há de em breve (O Preservador seja louvado!) anotá-la. O texto não é indiferente à comoção geral: quantos cálamos de junco em toda a história irregular desta humanidade puderam narrar um feito tão extraordinário?

Traduzimos omitindo o acessório (pese o sentimento que nos fica de amputar a grandeza e o estilo do autor) os factos doravante narrados, sucedidos no ano de 882 (dirão dentro de portas ano 220 da Hégira) nesta poderosa capital do Islão. O nosso agradecimento ao Professor Juan Ibarra Martínez, da Universidade de Málaga, que generosamente nos facultou o texto autógrafo (desenhado com a bela caligrafia cúfica, em papel de algodão polido, com tintas pretas, vermelhas, ou ocres, e castanhas). Segurá-lo nas minhas próprias mãos é dificilmente traduzível.

[…] Começa o Livro Sagrado com estas palavras «Em nome de Deus, o Clemente, o Misericordioso». São para toda as coisas boas e cabe-nos modificar as más em coisas boas e honrá-l’O. Escrevo estas palavras persuadido do dever de lembrar os prodígios que O Originador de Tudo opera. […] Nasci e vivo nesta cidade santa de Qurṭuba, num tempo em que os sábios acorrem de todas as partes do levante e do magreb, do setentrião e do meridião. […] Governou-a na minha juventude Abd ar-Rahman, o segundo desse nome, mas o primeiro em prosperidade, civilização e no amor que lhe devotou o nosso povo. Muhammad, seu filho, não lhe fica atrás. Não existe um só dia em que por vontade d’ O Misericordioso não se dê entre nós o prodígio de uma invenção, a descoberta de um teorema matemático, o maravilhamento e a perfeição de um novo texto filosófico ou de uma nova muwashshah. […] De todos os sábios que aqui vivem, um visita-nos com frequência no suq, esse a quem O Todo-Poderoso sobressaltou o entendimento como faz com os loucos: amiúde vemo-lo observar as favas e o coração das amêndoas com a minúcia de um avaliador de pedras preciosas; e raramente fala, pois prefere guardar todos os seus pensamentos e ditá-los a um escravo, al-Jamil, que os escreve sobre estas espantosas folhas, tanto ou mais macias que a seda, trazidas de Samarcanda (ou Maracanda, no dizer dos bizantinos). Abbas Abu al-Qasim ibn-Firnas ibn-Wirdas al-Takurini é o seu nome. Nasceu nos dias de al-Hakam, há setenta e dois anos. […] As crianças seguem-no por toda a parte, pois creem no rumor de que um dia voará sobre os céus como as aves e as estrelas. […] Muitos o receiam, acreditando nas maléficas origens do seu saber. Contudo, não temos conhecimento de que haja alguma vez procedido em púbico com rudeza para com o seu semelhante. Bem pelo contrário, sua ilécebra e bondade são conhecidas entre os doentes, a quem ministra, de acordo com os ensinamentos antigos, unguentos e xaropes à base de ásaro, eufórbio, briónia, genciana, alfavaca, melissa, centáurea, ládano, olíbano, estoraque, gengibre, açucena, costo, za’atar e lauréola, livrando-os muitas vezes da morte. […] Poucos homens terão sido mais benévolos que Abbas ibn-Firnas, que gozou sempre da proteção e da estima do nosso Emir e que entre seus pares é um homem muito considerado, amado e […] <Segue-se um passo inteiramente ilegível!> […] Asseguraram-me que muitos anos levou este homem a estudar as criaturas do céu, anotando o movimento das asas e o modo como se soldavam as penas umas às outras. Servindo-se dos ensinamentos de al-Khwarizmi e de madeira de umas canas leves e muito resistentes, vindas do império longínquo de Sin (a que chamam bambu), construiu ele o que parecia ser o esqueleto de uma mariposa. Seguidamente recobriu-o com penas de águia, usando goma das acácias (que trazem de Ifriqiya <Tunísia>) e fios de seda para as coser e entrelaçar. Para poder prendê-lo ao corpo, como se de um manto se tratasse, usou tiras sólidas de couro. […] Muitos dias se demorou neste ofício, esquecendo-se até das obrigações comuns, como comer ou dormir, interrompendo-se somente para as orações quando a elas chamava o muezim.

Yussuf ibn-Haroun é ainda bastante jovem. Permite-se escrever longos trechos sem uma pausa, atendendo a todos os detalhes, importando-se somente com a verdade, apenas com o que possa conduzir à verdade. Neste momento vemo-lo de pé, caminhando por um fresco corredor de arcos alfizados, dando para um pátio onde uma fonte antiquíssima sussurra a doçura da noite. Dirão mais tarde que com o som do alaúde, o murmurar das águas, o tilintar do ouro e a voz de uma mulher amada são os mais doces melodias que pode um homem escutar.

Lamenta que o cargo de hájibe, que tanto o honra, que as obrigações na alcáçova, as que qualquer homem almejaria, lhe roubem tantas horas, penalizando o seu ofício predileto. Refugia-se até muito tarde nesta escrita fluente que vimos estudando. Algo que transcende o seu tempo, o seu corpo e o seu espírito paira na atmosfera, como se a harmonia do cosmos e a sua própria harmonia se imbricassem e se tornassem uma só. Estamos no mês das canículas. O perfume da flor de laranjeira e das hortelãs, do tomilho e do funcho atravessando o horizonte noturno entontece-o. Espreita a cidadela dormindo sob o poderoso conforto de uma lua cheia, que as brancas almádenas recortam e lhe fazem recordar as histórias da saudosa Xerazade. Pensa na perfeição, na felicidade, em Deus. Mas também em Buthayna, na bela filha do mercador de cinábrio, cuja visita a Córdova o atormenta uma vez por ano. Nenhuma mulher se lhe compara e algo lhe diz que a bendita terra de Silves, pátria de poetas, há de nele despertar também o doce ghazal, que a ninguém confessa, que apenas de Al-Alim, O Que Tudo Sabe, não pode esconder.

«O amor e a poesia são as duas faces da mesma moeda de ouro», pensa Yussuf, depois da ablução e, de voltado para sul, orar em frente ao muro da quibla. Regressa em silêncio a um compartimento amplo, hipostilo, onde uma mesa baixa de madeira, adornado de incontáveis jaezes, ampara o apontador, o tinteiro e as suas penas. Esmera-se a apará-las, desejando que neste ritual obtenha o lucro inimaginável de possuir a mais admirada caligrafia de Córdova.

Retoma, por isso, a narração que deixou suspensa. Pretende que os factos recentes não possam ser olvidados, para benefício da pessoa que neles se fala, mas também para seu benefício e para benefício de todos os povos que se hão de seguir, e a quem possa importar a magnificência de Alá, cujo poder é admiravelmente mostrado aos homens, como se verá.

Al-Jamil narrou-me, à puridade, que o velho sábio conheceu na juventude o poeta Abu al-Hassan Ali ben Nafi, conhecido entre os de nós que falam o linguarejar da aljamia por Zyriab, que lhe contou muitas histórias dos kuffar <infiéis>, entre elas a de certo Aikarus <traduzo com rigor fonético o original, ressalvando não ter encontrado em nenhum dicionário a mesma palavra, que indubitavelmente se reporta a Ícaro>, filho de um mágico artesão, que caiu no mar depois de ser ter erguido aos céus. Não duvido que uma tal fantasia se tenha apoderado deste homem, a quem Al Muhyi, O Doador da Vida, encarregou da proeza de construir asas idênticas às que à nossa volta vemos assistir aos animais alados. […] A novidade passou de boca em boca. No vigésimo quarto dia do passado mês de Rajab, ibn-Firnas subiu a uma das torres da nossa medina, seguido por al-Jamir, que chorava e lhe implorava, invocando o nome d’ O Criador, que desistisse. Vendo que de modo nenhum o demovia da obstinada empresa a que se propunha, e considerando a idade desse homem a quem as forças parecem não querer abandonar, quis tomar o seu lugar. Nem isso aceitou. Muitos diziam que o velho escolar tinha enlouquecido e que O Todo-Poderoso o privara de razão, punindo-lhe a audácia e a teimosia. Alguns asseveram o emir se encontrava entre todos os demais. Não posso corroborá-lo. Outros que al-Jamil foi ali mesmo libertado da sua escravidão por ibn-Firnas, o que posso testemunhar […] À hora em que o sol atinge a máximo altura, depois da oração, vimos este homem despenhar-se do alto, tendo muitos de nós lançado aos céus gritos de tristeza. Como as aves do céu, que delicadamente abrem e fecham as asas e com elas vencem os abismos, como um negro abutre alcandorado, como Aikarus das histórias fantasiosas, também o velho ibn-Firnas, dando brados de alegria, abrindo e fechando os braços acorrentados por tiras de couro à máquina prodigiosa, voou de modo igual sob as cortinas do sol, ultrapassando os limites da cidade e as longas dobras do majestoso al-Wadi al-Kabir <Guadalquivir> em direção às terras onde o sol tem o seu ocaso, as terras do Garb, da longínqua e amada Xelbe, mãe de poetas, ou da lendária Al-Ushbuna <Lisboa>, construída sobre o grande oceano no fim do mundo. […] Pude reconhecer facilmente recordar as palavras sagradas do al-Qurán: «Não vos disse que conheço o mistério dos céus e da terra, assim como o que manifestais e o que ocultais?»

 

Yussuf sente a fome bulir-lhe nas entranhas. As mãos tombam sobre a pena com extrema fadiga. Pensa em como muitas vezes o nobre exercício de escrever se vê impedido do seu próprio voo pelas baixas necessidades do corpo. Voar é uma libertação para que faltam palavras. É a suprema alegoria que requer todo o sacrifício. Como ele próprio costuma lembrar, tê-lo-á aprendido da falsafa (dos eruditos que tão apuradamente lê e medita) que «O sábio se abstrai sem nunca se distrair». Prossegue, pois, o seu texto, vinte e oito dias decorridos do grande feito que o fascina e o impede de dormir.

Corriam os velhos e as crianças, os nobres e as mulheres, os soldados e os almoxarifes para as portas, seguindo com o dedo erguido o espantoso planar daquele que um dia chamaram de «bárbaro», por ser de origem estrangeira e possuir hábitos que estranham aos olhos vulgares. […] Nada se sabe deste Abbas ibn-Firnas, exceto que amou na sua juventude uma mulher e que esta, contra a vontade da família, o preferia a um mercador de minério (ainda seu parente e de quem se tornaria, ainda que por breves meses, mulher). A voz sempre escusada dos vilipendiadores sugere que a noite, campo onde todas as sementes germinam, os acolheu primeiro e separou depois. Não pude aclarar o nome dessa mulher. Apenas que a levaram para as terras do al-Garb, onde veio a conceber uma filha pouco tempo antes de morrer. Ibn-Firnas entregou-se inteiramente aos estudos, um dos muitos faylasuf <filósofos> que enriquecem a nossa cidade e dignificam O Omnipotente. […] Conta ele setenta e dois anos, recuperando no maristan da violenta queda em que se findou o seu voo, ao derrubar-se sobre as árvores das hortas que existem ao redor da nossa cidade. […] Al-Jamil visita-o todos os dias e, tendo embora deixado de ser seu escravo, continua a servi-lo com o mesmo amor que é de longe a maior escravidão entre os homens. Por ele soube esta mesma tarde que o nosso emir Muhammad o proíbe de repetir a façanha, tendo conhecido a sua vontade de voar de novo. E ao sabê-lo turva-se profundamente o meu ser, pois nenhum outro homem, vivo ou morto, me parece capaz de igualar a coragem do velho Abbas ibn-Firnas, o primeiro de que há notícia a ter conseguido voar, como uma ave do céu, ou um inseto, ou uma das muitas estrelas que iluminam as estradas da noite. E alegra-se o meu coração com este prodígio, com que nos revela O Infinito os insondáveis caminhos da sabedoria e do porvir, pois acredito que outros homens, guiados pela sua mão, hão tornar possível o que nesta noite não se pode divisar. E para eles redijo estas palavras. Porque todas as coisas que existem e hão de existir estão no universo, porque todas as coisas de que carecemos habitam a nossa inteligência e é nosso dever encontrá-las, porque o dever do sábio é o de iluminar os outros homens e ser iluminado pela voz da verdade. Assim o fez Abbas Abu al-Qasim ibn-Firnas ibn-Wirdas al-Takurini. E por isso o louvo e o deixo ao juízo severo do tempo!

 

Já o vago dilúculo assoma no orbe celeste. Exausto, todavia insuflado dessa felicidade que consola os justos, Yussuf ibn-Haroun poisa o cálamo e tomba a cabeça sobre uma almofada que ali mesmo o recebe e o conduz em sonhos a longínquas paragens, de onde vem no dorso de um cavalo a bela Buthayna, a bela filha do obscuro mercador de cinábrio, para (assim Alá o permita), se unir a si, não como a primeira do seu harém, mas como a única mulher da sua vida…

Quanto a nós, que igualmente louvamos Abbas ibn-Firnas e nos sujeitamos ao juízo rigoroso do tempo, gostamos de viajar e o fizemos nestas palavras, desenterrando dos pergaminhos em que se achavam embrulhados fragmentos de uma longa crónica com mais de onze séculos de esquecimento.

TELA EM BRANCO

Foto: Peter Davidson
Foto: Peter Davidson

 

Mesmo à sua frente o pintor tem o cavalete e apoiada nele uma tela de razoáveis proporções imaculadamente branca. O pintor está sentado. Os olhos estão fixos no vazio e as mãos quietas.

Ao lado, sobre a única mesa do ateliê, repousa um sem-número de espátulas, godés, frascos de resina e diluentes, aerossóis, pincéis, pedaços de madeira, palhetas, um boneco de madeira, jornais chapiscados.

O pintor colocou lado a lado, em montículos de pó colorido, todos os pigmentos de que se serviu ao longo da vida: chumbo branco, barite, gesso, cré, óxido de ferro, carvão vegetal, lápis-lazúli, composto de cobalto, azurite, malaquite, viridian, verde de crómio, verdete, açafrão, limonite, pó de ouro, ouro-pimenta, amarelo de nápoles, antimoniato de chumbo, ocre, carmim, vermelho-cinábrio, hematite, vermelho de cádmio, castanho-siena, úmbria, betume. É uma imagem alegre, como a que sentimos num bazar de Marrocos.

O pintor sente a cabeça fervilhar. Aos oitenta anos os olhos fraquejam, mas a visão é nítida, saturada de contrastes, relevo e pormenores. Fascinado, contempla a tela em branco. É um instante genesíaco. Tudo é ainda possível. Assim que lhe atravessar a primeira pincelada rebaixá-la-á à condição humana.

As imagens ocorrem-lhe vertiginosas, como aceleradas no disco de um caleidoscópio. Cada uma delas é simultânea e parte de todas as outras.

O pintor está agora deitado num parque. Vê ao modo do suprematismo um líquen trepar pelo ramo de um ulmeiro e vê o baloiçar suave dos ramos e das pequenas folhas trémulas e iluminadas.

E vê num pontilhado cor de toranja o sol descer sobre as torres arabescas e vastas planícies de heliantos da Andaluzia.

E vê um a um, cubisticamente, os maravilhosos desenhos da Catedral de Charles, alumiando em certa manhã as entranhas da sua fé perdida.

E vê ao modo de Monet as varandas e cúpulas caiadas de Creta. E vê as colunas vermelhas do palácio de Cnossos.

E, surrealista, uma lua quase azul por entre os pilares hieroglíficos de Luxor.

E vê como van Gogh os socalcos de arroz no Cambodja, os soldados de terracota do imperador Qin Shi Huang Di, e os jardins de Quioto, repletos de silêncio e de sombra.

E vê como Jackson Pollock o formigueiro frenético nas ruas de Tóquio.

Vê-se a si mesmo, jovem outra vez, amando a sua mulher num atol da Micronésia. Sério, meticuloso, absorvido pelo cromatismo de cada recordação, reconstitui como Gauguin as águas do Pacífico e a íris verde-azulada onde pela primeira vez descobriu o seu próprio rosto apaixonado.

E, numa quinta do sertão brasileiro, sobre uma toalha de linho, vê em chiaroscuro o brilho de uma jarra de cobre entre orquídeas e frutos tropicais. Não a mostrariam de outro modo os mestres italianos da renascença.

E vê no alto de uma montanha no deserto do Atacama a linguagem colossal do universo, com as suas cifras inumeráveis de constelações e poeira sideral. Se fosse Kandinsky esse seria o seu quadro.

E vê, num banco de jardim do Central Park, uma mulher índia com o traje ancestral dos Sioux contemplando as nuvens alaranjadas que cobrem Manhattan e lhe parecem as nuvens ao crepúsculo da sua cidadezinha nas margens do Missouri. Vieira da Silva amaria esse retrato.

O pintor vê com apreciável precisão a turba fuliginosa que sai das entranhas de uma mina de carvão no Botswana. Vê os vincos e sulcos profundos no rosto dos jovens negros e o complexo aracnídeo das máquinas (tapetes rolantes, engrenagens e braços basculantes) que tornam mais árida a paisagem. E vê as grandes fossas abertas na rocha escalavrada e o nome da companhia multinacional no topo de um dos abismos. Um dos operários leva ambas as mãos à boca para impedir-se de tossir. O pintor vê como a terra esquálida lhe absorve a expetoração sanguinolenta e como ninguém ao redor parece importar-se. Assim é o preço da vida humana. Edvard Munch, Frida Kahlo e Jean-Michel Basquiat mostrá-lo-iam de modos tão distintos quanto inesquecíveis.

E vê um oásis no Magreb, com as suas palmeiras e sicómoros e uma cáfila sequiosa deslizando nas dunas avermelhadas. E vê o Estreito de Messina, as Colunas de Hércules e a costa irregular da Cantábria com a sua linha de imponentes faróis. O pintor vê agora o verde puro da Irlanda, os castelos arruinados da Escócia, os grandes albatrozes sulcando as vagas e temporais do Atlântico. E vê no amplo horizonte do oceano o movimento sincronizado e argênteo de todo um cardume de sardinhas, e a respiração veemente de uma baleia azul na Gronelândia, e as pequenas traineiras dos portugueses. Caspar David Friedrich e William Turner veriam nestas paisagens o supremo heroísmo da solidão.

O pintor vê agora a sua infância. Como pintado ele próprio por Joaquín Sorolla, está a brincar no areal de uma praia quase deserta. Há limos e sargaço, búzios e salsugem. Nas mãos alvas e enregeladas segura o corpo ainda vivo de um peixe palhaço dada à costa. Um prodígio de cor e de correntes marítimas. Nesse dia, soube que seria esse o seu destino: colorir o vazio.

Aos oitenta anos viveu talvez tudo. Na tela vazia vê, não sabe se ao gosto clássico, alegórico, romântico, pré-rafaelita, impressionista, expressionista, surrealista, dadaísta, concetualista, neoconcetualista, neo-expressionista, as formas iluminadas e umbrosas da sua própria alma e da alma de todos.

A melhor das galerias está disposta a pagar-lhe uma fortuna por um quadro original, pelo trabalho de uma vida, pela sua magnum opus.

Como ser original?

O cavalete permanece imóvel, a tela intocada. Sem se mexer, de olhos fechados, o pintor atinge todas as cores, formas e texturas inominadas. Sabe que o primeiro gesto comprometerá para sempre a sua visão. Em branco, a tela é todo o seu génio magnífico, intraduzível e divino. Assim a entregará.

Hão de pagar-lhe milhões por ela.

VOZES DE BURRO

Fotografia: Antonio Grambone
Fotografia: Antonio Grambone

 

No começo da rua Franquelim Pimenta batia na sola dos sapatos com fúria. E era depois de lhes pôr em cima uma camada bastante de cola industrial, de lhes cuspir uma gosma de álcool e de imprecações, enquanto os olhos iam e vinham, conforme o movimento dos pares de pernas das senhoras e raparigas do colégio.

— Minha menina, ai que rico tacão!

A boca tartamudeava, com os pequenos pregos presos nos lábios. Havia quem se zangasse, quem respondesse ao piropo ordinário.

‒ Malcriado!

Mas o aparato de loiras com as mamas ao léu nos calendários e o garrafão meio escondido entre as pilhas de sapatos e chinelos por arranjar, tinha o efeito de um repelente. O Pimenta ficava na sua. As senhoras e raparigas ofendidas na delas. Tudo em ordem. Quem não queria piropo não passava perto da sua lojinha. Que culpa tem um homem de vir ao mundo com um par de olhos, menino?

O estabelecimento do Pimenta ficava na rua dos artesãos, paredes meias com a carpintaria-funerária Campos Elísios, com as máquinas de costura da Dona Eufrásia e com o botequim do Sr. Maciel Bemposta. Um pouco adiante, na mesma rua, havia uma loja de ceras e santinhos, uma padaria, um garageiro, um ourives, um serralheiro e a farmácia. Tudo muito misturado, tudo enfileirado, comércio para as dores do corpo e para as da alma.

Nessa rua aprendi eu a maior parte dos provérbios que conheço. Por exemplo que “Vozes de burro não chegam ao céu”.

O ditado veio, entre outras, da boca do sapateiro. O artista percebia de quase tudo. Quando lhe negavam uma evidência ou o contrariavam razoavelmente, zurrava logo:

 ̶  Sabe vossemecê uma coisa? Vozes de burro não chegam ao céu!

Alguém lhe punha em causa a soma a lápis de uma conta, alguém lhe atribuía um dito de véspera, alguém lhe negava as virtudes dos rebuçados de Régua, alguém lhe falava mal do Sporting, e o Pimenta, apimentado:

 ̶  Sabe o amigo uma coisa? Vozes de burro não chegam ao céu!

 ̶  Está a chamar-me burro?

 ̶  Tem vossemecê orelhas a condizer…

 ̶  Como?

 ̶  Estou a chamar-lhe burro, jumento, jerico!!!

Se a coisa não passava, se a teima ia mais além, tornava-se o insulto de monta.

 ̶  Ó meu grandessíssimo filho da puta, quer você ver como elas se fazem aqui nesta loja?

E voava a camurça de um sapato, um botim de senhora, uns tamancos…

Houve alturas em que me assustei. O Pimenta, esgazeado, ameaçava um cliente, o cliente raspava-se, o projétil cortava-nos – como uma bateria inimiga, a escassos centímetros da testa ‒ a linha fina do horizonte.

‒ Isto, menino, é uma cambada de burros! Não percebem um caralho da vida… Bem me dizia a minha mãezinha, vozes de burro…

A mochila vinha de arrasto, a pontapé. A escola arrasava: reis de Portugal sim; contas de dividir não; verbos sim; prova real não… De modo que sair dos portões de ferro da escola, dobrar a esquina, escutar o sábio calão do Pimenta era uma alegria, uma cura, uma catarse.

‒ Faça-me lá a conta, Sr. Franquelim…

‒ Ora, deixe cá ver: solas, pomada, … ‒ Como está, D. Etelvina? ‒ berrava de súbito cá para fora; … ora, deixe cá ver: nove e quatro treze e dois dezasseis… e vai um ‒ Olá, Senhor Doutor, bom dia! Como passou? ‒ gesticulava; … ora, portanto, e vão dois…

Conseguia até esquecer os ralhos, as ameaças, os puxões de orelhas, a numeração romana. Nada me dava mais prazer do que excomungar a sala de aula, ouvindo e compreendendo o vivo movimento do mundo. Nada como a genica linguística do Peyroteo do calçado, olá para um, vai tu à merda para outro, cuspo e martelo, como passou, Senhor Doutor para a frente, que rico tacão para trás, martelo e cuspo, sempre assim, o dia inteiro, com o lápis (de papel dizia ele) aninhado na orelha…

A didática não tinha fim. Sabia que um dia me faria falta. Ouvia-se até chegar a casa. Sobrepunha-se mesmo ao barafustar da peixeira com a modista, à política debatida entre o funesto loiro da loja dos penhores e o taxista, à voz dos reformados que atiravam a bisca, às vizinhas que cortavam na casava. Franquelim Pimenta era um professor no seu palco. O calão engrossava.

De modo que uma vez disse na aula:

‒ Foda-se, Severo… És um cagarolas!

O Severo queria copiar o gerúndio dos verbos estrugir, burilar, transcorrer (do alçapão benigno da professora saíam verbos simpáticos), mas tinha medo.

Eu, que me dispunha a ajudar, disse com enorme prestígio gramatical:

‒ Foda-se, Severo… És um cagarolas!

Veio a reprimenda. Violenta, eriçada, húmida de saliva. A sala tremeu desde os caboucos até ao forro de cortiça no teto. Respondi-lhe. Aí não se ficou a mão da professa, que me ficou gravada nas bochechas. Cinco dedos, uns dez anéis, um par de estalos de cada lado ‒ certeiros, sapudos, impressivos.

A minha mãe (que certamente me trataria da saúde) pediu desculpa. Aquilo não se repetiria, Senhora Professora…

‒ Que lhe disseste tu mais, meu tratante?

‒ Chorei, supliquei… O que dói uma colher de pau, senhores!

‒ Que disseste tu à professora, meu carbonário?

Deus furioso exigia a verdade.

‒ Fala, bandido! Que disseste tu à tua professora?

Olhos esbugalhados, gritos, imprecações, a promessa de que o meu pai ia saber de tudo… Considerei. Vacilei. Já chegava de pancada.

‒ Vozes de burro não chegam ao céu…

‒ O quê?

‒ Foi o que eu disse à professora, mãe – confessei por fim, imerso em ranho…

‒ Ah, meu maldito…, meu macareno… Ai, que eu mato-te!… – disse a minha progenitora à beira de uma síncope, enquanto eu fugia, enquanto eu me atirava pela janela à rua, enquanto eu fugia também deste lado da guerra, para procurar abrigo, algures, a meio da terra de ninguém, nalguma trincheira…

VELHOS CADERNOS

Foto: Dhruv
Foto: Dhruv

Antes de sair de casa, olhou com intenção para cada canto do escritório. Empurrou, para os sentir, os dedos sobre a linha angulosa dos móveis. Tocou a chave da escrivaninha, os rebordos floreados da ranhura. Pareceu-lhe de uma beleza bruta e inútil a sua caneta de sempre, o tinteiro e porta-papel. Que mãos tomariam agora o sinete do lacre? Que significado teria daí a uns tempos o antigo monograma? Dentro das gavetas, se as abrisse nesse instante, encontraria já acamados e históricos o velho isqueiro de ouro, o relógio de bolso, os seus cadernos forrados a couro. Dentro do silêncio, cheirá-las-ias, se quisesse, as cartas recebidas, os ecos e respostas de toda uma vida. Em vez disso, empurrou os reposteiros e abriu o janelão. A luz e o cheiro das centáureas entraram. Reluziram as lombadas dos incontáveis livros que leu e anotou. Faiscaram o pedúnculo metálico do lucivelo sobre o tampo da escrivaninha, as pegas douradas das gavetas, o cinzeiro de bronze. Era como se ao mesmo tempo aquela fosse a última e a primeira vez. Uma estranha paz agitava-se da larga carpete ao estuque imaculado. O escritor respirou tão fundo quanto pôde. Setenta anos naquela casa eram mais do que uma obra, mais do que uma biografia, mais do que o amor a uma família, mais do que a obediência a um destino. Assinou papéis, introduziu-os num envelope, fechou-o. Setenta anos naquela casa eram pertencer a um lugar. O que houvesse de ser não podia ele a partir de então emendá-lo, dissimulá-lo, atenuá-lo ou transformá-lo. Abandonar uma casa para morrer é quando o instante e a eternidade se misturam. O escritor sabia que cada coisa à volta do espaço era uma despedida. E, por isso, tudo se contorcia em labaredas dolorosas, mesmo que embuçado no mais belo e duro silêncio. «Nenhuma oportunidade é tão viva e tão crua como última» disse o escritor.

Levaram-no.

No sanatório viveu catorze dias. Pensou muito em quase tudo. No que algum dia teve algum significado. Nos dióspiros da quinta; na água de Evian (tão boa como a do Parnaso); nas gravidezes sucessivas da mulher, Excelentíssima Senhora D. Ester da Cunha Albuquerque e Sousa, de quem recebeu as comodidades deste mundo; nos desabafos de São João da Cruz; no menino gorducho – filho da criada – a quem ensinou a ler e a escrever; nos primeiros dias do Direito em Coimbra; no esquife onde depositaram o avô Romão (nunca esqueceria aquele expressão de morte do avô-herói, do explorador das áfricas, com Hermenegildo Capelo e Roberto Ivens). Pensou nas centáureas e agapantos azuis com que a criada, a magnífica Rosalinda, lhe ornava o escritório. Pensou em bacalhau migado. Em fígado de porco com cebolada. No caldo do Minho. As mãos magníficas de Rosalinda. Os seios magníficos de Rosalinda. Pensou na tristeza de Rosalinda. Por ordem da Excelentíssima Senhora D. Ester da Cunha Albuquerque e Sousa, sua esposa, e dos excelentíssimos senhores seus herdeiros, precisou de afastar de sua casa a magnífica Rosalinda e o nédio rapaz, que amava como ele as musas e as mudas subtilezas da literatura. Pensou muito. Pensou em matar-se. Pensou até em Deus, o ancestral inimigo, a quem odiava mais que a todos e a quem, nessas duas semanas finais, lançava salpicos de saliva, entredentes, nos pesadelos. «Deus, o velho hipócrita, somos nós a ver-nos a um espelho limpo». O pensamento foi o último farrapo de vida que sobrou. Num derradeiro consílio de palavras, quando a lucidez se juntou ao corpo, pediu tabaco. Deram-lho. Morreu com o charuto entupindo-lhe a boca. Foi assim.

Levaram-no.

A urna era, como o desejado, de pedra limpa, granítica, sem dizeres. Nenhum símbolo religioso. No funeral compareceram, naturalmente, todos os grandes da terra e todos os grandes da literatura. Estranha mescla de poder! Os discursos foram breves. Nenhuma voz quis afoitar-se demasiadamente. Nenhuma pretendeu o protagonismo que só ao morto cabe nesse dia. Ao lado dos grandes desfilavam os não tão grandes e, ao lado destes, os humildes. A criada magnífica também acompanhava o cortejo. O filho de Rosalinda, a quem o escritor ensinou as fábulas de Esopo e de Fedro, também. Que olhos tão idênticos aos dos defunto, se ali o defunto os pudesse abrir! Os herdeiros, corvos enlutados até ao bico, desconheciam as coisas de Esopo («O mito mostra que…»). Nada entendiam sobre as coisas que o futuro haveria de tornar sublimes e belas. Só a poesia pode elevar a ouro a poeira deste mundo: e os herdeiros nada compreendiam de poeira, só de ouro. Recebiam, portanto, os pêsames e os passabéns e os abraços e os beijos dos outros corvos. E amparavam as mãos da Excelentíssima Senhora D. Ester da Cunha Albuquerque e Sousa, muito protegidas em pelica negra. E amparavam-lhe o véu. E o rancor que escondia, porque nunca em vida lhe erguera o escritor o devido monumento literário. E ela, viúva, matriarca, mulher despeitada, exigia que se terminasse a obra. Fizeram-no descer à terra. O último lugar ou o primeiro. Aí, guardado, selado e chumbado, que lhe importavam as más-línguas, o azedume, o ódio, a incompreensão. Que falassem, se quisessem. Em que pensaria o morto?

Levaram-no.

Entro agora em casa. Empurro, para os sentir, os dedos sobre a linha dos móveis. Toco a chave da escrivaninha, os rebordos floreados da ranhura. Parece-me de uma beleza veemente a caneta deslizando sobre as folhas, o cheiro da tinta, a harmonia das frases. A luz e o cheiro das centáureas entram. Abro as gavetas. Uma estranha paz agita-se da larga carpete ao estuque imaculado. Leio velhos cadernos encrespados, quase sem rasuras. Nunca soube dizer a palavra «pai». Não a pronunciava minha mãe, Rosalinda. Nunca o escritor ma ensinou. Todos os seus manuscritos começam com uma dedicatória: «Para ti, meu filho, que um dias hás de perceber!»