TELA EM BRANCO

Foto: Peter Davidson
Foto: Peter Davidson

 

Mesmo à sua frente o pintor tem o cavalete e apoiada nele uma tela de razoáveis proporções imaculadamente branca. O pintor está sentado. Os olhos estão fixos no vazio e as mãos quietas.

Ao lado, sobre a única mesa do ateliê, repousa um sem-número de espátulas, godés, frascos de resina e diluentes, aerossóis, pincéis, pedaços de madeira, palhetas, um boneco de madeira, jornais chapiscados.

O pintor colocou lado a lado, em montículos de pó colorido, todos os pigmentos de que se serviu ao longo da vida: chumbo branco, barite, gesso, cré, óxido de ferro, carvão vegetal, lápis-lazúli, composto de cobalto, azurite, malaquite, viridian, verde de crómio, verdete, açafrão, limonite, pó de ouro, ouro-pimenta, amarelo de nápoles, antimoniato de chumbo, ocre, carmim, vermelho-cinábrio, hematite, vermelho de cádmio, castanho-siena, úmbria, betume. É uma imagem alegre, como a que sentimos num bazar de Marrocos.

O pintor sente a cabeça fervilhar. Aos oitenta anos os olhos fraquejam, mas a visão é nítida, saturada de contrastes, relevo e pormenores. Fascinado, contempla a tela em branco. É um instante genesíaco. Tudo é ainda possível. Assim que lhe atravessar a primeira pincelada rebaixá-la-á à condição humana.

As imagens ocorrem-lhe vertiginosas, como aceleradas no disco de um caleidoscópio. Cada uma delas é simultânea e parte de todas as outras.

O pintor está agora deitado num parque. Vê ao modo do suprematismo um líquen trepar pelo ramo de um ulmeiro e vê o baloiçar suave dos ramos e das pequenas folhas trémulas e iluminadas.

E vê num pontilhado cor de toranja o sol descer sobre as torres arabescas e vastas planícies de heliantos da Andaluzia.

E vê um a um, cubisticamente, os maravilhosos desenhos da Catedral de Charles, alumiando em certa manhã as entranhas da sua fé perdida.

E vê ao modo de Monet as varandas e cúpulas caiadas de Creta. E vê as colunas vermelhas do palácio de Cnossos.

E, surrealista, uma lua quase azul por entre os pilares hieroglíficos de Luxor.

E vê como van Gogh os socalcos de arroz no Cambodja, os soldados de terracota do imperador Qin Shi Huang Di, e os jardins de Quioto, repletos de silêncio e de sombra.

E vê como Jackson Pollock o formigueiro frenético nas ruas de Tóquio.

Vê-se a si mesmo, jovem outra vez, amando a sua mulher num atol da Micronésia. Sério, meticuloso, absorvido pelo cromatismo de cada recordação, reconstitui como Gauguin as águas do Pacífico e a íris verde-azulada onde pela primeira vez descobriu o seu próprio rosto apaixonado.

E, numa quinta do sertão brasileiro, sobre uma toalha de linho, vê em chiaroscuro o brilho de uma jarra de cobre entre orquídeas e frutos tropicais. Não a mostrariam de outro modo os mestres italianos da renascença.

E vê no alto de uma montanha no deserto do Atacama a linguagem colossal do universo, com as suas cifras inumeráveis de constelações e poeira sideral. Se fosse Kandinsky esse seria o seu quadro.

E vê, num banco de jardim do Central Park, uma mulher índia com o traje ancestral dos Sioux contemplando as nuvens alaranjadas que cobrem Manhattan e lhe parecem as nuvens ao crepúsculo da sua cidadezinha nas margens do Missouri. Vieira da Silva amaria esse retrato.

O pintor vê com apreciável precisão a turba fuliginosa que sai das entranhas de uma mina de carvão no Botswana. Vê os vincos e sulcos profundos no rosto dos jovens negros e o complexo aracnídeo das máquinas (tapetes rolantes, engrenagens e braços basculantes) que tornam mais árida a paisagem. E vê as grandes fossas abertas na rocha escalavrada e o nome da companhia multinacional no topo de um dos abismos. Um dos operários leva ambas as mãos à boca para impedir-se de tossir. O pintor vê como a terra esquálida lhe absorve a expetoração sanguinolenta e como ninguém ao redor parece importar-se. Assim é o preço da vida humana. Edvard Munch, Frida Kahlo e Jean-Michel Basquiat mostrá-lo-iam de modos tão distintos quanto inesquecíveis.

E vê um oásis no Magreb, com as suas palmeiras e sicómoros e uma cáfila sequiosa deslizando nas dunas avermelhadas. E vê o Estreito de Messina, as Colunas de Hércules e a costa irregular da Cantábria com a sua linha de imponentes faróis. O pintor vê agora o verde puro da Irlanda, os castelos arruinados da Escócia, os grandes albatrozes sulcando as vagas e temporais do Atlântico. E vê no amplo horizonte do oceano o movimento sincronizado e argênteo de todo um cardume de sardinhas, e a respiração veemente de uma baleia azul na Gronelândia, e as pequenas traineiras dos portugueses. Caspar David Friedrich e William Turner veriam nestas paisagens o supremo heroísmo da solidão.

O pintor vê agora a sua infância. Como pintado ele próprio por Joaquín Sorolla, está a brincar no areal de uma praia quase deserta. Há limos e sargaço, búzios e salsugem. Nas mãos alvas e enregeladas segura o corpo ainda vivo de um peixe palhaço dada à costa. Um prodígio de cor e de correntes marítimas. Nesse dia, soube que seria esse o seu destino: colorir o vazio.

Aos oitenta anos viveu talvez tudo. Na tela vazia vê, não sabe se ao gosto clássico, alegórico, romântico, pré-rafaelita, impressionista, expressionista, surrealista, dadaísta, concetualista, neoconcetualista, neo-expressionista, as formas iluminadas e umbrosas da sua própria alma e da alma de todos.

A melhor das galerias está disposta a pagar-lhe uma fortuna por um quadro original, pelo trabalho de uma vida, pela sua magnum opus.

Como ser original?

O cavalete permanece imóvel, a tela intocada. Sem se mexer, de olhos fechados, o pintor atinge todas as cores, formas e texturas inominadas. Sabe que o primeiro gesto comprometerá para sempre a sua visão. Em branco, a tela é todo o seu génio magnífico, intraduzível e divino. Assim a entregará.

Hão de pagar-lhe milhões por ela.

VOZES DE BURRO

Fotografia: Antonio Grambone
Fotografia: Antonio Grambone

 

No começo da rua Franquelim Pimenta batia na sola dos sapatos com fúria. E era depois de lhes pôr em cima uma camada bastante de cola industrial, de lhes cuspir uma gosma de álcool e de imprecações, enquanto os olhos iam e vinham, conforme o movimento dos pares de pernas das senhoras e raparigas do colégio.

— Minha menina, ai que rico tacão!

A boca tartamudeava, com os pequenos pregos presos nos lábios. Havia quem se zangasse, quem respondesse ao piropo ordinário.

‒ Malcriado!

Mas o aparato de loiras com as mamas ao léu nos calendários e o garrafão meio escondido entre as pilhas de sapatos e chinelos por arranjar, tinha o efeito de um repelente. O Pimenta ficava na sua. As senhoras e raparigas ofendidas na delas. Tudo em ordem. Quem não queria piropo não passava perto da sua lojinha. Que culpa tem um homem de vir ao mundo com um par de olhos, menino?

O estabelecimento do Pimenta ficava na rua dos artesãos, paredes meias com a carpintaria-funerária Campos Elísios, com as máquinas de costura da Dona Eufrásia e com o botequim do Sr. Maciel Bemposta. Um pouco adiante, na mesma rua, havia uma loja de ceras e santinhos, uma padaria, um garageiro, um ourives, um serralheiro e a farmácia. Tudo muito misturado, tudo enfileirado, comércio para as dores do corpo e para as da alma.

Nessa rua aprendi eu a maior parte dos provérbios que conheço. Por exemplo que “Vozes de burro não chegam ao céu”.

O ditado veio, entre outras, da boca do sapateiro. O artista percebia de quase tudo. Quando lhe negavam uma evidência ou o contrariavam razoavelmente, zurrava logo:

 ̶  Sabe vossemecê uma coisa? Vozes de burro não chegam ao céu!

Alguém lhe punha em causa a soma a lápis de uma conta, alguém lhe atribuía um dito de véspera, alguém lhe negava as virtudes dos rebuçados de Régua, alguém lhe falava mal do Sporting, e o Pimenta, apimentado:

 ̶  Sabe o amigo uma coisa? Vozes de burro não chegam ao céu!

 ̶  Está a chamar-me burro?

 ̶  Tem vossemecê orelhas a condizer…

 ̶  Como?

 ̶  Estou a chamar-lhe burro, jumento, jerico!!!

Se a coisa não passava, se a teima ia mais além, tornava-se o insulto de monta.

 ̶  Ó meu grandessíssimo filho da puta, quer você ver como elas se fazem aqui nesta loja?

E voava a camurça de um sapato, um botim de senhora, uns tamancos…

Houve alturas em que me assustei. O Pimenta, esgazeado, ameaçava um cliente, o cliente raspava-se, o projétil cortava-nos – como uma bateria inimiga, a escassos centímetros da testa ‒ a linha fina do horizonte.

‒ Isto, menino, é uma cambada de burros! Não percebem um caralho da vida… Bem me dizia a minha mãezinha, vozes de burro…

A mochila vinha de arrasto, a pontapé. A escola arrasava: reis de Portugal sim; contas de dividir não; verbos sim; prova real não… De modo que sair dos portões de ferro da escola, dobrar a esquina, escutar o sábio calão do Pimenta era uma alegria, uma cura, uma catarse.

‒ Faça-me lá a conta, Sr. Franquelim…

‒ Ora, deixe cá ver: solas, pomada, … ‒ Como está, D. Etelvina? ‒ berrava de súbito cá para fora; … ora, deixe cá ver: nove e quatro treze e dois dezasseis… e vai um ‒ Olá, Senhor Doutor, bom dia! Como passou? ‒ gesticulava; … ora, portanto, e vão dois…

Conseguia até esquecer os ralhos, as ameaças, os puxões de orelhas, a numeração romana. Nada me dava mais prazer do que excomungar a sala de aula, ouvindo e compreendendo o vivo movimento do mundo. Nada como a genica linguística do Peyroteo do calçado, olá para um, vai tu à merda para outro, cuspo e martelo, como passou, Senhor Doutor para a frente, que rico tacão para trás, martelo e cuspo, sempre assim, o dia inteiro, com o lápis (de papel dizia ele) aninhado na orelha…

A didática não tinha fim. Sabia que um dia me faria falta. Ouvia-se até chegar a casa. Sobrepunha-se mesmo ao barafustar da peixeira com a modista, à política debatida entre o funesto loiro da loja dos penhores e o taxista, à voz dos reformados que atiravam a bisca, às vizinhas que cortavam na casava. Franquelim Pimenta era um professor no seu palco. O calão engrossava.

De modo que uma vez disse na aula:

‒ Foda-se, Severo… És um cagarolas!

O Severo queria copiar o gerúndio dos verbos estrugir, burilar, transcorrer (do alçapão benigno da professora saíam verbos simpáticos), mas tinha medo.

Eu, que me dispunha a ajudar, disse com enorme prestígio gramatical:

‒ Foda-se, Severo… És um cagarolas!

Veio a reprimenda. Violenta, eriçada, húmida de saliva. A sala tremeu desde os caboucos até ao forro de cortiça no teto. Respondi-lhe. Aí não se ficou a mão da professa, que me ficou gravada nas bochechas. Cinco dedos, uns dez anéis, um par de estalos de cada lado ‒ certeiros, sapudos, impressivos.

A minha mãe (que certamente me trataria da saúde) pediu desculpa. Aquilo não se repetiria, Senhora Professora…

‒ Que lhe disseste tu mais, meu tratante?

‒ Chorei, supliquei… O que dói uma colher de pau, senhores!

‒ Que disseste tu à professora, meu carbonário?

Deus furioso exigia a verdade.

‒ Fala, bandido! Que disseste tu à tua professora?

Olhos esbugalhados, gritos, imprecações, a promessa de que o meu pai ia saber de tudo… Considerei. Vacilei. Já chegava de pancada.

‒ Vozes de burro não chegam ao céu…

‒ O quê?

‒ Foi o que eu disse à professora, mãe – confessei por fim, imerso em ranho…

‒ Ah, meu maldito…, meu macareno… Ai, que eu mato-te!… – disse a minha progenitora à beira de uma síncope, enquanto eu fugia, enquanto eu me atirava pela janela à rua, enquanto eu fugia também deste lado da guerra, para procurar abrigo, algures, a meio da terra de ninguém, nalguma trincheira…

VELHOS CADERNOS

Foto: Dhruv
Foto: Dhruv

Antes de sair de casa, olhou com intenção para cada canto do escritório. Empurrou, para os sentir, os dedos sobre a linha angulosa dos móveis. Tocou a chave da escrivaninha, os rebordos floreados da ranhura. Pareceu-lhe de uma beleza bruta e inútil a sua caneta de sempre, o tinteiro e porta-papel. Que mãos tomariam agora o sinete do lacre? Que significado teria daí a uns tempos o antigo monograma? Dentro das gavetas, se as abrisse nesse instante, encontraria já acamados e históricos o velho isqueiro de ouro, o relógio de bolso, os seus cadernos forrados a couro. Dentro do silêncio, cheirá-las-ias, se quisesse, as cartas recebidas, os ecos e respostas de toda uma vida. Em vez disso, empurrou os reposteiros e abriu o janelão. A luz e o cheiro das centáureas entraram. Reluziram as lombadas dos incontáveis livros que leu e anotou. Faiscaram o pedúnculo metálico do lucivelo sobre o tampo da escrivaninha, as pegas douradas das gavetas, o cinzeiro de bronze. Era como se ao mesmo tempo aquela fosse a última e a primeira vez. Uma estranha paz agitava-se da larga carpete ao estuque imaculado. O escritor respirou tão fundo quanto pôde. Setenta anos naquela casa eram mais do que uma obra, mais do que uma biografia, mais do que o amor a uma família, mais do que a obediência a um destino. Assinou papéis, introduziu-os num envelope, fechou-o. Setenta anos naquela casa eram pertencer a um lugar. O que houvesse de ser não podia ele a partir de então emendá-lo, dissimulá-lo, atenuá-lo ou transformá-lo. Abandonar uma casa para morrer é quando o instante e a eternidade se misturam. O escritor sabia que cada coisa à volta do espaço era uma despedida. E, por isso, tudo se contorcia em labaredas dolorosas, mesmo que embuçado no mais belo e duro silêncio. «Nenhuma oportunidade é tão viva e tão crua como última» disse o escritor.

Levaram-no.

No sanatório viveu catorze dias. Pensou muito em quase tudo. No que algum dia teve algum significado. Nos dióspiros da quinta; na água de Evian (tão boa como a do Parnaso); nas gravidezes sucessivas da mulher, Excelentíssima Senhora D. Ester da Cunha Albuquerque e Sousa, de quem recebeu as comodidades deste mundo; nos desabafos de São João da Cruz; no menino gorducho – filho da criada – a quem ensinou a ler e a escrever; nos primeiros dias do Direito em Coimbra; no esquife onde depositaram o avô Romão (nunca esqueceria aquele expressão de morte do avô-herói, do explorador das áfricas, com Hermenegildo Capelo e Roberto Ivens). Pensou nas centáureas e agapantos azuis com que a criada, a magnífica Rosalinda, lhe ornava o escritório. Pensou em bacalhau migado. Em fígado de porco com cebolada. No caldo do Minho. As mãos magníficas de Rosalinda. Os seios magníficos de Rosalinda. Pensou na tristeza de Rosalinda. Por ordem da Excelentíssima Senhora D. Ester da Cunha Albuquerque e Sousa, sua esposa, e dos excelentíssimos senhores seus herdeiros, precisou de afastar de sua casa a magnífica Rosalinda e o nédio rapaz, que amava como ele as musas e as mudas subtilezas da literatura. Pensou muito. Pensou em matar-se. Pensou até em Deus, o ancestral inimigo, a quem odiava mais que a todos e a quem, nessas duas semanas finais, lançava salpicos de saliva, entredentes, nos pesadelos. «Deus, o velho hipócrita, somos nós a ver-nos a um espelho limpo». O pensamento foi o último farrapo de vida que sobrou. Num derradeiro consílio de palavras, quando a lucidez se juntou ao corpo, pediu tabaco. Deram-lho. Morreu com o charuto entupindo-lhe a boca. Foi assim.

Levaram-no.

A urna era, como o desejado, de pedra limpa, granítica, sem dizeres. Nenhum símbolo religioso. No funeral compareceram, naturalmente, todos os grandes da terra e todos os grandes da literatura. Estranha mescla de poder! Os discursos foram breves. Nenhuma voz quis afoitar-se demasiadamente. Nenhuma pretendeu o protagonismo que só ao morto cabe nesse dia. Ao lado dos grandes desfilavam os não tão grandes e, ao lado destes, os humildes. A criada magnífica também acompanhava o cortejo. O filho de Rosalinda, a quem o escritor ensinou as fábulas de Esopo e de Fedro, também. Que olhos tão idênticos aos dos defunto, se ali o defunto os pudesse abrir! Os herdeiros, corvos enlutados até ao bico, desconheciam as coisas de Esopo («O mito mostra que…»). Nada entendiam sobre as coisas que o futuro haveria de tornar sublimes e belas. Só a poesia pode elevar a ouro a poeira deste mundo: e os herdeiros nada compreendiam de poeira, só de ouro. Recebiam, portanto, os pêsames e os passabéns e os abraços e os beijos dos outros corvos. E amparavam as mãos da Excelentíssima Senhora D. Ester da Cunha Albuquerque e Sousa, muito protegidas em pelica negra. E amparavam-lhe o véu. E o rancor que escondia, porque nunca em vida lhe erguera o escritor o devido monumento literário. E ela, viúva, matriarca, mulher despeitada, exigia que se terminasse a obra. Fizeram-no descer à terra. O último lugar ou o primeiro. Aí, guardado, selado e chumbado, que lhe importavam as más-línguas, o azedume, o ódio, a incompreensão. Que falassem, se quisessem. Em que pensaria o morto?

Levaram-no.

Entro agora em casa. Empurro, para os sentir, os dedos sobre a linha dos móveis. Toco a chave da escrivaninha, os rebordos floreados da ranhura. Parece-me de uma beleza veemente a caneta deslizando sobre as folhas, o cheiro da tinta, a harmonia das frases. A luz e o cheiro das centáureas entram. Abro as gavetas. Uma estranha paz agita-se da larga carpete ao estuque imaculado. Leio velhos cadernos encrespados, quase sem rasuras. Nunca soube dizer a palavra «pai». Não a pronunciava minha mãe, Rosalinda. Nunca o escritor ma ensinou. Todos os seus manuscritos começam com uma dedicatória: «Para ti, meu filho, que um dias hás de perceber!»

VIAGEM NA MINHA TERRA (FAFE)

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Moinho de Aboim (Fafe)

No extremo noroeste de Fafe, numa das encostas do Maroiço, a pouco mais de um quarto de hora do centro da cidade, situa-se Aboim, umas das típicas aldeias do Concelho: pequena, colorida de tojo e rebanhos, atravessada de silêncio e por rotas de pedestrianismo, de vez em quando, também, por aficionados de moto 4, num despropósito de poeira e ruído…

Dispenso-me de grandes apresentações. Já noutras alturas me demorei sobre os encantos deste lugar imperdível. Não vem no mapa, não se fala das suas gentes, não se lhe conhecem artefactos históricos. Aboim é, apesar disso, um dos santuários de paz de onde dificilmente saio a pensar nos problemas do costume. Aqui apetece somente o fervilhar do verde, apetece a respiração pura, a fotografia.

Avista-se com facilidade o Rio Cávado, serpenteando lá ao fundo, em terras de Vieira do Minho. E avista-se também os picos de Lanhoso: entre eles, o do seu castelo afamado. Mais longe, o Sameiro, em Braga. E entre cada elemento um recamado de maciços graníticos negrejando, como num cenário de Caspar David Friedrich. Delicioso!

Não há luxos na paisagem. Tudo o que é belo, é-o simplesmente. Até este moinho erguendo-se numa colina sobranceira ao povoado. Diz-se recuperado da ruína. Não tem o pano que faria as pás semelhar mais autênticas (por causa dos roubos), mas é digno de ser visto e possui o seu inegável ar bucólico. Muitos, que assim pensam, vêm aqui em romagem para o retrato da praxe.

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Vertente do Maroiço (vista de Aboim)

Em baixo, no único café que pude encontrar, entre bandeirinhas do Benfica e garrafas de digestivos, aparece-me um simpático senhor de bigode farto a querer vender-me um cabrito. Do melhor que há por aquelas bandas explicou. Um olhar em volta capta toda a melancolia do espaço. Mesas e mais mesas vazias. Todas. Não me lembro da última vez que encontrei num espaço tão só. Um cabrito não vinha a calhar, mas gente sim. Gente, gente-gente, gente com quem conversar (curiosa essa súbita falta do frenesim habitual dos cafés).

Ao longo das estradas, elas também despidas de almas e automóveis, eis que me deparo com um desses ajuntamentos de gado à moda antiga, aparentemente sem dono, rebanhos mistos, com cabras e ovelhas correndo os mesmos caminhos estreitos, com os cães de guarda fitando-nos numa bonomia desconfiada. A pastora, ei-la ao longe, de atalaia, numa penedia. Grito-lhe. Aceno-lhe. Fotografo-a assim mesmo, aqui mesmo, do meu pequeno ponto no horizonte. Fotografo o seu rebanho, fotografo o silêncio, fotografo a solidão. Há em todas as coisas um gesto rude e simultaneamente cortês, as cabrinhas parecem posar, não admiraria que o fizessem. Os animais de pastoreio são avantajados e saudáveis, crescem ao deus-dará, não prestam contas a nenhuma mão fiscalizadora do Estado.

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Parque Eólico da Serra de Fafe (vista de Moreira de Rei)

Desço agora a Moreira de Rei. A estrada é ainda de alcatrão, cruza-se com nomes como Gontim, Lagoa, Várzea Cova, Pedraído. Uma brisa fresquíssima de carvalhal, de tojo, de ervas, corta-nos de tão fria. As cores do horizonte multiplicam-se, suavizam-se, perdem-se numa miscelânea de azul e tons de fogo. Foi neste recanto onde me encontro, em plena Serra, que escrevi há anos grande parte dos poemas de contra o esquecimento das mãos. No carro, com os cigarros e o caderno, somente o Sete Rosas Mais Tarde de Paul Celan, magnificamente traduzido por Yvette Centeno e João Barrento. Foi aqui que me curei da vida, que me limpei dos desastres, que me quis de novo como sou ‒ lugar-talismã, sagrado, podia dizê-lo…

Dá-me ganas de avançar. O carro conduz-me agora por um percurso de terra batida. Os aficionados do Rally de Portugal conhecem-no melhor do que eu. As torres eólicas (este é um dos maiores parques do país) produzem um silvo característico. Há dias que as suas pás enormes, ceifando o verde, girando sem parar, me aborrecem. Outros há que lembram um filme rodado em movimento, homenageando a era do progresso, acrescentando à paisagem um cosmopolitismo contrastante com a timidez e acanhamento das aldeias à volta.

Quem por cá anda, em busca de tartaranhões e grifos como eu, ou apenas pelo prazer de escutar os zumbidos espontâneos do vento, depara-se não raro com uma manada de garranos. Ocupando as colinas, descendo aos vales, esgueirando-se por entre bosques e silvados, são uma visão maravilhosa. Os potros aos pinotes, os machos e fêmeas adultos espiando cada movimento do tripé, eu a evocar antigos habitantes destas paragens, nómadas, celtas, mouros tresmalhados, poetas como eu.

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Vista do Maroiço sobre o maciço da Peneda-Gerês

De rocha em rocha, de laje em laje, trepo até ao alto de uma brenha. Avisto ao redor todo um firmamento de indizível liberdade. Para mim a liberdade é isto! O meu silêncio é aqui. Quando às vezes me canso de ensinar e das palavras que repito até deixar de as conhecer, preciso de vir.

Por estas bandas há também as lendas, as deliciosas fantasias que nem o desgaste dos tempos apagou. Há as tradições, as boas tradições que a distância de muitos filhos e netos, lá pelas Francas e Suíças, tornaram mais sagradas. Assim é a narrativa muito certa da Senhora das Neves, a que «bota fora» todo o Diabo que hajamos no corpo e na alma, recontada ainda há pouco pela Dona Miquelina. Assim é a história desta estranha casa, engastada na paisagem, encastoada entre dois blocos cilíndricos, e a que chamam «Casa dos Flintstones», «Casa do Penedo», «Casa do Rico», etc. A lenda diz que aqui veio um leproso curar-se da morte, aqui no meio do nada, aqui onde nem a maior peste pôde terminar o seu trabalho. O homem salvou-se e jurou não deixar desaparecer o seu refúgio. Ele aí está (o som do obturador reprodu-lo vezes sem conta), repleto de encanto, repleto de fascínio, repleto de turistas ocasionais que o calcorreiam, lhe mijam, o enxovalham. Triste!

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Casa de Pedra (Moreira de Rei, Fafe)

Com a proximidade da noite regresso à estrada principal, ziguezagueando até Sant’ana ou a Marinhão. Nunca me sinto tão preenchido como nestes poucos minutos de penumbra que separam as duas metades do dia. Mora nestes lugares semiermos, neste interstício, um mistério que me não deixa partir completamente. Com alguma sorte, ao voltarmos ao ponto de partida, encontramos um conhecido, engavelamos conversa, somos convidados a entrar nalguma casita tosca, nalgum tugúrio, para provarmos do vinho (tintíssimo) e comermos broa com salpicão. Aqui, os forasteiros de boa vontade nunca o são verdadeiramente.

A noite anula todos os contrastes, apaga a orografia e os pensamentos. O ar é frio. Em volta há unicamente a conjuração das pedras com o céu, um rio de estrelas a transbordar (que a iluminação elétrica, feliz ou infelizmente, não chegou ainda a toda a parte), silêncio, um mais fundo silêncio de chocalhos calados, portas fechadas, gente guardada nas suas vidas. Quando me canso de ensinar e de repetir as palavras preciso de vir. Venho muitas vezes. Aqui o tempo é outro, nem depressa nem devagar, apenas cheio de sentido. Não me perguntem porquê.

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Vista do Maroiço (pôr do sol)

VIAGEM

Floresta, Norbert Maier
Foto: Norbert Maier

A primeira impressão que se tem no meio da floresta, ao atravessar-se a cortina de luz entre as árvores, é o chapinhar das botas na terra húmida. O desenho da sola fica estampado nos carreiros ao longo de caminhos macios de musgo e folhas dourado-avermelhadas para logo se perder nos pedregulhos aguçados por onde é preciso continuar. Sobe-se, trepa-se a custo, nos meticulosos lances de lobo solitário. As fragas são uma especialidade demorada, exigente, tal como suportar o silêncio. Ao mesmo tempo que os pulmões sentem regenerar-se no ar álgido das montanhas, o silêncio pressiona os ouvidos, fá-lo como uma grande bolsa de paz a que se não está acostumado. Dói por isso escutar, sentir a ausência de ruído, senti-la rodear a cabeça e os ombros, cortar a pele, entranhar-se nas unhas e nos lábios, senti-la cair dentro de nós como água num odre vazio.

Caminha-se até a um ponto alto. Lá avista-se o desenho acidentado das penhas, o serrilhado da copa das árvores, a linha branca e lisa das neblinas, o vago monótono azul da cordilheira cada vez mais ao fundo. Às costas a mochila pesa uma tonelada. A existência, pelo contrário, é agora leve como uma pluma. Em nós, como num documento calafetado com lacre, o selo do instante: aqui e agora, o eu!

O trilho amplia-se. Vê-se daqui a linha verde do rio. De braços abertos e olhos fechados sentimo-nos querer tombar no abismo. Em nós, como nos pássaros, cresce o apelo da vertigem, do voo. Pudéssemos arremessarmo-nos sobre o abismo e alcançar inteiro o horizonte. O espaço em frente é uma fronteira. Havemos de vencê-la. Ele é o intervalo entre nós e nós mesmos, entre nós e, quem sabe, o nosso deus. Minúsculos e enormes, como as figuras românticas de Caspar David Friedrich, abrimos os sentidos ao firmamento. Olhamo-lo, escutamo-lo, respiramo-lo, tocamo-lo, degustamo-lo. Não cessamos de absorver a dádiva do vivido. Em frente é o precipício. E nós sabemos que cada instante é um precipício em frente. De olhos fechados e braços abertos deixamo-nos ir…

Depois, a viagem conduz-nos a um labirinto de antigas veredas. Debaixo do volume matizado de verdes e amarelos e ocres e vermelhos outoniços, dos ramos engastalhados das nogueiras e carvalhos, ulmeiros, teixos, juníperos, amieiros, áceres, choupos, zelhas, medronheiros, azereiros, castanheiros, de um ou outro pinheiro bravo, o curso da levada. A água é de uma pureza comovente, límpida de tão nova, fria de tão intocada. Desce. Corre já. Invade a floresta, onde, discretos, orelhas, antenas, chifres, se voltam na nossa direção. Somos intrusos neste jardim. Somos os expulsos do Éden. Aqui pernoitam, temos a certeza, as derradeiras ninfas, os últimos faunos. Aqui, bocas selvagens ignoram a nossa fala e desprezam-na. O curso da água segue até a uma pequena clareira. A primeira cabana recebe-nos. É terrível o efeito desta aparição. Outras mais acima e abaixo. O homem aqui está. E eu vim também. Eu estou aqui. Eu, que sempre aqui pertenci, não sou deste lugar. O bafo repete-se. É um aldeamento. A civilização multiplica a presença de objetos. Um telemóvel toca, vibra, fere a ductilidade das formas. Há casacos coloridos, gorros, luvas em movimento. Risos, vozearia, alguém disparando um flash. O alarido assusta o pundonor do pensamento das árvores. Interrompendo a sua filosofia milenar, as rochas desabam. Um garoto empoleirado num píncaro grita. Esboroado, o instante transforma-se em eco. Adultos furiosos alcançam-no, imprecações, uma bofetada, choro. A maldição humana não tem fim. Eu estou aqui.

À noite, entre toros e grossas panelas de ferro fundido, as chispas avermelhadas saltitam. Chia, crepita, estala, rumoreja a lareira. Os outros deixaram-me finalmente. Tenho-me a mim. Trouxe vinho e um caderno. Imaculados, os segundos seguram-me ao nada. A música de Brahms (sexteto de cordas, opus 36) adormenta-me. Penso em coisas. Não chega a ser uma narrativa, somente fugazes iluminações. Logo a penumbra as envolve. Penso em ti. Mas também tu és efémera. Penso numa escadaria helicoidal. Subo e desço à infância. Subo e desço a cada coisa que produzi. Subo e desço ao absurdo. A solidão é o espelho de quem sempre fugimos. O vinho e o caderno são supérfluos. Para que continuo eu a fugir?

Regressa-se. A floresta é hostil. Quem aqui vive não ama quem aqui não pertence. Mas regressa-se a que lugar? Volto-me. Cada pegada que aqui deixei é um fóssil. Eu, que sempre aqui pertenci, não sou deste lugar. Mas a que lugar pertenço eu? Intacta a garrafa, vazio o caderno. O princípio do mundo talvez seja assim…

impressões de outono

dragisa-petrovic-bw
Foto: Dragisa Petrovic

a tarde bate em retirada ao longo da várzea. no seu lugar, escondido no bosque e nas primeiras trevas, sorrateiro como as fundações de um moinho, o som velho das gralhas. musgo e fungos trepam desde as folhas secas. carvalhos leprosos abrem longos dedos decrépitos até aos derradeiros fiapos de luz que vazam a copa engastalhada e descem à linha reta composta por todos os troncos. em breve apenas uma breve sombra apertando ao sobretudo por aqui passará. o frio pole as pedras, pole os perfumes, pole o leito tranquilo sob as águas do ribeiro. a paisagem impõe respeito. íntima do silêncio, ela escreve devagar o seu próprio epitáfio. cada passada no estreito caminho de terra é um convite ao futuro: as botas gravam no lamaçal a nossa biografia; cada vez mais próximos da terra, os ossos pesam sob a arquitrave do pensamento; como obsidianas, as gralhas rasgam de alto a baixo o instante, mostram a clareira do abandono. quem aqui chega não há de regressar a lado nenhum. como num sonho, o caminho é sempre em frente até perder-se, até que, num lampejo de lucidez, alguém nos sacuda e nos salve de nós mesmos

 

GOSTO TANTO DESTE LUGAR

Cemitério, Jose C. Lobato
Foto: Jose C. Lobato

 

A última vez que cá estive foi há tempo que me dói lembrar a última vez que cá estive. Não faço na vida nada mais bem do que isto: doer.

Fico durante horas imóvel, de olhos fechados, a dormir e acordado, igual a uma árvore. Como sementes a chocalhar numa cabaça, os pensamentos são ruidosos. Atropelam-me as saudades, o rosto das pessoas desaparecidas, a acrimónia do remorso, dos muitos remorsos, a vergonha das coisas más que fiz. É uma catadupa, uma avalancha de frases. Como se tivesse nascido com o dom de me iludir com as palavras.

Gosto tanto deste lugar.

Aqui, eu sou eu. O vento respira tão livremente que me sinto respirar melhor. Como se, lavados, os pulmões abrissem e encolhessem numa sedução nova. Aqui, mando bugiar o telemóvel e as pressas, as pessoas, os compromissos que me querem enjaulado. Aqui, as quadrículas da agenda parecem-me mais letais do que um cano de escape adormecendo o suicida. Aqui, os ramos de flores murchas que vão tombando, secando, regressando ao pó primitivo parecem-me uma voz antiga de que me esquecera. Aqui, a pele arrepia-se-me só de a sentir embrulhada em mim.

O tempo passou. Foi há tanto tempo.

Por isso, não sei como ordenar as coisas que se acumularam na boca, na íris, na cabeça, no coração. Coisas tão velhas como velhas raízes quase apodrecidas, coisas tão novas como meteoros atravessando agora mesmo o canto do olho. O corpo cobre-me como uma capa gentil. Por dentro, entre as vértebras, no fundo das vísceras, o combate eterno de cada eu deposto e entronizado. O miúdo loiro, de anéis e sorriso tímido. O adolescente repleto de acne, como um leproso. O universitário arrogante. O professor do princípio, galgando a estrada doce do futuro. O poeta. O trunfo político. Depois o desempregado. O crítico. O descrente. O amargo. O solitário. O homem vestido negro à porta de uma vida qualquer. Coisas tão velhas e tão distantes como um quelho pedregoso e mal alumiado, por onde se ia certas noites quando se ia para casa dos avós. Coisas tão novas e tão frias como a textura de um bisturi rasgando-nos até ao imo.

Gosto tanto deste lugar.

Aqui volto a mim. O que quer que signifique voltar a mim. Aqui, entre lápides e epitáfios, ao longo dos talhões simétricos, no meio dos ciprestes e das fotografias cor de sépia, perdido entre datas e desconhecidos, fustigado pelo vento e pelo rumor dos passos dos defuntos, reencontro a vida. Uma vida mais assética do que um lençol branco. A vida.

A última vez que cá estive foi há tempo.

Quando abri esta manhã a janela e me dei conta das folhas encarquilhadas da magnólia a dançar no passeio, percebi que precisava de voltar. Não faço na vida nada mais bem feito do que isto: voltar. As pessoas talvez nem reparem. Voltar é uma coisa tão natural como outra coisa tão natural. Em mim é assim. Volto sempre aos lugares onde encontrei a vida.

Lembrar dói tanto.

Os pulmões vêm murchos como essas flores derribadas e sem cor. Vêm cansados como duas máquinas desaprendidas. Depois o vento lava-os devagar. O vento fá-los rastejar, torvelinhar, espolinhar na terra, ser do mesmo lixo que o lixo que voa no chão. Datas e desconhecidos, nomes, vidas alinhadas e numeradas no silêncio, corredores simétricos, anjos e lápides, frases esculpidas com o escopro da saudade, tudo aqui, tudo tão simples, tudo tão óbvio. É, então, que os pulmões sentem erguer-se, insuflar-se como essas teimosas velas que ardem num coto, renascer, respirar outra vez, tocar a vida abandonada, regressar. Agora, agora!

Gosto tanto deste lugar.

Fecho o portão com todo o cuidado. Aqui moram os poemas mais sublimes e os mais hediondos, os mais inacabados, os mais perfeitos. Caminho a pé pela alameda tomada pela penumbra. Os pensamentos deslizam serenos e macios, sóbrios como os meus próprios passos na calçada. Entro na noite. Entro em casa. Entro em mim. As pessoas talvez nem reparem. Às vezes é assim. Escreve-se, depois, qualquer coisa. Como se tivesse nascido com o dom de me iludir com as palavras. Mas isso pouco importa. A vida, sim. A vida corre livremente como o vento. Pudesse eu explicar-lhes isso. Pudesse!