ÓDIO À MEDIOCRIDADE

Marco Gentini

 

«Um escritor não é a soma dos seus livros, é a fuga ao livresco. Um escritor não escreve. Inventa.»

Pedro-Daniel Névio, Escoriações

 

A casa do escritor ficava no subúrbio norte, numa área sossegada, a seguir a campos, entre curtos eucaliptais. Lembro-me do cheiro a limpo, do perfume da alfazema, da frescura da mobília, do odor dos sofás de cabedal. Lembro-me da porta aberta do escritório, das estantes escorrendo das paredes, escondendo-as, de um ou outro quadro de Kandinsky no intervalo dos livros, do adágio de Mozart, do violino de Itzhak Perlman, da meia sombra e da meia luz tapando o vaso das orquídeas e alumiando o formidável persa azul aos pés, no tapete, do ar muito quieto do seu corpo quando lhe anunciaram a minha visita.

O escritor concedeu-me uma entrevista, autografou-me sete dos seus livros, ofereceu-me um volume de poesia em edição limitada, corrigiu nele um verso terrível, teimoso, com caneta de feltro, abraçou-me no fim.

«Cuidado com a mediocridade. Odeie-a.»

Era quase noite quando regressei à cidade, ao centro, às banais lentejoulas dos meus comparsas no círculo intelectual. Na madrugada seguinte vim para a varanda queimar papéis. Fi-lo sem arrependimento. Voltaria a fazê-lo na minha vida. Repeti-me a repreensão de Horácio, «Inutilia truncat», que hoje é a minha divisa.

O escritor, agora que o leio dobradamente, póstumo, sem peias, é um génio. Não engaja frases ou versos, fá-los encontrar-se com leveza e com verdade. Não lhes disfarça o vazio com efeitos de pirotecnia, enche-os com amor. Dele escasso se diz, nada se escreve, pouquissimamente se indagou nesta década seguinte à sua morte.

Penso muitas vezes nesse encontro, nessa tarde de outubro, nessa literária mediocridade absurda que ao redor de nós se levanta como um circo, como um cerco, repleta de aplausos lorpas, provincianos, reles, serôdios, babujados, amacacados, odiosos.

Tanta razão, escritor!

Vêm dizer-me «Fulano publicou», «Sicrana vai publicar» e é um tédio. Bocejo por vislumbre, lendo já de roldão, à laia de adivinho, tantas páginas repletas de mais do mesmo, da mesma retórica (retoricazinha, vá lá) balofa, oca, medíocre, que enche cada vez mais escaparates de livrarias e estantes de bibliotecas. Bocejo de pensar que aí vem mais do mesmo, da mesma merda ociosa que pulula nos cantinhos de jornal, com estrelas, panegíricos, recomendações de leitura…

Horrível.

Por cá a malta distrai-se, distrai, facínora. Distraiu, distraiu-se sempre. Não há que fazer. Prefere cantar teias de aranha a ver paisagens, embora espreite pela mesma janela. É uma questão de «escala do olhar» como escreveu Fiama. E em terra de cegos, já se sabe…

Hoje acordei com saudades dos dias em que amava a literatura como uma religião. Sim, escritor, odeio a mediocridade. Deve ser isso o que terei de ensinar a quem me lê. Talvez seja uma questão de apostolado. Talvez tenha de pregar no deserto ou aos peixes. Sublinhei a lápis grosso «Um escritor não é a soma dos seus livros, é a fuga ao livresco. Um escritor não escreve. Inventa.» E é exatamente assim.

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BALDIOS

Baldio, Wasteland
Foto: Franziskus Pfleghart

(para Herberto Helder)

era um lugar inacessível ou quase, no meio de ervas altas, bardana e urtigas, um lugar para onde se ia às vezes, entre cablagens oxidadas e velhas betoneiras, nos arredores da cidade, um lugar para onde se ia às vezes e de onde se vinha em silêncio, iluminado às vezes pelo amarelo das flores da serralha, um lugar para onde se ia e se lia às vezes em solidão e se perfurava o espaço com o estertor das consoantes, um lugar feio, onde o fedor da urina e das fezes se misturava ao iodo fresco do rio, um lugar entre sucata, tijolos, pó de cimento, onde cresciam tufos de trevo e mostarda, onde pequenos ratos rondavam a ferrugem de contentores esquecidos, subúrbio, um lugar por onde se caminhava às vezes em silêncio entre grafitos e mastruço e poças secas de óleo industrial, um lugar onde a tristeza dos corpos amados e arrefecidos caía com esperma sobre os altos pedúnculos do dente-de-leão e da cizânia, um lugar feio, às vezes tenebroso, de onde se avistava o comércio da noite e as constelações, um esconso, para onde se levava às vezes (guardado num bolso) um pequeno poema dobrado em quatro, onde se podia sem medo juntar os lábios e dizer «Ficas toda perfumada de passar por baixo do vento que vem / do lado reluzente das laranjeiras.», um lugar onde se podia perfurar a terra com o eco saltitante das palavras, «E crepitam-me as pontas dos dedos ao supor-te no escuro.», um lugar onde se podia ler (lia-se bem ali, em voz alta, na mais lídima solidão, repercussivamente, entre as ervas altas e sucata) «Queimavas-me junto às unhas. / E a queimadura subia por antebraço e braço / ao coração sacudido», um lugar ondena própria língua se podia saber como as palavras são outra língua, um lugar ermo, de casebres arruinados e paredes sujas e portas e janelas devastadas pelo tojo, pelas silvas, pelas hortelã, «Eu ‒ perfumado / e queimado por dentro: um laço feito de odor / transposto, ar fosforescendo, uma árvore / banhada / nocturnamente.», um lugar onde o saibro e o sangue cicatrizavam debaixo do mesmo sol (às vezes escaldante), um lugar aonde se ia como se vai a um lugar de paz, um lugar onde em certas noites húmidas se deixa o revólver no outro bolso e se cisma na imprecisa beleza dos vaga-lumes sobre a terra, e se lê como se se gritasse na mais completa solidão «Tudo em mim trazido / súbito / para o meio.», um lugar feroz onde uma certa cidade por nascer parecia (como num fantascópio) ser já nascida, «Quando este saco de sangue rodava / defronte da abertura / prodigiosa.» e o poema (ou grito) se alastrasse às entranhas do próprio tempo e nos fechassem em si mesmas altas colunas verdes (outrora ervas, vinagreiras, beldroegas, beladonas) com os seus caboucos e suas gruas e seu grés, com o seu reboco e seu betão armado, com o seu aço e vidro e violentas forças compressoras, um lugar aonde se ia como se vai a um lugar de paz, um recanto, um deserto, um paraíso feroz de coisas sem sentido, onde se ia como se vai a um lugar onde ninguém saiba que existimos (e existimos mais) e o silêncio é um espesso diamante à espera de nos capturar

26.03.2015

* versos de Última Ciência

O SENHOR NAKATA

Captura de ecrã 2019-03-31, às 16.47.11

para a Céu

Na cidade de Quioto, no antiquíssimo bairro de Higashyama, numa das casas mais humildes, próxima do templo de Kyomizudera, vive o senhor Nakata.

É um artesão legítimo e completo. Os turistas gostariam de o tornar uma atração fotográfica, ao lado das aprendizas de gueixa (as maiko) e das casas de chá. Mas o senhor Nakata, como manda a boa tradição nipónica, gosta do silêncio e da sombra, prefere o seu trabalho livre das perguntas incómodas e do olhar indiscreto dos forasteiros.

A oficina fica nas traseiras da casa. Um pequeno caminho condu-lo todas as manhãs de uma à outra e devolve-o à noitinha ao ponto de partida. É uma viagem curta, mas suficiente. O ar frio das neves ou o ar morno da primavera são-lhe igualmente maravilhosos. Os telhados recurvos do templo e a fronde rosada das cerejeiras ao fundo despertam-lhe o mesmo agradecimento que a água das fontes e o perfume do musgo do jardim.

O senhor Nakata descalça-se sempre ao entrar e permanece imóvel algum tempo, até que a visão se acostume à penumbra. Aproveita esses minutos para escrever poesia.

Escreve-a de memória, às vezes repetindo-a nos monólogos, esforçando-se por usar a palavra certa no lugar certo. É, além do trabalho manual e da poesia, cultor da sopa de miso e dos banhos de água gelada, da filosofia budista (wabi-sabi) e da obediência samurai. Acredita que cada trabalho que fizer será mais perfeito do que o anterior e que mil anos não chegariam para que se atingisse a perfeição. Mil e um anos, sim!

Ninguém sabe a idade certa deste homem. Dito de outro modo, ninguém sabe quantos anos faltam para se sentir preparado para morrer.

O senhor Nakata é paciente, laborioso e apaixonado. Depois de compor o seu poema (como quem apara uma folha de bonsai ou lhe extirpa uma erva), escolhe o papel, o couro, o molde, as linhas com que há de coser mais um caderno. Cose-os tão devagar como cose uns aos outros os três versos dos haiku. Para quê apressar o amor se pode nele morar e não noutro sítio?

Uma vez, depois da guerra, vieram dizer-lhe que o filho tinha sido encontrado morto num poço. O senhor Nakata manuseava a sovela, à luz escassa de uma lâmpada.  Na sua mesa via-se uma coleção de tesouras, facas, réguas, linhas, um esmeril, giz, pilhas de papel, tiras de couro de boi e de cordeiro. O cheiro das colas impregnara todo o espaço. Os visitantes afogueavam-se, dobravam-se numa mesura fúnebre, emocionados com a tragédia. Esperavam não matar o vizinho, já então velho e atingido por várias desgraças.

Sem se mexer, sem um esgar de surpresa, o senhor Nakata escutou a notícia. Aos poucos afastaram-se às arrecuas todos os que ali foram levar-lha.

O caderno que sustinha nas mãos era esmerado, impolutamente branco, cosido com precisão. Faltava-lhe o resguardo em pele com que deveria fechar-se. Era imperioso que o papel pudesse contar com essa capa de tecido animal para permanecer no tempo, para assegurar ao futuro proprietário o prazer máximo de uma escrita lenta e longeva. Aquele caderno não seria apenas mais um objeto, mas o objeto de que alguém jamais prescindiria. Diriam «Foi este o caderno que Nakata cosia quando lhe deram a notícia da morte do filho!»

O artesão prosseguiu com a sovela, abrindo um a um os equidistantes buracos da sua dor. Depois, até que a noite sobreviesse, tapá-los-ia com orgulho como quem prende a si um destino ou uma missão na terra. Cada trabalho que fizer será mais perfeito do que o anterior. Mil anos não chegarão para que atinja a perfeição. Desejá-lo em cada dia, isso sim!

CRÓNICA DOS DIAS COMUNS

Paulo Abrantes
Paulo Abrantes

A viagem demora três quartos de hora.

É muitas vezes a distância entre mim e eu. Ao fim de meses, a última afirmação parece-se extraordinariamente verdadeira: duas vezes três quartos de por dia multiplicadas por muitos dias é uma soma impressionante de pensamentos, de constatações, de memórias, de tomadas de decisão, além do asfalto, do combustível, das portagens, dos monólogos, dos programas de rádio, das conversas ao telemóvel, das árvores a despir-se, despidas, vestindo-se novamente, dos bandos de pássaros voando numa alucinação de cardume, dos arco-íris e mosquitos esmagados no vidro dianteiro, das ultrapassagens assassinas dos camiões TIR, dos condutores esburacando as fossas nasais com os dedos mindinho e indicador.

A viagem nem sempre é boa. Muitas vezes cansa, cansa mais agora,  exaspera, os olhos ardem, a rota faz bocejar, leva-me ao vazio e dele me leva de volta a casa. Muitas vezes é assim. É um sonho, uma dormência. Abro as janelas, a da esquerda primeiro, a da direita depois, mesmo se lá fora está frio, especialmente se está muito frio. Preciso de me ventilar, de ser açoitado pelo ruído e pelo ar denso, de acordar.

A pior parte da viagem é esta que nos faz tergiversar a vida, como se a viagem não fizesse parte dela e tudo não passasse de um efeito de redoma. A vida pede-nos, aliás propõe-nos, aliás exige-nos uma grande dose de ousadia.

Enquanto o conta-quilómetros vai substituindo números, sorrio em segredo para dentro de mim. E lá estou eu, a gostar outra vez de Antropologia Cultural, a estudar os povos africanos e as tribos da Polinésia, a sonhar com viagens de comboio pelas estepes asiáticas e a fotografar aldeias da Mongólia, da China e do Turmenequistão. Tenho a mochila inchada de cadernos e os rolos da máquina fotográfica repletos de rostos desdentados, lareiras ardendo em casas de terracota e estranhos e curiosos animais parecidos com os nossos animais domésticos mas diferentes dos nossos bichos de estimação. Sou eu sem lamentos ou evasivas, escrevo crónicas de viagens a sério, publico livros que ensinam o quanto o mundo é pequeno visto de dentro e sinto-me puro e veemente, cheio de frases que soam como soam as teclas da máquina de escrever.

Este devaneio volta amiúde. Volta sobretudo em determinados dias da semana e a certa altura no percurso, quando o dia rompe da massa escura das montanhas do Marão. Primeiro o horizonte é só uma película rosada, atravessada pelo fumo translúcido dos aviões («Lá em cima os aviões com o seu rasto aceso parecem caracóis segregando uma baba luminosa» escrevi num conto d’ O Moscardo), depois surge o clarão, o arrebol, a luz de lume do sol. Dura uns segundos apenas, mas a imagem fica e acorda outras imagens acamadas na minha memória. A explosão torna nítidos pormenores que me acompanham durante o dia, mostra o girar das torres eólicas ao longe, os mantos de nevoeiro e de fumo sobre os povoados, a cintilação dos metais e dos vidros em mil casas que alcanço num abrir e fechar de olhos, uma curva da autoestrada além, subindo, reaparecendo, brilhando, para logo desaparecer de novo entre campos e montes.

Sonho comigo num qualquer festival de música eletrónica progressiva (de Oleg Byonic, de Lukas Termena, de Armin van Buuren), num terraço de Nova Iorque a fotografar o Hudson, ou nas escarpas da Irlanda e nos fiordes da Noruega a sentir-me íntimo das paisagens maravilhosas. Sonho comigo passeando nos jardins de Quito, entre as colunas de Tebas, sobre as ruínas do Peru. Volto a emocionar-me com a adolescência rigorosa das aulas de Filosofia e de Jornalismo, disciplinas a que obtive classificações históricas, e por via delas sonho comigo filosofando e noticiando em Alexandria, em Cambridge, em Istambul, em Toronto, em todas as bibliotecas, museus e universidades importantes do mundo.

Sobre mim relampeja o azul das placas sinalizadoras.

Sem dar por ela, aproximo-me do destino, o carro desacelera, avança sem pressa, também ele enfastiado, esgotado, saturado do ramerrame, aquecido pelo esforço dos pneus, cheirando às vezes a uma combustão suja (como se alguma vez pudesse ser limpa) de gasóleo e de travões.  Quando me apeio, sinto um emperramento terrível, uma preguiça de morte, um desapontamento. O desapontamento cresce se se depara com outro rosto desapontado no brilho espelhante da carroçaria. É uma solidão de dois rostos que sendo um são dois rostos reciprocamente desiludidos, um desamparo. Às vezes receio cambalear. Talvez cambaleie, dorido, sem força, pronto para o que der e vier. Nem tenho tempo para perguntar. Se tivesse perguntá-lo-ia talvez. Embora não o jure o aqui. Talvez. Apenas talvez.

Que viagem foi esta que eu fiz?

COISAS TÃO PERFEITAS

balcony, varanda

Foto: Marc Huybrighs

Ao sol está agora uma roupa tão branca que parece, sob a força do primeiro, uma cascata de lâmpadas acesas. Devo dizer que nunca vi uma cascata assim, é uma metáfora, pelo que a expressão é meio absurda. Mas também nunca a roupa me pareceu faiscar tanto como esta que vai batendo no lado de fora da parede, produzindo às vezes um ruído mais forte, que, junto com a luz, a torna viva e bela.

Empurra-a uma corrente amornada, de brisa para vento, já de mistura com a fragrância de certas flores e plantas de fim de inverno. A roupa cheira maravilhosamente a sabão marselha, e esse perfume enovelado no primeiro entra-me pela janela como um saltitão inesperado e faz-me sorrir. Sorrio muitas vezes a coisas destas género, a episódios (digamos) de importância nenhuma a que tendo amar mais do que às coisas de importância capital.

Desde que se acorda anda-se à volta de meia dúzia destas ninharias para com elas atar um poema. Infelizmente, o peso das prioridades, a sombra delas, o zumbido das suas horríveis asas frenéticas impede-nos de chegar ao âmago das imagens e dos sons, das palavras que se procuram.

Uma pessoa lida épica e estoicamente, silenciosamente, com problemas deste jaez. A chávena do café secou, o caderno com as rasuras lembra uma confusão de fios telefónicos, a caneta tapada e destapada é um homem que não sabe se é capaz ainda de amar a sua mulher. O proveito é escasso, a mesa é o palco de um drama anónimo (nada anódino), os papéis amarrotados fazem doer as mãos, e mais que elas os pulsos, e mais que os pulsos os olhos.

Nessas alturas apetece o disparate.

Por isso, abre-se uma janela e fica-se a espantar. Os clarões descem até nós pelo telhado, saltitam e gorjeiam pelo meio dos algerozes, ondulam no estendal, acendem o mármore do parapeito, cintilam nos vidros distantes, correm no céu à velocidade das nuvens. Ou então, folheiam connosco o livro antigo que não paramos de visitar, renascem nas antigas estrofes sublinhadas a lápis, explodem na coda de um canto que o autor escreveu para um filme. Os clarões são castos, sensíveis, exatos, difíceis de tão precisos que são.

O poema dentro de nós volta a dar sinal de si. É como um tremor de terra. Um pequeno sismo para que saibamos que a água continua a jorrar, ouro freático debaixo de dolorosas camadas de pedra.

Tira-se outro café da máquina. Abre-se um caderno novo. Experimenta-se outro aparo, outra tinta, outras sílabas viscerais. Sob a mão protetora do livro visitado, escavamos o nosso próprio sulco no silêncio. A manhã vibra de viva, é imprescindível que o poema à sua maneira o diga, o implique, o conquiste. Devo notar que a catarse é perfeita.

Assim o escrevi. 

COISAS TÃO PERFEITAS


a bigorna de Amakuni, os movimentos de Má Vlast,

as formas híbridas, paradoxais, engenhosas

de Maurits Cornelis Escher



a varanda, o impossível,

bardana, aspargo, alecrim, calêndulas,

como se pudesse cada manhã persegui-lo melhor ou pela primeira vez

A INFÂNCIA

infância
Foto: Nanouk el Gamal – Wijchers

O lugar mais belo do mundo, volto a dizê-lo, já o disse tantas vezes, é a infância. De dentro das suas fronteiras sorriem velhos desdentados, velhos que conheci e que amei e que recordo agora, entre talhões de ciprestes e grandes anjos de mármore; sorriem gestos que se perderam e que regressam às tantas, num gesto involuntário, como decalcado por misteriosas mãos; sorriem memórias difusas que me ocorrem nas viagens, entre músicas dos anos 80, no ir e vir de paisagens de choupos e de várzeas. O lugar mais belo subsiste apenas no amor que dele me ficou. E ele ficou por inteiro, por atacado e para sempre!

Havia na aldeia uma alcunha a servir de tapete à porta de cada casa, alcunhas inexplicáveis, indescritíveis, intraduzíveis (próprias dos caras de merda, dos caga-baixinho, dos pica-peidos, dos espreita-cus, dos mijões, dos coça-pirocas, dos reis-bandalhos, dos caça-pardejos, dos parrecos, dos chicharros, dos escaravelhos, dos grilos, dos vacas, dos chouriços, dos presuntos, dos cabaços, dos repolhos, dos tarrucos, dos bigorros, dos choinos, dos ganheis, dos chupius, dos vinte-e-uns, dos belezas, dos pírdigos, dos estúrdias, dos sovacos), cada qual com o dignitário pai de família, espécie de general supremo, para quem as conversas convergiam a fim de se dissipar confusões de identidade.

– A que bateu na filha do Florêncio maldito é sobrinha do Afonso perna

– A Neuza?

– Não, mulher! A Neuza é filha. Estou a falar da São. Da sobrinha. Da São passareta!

– Qual São?

– Rais parta! A São que casou com o filho do Toninho bravo!

– Ah!

– Essa…

Existia, sobretudo, o poderoso ofício de cada qual. Cada pessoa era um mester, um trabalho, uma função, tão específicos e tão inconfundíveis que se substituíam quase sempre ao nome próprio, ou que lhe acrescentavam uma aura de prestígio social ainda hoje tocantes, se lhes toco com a saudade: o sr. Bernardino tanoeiro, o Esteves capador, o sr. Marcelino guarda-rios, o Bilinho jornaleiro, o Nando curtidor, a Leonor curandeira (bruxa, com morada aberta e, nessa formidável condição, capaz de incorporar o espírito dos vivos e dos mortos), o Zequinha guarda-soleiro, o sr. Moás vedor e bufarinheiro, a Lídia dos mancebos (mamuda, libertina, iniciadora sexual, vulgívaga, prostitutíssima), et coeteraet coeteraet coetera

As frases cirandavam com o vento, conforme a intensidade do assunto:

– Aquele grande filho da puta do moleiro vai ouvi-las: isto é lá farinha? Isto é farelo, caralho!

– Guida, olha-me só que rico bacalhau comprei ao almocreve para o Natal…

– O marmanjo do amola-tesouras levou-me vinte mil réis por me passar as facas pelo esmeril e olha lá se elas cortam.

– Mila, ó mulher, diz-me tu: ouviste o sardinheiro a apitar?

A infância habitava as varandas no verão e os telhados no inverno; habitava as cortes (todas as casas tinham uma corte, um bácoro, um cabrito, coelhos a criar); habitava as velhas lareiras e as adegas, os alpendres, os casebres de serventia duvidosa; habitava as ruas, sobretudo elas, as ruas onde eu e incontáveis miúdos em permanente algazarra brincávamos ao esconde-esconde, às apanhadas, aos cowboys, à cachaleira, à macaca, à roda, à cabra-cega, ao jogo do saco; as ruas onde com incrível poder de invenção narrávamos histórias de fantasmas e de lobisomens, histórias de gambozinos e minas mal-afamadas (esconderijo de mouras velhas de lenço preto na cabeça e verruga no nariz), histórias de feios anões que apareciam entre as samambaias junto da raiz dos carvalhos, histórias de duendes e enigmáticos animais que eram afinal homens e mulheres vítimas de encanto (porque, sendo uns e outras ou o sétimo filho ou a sétima filha, não lhes deram os imprevidentes pais o nome de Adão ou o nome de Eva, assim os condenando a vaguearem nas noites de lua cheia por sete freguesias, até que algum corajoso fizesse neles sangue e assim os desencantasse).

As ruas eram pontos de encontro espontâneos, onde se terminava o que vinha do adro da igreja, dos corredores da casa do povo, da matança do porco além, da grande fogueira que se ergueu para queimar o pai das orelheiras aquém, do velório de fulano, do enterro de sicrana. Velhos e crianças, mães ou pais, ninguém desperdiçava a oportunidade de pôr em dia a conversa sobre uma garrafa de aguardente de zimbro que se achou lá em casa, sobre o jogo do pião por vingar, sobre uma camisa linho ou de cambraia, sobre a poda, sobre uns quantos almudes de azeite, sobre a venda de uma turina, sobre vinho para comprar.

As ruas eram por si só uma medida social de difícil quantificação. 

Delas, do mau solão, do péssimo cascalho, das lajes tortas, crescia um ruído honesto de carros de bois a chiar e cascos de animais, o estampido dos tamancos (com as suas tachas salientes), o pregão dos lavradores, o ribombo dos fueiros a cair, o eco da pipa desamparada, o alvoroço, às vezes os gritos, muitas vezes os berros. Nessas ruas morria no mesmo instante em que começava (para gáudio de todos) a correria de um desgraçada que aparecia à esquina, e logo atrás dele, furiosa, sem lhe poupar nos insultos, brandindo uma chibata, a mãe que o ameaçava com a polinheira, com a tareia de criar bicho, com a sova como nunca se vira. Entre essas magras ruas enormes da infância animava-se uma gente que era humana e com tempo, que era próxima e sem máscara, gente que ria, segredava, discutia, negociava, aconselhava, fazia vénia ao senhor padre, sugeria uma mezinha, propunha um defumadouro, essa gente de pele áspera e olhar vivo, pequena, mal nutrida, dobrada pelo trabalho duro, essa gente que foi morrendo aos poucos e de que às vezes me recordo nas viagens, entre laivos de uma dor sem definição, como quem viaja no tempo e se espanta do tamanho da viagem.

A infância habitava as colinas até às nuvens e por elas deslizava até ao bosquezito e aos pinhais e aos pomares, ziguezagueava entre os sulcos que a água tomava nos agros de milho e afundava-se na azenha, no escumar do ribeiro, na parte mais funda, naquela que preferíamos para mergulhar nos dias de calor. A infância nadava connosco e com os alfaiates nos bancos de algas e agriões, soltava gargalhadas triunfantes ao cruzar a pontezinha e seguia, pacificamente, para além dela, pelo meio de outros campos, de outros montes, de outros bosques, de outras aldeias, de outros lugares quietos, até se perder de vista.

A infância era, também, o cheiro da terra. O cheiro da terra revolvida pelo arado, da terra que enxadas diligentes extirpavam das ervas, o cheiro da terra puxados nos sarilhos, trazida de poços abertos, à picareta: um cheiro húmido, alcalino, áspero de terra que se mostrava ainda envolta em raízes e que apresentava, conforme a maior ou menor penumbra de onde vinha, uma cor e uma textura mais e menos surpreendente. A infância era um círculo de compasso sobre essa terra, pois tudo o que fazíamos nela radicava: jogávamos futebol no areão dos baldios, corríamos nos caminhitos rurais e quelhos enlameados, ajudávamos os adultos a semear e a colher nas leiras ao pé dos tanques, entrávamos nas grutas formadas por grandes penedias pré-históricas e argila ocre, saltitávamos nos lameiros sobre alpondras, trepávamos aos montes para nos abastecermos de cascas de eucalipto, et coeteraet coeteraet coetera. A terra estava-nos nas unhas sujas, nas grandes joelheiras barrentas sobre as calças de fazenda, na mochila imunda a pegajar de resina, nos brinquedos que manuseávamos sobre montanhas de salão e areia (era uma época de casas em construção), nas folhas esquálidas do caderno escolar (que com ódio levávamos escrevíamos, entre cinco partidas do jogo do galo), no rosto saudável e repleto de escoriações. A terra fazia parte de nós, estava-nos na alma!

A infância era, sobretudo e em suma, um modo de acontecer. E acontecia, sobretudo, no Natal!

Emociona-me, confesso, pensar nos esplendorosos natais da infância. Nesses ainda a salvo do frémito das luzes, das filas para os centros comerciais, dos cartões de crédito, do cínico vazio das montras cheias, do amor barulhento, sujo e devastador dos presentes espampanantes e compensadores que hoje se oferecem.

Na infância, o Natal era o musgo fresco, limpo e piedoso do presépio. Era o pinheiro alumiado por gastas fitas coloridas, quase sagradas. Era a confissão a que nos obrigava a catequese, o arrependimento sincero das luminosas culpas que rezávamos no ato de contrição, de joelhos, diante do sacrário com a velinha acesa, a quem dirigíamos a súplica de que o Menino Jesus relevasse as nossas fraquezas e nos deixasse uma lembrança no sapatinho (podia ser uma pijama, um par de chinelos, uns sapatos, ou m par de luvas, quem sabe um casaco novo, quente, que envaidecesse a manhã do dia 25 de mistura com as fantasias e o maço de cigarros de chocolate no bolso). E ficava a promessa, a pungida promessa, de ajudarmos em casa a descascar as batatas na Consoada, a desvestir as odiosas cebolas, a quadricular o alho, a vigiar o bacalhau empilhado e de molho no latão da Castrol. 

O Natal era esse vislumbre do feerismo que nos vinha dos criativos anúncios da televisão em formato de animação (propagandeando lotarias, bombocas e camisolas térmicas), essa magia que nos chegava dos livros com ilustrações e edificantes histórias (sobre casas onde ardiam maravilhosas lareiras acolhedoras, acerca de arcas onde luzia um ouro reparador, a propósito de mesas que rescendiam a peru assado, umas e outras – todas – com finais felizes, recolhendo meninos desvalidos e idosos solitários, mulheres doentes e artistas miseráveis à beira do suicídio). O Natal iluminava-nos por dentro, em silêncio, perenemente, ao modo de um conto de Dickens. 

O Natal era ainda parco, belo e veemente!

E talvez isto me diga que envelheci.

Julgo que envelhecemos quando compreendemos que esse reino poderoso nos escapa, nos morre, nos não aceita de volta. Quando nos damos conta (com espanto e dor) que algures na viagem perdemos contacto com a terra, com os cheiros das plantas, com os lugarejos entretanto desfigurados, com os campos que deram lugar a bairros e loteamentos manhosos, que perdemos contacto com os pinhais abatidos (hoje fábricas, armazéns e oficinas), que perdemos contacto com os velhos desdentados (cujo nome e uma vaga fotografia oxidam em lápides), que perdemos contacto com os objetos e profissões que de um instante para o outro se tornaram obsoletos e inúteis, que perdemos contacto com os costumes que nos passaram a merecer reprovação e horror, que perdemos contacto com a inocência que nos despatriou, com o Natal que não reconhecemos e que nos não reconhece mais…

O lugar mais belo do mundo é, sem dúvida, a infância. 

Daqui a cinquenta anos, alguém escreverá o mesmo (com nostalgia atroz) sobre este tempo de agora num tempo porventura irreconhecível, paupérrimo, robótico, numa era holocientífica de nanogadgets, tecnocidades, ciberfamílias, microssentimentos, inumanidade.

Nessa altura (espero) ter-me-á sido reservado o derradeiro descanso, orgânico e natural, recordado discretamente no mesmo retrato oval que agora me comove. E talvez outros se comovam comigo. Será bom sinal, diga-se. Nem tudo estará, então, perdido!

ESTAMOS QUASE, FILHO!

family day
Foto: Samanta

Daqui tenho da cidade uma visão ótima: ao mesmo observo-lhe os céus, as torres das igrejas, os telhados, as águas-furtadas, as luzes de conjunto (as que emanam das lâmpadas dos semáforos e das montras, dos campanários e dos holofotes dos grandes edifícios do Estado, dos faróis dos carros e dos postes elétricos); e observo-lhe os becos, a pacatez de uma ou duas travessas mais próximas e mais escondidas, a escuridão que cai sobre o pavimento e sobre as acácias, os lanços de escadas que compõem os labirintos (como num desenho de Escher) e por onde sobem e descem, assim sucede agora mesmo, mães com filhos ao colo.

Os meus olhos voam para esta ternura. No empedrado ecoam as solas de uns botins e a mulher de sobretudo preto que os calça aperta mais o cobertor que envolve a sua criança.

– Estamos quase a chegar, filho!

Novembro está prestes a terminar e é este vapor. Mal o sol se põe, ele cresce dos canaletes e avança até à soleira das portas, engolindo os gatos e os tapetes de rua, fazendo mais misteriosa a aparência das esquinas seguinte e anterior, tornando extraordinário o gesto de rodar a chave na ranhura e de entrar em casa.

– Já estamos, filho! Já cá estamos!

Daqui é-me mais saudosa a alegria das horas nos sinos. Tocam as Trindades, repenica-se o som, que começa a lembrar o Natal. No colo da mãe, a criança aconchegada, protegida, acalentada, vê e escuta e sente a mutação destes dias de quase inverno que o são já. Ainda há instantes o fascinavam o efeito de neve nos vidro da loja de brinquedos, o vivo das cores misturadas nas butiques e retrosarias (dourados e vermelhos, o azul de um estrela no cocuruto de um pinheiro, os prateados e alaranjados e verdes, as fitas e laços e pais natais e presépios que surgem nos recantos), os néones nos mercadinhos de bacalhau e nas pastelarias. Tudo mais belo, porque contrastante com o húmido dos passeios e o bafo esforçado das bocas silenciosas.

– O Menino Jesus está quase a nascer, sabes?

Há, apesar da soturnidade do frio, algo que faz encontrar os transeuntes consigo mesmos. A criança, bem embrulhada, gosta desta sensação que principia a reconhecer, mesmo não a compreendendo.

– E ele vai trazer-te uma prendinha!

Se não estivesse tão rouco, se não lhe doesse tanto a garganta, se lhe não soubesse tão bem esse cómodo abraço da mãe, esse silêncio entrecortado por frases repletas de feerismo, talvez lhe perguntasse «O quê?», «O que me vai trazer o Menino Jesus?». Mas hoje só lhe apetece chegar a casa, sair do espaço fumegante e gélido onde os passos da mãe soam expostos e desamparados. Hoje só quer encontrar as boas paredes de sua casa, dentro das quais se sentirá seguro e segura a mulher que o trouxe ao mundo.

É tarde. Novembro está no fim. Daqui vê-se tudo. As imagens surgem duplicadas, como num filme, como numa história que corresse somente nas retinas próprias. Tenho, por isso, de guardá-lo para mim. Nem podia ser de outro modo!