O ACORDEONISTA

Viktor Cherkasov, acordeonista
Fotografia de Viktor Cherkasov

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Depois da guerra, regressou a casa. A História conta-nos muito acerca dos maus regressos, desses que a literatura (desde Agamémnon) sabe escorripichar e que a psiquiatria aproveita cada vez melhor. Regressou sem um tostão, sem uma cicatriz visível, sem uma memória acolhedora, sabendo já – no momento em que desceu o derradeiro passo do portaló maldito – que a namorada o havia substituído.

Gusmán era bom rapaz, com a sorte dos bons rapazes: passaram meses até que assentasse, anos até que descobrisse uma vocação, décadas até ser capaz de pronunciar o nome da grande puta. Quando o fez, a fama de acordeonista rivalizava com a de ladrãozeco e ambas com a de bêbedo.

Como conseguia ele equilibrar-se nos três apodos era coisa que não espantava.

Talvez fazendo intervalos. Talvez caindo nas três desgraças como se cai por umas escadas com gosto, masoquistamente. Talvez segurando a alma nas artes de tocar, furtar e beber como se segura num tripé uma panela de ferro, sem amor, e apenas por necessidade absoluta de manter-se de pé de alguma forma.

Uma noite, no botequim onde o encontravam invariavelmente a guarda, as amantes e os guapos de Buenos Aires ouviram-no tocar maravilhosa, impecável, imaculadamente entre outras o Oblivion e o Adiós Toniño. Dir-se-ia que o próprio Astor Piazzolla teclava ali os botões e agitava os foles, a música saía bela e visceral do salão, cheia de um sentimento que o lustre e os vidros e os cristais fazer repercutir, como se todos, os rostos, objetos, as lâminas embainhadas esperassem ainda um pouco mais e depois mais nada.

Encontraram-no morto a meio da manhã, apunhalado, com um sorriso subtil nascido no jogo de contorção dos lábios.

Também isso não era coisa de espantar.

«APRESENTAÇÃO DE EUTRAPELIA DE JOÃO RICARDO LOPES», POR PAULA MORAIS

eutrapelia

«APRESENTAÇÃO DE EUTRAPELIA(1) DE JOÃO RICARDO LOPES», POR PAULA MORAIS

Aquando da publicação de O Moscardo e outras histórias, tive oportunidade de referir que João Ricardo Lopes é a simbiose entre o poeta e o professor, fazendo lembrar outro grande mestre da poesia, também ele professor: António Gedeão. Ambos desenvolveram essa capacidade de viver num mundo intermédio, entre o onírico e a realidade, o mundo “sensível e o inteligível” – como designou Platão (2) ao mundo a que chamamos real e ao das ideias, equivalente ao céu em termos religiosos -, de trazer para a poesia as pequenas coisas do quotidiano e, a partir delas, buscar a eterna resiliência humana e aceitar que tudo (alegria/dor, felicidade/infelicidade, vida/morte, entre outros) é a vida e ela é feita de sonhos, de outras formas de captar o real.

Outro grande poeta, Eugénio de Andrade, no poema “Matéria Solar”, efetua uma breve reflexão sobre o seu material de escrita – as palavras – inquirindo um interlocutor virtual sobre “Que fizeste das palavras?”, “Que lhes dirás, quando/te perguntarem pelas minúsculas/sementes que te confiaram?” (3). É, precisamente, para fazer germinar essas sementes (frágeis, preciosas e, por vezes, efémeras) que os poetas as entretecem com a página em branco (em formato físico ou digital) de forma a interpretarem o mundo, o ser humano, o real observado ou imaginado, muito embora sempre de uma perspetiva pessoal. Como salienta Rudolf Arnheim: «The human mind receives, shapes, and interprets its image of the outer world with all its conscious and unconscious powers» (4).

O mais recente livro de poesia de João Ricardo Lopes é um ótimo exemplo desse processo de rememoração da vida, do mundo, convertido em palavras partilhadas com o leitor, dessa necessidade de prestar contas a um credor mudo, mas sempre presente: as palavras. Por isso, em “A vida das palavras” (5), um dos poemas que faz parte de Eutrapelia, efetua-se um pequeno périplo por um conjunto de palavras “esquecidas”, mas “tão sonoras ainda” para concluir que “as palavras nascem, vivem e morrem”; no entanto, o sujeito poético constata também que elas ressurgem de forma inusitada, daí o poema finalizar com a interrogação retórica “quem diria que ressuscitam?”

Assim, ao longo de cinquenta poemas, o leitor é convidado a acompanhar as palavras numa viagem pluridimensional: misto de sensações – ora visuais, ora auditivas, ora táteis, ora olfativas – e de memórias intelectualizadas de situações, espaços, músicas, objetos artísticos e pessoas; num regresso ao universo da infância, ao contacto com a terra e os antepassados numa espécie de reviver pueril e incrédulo do Eu, numa tentativa de resgatar as coisas simples e aparentemente negligenciáveis do esquecimento. Esse olhar as coisas com a visão da criança acabada de descobrir o esplendor, positivo ou negativo do mundo (à semelhança de Alberto Caeiro), é desde logo destacado nas duas epígrafes com que inicia a obra: uma de Emily Dickinson, a outra de Jacques Prévert.

Em ambas, o elemento comum é o pássaro, esse animal que partilha terra e ar, que esmorece se aprisionado; visto, em algumas culturas, como um emissário dos deuses, noutras como a voz do infortúnio, do amor infeliz, da ânsia pela liberdade. No caso da primeira epígrafe, realça-se o seu papel simbólico, ele representa a imaginação, a liberdade, a ausência de fronteiras, o sonho e, em última instância, a própria poesia. No segundo, o Eu deseja não parar de cantar para que os pássaros o conduzam até climas mais luminosos (“Yellower climes”) e associa esse ser volátil ao coração da criança. São, precisamente, esses alguns dos tópoi (já explorados noutras obras do autor) que subjazem à construção dos poemas de Eutrapelia: a luz e o seu impacto (“aquilo de que mais gosto/é desta luz”, “e então subitamente o sol”, “abafadores do sol”, “a luz cai mais justa”, “a luz periclitante”, “iluminados pelo assombro/dessa luz”, “interior da própria luz”, “relâmpagos” e “trovões”, “vestir um poema com sol”, “a luz límpida de Creta”, “a luz do sol”, “lâmpadas”, “sol a pique”, “a frontalidade da luz”, “o sol escorre aí”, “luz acesa”, “interior da luz”, “clareiras de luz”, “luz madura de cereal”, “luz limpa e cálida de junho”, “a luz caía”), o maravilhamento com o mundo e o colorido das flores (veja-se, por exemplo, “Allegro”, “Solstício em Creta, palácio de Cnossos”, “Tremezzo”, “Rosas vermelhas, agapantos azuis”, “Gerberas”), a persistência da concretude e da acidez de algumas vivências simbolizadas na “pedra” (“voam como pedradas”, “pedra imprecisa”, “pedra talhada”/“rocha”, “pedras”, “o branco das pedras”, “degraus de granito”, “a pedra que no poço cai”, “pedras do lagar”, “coração da pedra”), o mundo da infância associado à casa e aos avós (“O cheiro da terra”, “Noutro tempo”, “O outono acena mais perto”, “Sabão Marselha”, “Casa dos avós”), a importância da arte na construção da visão de mundo do Eu (“Sevilha, inverno de 93”, “Carnaval e quaresma, segundo Bruegel”, “Duomo, Milão”, “Pavana, Ravel”, “Natural History Museum, Londres”, “Tomas Tranströmer”, entre outros).

O primeiro poema da obra surge como uma espécie de metatexto, de texto programático, em que se explora o fazer poético do autor, a forma como ideais e palavras se vão concatenar para erigir um universo poético ao qual o autor regressa ao fim de quase uma década. Nele destacam-se os elementos fulcrais da sua visão de mundo, elencam-se os itens de que mais gosta e que perpassarão todos os poemas: “a luz”, “a voz”, a “fúria do vento”, a “memória”, as pequenas tarefas de um quotidiano longínquo e pueril (“os antigos sábados/em que esfregávamos o soalho da casa”) e a consciência da plenitude, da harmonia, da inclusão num todo de que se é uma parte: “éramos servos humildes/de uma causa maior/e nos sentíamos tranquilos/e asseados” (6). Já o último, “Prodígios”, permite encerrar essa viagem pelo universo das sensações, da simbiose entre natureza e ser humano, pelo campo das possibilidades (como a tripla repetição da expressão “é possível” deixa bem evidente). Numa sucessão de metáforas visuais (o vento a ser arado, decomposto em diversos elementos do planeta Terra; a lágrima constituída pela “subtil viração de certas tardes de inverno”, por exemplo), no apelo a diversas sensações (a audição – “ouvir o coração das pedras palpitar” -, a visão – “conhecer o mundo no desenho confuso dos dedos” -, a tátil/visual – “acordar para o fogo” -, a tátil/auditiva – “dormir sobre as águas”), na alternância contínua entre o presente e o passado, o leitor descobre um “mundo subitamente interrompido”, um prodígio, mas plenamente amado pelo “avô”.

A mediar um e outro, aparecem os restantes poemas, o material palpável da construção do universo poético do livro, aquele que correspondeu à captação da informação através dos sentidos, a sua intelectualização e posterior transformação em nova informação, isto é, visão do mundo (7).

Visão transfiguradora, à semelhança de Cesário Verde, dos surrealistas; união entre musicalidade e símbolo como Camilo Pessanha, num trazer para a poesia os efeitos cinematográficos da dança entre os quatro elementos primordiais (água, ar, fogo e terra) bem evidente em “Trovoada”; na captação desse fenómeno natural como uma espécie de dança luminosa, ao som de uma orquestra dominada pela percussão e pelo piano, conduzidos pela batuta da chuva, numa brincadeira luminosa encabeçada pelos relâmpagos que permitirá salvar o “nós” no momento derradeiro, evidenciado pela tripla repetição de “ao menos isso”.

ao menos isso,
ao menos isso,
os relâmpagos chafurdando
no espaço,
alegrando a noite,
os trovões percutindo
nos gonzos das portas,
o cheiro da terra seca
que os dedos da chuva
levantam.
ao menos isso,
saber algo acordado
em nós e para nós,
como um vibrato ao piano
que alguém toca
a horas tardias,
mesmo a tempo de nos salvar. (8)

Eutrapelia, mais do que um brincar ameno com as palavras e as situações, um procurar ridicularizar sorrateiramente determinados comportamentos/situações, é uma reflexão subtil, límpida e frágil sobre a forma como o Eu se constrói/reconstrói a partir da memória e da recuperação do olhar inocente e ingénuo da criança que um dia foi. É a procura de um sujeito pensante uno e coerente, feito da diversidade das sensações, das memórias e das aprendizagens (daí a referência à música e ao cinema – “Concerto de Aranjuez”, “Coltrane”, “Pérotin”, “Eleni Karaindrou”, “Cine Paradiso, Giuseppe Tornatore, Enio Morricone”) – aos museus e às obras de arte (“Caravaggio”, “Bosch”, “Duomo”, “Rijksmuseum”, “Rothko”), aos escritores nomeados ou detetáveis a partir de certos versos (“Anna Akhmátova”, Sophia de Mello Breyner e o poema “Ressurgiremos”, “Saramago”, Shakespeare e o “Falstaff”, “Hesíodo”), dos diálogos estabelecidos com um Tu interior ao poema ou um Vós (símbolo do leitor) que conduz à criação de um universo poético onde vida e morte são encarados como dois lados inseparáveis de uma mesma realidade, onde a fragilidade das coisas simples é evidente pela sua não valorização ou perda de memória. Fernando Catroga considera que “recordar é em si mesmo um ato de alteridade. Ninguém se recorda exclusivamente de si mesmo, e a exigência de fidelidade, que é inerente à recordação, incita ao testemunho do outro” (9). João Ricardo Lopes enfatiza, no poema que dá nome ao livro, “Eutrapelia”, que são as recordações dos pequenos-nada do quotidiano que permitem à humanidade superar a dor e o desalento.

Eutrapelia

quando os dias forem
demasiado pesados, repetitivos, atrozes,
talvez possas recordar-te
do magnífico jarro amarelo
que renasce todos os anos
no quinhão mais sombrio do quintal,
ou das palavras sábias de Epicuro,
ou das palavras santas de Agostinho,
e amar a beleza de outro modo,
ou conhecê-la para além
das formas, das cores, do senso-comum,
medindo-a não já pela intensidade
e espalhafato,
mas pelo bem que te faz. (10)

A valorização do quotidiano perpassa grande parte dos poemas, razão pela qual em “Arte de furtar” a reflexão sobre o objetivo do furto recai não sobre aspetos materiais e sim sobre o “lugar que nos serve de refúgio”, constituído das “pequenas dádivas” da existência.

o que furtaríamos nós se pudéssemos,
se acaso nos fosse concedido o dom da invisibilidade
e o poder de atravessar com o roubo
as paredes mais impenetráveis?

que espécie de ouro poderia sobrepor-se ao mel,
às pequenas dádivas que colhemos nos dias comuns,
ao lugar que nos serve de refúgio
quando em volta as monstruosidades do tempo
tomaram posse do nosso chão?

qual poderia ser agora a arte de furtar,
a boa boca de que sairiam as sábias sentenças?

e o poema? em que bolso, leitor,
o levarás? (11)

Este poema funciona, deste modo, não só como um relembrar a importância das coisas simples da existência humana, as “pequenas dádivas” da “vida comum”, como as denomina o poeta, que rapidamente são roubadas pelas “monstruosidades do tempo” que “tomaram posse do nosso chão”, mas também como uma transferência de responsabilidade para o leitor, enfatizada pela sucessão de interrogações retóricas. Se Eugénio de Andrade interpelava o poeta sobre o uso que deu às palavras, João Ricardo Lopes questiona o leitor sobre “e o poema? em que bolso, leitor/o levarás?”. No entanto, a responsabilidade do autor enquanto construtor de mundos, agente ativo da cultura e da mudança de mentalidades não é esquecida. Por isso mesmo, em “Poiein”, o autor rememora os gregos e a forma como entendiam a poesia – ela deveria ser sempre a apologia da vida, da positividade e nunca dos conflitos, dos medos e das angústias -, contrapõe as palavras de Juan de la Cruz e destaca que a poesia é sempre (como se torna evidente em momentos históricos em que impera a mordaça e a censura (12)) uma arma, uma luz intensa, algo abrasivo e incómodo a confrontar o comum dos mortais e a instigá-lo a proceder à mudança.

vestir um poema com sol
é o que fazem os gregos desde o começo,
celebrar a vida
e nunca o dissídio de psyche e phren,
nunca o fantasma de Pátroclo
que confessa a Aquiles
a tortura do silêncio

o poema é para eles
uma coisa veemente, pulsante, viva,
incapaz de soçobrar no tempo
ou de ser vencida
pelo pó

às palavras de um poema
chamará Juan de la Cruz séculos mais tarde
lâmpadas de fogo entre as cavernas profundas
do sentido

concordamos, em suma, neste ponto –
nada queima como a poesia quando queima (13)

Porto, 13 de novembro de 2021,
Paula Fernanda da Silva Morais

Notas:

1. LOPES, João Ricardo – Eutrapelia, Fafe: Labirinto, 2021.

2. PLATÃO – A República (intr., trad. e notas de Maria Helena da Rocha Pereira), 7.ª ed., Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, 1993.

3. ANDRADE, Eugénio de – “Matéria Solar” (1980) in Poesia, Porto: Fundação Eugénio de Andrade, 2000, pág. 328.

4. ARNHEIM, Rudolf – Art and Visual Perception – A psychologiy of the creative eye (The new version), Berkeley and Los Angeles: University of California Press, 1974, pág. 461.

5. LOPES, João Ricardo – Op. Cit., pág. 39.

6. LOPES, João Ricardo – Op. Cit., pág. 9.

7. Arnheim esclarece que o ser humano constrói a imagem do mundo «(…)absorbing information through senses and processing and transforming it internelly» (ARNHEIM, Rudolf – Art and Visual Perception – A psychologiy of the creative eye (The new version), Berkeley and Los Angeles: University of California Press, 1974, pág. 411).

8. LOPES, João Ricardo – Op. Cit., pág. 18.

9. CATROGA, Fernando – “Memória e História” in PESAVENTO, Sandra Jatahy (org.), Fronteiras do Milênio, Porto Alegre, RS: UFRGS, 2001, pág. 45.

10. LOPES, João Ricardo – Op. Cit., pág. 27

11. LOPES, João Ricardo – Op. Cit., pág. 42.

12. FANHA, José (org. e apresentação) – De Palavra Em Punho – Antologia Poética da Resistência. De Fernando Pessoa ao 25 de Abril, Porto: Campo de Letras, 2004, pág. 10: “Foi um tempo [o do Estado Novo] em que reinou a mordaça mais do que o silêncio e em que toda a palavra era mais perigosa do que pólvora. Por isso mesmo esse tempo encontrou na poesia o seu incêndio mais urgente. Era preciso levantar alto a palavra. Usá-la como rastilho. Viver de palavra em punho.”

13. LOPES, João Ricardo – Op. Cit., 21.

APRESENTAÇÃO DE EUTRAPELIA NA FLÂNEUR (PORTO)

Teve lugar, ontem à tarde, a apresentação do meu último livro na Livraria Flâneur, no Porto. Senti uma grande alegria por ter reencontrado velhos amigos e por ter podido conhecer novos amigos. Se a poesia for azo para que as pessoas se conheçam e convirjam num olhar diferente sobre o mundo, então valerá ainda mais a pena. Literalmente.

A conversa em torno de Eutrapelia contou com uma recensão notável de Paula Morais, professora e amiga a quem agradeço sobremaneira o cuidado, a gentileza, o carinho enorme, tidos com os 50 poemas do livro, que visitou com acuidade, amplitude e sensibilidade exemplares. Senti-me verdadeiramente privilegiado. Muito obrigado, Paula!

No outro lado da mesa, em representação da editora Labirinto, a poeta e tradutora Sara F. Costa, que pude finalmente conhecer, emprestou a sua visão analítica e poética subtileza à leitura de Eutrapelia, transformando o espaço num momento de diálogo que muito me tocou. Também a ela quero muito agradecer, porque o que dois poetas veem juntos é uma dádiva inestimável.

A todas e todos os que estiveram na Flâneur, sem exceção (família, amigos, colegas), estendo o meu agradecimento, que não é senão o meu modo de dizer (citando Camilo Pessanha) “Que a jornada é maior indo sozinho”: acompanhado por todos, senti-me acalentado, em casa, feliz! Não pode ser maior a satisfação de um autor do que essa, a de ser lido, compreendido, (citando agora Joan Margarit) “culminado”!

CIÚME

Fotografia de Assaf Lazar

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Enciumada pelo sucesso de uma sua vizinha, no que à sedução de certo homem dizia respeito, uma jovem rapariga de Teerão denuncia-a às autoridades religiosas. Em breve, tem o caminho desimpedido, o homem nos braços, o futuro todo à sua frente. Casam, têm um primeiro filho, fazem obras em casa, os anos passam, têm o segundo filho.

Uma tarde, quando os telhados principiavam a desmaiar na poalha do outono, a mulher encontra o marido de costas, em pé, com um envelope nas mãos, segurando uma fotografia. Nela vê-se uma jovem mulher lendo uma carta. Uma carta que ele mesmo escreveu muitos anos antes. É precisamente essa carta a que lhe chegou agora no correio, muito dobrada, dentro de outra carta, como um bebé no interior do ventre materno. O homem chora. Uma mulher outrora amada explica-se, explica tudo.

Desde então o homem não volta a tocar na mulher. Passa a odiá-la. Usa o silêncio para a punir do crime. E das poucas vezes que lhe dirige a palavra, trata-a por Marjan.

Marjan é o nome da sua antiga paixão.

CONVITE

A Editora Labirinto, a Livraria Flâneur e o Autor convidam V. Ex.a para a sessão de apresentação da obra poética Eutrapelia de João Ricardo Lopes no próximo dia 13 de novembro (sábado), a partir das 16h30 no espaço da referida livraria (sita na Rua de Fernandes Costa 88, no Porto).

A apresentação do livro será conduzida pela professora Doutora Paula Morais.

Contamos com a sua presença.

O MOLEIRO DE SALZEDAS

Fotografia de Martin Rak

A chuva, depois do intenso tropel que protagonizou com o vento noite fora, retira-se para alguma parte onde a não vemos. Da sua passagem pela aldeia fica o enlameado dos caminhos, o ar miserável das árvores (mais ossudas e descabeladas do que nunca), fica a neblina sobre os outeiros e sobre a igreja, sobre as cercas, sobre a linha torcida do riacho, sobre os telhados tímidos das casas pequenas de pedra. Nelas, nos nichos, nas empenas, nas teias fabricadas pelos aranhiços, nos fios dos estendais observa-se o modo como a água abundante de fim de outubro pôde deixar uma marca maravilhosa: pequenas lágrimas teimando não cair, esperando o sol que às duas por três as acende a todas. Nenhuma criança esquece a imagem das gotas aguentando-se nas cordas, cheias de luz, sem medo dos olhos gigantes que as cativam.

Conhecemos num desses domingos lentos, véspera de feriado, o velho moleiro de Salzedas. Tinha tantos anos que deixou de saber contá-los, tantas histórias na cabeça que começou a misturá-las. Falava devagar, limpando muitas vezes o nariz comovido, espreitando a porta muitas vezes. Sabia o que dizia. Dizia que o Diabo lhe queria comprar as terras pelo preço de um palácio, mas que a ele não o enganavam. O justo justo, o seu a seu dono, nada de trafulhices. Não as queria vender, mas se as vendesse não era ao Diabo, e se lhas vendesse teria ele, o Diabo em forma de pessoa, de pagar muito menos, porque o receber a mais é caminho para o inferno.

Apesar desse ar de entulho nas coisas, sempre que assim chove, a aldeia gosta de limpar-se. O solo barrento volta a secar, endireitam-se as veredas, as janelas reabrem-se para purificar o cheiro que no interior das madeiras, dos tijolos, das almas se torna venenoso. A chuva é um modo de fazer ver melhor.

Como se chamava esse velho? Nenhum de nós o lembra já (como foi possível olvidá-lo?), se alguma vez o soubemos. Falava devagar, assoando-se com estridência, muitas vezes. O Diabo era no fundo bom, porque a bondadosa natureza dos seres não podia extinguir-se. Devíamos era procurar-lhe essa semente esquecida. O moleiro de Salzedas era de opinião que o Diabo podia ser repescado por Deus, houvesse forma de lhe obter o arrependimento. Como assim? Ele suspirava. Havia forma, havia forma…

Quando calçamos as botas e nos dispomos a ir, tudo regressa. O fontanário, as alminhas, os muros de granito e xisto, as cortes, o colmo empilhado, o cheiro atrevido da murta e do alecrim, da cidreira, do funcho, da hortelã, o cantar do açude, a antiquíssima azenha, os carreiros junto aos choupos. Tudo regressa aos poucos. Como fantasmas, os homens e mulheres que aqui viveram existem de novo, regressam às esquinas onde apalavram, riem ou simplesmente se despedem. Ânsias perdidas no tempo tornam-se subitamente vivas, digressionam como sonhos, doem fundo naquela parte de nós que é exatamente o ser nós.

Que o Diabo pudesse ser reconquistado era o propósito desse homem singular. Não lhe tinha medo, espreitava-o, esperava-o. Punha dois pratos na mesa, dois copos, dois pedaços de broa. No dia em que o acharam morto, com um sorriso serenando-lhe a boca, de ambos os pratos se tinham servido, bebido de ambos os copos, de ambos os nacos de pão sobrado migalhas.

A chuva, depois do intenso tropel da madrugada, é como uma conversa remota que se recorda. A aldeia é sobretudo isso, um manto verbal onde cada um descobre a sua ponta, o seu retorno, a sua dor protegida. As botas pisam-na a medo. É um território sensível. Nunca sabemos o que debaixo de nós quer nascer ou renascer. A chuva é um preparo. Depois dela vem o sol e o silêncio. Nenhuma criança esquece o adulto que assim a observa, sabe-se lá de que mundo. Não esquece.

OS POETAS POBRES

Gerard Sexton
Fotografia de Gerard Sexton

Os poetas pobres veem as coisas de um modo que significa alquimia. Tocam-nas e transformam-nas em ouro, ou devolvem-lhes o ouro que têm, mas que (coisas singelas que são, coisas do seu estatuto social, coisas que os olhos dos poetas ricos desprezam) passam por insignificância, tolice, apontamentos de pé rapado.

César Vallejo foi um poeta paupérrimo. Peruano de nascença, andou por este mundo fora colhendo as maçãs da sua miséria. Em Paris, os poetas ricos miravam-no com o mesmo espanto apavorado com que em Braga, nas esplanadas, os poetas ricos atingiam Sebastião Alba, outro mendigo. Há, também, poetas mendigos. Poetas que, literalmente, mendigam pão e, volta e meia, uma cachaça.

Yannis Gitsos, Yourgos Seferis, Paul Celan, Tonino Guerra sentiram a fome. Todos por causa da guerra (dos combates, das perseguições, da prisão). Allen Ginsberg e Charles Bukowski conheceram-na, igualmente, em virtude do alcoolismo, das drogas, do oposicionismo político exacerbado. O caso mais dramático, seguramente, o de Anna Akhmátova, a resistente russa que padeceu toda a série de agruras que o estalinismo pôde infligir. Antes dela, Czesław Miłosz conheceu as agruras do gueto de Varsóvia, que recorda no poema magnífico “Campo di Fiori”. Foram poetas pobres, um ou outro remediou-se, mas humildes sempre, irónicos quando possível, geniais cada um à sua maneira

Em Portugal, a história da poesia é a história da pobreza pura e dura. Cultivaram-na reis, nobres e aristocratas, mas sobretudo gente sem eira nem beira. Camões, Bocage, Gomes Leal, Pessoa foram poetas sem dinheiro. Sá-Carneiro foi um poeta rico, cujo suicídio teve provavelmente algo que ver com o spleen da capital francesa e com a condição anómala de ser filho de burguês abastado para quem os seus avanços literários nada significavam. Sophia foi aristocrata, mas conheceu os apertos financeiros que os opositores de Salazar sofriam quando ousavam perturbar as malhas do regime. Nem todos puderam ser Antónios Ferreiras, Diogos Bernardes, Sá-Mirandas. Nem todos puderam viver dos subsídios generosos de suas majestades ou podem viver dos prémios literários que as fundações, câmaras municipais e juntas de freguesia entregam amiúde. Ou do beneplácito das grandes editoras.

Por lá, como por cá, há uma imensidão de poetas a contar os cêntimos e a contemplar as coisas irremediavelmente belas que a natureza tem para oferecer, do mais lírico e humílimo que possa encontrar-se pelo caminho, enquanto se faz pela vida e se arranja um ganha-pão decente, sem privilégios ou cunhas partidárias, ganha-pão despido de toda a espécie de adorno e enliças políticas, sociais ou familiares. Ainda que estendendo a mão a quem passa, como esse célebre Ulisses Santiago que conheci no Porto (nos idos da Faculdade) a quem dei cem escudos a troco de um amontoado de versos escritos a tinta verde.

Os poetas pobres veem as coisas de um modo particular. Talvez não vejam o orvalho entre as rosas rubras e aveludadas do seu jardim, mas o orvalho poisado em grandes gotas (que lembram prata líquida) sobre a folha carnosa das couves e das alfaces. Ou talvez vejam de manhã cedo (caminhou o dia os primeiros metros no horizonte) o rasto iluminado dos aviões e se recordem do fio de baba dos caracóis e associem ambos num verso pobríssimo como “aviões segregando a sua baba translúcida”. Ou talvez assistam ao acender das fogueiras nos campos de uma qualquer terreola e se lembrem de outonos passados, evocando avós maravilhosos (com o podão à cinta e botas de vitela calçadas) que os levavam pela mão até ao lugar onde o trabalho os fixou para sempre, muito perto de uma azenha revolta, presa nas névoas e no som do açude, muito perto de uma coluna de fumo no interior da qual a lenha seca produz chamas vermelhoalaranjadas e uma memória pura de afeto. Talvez escutem, caminhando a pé, o som das escrevedeiras, o pio triste das gralhas, a algazarra das levandiscas e saibam com elas iniciar ou concluir uma homenagem à infância.

Ou talvez vivam na cidade e testemunhem o lento dobrar de esquina dos idosos desvalidos, solitários, deixados ao deus-dará, para quem um gesto de amor pode ainda valer tudo e significar que a vida longa não foi (não é) em vão. Talvez não lhes passe despercebida a indigência encapotada das famílias modernas, das que não alardeiam a sua situação e não buscam subsídios (das que trabalham todos os dias do mês e levam para casa salários de merda) e têm todas as contas para pagar. Os poetas pobres conhecem muitas histórias destas. Costumam sentar-se nos bancos de jardim, conviver com outros pobres, ler e ouvir-lhes as assombrosas existências de carne e osso. Talvez se deem conta (como deu Pablo Neruda nas minas de Antofagasta) do terrível mundo que fica para lá ou para cá do palco iluminado de todas as falsidades e estatísticas. Os poetas pobres veem a olho nu e talvez seja por isso que veem melhor, mais a direito, mais dentro, mais fundo.

Pessoalmente, sinceramente, verdadeiramente, não suporto a escrita dos poetas que não vejam as coisas que têm de ser vistas. Dos poetas que comunicam sem ideias, que se glosam a si mesmos, que multiplicam palavras. Dos poetas que cavam dentro da sua própria vaidade e expelem coisa nenhuma. Desses é o reino da Terra, quem sabe do outro reino também. Mas a mim não me apanham a louvaminhá-los. Não apanham!

AMÉLIA TARRUCA

Amélia Pereira (1936)
No seu casamento, em 1936

in memoriam

Minha avó Amélia nasceu há precisamente um século! Não é fácil encontrar palavras que descrevam esta mulher, essa matriarca cujos dias terminaram em grande sofrimento físico, desprovida de fala, paralisada e incapaz de alimentar-se. Expirou no preciso lugar onde escrevo estas palavras, o mesmo pequeno quarto que a viu atravessar um longo outono até perder-se no nevoeiro da cegueira, quem sabe rodeada pela memória dos seus mortos e das muitas imagens que aquilatou em vida.

Nas redondezas ficou conhecido como Mélia Tarruca, nome que ainda hoje perdura, associado a gratas recordações dos que a conheceram e lhe sobreviveram. Era desbocada, sim, capaz do palavrão intempestivo. Era enérgica e reativa, a ponto de comprar uma pistola de cerâmica (dizem que igualzinha a uma pistola de verdade) para ajustar contas na taberna com o marido adúltero. Era humana e sensível, de uma humanidade e sensibilidade genuínas, timbradas pela fome e pela miséria, por duas grandes guerras, pela necessidade de se sujeitar às agruras de um tempo em que nem os campos nem a indústria emergente eram garantias de sustento… Havia sempre um naco de broa, uma gabela de couves, meio caneco de feijão, meia dúzia de ovos, às vezes uma galinha para dar a quem precisasse. A míngua tornou equitativa e generosa a gente desta mesma aldeia onde lhe fizeram um funeral sem fim…

Se fosse viva, Amélia Pereira completaria hoje um século. Cem anos de agruras.

Não lhe conheci a adultez, só a velhice. As histórias que dela me chegavam na infância dificilmente podiam coincidir com a anciã acamada, incapaz já de articular palavra que se compreendesse. Minha mãe, que por ela velou até à morte, recebeu-a cá em casa devia eu ter seis ou sete anos. No princípio ainda caminhava um pouco, com a ajuda de uma bengala. Depois houve uma cadeira de rodas. O jornal da paróquia fotografou-a assim, como um bom exemplo cristão. Vieram duas meninas entrevistar, uma munida de caneta e caderno, outra com a máquina fotográfica. Recordo-me vagamente de tudo isto, que era para mim a distinção de classe, a vaidade de possuir uma avó famosa.

Com o tempo a saúde esfumou-se. Havia que pôr-lhe fralda. Eu ia comprá-las à farmácia. Eram sacos enormes, que não me custavam carregar, porque naquela época os miúdos eram todos homenzinhos e sofria-se de vergonha quando não se podia carregar pesos como um adulto. Minha mãe contou então com a ajuda de minha tia Conceição e ambas davam as voltas, como se dizia, à velhinha. Às vezes havia visitas. Com o tempo rarearam. Porque as pessoas deixaram de ter um motivo para vir. Porque a conversa era a bem dizer um monólogo. Minha avó respondia com monossílabos, revirando os olhos, de quando em quando deixando correr as lágrimas … Sei tudo isto porque espreitava por detrás da porta, à espera que as visitas trouxessem um cartucho com doces… Ou bananas. Incompreensivelmente as visitas traziam cachos de bananas e eu ficava fascinado com as visitas que as deixavam amarelejar em cima da cómoda e se despediam da minha avó como se faz a uma criança pequena, com inflexões de voz artificiais e claramente paternalistas.

Só compreendi exatamente quem foi esta mulher após a sua morte. Muita gente me contou sobre ela histórias preciosas, informando-me do seu caráter tenaz e frontal. Por exemplo, a história de quando descobriu a amizade do meu avô, seu marido, por certa mulher de índole incerta. Avisada por vizinhos, entrou de rompante na tasca onde os adúlteros confraternizavam com a escumalha do vinho e das cartas. Pediu que lhe enchessem o vasilhame do azeite e puxou da pistolita.

«Manelzinho, encha-me esta botelha de azeite, enquanto eu vou ali fazer duas mortes!».

A amante fugiu espavorida pela porta. Meu avô, espavorido também, lançou-se por uma janela alta, em direção às traseiras da taberna. Morreria sem saber onde a mulher tinha obtido a arma e onde a guardara. De caco, explicam-me, entre risos, E também esse pormenor ele ignorou até ao fim dos seus dias. Mas o bastante para acabar com as veleidades românticas fora do casamento!

Contam-me que, já com vários filhos pequenos, se deslocava a pé até Vizela, para trabalhar numa fábrica têxtil. Aí cuidava do mais novo, deixando a casa entregue à filha mais velha, pouco mais que uma criancinha. Trabalhava-se muito, ganhava-se pouco, desfazia-se a saúde nos teares e na violenta desagregação do mundo rural em que havia nascido a década de 30. Mas também aí se moldava a têmpera combativa e o arregaçar de mangas que tornou a família incapaz de aceitar que o céu lhe caia em cima sem ao menos ensaiar uma resposta.

Dos filhos que teve sobreviveram sete. Quatro raparigas e três rapazes (dois dos quais mobilizados para a Guerra do Ultramar: um chegando no dia em que o outro partia; o terceiro fugindo para França, a salto). Não se diga que enfrentou a triste sina de os enterrar, porque não aconteceu tal, felizmente. Meus tios regressaram todos, sãos e salvos. Ainda hoje são sete os filhos que sobrevivem, com suas mazelas, mas vivos e amigos uns dos outros. Quantas famílias não se podem gabar do mesmo?

Se fosse viva, minha avó Amélia talvez nos desse com a bengala e nos chamasse alguns nomes pouco simpáticos. Metia-nos na ordem. Era assim com as filhas, por exemplo.

Contam que amanheceu o dia em que determinado padre se aproximava pelo caminho rural, mesmo ao lado da casa velha. Vinha devagar, meditando o seu breviário e os seus pensamentos. O padre, ao que parece, não era boa rês. E o dia corria mal por causa de certo número de frangas que haviam escapado do galinheiro a andavam escarafunchando o cebolo. Minha avó praguejava alto e bom som contra as filhas negligentes. Fizeram-lhe notar a aproximação do clérigo.

«Eu quero que o padre vá para o caralho e vós também, minhas grandes putas!»

Assustado, o padre persignou-se; elas cobertas de vergonha refugiaram-se como puderam. Ficou a velha Tarruca sozinha na leira, de vassoura em riste, berrando e espalhando o terror entre as galinhas tresmalhadas.

É de longe o meu antepassado mais conhecido nas redondezas e, sem dúvida, o ascendente de que mais me orgulho.
Porque esta avó proverbial, que não tinha pejo em desdenhar de um mau padre (hipócrita, ao que parece), era capaz, em contrapartida, de mandar uma filha com um açafate cheio de víveres a casa de fulana, beltrana ou sicrana, a quem o marido dava porrada como milho mas não o dinheiro para se governar.

Sirvo-me das palavras dos outros, da memória dos outros, do regozijo dos outros para compreender a razão deste apreço pelo “politicamente incorreto” que me corre nas veias. Talvez o instinto para desprezar as inutilidades e me conservar num torrão afetivo, que há de ser sempre escasso, mas incorruptível!

Se fosse viva, Amélia Pereira, mãe, avó, criadora de filhos e de netos, faria hoje cem anos. Escrevo no preciso lugar onde expirou, às primeiras horas do dia 27 de setembro de 1994.

Como escritor e cronista da família, cabe-me conservar, pelo menos um pouco mais, este relicário de memórias e de o passar aos outros… Quando explico a algum velhote da terra a minha ascendência, o parentesco com a Mélia Tarruca, logo um amplo sorriso fraterno nos envolve aos dois, como a capa de Martinho.

«A sua avó era uma grande mulher», «A Tarruca era uma mulher muito direita!», «A sua avó matou muita fominha, Deus a tenha!»

Nasceu há cem anos, a 15 agosto de 1913.

“ABUSIVAMENTE”

Captura de ecrã 2021-09-18, às 13.16.01

Com perplexidade, com profunda desilusão, assisti ao debate entre os candidatos à Junta de Freguesia de Arões S. Romão na Fafe TV, decorrido na passada quarta-feira: durante uma hora vi um deserto de ideias, desorientado por uma miserável perceção do que é Arões S. Romão e, pior, condenando-a ao servilismo em relação à Câmara Municipal, que sempre trouxe à vila migalhas e não foi capaz, até hoje, de descentralizar nela um dos seus serviços ou de lhe reconhecer, de facto, o estatuto de vila.

Também não percebi se os candidatos têm orgulho em pertencer à vila, ou se pelo contrário lhe negam essa qualidade (tanto disseram que Arões S. Romão é uma grande terra, como a reduziram a uma freguesia subsidiária de Arões Santa Cristina). De resto, esclareçam: o que significa “Ir da Portela a Arões?” A Portela não é Arões?

Não gostei das hesitações. Menos ainda das insinuações. Detestei a falta de ideias concretas. Não chega dizer que se quer grandeza, desenvolvimento, recuperar tempo perdido. É preciso explicar como se vai conseguir tudo isso, sob pena de nos arriscarmos a transformar o mandato de 2021-2025 num fracasso igual ao que Cláudia Castro nos ofereceu nos últimos quatro anos.

O que se disse sobre reivindicar um maior orçamento? Nada!

Quem assistiu às assembleias de freguesia nos mandatos de 2009-2013 e 2013-2017 ouviu-me dizer, repetidamente, que precisamos de triplicar o valor anual vindo da Câmara.

Precisamos de mais funcionários no terreno (não no balcão de atendimento). O que se disse sobre o tema? Nada.

Precisamos de ligar os passeios da Portela às Teixeiras e entrar no miolo da freguesia. Precisamos de lombas e sinalética luminosa nas passadeiras. Precisamos de alargar estradas (urge fazê-lo em relação ao Nó). Qual dos candidatos tocou no assunto? Nenhum.

Precisamos de retomar as iniciativas culturais, abandonadas escandalosa e vergonhosamente por Cláudia Castro. Teatro, cinema, espetáculos musicais, feiras temáticas, literatura. Quem se prontificou a defender esta importante faceta da cidadania? Ninguém.

Assisti ao debate sem entusiasmo de espécie alguma. Lá voltou a quimera do Pavilhão Gimnodesportivo, a pouquidão do “parque da vila”, a ideia (aliás urgente) de um segundo terminal de multibanco. Lá se trouxe à colação a bizarria da sede da Junta (que não pertence à Junta), mas não se partilhou qualquer intenção de se construir uma nova sede de raiz. Não se disse uma palavra sobre o descuidado estado da Igreja Românica (esse tesouro tão maltratado, tão ignorado, tão vilmente esquecido pela Autarquia).

E, por fim, o “abusivamente”.

Explico:

Carlos Rui Abreu introduzia a questão dos “limites de freguesia” e deu a Joel Fernandes o ensejo de brilhar. Explicava que o tema foi alvo de crítica acesa por parte dos socialistas aronenses, indignados com o colega de Arões Santa Cristina. Joel Fernandes apressou-se a corrigir que houve “um texto a circular por aí”. O jornalista lembrou que “escrito e publicado num espaço de socialistas aronenses”. Joel Fernandes defendeu-se que “abusivamente”.

Eu e o engenheiro Joel Fernandes fomos colegas de Executivo de Junta durante 10 anos (2007-2017). Com toda a honestidade, considero-o um técnico excelente, capaz e criativo. Porém, separa-nos um mar de diferenças no que toca à coragem política.

Nunca estive preso a nada e ninguém. Escrevo e penso agora como pensei e escrevi sempre: com liberdade e sem mordaças, grilhetas ou cordas. Não preciso de pedir licença a chefes ou chefinhos, nem de garantir o “politicamente correto” para parecer bem e manter relações cordiais com quem quer que seja. Por isso, aquele “abusivamente” afastou-me ainda mais do ex-colega de Junta, a quem (repito) reconheço grandes qualidades, mas não a da coragem política.

A questão dos limites de freguesia é complexa. Não chega dizer, como o afirmou o candidato do PSD, que “vamos recuperar o que é nosso”. É preciso muito mais do que isso. Enquanto Secretário de Junta trabalhei incansavelmente pela correção do gravíssimo erro cometido pelo Instituto Geográfico Português (IGP), que sonegou parcelas imensas de território a Arões S. Romão: se algum dos candidatos à Junta leu já o relatório dos Censos 2021 terá reparado neste espantoso facto: Arões São Romão aumentou em apenas 9 os seus habitantes no período de 2011-2021! Eis a prova do roubo!

A questão dos limites de freguesia levou-me a escrever e a publicar no blogue “PS Arões”, no passado dia 9 de abril um texto, que aparentemente ganhou asas e mereceu o repúdio de toda a gente civilizada de Fafe. As pessoas civilizadas de Fafe, nomeadamente as que lideram o Partido Socialista, não gostaram que se protestasse contra um roubo. Aconselharam inclusive a que me calasse! Não é bonito que digamos verdades, que nos queixemos e que ponhamos em causa o bom nome dos impecáveis autarcas que tomam como seu o que não lhe pertencem!

Aparentemente o lugar da publicação – um blogue que eu criei, administrei e usei em prol do partido, nomeadamente na campanha autárquica de há quatro anos (quando era socialista e concorria contra pessoas que na época não eram socialistas, mas que hoje são socialistas) – tornou-me um abusador.

Quando Carlos Rui Abreu introduziu o tema, Joel Fernandes poderia ter dito simplesmente “O texto tem uma assinatura, deve perguntar à pessoa que o assinou o que quis dizer com o que escreveu”. Ou poderia, como o fez em relação a várias questões feitas sobre a incompetente equipa de Cláudia Castro (candidata que Joel Fernandes mal disfarçadamente apoiou em 2017 e de cuja lista recebe pelo menos o Tesoureiro Óscar Samuel Costa e várias outras figuras), ter dito “Não me sinto capaz de responder”.

Mas não. Joel Fernandes, desconsiderando o mérito do texto, que o teve, demarcou-se. E ao tê-lo feito provou ser um “candidato do sistema, conivente com as chefias partidárias, para quem os assuntos delicados se resolvem com uma vassoura. Em setembro de 2017 (no auge da campanha eleitoral), o mesmo engenheiro Joel Fernandes mostrou deslealdade comigo, quando fez publicar um boletim de Junta onde compilou e atribuiu ao mérito exclusivo de Cláudia Castro o que não lhe cabia em sorte ou direito. Foi um favor à amiga, contra o colega.

Esta agora foi, portanto, a segunda vez.

Terei de explicar que “abusador” é, antes de mais o aparelho partidário que se serve das pessoas e, depois de servido, as cospe como pevides.

Publiquei um texto com a legitimidade que me conferia o ter participado numa lista partidária do Partido Socialista e ter trabalhado (forte e feio) numa campanha eleitoral de que não ouvi até hoje (das cúpulas) um único obrigado.

“Abusivamente” é sem dúvida o advérbio que Joel Fernandes e a sua equipa deveriam usar para se referirem ao facto de (apenas quatro anos volvidos) terem despido à pressa as camisolas do Fafe Sempre e terem vestido as do Partido Socialista. Não reconheço ao Sr. engenheiro, nem a ninguém da sua equipa, qualquer estatuto ou poder identitário especial no tocante ao socialismo.

Eu sou socialista, escrevo onde, quando e como quero, E isso basta-me.

A GRANDE NOSTALGIA

Anne Rose Pretorius
Foto: Anne Rose Pretorius

De algum lugar obscuro da minha memória vêm-me chegando por estes últimos dias saudades da antiga Escola Montelongo, onde frequentei o 5.º e 6.º anos, o Ciclo, como então lhe chamávamos, escola nos arrabaldes da cidade, pobre, sem cantina, sem ginásio, com uma escadaria larga que nos levava da cave ao piso superior por entre corredores mal iluminados, onde se abriam as portas das pequenas salas (a sala 1 e a sala 6 eram minúsculas) e onde o grande tesouro não se chamava “campo de jogos” (um baldio irregular, com duas balizas ferrugentas e mal equilibradas, hoje sede da Guarda Nacional Republicana), mas a biblioteca.

A biblioteca era fria, silenciosa, no remanso do rés-do-chão. Do lado de fora das suas janelas gradeadas crescia um silvado no meio de um cemitério de mesas e cadeiras partidas. Tinha três filas de mesas alinhadas e uma D. Lurdes maldisposta ao comando, sempre com o aquecedor ligado, sempre com a mão pronta para um tabefe profilático, sempre com os olhos vigilantes e maus correndo por cima dos óculos e a avisar.

– Quero tudo no sítio!

Era aqui que nos conduzia duas a três vezes por período o professor Miguel Monteiro, o mais extraordinário mestre que encontrei nesse tempo, para podermos desfrutar da leitura silenciosa, do livro que bem entendêssemos, da estante que mais quiséssemos. Só então os fechados armários se abriam. Só então, quando as lâmpadas fluorescentes brancas se acendiam todas, se podia olhar melhor e mais fundo a floresta de lombadas e se extraía das estantes repletas algo como A ilha do tesouro, As aventuras de Tom Sawyer, As viagens de Gulliver, A menina dos fósforos, O príncipe feliz, O rapaz de bronze, Como se faz cor-de-laranja, Histórias de um bichinho qualquer, tantos outros… A rancorosa funcionária (obrigada a levantar-se e a abandonar a TV Guia) rodava a grande chave metálica, fazia silvar o nariz e punha os olhos de lado, como se os quisesse escorraçar das órbitas, seguríssima de que não ia ficar nada no sítio. Era um assombro, podíamos por fim colocar as mãos no cofre. Indiferente ao desagrado da senhora, o temerário professor continuou a levar-nos àquele canto umas quantas vezes por período, permitindo assim que nos déssemos conta de como aqueles livros cheiravam extraordinariamente a madeira envelhecida, do quanto as ilustrações são poderosas etiquetas mentais, da dolorosa separação de uma página quando nos devora a curiosidade e a campainha soa.

Este início de setembro tem-me feito recordar algumas alegrias esquecidas. Por exemplo, o facto de andar nos autocarros da João Carlos Soares & Filhos L.da todos os dias (era preciso picar um passe com um número contado de viagens). Por exemplo, a mochila vermelha carregada com os manuais escolares novos (brilhantes, cheirosos, desafiadores, comprados na Papelaria Avenida do senhor Diamantino Pereira (conservo, ainda, os de Português desses anos distantes). Por exemplo, a satisfação de aprender uma língua estrangeira (no meu caso, o francês) e de poder decifrar os enigmas dos vulcões em Ciências, e de superar a paralisante confusão de xis e ípsilones em Matemática. Gostava de Estudos Sociais e de História, detestava a gramática (a morfologia e a sintaxe, em particular) e era um zero a Trabalhos Manuais, disciplina onde precisei de empregar uma grande dose de improviso, mentiras e promessas para me aguentar na positiva. Odiava Educação Musical, outra deceção da minha vida escolar, provada que ficou a minha completa imperícia em matéria de flautas, xilofones, tambores, leitura de pautas, interpretação de semicolcheias, escrita de claves de sol, cantoria.

Gostava de histórias. Gostava de espreitar a arrecadação, onde permaneciam cheios de humor (e de pó), os esqueletos humanos. Gostava de desenhar (embora me faltasse qualquer coisa de verdadeiramente artístico). Gostava de folhear os manuais e de por eles ver o mundo – as ilhas selvagens do Pacífico, repletas de cones expulsadores de lava; as belas cidades e comunas de França, com os seus vinhos e os seus queijos; os castelos e mosteiros de Portugal, especialmente os medievais (que já então sobremaneira me encantavam). Gostava de sair a correr para o Pavilhão Gimnodesportivo ou para as piscinas municipais, um e outras significando liberdade. Gostava de correr, de marcar golos, de saltar nos aparelhos, de nadar, de fugir ao trampolim e aos saltos mortais (que me trazem ainda hoje pesadelos).

Mas gostava, sobretudo, da sensação de início. Nesses dias de setembro, como nestes dias de setembro, comprados os novos materiais, organizada a capa (com os seus separadores de plástico colorido da Âmbar), preparado o estojo, o começo acarretava um misto de ansiedade e de esperança, de fé e de algum temor. Tudo dependeria (como depende hoje) das pessoas com quem nos iríamos cruzar. Se o professor Miguel foi um mestre, outros o foram também (a professora Germana Longo de Ciências da Natureza, a professor Clara de Educação Visual, a professora Ana Maria de Matemática, a bela professora Adília de Francês do 5.º ano). Outros o não foram, de tal modo nos oprimiam com o autoritarismo (jamais esquecerei o giz disparado por certa professora à testa de uma colega no fundo da sala), ou de tal forma nos desconcertavam com o seu laxismo.

Gostava nesses dias de começo de outono de pensar que um dia saberia educar os meus filhos com amor, rigor e uma boa coleção de livros. E que eles, tal como eu, amariam a quietude da sala de aula tocada pela boa luz matinal. E que eles, tal como eu, saberiam lidar com os erros e com os fracassos próprios, depurando pacientemente as suas virtudes.

Tenho os livros, não os filhos.

Não sei se o lamente, se apenas me satisfaça com o ensinar os outros. Com a expetativa, ainda assim, de que um dia algum dos meus alunos me recorde com a mesma nostalgia imensa com que falo destas coisas, e talvez me associe a uma ou a outra conquista obtida nas paredes da sua escola, a quem em jeito de balanço conceda a luz de uma dádiva, e não (como tantas vezes parece) a fama imerecida de uma prisão.