O ENTRUDO

 

M. D. Larson
Foto de arquivo pessoal

 

É uma tradição: todos os anos o velho lavrador empilha no meio de um campo lenha da poda, cascas de eucalipto, pequenos toros, ergue uma estaca de mimosa e nele prende um boneco feito de colmo e palha (com umas pantalonas de ganga e uma esfarrapada camisa aos quadrados, um boné ou um barrete enfiado na cabeça obclávea), a que dá o nome de Januário.

À noite a miudagem traz consigo a rapaziada e esta atrai as raparigas em idade de casar. Com estas vêm as mães, com as mães os pais, com todos os nostálgicos avós, para quem as tradições são sagradas e sem mácula (só os que as não têm trazem as imprestáveis tradições de fora) e com a multidão vem o vinho. Faz-se uma roda, canta-se, ri-se, chora-se em tom jocoso o boneco que às tantas fica em chamas. É a morte do inverno, o convite a que a primavera entre. O braseiro levanta-se tão alto e é tanta a algazarra que de ano para ano se alarga o círculo e o ruído alastra. Todos se divertem à custa do carnavalesco Januário, do Pai das Orelheiras, do Entrudo bisonho, em breve reduzido a cinzas, enquanto em volta a turba gira e canta.

O lavrador sente, então, um aperto. Em silêncio, compreende essa grande lei, essa necessidade de a natureza se limpar do velho para que o novo tome o seu lugar. No auge da folia, ninguém repara no como se avermelham os olhos cansados, e se o notam é do fumo, das brasas, do vinho. É fácil confundir!

O ALFARRABISTA

Andreas Agazzi
Foto: Andreas Agazzi

Entre o alfarrabista e o escritor cresceu com o tempo a amizade: um vende os livros que procura e coleciona, o outro coleciona os livros que compra e lê, um pela necessidade de viver, o outro pela necessidade de existir, ambos por amor aos escritos raros de outrora, de cuja sabedoria se alimentam uma boa pena e uma loja de alfarrábios.

Por exemplo, este Elucidário do frade Joaquim de Santa Rosa de Viterbo, espécie de antigo dicionário de que o escritor gostaria de servir-se para ficcionar um tempo anterior ao seu, começando e concluindo-o com as palavras que deveriam sair das mãos, da boca e do pensamento das suas personagens.

O alfarrabista soube da existência dos dois volumes, editio princeps, em excelente estado de conservação em Bojnice, uma cidadezinha a quatro horas de Bratislava (espantoso o caminho que as palavras tomam) e num lanço medido, com a cautela que a experiência e a devoção ensinam, arrematou-os. Pede agora uma fortuna por eles e a obra merece-a, tanta a qualidade que nela pôs o franciscano, tão longe a foi resgatar, tamanha a sorte de a ter encontrado, tanto o empenho e meticulosidade tidos no leilão, tão surpreendente o preservado aspeto das fragílimas páginas que, de luvas calçadas, folheia.

O escritor conhece bem estes degraus, este cheiro (de papel húmido, tabaco e óleos de lubrificar as muitas maquinetas que também aqui se exibem e às vezes transacionam), esta sensação de alegria pueril misturada com tristeza nostálgica, como antecipando nos seus livros futuros o destino dos velhos, este infindável cemitério de tomos, tombados uns (como manda a etimologia), outros de pé, às cavalitas uns dos outros, postergados, dispostos por toda a parte em pilhas bárbaras, amarelando, expostos à indignidade de uma morte certa e lenta. Enfim, salvar deste inferno todos os livros que o habitam é impossível, um ou outro isso sim, é como tirar a sombra de Virgílio do marasmo secular e fazê-la (dando-lhe uma segunda vida) subir a uma floresta para chamar um poeta tresmalhado e conduzi-lo à presença da mulher que amou, não é muito mas sempre é alguma coisa, e estes dois volumes são um luxo, o escritor delicia-se com eles, já esqueceu a mágoa de há pouco, já lá vai a pungência dos títulos assim malbaratados, já a sua atenção é toda (já que de títulos falamos) para esse que na oficina de Simão Thaddeo Ferreira se fez duplamente imprimir no ano de 1798 e que por inteiro se lê assim ELUCIDARIO DAS PALAVRAS, TERMOS, E FRASES, QUE EM PORTUGAL, ANTIGUAMENTE SE USÁRÃO, E QUE HOJE REGULARMENTE SE IGNORÃO: OBRA INDISPENSAVEL PARA ENTENDER SEM ERRO OS DOCUMENTOS MAIS RAROS, E PRECIOSOS, QUE ENTRE NÓS SE CONSERVÃO: PUBLICADO EM BENEFICIO DA LITTERATURA PORTUGUEZA, E DEDICADO AO PRINCIPE N. SENHOR.

De tanto o desejar possuir um, de muito o pretender vender o outro, escritor e alfarrabista apertam as mãos e dão um abraço. É incrível a semelhança desta cena com a que faria uma criança ao receber na manhã de Natal um divertimento para dele gouvir e com ele anpróóm folgar (já do precioso cartapácio nos servimos) e daí essa mesura do vendedor, esse gracir do comprador, este bitafe de amizade sã que assim sela um negócio mais, um negócio como os outros, talvez um tudo ou nada mais ingenioso, o alfarrabista diz o preço, o outro assina o cheque (raro é também este proceder, que o uso é um cultivador de letras ser pobre e muito regatear) e logo logo vêm os dois tomos numa sacola, muito protegidos (como um par de recém-nascidos), escadas abaixo, inequívoco o facto de que doravante farão a delícia de quem bem ou mal escreverá com eles sobre o que sabe e sobre o que não sabe, até pode ser que saia daqui uma obra-prima e que a não condenem futuramente a coisa pior do que esta arrecadação de papel, inequívoco também a circunstância de terem os dois volumes redigidos pelo menor observante da real província da Conceição (franciscano, já se dissera) custado o equivalente a muitos salários mínimos neste país de exploradores e explorados, e pronto, ficaram feliz o escritor, satisfeito o alfarrabista, contentíssimo o autor destas palavras, todos cansados, é hora de ir dormir, não sem antes um ir verificar se o cheque está bem assinado (como não, que escrúpulo tão desapropriado!), outro reabrir esta e a outra partes do Elucidário (que excitação essa a de remexer em tantas palavras deixadas de usar-se na nossa língua, que pena!), outro ainda verificar se nada falta e tudo condiz com a ideia original (mas qual ideia, se sozinho se escreveu o conto?), e todos a gozar um bocadinho mais essa sensação de conquista, que amanhã é outro dia e tudo terá passado já, já as emoções da véspera serão cinzas, já parecerá certíssimo o ditame de que nada de novo há debaixo do sol e que tudo é vaidade e vento que passa.

O PESCADOR

Birgül Çildogan
Foto: Birgül Çildogan

 

Numa aldeia do Congo, um pescador saía todas as manhãs para o mar sobraçando, com as redes, um livro de poemas. Regressava a casa com um par de peixes e o ar de quem se havia presenciado um prodígio. Os vizinhos admiravam-se com a pescaria nunca mais do que humilde, com a expressão de perplexidade que recolhia para terra com o barco, com a sua tenacidade, com o livro que venerava. Se lhe perguntavam porque não procurava outras redes ou outras águas, o pescador respondia invariavelmente que estava tudo muito bem assim.

«Não apenas o peixe trago do mar».

Ninguém ali era capaz de entender que outra coisa trazia o pescador.

UMA CONVERSA

Tuna Angel
Foto: Tuna Angel

 

No leste da Escócia, em Aberdeen, o vento e a chuva são infalíveis nesta altura do ano. Um e outra costumam fustigar as janelas a maior parte do dia, razão por que uma das grandes necessidades aqui é o bocado entre turnos do trabalho, ou então à noite, que se passa ao lado de um par de canecas altas de cerveja, chips e caraoque. Os pubs existem por toda a parte, muitas vezes porta sim, porta sim.

Nélida viajou de Espanha para estudar os artefactos e incisões nas rochas na aldeia de Rhynie e para rever e documentar-se sobre as maravilhosas, antiquíssimas e enigmáticas esferas de pedra que nas últimas décadas foram desenterradas do chão misterioso desta e de outras regiões limítrofes, aumentando a aura que desde Júlio César esconde este país do mundo fácil e óbvio do saber.

Em mau inglês pediu e foi servida. A língua franca tem ainda muito que se lhe diga. Alguém pusera a tocar The Whole of The Moon numa Jukebox anacrónica. Almoçava-se, bebia-se e fumava-se alegremente em linha, em cadeiras altas, rostos desconhecidos frente a frente, nos dois lados da simétrica bancada, separados pelo exército de galheteiros, saleiros e pimenteiros e pelas inevitáveis bases dos copos. Discutia-se tudo, ao mesmo tempo, em pares quase sempre, às vezes em grupo, um falando todos ouvindo, como nos tempos comunitários das tabernas: futebol, caça às orcas, fraudes eleitorais, pornografia. Nada é mais prazenteiro que uma boa conversa, mantida à custa do álcool e de um prato de bangers and mash ou de surf and turf ou mesmo haggis, seguido de um victoria sponge cake ou de um scone com geleia.

Nélida explicou a sua paixão. Um dos comensais sorriu: para ele a História era como a Matemática, uma treta.

– Como assim?

– Vocês historiadores passam a vida a tentar dizer-nos que o passado foi assim, deixando de fora informações que nunca poderão ter e que seriam preciosas para que soubéssemos como tudo aconteceu realmente…

– O senhor exagera. A História baseia-se em provas, em testemunhos, em evidências, em documentos, caramba…

– E que importa dizer que foi assim, se não for capaz de explicar todo o mecanismo de emoções, todas as fases de um pensamento, todo o cenário de uma batalha, todas as perspetivas de uma revolução, toda a verdade escondida na mentira de uma omissão e de uma peça a menos?

– Meu caro senhor, isso é como o paradoxo de Tarski.

– Ora, explique lá!

– Qualquer coisa como isto: entre o zero e o um há todos os números. Se os números são infinitos, então será logicamente impossível avançar de um número para o outro. E, no entanto, veja: tenho aqui um pedaço de pudim. – Engoliu-o – E agora tenho zero pedaços de pudim. Meu caro, a História é prática, é razoável e tem imenso charme!

Todos em volta se riram. Muito bem respondido. Pediu-se uma rodada de Belhaven para celebrar. Nélida recusou. Agora só o café.

Quem assistia sem participar olhava o céu fusco, de uma cor esverdeada e suja, que caía sobre os telhados e sobre a marina. Ao longe, um navio de carga descia a Edimburgo ou a Newcastle. Também ele parecia cheio de sono e sem vontade de tagarelar.

PARABÓLA SOBRE O AMOR

Samanta Krivec
Foto: Samanta Krivec

 

Um homem amava perdidamente uma mulher, mesmo não sendo correspondido, apesar de saber que jamais ela o amaria, ainda que admitisse que o amor é muitas vezes um veneno capaz de consumir-nos. Amou-a anos a fio até começar a esquecer-se de amar, porque tudo na vida esquece e cai, como caem (desfeitas em pó) as flores muito belas que nos ofuscam.

Um dia, o homem voltou a ver a mulher. Estava tão envelhecida e distante do rosto com que sonhara interminavelmente nas suas noites da juventude que não pôde deixar de sentir-se fascinado: para se libertar do sofrimento, ele antigamente punha-se a imaginá-la velha e feia. Agora, por piedade, esforçava por recordar-se da sua beleza aos vinte anos.

 

 

ONDE PARA O RISO?

Julien Oncete
Foto: Julien Oncete

 

Um jovem humorista romeno tentou sem sucesso, ao longo da noite, divertir uma plateia na capital do seu país. Usou algumas das suas melhores armas, como a sátira inteligente, o burlesco absurdo ou a paródia. Em vão procurou ridicularizar-se a si mesmo, porque a assistência se não manifestava, o que o fulminou.

Decidiu procurar então a ajuda de um bar, onde expôs o sucedido. Um professor de literatura confessou a mesma estupefação. Dias antes lera para a sua turma do primeiro ano cens hilariantes do Anfitrião, mas ninguém se rira. Como era possível?

Os dois homens saíram juntos. Já na rua viram um velho desdentado a girar a manivela de um realejo. Tinha um chapéu de coco e fizera prender à volta do pescoço uma grande túlipa amarela, iguais às que tinha num cesto à sua frente, porque era um vendedor-pedinte. Balançava-lhe no nariz uma argola dourada e nas pernas uns corsários listrados, demasiados grandes e demasiados largos, sobre os quais vestia uma camisa com enormes colarinhos azuis. Nunca o tinham visto, pelo que a visão do exótico e anacrónico homem, misturada com a cançoneta circense que saía do mecanismo, produziu neles uma gargalhada.

O velho, tomado pela indignação, interrompeu-se para se pôr a insultá-los. Os transeuntes, repletos de indignação também, apoiavam-no. As imprecações pareceram-lhes tão ébrias e tão roufenhas que o riso cresceu. Humorista e professor punham a mão na barriga e limpavam as lágrimas, quando a voz do velho os fez voltar. Foram então agraciados com um penico cheio de urina.

Houve aplausos dos circunstantes. Mas, entre eles, nem um sorriso.

MANUEL

Derek Galon
Foto: Derek Galon

 

Jorge aproximou-se e, quase num sussurro, disse.

– Manuel, morreu nossa irmã… Madalena…

O outro, muito envelhecido, os olhos apequenados pela miopia, a tez escavadíssima entre rugas, levantou a custo o rosto, como quem desperta a custo de um sonho, e redarguiu:

– Nossa irmã há muito que está morta!

Fora, no jardinzinho, flocos de neve queimavam o corpo embalsamado dos agapantos. A brisa, não menos álgida que nos dias anteriores, varria o claustro, penetrava nas frestas, impunha na sacristia e em torno da madeira lavrada um ar desolador, inabitável, cruel.

Manuel, com as mãos uma sobre a outra, arrastava-se pelo deambulatório, às voltas. Observava-o de longe o dominicano com quem havia instantes trocara a dúzia de palavras. Madalena de Vilhena morrera. Parecia impossível aquele nome, tão vago e traiçoeiro agora como a memória que se tem de um sonho. Manuel pisava com as cambadas sandálias nomes e números gravados em lajes, ecos de gente que viveu, que existiu, que possuiu certezas, que alimentou cobiças, e crenças, que decerto como ele se penhorou a um amor terreno, que como ele sofreu  o piso insuportável do silêncio, que lentamente como ele definhou até confundir verdades e mentiras, realidade e fantasia…

Tantas mortes: Maria, Madalena, ele próprio. Madalena morrera… Que significava morrer, se morta estava ela já tanto havia tempo, como morto e morrendo andava ele, sem que a misericórdia de Deus tornasse mais breve, mais abrupta, mais feliz a pedra do túmulo.

Somente o outro, que não quisera morrer, vivia ainda. Grande prodígio o sustinha nesta vida.

Manuel colocou sobre uma peanha o seu livro de orações. Depois abriu uma das portas ogivais do transepto. Precisava de respirar esse ar frio que tudo aquieta. No íntimo da sua alma, impossíveis como brasas de uma noite nunca apagada, as emoções regressavam.

Aos oitenta e cinco anos. Quem poderia imaginá-lo?