O CENÓBIO

Foto: limagerie.com

Depois de ter viajado pelo mundo, pelas boas terras meridionais onde amou o sol e foi amado por belas mulheres, pelas frias paragens do ártico onde granjeou fama e respeito dos marinheiros que com ele atravessaram ilhas de gelos, Knut Peterson retirou-se aos quarenta e três anos para uma das ilhas Faroé, onde viveu anos sozinho. Mais tarde tornou-se monge regressou ao seu eremitério com cinco companheiros, fundando aí um cenóbio.

Rezavam, cantavam, aprendiam o latim e os antigos idiomas nórdicos uns com os outros, liam a Bíblia e as runas, escreviam crónicas e livros de botânica. A paz caía tão branca ali como a neve que ali caía uma boa parte do ano.

Mas uma manhã um barco deu à costa, desgovernado. Nele viajava uma formidável rapariga de cabelos ruivos e efélides, jovem ainda, tão assustada quanto cheia de fome, expressando-se numa língua aparentada com a sua, ainda assim bastante confusa.

Perceberam que tinha fugido, que viajava havia semanas, que ali aportara por força do vento e das marés que empurraram o botezinho, ou por vontade de Deus que sobre o vento e as marés manda.

Era uma boa moça. Depressa se dispôs a ajudar a apanhar lenha, a preparar o pão, a cozinhar sopa, a lavar as madeiras dos musgos e vermes, a aprender as estranhas línguas que ali se palravam. 

Um dos monges viu-a a banhar-se numa das lagoas da ilha, espantosamente branca e perfeita, como um anjo do Senhor, e o seu coração encheu-se de saudades da antiga vida continental. E a um a um (Knut resistiu o mais que pôde) cederam ao franco impulso de a possuírem como sua mulher, de amarem com o corpo o que apenas o corpo pode amar.

UM NOVO DIA

Foto: robillard laurent

Na cama ouve a chuva a cair, às vezes tocada pelo vento com uma tal intensidade que o seu corpo, por instinto, adota a posição fetal. Depois adormece, sonha com um caminho enlameado em direção à escola primária, põe-se a conversar com velhos simpáticos que trabalham nos campos e lhe dizem adeus. Algo em si (mecânico e enigmático) confessa-lhe que naqueles rostos há somente agora um lastro enganador de vida. Mas de repente um som truculento, insistente, metálico, produzindo um efeito de vergasta (a campainha da escola, o despertador no telemóvel) faz desaparecer toda aquela paisagem antiga e bucólica, todos aqueles homens e mulheres dobrados sobre a sachola, todos aqueles estreitos por entre o mato e os giestais. Laura é sacudida, atirada para a realidade, exposta a um tempo duro, a um lugar inexoravelmente seu no mundo.

Levanta-se, empurra para trás o edredão e o lençol, abre a janela, fica um instante imóvel, de olhos fechados, como procurando despedir-se de si noutra existência, como procurando encontrar o melhor percurso de si até si mesma.

O cheiro de chuva principia a invadir o quarto, a expulsar o ambiente saturado de odores corporais. Apesar de fria, a aragem é agradável. Nestas ocasiões ocorre-lhe sempre a expressão “cheiro verde da chuva”. Gosta da combinação das quatro palavras, do que nelas sobressai de sinestesia, de metáfora, de onomatopeia, de aliteração. Gosta de imaginar que é verde o cheiro da água precipitando-se sobre a terra, embebendo-a, fazendo-a germinar, cobrindo-a de musgos e de líquenes. Sobretudo em abril, especialmente quando os perfumes nascidos da noite são profusos, indescritíveis, capazes de entontecer.

Sempre essa mistura de ervas, flores, árvores, frutos, fungos, minerais lhe pareceu um cântico formidável de criaturas silenciosas, um hausto de primavera, um íman de poesia, chamemos-lhe petricoraldeiasaudadevida.

Mas é tudo muito rápido. Rapidamente os olhos reabrem, rapidamente a cor feia da manhã nascente e acelerada a obriga a menear-se. Tem de vestir-se, pentear-se, maquilhar-se, beber o café, sair. A magia não dura quase nada.

Nada é um bom termo. Sintetiza a ideia que sempre nos fica quando observamos as nossas memórias à luz imparcial da eternidade. Tudo é igual a nada, somos um punhado de coisa nenhuma. O nosso empenho, a nossa felicidade, o nosso sofrimento, a nossa morte não passam de um detalhe.

Nas curvas que a linha do metro descreve, pontualmente apertadas, obrigando a mão a segurar-se com firmeza no apoio, estas frases soam-lhe com particular dureza. Tudo é igual a nada. Somos um punhado de coisa nenhuma. A nossa grandeza é um pingo dessa chuva que resvala para as sarjetas imundas da cidade.

Laura sabe que as manhãs de abril, especialmente estas em que o sol não brilha, são enganadoras. Fazem subir uma espécie de nevoeiro que oculta os prédios mais altos. Deprimem. De resto, a sucessão de guarda-chuvas, gabardinas, botas, galochas coloridas enerva-a. Inversamente ao sonho, a viagem para o trabalho parece-lhe cruel, concreta, inescapável, como se fosse ela (e não os velhos da sua meninice) uma pessoa morta. 

Quando as composições param e as portas se escancaram em simultâneo, Laura e dezenas de outros passageiros voltam a estugar o passo. Depois sobe no tapete rolante, esquecida já de todos os pensamentos anteriores, viva, sonâmbula, anestesiada, preparada para o novo dia, cheia de pressa, em rigor para lado nenhum. 

MÁSCARA TRANSPARENTE

Foto: Roswitha Schleicher-Schwarz

Quando se preparava para lavar a boca, antes de sair de casa nessa manhã, Dácil Contreras apanhou um enorme susto: a pessoa ao espelho não era ela. Não só o rosto o desconhecia naquele formato aguçado, como lhe não pertenciam o desenho trocista da boca ou a expressão maligna dos olhos.

Acordou o companheiro, que tinha voltado a adormecer depois da sua saída da cama. Este garantiu-lhe, num tom que misturava irritação, espanto e paciência, que era ela, o rosto era o mesmo de sempre, nada havia de novo nos olhos ou na boca. Pediu que o deixasse dormir e suspirou.

Dácil espreitou-se em todos os vidros, acrílicos, placas metalizadas, poças de água. Não, aquela pessoa não era ela. Definitivamente, operara-se durante a noite um prodígio.

No escritório, quando lhe perguntavam alguma coisa, quando atendia o telefone, quando precisava de responder a Sofía, a colega do lado, a sua voz igualmente lhe soava à voz de outra pessoa. Alguém usava o seu corpo e o deformava, como costuma suceder com um energúmeno.

– Sofía…

– Diz-me, filha!

– Não notas nada de diferente em mim?

Sofía achou-a mais magra ou talvez mais gorda, não tinha a certeza. Decerto mais pálida, isso. Melhor, mais cinzenta! Perguntou-lhe se andava a tomar comprimidos para alguma coisa.

Dácil escutou os seus próprios ouvidos a chiarem. Sentia-se zonza. Ninguém parecia dar por essa mudança tão óbvia. Não, ela não era aquela que era, era outra, outra que a ocupava, que a desalojava da sua aparência, outra a viver em si como uma máscara transparente. «Olha só o absurdo!» pensou, «Uma máscara transparente!»

As manhãs repetiram-se. Aos poucos diferentes partes do seu corpo principiaram a parecer-lhe metamorfoseadas, trazidas a si no mesmo silêncio e com a mesma magia. Deixou de saber que pessoa era ao certo, quem realmente era. O companheiro abraçava-a, ela chorava.

– Que loucura. És a pessoa que eu conheci há dez anos em Madrid, no Café Gijón, posando nos bonecos da avenida dos Recoletos. És a mesma, amor, estás igual, igualzinha!

Não era, não estava. Uma manhã Dácil não quis ir para o escritório. Noutra manhã revoltou-se com o vizinho que batia no cão vadio da sua rua. Noutra lembrou-se de uma criança muito pequena e muito suja que vira no regresso a casa. Sentiu um desejo infindável de a adotar, de tornar-se o seu anjo da guarda, de ser a sua mãe. Olhava para o mundo com uma ferocidade que não admitia resposta. O que quer que se passasse consigo já não assumia somente uma nova fisionomia em si, penetrava agora no seu espírito. Sabia que o nosso aspeto (ainda que Platão o tenha desligado da alma) está com ela casado, intimamente a ela atado por cordas grossas, como as que no teatro fazem subir ou descer pesados objetos no palco.

Dácil replicava a tudo com ironia, sarcasmo, com provérbios, com frases tão perigosas quanto as que podia a sua consciência afiar. Quando o namorado lhe explicou que «Um filho neste momento não vem nada a calhar», compreendeu que naquela casa morava consigo outra criança, outra criança com ciúmes da que nela pudesse entrar, exatamente como costuma acontecer com um animal de estimação transformado num pequeno rei absoluto, incapaz de partilhar o seu amor com outro inquilino.

Quando Javier acordou ao meio-dia, numa bela manhã solar de fevereiro, tinha sobre a mesa da cozinha um bilhete. O armário de Dácil estava vazio, o telefone desligado. Sofía admirou-se que ele desconhecesse um facto tão significativo: havia duas semanas que a colega se despedira. E não, nada sabia a respeito de planos futuros, causas passadas, paixões recentes.

UMA HISTÓRIA DE AMOR

Foto: Masatoshi Washimi

A pouco mais de meia centena de quilómetros de Quioto fica a aldeia de Kawajima, no sopé do Monte Fo. Daí pode contemplar-se o Lago Biwa e os cumes de outros montes, como os de Minako e Hiei.

Em Kawajima vive Ichiro, um artesão viúvo de apenas vinte e seis anos. Casou aos vinte, perdeu a mulher (a belíssima Sakura) aos vinte e três. Não tem filhos, exceto os maravilhosos cadernos de papel grosso cosidos à mão, os estojos e coldres de couro, os famosos ko-daiko que as suas facas, tesouras e agulhas constroem dia e noite, noite e dia.

Ichiro não é um homem melancólico. As suas mãos trabalham depressa e os olhos e ouvidos não perdoam lapsos. A perfeição é uma ordem, tão ontológica como o fogo, como a água do riacho onde vai beber, como a majestade dos animais ferozes que de quando em quando se aproximam do seu casebre.

Nesta altura do ano, contudo, lembra-se muito de Sakura. Era uma mulher simples, ainda uma rapariguinha, de encantadores olhos cor de mel e silhueta elegante. Sente em especial o vazio que ficou no lugar onde os braços de Sakura o apertavam, no lugar onde os seios de Sakura o despertavam, no lugar onde os cabelos soltos dela o acariciavam e o faziam rir. Nesta altura do ano, as cerejeiras principiam a carregar-se de um tom maravilhosamente claro, enchendo-se de pequeninas pétalas de cores rosa e branca, em tudo idênticas à luz do nascer do dia.

A essa hora Ichiro sai para o jardim completamente nu, colhe um punhado de pétalas repletas de orvalho e esfrega com elas o rosto, o tronco, o sexo os braços e as pernas. 

Este costume causa a maior admiração na aldeia. Ninguém compreende o seu significado ou a exata doença de que padece o artesão. Um estudante de medicina, numa das suas viagens de regresso da cidade, interessou-se pelo assunto. Prometeu reportar o assunto aos mestres na universidade. Aí lhe dirão com toda a certeza a qual género de loucura obedece a cabeça de Ichiro.

Não lhe dirão que na noite de núpcias o jovem casal, depois de terem feito amor pela primeira vez, olhando os alvos lençóis manchados pelo sangue de Sakura, prometeu que naquele leito jamais se deitaria outro homem ou outra mulher. Era uma entrega para sempre, uma jura de amor. 

Quando o desejo atiça Ichiro, a dor da partida precoce da esposa é lancinante, uma dor que aperta as cordas da sua alma como ele aperta as cordas dos pequenos tambores que constrói. 

Limpa-se, portanto, do desejo com a casta beleza das pétalas das cerejeiras, com a água visceral que escorre dos telhados e das folhas, com o frio do vento por onde o espírito de Sakura (tinha a certeza) vagueou toda a noite, infeliz e cheio de saudade.

CANDELÁRIAS

Foto: Christopher Kiciak

Na véspera do dia 2 de fevereiro do ano de 1309, a cidade de Bolonha engalanou-se para a Festa das Candelárias. Por toda a parte, não só nas igrejas, erguiam-se círios e velas em honra de Nossa Senhora da Piedade. Círios e velas malcheirosos, feitos de unto de porco, pelos quais se pagava o equivalente a uma de vinte partes de um gibão. Era domingo, haveria a procissão de atravessar solenemente a Piazza Maggiore, mesmo debaixo do nariz do Conde Roberto. 

Mas os estudantes universitários estavam descontentes. 

Depois de sucessivas queixas ao reitor, a quem chamavam “O grande sovina”, acusando-o de cobrar exorbitâncias pelos estudos (pela collecta) e de não encher as lareiras da universidade, além de ser conivente com os arrendatários do burgo, também eles escandalosamente apostados em extorquir os pobres rapazes vindos de fora, alojando-os em magotes em pequenas divisões frias e escuras, decidiram protestar.

Logo que ecoou o sino de São Petrónio, entraram em quantas igrejas puderam, pondo a arder todas as preciosas e caríssimas velas de cera que nelas encontravam. Era um desperdício de luz, um exagero. Pecado extraordinário esse de alumiar o interior cavernoso onde a fé buscava muitas vezes sem esperança o sol divino.

Não pensava assim um dos sacristães da igreja de São Filomena.

Furioso, pôs-se a apagar o espalhafato das pequenas labaredas no altar-mor. Mas logo outras, dezenas, centenas, se acendiam nas laterais. Vinha soprar também sobre elas, mas imediatamente outras deflagravam na sacristia, na abside, no interior dos confessionários. Desembainhou o punhal, feriu um dos estudantes, logo foi cercado, manietado, socado. Houve gritos, vieram em seu socorro outros acólitos. Ninguém sabe em que parte do templo o grande incêndio principiou.

Nessa manhã, antes mesmo de o sol nascer, uma imensa cruz de fogo ergueu-se aos céus, consumindo retábulos, tecidos, relíquias, afugentando pelas portas de San Vitale e de San Donato os criminosos aterrorizados, atraindo pelas mesmas portas mesteirais, camponeses, forasteiros estupefactos. 

Repicaram os sinos da desgraça. 

Era uma ironia atroz: a igreja da patrona das trevas transformada num braseiro, a cidade engalanada para a festa das luzes caindo num assombro incontido, como se em vez de amanhecer, ali anoitecesse.  

A VELHA CASA

Foto: Sven Fennema

Aquele lugar tinha sido magiar, romano, bizantino, otomano, húngaro, soviético. Agora era de que tivesse muitos euros e bom gosto. Sobre os velhos hotéis foram levantados novos e luxuosos empreendimentos turísticos, rivalizando em número de quartos, prestação de serviços e anúncios em línguas estrangeiras. À entrada da cidade, uma placa dizia «Üdvöljük Tihanyban», querendo dizer «Bem-vindo a Tihany». Na verdade, deveria antes explicar «Desfrute o Lago Balaton». Pela sua arquitetura e decoração vintage, destacava-se na vertente sul o Hotel Olympus. Aí, em qualquer varanda e com alguma sorte pode estar-se no paraíso.

A vista é, indubitavelmente, soberba. Sobranceiros ao curso de água avistam-se belos palacetes ao gosto da Renascença, perfilando-se compridos ciprestes e pátios com colunas de mármore, aonde sobe volta e meia a elite para uma boda, um pôr do sol ou para uma sessão fotográfica nos meses de verão. No inverno as montanhas ao redor do Balaton cobrem-se de nevoeiro e depois de neve e todo aquele lugar é uma pintura romântica, para onde convergem artistas, filósofos, magnatas, predadores de toda a espécie e de todas as vocações. São especialmente assíduos os cineastas e fotógrafos americanos, sequiosos de génio, antiguidade e mulheres europeias.

Em dezembro de 98, o californiano Mike Juno alojou-se no Olympus no momento em que fazia uma tour com uma assistente argumentista para preparar a rodagem do filme de ação com que tencionava alcançar recordes de bilheteira no final do ano seguinte. Aí conheceu, também por circunstâncias profissionais, a fotógrafa franco-canadiana Danielle Ducrot. Conviveram duas manhãs, duas tardes e uma noite. Os hóspedes vizinhos do quarto 507 denunciaram sucessivamente nessas noite e madrugada o ruído escandaloso que dali chegava. O jovem na receção tentou sem sucesso fazer alguma coisa, convencido de que o problema se resolveria sozinho. E resolveu. Porém demoradamente.

Após isso, a fotógrafa regressou a Budapeste, de onde seguiria para Nice e de lá para Vancouver. O americano ficava mais uns dias. Deixou-se cair, entretanto, numa melancolia extática, a que jamais havia cedido em toda a sua existência de quase meio século.

Prova do que dizemos foi a caminhada que decidiu fazer até a um miradouro lá no alto da peninsulazinha. Fê-la sozinho, levando consigo uma mochila e a sua Leica vetusta de celuloide. Era uma manhã solar, silenciosa, sem excitações de espécie alguma. Danielle partira e da anterior lascívia restava apenas uma memória contaminada. Em Los Angeles esperavam por si uma mulher jovem e um filho pequeno. Havia semanas que a sua viagem de volta ia sendo protelada. Ocorreu-lhe a semelhança com Ulisses. Por um breve momento, coincidiram dentro de si o orgulho, a vergonha, o medo e o desejo de catarse. Era simultaneamente um homem velho e um homem novo, um bandido e um contrito. Aquilo nunca lhe havia acontecido. Sentia uma propensão quase irresistível para as lágrimas. Apeteceu-lhe abandonar o mau filme em que se via aprisionado e começar ab radice uma película nova, complexa, abstrata, a que chamaria “A velha casa”.

Mas foi somente um instante, uma iluminação, uma turvação, provavelmente por culpa daquele sol, daquele espelho de água, daquela maldição que ata os europeus a labirintos sinistros.

O COSTA

Foto: Ludwig Riml

«Comer onde comem poucos, trabalhar onde trabalham muitos» repetia o Costa, enquanto irritado com a garlopa ia desbastando e alisando o pau do eucalipto que trouxera do monte. Tinha quarenta e três anos. O cabelo e a barba haviam tomado a feição rala e grisalha de um velho, os dentes escasseavam, o lombo curvava, os olhos e as mãos mostravam-se nervosos e sem encanto. Aos pés da burra as aparas enroladas de madeira empilhavam-se. 

Setembro principiava, precisava-se de uma escada nova. Mas ele, circunstância imperdoável, não podia contar senão consigo mesmo. Enfurecia-o o facto de os filhos irem procurar as moças em vez de lhe deitarem uma mão. Noutros tempos teria funcionado o cinto, mas agora não lhe restava outro remédio senão murmurar. A mulher de quando em vez mirava-o, amaldiçoando aquele azedume, aquela expressão vingativa, aquele zelo hipócrita que a meio da tarde haveria de curar na taberna, com dois ou três quartilhos de vinho entre meia dúzia de partidas de sueca.

O Costa escolhera e serrara o tronco, agora alisava-o com a garlopa e com o rebote, para em seguida o medir cuidadosamente e marcar com giz. Depois, sempre com o cigarro no canto da boca e praguejando alto, chamou pela mulher e por uma das raparigas, para que lhe segurassem as pontas, enquanto ele fizesse rodar o trado perfurando a madeira vinte e cinco vezes, no lugar onde deveriam posteriormente ser apertados os vinte e cinco degraus.

«Bem diz Caifás: manda e faz e servido serás!» repetia, sempre a meia voz, sempre de olhos postos no tronco, para que ali se soubesse que a culpa daquela desfeita dos filhos varões se devia unicamente a ela e não podia ele calar-se ou perdoar, visto que se era certo não dever trabalhar-se no dia de Nosso Senhor (essa era outra das máximas do Costa), ele o fazia-o apenas nesse domingo por incúria dos filhos, que daquele modo e tão perto já das vindimas o despreveniram.

– Moça, segura bem. Não o deixes mexer! 

A cada fala mais alta e mais severa dele, mais fundo se desenhava nos olhos da mulher a sanha. Bem sabia ela como gostaria aquele velho de ter aproveitado melhor o dia de descanso para dividir na taberna infusas e bazófias, provavelmente uma meretriz de ocasião com os parceiros de jogatina. Mas estava ali, preso, debaixo da ramada, a construir um escadote de vinte e cinco passadas, como competia ao homem da casa e a um pai de família honrada.

Feitos os furos, o Costa teria de passar o fio do serrote de alto a baixo, dividindo o tronco nas duas pernas que em breve seriam içadas e usadas. Tinha o talento de todos os camponeses, de trabalhar simultânea e indistintamente nos muitos ofícios que a terra impunha, metendo com o mesmo desenrasque e o mesmo denodo as mãos à farinha e ao estrume, tanto fazendo de alvenel se fosse preciso reconstruir um muro, como de tanoeiro quando se precisava de construir um pipo. Tudo o Costa sabia fazer. Até bastardos. Inimigos até.

A mulher passava agora com o balde da lavadura. Ia cevar os bácoros. Ninguém lhe tirava da ideia que aquele homem azedo podia ter sido melhor pai e melhor marido, e de que em algum momento passara a odiá-lo, como ele a odiava a ela. Porém, estava-lhe grata, pois no mundo dos deveres, o primeiro de todos era sustentar a família, e esse dever cumpria-o o Costa.

De cócoras, cuspindo nas mãos, o velho terminava a tarefa aramando os degraus da escada. Se alguma vez um eles (corroído pelo tempo ou pelo bichedo) desabasse, sempre podia o corpo lá no alto segurar-se ao fio de metal que o capeava, livrando-se assim de uma queda certamente fatal.

A tarde ia já a meio. O Costa libertara finalmente a miudita que lhe servia de cavalete. Talvez nesse domingo não fosse beber. Pelo menos seria como nos primeiros tempos de casados, pensava a mulher, enquanto na esquina da eira espreitava. Ninguém lhe tirava da ideia de que lá no fundo ele ainda gostava de si. Em coisas de amor e de ódio ninguém sabe bem o que dizer. Isso ela o dizia, ele não. O Costa não conhecia esse adágio. 

A TANGERINEIRA

tangerinei
Fotografia de Lydia Jacobs

O leproso tinha um cão. Procurava todos os dias o amparo de uma grande pedra para se pôr ao sol. O vento sacudia as crinas, mas sem lhe magoar excessivamente a pele ulcerada. Primeiro morreu o cão. O leproso enterrou-o num sítio onde viria a nascer e a crescer uma grande árvore.

Em dezembro o vento é glaciar, a bela tangerineira mexe os seus canos carregados de fruto. Ali, no que era um lugar ermo, construíram uma gafaria. Os curiosos vistoriam a pedra onde há um buraco semelhante à casca de uma pevide, mas sem a semente, sem a luz do sol aninhada no seu interior.

A única parecença com o lume é a das tangerinas maduras. Quem as vê enche-se de piedade. Sob o impulso do vento gélido, elas baloiçam como carvões acesos. São pequenas chamas aquecendo o olhar.

UM MESTRE TAOISTA

Foto: Gunarto Song

Yuan Chen e Zhou Zhao eram os discípulos mais madraços e descuidados na escola de Li Bei. Durante os primeiros anos serviram de exemplo e chacota aos jovens aprendizes da sua classe, tantas tinham sido as ocasiões em que o velho mestre lhes repreendeu publicamente a preguiça e as outras imperfeições e ainda mais as vezes em que despertaram a risota dos colegas.

– O sábio aprende por si mesmo, antecipa as lições, adivinha o percalço, evita o erro e a desonra. 

Uma manhã, após uma noite de vigília e chuva intensa, o sol regressou ao cimo das árvores e fazia rebrilhar as inumeráveis perolazinhas suspensas dos ramos da cerejeira vermelha e dos zimbros azulados.

Zhou Zhan admirou-se com a dureza da luz assim refletida nos pingos supervenientes da chuva. Eram como minúsculas estrelas alumiando o jardim e ao mesmo tempo queimando os seus olhos. Lavou o rosto, passou água pela cabeça e pelo pescoço, depois orou, depois bebeu um gole de chá, depois escreveu sobre tiras de bambu em belos ideogramas, pincelados com amor:

 

cada coisa tem o seu fogo,
Cada homem tem a sua luz,
Todos nós ardemos por dentro
E por fora ardemos de novo,
Morremos como o sol e a chuva,
E a cada instante renascemos.

 

Além soou o gongo. Li Bei chamava. Se não se apressasse, Zhou Zhao seria mais uma vez advertido com veemência, sentindo-se cada vez mais afastado do caminho celestial prefigurado por Chang Tao-ling, mestre dos mestres, sábio maior entre os sábios. Sentia vergonha da sua conduta, pois andava de boca em boca como os ensinamentos de Lao-Tsé e do Daozang e bem o via no olhar trocista dos rapazes que à sua frente se distinguiam na filosofia e nas artes marciais.

– O caminho de cada um de vós há de levar-vos como tigres às montanhas mais altas, mas só alguns podereis alcançar o coração dos mortais e, como o vento, unir-lhes o coração de pedra às coisas que se encontram a seu lado. Esses, de entre vós, serão admirados por muitos séculos, pois é pura a sua sabedoria.

Yuan Chen aprendera a contentar-se com uma tigela de arroz. Zhou Zhao, por seu turno, sentia um grande desgosto. Jamais seria um “candil no meio da noite”, jamais compreenderia os mistérios a natureza e os segredos do universo, jamais alcançaria a beleza íntima das coisas. Era uma vergôntea teimosa e não um tronco direito, liso e leve.

E por isso escrevia. Por isso olhava a superfície dos fenómenos, anestesiando-se com o canto da água e o doce farfalhar do bosque, refugiando-se nas mínimas labaredas que a todo o momento deflagravam à sua volta. Queria ver: era nisso que se concentrava ultimamente. 

O PARAÍSO

O velho Malojo entrou na cozinha com as giestas secas e duas laranjas apanhadas pelo caminho. Roubar fruta não era pecado, pecado era deixá-la aos pássaros ou a apodrecer nos ramos. Dobrou as giestas de modo a caberem no fogãozinho e pôs-lhes lume. A névoa azul encheu a penumbra até à soleira, vogando entre as paredes mascarradas e o teto baixo. Depois colocou a cafeteira encardida sobre a placa de ferro, procurou o frasco da chicória e trouxe-a para cima da mesa. Possuía ainda o suficiente para duas ocasiões. Pão também lhe restava algum, assim como toucinho, e juntava a tudo isto as duas formidáveis laranjas trazidas da propriedade do antigo patrão.

Quando a noite vinha, gostava de ligar o aparelho de rádio e de se entreter com as notícias. Também gostava de chocalhar as ave-marias convencionais e de soltar as suas duas ou três lágrimas de cada novo dia. Ligou, portanto, o aparelho e pôs-se à escuta. Era a hora de ouvir e rezar.

Do outro lado do mundo, na realidade a somente duas centenas de quilómetros de distância, os craques da Seleção preparavam o desafio com a França. Ronaldo em dúvida constituía indubitavelmente o tormento do apressado jornalista. Sempre o fado dos portugueses, sempre o nunca poder contar com a sorte para nada, sempre a miséria de sofrer até ao último instante, a ver se sim se não. 

Depois, noutro tom, o mesmo jornalista fanhoso informou que prosseguiam as buscas da Judiciária no escritório de um conhecido empresário do futebol e na sede dos clubes mais importantes do principal escalão. A mesma descarada vergonha do costume, pensou o velho Malojo. Isto vai mal, a roda do mundo está empenada, uns a trabalharem por uma côdea, a terem em casa mulher e filhos para manterem, outros com categoria a pilharem milhões.

O velho Malojo não se dera conta ainda de que os pais de família já não sustentavam sozinhos o rancho e que as mulheres, entretanto, se tinham transformado em pais de família. E também que o Estado, o Estado que lhe enviava todos os meses duzentos e trinta e oito euros, fazia as vezes dos pais de família, sustentando o rancho, incluindo as mães e também os modernos pais de família.

Mas não teve tempo para lamentar o mau estado o futebol. A Renascença mudava o foco da atenção dos ouvintes, seguia para Fátima onde de seguida se iria recitar o terço.

O velho Malojo espreitou à porta. O céu admitia entre as suas tonalidades cores tão diferentes como o magenta, a púrpura ou o laranja, ou mesmo o negro-carvão de uma banda e na outra o azul celeste, o azul ferrete e de novo o negro, à medida que o horizonte se afastava do lugar do sol posto. Naquele barranco não morava mais ninguém. Ele era um eremita. Deus, Nosso Senhor, dava-lhe o bastante para sobreviver, para ser digno, para não alimentar ambições ou sobressaltos. De algum modo, pensava o velho Malojo, a sua vida era privilegiada, ele tinha tudo, aquilo era como viver no paraíso.