TODOS OS SEUS SONHOS SERIAM REALIZADOS

Fernand Hick
Foto: Fernand Hick

 

Tinha a certeza de que todos os seus sonhos seriam realizados. Quando passou para a contabilidade do vendedor as notas contadas e devidas ao chaço, exultou. Era o seu primeiro carro. Velhíssimo, mas o seu primeiro carro.

– Estás feliz?

– Muito, papá. Não o podia estar mais!

O rapaz calçou as mitenes, pôs-se a acariciar o tejadilho manchado, os jerricãs repletos, o volante forrado de pelo. Todos os seus sonhos esperavam a força da ignição.

Não muito distante dali era a escola primária.

Dois a dois, dando as mãos, os meninos costumam atravessar a passadeira debaixo do olhar atento da funcionária responsável.

É uma operação tranquila, embora um pouco demorada. «O perigo espreita de todas as partes: cuidado!» costuma sensibilizar a diretora da escola. Nunca se sabe em que estado e a que velocidade, tão pouco com que desfecho e por que artes do diabo, isso acrescentamos nós.

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JOAQUÍN

conto «Joaquín»
Foto: theo peekstok

 

Joaquín Moro faz todos os dias este percurso a pé. Sai de casa cedo, atravessa três avenidas, cruza-se com o melhor hotel da cidade (há sempre turistas a entrar nas suas portas rotativas), vê os automóveis topo de gama estacionados perto das grandes lojas, evita aos domingos os magotes de miúdos a cambalear e aos berros à saída dos bares da moda, caminha com o corpo muito direito e em silêncio, raramente cumprimentando, raramente cumprimentado, até ao porto.

Caminha em passo medido (de sua casa ao estaleiro marítimo são três quartos de hora), organizando mentalmente a sua vida, filtrando no ar os seus próprios pensamentos, tomando decisões.

Nesta zona, a paisagem é dominada por gruas gigantescas que operam a carga intercontinental. Não há casas, há barracões. Os jardins cedem lugar a terrenos baldios e cercas de arame delimitando cemitérios de âncoras e barcos de pesca desmantelados, completamente invadidos pelo óxido e pela nostálgica miséria dos poucos pescadores que ali resistem em jejuada sobrevivência. Em fundo, para lá destas ruelas feias e repletas de lixo velho nas bermas, para lá dos cartazes desbotados a anunciar espetáculos tauromáquicos de há três verões, montanhas de contentores.

Joaquín  caminha agora sem pressa, com as mãos nos bolsos do corta-vento, por causa da brisa mais forte. Gosta de ler as matrículas pintadas nos paralelepípedos metálicos empilhados, de imaginar-lhes o conteúdo, o trajeto, os dias de trânsito no oceano. Aqui pode respirar livremente. Das pequeninas coisas às maiores, o seu olhar voga com volúpia, como nos tempos de garoto. Dentro de cada uma destas caixas que os homens esvaziam e voltam a repletar há um sem-número de mercancias misturadas, mãos ajuntadas no mesmo propósito comercial, algumas coincidências talvez, para que o longe e o perto se conheçam, para que visões se fundam, culturas se fecundem. O mundo é uma casa de espanto. Joaquín puxa do maço de cigarros. Aqui as palavras aquietam-se, o casaco (como a vida) apetece-lhe mais, os olhos voltam a ver. Anota duas linhas vagarosas no bloco de apontamentos, considera com prazer que entre si e a solidão há somente o trabalho dos estivadores. E não, esta solidão não é má.

Enquanto puder há de aproveitar-se dela. Há de ouvir o som chiante das suas botas sobre os charcos ocasionais. Há de despejar-se das solicitações inúteis da boa sociedade indo para os arrabaldes, frequentando os sombrios lugares de urtigais e canas emplumadas, onde infindáveis cargueiros de pavilhões desconhecidos o esperam e o convidam a ir mais longe. Não, não morrerá aos poucos como os colegas pensionistas que à tarde o incitam às mesas de bridgee de póquer.

O cigarro está no fim. Corre uma aragem gélida. Apetece-lhe deitar lume a outro, mas não o fará. Prefere aquilo que é moderado e bom, sem excesso. Duas frases mais para apontar. «Para que a paz seja completa, tudo deve chegar a um fim. Naturalmente.»

CAVANI

King Douglas
Foto: King Douglas

 

É como um jogo de chamas e de vento este que fazem os violinos e os violoncelos, o combinado som de uns e de outros, crescente e ondulante, um labirinto de labaredas, tão vivo agora que se parece todo ele combustível, todo ele feito de lume, ardente, matéria em convulsão.

Na cabeça de Antonio Cavani, as Quattro Stagionisão sobretudo luz, luz forte, fortíssima, e por isso ensaia de olhos fechados, a batuta solta na mão direita, para que o não ofusquem o movimento dos instrumentistas ou a veemência mágica da própria música.

Entre todos os compositores, prefere os do Barroco. Entre todas as composições deste tempo, ama com um amor mais sincero e humilde esta dúzia de andamentos de Vivaldi, que lhe lembram mais que Bach, ou Pergolesi, ou Händel, a sua infância bucólica na Toscana.

Na sua opinião, escassas se lhe comparam na celebração da humanidade, tanto incendiando-a de graça juvenil como consumindo-a na depressão das suas tonalidades  elegíacas, soturnas e hiemais. Por isso, exige que esta celebração da sublimidade humana seja interpretada sem erros, no ritmo, na intensidade, na volúpia exata. Os ensaios sucedem-se, às vezes escutando somente o arco e as cordas de Margaret Duchamps, muitas vezes juntando à solista o tumulto maravilhoso da orquestra, para que uma e outra se afinem infinitamente.

Em Berlim já se diz, e isso parece impossível, que esta performance será melhor do que Karajan, que Duchamps supera Mutter, que se fará História. Calvani transcende-se, é como se as chamas do próprio sol o engolissem, um violino, vários, o violoncelo, outros violoncelos, o cravo, uma pletora de formas deslizando no devir dos quatro concertos, entre os andamentos e ao longo de todos eles, como se fosse a própria fala de Deus que assim se exprimisse, vibrando, contorcendo-se, ferindo o espaço no frenesim das cerdas contra os encordamentos, na percussão das teclas, na concentração fanática do maestro.

Cavani gesticula com uma lágrima no canto do olho. Imagina o público no intervalo de som e silêncio, a opressão das imagens que correm dentro dos olhos, a física e dolorosa simpatia dos músculos que acompanham a perfeição do momento, a alma que se liberta do mundo como nele nascesse de novo, orgástico e genesíaco recomeço este, o cardíaco entusiasmo ecoando nas paredes, no teto, na noite de Berlim, e depois «Bravo!», «Bravo!», o maestro em água, os pupilos esgotados, «Bravo!», pode a morte sobrevir, Cavani deseja-a, nem mais um minuto, que mais não pode desejar-se nesta vida e não valeria a pena ir mais além, não valeria. Mas o transe termina. É um ensaio mais apenas. O inverno pode ser esplendoroso. Quanto tempo passou? Onde estamos? Cavani respira com dificuldade. «Bravo!» diz com secura.

ESTHER

Leon
Foto: Leon

 

Na linha de montagem do novo avião supersónico militar, de uma cor invulgarmente escura e não refletora de luz, a quem chamam vantablack, e revestido por uma película macia e anecoica que o tornará imune à ciência e paciência dos radares, a engenheira espacial Esther B. Godwell, filha de um pastor cristão ultraconservador, e membro ela própria de uma seita adventícia, proferiu palavras que se repetem e usam agora como um slôgane: «Para o bem comum: indetetável, imprevisível, inelutável, como a própria mão de Deus!»

BUCÓLICO

avó e neto, grandpa, grandfather and grandson, love
Foto: Steffi Atze

 

Ao cimo da colina fica o centro do mundo. Dali avista-se tudo: a aldeia poisada nas encostas, a igreja medieval, o rio mais abaixo com a sua pontezinha romana, os carros de feno e os rebanhos deslocando-se devagar, iguais aos carros de feno e aos rebanhos de há mil anos.

Aí, protegido pelas ramagens de um velho freixo repleto de vergônteas e raízes, escutamos o seguinte diálogo:

– A minha vida foi covarde, fraca, miseravelmente vivida…

– Porque diz essas coisas tão feias?

– Porque fui sempre um covarde, um fraco, um miserável…

– Não diga essas coisas tão feias…

– Mas tu podes ter outro destino, meu filho!

– Como assim, avozinho?

– Podes pôr em mim os teus olhos, ver o que não queres para ti, olhar-te agora num tempo futuro…

– Mas, avozinho, como pode acreditar nessas coisas tão feias? Foi sempre tão amigo de toda a gente.

– Matei todos os meus sonhos, desprezei todas as mulheres com medo que me desprezassem, ignorei os avisos, descri nos conselhos, supus-me velho em todas as idades da minha vida… Não fui sequer, por fim, capaz de pôr termo ao terrível remorso que por dentro me devora como uma Erínia!

– O que quer dizer com isso?

– Tu sabes… Acabar com tudo…

– Avozinho!

– Mas tu és diferente, filho! Digo-te que tens outro destino à tua espera. Digo-te que vás! Vai enquanto a sombra dos teus pés não é suficientemente pesada para te emperrar ou demasiado forte para te fazer voltar o pescoço… Vai e nunca olhes para trás!

As nuvens adejam lá em cima. A colina é suave como o contorno de um fruto. Todos os que gostam de uma boa história sabem como as palavras são vaidosas e o quanto apreciam um bom cenário em fundo.

«Nunca olhes para trás!». Realmente, quando se caminha nunca se deve voltar os olhos para trás. É uma verdade universal.

 

PERFEIÇÃO

Poet, reader, Alfredo Yañez
Foto: Alfredo Yañez

No quinto andar do prédio na extremidade da avenida dos grandes plátanos vive o poeta. É um prédio antigo, sem elevador. Sempre que ao chegar a casa mete a chave na fechadura, o poeta lamenta a sua sorte, sobretudo, se tem de carregar sacos de compras ou uma bilha de gás. É uma lástima não se ter nascido rico.

Quando na rua os ruídos começam a diminuir, o poeta põe-se a fantasiar. Para que os seus sonhos pareçam um pouco mais sérios e um pouco menos irrealizáveis, gosta de ouvir música. «Boa música» é para ele uma sonata de Buxtehude, um concerto de Mozart ou um noturno de Chopin. Às vezes, aventura-se pelo jazz, mas sente-se sempre um pouco engolido pela prolixidade e pelo frenesim incompreensível dos instrumentos. Muitas vezes, sobretudo, de madrugada, põe-se a caminhar descalço e de olhos fechados pela casa. É quando lhe ocorrem as melhores palavras.

Na noite em que escrevemos estas linhas, o poeta deixou-nos aberto em cima da mesa da cozinha um caderno. Sobre a folha da esquerda permanece uma garrafa esvaziada em modo de pisa-papéis, na da direita está o pedaço de texto que reproduzimos a seguir:

 

há versos a estalar de luz, como sinapses,
na minha cabeça

 

o que é a perfeição? um voo?

 

Celan, Pavese, Crevel, Bjørneboe, Sylvia Plath, 
tantos outros,
eles escreveram instantes perduráveis
que o lápis sublinhou e a boca vai repetindo

 

Depois é uma nuvem de rasuras, cruzes e pontos de exclamação. O texto admite dúvidas de toda a espécie, pois o poeta justapõe palavras e não parece satisfeito com nenhuma delas: por exemplo, «estorninho», «felosa» e «cerrezina» pulam alternadamente na sua «relva», que é também «telhado», «janela» e «varanda». A palavra «universo» foi escrita no lugar de «cosmos» e «cosmos» reposta no lugar da palavra «universo». Há manchas de cinza do cigarro no papel e círculos pegajosos deixados pelo uísque. Dois traços oblíquos cruzam-se de alto e a baixo. Nenhum título foi anotado. Não podemos afirmar que o poema não esteja concluído.

O poeta foi visto à varanda antes do nascer do sol pelo carro da polícia que fazia a ronda. Quando os vizinhos começaram a sair para o trabalho, viram-no, também, caído (miraculosamente sem danos maiores) no passeio ao lado do coletor do lixo. 

Foi, então, levado para um hospital do centro da cidade. Por causa da ingestão de álcool não sabe ainda que está vivo, nem o que seja a perfeição.