O MOSCARDO

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Acabar um livro é uma pretensão inútil. Um livro não é acabado nunca, pela simples razão de que o autor o rescreveria mil vezes se tivesse oportunidade e paciência, pela mais correta razão de que o leitor (juiz absoluto) o há de ler de um modo em que lhe pareça sempre mais acertado, mais correto e mais perfeito, pela definitiva razão de que o tempo o recontextualiza, o mantém em aberto (mesmo que pareça fechado), agitando as suas palavras, as suas ideias, o seu alcance…

E, por isso, me parece quase doentio que tenha sofrido nas últimas semanas para concluir, terminar, encerrar O Moscardo. Pede-mo a gráfica (em desespero de causa, que os prazos são imperiosos). Pede-mo a família (contagiada pela loucura e pelo cansaço das minhas sucessivas correções). Pedem-mo os amigos (desejosos que a promessa de anos se cumpra e os contos vejam a luz do dia – que a da noite, a luz das lâmpadas e a do ecrã do computador, já eles têm por mãe neste demoradíssimo parto). Pedem-mo os colegas de escola (para quem estes textos serão, assim esperam eles e eu, motivo de análise e de estudo e, mais ainda, de entretenimento e deleite nas aulas). Pedem-mo a minha consciência e a minha vontade e o meu orgulho, seguros de que chegado eu à idade de quarenta e um anos devo acreditar no que acredito sem reservas e contaminação, valendo isto para O Moscardo como para o enorme resto de que a minha vida é feita.

Arrisco a frase: acabei há cerca de uma hora a derradeira correção. E, com ela, ou depois dela, guardo a terrível sensação de que as 274 páginas aquilatam muito e muito pouco! E não é falsa modéstia, nem oxímoro gratuito, nem obsessão. É antes a manifestação em mim do quanto poderia ter escrito em vez daquilo. É a angústia de saber que mais uns meses e talvez pudesse chegar a outro lado, não diria a uma obra-prima, mas a uma obra-irmã, dando à voz que discorre nas 86 histórias uma maior ousadia, uma volúpia mais sublime, uma atenção mais apaixonada sobre o objeto do seu interesse. O único mérito que julgo ter-me escapado aqui e acolá: a coragem de se despir integralmente!

Para o bem ou para o mal, O Moscardo voará. A partir de agora, deixa de estar nas minhas mãos.

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CALETON BLANCO

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viajamos no tempo quando nele se equivoca o corpo, revendo-se no acontecido, ou porventura antecipando-o. grande enigma, porém, é a sensação de regresso aonde nunca se esteve, como este asfalto interminável em linha reta (uma lomba além, outra mais longe ainda), esta mole de lava e lapili, esta areia branca em pequenas dunas até ao mar (mais branca onde o basalto é mais negro), este verdeazul da água que agora mesmo me parece um convite libidinoso, assim tão calçado e tão vestido eu, grande enigma será, porque me sinto de novo em casa não a tendo antes conhecido, e ainda a viagem não acabou. chega-se a Caleton Blanco por estraditas empoeiradas, entre filas de automóveis e jipes estacionados onde calhou. é-se recebido pelo flamenco, pelo cheiro bendito da carne na grelha (famílias inteiras à roda das salsichas, do entrecosto, das costeletas), que um pai, um tio, um avô diligentes manuseiam com a arte, acompanhados sempre da inevitável Tropical,que outras mãos, zelosas, lhes municiam, ou que vão buscar à geleira, essa também parte do ritual. repito que me parece isto uma viagem no tempo e que viajamos no tempo quando, como aqui, nos parece a ida à praia uma grande festa e a não incomodam os anúncios publicitários nem o velhaco snobismo de quem a transformou num estado social, onde a carne rescendente, a música popular e as famílias inteiras já não são bem-vindas nem cabem onde a vaidade e o pedantismo ergueram restaurantes com estrelas Michelin e resortsà prova de pobres. em Caleton Blanco a soberba água transparente e cálida, de um toque aveludado que nos faz estremecer, ainda é de todos e, também por isso, viajamos no tempo, também por isso fotografamos o que por instantes nos parece um paraíso quem sabe gozando derradeiros dias tranquilos. é uma da tarde. prosseguimos viagem. uma tabuleta indica-nos Órzola à direita, Arrieta em sentido oposto. o aroma da carne grelhada persegue-nos alguns quilómetros. sentimos fome. uma fome descomunal

Caleta de Famara, 26.08.2018

LOS CHARCONES (PLAYA BLANCA)

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depois de atravessarmos, a pé e debaixo de um sol inclemente, uma vasta planície de terra árida, onde cicatrizam sulcos de chuvadas distantíssimas no tempo e piroclastos repletos de pó (aqui e além um desses prodigiosos arbustos carnudos, nascidos e crescidos rente ao chão, acizentados e em forma de cato), chegámos ao hotel em ruínas. dizes-me que aqui moraram os ciganos. e de facto a cerca de arame foi derribada e nas varandas postas portadas de madeira, estores, pequenas peças de mobiliário, provas de um improviso de vida que víramos já lá atrás, em restos de fogo no meio de pedras que para esse fim terá juntado quem aqui pernoitou. nunca terminaram este edifício, que alberga aos ombros, como o gigante Atlas, um pedaço do mundo. estamos na costa, o oceano bate com ímpeto nas rochas, rochas tortuosas, em cujas arestas pomos os pés em modo de degraus, descendo com prudência até ao lugar que me querias mostrar. chamam-lhe Los Charcones e é esplendoroso. a maré baixou, as cavidades sem água rutilam com os estiletes do sal, de um branco que fere os olhos. mas a beleza a que me trazes é outra, são estes olhos que a toda a volta impressionam, pequenas lagoas de um sem-fim de verdes graduados, profundos, como vidros para as entranhas do estranho mar que neles se encafuou, vertiginosos anfractos que não paramos de fotografar e entre os quais caminhamos com um arrepio. isto é bonito, não achas? julgo que sorrio em vez de responder-te, um pouco embriagado, vendo o azul e o verde digladiar-se num empenho de espuma e de espanto. é meio-dia, o sol bate-nos em cheio, não sei bem em que planeta 

Caleta de Famara, 29.08.2018

MIRADOR DEL RÍO (LANZAROTE)

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para a Catarina

entre as escarpas e os talhões de terra vulcânica, há uma estrada limpíssima, bordejada por um contínuo muro não muito alto de pedra basáltica, perfeitamente geométrico e a perder de vista. de um lado o oceano, em baixo, e a mansuetude da ilha Graciosa. do outro lado, a terra ocre e os retângulos frisados desse chão de grânulos negros onde os nossos sapatos caminham com dificuldade. ao fundo, a encosta imponente do La Corona. são sete da tarde. O nevoeiro sobe rapidamente do mar, galgando os píncaros e atravessando à nossa frente a estrada de que falo. ocultado e desocultado no vapor, o sol deixa tudo a contraluz: e é a beleza das imagens assim nascida da neblina, a silhueta dos nosso corpos depurada, a distância tão breve do abismo, o som das vozes que aparecem e desaparecem, que se desvanecem ao longo da estrada, é esse instante antes do crepúsculo, acima das origens, o que fica

Caleta de Famara, 24.08.2018

VERÃO, UM COLÓQUIO A MEIO DA TARDE

Richard Bland
Foto: Richard Bland

 

– Aqui tem o seu troco, senhor.

– Não, não. Guarde-o para si. Faça o favor!

Era um punhado de cêntimos. A rapariga agradeceu e recolheu-os sem entusiasmo.

– Você é muito generoso, Gustavo!

O cavalheiro balançou o copo de conhaque, visivelmente envaidecido. Disse apenas:

– É uma questão educacional. Fui ensinado a obsequiar aqueles que me servem.

Cortou com os dentes a ponta de um charuto e principiou a procurar nos bolsos.

– Como lhe estava a dizer, Gustavo, o meu filho mais velho trocou inesperadamente a filial de Aberdeen pela de Vancouver. Tão impulsivo aquele rapaz!

– Ah, sim?

O cavalheiro fez estalar um no outro, como se tocasse castanholas, os dedos médio e polegar. Outra rapariga aproximou-se.

– O mais novo vive agora no Dubai. Veja só que há menos de um mês tinha ido para Melbourne. Foi tudo de repente…

Num gesto interruptor, que poderia entender-se como «Só um momento!», o cavalheiro inclinou-se para a funcionária e sussurrou entre outras a palavra «lume». Ela retirou-se depois de ter esboçado ao de leve com a cabeça o meneio de anuência.

– Muito me apraz. E o Bernardo? Como anda ele?

A mulher deslizou uma mão repleta de anéis pelo cabelo loiro, encarando-o com um sorriso.

– Ora, Gustavo. Você quer lá saber do meu marido… Não finja interessar-se por aquele traste!

A primeira das raparigas poisou uma caixa de fósforos na mão do cavalheiro, que a observou com ar desconfiado.

– Sabe, Gustavo: sonhei consigo uma noite destas…

O cavalheiro deitou-lhe uma mirada, enquanto, sem sucesso, desperdiçando um atrás de outro os pequenos paus encerados, se esforçava por incinerar as folhas de tabaco, que mastigava com sorvos veementes.

– Olhe, Gustavo, sonhei que os nossos dedos se encontravam debaixo dos lençóis e que você me puxava para si, como fazia antigamente…

– Maldição!

A mulher estremeceu, surpreendida pelo vozeirão. Do lado de dentro das vidraças, uma terceira funcionária, que acompanhou sem querer a cena, soltou uma risada.

–Maldição! Que estupidez: queimei-me!

– O meu filho mais novo é tão parecido consigo. Imagine só que…

– Menina, faça o favor!

A funcionária divertida, entretanto recomposta, acercou-se do empresário Gustavo Herédia para se inteirar do pedido. Este, que molhava o dedo chamuscado com saliva, devolveu a caixa de fósforos e pediu por favor (disse «por favor» num tom desprovido de qualquer cortesia) um isqueiro.

A rapariga não sabia se tinham um isqueiro. Toda a cafetaria trabalhava há meses só com equipamentos elétricos. A caixa de fósforos fora já «uma sorte» ter sido encontrada numa gaveta.

– Veja só, Gustavo. As modernices só nos arranjam complicações…

O cavalheiro bebericou o conhaque, fazendo arquear as sobrancelhas espessas num modo que podia ser lido como de dúvida em relação à qualidade do que bebia.

Canteiros de margaridas comuns ornavam o pátio. A esplanada não era sequer grande. Ocupava o terraço da parte sul do complexo desportivo. Podia ouvir-se nela, por exemplo, o tap-tapdas bolas e o alvoroço dos atletas no corte de ténis ali perto.

– Lembra-se daquela vez em que viajámos os dois para Genebra? Oh, foi um fim de semana tão bonito, Gustavo!

– Sim.

A primeira das raparigas informou que possuíam apenas um velho isqueiro-acendedor de fogão. Se o cavalheiro estivesse interessado, podia servir-se dele à vontade. O homem viu-se com o comprido objeto de plástico amarelo, a lançar chamar irregulares sobre o charuto. A boca amargava-lhe já e a irritação mal a conseguia dominar.

– Bem… – disse a mulher. – O que tenho estado a tentar dizer-lhe neste tempo todo, Gustavo, é que…

– Raios me partam! Raios me partam!

A mulher assustou-se. O cavalheiro vociferava, dando murros na mesa. O canhão do isqueiro mal usado hesitava na chama. Canhestramente, o cavalheiro apertara sem sucesso o canhão ignitivo que, de um momento para o outro, decidiu disparar uma comprida bola de fogo, abrindo-lhe uma cratera na gravata.

Cheio de raiva, o empresário levantou-se, descompôs a funcionária, reclamou do serviço, do mau conhaque, do cheirete das flores, do atravancado das mesas.

– Calma, Gustavo. Calma! – repetia, nervosamente, a mulher de cabelo loiro. Depois de várias tentativas, não achou mais palavras que dizer.

Todos os colóquios (podemos afiançá-lo nós que conduzimos a narrativa) têm uma forma distinta de acabar.

TODOS OS SEUS SONHOS SERIAM REALIZADOS

Fernand Hick
Foto: Fernand Hick

 

Tinha a certeza de que todos os seus sonhos seriam realizados. Quando passou para a contabilidade do vendedor as notas contadas e devidas ao chaço, exultou. Era o seu primeiro carro. Velhíssimo, mas o seu primeiro carro.

– Estás feliz?

– Muito, papá. Não o podia estar mais!

O rapaz calçou as mitenes, pôs-se a acariciar o tejadilho manchado, os jerricãs repletos, o volante forrado de pelo. Todos os seus sonhos esperavam a força da ignição.

Não muito distante dali era a escola primária.

Dois a dois, dando as mãos, os meninos costumam atravessar a passadeira debaixo do olhar atento da funcionária responsável.

É uma operação tranquila, embora um pouco demorada. «O perigo espreita de todas as partes: cuidado!» costuma sensibilizar a diretora da escola. Nunca se sabe em que estado e a que velocidade, tão pouco com que desfecho e por que artes do diabo, isso acrescentamos nós.

LAVOISIER

Christophe Kiciak
Foto: Christophe Kiciak

 

Ao alto, a máquina tem o imponente aspeto de uma parede interrompendo o caminho da cidadela para os subúrbios. Mas a populaça grita, e com a populaça chiam as rodas dos carros e com as rodas dos carros resmungam homens esfarrapados, que pontapeiam e empilham cabeças em cestos de vime. Estamos no 19.º dia do mês de Floreal. Maximilien é o sumo pontífice da nova religião do Estado.

Antoine Laurent de Lavoisier segue com sua mulher, Marie-Anne, na proa de uma carroça, puxada por uma pileca. Chovem os impropérios e os escarros. Agitam-se forquilhas e varapaus. Também as rameiras de Paris se juntam para uivar o seu ódio ao aristocrata. Com elas increpam as vendedoras de peixe, os açougueiros, os taberneiros, os tecelões, os curtumeiros, os sapateiros, os carvoeiros, os camponeses, os alfaiates, os boticários, os doentes, os mendigos, os ladrões, os trânsfugas, os clérigos apóstatas, os loucos. Engrossa das ruelas para a praça a multidão execradora. Antoine leva os pulsos presos em cordas, como um criminoso vulgar. Marie-Anne traz o vestido rasgado e tingido de sangue. Por toda a praça se atiça o fervor sanguinolento. O incorruptível chefe da Convenção vibra. É de peso o nobre cientista. «Roubar-lhe a cabeça não servirá senão para nos afogar mais ainda no sangue da ignomínia» lamenta Joseph-Louis de Langrage.

A tropa revolucionária encarniça-se na execução de Marie-Anne Pierrette Paulze. Fá-lo desta vez com requinte, metodicamente, e não à bruta. Lavoisier, assim visto pelo exterior de vidro, não vacila. Por dentro, as moléculas possíveis da miséria humana eclodem num frenesim, quando se escuta o desamparo rude da lâmina sobre o corpo da mulher de Lavoisier. Dois pares de sujas mãos envolvem agora o pescoço do eminente cientista-filósofo, constringindo a traqueia e as parótidas. Cheiram mal as imundas mãos, cheiram nauseabundamente, se é possível dizer assim. Cheiram à pura impregnação do sangue.

Um dos supliciadores diz em horrível francês «Vais-te cagar todo, meu porco». Fede a boca que o diz. Os escassos dentes encavalitados sublinham o grotesco da cena. É a alma da própria França nestes dias de igualdade, fraternidade, revoltosa liberdade.

Fazem tombar o homem numa espécie de carreto e apertam-lhe bem os pulsos e os tornozelos. Imobilizam-no horizontalmente e empurram-no em direção ao garrote, em linha perpendicular à força que o há de matar. É uma morte abrupta esta, que inventou o Dr. Joseph-Ignace Guillotin. As crianças sorriem. É um jogo. O fascínio de uma execução pública é como andar às cavalitas ou fazer uma dança de roda, brincadeiras tão afamadas neste século das luzes.

Lavoisier pensa. Dentro de alguns segundos juntar-se-á ao tempo de outro modo. «Também a matéria se revolve, como a água em círculos depois de uma pedrada. Mas tudo se aquieta novamente. Toda a matéria se recompõe, se reequilibra e remistura. Nada mais inútil do que pretender a permanência ou a imutabilidade». São pensamentos desordenados, quase nebulosos, porém intensos, como os pilares dogmáticos de uma religião nova. «Tudo se transforma», pensa Lavoisier.

A multidão escuta agora Maximilien Robespierre, que, inflamado, perora sobre a nação que se limpa, sobre o povo sublime que «extirpa as perniciosas ervas daninhas», sobre a sociedade que se cura «da ferida das antigas abomináveis sanguessugas», sobre «o futuro que se levanta do charco atroz da peçonha de todos os viperinos cortesãos».

Robespierre é jovem, tem o rosto ruborizado pela exaltação, os olhos de quem sabe amestrar a multidão, a expressão de quem fará triunfar princípios morais há muito sonhados. A lâmina da guilhotina, tantas vezes levantada e descida, pode bem aguardar. É imperioso que aguarde. É-o a bem da doutrina, para que esta penetre mais e mais no crânio desta feliz geração de analfabetos raquíticos, a quem a Providência destinou o papel de fazer erguer um patamar novo da história da humanidade. Robespierre apregoa ab imo corde, tem as rédeas da manipulação, tem o rastilho da ideia. Sabe que o veem como um messias, um jovem messias no cataclisma que a Europa está prestes a viver.

«Todo o universo é regido pelos mesmos princípios, leis, regras físicas», pensa Antoine Laurent. Não teme a morte, como não temeu a vida. «Em todo o esplendor da ideia há o formoso acaso da matéria revelada». O mecanismo circular das moléculas torná-lo-á irmão de cada mosca, das pedras, do sangue derramado e da alma dos mártires da violência, dos de agora e dos de toda a infindável geografia do tempo.

Já Robespierre se calou. Já a mão do algoz se soltou. Já o geométrico aço desce, dividindo o que antes era um portentoso espírito da humanidade. Já Langrage profere a célebre máxima de que «Não bastará um século para produzir uma cabeça igual à que se fez cair num segundo». Já a aclamação do vil poviléu se alastra, passando muito para lá da Praça da Bastilha, por todos os meandros desse coração às artérias menores… Já Lavoisier, ou a cabeça dele, é segurada por um palafreneiro embriagado, que a sacode como um troféu. Já o seu corpo restante é retirado do palanque para dar lugar a outros nobres que aí vêm, em carroças de bois, uns enjaulados, outros caídos, outros a pé, sofrendo o enxovalho final de suas desconcertantes existências.

Há de um cronista qualquer, meu mestre, tomar a sério o duro ofício de narrar estes funestos acontecimentos. Estamos a 8 de maio de 1794, 19 do mês de Floreal.