CAÇA AO TALENTO

Johannes Glännman
Foto: Johannes Glännman

— Diga-me, então: do que é que ele é capaz?

— Bem, sabe recitar de cor alguns dos trechos mais significativos de algumas das mais importantes obras da literatura universal!

— Bah! – cortou o diretor com um gesto cheio de desprezo. – Hoje ninguém se importa já com a literatura universal. Além disso, para fazer o que ele faz, temos a Wikipédia.

— Compreendo… – disse, um tanto descorçoada, outro tanto envergonhada, a jovem treinadora de pássaros cultos.

— Bem, já conhece o caminho não é verdade?

— Conheço o caminho, sim, obrigada!

Afagou o pequeno gaio-comum e saiu. Era uma manhã como as outras. Nem sequer mais fria.

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WILLIAM WIMBLOT

Claude Brazeau
Foto: Claude Brazeau

 

Em cima da mesa, William Wimblot tinha as cascas da laranja que acabara de comer. A sua disposição, em hélice, misturada com aparas de queijo de cabra, migalhas de broa, e com o copo vazio e sujo de vinho, dava-lhe a sensação de uma pequena convulsão no universo.

«O que é mais perdurável: o caos ou a ordem?»

O senhor Wimblot gostava de pensar que os seus pensamentos entravam na matéria negra do nada como a lâmina de uma charrua na terra. Dedicava-se a rabiscar ideias, anotando-as e compilando-as um pouco ad hoc em sebentas de escola. Quase nunca as voltava a ver, porque lhe incomodava a sensação de ler algo seu, mas nunca desistia desse ofício, porque lhe dava prazer indagar sobre o tempo e o espaço da sua vida.

No dia anterior chegara à conclusão que o Homem (escrevia sempre a palavra Homem com maiúscula) «é uma espécie de nó bastante complicada, difícil, se não mesmo impossível de desatar, depois do Bem e do Mal, em milénios de recíproca miscigenação, se terem nele encordoado com toda a força».

Gostava de metáforas. Preferia as mais inusitadas. Adorava alegorias. As científico-religiosas, em especial. Já por uma ou duas vezes comparara o evoluir da nossa espécie com o movimento silencioso dos seus ervilhais, tão extraordinário de resto quanto o dobrar da matéria em grandes ondas gravitacionais. Na sua cabeça, as abóboras, as galáxias, os tratados de Heidegger, a compaixão, a voz da soprano que canta a In Trutina de Carl Orff eram o mesmo. «Existir é a potência de iludir o antes com o depois, como se antes e depois não fossem o mesmo.»

A frase, dita numa quermesse diante do abade e de outros lavradores da Cornualha, causou sensação, granjeando-lhe reputação duvidosa nos dois terrenos onde semeava a sua paciência: no das beterrabas (onde o viam como um intelectual) e no das ideias (onde o desprezavam como o vilão de galochas, que era em todo o caso). Não é fácil, admitamo-lo, ser-se um homem do campo, das ciências e das letras.

Wimblot mirava sem o ver o perpianho das paredes, as alfaias penduradas do teto de madeira, o lume que preguiçava na laje da lareira. Sentia-se embalado pelo vento forte a fustigar no pátio as sombras aguçadas da noite, acalentado pelo bom Syrah que cultivava na terra mais agreste de Redruth, distraído pela beleza caligráfica do aparo de ouro sobre o papel.

«O que é mais perdurável: o caos ou a ordem?»

Não sabia. Talvez Deus não permitisse que se soubesse. Talvez não houvesse resposta. E, no entanto, ela faria toda a diferença: ela explicaria toda a História, justificaria toda a Filosofia. Ao passo que sem ela talvez nada fosse afinal sério e verdadeiro, talvez tudo não passasse de uma brincadeira.

«E andamos nós nisto desde sempre!»

Wimblot sentia a acidez distender-se do estômago à boca. Era hora de ir dormir. O cansaço é uma bênção. «Sempre foi o que fizemos: dormir» repetia o amável homem, quando, apagando de supetão o gasómetro, como quem fazia (num truque de ilusionismo) desaparecer todo um grande problema.

O ORADOR

Rapahael Guarino
Foto: Rapahael Guarino

 

O Orador dispôs um olhar exortativo sobre a assistência. A preleção corria-lhe bem, aqui e ali (notava-o agora) talvez alegórica demais. Para o dissimular, o Orador servia-se de um tom mais crispado, acusando os adversários de todo o género de manigâncias. Vieram as palmas. Alguns que tinham os maxilares rigidamente presos à boca para não serem vistos a bocejar, puderam soltar «Bravo» e «Apoiado».

Falou durante uma hora e cinco minutos. No final, elevando o tom, como quem dá o remate final numa pintura muito rebuscada, olhou a plateia e quase gritou:

– Assim, ilustres companheiros, amigos, correligionários, o Partido deverá constituir-se como um exemplo inatacável, lembrando a sua matriz fundadora e os seus líderes do passado. Somos o partido das grandes reformas e nunca nos coibiremos de ostentar na lapela a vitalidade do que criámos, nem o desejo de refundar a nação e de lhe impor as mudanças inadiáveis! Não permitiremos que a causa pública se veja coartada por irrisórios expedientes, negligenciada ou impedida por esta oposição incompetente, acéfala, por esta oposição acrítica, populista e demagógica! Somos nós, nós, este partido, quem tem o ónus da responsabilidade! Não nos demitiremos do nosso lugar de charneira! Em cada aldeia, vila ou cidade faremos chegar o progresso das nossas ideias e faremos que o bom povo compreenda a nossa visão! Tenho dito!

Seguiu-se o ribombo das palmas. Alguns, que dormitavam, começaram por instinto a aplaudir. Aplaudiam com força, com frenesi, com devoção.

O Orador recebeu abraços apertados de consideração, elogios cochichados dos membros da mesa, apertos solenes de mão. Liam-se nos lábios expressões encomiásticas, «Muito bem!», «Honra-nos!», «Parabéns»! Era um homem conspícuo, falara brilhantemente. A grande sala, unânime e rouca, era o sopro guardado de uma bolha de sabão. Unânime e rouca, elástica, crescia na ovação.

O Orador sentou-se no lugar que ocupara antes. Vários colegas levantaram-se em volta para o virem saudar, para lhe exprimirem a admiração e ele, notavelmente contido, sorrindo apenas, recebia e agradecia comovido.

Outro orador subiu ao palanque. Outros se lhe seguiram. Mas nenhum orador era o Orador. O soberbo homem esgotara o filão da melhor retórica. Quando, horas mais tarde, o presidente da mesa declarou encerrados os trabalhos por esse dia, era ainda a intervenção do Orador a que prendia as atenções.

Ninguém duvida da importância deste tipo de acontecimento, nem da profundidade intelectual dos palestrantes. Costuma discutir-se sobre a distribuição de cargos, sobre o modo mais eficiente de criar falanges de apoio, sobre vendetas e punição de dissidentes. Também se fala do futuro do país. Sobretudo do passado do país. A res publica atrai centenas de congressistas que não arriscam nunca mostrar-se descontentes ou cansados. Convém ser cortês com quem tem poder, pese o poder pertencer ao povo. Simplesmente o povo é vasto e abstrato. O melhor é ser cortês com pessoas como o Orador.

Logo que as luzes se sumiram na grande sala, os grupos desfizeram-se e o Orador, retardando-se em colóquios fraternais com um companheiro veterano e outros nem tanto, pôde sentir no jardim anexo o aroma das laranjeiras em flor. Ia comentando ainda coisas sérias, sublinhando ainda a linha de orientação do Partido. Um coro de cabeças anuía. Era exatamente assim. O Orador adivinhara-lhes na cabeça o pensamento. Como podiam eles não concordar?

Era uma noite belíssima. Quando, por fim, se introduziu no carro e se dispôs a regressar ao hotel sentiu-se um tanto só. Verificou no relógio: eram quase três horas. No céu erguia-se o silêncio, um infinito recamado de estrelas e poeira de galáxias. O Orador recordou-se do avô, que costumava ensinar-lhe o nome das constelações e lhe narrava as façanhas dos argonautas.

O ar limpo passava-lhe por entre os dedos e pelas narinas. O volante era tão leve como uma pena. O Orador sentia-se mergulhar num alçapão misterioso. Uma vozinha vinda de nenhures reclamava a sua atenção. Quase sentiu saudades dos campos, das noites da infância, do velho que lhe fazia papas de abóbora. Essa flamazinha aguda doía.

‒ Que porra! – resmungou o Orador.

Ligou o rádio. As notícias acalmaram-no. Falavam do congresso, do Partido, de si. Todos aquiesciam. Repetia-se o aviso, «irrisórios expedientes», o «calcanhar de Aquiles», nada podia perturbar as grandes reformas em curso. Pedia-as o país. O Orador penetrou na noite. Mal-humorado. Terrivelmente…

NÓS GOSTAMOS DA NEBLINA

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Foto: Alexander Schönberg

M. caminhava com pressa nessa manhã. Fazia-o por causa do frio, mas outrossim em virtude do hábito (no verão caminhava igualmente apressado; talvez, neste caso, por causa do calor). De todas as partes da cidade, por onde a água corresse, subia uma neblina espessa e álgida que engolia tudo: um olhar não demasiadamente perspicaz vê-la-ia erguer-se do rio, mas também das sarjetas, dos chafarizes, nos jardins públicos, e das bocas ofegantes dos transeuntes.

M. lembrou-se (ultimamente era uma memória assídua) da ponte de outros dias, no fim da primavera, quando aí costumava comprar a uma velhinha de lenço na cabeça cerejas magníficas, e se punha a observar a lentidão do caudal quase transparente, e os junquilhos lhe debruavam as margens, e uma mulher o esperava na outra banda, ao lado da igrejinha românica, cujos lábios carnudos confundia às vezes, no inferno de uma insónia, com a cor e a carne das próprias cerejas maceradas na sua boca.

M. suspirou. Teria vivido o que viveu? Chegava a duvidá-lo. Olhou o céu com um suspiro. O sol, um sol cor de prata, forrado pela neblina como por bocassim, ia e vinha por entre os prédios, aparecia e desaparecia no meio da cabeça ossuda das árvores. M. suspirou de novo. Era uma visão do passado e não tanto de um déjà vu o que lhe estava a acontecer nesse preciso instante, porque nalguma parte de si sabia há muito que iria viver esse momento, esses suspiros, essa pressa, essa nebulosa divagação por entre espaços e pelo âmago do tempo. Principiara a acreditar no eterno retorno. Convencera-se mesmo que, algures, na viagem da nossa vida, apesar de não vermos o antes ou o depois, repetíamo-lo.

Entrou na farmácia e pediu aspirina.

– Uma caixa, senhor?

– Três, por favor!

– Três?

– Três.

M. gostava de comprar tudo a triplicar. Detestava a sensação de ver esgotar-se algo de que precisava ou de que gostava. Casara três vezes, tantas quantas as que se divorciara. Começara três cursos na universidade, sem ter concluído, porém, por culpa de um tédio irreprimível, nenhum. Era assim. Se pudesse, teria nascido em três e falecido outras tantas ocasiões, para não lhe escapar qualquer pormenor e pelo prazer de regressar a um ponto exato da existência.

– Aqui tem. São treze euros e vinte cêntimos.

M. pagou e saiu. Doía-lhe a cabeça. Doía-lhe amiúde. Caminhava com pressa, em direção a qualquer parte que a neblina não deixava divisar bem. Ah, as cerejas túmidas, a velhinha simpática, a amante que o esperava com um sorriso tímido, num banquinho de madeira, à porta da antiga igreja. M. entrou na neblina como se entra num sonho.

Até agora não voltou a ser visto.

OS NOSSOS DESVELOS MAIS ROMÂNTICOS

Ebba Torsteinsen Jenssen
Foto: Ebba Torsteinsen Jenssen

 

Última novidade da moda, espantosa, não se fala de outra coisa, todas as querem, acessíveis a partir de agora nos mercados do costume e nos alternativos: pedras de bolso!*

Escolhidas com meticulosidade nas melhores pedreiras, riachos e praias, embaladas individualmente ou às meias dúzias, em caixas de madeira ou em latinhas forradas de esponja e cobertas com uma dobra de tarlatana, elas são o must have do momento, ideais para quem queira (à maneira antiga) ofender uma cabeça intrometida, chamar alguém pela calada da noite a uma janela alta, ou ir abrindo, repleto de melancolia, as águas de um lago (pode ser as de um rio, ou as do próprio mar, também), enquanto se aquieta dúvidas e angústias profundas.

Estas pedras de bolso são, ainda, aconselhadas para quem goste de amuletos, precise de apertar com todas as forças um objeto denso (em vez de estrangular, por exemplo, o pescoço de um aluno, ou o de um vizinho malcriado), ou, ainda, pretenda iniciar-se em microescultura.

O preço é francamente convidativo e a variedade do produto (nas modalidades de granito, basalto, mica, ardósia e mármore) promete satisfazer uma larga fatia de clientes, nacionais e estangeiros.

Trata-se do primeiro de uma série de promissores investimentos de uma empresa exploradora dos nossos desvelos mais românticos. O seu lema, «NÓS SONHAMOS POR SI», responde a uma necessidade humana há muito propalada e sem resposta: agora, à medida que deixarmos de perder tempo com os nossos sonhos, poderemos fazer o que nos der na real gana. E isto, sim, é o progresso!

* Produto em vias de homologação, junto das autoridades competentes.

SABES QUE ENVELHECESTE

Els Baltjes
Foto: Els Baltjes

Sabes que envelheceste quando não tu, mas algo em ti se recusa. Quando uma teimosia despida de sol se apodera dos teus sonhos e sabes que os não vais viver. Não és triste, longe disso, mas a felicidade é também ela um pouco impostora. Bebes à noite, às escondidas, tanto para esquecer como para lembrar, e o teu rosto é uma máscara.

Sabes que envelheceste quando te aborrecem os livros, as viagens e a companhia. Olhas para trás e nada descortinas, senão gente e coisas de cinza, sombras, vagas conversas idiotas. Não és triste, que ideia absurda, mas cais em ti com violência como quem é atirado para o interior de uma masmorra. Olhas ao redor e nada reconheces, nem sequer a velha voz onde nasceste, nem sequer o olhar honesto e acutilante de outros dias.

Sabes que envelheceste quando os ossos cantam e tu não. E há mais silêncio e mais pedra em ti, e mais tédio e mais incerteza, e mais terror e mais solidão. Não és triste, olha o disparate, mas as palavras já pouco dizem, ou dizem nada, porque as sentes cada vez mais como um eco fútil, inútil e venenoso, e isso verbera-lo tu com ódio, porque não és triste e desconheces a tristeza.

Sabes que envelheceste quando todos os dias são o mesmo dia, e o antes é já o depois de acontecer, e nada acontece, e tu sabes que envelheceste. Não és triste, detestas que to digam, mas pertences cada vez mais às coisas que amas (e são poucas) e cada vez menos às pessoas que já não sabes ou não podes amar (e são muitas), deslumbrado com o poder do silêncio e com a castidade que nele desconhecias.

Sabes que envelheceste quando deixaste de compreender o confuso mecanismo de salamaleques traiçoeiros, elogios hipócritas, sorrisos concupiscentes, cúpidos materialismos dos novos e afinal de todos os tempos; quando deixaste de suportar esse relógio ancestral de ameaças, avisos e bestiais represálias em que se move, em círculos, a gente de agora, a que veio e a que virá; quando deixaste de aceitar o triunfo da estupidez sobre a razão, o estudo e a sabedoria. Não és triste, triste é quem não o é, mas os teus passos encurtaram, o teu rosto emudeceu, as tuas mãos tornaram-se uma outra forma de metal.

Sabes que envelheceste quando te aceitas desse modo, velho e simples, cru e talvez cruel, sem adornos, supervivente, amigo dos poucos amigos que ainda valem a pena, fiel às paisagens que te acordam noutro tempo e noutro lugar, sem contemplações, mas contemplativo, amargo e todavia doce, de uma doçura que somente os que a ti são semelhantes podem compreender, prezar e, quiçá, amar. Não és triste, o que é ser triste, mas corajoso, coerente, preso ao teu destino como uma árvore às suas raízes.

Sabes que envelheceste quando não precisas de explicar porquê. Não és triste. És tu.

BAILE DE MÁSCARAS

Carnaval,
Foto: Stefan Nielsen

Todos os anos tem lugar na noite de véspera de Carnaval um dos eventos mais importantes da nossa cidade. Histriões escolhidos a dedo, entre as famílias de renome (as abastadas e as falidas), convergem ao salão nobre de um dos nossos palácios para mostrarem o quanto a boa sociedade sabe rir-se de si mesma.

Banqueiros do monopólio, churchills de cachimbo e relógio de bolso, marilyns de vestido levantadiço, einsteins de cabelo eletrizado, gueixas e jogadores de futebol, papas e afrodites de túnica branca (com a sua fíbula de ouro), quixotes e sanchos barrigudos, pares venezianos emplumados, o baile é um catálogo profuso de máscaras e trajes.

Ao contrário dos foliões labregos de rua, aqui impera o charme e o bom gosto: nada de insultos ao poder, nenhuma insinuação de cariz sexual, menos ainda provocações ao juízo corrupto ou ao patronato explorador.

– Este baile melhora de ano para ano – diz com gosto imenso, por entre fumaças de boquilha, Teodora Burmester, uma das sócias fundadoras desta tradição.

– Completamente de acordo, minha querida. Completamente… – anui, com ademane, Bernardo de Souto Avelar, professor universitário. – Isto é o Entrudo, no melhor sentido que lhe dá o meu querido Bakhtin! Uma rebeldia!

Serpentinas e champanhe, música de Brahms e Corradini (misturada com jazz, salsa e até algum pop rock), frases polidas e politicamente corretas, leques e charutos. É um acontecimento na nossa cidade. O veneno da má-língua aqui não entra. Aqui leva-se o fingimento muito a sério.

NOS SONHOS TODOS SOMOS CEGOS

Holger Droste
Foto: Holger Droste

 

Tom K. Maxwell, condutor de um camião de recolha de lixo, não pôde desviar os olhos certa noite da montra de uma conhecida marca de automóveis, onde se anunciava um novo topo de gama, descapotável, vermelho, igualzinho ao que vira em sonhos anos antes.

Sanchez, o eterno parceiro de giro, depois de se certificar que a grua depusera no ponto exato o contentor grande de plástico rígido, disse «Podes arrancar, Max!», mas a atenção do condutor continuou no vidro do stand, incapaz de decidir se via o que sonhara ou se sonhara de facto o que via.

«Arranca, tío! Está um frio de rachar!»

A cidade de Norwich, como todas as cidades à hora em que todos dormem, oferece a quem nela se passeia (não vemos porque não admitir que o trabalho de uma equipa de limpeza seja uma passeio) pensamentos singulares e boas conversas de turno.

«Sempre quis ser engenheiro» explicou, dando ao volante uma guinada mais brusca. «Ai, sim? Engenheiro de quê? Sempre pensei que tivesses falhado uma carreira no baloncesto». «Engenheiro de carros, pá!». «Mecânico, queres tu dizer?». «Não. Engenheiro. Daqueles que desenham grandes máquinas, estás a ver?».

O camião, porém, foi obrigado a parar.

Entravam agora em La Mancha, uma zona suja de bares e vidros partidos. Os pneus calcaram-nos com displicência, como quem esmaga bolotas. O colega de Tom K. saltou para o asfalto, engolido num abrir e fechar de olhos pelo seu próprio bafo. Quis verificar a conexão da grua, que com o seu braço incansável caía uma e outra vez sobre os recipientes apinhados. Entre içá-los, voltá-los do avesso, sacudi-los e pousá-los de novo decorriam sete minutos e quarenta e cinco segundos.

Maxwell, ao comando agora de um painel com pequenas alavancas e botões, comprovou-o pelo espelho retrovisor. Os giros da noite são tranquilos. Para se manter atento, precisa de pormenores novos. Nessa noite havia um vapor a subir do chão como nos filmes noir de que gosta tanto. Além de engenheiro, jogador, segurança em boates e falcatrueiro num negócio de cerveja artesanal, podia ter sido um poeta vagabundo, como certas personagens dos livros que lê.

«Aquele descapotável estava nos meus sonhos há anos!». «Falas de quê?». «A bomba que vimos há pouco…». «O que tem?». «Eu desenhei-o, meu!». «Tu desenhaste-o?». «Tinha-o na minha cabeça há anos, acredites ou não!». «Arranca mas é, tío!».

O ar desinteressado, anafado, tolhido de frio, do espanhol, irritava Maxwell. A espécie humana pode ser tão ignorante. «Às vezes eu sonho coisas, vejo-as antes de acontecerem, meu! Percebes?». «Hombre, nos sonhos todos somos cegos…». «Essa é boa. Eu vejo coisas. Distintamente. E muito antes de se tornarem realidade!». «Prego a fundo, tío. Temos mais de meio setor por fazer!»

Nós, que assistimos a este diálogo, seremos benevolentes. Há pessoas com o dom errado. Nem por isso deixaremos de acreditar nelas.

DE OUTRA FORMA

Mario Jean

Depois de terminada no metro a leitura do romance Samarcanda, que lhe emprestara uma colega de curso, o estudante e admirador de arte antiga Filippo Zanutti não deixou de cismar um segundo no quanto a História nos cumula de estranhos episódios, nos quais, como pela boca de uma sarjeta (ele refletia sobre o naufrágio do Titanic), se escoam peças inteiras de puzzles intricados e agora, por causa disso, indecifráveis.

«É uma lástima que assim seja» pensou.

Saiu para a Piazzale, caminhou um pouco, depois entrou, como faz todos os sábados de manhã, no quiosque das flores, escolheu, pediu e pagou. Em seguida dirigiu-se para o Cimitero Monumentale. Entre todos os lugares de Milão, este era um dos mais interessantes.

«A morte pode ter uma casa decente. E nós podemos visitá-la como hóspedes educados» explicou Zanutti uma vez à florista, que o atendia cheia de curiosidade.

Ultrapassados os portões brancos, o universitário atravessava os corredores silenciosos e caminhava pelas veredas de cascalho, entre ciprestes e formas de mármore, até se abeirar de certa lápide, onde invariavelmente depositava o ramo.

A primeira pessoa a dar-se conta foi Alda Bianchi, viúva, zeladora e vice-presidente da Associazione Amici del Monumentale, que o fez notar aos coveiros, ao pessoal da segurança e, por fim, ao padre Maximiliano Fiore.

«Mas que mal pode existir nisso?» respondeu o sacerdote.

Ainda assim, fez por esclarecer a sua própria dúvida. Encontrou o jovem de cócoras, com um sorriso alheado, dispondo as flores junto à inscrição com o nome ADINA ROSSETTI.

«Meu filho, não pude deixar de reparar no teu extraordinário empenho. A nossa querida atriz tem em ti um admirador exemplar…».

Pondo-se imediatamente de pé, Zanutti mostrou-se algo embaraçado. Não lhe apetecia dialogar, menos ainda naquele seu refúgio, menos ainda com um padre. Escolheu as palavras com cuidado.

«Os gestos não devem ser desperdiçados, nem negligenciados. Gosto de homenagear.»

«Com certeza… Adina Rossetti foi uma mulher talentosa. Dizem, também, que a mulher mais bela da sua geração… Espanta é que um jovem de agora se interesse por alguém falecido há tanto tempo!»

O estudante de arte enristou a expressão.

«O tempo não devia enganar-nos tanto, padre… O senhor sabe perfeitamente que o que viveu ainda vive, viverá para sempre se assim quisermos… A beleza, como o amor, não morre…» replicou, comovido. «De outra forma, Cristo estaria morto!»

Perplexo, surpreendido pela audácia, o padre viu-o afastar-se. «De outra forma, Cristo estaria morto!» murmurou.

Alguém que tivesse escutado estas palavras, poderia com elas, sem dúvida, escrever uma boa história.

ROMÃO

Dr. Mimi
Dr. Mimi

 

Foste a única pessoa que conheci até hoje que não matou um único animal. Exceto talvez os piolhos, se os tiveste alguma vez. Exceto talvez as lombrigas… Foste a primeira pessoa a recusar, numa célebre vindimada, a cabidela da minha avó e a provocar o caos nos grandes potes de ferro, onde a galinha acabava de cozer sob a vigilância de minhas tias e progenitora.

‒ Ó minha mãe, o que é que o homem vai comer?

‒ Eu sei lá o que é que ele vai comer! Olha, come um caldo de coibes!

Cheiravas a sabão clarim (nunca me lembro da feição das pessoas, mas dos cheiros sim – fica-me deles a fotografia penetrante e inesquecível): a camisa de linho arregaçada nas mangas, as calças com suspensórios, as socas de grandes tachas douradas nos pés, a navalha nas mãos e o perfume do sabão (será sempre o melhor de todos), como se nenhuma mácula pudesse tocar-te.

Vejo-te ainda, velho amigo, sentado na mesma tampa de cimento do poço, os cães aninhados entre as tuas pernas, os pássaros a comer-te das mãos (bicando por entre os dedos grossos e cheios de cicatrizes), os pintos amimalhados seguindo-te no quintal, a abelha amestrada que exibias com gosto mas sem vaidade. Vejo-te ainda na mesma posição, quieto e profundo, como um apóstolo fora do tempo.

‒ Isto aqui é uma paz… Assim que debe ser…

Porque aquilo ali, a casa do avô, tinha o seu quê de pacífico, entre eucaliptos e carvalhos, caminhitos de terra batida, tanques e regos de água, ervas e nastúrcios, um cento de plantas de todas as formas e aromas… Aquilo ali era uma paz. Vinham os andorinhões e as magníficas pegas-rabudas… Vinham os ouriços-cacheiros e às vezes a raposa… Vinham os soberbos torvelinhos de ar puro dos campos, das magnólias e árvores de fruto de ao redor da casa.

Mas era com a bicharada que te entendias melhor.

Era com ela que partilhavas a alegria do verbo durar. E os bichos pareciam compreender-te, procurar-te, querer-te. Os gatos preferiam o teu colo. Os pardais respondiam aos teus assobios. As borboletas vinham poisar-te na nuca. As pombas gingando o pescoço pareciam dançar para ti. Vejo-te, ainda, sorrindo e fechando os olhos, como um franciscano fora do tempo, enternecido e um pouco doido.

Uma vez vi-te a ajudar um louva-a-deus a pular a parede até à esquadria da janela e a convidá-lo a ir.

‒ Bai lá à tua bida, meu grande tolo…

E o louva-a-deus, como iria um aranhiço, uma formiga ou uma mosca enjaulada, foi.

‒ Bai lá à tua bida, meu grande tolo…

Lá, em casa do avô (onde, tocados pelas recentes modas francesas, subíamos escaleiras no lugar das escadas e nos deliciávamos com a chofagem, que ventilador era coisa que não se dizia), todos te julgávamos c’est fou, um c’est fou adorável, adorável e raro, por causa daquela coisa nas minas.

– Trabalhei acajo quinze anos nas minas de Llombera, em Espanha. Aquilo era duro… quinhentos metros abaixo do chão, ou mais …

Andava já na escola. Quinhentos metros eram dez vezes seguidas o nosso recreio. E sempre para baixo, como num abismo.

‒ Nem as mulas queriam ir… Bem lhe punham bendas nos olhos, mas as coitadas já sabiam pró que iam… Punham-se a dar pinotes…

‒ Ó Sinhor Romão, e as mulas iam lá pra baixo porquê?

‒ Atão? Para ajudar nos bagões…

Não há quem resista a uma boa história contada na primeira, nem a uma boa crónica revista na terceira pessoa. Nós éramos olhos e ouvidos e um nariz. Um bando de miúdos esquecidos das mãos, das fisgas e das caixas de fósforos, caçando imaginariamente o breu e os sons que subiam da terra, aonde tu te entranhavas doze horas por dia, de picareta em punho.

– Depois sucedeu o que tinha de suceder.

– O que sucedeu?

– A explosão.

– Qual explosão?

– Foi um arrebentamento… Um morreu logo. Outro morreu depois. Eu fiquei todo desfeitinho, as tripas bieram cá para fora, mas escapei… Para dizer a berdade, não sei como escapei!… Tiberam de as pôr num lençol. E cum elas assim postas à minha beira fui parar ao hospital… Depois disso nunca mais trabalhei…

Imagino agora, à distância limpa em que os factos se veem melhor, o relâmpago ensurdecedor, o sismo nas galerias do inferno (tábuas esfarrapadas, o elevador avariado, o urro das alimárias), o cadáver e os corpos esfacelados, o sangue espirrado nos filões do minério, o pânico nos olhos imersos em escuridão, em suor e em cansaço, tu levado numa ambulância anacrónica, desde as montanhas até Madrid, moribundo, com as vísceras ensacadas num lençol arranjado à pressa.

Foste a única pessoa que sabia já em miúdo ser uma pessoa única. E eu respirava o cheiro do sabão, sem poder compreender que aquela tua serena brancura ao sol (a navalha nas mãos, as socas de grandes tachas douradas nos pés, as calças com suspensórios, a camisa de linho arregaçada nas mangas, em cima da tampa do poço) pudesse alguma vez ter sido conspurcada pelo horror de uma noite tamanha.

Escrevo para ti, Romão, com saudade. Cada vez mais preso a esse maravilhoso arquipélago formado pelas memórias, intocado e intocável, onde sobressaem rostos e nomes e façanhas. Talvez por compreender cada vez menos este oceano desprezível de dias informes e sem fundo. Tu eras soberbo (um c’est fou) e eu devia-te, devo-te há muito, este texto. Se em algum lado estiveres, um abraço, o meu abraço, velho amigo!