SOPHIA

Sophia - Eduardo Gageiro
Foto: Eduardo Gageiro

 

Mergulho no dia como em mar ou seda
Dia passado comigo e com a casa
Perpassa pelo ar um gesto de asa
Apesar de tanta dor e tanta perda

Sophia de Mello Breyner Andresen, O Nome das Coisas

 

Os meus alunos reagem sempre com surpresa quando nas aulas lhes digo que “amo” este ou aquele escritor, especialmente se o dito é ou foi homem, sobretudo se o digo com a sincera entoação com que se diz (ou deve) amo. Recordo palavras deste género para com um Tomas Tranströmer, um Herberto Helder, um Salah Stétié, um Fernando Pessoa, um Tonino Guerra, um Pablo Neruda, um Federico García Lorca, um Czesław Miłosz, um Ruy Belo.

Cada vez menos acostumados à subtileza da arte e à figuração do discurso, os meus alunos perguntam à boca cheia, como quem afirma, se sou “panão”.  Ou então, pior ainda, sugerem-no com piadas de caserna.

Escuso de dizer que me incomoda a mistura de preconceito e estupidez (porque os miúdos são cada vez mais estúpidos, mesmo quando são espertíssimos), a má-criação e a ousadia, a certeza de que o futuro vem já muitíssimo comprometido a julgar pela má amostra do presente, e que a escola, em vez de se afirmar como um espaço de elevação, curiosidade e mente aberta, acolhe adolescentes torpes, atrasados e imbecis.

Vem tudo isto a propósito, ou talvez a despropósito, do meu amor (nunca disfarçado nem diminuído) por Sophia. Porque eu amo, na verdade, Sophia.

Sophia de Mello Breyner Andresen é, de resto, um nome quase religioso, que em nós entra como o rútilo do sol nas manhãs mais doces e nos acompanha pelo dia fora, desabrochando pensamentos, preenchendo-nos de reflexões, escandindo frases belíssimas que a boca repete e os olhos fixam.

Não farei aqui um panegírico (detesto louvaminhas), mas, e com a toda a genuína ingenuidade que pode um leitor de longa data aquilatar, não resisto a biografar a minha sedução pela obra da autora de A Menina do Mar, d’ A Fada Oriana, d’ O Cavaleiro da Dinamarca, das Histórias da Terra e do Mar, dos magníficos Contos Exemplares, de Coral, do Livro Sexto, de Geografia, de Navegaçõesou de Ilhas, estes últimos livros de poesia puramente solares e veementes, ressonantes, espumosos como o próprio mar que anima e inspira.

Quando, nos meses do verão passado, ouvi e reouvi a entrevista de Isabel Nery a Luís Caetano, no programa A Ronda da Noite, a pretexto da biografia que acabei por ler sobre a escritora, não pude deixar de me surpreender com o sofrimento sentido em cada revelação, em cada defeito e pecado a ela apontados, em cada linha que devolvia essa mulher à condição humana. Talvez porque, admito-o, ao longo de décadas fui fabricando a ideia de que Sophia era uma deusa, uma espécie de númen tardio do panteão grego, tão de mármore quanto Atena ou Apolo, tão misteriosa quanto Hermes ou Dioniso, e não humana já, não deste mundo de vis e covardes, e muito menos com taras como a de usar pinça para tocar em dinheiro ou de lavar o cabelo com vinho no mar.

Sophia é, mitomania particularíssima esta, a minha própria evasão para o oceano.

Quando viajo até à Foz do Porto, quando caminho pelo Passeio Alegre, quando me demoro na pérgula colorida que aí nos abre o olhar sobre o azul do céu e do mar, quando me debruço sobre as grades ferrugentas junto ao farol, quando me salpica o mesmo sal que oxida a pedra e o ferro, eu repito de olhos fechados versos como «Um dia serei eu o mar e areia, / A tudo quanto existe me hei-de unir, / E o meu sangue arrasta em cada veia / Esse abraço que um dia se há-de abrir».

Quando me dou conta da corrupção galopante que nos asfixia de alto a baixo, e nos envenena a verdade e o mérito, e nos faz desacreditar no país a que devemos a vida, a língua e o nome, revolto-me, sublinho outros versos, outro dizer e outra lucidez de Sophia, outra coragem como a que pôs em Mar Novo: «Este é o tempo / Da selva mais obscura // Até o ar azul se tornou grades / E a luz do sol se tornou impura // Esta é a noite / Densa de chacais / Pesada de amargura // Este é o tempo em que os homens renunciam.»

Quando, numa turma do básico ou do ensino secundário, me sinto impelido a citar, a exemplificar, a explicar um tropo, uma figura de estilo, ou uma sequência descritiva, um efeito de linguagem com adjetivo e nome, uma qualquer maravilha sintática e semântica, recorro invariavelmente a textos como os que Sophia compilou nos seus livros narrativos ou mesmo nas notas poéticas em prosa, como em «Caminho da Manhã» do Livro Sexto, que escutei uma vez a Eunice Muñoz na Antena 2. Porque a escrita desta mulher é, de facto (metáfora provavelmente gasta) repleta de luminosidade, esquadria e perfeição. Ensinar gramática com Sophia é diferente. É como trabalhar num laboratório com música. Ler em voz alta as suas histórias é regressar aos tempos em que o «Era uma vez» silencia miúdos birrentos e os faz comer a sopa que não querem (tem-me sucedido fazê-lo a turmas do 8.º ano e encontrar o rosto dos miúdos desviados do livro, a cismar, a ouvir meio absortos, seduzidos, esquecidos da aula, a amar Sophia à sua maneira, incertos de tudo, como se as palavras dela os hipnotizassem). Esquadrinhar os seus poemas é aventurar-nos num exercício de arquitetura clássica, com pórticos e pilares e terraços limpidamente desenhados e sem mácula.

Estudei no Porto, no Campo Alegre. Algumas vezes visitei o Jardim Botânico. Quando o fiz, pus a mão no rapaz de bronze a meio do buxo. Pensei nesse Hans pelágico, bisavô, vindo do norte da Europa. Evoquei as antigas quintas e as muitas árvores que do lugar onde hoje arqueia a Ponte da Arrábida, lá do alto, desciam até ao rio. E não há vez em que não me lembre das suas personagens ascetas ou aristocratas se me embrenho pelas ruas muito direitas da Foz e me deparo com essas janelas aximezadas onde secretamente espreitam candeeiros acesos, sofás de couro e estantes repletas de livros.

Sophia é todo um espaço mental que não sei confessar ou traduzir. A sua estatura é enorme e as raízes que dela despontam profundíssimas, porque é porventura o caso literário mais próximo de uma enorme árvore. Sophia ampara-nos aos quatro ou cinco anos e torna-se um caso sério de amor. Eu, que nunca a conheci pessoalmente, conheço-a desde as aulas de português do professor Miguel Monteiro, saudoso mestre que nos leu na bibliotecazinha do ciclo preparatório um excerto de A Noite de Natal. Nunca esqueci essa manhã.

Brevemente, no dia 6 de novembro, completar-se-á um século do seu nascimento. Haverá seguramente uma miríade de efemérides celebrativas, bustos e placas descerrados nas nossas ruas, leituras e dramatizações nos teatros nacionais, testemunhos emocionados na televisão e nos jornais. Pela minha parte, julgo tudo isso merecido. À minha maneira homenageio-a lendo-a e fazendo-a ler. Aos meus sobrinhos, pequenos ainda, ofereço já os contos maravilhosos que hão de constituir parte da sua formação e afeto literários. Conto-lhes o enamoramento de Vanina e Guidobaldo, a distração da fada boa que se equivocou, a mágica circunstância da menina que vivia com um caranguejo, um peixe e um polvo.

Talvez no futuro outros jovens leitores de agora tornem mais fácil o ensino de então. Sophia não pode faltar nas salas de aula de 2050 ou 2100 ou 2119. Nessa altura, quem sabe, estes e outras palavras afins, façam mais sentido.

Sophia, porque a amo, merece!

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O MEDO DA MORTE E OUTROS MEDOS

O MEDO DA MORTE E OUTROS MEDOS

Anette Ohlendorf
Foto: Anette Ohlendorf

 

As salas de espera nos hospitais são lugares incríveis, desconfortáveis, ruidosos, atarracados, repletos de pessoas numeradas, numerificadas, anónimas, cheias de velhice precoce ou consumada, com compressas e ligaduras, deitadas em macas ou presas a cadeiras de rodas, babando-se ou resmungando, ansiando pela chamada do intercomunicador, pedindo outra vez para ir à casa de banho, manejando o telemóvel horroroso (que não para de tocar e toca altíssimo), berrando pela filha que saiu do campo de vista ou contra a mãe que fez chichi pelas pernas abaixo e obriga agora à intervenção de uma funcionária de bata azul e muitíssimo mau-humor.

Chega-se muito antes da hora marcada para a consulta, procura-se uma cadeira plástica livre, limpa, menos retorcida se possível, senta-se nela a angústia toda, devagar, muito devagar se possível, para que a paciência esgote aos bochechos e não de uma vez só, o diabo leve para longe uma crise de pânico, e então, sim, tem-se uma visão claríssima da nossa condição.

O cavalheiro que não deixou de me perseguir com o olhar desde que cheguei é, literalmente falando, um velho conhecido. Cruzámo-nos num corredor da Imagiologia em junho, na Imunohemoterapia em julho, num WC em agosto. Podia dizer que o mundo é pequeno, mas a expressão parece-me duplamente redundante, porque o mundo é mesmo pequeno, para mais dentro de um hospital, e o mundo dos doentes é menor do que o mundo pequeno das outras pessoas, é um mundo asfixiante, uma casca de noz!

Na fila da frente, há uma mulher de lenço na cabeça. É um lenço bonito, elegante, feito de um rosa macio, nacarado, de onde brota uma esperança que me comove. Podia ser verde, ou azul, ou violeta, ou salmão. A mulher tem um rosto fino, não sei dizer se jovem ainda ou já não, mas belo, muito belo, atraente. Gosto de me distrair descrevendo-lhe os lábios, as pestanas, o rubor que pinta as suas faces e contrasta com os olhos  amadurecidas pela surpresa.

Quase sempre trago um livro ou o Ipad. Às vezes rabisco um apontamento e faço de conta que não pertenço às estatísticas, que sou um intruso, que não venho ouvir notícias duras, que os ponteiros funcionam de maneira diferente para mim. Chego a esquecer-me das dores nas costas, e da espécie de enxaqueca que se vai costurando na minha cabeça, e da fome, e da sede, do maldito cigarro que alguém decidiu fumar além, ali mesmo, para lá da curta porta que os sensores mantêm sempre aberta e sempre a fechar-se.

Durante a espera há tempo para tudo.

Às vezes atrevo-me a olhar para as pessoas de frente. Explico-me, a observá-las sem piedade, com ousadia, fundo, perscrutando-as até aos ossos. Deve ser uma prática criminosa, porque às duas por três me arrependo, me sinto vexado, me encho de remorsos e de culpa. Sinto-me então ainda mais cansado e mais triste. É como se outra pessoa tivesse ocupado o lugar que deixei vazio e essa pessoa fosse eu a olhar-me ao espelho sem me reconhecer.

Será que na sala há outros monstros como eu? Em que pensará toda esta gente? O que sentirá? Que medo a fará pregar-se ao chão e não agir com ímpetos de motim?

Regresso então ao ancião conhecido, que me segue sempre com um misto de carinho e de espanto («O que trará um rapaz tão novo a este lugar tão tenebroso?», «É o que eu digo, elas vêm cada vez mais cedo!», «Se calhar, é um cancro.», «Sei de miúdos cada vez mais novos a morrer assim…»). Percebo que me quer o nome, a idade, a confirmação da maleita. Adivinho-lhe os pensamentos, apetece explicar que não sou assim tão novo, que não tenho (segundo o apurado até à data) um mal tão grande, que isto se vai resolver, que há na vida complicações inesperadas. Percebo que talvez gostasse de me falar da sua própria enfermidade, dos filhos, dos netos, especialmente, quem sabe, daquela que é enfermeira em Londres e o orgulho da família («Sabe você que tenho uma netinha, pouco mais nova será que o senhor: foi trabalhar há coisa de um ano, ano e meio, para Inglaterra. É uma miúda do dianho. Foi sem medo, ganha muito bem!»).

Mas nunca trocámos uma palavra.

Porque me divido agora com a senhora do lenço na cabeça. Tão bonita, tão triste, tão saturada da vinda a este e a outros banquetes semelhantes, tão só («Descobri há meses um nódulo no peito e foi o começo», «Já uma irmã minha morreu por causa do cancro da mama», «O que custou mais foi a quimioterapia. Nessa altura, fiquei com a boquinha toda em ferida.», «Agora, se Deus quiser, isto vai passar…»). Não descortino um modo de iniciar com ela uma conversa. Nem valerá a pena. Não suporto tamanha tristeza. Não saberia contar-lhe algo engraçado, tragicómico, apropriado à situação («Olhe, estou aqui sem saber bem como. Foi como um macaco ter caído de um galho. Descobri tudo por acaso…», «A vida prega-nos rasteiras inacreditáveis. Fui a uma consulta, supondo que me raspava em cinco minutos, e fiquei internado onze dias»). As desgraças cansam, maceram, desgraçam-nos.

Nunca faço nada de relevante. Não consigo concentrar-me.

Sinto que aqui cheira a medo. Na verdade, a diferentes tipos de medo: a medo de que a espera se prolongue interminavelmente; a medo de más notícias; a medo de que a filha subitamente desaparecida não volte para a nossa beira e um bando de estranhos nos capturem e encaminhem para qualquer lado incógnito, incompreensível, irreversível, infernal; a medo de que a nossa mãe demente volte a protagonizar um escândalo na sala (onde já se viu, fazer chichi pelas pernas abaixo?) e de que a funcionária terrível, carrancudíssima, nos passe uma descompostura monumental; a medo de que na sanita faltem o papel e a higiene e de que, nesse preciso instante (em que intestinos e bexiga atingem o limite), soe o nosso nome e a indicação do consultório no altifalante. A medo decerto de sermos afinal tão frágeis como acreditamos que somos; de que se repita uma epistaxe, de que se solte um flato, de que em desespero de causa se diga um palavrão. A medo da velhice. De ficarmos nessa ou naquela maca com algália e saco repleto de urina de lado; a medo de que as palavras sejam a partir de certa altura apenas chocalhos mentais, átomos a bater contras as paredes da cabeça, ideias confusas, morte.

Normalmente, tudo termina quando nos levantamos e nos dirigimos para certa porta. Depois, alguém de bata branca, voz mansa e olhos risonhos apazigua todos os pavores. Não sei como se passará com o velhote que me espia, nem com a senhora de lenço na cabeça que eu espiei. Julgo que é só uma forma de ver as coisas, ou também isso será uma feição do medo: medo de não se saber nada, de não se ter certeza sequer de que à nossa volta outras pessoas existam.

OS PROFESSORES SÃO IMPRESCINDÍVEIS. PONTO.

Marco Tagliarino
Foto: Marco Tagliarino

 

Não me julgo capaz de medir a importância de nenhuma classe social (quando escrevo «classe social», refiro-me evidentemente a um grupo de pessoas suficientemente próximas umas das outras pelo que são e pelo que fazem juntas, pelo que ganham e pelo que perdem diariamente sendo e fazendo, pelo que sofrem e pelo que ambicionam ganhando e perdendo todos os dias, sendo e fazendo), exceto talvez aquela a que pertenço.

Sou professor.

Com muito orgulho (lá no fundo), com muitas ganas (pelo menos nos dias bons), com talento (suponho), com suficiente destreza e atrevimento (sim) para continuar a sê-lo apesar de tudo.

Sou professor há 20 anos. Contratado, de Português, do ensino básico e secundário. Com experiência alargada ao ensino superior (não gostei), a alunos estrangeiros (adorei), sem esquecer a idosos que nunca, antes de mim, tinham tido aulas formais na sua língua materna (a melhor de todas as coisas que me aconteceram no espaço da sala de aulas). Um entre tantos que se vão desiludindo, a quem uma certa centelha de alegria se vai apagando aos poucos, por não suportar o país imbecil que os trata mal, entenda-se, que os destrata de alto a baixo; entenda-se, dos gabinetes do Ministério às conversas de rua.

Acima, atrás, há pouco, sublinhei o apesar de tudo.

Porque ser professor em Portugal implica uma capacidade quase estoica de suportar dificuldades que começam e acabam no desaforo dos meninos e pais malcriados (eventualmente violentos e desentendidos com a escola) e passam pela permanente sensação de instabilidade (uma teia legislativa imparável, desenhos curriculares sucessivamente reconstruídos, regras de concursos alteradas), sem esquecer a afronta salarial e o descaramento dos governos no tocante ao (des)congelamento da carreira e sistema de avaliação.

Esqueci, não propositadamente, o facto de, para trabalharem, muitos professores terem de se deslocar de casa centenas de quilómetros. Pagando rendas exorbitantes. Pagando portagens. Pagando combustíveis. Sem ajudas de custo. Sem proteção à habitação de espécie alguma (não será de espantar que no Algarve e em Lisboa se encontrem professores a viver em parques de campismo). Sem o reconhecimento, sequer, de uma sociedade que se habituou a queixar-se dos privilégios dos políticos, magistrados e administradores de empresas estatais e que não vê motivo para estender aqui, nesta questão concreta, uma migalha aos professores afastados da sua família, por ser o seu trabalho e, entenda-se, a sua obrigação!

Estamos mal. Os professores são mestres, são docentes. Entenda-se, ensinam.

Quanto a mim, que amei os meus professores (não serei hipócrita a ponto de omitir que detestei alguns), que lhes reconheci mérito e génio, que lhes agradeço as imensas lições, sabedoria e competências que me proporcionaram, que lhe imito ainda a fleuma e o fair-play, o sentido de humor e o sentido de responsabilidade, a dedicação e a exigência, só posso afirmar que são a melhor classe de pessoas com que tive o privilégio de conviver.

Acrescento a esse grupo fabuloso de profissionais talvez os enfermeiros e cuidadores de saúde (nos lares em especial), alguns médicos, um ou dois padres, um ou dois mecânicos, um ou dois pasteleiros, talvez meia dúzia de livreiros e poucos mais.

Não se percebe que profissionais dedicados, quase em regime de abnegação, sejam olhados como parasitas, ingratos, incompetentes, preguiçosos, estúpidos, incapazes de impor ordem e disciplina, queixinhas, etc.

Estamos mal. Porque todos os apodos que usei no parágrafo anteriores são os que se usam diariamente para acusar a classe dos professores. Pior, para dividir os professores entre os bons e excelentes (somente uma parte pequena) e os maus, malucos, horríveis, malcheirosos, ignorantes, peneirentos, maníacos, exigentíssimos, insuportáveis e por aí fora.

Não me julgo capaz de medir a importância de nenhuma classe social, insisto. É provavelmente um exercício para um comentador de televisão, não para quem tem ainda este fim de semana uma pilha de testes de diagnóstico (minto, de avaliação formativa inicial, para corrigir) e as aulas da próxima semana para preparar.

Contudo, tenho este desabafo a bailar na boca: não me estou a ver a fazer outra coisa.

Gosto da sensação de abrir a porta da sala de aula e saudar os meus alunos. Gosto de levantar as cortinas e deixar a luz entrar e de dizer algo belo e sensível. Gosto de os ouvir confessar algo surpreendente, algo impensável como uma ida a Serralves que valeu mesmo a pena, um filme afinal muito bom que eu lhes sugerira semanas antes, um livro fantástico de Gabriel García Márquez (muito melhor que os de Nicholas Sparks, John Green ou Sidney Sheldon)…

Ser professor é exatamente a medida da diferença.

Qualquer coisa como aquela peça minúscula, quase indetetável entre rodas dentadas e alavancas, que fará girar a vida noutra direção, que encaminhará um improvável adolescente rebelde para um curso de engenharia ou para uma faculdade de arquitetura ou para um instituto de medicina. Ou que, não os encaminhando para tão longe, os faz compreender uma vocação indescoberta e os conduz para o outro lado do mundo, atrás de um sonho novo, seja a bordo de um avião ou de um navio, seja em terra a defender animais e florestas, a fotografar montanhas ou a grafitar escombros e miséria.

Neste dia 5 de outubro, quero somente dizer OBRIGADO àqueles e àquelas que me tornaram no que sou: aos meus pais (primeiríssimos professores) e aos meus professores (segundos pais) a quem devo tanto. E com «tanto» quero dizer, sem tirar nem pôr, tudo!

CATEDRAL DE SÃO MIGUEL E SANTA GUDULA, BRUXELAS

IMG_7776o caminho de uma catedral é a passagem drástica do exterior para a sombra e depois, paulatina, a passagem da penumbra para a luz, a admirável presença do silêncio nas imagens que passamos a ver e antes não víamos por excesso de ruído. é conhecida a minha preferência pela arquitetura gótica, o meu fascínio pelo rigor geométrico absoluto, pelo deus que nelas desenhou, cortou, esculpiu, ergueu a pedra e o vidro, o metal e o próprio ar, o meu amor pela linguagem secreta das junções entre o cosmos e o corpo

assim que transpomos o pórtico e caminhamos pela nave lateral à esquerda, os séculos atropelam-se. primeiro, uma inscrição em inglês e latim, a lembrar o milhão de mortos do império britânico na primeira grande guerra (muitos dos quais, lê-se, jazem em território belga). depois, o colorido hagiográfico dos vitrais. por exemplo, este onde os meus olhos agora se detêm, retratando o colóquio de um monge e um secular, mesteiral, burgomestre, quem sabe, com molho de chaves na mão. mas é noutro plano, mais distante, em fundo, que me surpreende o cenário. genufletindo, um outro homem (ou mulher com vestes de homem) recebe o chamamento. o pintor fê-lo admiravelmente, fazendo descer sobre o seu rosto o traço amarelo, vivo, oblíquo (agora mais iluminado pelo fulgor da manhã de agosto) da revelação

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percorremos o transepto, tocamos a estátua dourada do arcanjo Miguel, carregando sobre o demónio (um crocodilo, de boca aberta e dentuça ameaçadora), depois a abside, a nave oposta. aí, para lá da galilé, os crentes celebram uma missa. contemplamos o órgão e o púlpito, trabalhadíssimo, de madeira negra, formidável. acendemos a nossa vela, rumorejada com palavras de amor e petição

nunca sei o que sentir nestes lugares. e, no entanto, os pormenores regressam, como nós regressámos nesse dia ao coração da cidade. às vezes na luz impura, vejo-os como recortes nítidos e nostálgicos e medito sobre o seu significado

qualquer que ele seja, é pessoal. creio que o caminho de uma catedral é esse

29.09.2019

BRUGES

Bruges 1

chegámos à cidade ao início da tarde. depois de nos apearmos do autocarro, avançámos por uma espécie de pista de tartã em direção ao centro. havia um casal de russos, havia de minuto a minuto o som espaçado de uma bicicleta (todo o ruído ali, aliás), havia a memória fixa de Amesterdão, dos subúrbios húmidos onde crescem álamos e nevoeiro, do Vondelpark pejado de corvos e estrangeiros, dos quadros de Brueghel reproduzidos em calendários de bolso

sempre gostei de lugares onde se chega a pé aos lugares, onde as árvores e a poesia crescem juntas na mesma água e na mesma terra, digo, na mesma luz, onde o silêncio é tão limpo quanto o chão e o vidro das janelas

entrámos em Bruges por uma grande praça ladeada de casas antigas, hotéis, um curioso edifício feito de grandes tubos verticais por onde o vento ecoa, exportando um som indefinivelmente musical e alienígena. traçámos a nossa rota anárquica, observando as grandes cúpulas das igrejas e os nichos dos santos, fotografando o nome das ruas e as singulares numerações pintadas nas paredes de tijolo, apontando mentalmente pormenores (a rapariga das tranças a transportar os manuais escolares novos, o leão flamengo a dançar na bandeira amarela sobre os telhados, as extravagâncias de chocolate nesta e naquela vidraças)

Bruges 2

caminhámos em meia lua, depois em reta, por cima de ladrilhos artísticos, através de uma pontezinha, nas traseiras de uma catedral, lado a lado com os barcos repletos de turistas

sobre um canal dois octogenários de mão dada abraçaram-se, depois deram um beijo. vimos sorrisos trocistas, ouviram-se exclamações em pelo menos três línguas. a tarde pareceu-nos  uma cortina dourada caindo sobre os jardins. julgo que terei dito algo a propósito de Bruges ser uma dessas cidades onde gostaria de viver

não creio ter sido escutado. na verdade, ainda é

27.09.2019

PARQUE NACIONAL DE TIMANFAYA

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Fotos de arquivo pessoal (2018)

El 1 de septiembre de 1730, entre 9 y 10 de la noche, se abrió de pronto la tierra a dos leguas de Yaiza, cerca de Chimanfaya. Desde la primera noche se formó una montaña de considerable altura de la que salieron llamas que estuvieron ardiendo durante diecinueve días seguidos.
Relato de Andrés Lorenzo Curbelo Perdomo, cura de Yaiza, intitulado Diario de apuntaciones de las circunstancias que acaecieron en Lanzarote cuando ardieron los volcanes, año de 1730 hasta 1736

ao quarto dia entranhámo-nos no centro-sul da ilha: de manhã Tinajo, à tarde San Bartolomé, Tías, La Gería, Uga, Yaiza. volto a espantar-me com a limpeza e brio dos lanzarotenhos, em cujas povoações não permanecem muito tempo à solta o maldito plástico ou o maldito ruído. fotografo a estrada, uma reta gigantesca que, submergindo de quando em quando num declive, reaparece quilómetros mais à frente, até se perder de vista, muito longe, no sopé de uma das escuras montanhas que por cá proliferam. depois fazemos um desvio para subir lentamente, de curva em curva, até ao lugar onde nos recebe um diabo de pernas escancaradas e braços abertos, cauda pontiaguda, a segurar uma tábua com a legenda PARQUE NACIONAL DE TIMANFAYA

dominada por vulcões sucessivos, a paisagem repete-se. talvez por isso, a boca procura agora mais fundo para dizer melhor, para dizer diferente. esperamos uma hora, apeados, dentro do carro, numa monstruosa fila que quase não avança, observando os cones que se multiplicam de lés a lés, de cores tão vivas como o açafrão e o ocre, o vermelho, o laranja, o verdete, ou o marrom, cores muito misturadas, sotopostas, em estrias, em cachos, escorrendo umas sobre as horas. esperamos. às vezes a beleza cansa, facto blasfemo mas verdadeiro. esta beleza confunde os sentidos. não, não há palavras para ela

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entramos no que chamam Islote de Hilario, centro nevrálgico do parque onde o visitante pode estacionar a sua fatigada viatura, dar satisfação às premências humanas, observar em círculo toda a extensão do fenómeno geológico que alimenta este poema, embarcar num autocarro turístico, assistir à prova de fogo, pasmar-se com o jorro de água fervente cuspido a meia dúzia de metros de altura, descansar, comprar recordações. fotografo quase com obsessão, aqui, ali, além, o calor aperta (nada que se compare aos quatrocentos graus que sopram da boca da terra), tu trazes os bilhetes, também nós viajaremos pela estreitíssima rota asfaltada, entre píncaros e vales, a que chamam Vale de Tranquilidade

pelos vidros sujos chega-nos o bizarro elenco que as colunas de cinza fabricaram, fileiras de chaminés e maciços de lava, estranhas formas nodosas e retorcidas que lembram fósseis, crateras e encostas policromáticas, minerais, inóspitas, lunares, nenhuma tão bela como a Caldera del Corazoncillo. assim o diz a gravação que escutamos em castelhano, inglês e alemão, a que nos recorda a grande erupção de 1 de setembro de 1730, a narrativa dramática do padre de Yaiza, a lenda do eremita Hilário, os povoados férteis sepultados debaixo de toneladas de magma

não sabemos decidir se é este lugar um hino à vida ou à morte. prometi escrever sobre o assunto. tanto tempo depois, a dúvida mantém-se

20.08.2019

O REI E O MONGE

Daniel Fleischhacker
Foto: Daniel Fleischhacker

 

Teodorico, o Rei tinha-o mandado chamar e ele foi. Três dias de jornada até perto da capital, até à praia onde o esperava um ror de gente. O desgrenhado eremita entrou no areal, trajando farrapos, segurando um longo cajado, sem um esgar de ansiedade, medo ou hesitação. À medida que avançava para o baldaquino ou tenda real abria-se à sua frente uma clareira de espaço e de silêncio. Por fim, João deteve-se diante do monarca.

Teodorico levantou-se impressionado e deu um pequeno passo na sua direção, mas o monge barbudo recuou um passo maior ainda. Depois, em modo de compasso, o monge escreveu com o cajado um círculo na areia. Ninguém poderia nele entrar, sob pena de extrema maldição e vergonha para a posteridade. O bispo enojou-se do cheiro e do aspeto dos seus andrajos, os nobres arregalaram os olhos, o povo sussurrou.

Teodorico sentou-se e disse:

– Bom homem, agradeço que tenhas vindo. Há muito que te procuro. Os meus batedores trouxeram a boa notícia de que vinhas. Sei da tua santidade, conto com ela para que me ilumines o pensamento!

Os guardas trouxeram então, atados e sujos, sem sinal da anterior opulência e de magnificência, o deposto Almostancir e seis dos seus filhos, califa e senhores das ricas províncias do sul, terras ímpias e infiéis, em cujos palácios se cultivava agora o hábito de lançar seguidores da religião de Cristo a covis de leões e de víboras.

Teodorico não sabia que destino dar a tais prisioneiros. Confundia-o o amor devido ao próximo e o ódio merecido a estes distantíssimos inimigos da fé. Dar-lhes a morte atentava contra os preceitos, deixá-los vivos contra a vitória dos seus exércitos e a segurança do seu império.

– Este homem, rei nascido e agora execrado, matou impiedosamente, com ódio absoluto, incontáveis dos nossos irmãos. Quis a mão de Deus que se fizesse justiça. Tu, o mais desapegado dos filhos de Deus, que escolheste as montanhas para refúgio de todos os perigos do mundo, dirás o que fazer com ele e com os seus descendentes!

O monge ouviu estas e todas as palavras de Teodorico.

– Escutei as palavras do nosso bispo (o bispo afetou uma vénia ao ser apontado pelo rei), escutei as palavras dos meus generais (os chefes militares endireitaram mais o tronco), escutei os homens mais sensatos de entre os mesteirais e camponeses (os representantes do povo ergueram orgulhosamente o rosto), mas em boa verdade o digo: Deus por ti falará!

Viviam-se tempos agónicos, apocalípticos. Nunca como então, no virar do milénio, se desejara com tal veemência o ouro, em lado nenhum como ali se desprezava tanto o sagrado exercício de Paulo de Tebas, Antão ou Macário, santos anacoretas. Era preciso que as Escriturasvoltassem a ser lidas, era preciso que as palavras de Jesus voltassem a soar, nesse terrível século de lutas, limpas e desembestadas, como soaram outrora nas praias da Judeia.

O eremita olhou o rei nos olhos, profundamente, demoradamente, afetivamente. Depois sentou-se no meio do círculo, fechou os olhos, cruzou as pernas, colocou sobre elas o bordão e permaneceu imóvel, ausente, sem uma palavra, durante muito tempo. Teodorico, inquieto, escutava os cochichos crescentes dos conselheiros, o murmurar da multidão, o abespinhar das ondas, o grito selvagem das gaivotas.

Por fim, cansado, impaciente, cheio de tédio, perguntou.

– Então?

O asceta abriu os olhos de novo, levantou-se, fitou o céu e, brandindo o cajado, declarou:

– Porque me perguntas, Teodorico, o que tu próprio sabes já?

O corpo dos prisioneiros pendia, exausto, macerado, sem esperança. Teodorico, o Rei voltou a inquirir.

– Como podes tu saber o que eu sei?

– Foste ungido. A tua semente nasceu da semente d’Aquele que entre nós viveu um dia, as palavras d’Ele habitam as tuas palavras, o que Ele disse tu o dirás… Não perguntes mais!

Depois, perfurando pelo meio da multidão, pelo mesmo caminho por onde veio, o eremita partiu, infundindo nela o mesmo temor de antes. Afastavam-se os homens à passagem, juntavam as mulheres curiosas cabeças nas suas costas. Em breve desaparecia, sumindo-se na floresta que havia de o levar aos lugares trogloditas onde gastava os seus dias.

O monge dissera nada e tudo dissera. As suas palavras eram a afirmação de uma ideia, mas podiam sê-lo também da ideia contrária. Teodorico, perplexo, quis saber o que pensavam os outros da enigmática resposta do monge João.

Era um doido, declarou o anelado bispo: a resposta dele era um opróbrio, uma estultice, uma marca do demónio. O que o eremita quis dizer era óbvio, defenderam os generais, olho por olho, dente por dente: aqueles cães moiros mereciam ser atirados a um poço e deixados apodrecer à fome e ao frio! Isso não, corrigiram os homens do povo, devia era negociar-se a sua vida, exigir-se os resgates devidos a um rei e a príncipes: se o nosso dinheiro é útil, o do inimigo é-o duas vezes mais, para curar as feridas da guerra!

Teodorico levantou-se. Todos se ajoelharam.

Era mister que olhasse para o fundo, para dentro, para onde não podia mais enganar-se. Ele sabia, sim. O monge acertara. O paradoxo é inerente à condição de mandar.

Beijou a cruz que trazia no peito e ergueu-a para que os infiéis conhecessem o novo poder. Depois, brandindo a espada fê-la descer sobre as odiosas cordas que sujeitavam os cativos. Libertou-os, sem saber porque o fazia ou com que riscos. Ordenou que os montassem nos cavalos saqueados.

E eles foram, pelo mesmo caminho do eremita, a caminho da floresta. Ninguém sabia em direção a que deserto.