OS POETAS POBRES

Gerard Sexton
Fotografia de Gerard Sexton

Os poetas pobres veem as coisas de um modo que significa alquimia. Tocam-nas e transformam-nas em ouro, ou devolvem-lhes o ouro que têm, mas que (coisas singelas que são, coisas do seu estatuto social, coisas que os olhos dos poetas ricos desprezam) passam por insignificância, tolice, apontamentos de pé rapado.

César Vallejo foi um poeta paupérrimo. Peruano de nascença, andou por este mundo fora colhendo as maçãs da sua miséria. Em Paris, os poetas ricos miravam-no com o mesmo espanto apavorado com que em Braga, nas esplanadas, os poetas ricos atingiam Sebastião Alba, outro mendigo. Há, também, poetas mendigos. Poetas que, literalmente, mendigam pão e, volta e meia, uma cachaça.

Yannis Gitsos, Yourgos Seferis, Paul Celan, Tonino Guerra sentiram a fome. Todos por causa da guerra (dos combates, das perseguições, da prisão). Allen Ginsberg e Charles Bukowski conheceram-na, igualmente, em virtude do alcoolismo, das drogas, do oposicionismo político exacerbado. O caso mais dramático, seguramente, o de Anna Akhmátova, a resistente russa que padeceu toda a série de agruras que o estalinismo pôde infligir. Antes dela, Czesław Miłosz conheceu as agruras do gueto de Varsóvia, que recorda no poema magnífico “Campo di Fiori”. Foram poetas pobres, um ou outro remediou-se, mas humildes sempre, irónicos quando possível, geniais cada um à sua maneira

Em Portugal, a história da poesia é a história da pobreza pura e dura. Cultivaram-na reis, nobres e aristocratas, mas sobretudo gente sem eira nem beira. Camões, Bocage, Gomes Leal, Pessoa foram poetas sem dinheiro. Sá-Carneiro foi um poeta rico, cujo suicídio teve provavelmente algo que ver com o spleen da capital francesa e com a condição anómala de ser filho de burguês abastado para quem os seus avanços literários nada significavam. Sophia foi aristocrata, mas conheceu os apertos financeiros que os opositores de Salazar sofriam quando ousavam perturbar as malhas do regime. Nem todos puderam ser Antónios Ferreiras, Diogos Bernardes, Sá-Mirandas. Nem todos puderam viver dos subsídios generosos de suas majestades ou podem viver dos prémios literários que as fundações, câmaras municipais e juntas de freguesia entregam amiúde. Ou do beneplácito das grandes editoras.

Por lá, como por cá, há uma imensidão de poetas a contar os cêntimos e a contemplar as coisas irremediavelmente belas que a natureza tem para oferecer, do mais lírico e humílimo que possa encontrar-se pelo caminho, enquanto se faz pela vida e se arranja um ganha-pão decente, sem privilégios ou cunhas partidárias, ganha-pão despido de toda a espécie de adorno e enliças políticas, sociais ou familiares. Ainda que estendendo a mão a quem passa, como esse célebre Ulisses Santiago que conheci no Porto (nos idos da Faculdade) a quem dei cem escudos a troco de um amontoado de versos escritos a tinta verde.

Os poetas pobres veem as coisas de um modo particular. Talvez não vejam o orvalho entre as rosas rubras e aveludadas do seu jardim, mas o orvalho poisado em grandes gotas (que lembram prata líquida) sobre a folha carnosa das couves e das alfaces. Ou talvez vejam de manhã cedo (caminhou o dia os primeiros metros no horizonte) o rasto iluminado dos aviões e se recordem do fio de baba dos caracóis e associem ambos num verso pobríssimo como “aviões segregando a sua baba translúcida”. Ou talvez assistam ao acender das fogueiras nos campos de uma qualquer terreola e se lembrem de outonos passados, evocando avós maravilhosos (com o podão à cinta e botas de vitela calçadas) que os levavam pela mão até ao lugar onde o trabalho os fixou para sempre, muito perto de uma azenha revolta, presa nas névoas e no som do açude, muito perto de uma coluna de fumo no interior da qual a lenha seca produz chamas vermelhoalaranjadas e uma memória pura de afeto. Talvez escutem, caminhando a pé, o som das escrevedeiras, o pio triste das gralhas, a algazarra das levandiscas e saibam com elas iniciar ou concluir uma homenagem à infância.

Ou talvez vivam na cidade e testemunhem o lento dobrar de esquina dos idosos desvalidos, solitários, deixados ao deus-dará, para quem um gesto de amor pode ainda valer tudo e significar que a vida longa não foi (não é) em vão. Talvez não lhes passe despercebida a indigência encapotada das famílias modernas, das que não alardeiam a sua situação e não buscam subsídios (das que trabalham todos os dias do mês e levam para casa salários de merda) e têm todas as contas para pagar. Os poetas pobres conhecem muitas histórias destas. Costumam sentar-se nos bancos de jardim, conviver com outros pobres, ler e ouvir-lhes as assombrosas existências de carne e osso. Talvez se deem conta (como deu Pablo Neruda nas minas de Antofagasta) do terrível mundo que fica para lá ou para cá do palco iluminado de todas as falsidades e estatísticas. Os poetas pobres veem a olho nu e talvez seja por isso que veem melhor, mais a direito, mais dentro, mais fundo.

Pessoalmente, sinceramente, verdadeiramente, não suporto a escrita dos poetas que não vejam as coisas que têm de ser vistas. Dos poetas que comunicam sem ideias, que se glosam a si mesmos, que multiplicam palavras. Dos poetas que cavam dentro da sua própria vaidade e expelem coisa nenhuma. Desses é o reino da Terra, quem sabe do outro reino também. Mas a mim não me apanham a louvaminhá-los. Não apanham!

AMÉLIA TARRUCA

Amélia Pereira (1936)
No seu casamento, em 1936

in memoriam

Minha avó Amélia nasceu há precisamente um século! Não é fácil encontrar palavras que descrevam esta mulher, essa matriarca cujos dias terminaram em grande sofrimento físico, desprovida de fala, paralisada e incapaz de alimentar-se. Expirou no preciso lugar onde escrevo estas palavras, o mesmo pequeno quarto que a viu atravessar um longo outono até perder-se no nevoeiro da cegueira, quem sabe rodeada pela memória dos seus mortos e das muitas imagens que aquilatou em vida.

Nas redondezas ficou conhecido como Mélia Tarruca, nome que ainda hoje perdura, associado a gratas recordações dos que a conheceram e lhe sobreviveram. Era desbocada, sim, capaz do palavrão intempestivo. Era enérgica e reativa, a ponto de comprar uma pistola de cerâmica (dizem que igualzinha a uma pistola de verdade) para ajustar contas na taberna com o marido adúltero. Era humana e sensível, de uma humanidade e sensibilidade genuínas, timbradas pela fome e pela miséria, por duas grandes guerras, pela necessidade de se sujeitar às agruras de um tempo em que nem os campos nem a indústria emergente eram garantias de sustento… Havia sempre um naco de broa, uma gabela de couves, meio caneco de feijão, meia dúzia de ovos, às vezes uma galinha para dar a quem precisasse. A míngua tornou equitativa e generosa a gente desta mesma aldeia onde lhe fizeram um funeral sem fim…

Se fosse viva, Amélia Pereira completaria hoje um século. Cem anos de agruras.

Não lhe conheci a adultez, só a velhice. As histórias que dela me chegavam na infância dificilmente podiam coincidir com a anciã acamada, incapaz já de articular palavra que se compreendesse. Minha mãe, que por ela velou até à morte, recebeu-a cá em casa devia eu ter seis ou sete anos. No princípio ainda caminhava um pouco, com a ajuda de uma bengala. Depois houve uma cadeira de rodas. O jornal da paróquia fotografou-a assim, como um bom exemplo cristão. Vieram duas meninas entrevistar, uma munida de caneta e caderno, outra com a máquina fotográfica. Recordo-me vagamente de tudo isto, que era para mim a distinção de classe, a vaidade de possuir uma avó famosa.

Com o tempo a saúde esfumou-se. Havia que pôr-lhe fralda. Eu ia comprá-las à farmácia. Eram sacos enormes, que não me custavam carregar, porque naquela época os miúdos eram todos homenzinhos e sofria-se de vergonha quando não se podia carregar pesos como um adulto. Minha mãe contou então com a ajuda de minha tia Conceição e ambas davam as voltas, como se dizia, à velhinha. Às vezes havia visitas. Com o tempo rarearam. Porque as pessoas deixaram de ter um motivo para vir. Porque a conversa era a bem dizer um monólogo. Minha avó respondia com monossílabos, revirando os olhos, de quando em quando deixando correr as lágrimas … Sei tudo isto porque espreitava por detrás da porta, à espera que as visitas trouxessem um cartucho com doces… Ou bananas. Incompreensivelmente as visitas traziam cachos de bananas e eu ficava fascinado com as visitas que as deixavam amarelejar em cima da cómoda e se despediam da minha avó como se faz a uma criança pequena, com inflexões de voz artificiais e claramente paternalistas.

Só compreendi exatamente quem foi esta mulher após a sua morte. Muita gente me contou sobre ela histórias preciosas, informando-me do seu caráter tenaz e frontal. Por exemplo, a história de quando descobriu a amizade do meu avô, seu marido, por certa mulher de índole incerta. Avisada por vizinhos, entrou de rompante na tasca onde os adúlteros confraternizavam com a escumalha do vinho e das cartas. Pediu que lhe enchessem o vasilhame do azeite e puxou da pistolita.

«Manelzinho, encha-me esta botelha de azeite, enquanto eu vou ali fazer duas mortes!».

A amante fugiu espavorida pela porta. Meu avô, espavorido também, lançou-se por uma janela alta, em direção às traseiras da taberna. Morreria sem saber onde a mulher tinha obtido a arma e onde a guardara. De caco, explicam-me, entre risos, E também esse pormenor ele ignorou até ao fim dos seus dias. Mas o bastante para acabar com as veleidades românticas fora do casamento!

Contam-me que, já com vários filhos pequenos, se deslocava a pé até Vizela, para trabalhar numa fábrica têxtil. Aí cuidava do mais novo, deixando a casa entregue à filha mais velha, pouco mais que uma criancinha. Trabalhava-se muito, ganhava-se pouco, desfazia-se a saúde nos teares e na violenta desagregação do mundo rural em que havia nascido a década de 30. Mas também aí se moldava a têmpera combativa e o arregaçar de mangas que tornou a família incapaz de aceitar que o céu lhe caia em cima sem ao menos ensaiar uma resposta.

Dos filhos que teve sobreviveram sete. Quatro raparigas e três rapazes (dois dos quais mobilizados para a Guerra do Ultramar: um chegando no dia em que o outro partia; o terceiro fugindo para França, a salto). Não se diga que enfrentou a triste sina de os enterrar, porque não aconteceu tal, felizmente. Meus tios regressaram todos, sãos e salvos. Ainda hoje são sete os filhos que sobrevivem, com suas mazelas, mas vivos e amigos uns dos outros. Quantas famílias não se podem gabar do mesmo?

Se fosse viva, minha avó Amélia talvez nos desse com a bengala e nos chamasse alguns nomes pouco simpáticos. Metia-nos na ordem. Era assim com as filhas, por exemplo.

Contam que amanheceu o dia em que determinado padre se aproximava pelo caminho rural, mesmo ao lado da casa velha. Vinha devagar, meditando o seu breviário e os seus pensamentos. O padre, ao que parece, não era boa rês. E o dia corria mal por causa de certo número de frangas que haviam escapado do galinheiro a andavam escarafunchando o cebolo. Minha avó praguejava alto e bom som contra as filhas negligentes. Fizeram-lhe notar a aproximação do clérigo.

«Eu quero que o padre vá para o caralho e vós também, minhas grandes putas!»

Assustado, o padre persignou-se; elas cobertas de vergonha refugiaram-se como puderam. Ficou a velha Tarruca sozinha na leira, de vassoura em riste, berrando e espalhando o terror entre as galinhas tresmalhadas.

É de longe o meu antepassado mais conhecido nas redondezas e, sem dúvida, o ascendente de que mais me orgulho.
Porque esta avó proverbial, que não tinha pejo em desdenhar de um mau padre (hipócrita, ao que parece), era capaz, em contrapartida, de mandar uma filha com um açafate cheio de víveres a casa de fulana, beltrana ou sicrana, a quem o marido dava porrada como milho mas não o dinheiro para se governar.

Sirvo-me das palavras dos outros, da memória dos outros, do regozijo dos outros para compreender a razão deste apreço pelo “politicamente incorreto” que me corre nas veias. Talvez o instinto para desprezar as inutilidades e me conservar num torrão afetivo, que há de ser sempre escasso, mas incorruptível!

Se fosse viva, Amélia Pereira, mãe, avó, criadora de filhos e de netos, faria hoje cem anos. Escrevo no preciso lugar onde expirou, às primeiras horas do dia 27 de setembro de 1994.

Como escritor e cronista da família, cabe-me conservar, pelo menos um pouco mais, este relicário de memórias e de o passar aos outros… Quando explico a algum velhote da terra a minha ascendência, o parentesco com a Mélia Tarruca, logo um amplo sorriso fraterno nos envolve aos dois, como a capa de Martinho.

«A sua avó era uma grande mulher», «A Tarruca era uma mulher muito direita!», «A sua avó matou muita fominha, Deus a tenha!»

Nasceu há cem anos, a 15 agosto de 1913.

“ABUSIVAMENTE”

Captura de ecrã 2021-09-18, às 13.16.01

Com perplexidade, com profunda desilusão, assisti ao debate entre os candidatos à Junta de Freguesia de Arões S. Romão na Fafe TV, decorrido na passada quarta-feira: durante uma hora vi um deserto de ideias, desorientado por uma miserável perceção do que é Arões S. Romão e, pior, condenando-a ao servilismo em relação à Câmara Municipal, que sempre trouxe à vila migalhas e não foi capaz, até hoje, de descentralizar nela um dos seus serviços ou de lhe reconhecer, de facto, o estatuto de vila.

Também não percebi se os candidatos têm orgulho em pertencer à vila, ou se pelo contrário lhe negam essa qualidade (tanto disseram que Arões S. Romão é uma grande terra, como a reduziram a uma freguesia subsidiária de Arões Santa Cristina). De resto, esclareçam: o que significa “Ir da Portela a Arões?” A Portela não é Arões?

Não gostei das hesitações. Menos ainda das insinuações. Detestei a falta de ideias concretas. Não chega dizer que se quer grandeza, desenvolvimento, recuperar tempo perdido. É preciso explicar como se vai conseguir tudo isso, sob pena de nos arriscarmos a transformar o mandato de 2021-2025 num fracasso igual ao que Cláudia Castro nos ofereceu nos últimos quatro anos.

O que se disse sobre reivindicar um maior orçamento? Nada!

Quem assistiu às assembleias de freguesia nos mandatos de 2009-2013 e 2013-2017 ouviu-me dizer, repetidamente, que precisamos de triplicar o valor anual vindo da Câmara.

Precisamos de mais funcionários no terreno (não no balcão de atendimento). O que se disse sobre o tema? Nada.

Precisamos de ligar os passeios da Portela às Teixeiras e entrar no miolo da freguesia. Precisamos de lombas e sinalética luminosa nas passadeiras. Precisamos de alargar estradas (urge fazê-lo em relação ao Nó). Qual dos candidatos tocou no assunto? Nenhum.

Precisamos de retomar as iniciativas culturais, abandonadas escandalosa e vergonhosamente por Cláudia Castro. Teatro, cinema, espetáculos musicais, feiras temáticas, literatura. Quem se prontificou a defender esta importante faceta da cidadania? Ninguém.

Assisti ao debate sem entusiasmo de espécie alguma. Lá voltou a quimera do Pavilhão Gimnodesportivo, a pouquidão do “parque da vila”, a ideia (aliás urgente) de um segundo terminal de multibanco. Lá se trouxe à colação a bizarria da sede da Junta (que não pertence à Junta), mas não se partilhou qualquer intenção de se construir uma nova sede de raiz. Não se disse uma palavra sobre o descuidado estado da Igreja Românica (esse tesouro tão maltratado, tão ignorado, tão vilmente esquecido pela Autarquia).

E, por fim, o “abusivamente”.

Explico:

Carlos Rui Abreu introduzia a questão dos “limites de freguesia” e deu a Joel Fernandes o ensejo de brilhar. Explicava que o tema foi alvo de crítica acesa por parte dos socialistas aronenses, indignados com o colega de Arões Santa Cristina. Joel Fernandes apressou-se a corrigir que houve “um texto a circular por aí”. O jornalista lembrou que “escrito e publicado num espaço de socialistas aronenses”. Joel Fernandes defendeu-se que “abusivamente”.

Eu e o engenheiro Joel Fernandes fomos colegas de Executivo de Junta durante 10 anos (2007-2017). Com toda a honestidade, considero-o um técnico excelente, capaz e criativo. Porém, separa-nos um mar de diferenças no que toca à coragem política.

Nunca estive preso a nada e ninguém. Escrevo e penso agora como pensei e escrevi sempre: com liberdade e sem mordaças, grilhetas ou cordas. Não preciso de pedir licença a chefes ou chefinhos, nem de garantir o “politicamente correto” para parecer bem e manter relações cordiais com quem quer que seja. Por isso, aquele “abusivamente” afastou-me ainda mais do ex-colega de Junta, a quem (repito) reconheço grandes qualidades, mas não a da coragem política.

A questão dos limites de freguesia é complexa. Não chega dizer, como o afirmou o candidato do PSD, que “vamos recuperar o que é nosso”. É preciso muito mais do que isso. Enquanto Secretário de Junta trabalhei incansavelmente pela correção do gravíssimo erro cometido pelo Instituto Geográfico Português (IGP), que sonegou parcelas imensas de território a Arões S. Romão: se algum dos candidatos à Junta leu já o relatório dos Censos 2021 terá reparado neste espantoso facto: Arões São Romão aumentou em apenas 9 os seus habitantes no período de 2011-2021! Eis a prova do roubo!

A questão dos limites de freguesia levou-me a escrever e a publicar no blogue “PS Arões”, no passado dia 9 de abril um texto, que aparentemente ganhou asas e mereceu o repúdio de toda a gente civilizada de Fafe. As pessoas civilizadas de Fafe, nomeadamente as que lideram o Partido Socialista, não gostaram que se protestasse contra um roubo. Aconselharam inclusive a que me calasse! Não é bonito que digamos verdades, que nos queixemos e que ponhamos em causa o bom nome dos impecáveis autarcas que tomam como seu o que não lhe pertencem!

Aparentemente o lugar da publicação – um blogue que eu criei, administrei e usei em prol do partido, nomeadamente na campanha autárquica de há quatro anos (quando era socialista e concorria contra pessoas que na época não eram socialistas, mas que hoje são socialistas) – tornou-me um abusador.

Quando Carlos Rui Abreu introduziu o tema, Joel Fernandes poderia ter dito simplesmente “O texto tem uma assinatura, deve perguntar à pessoa que o assinou o que quis dizer com o que escreveu”. Ou poderia, como o fez em relação a várias questões feitas sobre a incompetente equipa de Cláudia Castro (candidata que Joel Fernandes mal disfarçadamente apoiou em 2017 e de cuja lista recebe pelo menos o Tesoureiro Óscar Samuel Costa e várias outras figuras), ter dito “Não me sinto capaz de responder”.

Mas não. Joel Fernandes, desconsiderando o mérito do texto, que o teve, demarcou-se. E ao tê-lo feito provou ser um “candidato do sistema, conivente com as chefias partidárias, para quem os assuntos delicados se resolvem com uma vassoura. Em setembro de 2017 (no auge da campanha eleitoral), o mesmo engenheiro Joel Fernandes mostrou deslealdade comigo, quando fez publicar um boletim de Junta onde compilou e atribuiu ao mérito exclusivo de Cláudia Castro o que não lhe cabia em sorte ou direito. Foi um favor à amiga, contra o colega.

Esta agora foi, portanto, a segunda vez.

Terei de explicar que “abusador” é, antes de mais o aparelho partidário que se serve das pessoas e, depois de servido, as cospe como pevides.

Publiquei um texto com a legitimidade que me conferia o ter participado numa lista partidária do Partido Socialista e ter trabalhado (forte e feio) numa campanha eleitoral de que não ouvi até hoje (das cúpulas) um único obrigado.

“Abusivamente” é sem dúvida o advérbio que Joel Fernandes e a sua equipa deveriam usar para se referirem ao facto de (apenas quatro anos volvidos) terem despido à pressa as camisolas do Fafe Sempre e terem vestido as do Partido Socialista. Não reconheço ao Sr. engenheiro, nem a ninguém da sua equipa, qualquer estatuto ou poder identitário especial no tocante ao socialismo.

Eu sou socialista, escrevo onde, quando e como quero, E isso basta-me.

A GRANDE NOSTALGIA

Anne Rose Pretorius
Foto: Anne Rose Pretorius

De algum lugar obscuro da minha memória vêm-me chegando por estes últimos dias saudades da antiga Escola Montelongo, onde frequentei o 5.º e 6.º anos, o Ciclo, como então lhe chamávamos, escola nos arrabaldes da cidade, pobre, sem cantina, sem ginásio, com uma escadaria larga que nos levava da cave ao piso superior por entre corredores mal iluminados, onde se abriam as portas das pequenas salas (a sala 1 e a sala 6 eram minúsculas) e onde o grande tesouro não se chamava “campo de jogos” (um baldio irregular, com duas balizas ferrugentas e mal equilibradas, hoje sede da Guarda Nacional Republicana), mas a biblioteca.

A biblioteca era fria, silenciosa, no remanso do rés-do-chão. Do lado de fora das suas janelas gradeadas crescia um silvado no meio de um cemitério de mesas e cadeiras partidas. Tinha três filas de mesas alinhadas e uma D. Lurdes maldisposta ao comando, sempre com o aquecedor ligado, sempre com a mão pronta para um tabefe profilático, sempre com os olhos vigilantes e maus correndo por cima dos óculos e a avisar.

– Quero tudo no sítio!

Era aqui que nos conduzia duas a três vezes por período o professor Miguel Monteiro, o mais extraordinário mestre que encontrei nesse tempo, para podermos desfrutar da leitura silenciosa, do livro que bem entendêssemos, da estante que mais quiséssemos. Só então os fechados armários se abriam. Só então, quando as lâmpadas fluorescentes brancas se acendiam todas, se podia olhar melhor e mais fundo a floresta de lombadas e se extraía das estantes repletas algo como A ilha do tesouro, As aventuras de Tom Sawyer, As viagens de Gulliver, A menina dos fósforos, O príncipe feliz, O rapaz de bronze, Como se faz cor-de-laranja, Histórias de um bichinho qualquer, tantos outros… A rancorosa funcionária (obrigada a levantar-se e a abandonar a TV Guia) rodava a grande chave metálica, fazia silvar o nariz e punha os olhos de lado, como se os quisesse escorraçar das órbitas, seguríssima de que não ia ficar nada no sítio. Era um assombro, podíamos por fim colocar as mãos no cofre. Indiferente ao desagrado da senhora, o temerário professor continuou a levar-nos àquele canto umas quantas vezes por período, permitindo assim que nos déssemos conta de como aqueles livros cheiravam extraordinariamente a madeira envelhecida, do quanto as ilustrações são poderosas etiquetas mentais, da dolorosa separação de uma página quando nos devora a curiosidade e a campainha soa.

Este início de setembro tem-me feito recordar algumas alegrias esquecidas. Por exemplo, o facto de andar nos autocarros da João Carlos Soares & Filhos L.da todos os dias (era preciso picar um passe com um número contado de viagens). Por exemplo, a mochila vermelha carregada com os manuais escolares novos (brilhantes, cheirosos, desafiadores, comprados na Papelaria Avenida do senhor Diamantino Pereira (conservo, ainda, os de Português desses anos distantes). Por exemplo, a satisfação de aprender uma língua estrangeira (no meu caso, o francês) e de poder decifrar os enigmas dos vulcões em Ciências, e de superar a paralisante confusão de xis e ípsilones em Matemática. Gostava de Estudos Sociais e de História, detestava a gramática (a morfologia e a sintaxe, em particular) e era um zero a Trabalhos Manuais, disciplina onde precisei de empregar uma grande dose de improviso, mentiras e promessas para me aguentar na positiva. Odiava Educação Musical, outra deceção da minha vida escolar, provada que ficou a minha completa imperícia em matéria de flautas, xilofones, tambores, leitura de pautas, interpretação de semicolcheias, escrita de claves de sol, cantoria.

Gostava de histórias. Gostava de espreitar a arrecadação, onde permaneciam cheios de humor (e de pó), os esqueletos humanos. Gostava de desenhar (embora me faltasse qualquer coisa de verdadeiramente artístico). Gostava de folhear os manuais e de por eles ver o mundo – as ilhas selvagens do Pacífico, repletas de cones expulsadores de lava; as belas cidades e comunas de França, com os seus vinhos e os seus queijos; os castelos e mosteiros de Portugal, especialmente os medievais (que já então sobremaneira me encantavam). Gostava de sair a correr para o Pavilhão Gimnodesportivo ou para as piscinas municipais, um e outras significando liberdade. Gostava de correr, de marcar golos, de saltar nos aparelhos, de nadar, de fugir ao trampolim e aos saltos mortais (que me trazem ainda hoje pesadelos).

Mas gostava, sobretudo, da sensação de início. Nesses dias de setembro, como nestes dias de setembro, comprados os novos materiais, organizada a capa (com os seus separadores de plástico colorido da Âmbar), preparado o estojo, o começo acarretava um misto de ansiedade e de esperança, de fé e de algum temor. Tudo dependeria (como depende hoje) das pessoas com quem nos iríamos cruzar. Se o professor Miguel foi um mestre, outros o foram também (a professora Germana Longo de Ciências da Natureza, a professor Clara de Educação Visual, a professora Ana Maria de Matemática, a bela professora Adília de Francês do 5.º ano). Outros o não foram, de tal modo nos oprimiam com o autoritarismo (jamais esquecerei o giz disparado por certa professora à testa de uma colega no fundo da sala), ou de tal forma nos desconcertavam com o seu laxismo.

Gostava nesses dias de começo de outono de pensar que um dia saberia educar os meus filhos com amor, rigor e uma boa coleção de livros. E que eles, tal como eu, amariam a quietude da sala de aula tocada pela boa luz matinal. E que eles, tal como eu, saberiam lidar com os erros e com os fracassos próprios, depurando pacientemente as suas virtudes.

Tenho os livros, não os filhos.

Não sei se o lamente, se apenas me satisfaça com o ensinar os outros. Com a expetativa, ainda assim, de que um dia algum dos meus alunos me recorde com a mesma nostalgia imensa com que falo destas coisas, e talvez me associe a uma ou a outra conquista obtida nas paredes da sua escola, a quem em jeito de balanço conceda a luz de uma dádiva, e não (como tantas vezes parece) a fama imerecida de uma prisão.

CÉU

Céu
Foto de arquivo pessoal (2021)

Vou perdendo algumas capacidades. É o mais certo na vida, que as vamos deixando no lugar onde nos ficaram a infância, a juventude, os primeiros tempos dourados da idade adulta. Julguei há meia dúzia de anos ter perdido a capacidade de amar. Não decerto de sentir amor. Sente-se amor pelas pessoas que nos querem bem, pelos animais de companhia, pelos ofícios que nos destacam, pelos livros e obras de arte que nos resgatam da estupidez. Mas amar… Supus, felizmente em erro, que amar não me dizia já respeito (se alguma vez mo havia dito).

Enovela-se-nos a vida em trapos, em cordas, em fúteis caminhos de perdição. Lastima-se que o tempo haja ido tão mal-acompanhado e que, em vez dele, restasse cá dentro o que resta de um campo arrasado pelas chamas – pavorosas cinzas que ardem noite e dia, dia e noite, noite e dia. E isto sucede ao mais inócuo dos homens. À melhor das mulheres. Perde-se muito, perde-se tudo, ou quase.

Mas então, independente de nós, a vontade das coisas manda. No meu caso, mandou sem que lho tivesse pedido, ou (verdade seja dita) que o tivesse querido. A vontade das coisas trouxe-me de regresso, e fê-lo enviando (a mim, um cético, um pessimista) o melhor dos anjos da guarda. Foi em 1 de setembro de 2018.

Há, portanto, neste dia (não algo, mas) alguém a lembrar. Que o seu nome seja tão divino é outra ironia. Que por ele se tenha o inferno decidido a deixar-me não o duvido. Que me tenha nestes três anos cumulado de poesia, de afeto, de coragem, de companheirismo é coisa para alardear. Nenhuma Céu é demais na vida de um homem, sobretudo se a beleza da sua alma tiver paralelo na beleza dos seus olhos, sobretudo se a beleza dos seus olhos reverbera na beleza dos seus gestos.

Hoje estas palavras (por ridículas que me possam parecer) tenho de as deixar ditas nalgum lado. Três anos é quase nada. Mas arrisco um “quase tudo”, tão docemente mudaram a minha vida.

Muito obrigado, meu amor!

LANZAROTE, SARAMAGO E A CASA

Casa de Saramago

No imaginário português, a árida e despojada Lanzarote é “a ilha de Saramago”. De resto, em lugar nenhum senti a presença de um escritor tão veemente como na casa em que, nesta ilha, viveu ele com a mulher, Pilar del Río.

Com efeito, A Casa (na Calle de Los Topes, 1, em Tías), pareceu-me no final dessa manhã de 29 de agosto de 2018 um nimbo literário, juntamente com a Biblioteca que (quase contígua, do outro lado da pequena estrada) recebe os muitos milhares de livros, revistas, cartas, manuscritos (não contando as estátuas, estatuetas, óleos) que o nobel colecionou em terras canárias. É bastante provável que muitos saramaguianos viajem a este lugar em primeira instância a partir dos seis volumes dos Cadernos de Lanzarote e que, lendo-os (se o preço da curiosidade não for menos do que o medo de fazer umas férias em solo lunar), se sintam tentados a comprar um bilhete de avião e a conhecer o extraordinário chão vulcânico que de Arrecife se estende a Haría, Ye, Guatiza, Orzola, a Caleta de Famara, a Caldera Blanca, a Yaiza, Uga, La Geria, a Las Breñas, a Los Charcones, à Montaña Roja, a Playa Blanca.

Os Cadernos falam de Lanzarote, mas não tanto como gostaria. O volume maior desta escrita diarística incide sobre as relações e questões que o autor alimentou (simpatias, antipatias, querelas, indignações, convites, idas e estadas em eventos literários, notas partidárias, glosas de toda a espécie a respeito do dia a dia social e político do país – olhado à distância, mas com a precisão – e do mundo), mas também sobre o amor a Pilar e aos cães da casa, sobre o maravilhamento do eu na relação tumultuosa com o cosmos, sobre efemérides, sobre uma frase colhida, sobre um pensamento, sobre uma confissão vinda a propósito do ruído do mundo ou vinda do silêncio purgado da sua alma. Todas as alusões à terra lanzarotenha me fascinam, inversamente aos apontamentos da sua agenda social (às vezes fastidiosos, quase sempre narcisistas).

Casa 2

De entre as geniais descrições que Saramago entremeia na meia dúzia de Cadernos a respeito da ilha, uma sobremaneira me toca e me parece súmula perfeita do que nela há de beleza cruel ou de corajosa resistência.

Há em frente da casa um morro a cujo cimo se chega por uma encosta suave, mas que, do outro lado, desce abruptamente sobre a planície que se estende até ao mar. (…) No geral dos dias, a paisagem que hoje dali se vê é escuta, com o chão coberto de troços de lava triturada pelas estações, uma vegetação rala e rasteira, amarelada, de longe quase invisível, continuamente sacudida pelo vento. Os muros baixos de pedra seca já não dividem as antigas parcelas em que se cultivava o trigo, a batata, o tomate. Agora apresentam a figura de um tabuleiro de xadrez mal desenhado donde os reis, os bispos e os cavaleiros se foram a melhor vida, e de onde os peões emigraram para irem ganhar o pão no turismo da costa. Tem chovido com abundância nestas semanas. Como sempre, por toda a parte, reverdecem logo as ervas, ainda sombriamente porém, como e nas seivas viesse misturado algo do negrume calcinado da terra. Vou até ali de vez em quando (…) e julgava conhecer o morro passo a passo, com os seus restos de velhos muros onde se escondem, rápidas, as lagartixas, e onde esquálidos arbustos lutam contra a ventania, mas hoje, num rebaixo, fui descobrir dois algibes que antes me haviam parecido simples amontoados de antigos escombros. Subi aos tetos abobadados e espreitei pelas frinchas das pedras mal ajustadas. Havia água no interior, uma água verde, imóvel. Não existem nascentes perto (quase não as há em toda a ilha), portanto toda aquela água caiu do céu, alguma é destes dias, outra do ano passado (…). Quando regresso a casa olho para trás. Ai estão os algibes, tranquilos como uma ruína, indiferentes ao deserto em que os abandonaram. Vendo-os assim, guardando o que lhe foi confiado, compreendi a razão por que a estas cisternas chamamos arcas de água. Ao dizer arca, ao dizer água, estamos a dizer tesouro.

(1 de janeiro, Cadernos de Lanzarote IV)

Durante um certo período de tempo, a minha irmã mais nova e afilhada viveu em Lanzarote ilha, também. Por sua culpa, errei por lugares que me confundiram os sentidos e me fizeram disparar centenas de vezes os relâmpagos das máquinas fotográficas e do telemóvel: Las Nieves, por exemplo. Por exemplo, o Miradouro del Río (donde nos fere o azul claro da Graciosa e o profundo do oceano). Por exemplo, ainda, a Cueva de Los Verdes. Ou a vista ocre do La Corona (o maior cone vulcânico desta terra). Ou as vinhas escuras de La Geria, aninhadas em craterazinhas e aconchegadas em muretes de basalto. Ou o poderoso e avermelhado Parque Nacional de Timanfaya, com a sua imponente massa de lava solidificada. Ou os férvidos Hervideros. Conheci estes lugares como se conhece, deslumbrado, alguém que nos volta a cabeça do avesso. Absolutamente convencido de que também aqui viveria para a escrita, decerto não tanto como o cosmopolita Saramago, mas talvez como Hilário, o eremita.

Casa_Piscina

O escritor português soube rodear-se de um conforto notável. Da janela do seu antigo escritório alcança-se sem custo o mar. Na penumbra do espaço, brilham não só as lombadas dos livros e as vitrines, onde ficaram aprisionadas as suas canetas, mas igualmente o Atlântico ao fundo e as ramagens das araucárias, das alfarrobeiras, dos encefalartos do jardim. Na piscina da casa, nas suas varandas generosas, ou na Biblioteca a que me referi acima (conspícua, aconchegante, ampla), José Saramago soube criar uma teia imensa de vozes e de amizades, de que dá conta nos diários. Lanzarote, com o seu cenário exótico de cinzas e piroclastos, com a secura do seu corpo velho (onde apenas os catos e as balsamíferas de eufórbio suportam ser plantas), com a sua costa acidentada e de fortes contrastes cromáticos, tornou-se para as visitas de Saramago um motivo extra para regressarem. O escritor português gostava, de resto, de as receber na sua casa. Mais ainda se portugueses fossem.

Maria Alzira Seixo chegou hoje, vem passar uns dias connosco. De cada vez que vou ao aeroporto esperar um amigo português tenho a curiosa impressão de estar a recebê-lo no próprio limiar da casa, como se toda a ilha de Lanzarote fosse minha propriedade, e não apenas estes dois mil e poucos metros empoleirados no alto da encosta que desce de Tías até Puerto del Carmen… Mais curioso é o sentimento de responsabilidade que me leva a desejar que o visitante só leve de cá boas recordações, isto é, que, dia e noite, o tempo, o céu, o mar e a paisagem tenham estado perfeitos, que o vento não tenho soprado demasiado, que nenhum turista distraído ou mal-educado tenha atirado uma lata de coca-cola ou um invólucro de cigarros vazio, que nenhum residente – canário, peninsular ou estrangeiro – tenha infringido o código não escrito que o manda comportar-se como exemplo de civismo quotidiano, que para isso, acho eu, é que temos o privilégio sem preço de viver neste lugar.

(14 de setembro, Cadernos de Lanzarote III)

Que Lanzarote me haja parecido um paraíso é assunto discutível. A minha afilhada sorria, se e quando eu o afirmava categórico, chapinhando nas águas quentes da praia de Famara com a alegria e os planos de um garoto. Existe na ilha e no arquipélago uma dureza de que os forasteiros mal se dão conta. Há três anos lia e corrigia o manuscrito de O Moscardo e Outras Histórias, escrevia nessa paragem, diante uma lua cheia magnífica, as duas narrativas que fechariam o livro («José, Pilar» e «Famara»). A varanda noturna dava-me a impressão de que entre os vizinhos (em cujas garagens abertas se acendiam churrascos e se brindava de cerveja na mão) existia ainda uma unidade ancestral, perdida nas nossas cidades e aldeias. Os garotos corriam e jogavam à bola descalços, algazarrando de um modo que acordou a minha própria infância. Era como assistir ao passado em direto, como ter regressado a um aconchego inesperado, como ter ali à mão de semear o sossego, a jovialidade, a leveza de que se precisa para viver bem e escrever melhor.

Casa_Biblioteca

Mas a Catarina advertiu-me que o dia a dia não é fácil. Falta tudo aqui: água, carne e verduras, comodidades que noutras partes são banais. E o clima é duro, por vezes insuportável. Falou-me da calima, essa praga do deserto de que outrossim Saramago dá nota.

Lanzarote não é sempre o paraíso. Ontem amanhecemos com o céu tapado pela calima, um ar espesso e soturno que transporta para aqui, por cima de cem quilómetros de oceano a poeira do Sara, e nos põe à beira da sufocação.

(25 de março, Cadernos de Lanzarote III)

O que comove na Lanzarote de Saramago é o sentido de que uma terra inóspita e desconhecida possa ser a nossa casa. Exilado de Portugal, do Portugal cavaquista (é bom não esquecer), o escritor encontrou a sul, a mil e quinhentos de distância o seu refúgio, o seu espaço, o seu tempo. Em Lanzarote viveu os 17 anos finais da vida, aí viu-o mundo o viu ressurgir, do chão, da cinza, colecionando pedras e miniaturas de cavalos, escrevendo alguns dos seus romances mais conspícuos. “Lanzarote não é minha terra, mas é terra minha”, escreveu. E talvez por isso também Lanzarote vê José Saramago como um dos filhos distintos e dele se orgulha.

Quando os meus olhos, atónitos e maravilhados, viram pela primeira vez Timanfaya, quando percorreram e acariciaram o perfil das suas crateras e a paz quase angustiante do seu Vale da Tranquilidade, quando as minhas mãos tocaram a aspereza da lava petrificada, quando das alturas da Montanha Rajada pude perceber o esforço demente dos fogos subterrâneos do globo como se eu próprio os tivesse acendido para com eles romper e dilacerar a atormentada pele da terra, quando tudo isto vi, quando tudo isto senti, achei que deveria agradecer à sorte, ao acaso, à ventura, a esse não sei quê, não sei quem, a essa espécie de predestinação que vai conduzindo os nossos passos, o privilégio de ter contemplado na minha vida, não uma, mas duas vezes, a beleza absoluta.

(28 de abril, O Último Caderno de Lanzarote)

É este o Saramago que idolatro. O homem que se serve do seu formidável talento para compor poesia com palavras cirúrgicas. Tal como a ilha que o acolheu, também o escritor português nos conduz por caminhos acidentados para nos desafiar a outra vida, a outro destino, a outra beleza que não mirra com a idade e antes com ela revigora. Em lugar nenhum podia Saramago ter cicatrizado tão profundamente a sua dor de homem desterrado. Nenhuma terra podia ter recebido filho mais grato e fecundo. Mãe e filho de um acaso. E ainda bem.

EUGÉNIO E A FOZ

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Foto de arquivo pessoal

Entre agosto e setembro há a Foz do Douro, o mar, Eugénio de Andrade. Caminhando pelo Passeio Alegre, ou pelas avenidas dos plátanos (rua de Gondarém e rua do Marechal Saldanha), seguindo pelos pontões e pelos molhes, atravessando a pérgula e os passadiços ao longo da marginal, fica-nos a impressão de que há certas partes do Porto que o final do verão torna imprescindíveis, luminosas e enxutas como enxutos, luminosos e imprescindíveis são todos os poemas do autor de Os Sulcos da Sede.

Os jardins, o cheiro das algas e da água, a pedra branca e ardente de alguns antigos edifícios, o corpo generoso das árvores (em cuja sombra nascem estátuas de bronze e casais jovens perdidos de amor), o burilar da luz no vidro alto dos prédios ou nos rochedos húmidos em frente às esplanadas, o azul do horizonte e os navios ao longe cosendo horizontalmente o oceano e o céu lembram estrofes inteiras de Eugénio:

«Um dia chega / de extrema doçura: / tudo arde. // Arde a luz / nos vidros da ternura. // As aves, / no branco / labirinto da cal. // As palavras ardem, / a púrpura das naves. / O vento, // onde tenho casa / à beira do outono. // O limoeiro, as colinas. // Tudo arde / na extrema e lenta / doçura da tarde.»

Há muito que a Foz me fascina. Para ser preciso, desde que a descobri nos tempos de caloiro na Faculdade de Letras, desde que nela e por ela aprendi (seguindo em direção ao Parque da Cidade, a Serralves, ao Campo Alegre, ou então à Ribeira, à Sé, a S. Bento) a calcular a distância entre as diversas camadas temporais do Porto e a por elas calcorrear a literatura dos poetas e romancistas que a têm como ponto de chegada, ou de partida. Pisar o chão da Foz é gostar da escrita de António Nobre e de Raul Brandão, talvez também da de Manuel António Pina e da de Rui Lage. Cirandar pelo arvoredo do Jardim Botânico é reler Rúben A. e Sophia de Mello Breyner Andresen. Apearmo-nos no Largo Amor de Perdição, junto aos clérigos, torna obrigatória a lembrança da vida e da obra de Camilo Castelo Branco. E nos últimos anos já não consigo descer de Miragaia à Alfândega sem rememorar, por exemplo, Intermezzi, Op. 25 de Manuel de Freitas. De todos os cantos da Invicta, da Foz sobretudo (volto a ela), chega o eco nada distante das praias de Matosinhos e de Vila do Conde, o eco demorado dos poemas de Ruy Belo. Ou a serenidade da poesia de Albano Martins, vinda da outra margem do rio.

Mas é aqui, neste pedaço da costa, que a poesia mais se acende, em especial nesta altura do ano, iluminada pelo génio de composições como esta de O Sal da Língua:

«No fim do verão as crianças voltam, / correm no molhe, correm no vento. / Tive medo que não voltassem. / Porque as crianças às vezes não / regressam. Não se sabe porquê / mas também elas / morrem. / Elas, frutos solares: / laranjas romãs / dióspiros. Sumarentas / no outono. A que vive dentro de mim / também voltou; continua a correr / nos meus dias. Sinto os seus olhos / rirem; seus olhos / pequenos brilhar como pregos / cromados. Sinto os seus dedos / cantar com a chuva. / A criança voltou. Corre no vento.»

Foto de arquivo pessoal

Agora as crianças correm de outro modo, montando perigosas bicicletas atrevidas ou serpenteando turistas com trotinetes, segurando às vezes o venenoso telemóvel que as desliga da realidade. Mas a Foz é delas, ainda. Delas e do vento. Dos salpicos de azul por entre metrosíderos e figueiras. Delas e dos muros amarelos que ladeiam o alcatrão. Delas e das gaivotas que poisam sobre os curiosos candeeiros em forma de tridente. Delas e do macio aroma da relva cortada (enleando-se no cheiro do pó e no cheiro a iodo do mar). Delas e da cor indecifravelmente bela das varandas tocadas pelo rútilo da luz, digo, do sol doirando o mar.

Também deste brilho (desta exultação) dá conta Eugénio, no poema «Mar de Setembro», do livro homónimo:

«Tudo era claro: / céu, lábios, areias. / O mar estava perto, / fremente de espumas. / Corpos ou ondas: / iam, vinham, iam, / dóceis, leves – só / ritmo e brancura. / Felizes, cantam; / serenos, dormem; / despertos, amam, / exaltam o silêncio. / Tudo era claro, / jovem, alado. / O mar estava perto. / Puríssimo. Doirado.»

Junto à estátua de Camões, o mar ainda sedutor de entre agosto e setembro sopra-me o seguinte pensamento: que bom que seria se estes e outros poemas de Eugénio de Andrade pudessem nascer dos canteiros floridos da Foz, ocupando – quem sabe em bronze ou pedra – o lugar sujo dos cartazes propagandísticos e publicitários que tanto a enfeiam. Não digo que se ponha de pé uma estátua ao poeta maior deste canto da cidade (tenho a certeza de que Eugénio havia de repudiá-lo). Contudo, seria um ato de justiça que ele fosse lembrado de uma ou de outra maneira. E a justiça, ainda que tantas vezes tarda, faz-nos bem. Eugénio merece-a.

A SOLIDÃO DO MUNDO

Foto: Tanja Ghirardini

Poucas vezes me senti tão só como nessa madrugada de 24 de agosto de 2018, no aeroporto da Gran Canaria, enquanto esperava que as horas se fossem sucedendo umas às outras (e com que vagar elas iam, com que esforço elas vinham), poisado num das dezenas de bancos compridos que atravessam o terminal de voos internacionais, lendo o guia turístico, vendo passageiros chegar à pressa e num ápice desaparecerem de novo, conferindo nos placares eletrónicos siglas, números, lugares de destino, desesperando pelo momento em que abrisse o balcão que me permitiria aceder ao terminal de voos locais e num deles seguir para Lanzarote.

É impressivo o que nos fica de um terminal quase vazio de aeroporto. Os relógios, a luz percuciente das lâmpadas, o cheiro forte de café e dos croissants, o som desconsolado e frio dos tróleis, o movimento silencioso das máquinas enceradoras, a fragrância dos desinfetantes, o acento que as palavras tomam nas outras línguas. Lembro-me de ter comido um panado às três e meia da manhã, de ter dividido algumas frases com a senhora que mo serviu, de ter procurado sem sucesso dormir, de ter tentado escrever qualquer coisa sobre o tema que me ocupa agora. Algures, no miolo da espera, tudo dói como num sonho confuso e a solidão é perfeita. Sentimo-nos exaustos. Damo-nos conta de que não há ninguém para nos escutar, de que somos apenas nós.

Àquela distância, a essa hora, naquele súbito desarranjo de vida, pensei na família, nas pessoas que me querem bem, nos sítios onde havia estado no mesmo dia em anos anteriores, nos sítios aonde gostaria de viajar no mesmo dia em anos futuros, no quão mal-habituado se está quando nos deixamos rodear pelo conforto e pela saciedade, no benefício que nos traz a exigência de transpor as pequenas linhas circulares do dia a dia.

Há com toda a certeza quem experiencie essa solidão tantas vezes e tão frequentemente que dela provavelmente já se alienou. Há talvez quem nestas circunstâncias não pense em solidão, mas em liberdade. Há decerto quem aprecie os corredores despidos e semiescuros de um aeroporto para encontrar neles pontas soltas e respostas existenciais. Pela minha parte lamentava somente a azia que a carne panada e o excesso de café haviam produzido e as alfinetadas horríveis na cervical. Era bom que a ilha de Saramago valesse a pena!

Na verdade, valeu. Valeu bem a pena (a pena, a máquina fotográfica, o tempo, as expetativas, o esforço). Essa noite de 24 de agosto varreu-se, entretanto, sozinha, arrastada para o esquecimento pelo brilho das memórias que a seguir aquilatei. E ter-se-ia perdido para sempre não fosse um parágrafo breve que miraculosamente se preservou no caderno que então me acompanhava:

«É no longe que nos vemos mais de perto, no lugar onde se acaba de nós toda a firme cobardia e começa por ela outra coisa. Aqui, num qualquer aeroporto simultaneamente luminoso e sombrio, sinto-me como um prego espetado na terra: ninguém me vê, ninguém me escuta, ninguém se apercebe de que da cabeça achatada para baixo há metal que o chão oxida. A solidão do mundo é esta: haver quem sempre fique no lugar onde outros sempre se tresmalham, um e outros condenados a desaparecer, ou pela inércia, ou pela pressa.»

Confesso que me fascina este curto e (plausivelmente) inacabado texto. Sobretudo porque não atino com o significado que lhes possa ter dado em 2018, nem com o que volvidos três anos pudesse dar-lhe hoje. A solidão do mundo é também muito isto: comunicarmos mal, pese a beleza e a profundidade do que dizemos.

O REGRESSO DO BLOG «DIAS DESIGUAIS»

Durante quase uma década (entre 31 de janeiro de 2007 e 31 de dezembro de 2015) fui publicando regularmente poesia no blog «dias desiguais». Foram centenas de textos (nem todos poéticos), centenas de fotos e pinturas, bastante música, várias viagens pelo meio.

Acontece que me cansei e apaguei-o. Os textos ficaram guardados, alguns foram publicados novamente, muitos destruídos, outros estão engavetados em ficheiros Word, à espera (quem sabe) de uma outra oportunidade.

Nesta página venho partilhando crónicas e contos (sobretudo). A poesia tem ficado de fora. Por essa razão, criei um espaço novo, melhor, encontrei um novo endereço para um blog antigo, ou um novo blog para um antigo endereço (vai dar no mesmo).

Se tiverem curiosidade, vejam. Se gostarem, partilhem. Se partilharem, não deixem de comentar. Em ano de celebração (20 anos de vida literária é já alguma coisa), não podia deixar de ser. O endereço: www.diasdesiguais.com. Aí como aqui nos encontraremos!

«EUTRAPELIA» – RECENSÃO DE CLÁUDIO LIMA

Ler aqui também

Hoje reunimo-nos para celebrar os 20 anos de poesia publicada em livro por João Ricardo Lopes. Às primícias poéticas deu o Autor o título de a pedra que chora como palavras (ed. Labirinto, Fafe, 2001). E, a justificá-las, se a intrínseca qualidade da obra não bastasse, assinale-se a atribuição do Prémio Revelação de Poesia Ary dos Santos, galardão de encher de orgulho e incentivo qualquer iniciante na difícil arte das belas letras. De facto, percorrendo estes 35 breves poemas, um leitor minimamente apetrechado e familiarizado com os meandros e mistérios da poesia, imediatamente concluirá que aquele livrinho inaugural indiciava, mais do que uma tímida promessa, uma sólida e inequívoca vocação poética. Ainda hoje, volvidos 20 anos, «a poesia irrompe como um meteoro» (pg. 33) ao longo daquelas páginas. Táctil, intensa, evocativa, sob qualquer perspetiva que se a observe, é sempre uma deleitosa fruição o que ela nos proporciona. 

Passados 20 anos e cinco outros títulos de poesia, se o Autor não parou no tempo nem precisou de corrigir a rota, – e entendo que não – é porque partiu de uma rigorosa e bem pensada estrutura formal e conceitual que o tem levado a uma constante e cada vez mais criteriosa indagação do fenómeno, quando não epifenómeno, do que a poesia implica de consistência e aprofundamento. Andam por aí montes de equívocos, montanhas de falácias e cordilheiras de nulidades a doutrinar sobre e a praticar uma escrita balofa e oca a que conferem o rótulo de poesia, travestida, ademais, de genialidade visionária e vanguardista! Um deserto sem vislumbre de qualquer oásis onde mitigar a sede de beleza e unção espiritual!

Um observador comum olha e diz assertivamente: “isto é uma árvore”. E esse juízo, redutor e fechado na estreiteza conceitual, lhe basta. Apenas exige da árvore que lhe dê frutos e alguma sombra. A linguagem com que nomeia e qualifica é pragmática e utilitária; circunscreve o que vê e vê-o por fora e de relance. Um observador de sensibilidade poética, ao invés, vai aos limites da perceção e da expressão da coisa percecionada. Para ele nada é singular e unívoco na linguagem, antes polissémico e polimórfico. Liberta o objeto das amarras a que o uso massivo e ligeiro o submete e explora, ao mesmo tempo que lava as palavras das nódoas causadas pelo uso e o abuso.

Conheço o João Ricardo Lopes há bastante tempo, desde a publicação da coletânea Histórias para um Natal (ed. Labirinto, Fafe, 2004) em que ambos participámos. Mas, sobretudo, desde a publicação das suas crónicas Dos Maus e Bons Pecados (ed. Opera Omnia, Guimarães, 2007), em que de igual modo faz emergir a sua férula de prosador interveniente, atento ao panorama cultural e cívico português. Dessa obra fiz a apresentação na prestigiada e prestimosa Livraria 100.ª Página em 25 de outubro de 2007, cujo texto-base teve publicação no Diário do Minho a 7 de novembro do mesmo ano. Já então eu pressentia, sob a irreverência, por vezes a causticidade, do jovem cronista, a musculada expressão de quem procura bem mais do que a flutuação abúlica à deriva do tempo.

Cláudio Lima e João Ricardo Lopes

Regressa agora, a celebrar duas décadas de poesia, com um título breve e, para muitos leitores, algo esquisito, se não abstruso: Eutrapelia. Palavra de origem grega formada pelo prefixo“Eu” – que significa bem e belo – e pelo lexema “Trapelós”, de amplitude polissémica, omisso em vários dicionários e glossários da língua portuguesa. O velho Cândido de Figueiredo transverte-a simplificadamente para “qualidade daquilo que é gracioso, chistoso, mordaz”; José Pedro Machado no Grande Dicionário da Língua Portuguesa, tomo II, regista “forma chistosa de motejar”; já o Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa, no tomo IX alarga um pouco mais o campo semântico: “modo de gracejar sem ofender, zombaria inocente, disposição de pilheriar agradavelmente, brincar amável e espiritualmente, engraçar-se, pilhéria grosseira, palhaçada, troçador birrento”, etc. Por sua vez, o Google, que regista várias entradas de natureza filológica, filosófica e ética, de divergentes, quando não opostos significados e nuances, tendencialmente valoriza os conceitos de conversa agradável, senso de humor, dito jocoso e inofensivo, etc.

E o Autor? Qual destas múltiplas propostas de natureza semântica o moveu à opção por um título que para muitos leitores se torna embaraçoso e impeditivo de uma imediata apreensão, bem como dos conteúdos que pode abranger? Ele esclarece: ao impulso que o moveu a esta solução subjaz um determinado estado de beatitude por indução (osmose?) de tudo quanto o rodeia, o interpela e o seduz. Uma espécie de filtro que tria a indiferenciada e caótica vasa do quotidiano. Veicula uma poesia que vai beber aos clássicos gregos, orientais e a alguns dos mais representativos vultos da cultura ocidental. Exige ser lida com todo o vagar e atenção, dessa forma removendo eventuais dúvidas e obstáculos ao desfrute de uma lírica adulta, bem burilada, pródiga em sugestão, estesia, brincos de retórica e de encantamento. Importa ser lida empenhadamente, em suma.

Facilmente apreendemos o quanto os prodígios da natureza fascinam o Autor e lhe condicionam o estro poético. No seu cíclico e inalterável movimento, estação a estação, admiramos aqui ora o desabrochar pletórico, ora o inelutável dessoramento e morte, para novo ressurgimento em novo ciclo vital. O eterno retorno em movimento perpétuo. Ocorre-me citar, a respeito, o grande Johann Wolfgang Goethe, quando compara a natureza a um livro: «A natureza é o único livro que oferece valioso conteúdo em todas as suas folhas».

Logo na página 13 encontramos um poema intitulado Bosch, Primavera, Museo Del Prado em que, provavelmente influenciado pela contemplação dos trípticos O Jardim das Delícias e / ou O Carro de Feno, do grande pintor brabantino, que se encontram expostos naquele Museu, observa que «encontrar no meio do sangue revolto / a pedra imprecisa // seria essa, talvez, a mais bela fonte da loucura», porque «depois de extraída tudo regressaria ao seu lugar». E na página 16 é ainda um hino à primavera que nos é oferecido num Allegro de jubilosa exaltação: «daqui observo o afã dos piscos nas ramagens / do limoeiro, / oiço o arrulhar, o trissar, / o assobiar das rolas, das andorinhas, dos pardais (…)  em maio as manhãs / fazem-me mergulhar na terra, / na profusão dos cheiros e das formas, / no frescor das ervas, / na quentura das cravinas e das rosas // arrepio-me de pensar que existo / e respiro / e escuto o tempo».

Cláudio Lima, João Ricardo Lopes e João Artur Pinto

Curiosamente, sobre o verão não encontramos nenhum título explícito, não obstante a sua sedução e a sua luminosidade permearem muitas destas composições. Na página 32, por exemplo, podemos ler o poema Agosto, em que fala no «verde azul do mar / ferindo-me como crisocola entre os dedos, / este azul onde os olhos adormecem (…)» E na página 30 repare-se neste extraordinário quadro (tela) estival, intitulado Tremezzo (região italiana da Lombardia): «lembro-me dessa tarde em Tremezzo, / do sol a pique / dos nossos corpos transpirados / à procura de uma sombra (…) os lentos degraus de granito até ao lago, / a água  refrescando-nos os tornozelos, / a lavar-nos do cansaço, / as ondas que os barcos de recreio levantavam / e que vinham de longe, / que vinham contra nós, / criaturas exangues, inofensivas, / sem culpa de nada».

O outono está aqui profusamente referenciado: na página 37, no poema O outono acena mais perto, elenca os gestos rituais de um setembro maduro e abundante: «nestes dias de lavar, brunir, / dobrar em caixas de cartão as roupas, / fazer contas de cabeça, tirar velhas compotas do armário, / despejar-lhes o bolor, lavar os frascos, / fazer polpa, cozer os marmelos, colher os figos, / conservar tudo de novo, como uma memória fresca da infância // o outono acena mais perto, / digo, o ar distraído das coisas, a subtileza madura dos frutos».  Na página 51, em Lendo Erdal Alova, poeta turco, fala do frio que secou os agapantos, das «pétalas soltas, / teias de aranha entre os caules / ressequidos», para concluir: «o outono é a estação do pouco / e eu contento-me / com tê-lo inteiro / aqui, / ou noutro lugar».

Também o inverno percorre estas páginas. No poema, a páginas 10, Sevilha, Inverno de 93, recorda «a pele das tuas mãos / (sempre tão álgidas) / caindo sobre o meu caderno // o que escreves aqui? para quê a poesia? / quem amas tu?» E lá mais para diante, evocando o cineasta russo Andrei Tarkovsky no poema O Inverno ou a Nostalghia de Andrei Tarkovsky, (página 58), é-nos dado a ler: «são agora mais frias as manhãs, / quase espetrais / atravessamos o nevoeiro, / como se atravessa a vau um espelho // os lavradores afastam em molhos a lenha inútil, / pelos campos as gralhas zombam avulsamente» Quadro rústico de grande plasticidade, sem dúvida, a fazer lembrar pintores como van Gogh. A concluir, logo na página seguinte, em Prodígios, leiamos esta quadra: «é possível trazer para dentro da lágrima / a subtil viração de certas tardes de inverno, / quando à janela as cortinas esvoaçam / e se descobre um mundo subitamente interrompido».

João Ricardo Lopes é, sem dúvida, um insaciável buscador de tesouros, naturais ou elaborados por obra do génio humano; coleciona sensações, contemplações, entusiasmos de índole estética e espiritual. Não é um turista apressado e frívolo numa correria tonta, galgando geografias de máquina fotográfica frenética, atrás de alvos banais para registo de selfies e de filmagens. Datados no tempo e situados em amplos espaços da cultura e da arte europeias, estes poemas, de tamanho e estrutura diversificados, constituem-se em precioso álbum literário daquilo que de mais belo e imperecível a humanidade foi realizando. Por aqui se movem em aparições mais breves ou mais demoradas, vultos tutelares da língua e cultura portuguesas, como Camões, Camilo Pessanha, Saramago; génios da arte universal como os poetas Horácio, Schiller, Whitman, Lorca e Seferis; pintores como Vermeer, Caravaggio e Bosch; músicos como Schubert, Debussy e Ravel. E tantos outros, cujas vidas e legados impressionaram o Poeta e o inspiraram nas digressões por museus, catedrais, jardins, monumentos, praças e avenidas, em diversos sítios tais como Creta, Londres, Milão, Madrid, Sevilha, Lanzarote, etc. Um andarilho do sonho e do mistério; do fascínio dos lugares e das coisas em que poisa e demora um olhar deslumbrado.

Encerro esta despretensiosa e limitada exposição-apresentação, lendo o poema O Cheiro da Terra (página 31), demonstrativo da faceta telúrica que esta obra também revela.

O CHEIRO DA TERRA

o cheiro mais antigo de que me lembro

é o perfume da terra

antes mesmo da fragrância húmida

do mar e da chuva,

antes do odor do papel, dos vernizes

ou da tinta,

antes mesmo do aroma dos laranjais,

ou das rosas, ou do pão

invade-me às vezes uma volúpia incerta

de caminhar descalço

sobre os campos lavrados,

de erguer punhados dessa matéria negra

e macia

– aparentada com o ardor

do alecrim e da rezina –,

caindo em torrões e grânulos

como deve cair

os cheiros são o nosso modo de rastrear

o tempo

é um mistério o que deles nos fica

e porque ficam,

um mistério