ESCONJURO

Foto: Fernando Jorge Gonçalves

Cada vez que regressava, a jovem punha-se a murmurar uma indecifrável ladainha ao rio. Era uma coisa antiga, um esconjuro que aprendera em criança com velhos da sua terra. Se alguém dava conta desta crença, ela punha-se a divagar sobre os mistérios que correm debaixo das águas enevoadas e que de manhã cedo se erguem como almas em farrapos ao céu.

Em todo o caso, as orações em língua estrangeira pouco nos importam. Apenas na nossa fala compreendemos a angústia e o sentido das ameaças ou das alegrias que deslizam sorrateiramente das florestas aos rios e destes ao mar. Na boca dos outros que mal-entendemos tudo nos parece distante e frio, como garatujos que os antepassados escreveram nas pedras.

O CAMINHO

dariosastre
Fotografia: dariosastre

 

Junto à costa portuguesa, nos antiquíssimos lugares onde mar e terra disputam eternamente cada milímetro de espaço, convergem belos caminhos luminosos ao longo dos quais, especialmente nos meses de verão, avançam centenas de peregrinos rumo a Compostela.

Não deixa de surpreender-nos essa visão do caminhante, não raro sozinho, bordão em riste, mochila pesada às costas, chapéu na cabeça, botas ou ténis nos pés, misturando-se aqui e além com a multidão de banhistas que vai descendo às praias, comendo gelado, espreguiçando-se nas incontáveis esplanadas que povoam o litoral.

Karen viajou da pequena cidade de Ålbaek, no norte da Dinamarca, para o Algarve, no sul de Portugal. Depois de um curto fim de semana em casa de amigos, subiu de comboio até ao Porto, a partir de cuja catedral iniciou o percurso atlântico que lhe faltava cumprir. É uma professora de línguas, especialista em idiomas raros e dialetos ameaçados, como o feroês, o emiliano-romanholo, o valão, o frísio, o iídiche, o gaélico, o romani ou o galego.

Há muito que a impressiona a língua do noroeste peninsular. Na sua húmil opinião, galegos e portugueses deviam inteirar-se do muito que possuem em comum e reaproximar-se. Não há muito publicou um artigo onde dava conta da sua concordância com as correntes filológicas mais modernas, segundo as quais «A língua galega deu origem à portuguesa e a língua portuguesa, filha ingrata, renegou a maternidade, fingindo-se fruto de outro parto».

Para si, esta variante do Caminho é mais do que um trilho medieval. É como atravessar o cerne de uma unidade antiga que continua a existir, tanto linguística como culturalmente, visto que para si para Portugal e Galiza são as duas metades de um mesmo pulsar ancestral, céltico, romanizado, distinto do modo de ser e do modo de pensar da restante Ibéria.

Uma das maiores conquistas da vida de Karen é o prazer de calcorrear a Europa e de se inteirar das maravilhas que o tempo não apagou inteiramente.

Esta manhã, por exemplo, um pouco antes de percorrer um passadiço entre cinco magníficos moinhos de pedra, viu uma mulher idosa puxar um pesado carrinho repleto de sargaço. E presenciou um pouco adiante à chegada de coloridos pequenos barcos, que (atrelados a um trator) iam escalando uma poderosa rampa até a uma lota, onde deixaram a sua pescaria confusa, no meio de uma nuvem de gaivotas e mulheres vestidas de negro.

Karen penetra agora numa igrejinha bem no centro de uma cidade ou vila, que lhe chamou a atenção pelo misto de casas de épocas diferentes, pela pacatez e limpeza das ruas, pelo número de cafés e lojas que se seguem uns aos outros, de portas tranquilamente abertas e todas com o franciscano Antonio (a que os de cá chamam de Lisboa e em Itália Il Santo di Padova) encimando prateleiras, carregando o Menino num braço, no outro os Evangelhos, em toda a sua pessoa carregando a esperança de sucesso e de bons negócios dos comerciantes.

A igreja onde entrou é realmente minúscula. Vem aqui carimbar a sua credencial, orar num templo católico na fé luterana em que foi ensinada, confirmar as informações que constam no seu guia. Karen observa o altar-mor, ricamente adornado com motivos florais, os altares secundários (de Nossa Senhora das Dores, trespassada por sete espadas agudas, do Cristo agónico, vestido de roxo, arrastando a cruz em que há de ser supliciado), os arcos, o púlpito, o brasão com as armas de Portugal, os caixotões no cimo, a capela lateral, construída (segundo apurou) em honra do Senhor dos Mareantes e em cujo teto estão pintados os doze profetas messiânicos do Antigo Testamento.

Causa-lhe desconforto esta profusão de santos, cristos, virgens, profetas, talha dourada, azulejos e pinturas contrastante com a severidade do chão lajeado, dos bancos de madeira e mesmo com o coro-alto. Choca-lhe estas esculturas barrocas, cheias de uma dor e de uma piedade absortas e postiças. Ao menos, a estátua de São Tiago é neutra: o apóstolo segura o seu cajado, a sua cabaça, a sua concha, o seu manto, o seu chapéu dobrado com a vieira estampada, a sua escarcela, sem enfatuamento, como embalsamado no pasmo de que por sua causa venham novos e velhos de todo o mundo percorrer, como esta mulher nórdica, as insondáveis veredas que conduzem às suas relíquias, esquecendo que deveriam conduzir antes ao Altíssimo.

Na primeira fila está um homem ajoelhado. Karen afirma nele o olhar, surpreendida de nele não ter reparado antes. Detém-se instintivamente, receando perturbar com o som dos seus passos o momento religioso. Ninguém deve interromper o diálogo de um crente com o seu Deus. É um homem de meia-idade, não se saberá precisar-lhe a idade, talvez trinta e muitos, talvez quarenta e poucos. Não possui os traços de um cristão vulgar, pois se assemelha a um qualquer homem citadino no vestir, no corte de cabelo, nas feições secularizadas e arrogantes. Nas mãos segura um mistério, um desses fios de contas que lembram um terço mais curto ou a japamala dos budistas. É notável que não esboce qualquer movimento com os lábios ou com os olhos. Os dedos tocam as pedras, mas quase não se vê girar o objeto, denotando ausência de pressa, quem sabe uma convicta conversa com o Além.

O passaporte está carimbado. Karen deve tingi-lo duas vezes por dia até ao término da sua jornada, a duzentos e dezassete quilómetros a nor-noroeste, ou se preferirmos a cinco dias de viagem.

Abandona a igrejinha pensativa. Não lhe sai do pensamento a ideia de que rezar é um caminho interior complexo. À medida que se percebe o quanto é fútil mostrar, mais lhe parece necessário esconder. Ao longo dos séculos, milhões de peregrinos (reis e rainhas incluídos) chegaram à mesma conclusão: o Caminho de Santiago aprende-se muito devagar, não raro ensanguentando os pés, muitas vezes ferindo o orgulho.

NA TRANSILVÂNIA

Julien Oncete
Fotografia: Julien Oncete

 

Em certa aldeia da Roménia, onde os rapazes se tornam homens aos treze ou catorze anos e as meninas se fazem mulheres ainda mais cedo, vê-se sem esforço os velhos a carregar pesos e a executar tarefas que noutras bandas se diriam impróprias para a sua idade. Aqui todos trabalham e ninguém parasita o próximo. A ociosidade e a mandriice são olhadas como modos desonrosos de viver e, por isso, existe no ser de todos uma força e uma robustez que lembram os antigos servos da nação.

Conta-se acerca desta aldeia a seguinte história:

Oriundo de uma outra terra, implantou-se em certa casa um bruxo. Nos primeiros tempos, acolhido com suspeita e curiosidade, o indivíduo pouco sinal deu de si. Era um homem obeso, de aspeto desleixado (destacando-se nele, por contraste com a magreza dos moradores, a pança protraída e bamboleante), sem cabelo, de olhos torpes e língua venenosa, cuja fala semelhava o discurso rude de um camponês. Não obstante, possuía a esperteza de todo o charlatão. Uma vez tolerado e aceite no lugar, passou a dedicar o seu tempo a receber e a ser recebido, inteirando-se de pormenores, segredos, ódios e ajustes de contas, debilidades e inseguranças. Era hábil no manuseio das frases. Com elas urdia as mais profundas e misteriosas invocações do demónio e, sobretudo, dava sempre a resposta que o temeroso interlocutor buscava. Em escassos anos, passou de respeitado a temido e enriqueceu. Acumulou, com efeito, luxos, privilégios reputação de homem poderoso.

Não podia ser mais irónico que um indivíduo incapaz de usar uma foice ou uma enxada, mole, covarde, sem escrúpulos, tivesse dobrado todos os que naquela povoação eram rijos, afoitos e íntegros. Em duas décadas de convivência com os naturais, a gorda sanguessuga semeou desconfianças, fez crescer as superstições daninhas que o tempo nunca apaga; por vias delas, desfez amizades, inquinou a boa vizinhança, submeteu os mais valentes. Todos receavam o alcance dos seus grimórios e ninguém levantava a voz para o questionar, desafiar ou contestar. O medo, como todos admitiremos, é uma arma maligna e eficaz.

Mas dentro de portas, à puridade, no antro da sua consciência ou da sua alma sulfurosa, o bruxo temia. Temia o futuro.

Como tudo o que é balofo, mentiroso e frágil, também o seu reino era feito de espuma e a sua existência acarretava riscos. Se algum dia, alguém ousasse fazer-lhe frente, se algum esclarecido teimasse em desacreditá-lo, se alguma das muitas famílias que o odiavam, tomasse a resolução de o punir, não teria ele como fugir ou esconder-se, pois a asquerosa reputação de um homem persegue-o para onde quer que ele vá e ao reino do medo costuma suceder-se o da vingança.

Também ele precisaria da ajuda dos demónios e os demónios são criaturas que existem apenas na boca de quem os pronuncia. 

Diz a lenda que uma manhã o encontraram empalado à saída da aldeia, perto da floresta. Uma estaca afiada de abeto havia-lhe sido introduzida pelo ânus e subido ao pescoço e ido mais além, erguendo-se à altura de um edifício de dois andares. Quem o via, cuspia com desprezo e voltava os olhos. Deixaram que penasse insuportavelmente oito dias, até que murchou como uma ratazana no espeto. Assim permaneceu muito tempo, lembrando a forasteiros e a conterrâneos que nenhum bem é maior do que a paz e nenhum pecado mais cruelmente expiado que o de uma afronta.

No interior dos Cárpatos as lendas são muitas vezes sangrentas, pese (felizmente) não passarem disso mesmo, de histórias falaciosas a que não devemos dar muito crédito.

ETERNA PARTIDA DE XADREZ

Serban Mestecaneanu
Foto: Serban Mestecaneanu

 

No seu escritório, cada vez mais oprimido pela carga de livros, estatuetas e objetos colhidos nos incontáveis recessos da História, o filólogo, antropólogo, poeta e religioso Carlos García-Ibañez, sorri amiúde para o vazio.

Chegou tantas vezes à mesma conclusão que não se limita agora senão a confirmar o que é para si já e apenas uma verdade apodítica: a marcha do tempo obedece a uma ordem desordenada e nós somos empurrados para o fluxo e refluxo dos acontecimentos como conchas e algas que o mar expulsa e reabsorve na praia. Só por milagre nos mantemos intactos.

Teodora era pouco mais que uma prostituta: acabou esposa de Justiniano, senhora de Bizâncio e santa. Maria da Escócia, Ana Bolena, Maria Antonieta foram poderosas rainhas e acabaram no vil cepo em que se exterminam eras, regimes, modos de vida.

As águas do devir, que elevam bailarinas a imperatrizes e decapitam aristocratas, deviam ensinar-nos alguma coisa. García-Ibañez pensa que a História adormece para reacordar na mesma cama. Os povos ganhariam em inteirar-se do passado. Mas talvez também isso fosse só um motivo mais de sonolência. Para si tudo tem de repetir-se inexoravelmente, como uma partida de xadrez que recomeça logo após o xeque-mate. E onde todos somos peões. Somente peões.

O ASSASSINO

Tom Baetsen
Foto: Tom Baetsen

 

Esperava amar e ser amado. Porém, ela deixou-o e no lugar do amor ficou o ressentimento.

Deu-se conta, no início, de que o irritavam os risinhos dos jovens casais na rua, o estalar dos beijos entre sucções bruscas (por causa da pastilha elástica), o efeito moroso de certas interjeições demasiado teatrais.   

Depois tornaram-se-lhe abomináveis os operários da construção civil, rebarbando eternamente pontas metálicas. E os táxis buzinando a toda a hora e em toda a parte. E as sereias das ambulâncias. E os apitos dos elevadores e dos micro-ondas. Com o tempo, o seu ódio estendeu-se aos latidos dos cães à noite, ao miar imaginado do persa que ela levou depois do divórcio, à algazarra das crianças no recreio ou no parque defronte o seu apartamentozinho. Não tolerava os estalidos de madeira, o zumbir do frigorífico, o súbito aumento de decibéis no intervalo dos programas televisivos, o timbre metálico de certas vozes que o chamavam, interpelavam, interrogavam.

A misofonia e crescente misantropia eram nomes, uma explicação. Nada mais.

Nos sonhos, a cena do crime e o cadáver profanado, desfeito, transportado com empenho e ardil até ao alto do paredão e trinta e três vezes lançado à albufeira em trinta e três meticulosos e sinistros sacos herméticos, todo esse empenho vinha à boca e ele falava. Os pesadelos dobravam-no, enlouqueciam-no. Eram como terramotos que retorcem e amesquinham o aço.

Esse o seu castigo.

Ninguém suporta que lhe digam, especialmente nos sonhos, que até a vida indigna de um assassino o é por alguma razão. Que até para ela há um sentido, uma cura, um perdão.

A ÚLTIMA SAGA

catalin alexandru
Fotografia: catalin alexandru

 

No Golfo de Bótnia, a meio caminho entre a Suécia e a Finlândia, fica o arquipélago de Åland. Mika, um carpinteiro naval, trabalha em Iniö com o seu irmão Thure. Presentemente, ocupa-se com a construção de um drácar viking, mas o seu pensamento desce muitas vezes a um sonho que se repete noite após noite.

Vê-se a velejar pelo espelho tranquilo das águas na costa continental, com as pequenas casas vermelhas de madeira a espreitá-lo desde os prados. É já muito velho. A família reúne-se para o ver partir. Ele entra numa cápsula futurista, espécie de grão de ervilha todo em vidro, e o estranho objeto sobe então em direção ao espaço a grande velocidade. Viaja entre planetas e asteroides, vê o movimento de aproximação e afastamento dos grandes corpos celestes, das luas, dos anéis de gelo. Não precisa de alimentar-se, nem de satisfazer quaisquer outras necessidades fisiológicas. Não precisa sequer de respirar.

Penetrou no campo da eternidade. Assim como está, assim se manterá para sempre. Distancia-se cada vez mais da Terra e daqueles que vieram despedir-se. A morte é um caminho infinito para o além e o além é o afastar-se cada vez mais daqueles que ama ainda e de que sente já saudades insuportáveis.

Desperta todas as madrugadas com lágrimas nos olhos. Noora, felizmente, dorme. Não seria fácil explicar-lhe este enredo onírico e, sobretudo, a repetição do pesadelo.

«E se a morte for exatamente aquilo, a solidão total no tempo e no espaço!»

Quando regressa à oficina, já o dia despontou. Trabalhar a madeira com a enxó e com a plaina costuma ser revigorante – esta novíssima embarcação é uma encomenda especialmente cara e desafiadora. Mais ainda quando decide velejar entre as ilhas e ilhotas vizinhas até Mariehamm, sentindo o fustigar do vento frio e o movimento do sol na água que tudo reverbera e ilumina.

Mas a sombra do pesadelo reapodera-se de si à medida que a noite cai. Chega a ter medo de adormecer.

«E se a morte for exatamente aquilo?»

Nenhum de nós garantirá que não é.

O PADRE

Young priest short-story
Fotografia: nini_filippini

 

Ao sol está agora uma roupa tão branca que parece, sob a força do primeiro, uma cascata de lâmpadas acesas. O jovem padre olha-a enternecido. Gosta de contemplar a castidade onde quer que ela se encontre.

Na sua terra natal, a esta hora cheirará ao preparo das cozinhas, a alho e a azeite, a refogados e a estrugidos. Em breve rescenderá a peixe frito. No lugar onde costumava beber o seu café matinal, três esquinas adiante da velha Sé de pedra basáltica, ver-se-á o recorte da costa no Atlântico, a sombra azul das ilhas desertas, e há de misturar-se no corpo atento de quem ali um instante repousar o lume roxo dos jacarandás, a aragem das casuarinas e araucárias, o travo vestigial e amargo do café, o paladar doce do papel velho, o ruído manso dos transeuntes na Baixa e pela marina.

Mas vive agora na grande cidade. Aqui são o rio e o Cristo gigante de braços abertos que dominam a sua atenção. E essa luz forte que chega a doer. E esse rumor indecifrável de um milhão de coisas simultâneas e em conflito entre si.

O padre bem se esforça por anotar ideias, juntar frases, trazer de volta o seu dom. Depois do serviço religioso, vem até esta parte. Caminha largos minutos a pé, em absoluto silêncio, procurando absorver a paisagem. Visita os jardins, vê os telhados, escuta os barcos no meio do azul. Os novos paroquianos saúdam-no. Ele acena-lhes. A brisa de junho é macia, impregnada no aroma das tílias.

Morar aqui não é assim tão diferente de viver lá. 

E, no entanto, a poesia ainda não regressou. A sua alma verdadeiramente virá quando ela vier, somente quando ela chegar. Entristece-o saber que assim é e que assim será. É uma espécie de pecado mortal que não pode sequer confessar.

Se o fizesse, quem o absolveria?

MÃE

Mãe
Fotografia: Tatyana Tomsickova

 

A rapariguinha estugou o passo. Não demoraria a chuva. Era uma tarde estranha, uma rua comprida, uma gente de rosto frio. De quando em quando, sempre que a acometia ao de leve uma suspeita, uma voz mais alta, uma ameaça, acariciava o ventre: bendito o fruto que ali devagar, desapressada, maravilhosamente, crescia.

A rapariguinha levava as golas do sobretudo erguidas, a bolsa a tiracolo, o coração aos pulos. Queria chegar a casa, descalçar os sapatos, abrigar-se no seu canto, sentir o aconchego das paredes e do silêncio, ser tocada pelo pulsar dos objetos conhecidos. Havia muito de umbilical ali: uma promessa de conforto, uma sensação de perenidade e de paz, uma resistência contra tudo e contra todos. Era dentro dela que gostava de pensar, de sonhar o futuro, de acalentar o rebento por nascer.

A rapariguinha à noite, quando ninguém a poderia escutar, dizia ao gato e ao sofá e às lâmpadas acesas, dizia como quem gostasse de ser ouvido «Este meu filho triunfará», «A este menino não faltarão o amor ou que comer», «Ninguém fará mal a esta criança, que eu não deixo».

A rapariguinha estremecia ao murmurar estas palavras. E era toda ela uma coragem, toda ela uma certeza, toda ela o encarnar de uma força desconhecida. E não chovia. E ninguém se atravessava entre si o tempo. E nenhum perigo se aproximava sequer do filho acalentado. E ela era tão franzina. E a criança tão pequena.

A CORAGEM DE TOBIAS

Jeffrey Van Daele
Fotografia: Jeffrey Van Daele

 

para o João Dinis, como presente de aniversário

 

Era uma vez um rapazinho que vivia numa aldeia com poucos habitantes, numa das encostas de uma grande montanha. Aí todos se conheciam pelo nome e sabiam todos os costumes uns dos outros, porque as pessoas tinham tempo umas para as outras.

Esse rapazinho chamava-se Tobias. Tinha acabado de fazer sete anos, quando o pai lhe pediu para o acompanhar na guarda do grande rebanho. Um rebanho é uma família de ovelhas ou de cabras, às vezes de ovelhas e de cabras misturadas. Os rebanhos são valiosos, por isso precisam de ser guardados. À noite dormem em casotas de pedra ou de madeira, fechados entre portas seguras. Mas durante o dia é preciso levá-los aos melhores prados, muitas vezes distantes, para que possam comer.

O pai de Tobias era pastor. Foi ensinado a cuidar das reses, a conduzi-las por planícies, vales e montes. Aprendeu desde muito novo a aproveitar o leite das cabras e a lã das ovelhas. Com o leite fazia-se um queijo maravilhoso, muito fresco, que forasteiros de terras às vezes longínquas vinham comprar.

Diziam “Não há queijo como este!” e todos na aldeia sentiam um grande orgulho ao escutar estas palavras. E, por ouvi-las muitas vezes, as gentes da serra percebiam que o seu trabalho era reconhecido e que certas coisas só se conseguem pelo muito amor que lhes temos.

Da lã tosquiada às ovelhas fazia-se agasalhos para o inverno. Quando a neve cobria os telhados das casas e a torre da igreja, deixando brancos os campos e as pequenas estradas solitárias, nada aconchegava tanto como as peúgas, os gorros, as mantinhas, os casacos feitos desse tecido grosseiro.

Tobias tinha muitos amigos. Moravam todos muito perto, porque as casas da aldeia tinham sido construídas juntas, porta com porta, usando escuras lâminas de pedra sobrepostas. Olhadas de longe, à noite, com as suas lareiras e candeias acesas, essas casas de xisto assemelhavam-se a um presépio.

Desde há muito que os aldeões sabiam que nas encostas de uma montanha se vive entre perigos e dificuldades e que para vencê-los, para resistirem, todos precisam de se apoiar e ajudar.

Havia aldeões que trabalhavam a terra: deles se esperava o centeio para se fazer o pão, batatas e a hortaliça para a sopa, e a forragem para o gado. Havia outros que cuidavam das abelhas e que, por essa razão, se chamavam de apicultores: quando iam aos cortiços retirar o mel e a própole, tinham de usar luvas e uma fatiota de colmo e estamenha, que as crianças achavam engraçada. Na aldeia havia também quem cuidasse dos sapatos, quem costurasse os vestidos e as calças, quem tratasse das forjas e dos ferros, quem moesse a farinha, quem fabricasse as mesas e as cadeiras, quem ensinasse na escola. Todos trabalhavam para si e para as suas famílias e para que nada faltasse aos demais.

Uma vez por mês, a aldeia era visitada pelos almocreves. Os almocreves eram comerciantes, gente que ia de terra em terra, com as suas mulas, para vender e para comprar. Faziam-no desde tempos muito recuados, subindo e descendo a montanha, ao longo de estreitos caminhos, cheios de paciência e sem pressa, levando não só mercadorias e ensinamentos, como notícias e lendas que muito impressionavam quem os esperava.

Quando os almocreves paravam no adro da igreja, formava-se uma multidão. De dentro dos alforges, dos sacos de lona, dos caixotins, dos bornais de couro saía um pouco de tudo: brinquedos, latas de sardinha, frascos com óleo de rícino, parafina, torcidas para candeias, bacalhau curado, caramelos, café, açúcar, frutos secos, tudo.

A chegada destes mercadores à aldeia era uma grande festa. Sobretudo para as crianças. Elas viam com espanto que no mundo se iam inventando coisas, coisas que os antepassados jamais puderam imaginar que pudessem ser inventadas: aparelhos de ouvir notícias, lampiões leves e seguros, esferográficas que dispensavam o uso da pena e do tinteiro, máquinas de somar, livros sobre os astros, revistas de moda.

“Ah, se o meu pai visse isto!”, suspirava um velho, coberto de cãs. “O mundo está a mudar, a mudar muito depressa. Aonde iremos parar?”

Tobias gostava da sua aldeia. Os seus amigos, a sua família, a sua alegria, pertenciam àquela paisagem. Ali tudo era calmo e pachorrento. As novidades vindas de outras aldeias e cidades pareciam-lhe irreais e desnecessárias. O mundo cabia todo nesse redondo que os seus olhos avistavam a toda a volta de si. Para quê cobiçar o que para lá desse horizonte existia?

Porém, uma madrugada, no início da primavera, aconteceu algo de que há muito se não falava.

Tobias acordou como de costume muito cedo. Um vizinho conversava com o pai, descrevia-lhe um problema, lamentava-se e pedia conselho. O rebanho comunitário tinha sido atacado.

Era costume, naquela altura do ano, os aldeões juntarem todos os seus animais num rebanho só e ir apenas um pastor guiá-lo até aos melhores pastios. Assim, os homens da aldeia ficavam livres para se dedicarem a outro tipo de trabalhos. Um único pastor, acompanhado por dois ou três cães adultos, podia apascentar centenas de cabeças de gado.

Mas havia agora um problema.

Quando nessa madrugada se preparava para empurrar as pesadas trancas do cancelo que mantinha fechado o curral, o vizinho reparou em manchas de sangue na pelagem de algumas ovelhas. Contou-as. Faltava uma. Na véspera, sucedera o mesmo. O pai de Tobias escutou palavras preocupantes.

– Os lobos estão a atacar-nos o rebanho: andam por perto, conhecem os nossos passos, atacarão de novo.

– Sabes o que precisamos de fazer…

– Sim! Vamos chamar os outros!

O pai de Tobias foi buscar o cajado. Encaminhou-se de seguida para a pequena praça, onde se juntaram todos os homens adultos e mancebos. Então, subindo os degraus do cruzeiro, um deles falou.

– Vizinhos, um lobo faz mossa, atacando o rebanho, apanhando desprevenido um cordeirinho. Uma alcateia, porém, pode atacar-nos a nós, a um dos nossos. Enquanto não formos capazes de a apanhar ou afugentar, estaremos à sua mercê!

Concordaram que era preciso fazer uma busca e enfrentá-la. Uma alcateia é uma família de lobos. Todos devem saber que estes animais são antigos, inteligentes e organizados. Em grupo, são capazes de caçar presas do tamanho de vacas, veados ou cavalos.

As névoas iam-se esfarrapando com a algazarra. Os homens, servindo-se de paus, enxadas, foices, machados e forquilhas, dividiram-se em dois grandes grupos: um foi para norte, outro para sul. Batiam em tambores e panelas, gritavam, urravam, faziam o maior barulho que pudessem.

O objetivo era espantar as feras com o alarido e fazê-las sair do esconderijo. Assustadas, estas saltar-lhes-iam ao caminho. Depois, os homens, munidos das suas armas, brandindo tochas, convergindo uns para os outros, haveriam de as empurrar para o fojo que ficava no alto de um penhasco.

Os fojos eram armadilhas gigantescas, feitas de muros altos de pedra, que se apertavam mais e mais, um contra o outro, como um grande V maiúsculo: impelidos para esse lugar, os lobos ficavam encurralados e, sentindo o espaço a afunilar-se, corriam mais depressa até caírem no extremo no abismo. Não podiam escapar.

Tobias queria participar nessa aventura, mas o pai proibiu-o.

– Filho, tens sete anos. Precisas de compreender que o nosso lugar no mundo é muito frágil.

– O que quer isso dizer, pai? 

– És uma criança. A obrigação dos pais é defender os filhos a todo o custo! Ficarás em casa, com a tua mãe. Enquanto não nos livrarmos deste mal, ninguém está a salvo em lado nenhum nesta aldeia.

Quando o dia clareou, não se falava de outra coisa.

Com o coração aos pulos, morto de curiosidade, espicaçado pela narrativa que construíam os seus amigos, o rapazinho deixou-os logo que pôde. Enveredou, então, por um carreiro apertado, subiu a encosta e afastou-se cada vez mais. Conhecia tão bem aqueles caminhos!

Numa cumeeira pôs-se a ver e a escutar. Nada alcançava com os olhos, mas às vezes, numa viração, conseguia ouvir muito ao longe, muito além, o ruído dos homens. Que pena não poder estar entre eles. Gostava tanto de observar um lobo!

Caminhou sem destino. Sentia a brisa a passar nas grandes penedias, fazendo baloiçar as urzes pregadas no granito, desalinhando-lhe as farripas do cabelo.

Aqui e acolá, no meio do musgo seco, através das fissuras nas pedras, seguiam carreiros de formigas. Uma joaninha, fechando as asas, poisou na sua mão. Mais à frente, viu a toca de um grilo. Cortou uma palhinha e pôs-se de cócoras a remexê-la dentro do buraquito, enquanto repetia uma quadra cantarolada que soava a oração. Em breve o animalzinho assomou. Tobias, ao invés dos seus amigos, não gostava de colecionar grilos em caixas de fósforos e de os prender em casotas. Preferia que vivessem nas suas pequeninas luras, comendo livremente a sua serradela e a sua alface.

 “Este é um lugar maravilhoso”, pensou. “Não há no mundo outro onde mais gostasse de viver”.

Tobias aproximou-se, entretanto, de um carvalhal. Havia muito que ali não entrava. Apanharia bugalhos, algum ramo em forma de ípsilon para preparar uma fisga. Talvez avistasse algum ninho de gaio, ou algum esquilo. Ah, se os seus amigos soubessem de ovinhos novos!

Depois, sem querer, viu um tronco humedecido com fungos e líquenes a toda a volta. Achou bizarras as formas dos pequenos cogumelos saindo da madeira. Sabia que alguns deles eram malcheirosos e venenosos, por isso não lhes tocaria com as mãos, mas com algum graveto. De gatas, começou a procurá-lo no chão coberto de folhas.

Quando reergueu os olhos, viu à sua frente, a não mais do que dez passos de distância, um lobo.

Ficou paralisado pelo terror. Durante um bom pedaço, com o coração aos pulos, com imensa vontade de chorar, não foi capaz de nada. O animal também não se mexeu. Os olhos amarelos pareciam estudá-lo. Apenas as orelhas felpudas, fitadas, se moviam lentamente.

Para grande surpresa sua, daí a pouco, vindos dalgum esconderijo, soltando pequenos latidos, surgiram três cachorrinhos. O pelo (acastanhado, basto, mais escuro sobre os olhos e o focinho e no dorso) era enternecedor.

Tobias viu então a extremosa mãe lamber-lhes a nuca. As crias deram pela sua presença, principiaram a caminhar na sua direção. A loba rosnou, arreganhando os dentes. Os lobinhos recuaram.

Sem um gesto, mantendo os joelhos no chão, o rapazinho sentia a coragem renascer dentro si. Disse baixinho “Não vos faço mal”, “Não vos faço mal”. As crias, curiosas, recomeçaram o movimento. Se a mãe franzia o focinho e lhes mostrava os dentes, interrompiam-se. Mas logo em seguida, faceiros, abanando a cauda, davam mais dois passos. Por fim, alcançaram-no.

Depois de o farejarem, puseram-se a mordiscá-lo. Os dentes mal afiados e a língua tonta procuravam-lhe os braços e as mãos, mordiam-no como alguém que desafia outro para a brincadeira.

Por instinto, achando-lhes muita graça, Tobias principiou a fazer-lhes cócegas na nuca e na barriga. Eles, em resposta, deitavam-se com as patas para cima e davam cambalhotas.

A loba, ao cabo de algum tempo, veio também fariscá-lo. Depois, tranquilizada, sentou-se.

Era bom poder contar com alguém para ajudar a cuidar dos seus filhotes. Tobias mal podia acreditar que a seu lado repousasse uma fera tão temida.

Ao serão, enquanto ceavam, o pai declarou.

– Amanhã vamos para a outra banda. O lobo não apareceu hoje. Mas amanhã sentirá fome e terá de se mostrar.

A mãe perguntou.

– Falas como quem espera um lobo só. Como sabes que se trata de um e não de muitos?

– Uma alcateia não se esconde. Acredito que se trate apenas de um. Penso que seja uma loba e que tenha dado à luz há poucos meses. Só uma loba mãe tem a coragem de desafiar os nossos cães e a esperteza de os enganar.

– Os lobos são animais malditos. Sempre ouvi dizer que matam por gosto e não por necessidade.

– Tens razão, mulher. Os lobos são parentes do diabo.

Tobias sentiu um arrepio e uma grande tristeza.

Nessa noite, não conseguiu dormir. Na sua cabeça misturavam-se as frases do pai e da mãe e as suas próprias frases. Sentia preocupação pelas ovelhas, mas também pela loba e pelas crias. “Como é difícil perceber o que é certo e o que é errado”, pensava. “Era tão bom se todos conseguíssemos viver juntos e em paz”.

Enquanto nisto cismava, teve uma ideia.

Dormiam todos ainda, quando o rapaz subiu a serra. Levava consigo o lampião do pai para se alumiar no caminho. Ia com pressa.

O farfalhar das árvores, os estalidos no chão, o choro das aves de rapina, soavam-lhe horrivelmente. Sentia presenças nas sombras, olhos malignos espreitando da escuridão. Era enorme o receio, mas não podia voltar para trás: se o fizesse, se se acobardasse, os homens iriam chegar, descobririam a toca dos lobinhos, matá-los-iam a eles e à progenitora e ele já nada poderia fazer.

Só a custo reconhecia o percurso do dia anterior. Mas tão assustador era agora o caminho, tão duro o que tinha de fazer, tão incerto o resultado da sua ideia que as lágrimas lhe andavam muito perto dos olhos e o coração da boca. Melhor era não perder tempo com medos e morder os lábios. Tobias falava alto, discutia consigo próprio, era como se uma grande onda de ânimo lhe viesse dessas palavras ditas a si mesmo. Por fim avistou o carvalhal, sombrio e sinistro. Penetrar nele era como saltar para dentro de um poço. Mais do que nunca, afligia-o o pavor de que a luz se apagasse. Balançou levemente  o lampião. Sentiu a oscilação do petróleo e o rebrilhar da chama.

Então, Tobias entrou, avançou até uma pequena clareira e, como alguém que tivesse decidido bem o que fazer, começou a juntar pequenos paus e folhas secas. Formou uma pilha e acendeu um fósforo. Soprou até que a labareda principiou a crescer. Juntou mais lenha e, animado por esta, multiplicou as fogueiras. Aos poucos, no meio do carvalhal, nasceu uma claridade vermelha. Não se via vivalma.

Depois, batendo numa panela, o rapazinho começou a gritar. “Arre, lobo!”, “Arre, lobo”, “Arre, lobo!”

Horas depois, já o dia nascera havia muito, um grupo de homens espantou-se de ver montículos de cinzas e carvalhos chamuscados num bosque remoto. Viram até uma espécie de toca, acoitada no meio de fetos e troncos apodrecidos. Alguém, com razão, considerou.

– Se eu fosse lobo, era aqui que me escondia…

Acenderam uma tocha e, pelo sim pelo não, apontaram uma estaca afiada para a boca do covil. Lançaram-lhe lume, mas estava vazio. Lá dentro, lobo nenhum.

10.04.2020

OS COLECIONADORES

Gabriel Jablonsky
Foto: Gabriel Jablonsky

 

A casa encheram-na os três com lixo.

Primeiro o anexo e o pátio, onde depositaram vasos, bidões vazios, serapilheiras que encontravam em estado razoável, lonas e plásticos perfeitamente bons, vassouras e baldes ainda de aproveitar, colchões com molas ao dependuro, uma ou outra ferramenta comida pelo óxido, tábuas cheias de musgo, telhas e blocos de cimento, chapas dignas de ser polidas e reutilizadas, mas sobretudo (no meio do quintal, em cima de uns barrotes) uma estátua de gesso decapitada.

Depois, aos poucos, foram atravancando a despensa, os corredores, as arcas, as estantes, as gavetas dos armários, a parte de baixo das camas. A casa engordava com todo o tipo de objetos: uma coleção impressionante de bagatelas, maquinetas incompletas, sacolas, adereços, caixotins, relíquias, revistas, coisas obsoletas e sem préstimo, tudo muito depositado e arquivado, já não numa certa lógica taxonómica que no início dispunha a colheita por género e semelhança de produtos, mas a esmo, ao calhas, onde pudesse ser.

Os três farejavam em grupo, tomavam como seu o que entendessem ter sido desprezado injustamente pelos outros, levavam para reciclar. Era a sua missão na terra. Com o tempo reduziu-se a ela a razão por que existiam. No pouco espaço sobrante entre as paredes, repetia-se com esforço cada vez mais acrescido as tarefas básicas. Cozinhar, evacuar, tomar banho não despertavam nem uma terça parte do entusiasmo que se punha na sorte de encontrar um tecido, uma bugiganga, uma louçainha, um manipanso, uma piaçava, um desperdício qualquer.

Assustaram-se os vizinhos, vendo crescer imparável o cemitério de quinquilharia. Sentiam asco pelos três, cujo fedor os anunciava e denunciava. Dirigiam-lhe preces que se transformaram em injúrias e ameaças. Dizia-se, por exemplo, que o velho não deixava a mulher e a filha já cinquentona alimentar-se devidamente, citavam-lhe as máximas de que “O muito cagar ensina a pouco comer” e de que “Poupando água e sabão, ganharás o teu milhão”, sabia-se de fonte (talvez não muito limpa) que a banheira a guardavam eles para algum traste que pudesse servir-lhes e para não para se servirem eles do fundamento de terem inventado as banheiras.

As autoridades foram alertadas. Uma, duas, três, mais vezes ainda. Demoraram a aparecer. Quando finalmente o fizeram, o trio havia-se amotinado no seu antro. Esquálidos, macérrimos, de olhos exorbitados pela fome e falta de luz, quase grunhindo, receberam de má vénia as vomitantes e atónitas assistentes sociais, que mal podiam manter-se em pé e ainda assim foram capazes de uma resolução.

O delegado de saúde explicou à presidente da junta que se tratava de um deplorável caso da síndrome de Diógenes e que era preciso, a bem da higiene pública, agir de imediato. Foi com urros e pranto que a família foi retirada à força do ninho de imundície em que vivia. Com espanto e náusea viu a vizinhança, camião atrás de camião, despejar-se o bojo imundo da casa, o que a muitos lembrou (não sem propriedade, acrescente-se) uma valente uma diarreia, ou uma disenteria, limpando-nos sem dó nem piedade as tripas.