EUTRAPELIA – novidade

Título: EUTRAPELIA

Autor: João Ricardo Lopes

N.° de páginas: 68

ISBN: 978-989-53038-5-4

Preço de capa: 10€

Garanta o seu exemplar em pré-venda até ao próximo dia 1 de julho , com desconto de 20% (8€) e portes grátis para Portugal, enviando mensagem para editoralabirinto@gmail.com

Sobre o livro:

Recuperando o nome de uma das antigas virtudes cristãs, com o qual titula 50 poemas escritos em 2020, João Ricardo Lopes assinala com Eutrapelia a sua preferência pelas coisas simples, pela terra e pelo silêncio, viajando (e convidando o leitor a consigo viajar) pela Europa física e pela Europa da literatura, da música, da pintura, do cinema, naquela que é, também, uma viagem pela sua própria existência. Poesia de minudências, de flagrantes, de momentos avulsos, singulariza-a a obsessão pelo instante eternamente fugaz e belo da criação, «este ponto exato / em que o ínfimo e o infinito segregam o instante / e em vidro solidificam»

Eutrapelia assinala o vigésimo ano de vida literária do autor.

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JUNTO AO MAR

Foto de arquivo pessoal (junho de 2021)

Ali, junto ao mar, sentindo nas costas a presença majestosa do farol, olhando à sua frente o istmo de areia muito branca e nele o enrolar da água azul, respirando longamente o misto húmido-enxuto das algas e das dunas, Céu sentiu esvaziar-se-lhe a cabeça, ou mais propriamente talvez, sentiu-se preenchida por uma sensação inefável de bem-estar. Era a mesma terna alegria que em criança experimentava no labirinto de roupas brancas que a avó deixava a flutuar nos estendais batidos pelo sol. Nesses dias (recordava-se tão bem) fechava os olhos e aspirava em haustos profundos o aroma do sabão. Nesses dias (como recordar pode ser tão maravilhoso) era como se a sua vida coubesse inteira no pátio invadido pela luz e pelo perfume.

Agora, ali, junto ao mar, a brisa do final da tarde fazia-lhe cócegas no rosto, soprando sobre ele as farripas loiras do cabelo e o pó subtil do areal. Apetecia-lhe dançar, erguer os braços, gritar, girar sobre si mesma mais e mais depressa, cada vez mais vertiginosamente, para que as imagens e os cheiros, para que as ténues variações de frio e de calor se fundissem e com eles se fundissem também o tempo e todas as memórias. Céu sentia-se feliz. Muito feliz. 

O homem que ela amava fotografava-a, sorrindo. Exigia-lhe, porém, poses, postura, correção. Um atrás de outro o homem que a amava fazia disparar relâmpagos com o pequeno orifício vítreo do telemóvel. Reclamava a sua beleza, os seus olhos verdíssimos, a sua atenção, o seu corpo. Raios o partissem. Seria tão bom tê-lo apenas quieto e protetor junto a si, como o farol centenário, dentro do seu sonho desperto, a brincar consigo e com o amor e a terra, naquela dança eutrapélica e cheia de graça. Puxou-o por isso contra si. Libertou-o do objeto tirano. Beijou-o. Era preciso resgatar os dias perdidos. Peneirando-se no tecido de pequenas nuvens tardias, o sol abria linhas oblíquas. Como se dito pela primeira vez, como se fosse possível redizê-lo como da primeira vez, soprou as duas palavras com intensidade, com intenção.

– Amo-te.

E amava.

NÃO-ASSUNTO

Foto: Przemyslaw Chola

Viu a jovem instrutora de fitness a discursar diante de uma multidão apoteótica. A beleza do corpo aliada à bela escolha de palavras e, sobretudo, à forma bela como unia os seus gestos repletos de graciosidade e de sinceridade desconcertou-o.

Sempre imaginara as pessoas intelectuais como rostos cavados e cinzentos, corpos curvados e bamboleantes. E sempre olhara as pessoas que cultivam o corpo como cérebros ocos e fúteis. A jovem deixou-o desgraçadamente preso. Ele, um homem do poder, pensou imediatamente em colher o dia.

Quando ao cabo de alguns dias de ensaio, lhe dirigiu sem pudor um convite, ela recusou-o. Ele recompôs-se da desfeita, concitou os nervos a um leque de frases ambíguas, de promessa e de ameaça, e insistiu. A jovem voltou a rechaçá-lo, enojada. Tinha marido, tinha princípios, tinha a juventude. Ele, velho porco, na qualidade de dirigente do partido, de pai de família e de avô, de líder carismático, deveria ter juízo, deveria acima de tudo ter respeito.

O assunto foi sempre um não-assunto. Quando a despediram do ginásio e quando, com muita pena, prescindiram dos serviços do marido no escritório de advogados, também foi um não-assunto. Os não-assuntos são, de resto, terríveis no nosso país, onde tudo o que vem à boca não passa de saliva e às vezes um pouco de raiva, também. 

O CASTIGO

Foto: Norbert Maier

Nesta época do ano, as manhãzinhas são docemente cruéis. Quem acorda gostaria de continuar a dormir. É a única altura do dia em que uma correntezinha fresca alivia a casa, atravessando como um bálsamo os corredores e o pátio. Depois o sol assenta sobre a terra e o calor massacra, obriga homens e animais a procurar refúgio no meio dos hortos ou dos poços, ou das grutas, ou das caves, ou das adegas húmidas. A Andaluzia é um inferno de junho em diante.

À noite, as janelas são escancaradas. A imensa massa de ar quente precisa de ser expulsa das paredes, dos recessos, dos sótãos, do interior dos armários, da própria alma. Sente-se uma quietude a que os forasteiros jamais se poderão habituar, mas que às gentes de cá confunde a mágoa de uma vida tão árdua. Para lá do lintel das portas ergue-se então um vasto mundo de sombras, de alcáceres, de castelos mouriscos, de montanhas, de ecos de batalhas que o tempo não apagou ainda.

De madrugada, não muito longe, aqui em Escañuela, ouve-se o acelerar de uma moto de alta cilindrada. Uma ou duas por vezes semana, este despudorado atravessa as ruas da aldeia e acorda quem tarde se deitou e cedo tem se levantar. Não contente com a velocidade, com o fazê-lo a desoras, com o ruído partido do cano de escape, nunca repete a trajetória nem as noites em que decide apunhalar o silêncio geral. 

Na cabeça de Emilio Morales correm pensamentos assassinos. Imagina uma desforra, uma lição brutal, um exemplo para quem desafia o sentido da responsabilidade cívica e abusa da liberdade. Esta moto é todo o seu ódio de estimação. Há momentos em que ela se afasta e outros em que ela se aproxima. Em todos, o cano de escape parece soltar, além de fumo, um longo pernáquio trocista. Emilio perscruta o chiar dos pneus, o furioso cavalgar do motor ao longo das retas de alcatrão aquecido. Não consegue desligar-se desse movimento agressivo e traiçoeiro: mesmo nas madrugadas em que o pária não vem, ele aguarda-o, aguarda ansioso o momento em que o seu descanso seja interrompido pelo sopro da máquina, o momento em que essa vinda maldita termine de vez com a angústia da espera, porque adormecer antes dessa vinda pode significar por ela ser acordado e é esse o seu maior pavor.

Em agosto, porém, o ar pode mudar bruscamente. O ar abafado é substituído num par de horas pelo soprar dos ventos da tempestade. Assiste-se a um formidável fender de relâmpagos desde as camadas mais elevadas da atmosfera, pingos grossos cobrem as gretas do solo e fazem deslizar e transbordar as gorduras do asfalto, o cheiro da terra seca invade os quartos sobreaquecidos. Chamam a este perfume petricor. Há muito que os poetas andaluzes o cantam e anunciam ao mundo, mas as palavras não bastam para exprimir a grandeza deste espetáculo.

Escuta-se o zumbido de uma moto. Ela aproxima-se. O trovão do cano de escape parece querer competir com as forças da natureza. Emilio descarregou a sua praga, e nela o seu rancor. Vem à janela ver o criminoso. As luzes da moto lá estão, um olho vivo no meio da treva e da chuva, monstruosamente idêntico ao do gigante ciclope. Mas subitamente os pneus guincham, não é a derrapagem costumeira, deliberada, provocatória. É mais o estertor de uma manobra imprevista, o som desesperado de um erro de cálculo. Eleva-se o estrondo de uma queda, o replicar cavo e o raspar metálico, durativo, de um embate. 

Na Andaluzia o luto tem sempre a dignidade pesada de um tema que não se arquiva. 

Na manhã seguinte contam a Emilio os pormenores: o desgraçado teve morte imediata. Sofreu tantos cortes e tão profundos quantos os que a imaginação permita adivinhar. Os railes afiados são uma faca, particularmente se contra eles somos impulsionados.

Emilio Morales rejubila em segredo. Sente que se cumpriu uma espécie de justiça divina, fulminante, atraída quem sabe pelo para-raios das suas preces. 

Mas agora tem pesadelos todas as noites. Vê o diabo em pessoa a arpoá-lo com o tridente, a empurrá-lo ao encontro de lâminas atrozes. Vê do outro lado do quarto labaredas altíssimas, cujo sufoco parece persegui-lo das unhas dos pés ao pescoço. Acorda em água, não se sabe aos berros, mas julga que sim. 

Aproxima-se da janela aberta e volta a escutar as trevas. O silêncio é total, somente interrompido de quando em vez pelo ladrar dos cães ao longe.

O TÚMULO

Foto: Gianluca Morello

Da janela e portas da sua oficina, Andreas Agrafiotis, artesão, professor, escultor, septuagenário, avista uma das faces das montanhas Zas. O sol refulge nos cumes e pedreiras arduamente estriadas e escarvadas de mármore, marga, calcário, produzindo um efeito de sede a que ele se habituou há muito. Em Naxos, os minerais coexistem com algumas espécies de árvores características da Cíclades. Não é impossível que na linha descendente dos vales se sucedam pinheiros, oliveiras e até abetos azuis. Mas a mancha de floresta é escassa, não serve senão para acentuar a sensação de que a ilha é uma gigantesca bossa lítica branquejando o ano inteiro.

Durante praticamente toda a sua existência, Agrafiotis perscrutou a melhor pedra das melhores marmoreiras. Viu separar da rocha-mãe blocos imponentes que camiões e carretas puxadas por animais transportaram até ao seu local de trabalho. Depois a sua cabeça, as suas mãos, os seus olhos ávidos e exigentes viram surgir da matéria informe estátuas de numes (Zeus, Poseidon, Afrodite, Atena), de semideuses (Hércules, Jasão, Prometeu), de heroínas trágicas (Medeia, Electra, Jocasta), de homens e mulheres comuns, de colunas, de bustos, de ornamentos eclesiásticos, de criaturas fabulosas, nascidas da tradição quimérica, que o estado grego muitas vezes subsidiou, comprou e fez migrar para os templos arruinados e espoliados pelo tempo e pelos povos estrangeiros.

Agora, perto dos oitenta anos, Andreas tem uma obsessão: criar o seu próprio túmulo de mármore. Imagina-o como uma cápsula para a eternidade, uma grande bolota de lajes finamente ligadas entre si, desenhadas com o escopro, contendo um punhado de versos da Ilíada (os versos 146 a 149 do Canto VI, os mais belos de todo o poema, os mais belos de toda a história de literatura), assinalando na terra a sua passagem pelo mundo dos vivos. 

Mas fascina-o igualmente a ideia de um dia ser encerrado no âmago selvagem de uma destas colinas rochosas, à maneira dos imperadores chineses que desistiram de construir desastrosas pirâmides de argamassa para se emparedarem no solo humilde das montanhas sagradas. Fascina-o desde sempre o mito daquela que o rei Creonte fez encerrar viva numa garganta pedregosa. Naxos, como o lugar sombrio de castigo de Antígona – sepulcro e, simultaneamente, ventre materno – é um cemitério natural e um berço cósmico. Aqui morreram e nasceram forças que vão para além do entendimento humano.

Todas as tardes, um pouco antes do pôr do sol, o velho escultor percorre os caminhos ínvios de Apollonas, de Koronos, de Skado, de Apiranthos, de Stavros. Pretende que a última réstia de sol lhe marque como um traço de grés, o local onde deve principiar a sua derradeira obra. Há de construí-la em segredo e em segredo há sepultar-se nela, como se sepulta o grito do mar no pequeno promontório da praia de Azalas, em Montsouna.

Nenhum sonho da sua vida foi tão belo, tão ousado ou tão legítimo: abrir a cavidade onde há de o seu corpo acamar, esculpir o silêncio, polir o invólucro final onde não possa existir qualquer diferença entre os seus ossos e a pedra. Imagina que precisará de pelo menos vinte anos para o concluir. Mas nada é impossível na vida de um homem. Nada é impossível na ilha de Naxos. 

Andreas Agrafiotis gostaria (para nos servirmos da expressão homérica, tanto do seu agrado) que a escuridão lhe cobrisse os olhos no preciso instante em que terminasse a sua tarefa, em que, morrendo, nascesse.

PIEVE DI SANTA MARIA ASSUNTA

Foto: retirada daqui

A igreja é pequena, antiga, no cimo de uma colina. Todo o seu encanto advém justamente destas três características: da sua dimensão modesta, do românico tardio, do modo como domina o vilarejo, mesmo agora, em tempos de prédios, grandes fábricas e armazéns industriais.

Pietro Foragini é um dos cuidadores deste lugarzinho santo. Com paciência, com gosto, com a ajuda de uma colher de trolha ou às vezes de uma faca de cozinha, dedica-se a extirpar as ervas e as hastes das gramíneas do meio das pedras. Elas nascem nas paredes, na boca das gárgulas, no meio do adro, no cimo da cruz, entre as linhas ogivais dos pórticos. São obstinadas, persistentes, ubíquas. O grande orgulho do senhor Foragini é o de garantir que este templo se mantém asseado, sem sinais excessivos do atrevimento herbáceo, da ferrugem, da imundície das pombas. Justamente, o guano é um dos grandes inimigos do granito, tal como urina dos bêbedos ou as sementes que o vento mistral costuma disseminar nos intervalos mais insuspeitos.

O interior da igreja é responsabilidade das mulheres. São elas quem encera o soalho, quem limpa o pó da talha, quem limpa as teias de aranha à bela rosácea na fachada principal, quem espalha óleo de cedro sobre as madeiras, quem tapa e destapa o rosto dos santos, quem cuida dos altares, quem acende e apaga os círios, quem cuida dos linhos e paramentos sacerdotais. 

Ele, Pietro Foragini, lubrifica o mecanismo dos sinos, cuida-lhes do bronze e do badalo tonitruante. Duas a três vezes por ano sobe aos telhados, verifica a integridade das telhas e das caleiras, dá pequenas pancadas nalgum cubo de pedra suspeita, estuda-lhe a resposta, avisa o padre Giovanni de anomalias sobre a cupulazinha e sobre a abside. É uma autoridade ali. Ele decide quando é preciso intervir.

Nem sempre o entendimento é fácil. Delimitar a jurisdição de cada um é árduo na Pieve di Santa Maria Assunta. Entre a boa intenção e a boa ação corre um rio de diferenças.

Esta semana, por exemplo, Ornella Sforza travou-se de razões com Pietro Foragini. Discutiram por causa das glicínias. “Sem autorização”, Foragini segou e fez desaparecer perto do cruzeiro toda a latada destas flores lilases. Foi um debate acalorado. As senhoras tinham ficado coléricas.

– Não se faz! – repetia a senhora Sforza, descontrolada, cheia de ódio. 

– Ora essa. Era só o que me faltava, ter de pedir licença para limpar o esterco da nossa igreja.

Também há a questão dos vidros. Estão sempre sujos do outro lado. Elas acrescentam os maus fígados de Foragini, que não se importa de martelar, perfurar, lavar a pedra com o compressor, arrastar ferramentas ruidosas pelo campanário e à porta da igreja quando as senhoras estão a ensaiar os salmos. Ele não esquece a voz esganiçada de Ornella, o tom autoritário com que se lhe dirige e lhe dita ordens. Era só o que lhe faltava, aturar a antiga professora, baixar a orelha, obedecer-lhe.

Não sem motivo, exige-se amiúde a voz meiga e apaziguadora do padre Giovanni, sempre pronto a velar pela reconciliação, pelo bom entendimento do seu rebanho. 

Quem visita esta igreja no Piemonte e se fecha na penumbra do seu granito, ou se ilumina na beleza dos seus afrescos magníficos, sente a paz, a boa paz herdada dos tempos da cavalaria, dos romeiros, dos homens e mulheres que buscavam a salvação da alma acima de todos os tesouros do mundo. É um bem precioso, raro, quase impossível de explicar. 

Não há dúvida que a igreja está impecavelmente conservada. Quem aqui vem não imagina a que preço.

O ESTRANGEIRO

Foto: Raymond Hoffmann

Empoleirado no alto rochoso das serras nevadas, no cimo dos juníperos e dos pinheiros bravios, o vento torna os dias nesta fase do ano mais insuportáveis. Aqui chamam araucárias aos pinheiros e “El triste” ao vento. É uma metonímia. Não é o vento que é triste, mas a solidão daqueles que se aventuram há séculos a dividir esta paisagem com as lamas e os condores e os coiotes. Mais a sul, na Patagónia, erguem-se os contrafortes das Torres del Paine, uma das rotas de peregrinação do turismo internacional. Para norte e oeste estende-se o enxuto Atacama, santuário do silêncio e das estrelas, dos remoinhos de pó, das paisagens lunares, dos astrofísicos, dos arqueólogos.

Aqui não há forasteiros. Há gente pobre, pastores e tecelões, oleiros e obstinados cultivadores de batata e de uma espécie de milho raquítico, mas saboroso, a quem dão o nome de “pan del diablo”. É realmente uma proeza que a agricultura sobreviva em latitude e altitude tão duras. 

Não há forasteiros exceto um. Já a coletiva memória se esqueceu de que veio de fora, há tanto tempo que isso foi, aquele que habita uma das casas mais altas da aldeia. Falamos de Frei Juan Miguel Ibañez, o padre, o doutor, o filósofo, o eremita que gasta os seus dias há mais de cinquenta anos em oração, contemplação, leitura e escrita. 

Entrando no seu casebre entra-se numa biblioteca. O ar entrincheirado por baixo da porta volta-lhe as folhas, faz tremelicar a luz da vela, sacode-lhe as farripas brancas do cabelo. Está habituado a esta brincadeira. Há muito que deixou de pertencer às preocupações do mundo e se concentra na sabedoria dos homens. Grossos fólios, tomos, atlas, dicionários, missais, textos de teologia, exemplares da Bíblia e de exegese bíblica, manuais de anatomia, biografias, volumes de poemas e de teatro, discursos e tratados filosóficos empilham-se nas suas paredes. É tudo o que possui. Foi condiscípulo de Hubert Reeves, aluno outrora de mestres do pensamento moderno, sacerdote admirador da vida dos santos anacoretas. Hoje sente-se um estrangeiro no mundo e por isso lê-o, estuda-o, interpreta-o.

– Ler é o meu modo de agradecer à Providência. Só Deus poderá dizer-me quando parar.

Os aldeãos respeitam-no, procuram-no às vezes, estranham o seu parco comer, sentem-se fascinados pelas palavras tocadas de música que ele usa, mais belas do que o som da flauta ou da ocarina. Mas nunca o entenderam verdadeiramente. 

– O que faz um homem da cidade, um homem do outro lado do mundo, aqui? Foge de quem? Que crime terá cometido? Como poderemos nós saber se é verdade tudo quanto ele afirma?

O padre Juan Miguel Ibañez amassa o seu próprio papel, pacientemente, com materiais e métodos arcaicos. Deixa secar longas tiras que depois corta com precisão, servindo-se do gume de uma obsidiana. Cose os seus próprios cartapácios, recobre os seus livros com peles de animais. Quando não está nestes ofícios, nem a rezar, nem a ler, nem a estudar os nativos, gosta de subir aos píncaros azulados das montanhas desta parte do Chile e de anotar nos seus cadernos o sopro intraduzível da existência.

– Existir é o mais extraordinário milagre sobre o universo. Tudo o que existe é o prodigioso dedo de Deus sobre o vazio, irmão do mesmo ar que os lábios do Senhor sopraram sobre as narinas de Adão. E por isso todas as estrelas e todos os planetas, todas as plantas e todos os animais, todo o pó e todos os pensamentos são a mesma fórmula e o mesmo intento e a mesma miraculosa revelação…

Meio século de escrita é mais do que tiveram alguns dos grandes autores da história da humanidade para compor e criar. Juan Miguel Ibañez escreve sobre o sentido da vida e sobre a perfeição de todos os corpos, escreve sobre a espantosa alegria das palavras combinadas umas com as outras e sobre o espírito original que existe em cada poema, escreve sobre a sublime e sobre a miserável evolução da nossa espécie, dada a capítulos de luminosa sensibilidade e a capítulos de abjeta selvajaria, escreve sobre a matemática omnipresente nas formas físicas e sobre o profundo mistério que se esconde do outro lado da cortina da ignorância humana. 

– Porque quererá o Senhor esconder-nos a verdade toda? Quem seríamos nós se a conhecêssemos? Destruí-Lo-íamos? Destruir-nos-íamos? Será o nosso próprio fim o propósito da Criação?

A tinta dos cadernos mais antigos é já ténue, como uma tatuagem semiapagada. Talvez ninguém venha a aceder a este manancial de literatura e de filosofia e de antropologia. Ultimamente, um pesadelo ocupa-lhe a cabeça com persistência durante a noite. Vê-se no meio de um incêndio, de um fogo voraz que tudo consome, madeiras, papel, a sua própria carne. Sofre com este sinal, julga que Deus lhe envia uma mensagem.

– Se o Senhor assim quiser, assim será. Do pó ao pó. Sempre soubemos que tudo é pó, vaidade, vento que passa…

O HARÍOLO

Foto: Charlaine Gerber

No coração de África, numa aldeia da Zâmbia, animada pelas águas glaucas de um dos afluentes do Lago Tanganica, vive um homem prodigioso. É cego de nascença, mas vê clara e profundamente todas as coisas em seu redor. Chamam-lhe “pai”, “avozinho”, mas também “morcego” e “bruxo”. Procuram-no para pedirem conselhos, apadrinhar negócios, orientar casamentos, curar febres do mato.

O homem é idoso. Habita a mesma casa de adobe e palha há mais de setenta anos. Se uma serpente rasteja em silêncio na sua direção, esmaga-lhe a cabeça num movimento certeiro com o cajado nodoso que lhe serve ao mesmo tempo de bengala e de cetro. Todos o veneram. Se ele diz “Procurem o vosso vundu além, no sítio onde se erguem as grandes raízes dos embondeiros”, os pescadores lá o acharão. Se ele diz “A vossa galinha encontrá-la-eis no lugar onde se juntam as grandes estradas de formigas e onde pulam os cudos”, nesse ponto o agricultor a achará, por vezes bicando as larvas dos girinos nas vertentes aluvianas do lago, outras vezes transformada numa carcaça nua, quase reduzida a pó.

Um missionário inglês chegou há pouco à aldeia, vindo do Ruanda. Chama-se Paul Montague. Conquistou rapidamente a simpatia fácil dos aldeãos. Traz ensinamentos tão alheios a este mundo como os ensinamentos que outros antes dele procuraram aqui semear. Quando visitou a cubata do idoso de quem todos falam na aldeia, espantou-se das imprecações que o velho cego lhe dirigiu na língua local, uma das filhas do falar bantu. Os aldeãos encolhem os ombros. Quem fala um inglês rudimentar explica que o homem profetiza desgraças. Dentro de três dias descerá dos céus uma chuva mortal, que há de trazer a fome. 

O missionário tranquiliza todos os que ali estão, mostra com satisfação um objeto mágico, emissor de vozes e de imagens, garantindo que a meteorologia hoje se sabe por meios seguros. Não choverá nos próximos tempos. O ancião engana-se. Mas o velho haríolo cospe com nojo, expulsa-os, diz que desgraças sem fim se abaterão sobre todos.

Três dias volvidos uma nuvem espessa, ruidosa, zumbidora, devoradora cobre todas as casas, todas as árvores, todos os bichos vivos que ali se amontoam. É uma horda de gafanhotos. Lança-se sobre as sementeiras, sobre as acácias, sobre a savana, sobre os telhados em forma de cone e parece disposta a ingerir os próprios humanos que mal acordaram ainda do pesadelo.

Dentro do seu tugúrio o velho mantém-se em absoluto mutismo. Não lhe deram ouvidos e por isso chora. Em mais de sete décadas de vida nunca se sentiu despeitado. Dos seus olhos apagados irrompem imagens terríveis. Aquela nuvem de gafanhotos nada é comparado com o que aí vem. É apenas o começo. 

A EXPLICAÇÃO DO PINTOR

Foto: Branislav Fabijanic

Andrew Dwight discursava sempre na primeira pessoa do plural, no modo majestático dos professores universitários e académicos. Na abertura da mostra antológica alusiva aos últimos anos da sua pintura, ia contando pequenas narrativas da cada tela exposta. 

*

Entrávamos no sonho como se entra num filme de Antonioni, debaixo de um manto intenso de nevoeiro. Aos poucos já conseguíamos distinguir a forma dos nossos sapatos, o caminho para o jardim, o sulco dos nossos pés sobre a terra. Então, o nevoeiro miraculosamente desaparecia e em vez dele víamos a relva, árvores de pequeno porte (oliveiras, cameleiras, bonsais, bordos japoneses com a sua cor avermelhada). Era um horto, um terreno cuidado que nos levava a um casebre de madeira, cujas vidraças pareciam atentas ao que os nossos olhos iam querer espreitar. Dentro, um casal fazia amor. Ele segurava-a, ela entregava-se. Havia nos gestos de ambos não brutalidade, mas desejo de perfeição, arte, conhecimento mútuo. O sonho levava-nos ali e logo depois abria-nos a porta. Escutávamos mais perto, quase rosto com rosto, o ardor sexual, escutávamo-lo aturdidos e fascinados, como quando se escuta pela primeira vez o som vindo de um lugar desconhecido. Havia quase choro, quase demência, quase júbilo, quase orgulho no suceder de movimentos, na antecipação de prazer e dor. Mas o sonho expulsava-nos agora dali, com receio de que (intrusos) pudéssemos interromper a veemência do instante. O sol principiava a rasgar por entre as trevas, a transbordar das nuvens, rebrilhava nos mesmos vidros que antes atiçavam a nossa curiosidade e nesse momento nos rechaçavam. O orvalho escorria do cálamo das roseiras, resvalava na corola das delicadas flores que se abriam e acendiam por toda a parte. Quem eram eles? Porque nos conduzia ao seu encontro a nossa cabeça perturbada? Como explicar a beleza surpreendente do curto filme que acabáramos de fixar? Quando voltaríamos a sonhá-lo e até quando o sonharíamos? No derradeiro pedaço de tempo, o jardim via-se de cima, como alcançado pelo olho visionário de uma ave. Era, sem dúvida, uma espécie de Éden, uma variante do paraíso primitivo.

*

Andrew Dwight terminou a sua explicação com uma frase enigmática: cada um dos nossos quadros é uma mentira negociada com a verdade. Depois prosseguiu, acompanhado por um batalhão de jornalistas, críticos e admiradores. Havia tantas narrativas por partilhar ainda. A noite mal havia principiado.

FACEBOOK

Foto: Amer Kapetanovic

Na sala estão vinte pessoas, devidamente afastadas umas das outras por marcas de fita colada no chão.  Ocasionalmente o sistema sonoro anuncia nome e um número. O doente levanta-se e encaminha-se para o gabinete indicado. Nesse curto intervalo de tempo, os olhos circulam, respira-se fundo, inveja-se o sortudo. Depois volta-se a considerar o infinito, a ler com fastio as notícias do jornal que se tem nas mãos, a vigiar as duas funcionárias maldispostas do lado de dentro do guichê. Na parte mais próxima dos janelões, duas mulheres certamente conhecidas uma da outra conversam. De quando em quando, erguem a voz. Se alguém lhes deita uma mirada, voltam a sussurrar. A espera é paciente, resignada, sem sofrimento já.

Na fila da frente está sentado um homem forte, de cabelos lisos, muito brancos, com um casaco azul e a bengala poisada na perna direita. É, sem dúvida, um octogenário. Surpreende que esteja a mexer no telemóvel, com um dedo em riste, como um adolescente, fazendo deslizar as imagens. Os óculos do senhor forte da frente espelham o visor. Por eles vão passando mulheres jovens em trajes e poses atrevidas. As duas mulheres soltam uma gargalhada. O homem está tão absorvido que tudo o resto não parece importar.

Volta a escutar-se o altifalante. O homem endireita a bengala e com ela põe-se em movimento. As duas mulheres voltam a dar uma risada. Dura apenas o tempo que se demora a saborear uma anedota. Depois fica tudo calado, ou quase. À espera que outro nome e outro número coincidam com a nossa vida e nada mais importe.