ANÍBAL

 

Bo 19
Foto: Bo 19

 

pedro dióniso vaz (nascido sem negrito e com maiúsculas como Aníbal Oliveira) pousou a caneta junto à chávena. Tinha o texto terminado.

«No coração da serra, o silêncio é maior do que as pedras. Circula com o vento, engole as árvores, extenua as ervas e o musgo contra o granito, corre nas patas lépidas dalgum javali transviado. O silêncio torna o tronco dos pinheiros mais rugoso, mais sinistra a água lacustre onde as reses vão beber, mais duro o céu imóvel durante as horas caniculares. Às vezes escuta o som das pinhas caindo, do chão rachando, dos milhafres gemendo em círculos. É quando se dá conta do modo como o silêncio invade todas as formas até que  lhe pertençam todas, de como invade o seu corpo até ao osso, como invade a própria terra arfante.

Nos meses de verão, durante as férias, o rapaz ajuda nesta ancestral profissão de guardar o gado. É uma existência de eremita, longe dos amigos de escola e das frases macias dos professores. A ardósia do quadro é agora a ardósia dos montes, o som da campainha a dividir as aulas é agora o chocalho do rebanho ao longo dos tapetes verdes de pasto. O silêncio fá-lo pensar, pensar muito, pensar na vida, pensar no futuro, pensar no quanto terá de suportar até que um dia possa como as beldades da turma rumar ao Algarve ou às praias de Espanha, pensar no quanto as suas mãos, o seu tronco e a sua cabeça terão de trabalhar até que o destino lhas desalgeme, o endireite, o desanuvie deste modo de vida. Segurando o milenar cajado, o rapaz sonha com esse dia em que seja um homem do mundo, em que o seu talento intelectual valha alguma pena, em que o não acordem com rudeza às quatro da madrugada, em que lhe não deem a sacola com o pão e o vinho e o mandem ir (encosta acima, encosta abaixo) para lá do negrume, em mais uma transumância, sozinho, sem afagos de espécie alguma, que nesta era de infantilismo ainda há precoces e homens feitos antes do tempo.

A fome só desperta com a luz. Então, sim! Senta-se no dorso anguloso de uma penedia a comer e a olhar o horizonte. O sol alumia as cumeeiras de um modo sublime. Lá em cima os aviões com o seu rasto aceso parecem caracóis segregando uma baba luminosa. O rapaz alegra-se. No seu telemóvel (os pastores de hoje não o dispensam) acede à bendita aplicação que lhe narra a história de cada um daqueles bicharocos distantes, de onde vêm e para onde vão, a quantos pés de altitude, a que velocidade, transportando quantos passageiros, a hora de partida e a de chegada, exibindo em 3D o espaço visual acessível ao cockpit(mas também visto debaixo das asas, por cima, em ângulo lateral). Vê em baixo, no pequeno ecrã,  o que de cima  se vê na sua direção. Lê siglas de aeroportos, o nome mítico de grandes cidades, a tipologia das aeronaves (Airbus,Boeing, Embraer). Este que agora mesmo se cruza sobre a sua cabeça e sobre os animais alheados vem de Miami e viaja para Barcelona. Outro que não tarda faz o itinerário oposto, de Madrid para Nova Iorque. Por cima da sua cabeça. Custa a crer! Grandes voos intercontinentais, gente cosmopolita, gente importante, do desporto, da cultura, da alta finança, gente rica, 40 mil pés acima de si, tão perto e tão longe, ignorante de si, indiferente, gente das grandes cidades onde tudo é frenético, vivo, extraordinário.  Por cima da sua cabeça!

O rapaz põe-se pé.

É como se, erguendo-se, pudesse crescer com o seu sonho. Um dia viajará num desses fabulosos pássaros de fuselagem prateada, habitará esse oceano exaltante que é o de todas as cidades abertas e repletas de saber. Um dia voará sobre esta e outras terras de silêncio, onde talvez outros garotos de província, de terras encolhidas na sua própria sombra (de Portugal, da Índia, da selva brasileira, da tundra siberiana, das florestas de África), com outros aparelhos imitadores de Deus, possam sonhar com o desconhecido, com o mundo fácil, vertiginoso, meteórico que os bancos de escola ensinam como se ensina um conto de fadas.»

O escritor fincou os dedos sobre o caderno. Pudesse agora mesmo voltar atrás, voltar à aldeia pobre da juventude, e morrer lá como morrem os velhos carvalhos, numa aura de amor ao solo e útil como uma lição de moral e não desperdiçado em palavras que ninguém lê, ama ou repete!

Atenuada ou exagerada, a sua biografia era sua. E que interesse há em saber dela? pedro dióniso vaz repegou na caneta e desenhou um xis de alto a baixo nas três páginas que havia acabado de manuscrever.

 

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CAVANI

King Douglas
Foto: King Douglas

 

É como um jogo de chamas e de vento este que fazem os violinos e os violoncelos, o combinado som de uns e de outros, crescente e ondulante, um labirinto de labaredas, tão vivo agora que se parece todo ele combustível, todo ele feito de lume, ardente, matéria em convulsão.

Na cabeça de Antonio Cavani, as Quattro Stagionisão sobretudo luz, luz forte, fortíssima, e por isso ensaia de olhos fechados, a batuta solta na mão direita, para que o não ofusquem o movimento dos instrumentistas ou a veemência mágica da própria música.

Entre todos os compositores, prefere os do Barroco. Entre todas as composições deste tempo, ama com um amor mais sincero e humilde esta dúzia de andamentos de Vivaldi, que lhe lembram mais que Bach, ou Pergolesi, ou Händel, a sua infância bucólica na Toscana.

Na sua opinião, escassas se lhe comparam na celebração da humanidade, tanto incendiando-a de graça juvenil como consumindo-a na depressão das suas tonalidades  elegíacas, soturnas e hiemais. Por isso, exige que esta celebração da sublimidade humana seja interpretada sem erros, no ritmo, na intensidade, na volúpia exata. Os ensaios sucedem-se, às vezes escutando somente o arco e as cordas de Margaret Duchamps, muitas vezes juntando à solista o tumulto maravilhoso da orquestra, para que uma e outra se afinem infinitamente.

Em Berlim já se diz, e isso parece impossível, que esta performance será melhor do que Karajan, que Duchamps supera Mutter, que se fará História. Calvani transcende-se, é como se as chamas do próprio sol o engolissem, um violino, vários, o violoncelo, outros violoncelos, o cravo, uma pletora de formas deslizando no devir dos quatro concertos, entre os andamentos e ao longo de todos eles, como se fosse a própria fala de Deus que assim se exprimisse, vibrando, contorcendo-se, ferindo o espaço no frenesim das cerdas contra os encordamentos, na percussão das teclas, na concentração fanática do maestro.

Cavani gesticula com uma lágrima no canto do olho. Imagina o público no intervalo de som e silêncio, a opressão das imagens que correm dentro dos olhos, a física e dolorosa simpatia dos músculos que acompanham a perfeição do momento, a alma que se liberta do mundo como nele nascesse de novo, orgástico e genesíaco recomeço este, o cardíaco entusiasmo ecoando nas paredes, no teto, na noite de Berlim, e depois «Bravo!», «Bravo!», o maestro em água, os pupilos esgotados, «Bravo!», pode a morte sobrevir, Cavani deseja-a, nem mais um minuto, que mais não pode desejar-se nesta vida e não valeria a pena ir mais além, não valeria. Mas o transe termina. É um ensaio mais apenas. O inverno pode ser esplendoroso. Quanto tempo passou? Onde estamos? Cavani respira com dificuldade. «Bravo!» diz com secura.

ESTHER

Leon
Foto: Leon

 

Na linha de montagem do novo avião supersónico militar, de uma cor invulgarmente escura e não refletora de luz, a quem chamam vantablack, e revestido por uma película macia e anecoica que o tornará imune à ciência e paciência dos radares, a engenheira espacial Esther B. Godwell, filha de um pastor cristão ultraconservador, e membro ela própria de uma seita adventícia, proferiu palavras que se repetem e usam agora como um slôgane: «Para o bem comum: indetetável, imprevisível, inelutável, como a própria mão de Deus!»

ZUÑIGA

worker
Foto: Cezar Gabriel

 

Os pensamentos mais sombrios e dementes descem sem dificuldade à ponta dos dedos. Quem o poderia ter dito é Pablo Zuñiga, que observa a cisalha como se a ele tivesse acabado de ocorrer uma ideia. O objeto é-lhe tão familiar, foi-lhe tão útil sempre que não será custoso imaginar aquela e uma outra e esta vez em que, no meio do ofício, se pusesse a considerar o apuro da lâmina sobre o seu próprio corpo.

«O melhor é nem pensar no assunto.»

E, apesar disso, pensa-o. A imagem persegue-o como uma Fúria antiga, acompanha-lhe a respiração, fá-lo ver sem o olhar o gesto de mutilar-se, invade-lhe os sonhos, onde sente a dor, o pasmo e o sangue, uma parte de si caída diante de si, e estremece, e acorda, e dá graças por tudo não passar de uma febre de uma cabeça que por muito passou já.

«O melhor é nem pensar!»

É um objeto demoníaco este. Belo e terrível como todos os que dividem a matéria e disputam o divino poder de mudar a face do mundo. Zuñiga não desbarata o seu tempo com reflexões destas, ainda que tão pouco filosóficas elas sejam. Limita-se a cesurar, cortar, amputar metal e pedra.

Não sabemos se sempre assim será. Simplesmente não sabemos.

ANDREÍNA

Jackson Carvalho
Foto: Jackson Carvalho

A partir da meia-noite, os cruzamentos do bairro de Biccoca, em Milão,  enchem-se com estas presenças femininas, ou efeminadas, exóticas, negociantes do amor breve, muitas vezes vazio, de quem dele não foi capaz de prescindir e pelo qual está disposto cem euros, duzentos, quinhentos, mais, conforme, porque elas o exigem e o exigem os e as clientes, é um negócio, afinadas as contas, como os outros.

Há muitos artistas dispostos a tudo em nome do renome, pela fama internacional, pelo cosmopolitismo. Esta que aqui passou agora mesmo, maquilhada, perfumada, acetinada, vestida escandalosamente, é filha de pai libanês e mãe colombiana. E, por isso, leva Yussuf no apelido e Andreína no nome que lhe é mais próprio. E, por isso, é um bom exemplo do aforismo de que pequeno é o mundo, às vezes basta uma cama, um banco traseiro do automóvel, um vão de escadas, o linguarejar babélico de um e de outra, de outra e de um, e o mundo ou os mundos juntam-se, culturas tão distintas, o mesmo propósito, os mesmos gemidos, elogios, êxtase e catarse, foi bom, foi ótimo, és fantástica, tu também, até à próxima, arrivaderci, e depois é outro cliente, que a noite é uma criança ainda, isto em todo o bairro, em todos os cruzamentos, Andreína Yussuf é uma entre pares, uma entre muitas, belas e exuberantes, Milão está delas repleta até ao nascer do sol.

Mas também no setor terciário, o dos serviços, há quem se canse da dureza da vida, e uma noite, outra, tantas mais, há quem pense com saudade no tempo de antes, naquele que é sempre puro, mesmo se já então chafurdávamos em promiscuidade, hipocrisia e vileza, em devassidão e imoralidade, em pecados que se pareceram afinal com pecadilhos, pequenas falhas, coisas normais de gente que é gente, dias de experiência afinal felizes, tão diferentes do de agora.

Está Andreína caminhando com o seu salto alto em direção ao posto de trabalho, é o asfalto debruado por sulcos paralelos e folhas, há que evitar uns e outras, a prostituta vai de olhos baixos, não vá o tacão enfiar-se nos primeiros ou arrastar as segundas, olhos pensativos, olhos de quem já viveu demais e tão pouco, de quem está farto e precisa muito do que a vida não dá. É hoje que irá confessar às e aos colegas de ofício «Vou-me embora. Não suporto mais estes homens porcos, ordinários, frustrados!», e elas e eles «E o que farás?», e ela «Não sei. Alguma coisa se há de arranjar!».

Ter um nome que soe a legenda não é para todos. Há artistas que sonham com um tal prestígio e que a ele e por tudo entregariam. Esta moça tem-no e quer dele e a ele ver-se desobrigada. Procuram-na especialistas de dentro e de fora da cidade como se procura perceptora, tocam-na como uma relíquia, fornicam-na com impiedade como se, acesa a animalidade dos e das requisitantes, a queimassem da cabeça aos pés com amor, ódio e luxúria. «Vou-me embora!» dirá.

Não há lugar talvez onde se lave a memória tão fundo que não venha ela à boca uma vez por outra. Para onde vai uma madalena arrependida é o que estamos nós querendo saber, portanto.

Luigi, um universitário, espera-a com impaciência. Ele e outros dois, que consigo ocupam um Alfa Romeo vermelho vivo, cor do sangue: depredação orgíaca, fantasia criminosa, desejo irreprimível o e os levam ao encontro desta mulher transsexual, como se vê pelas peças de couro, dildos, algemas e outros utensílios que não nos atrevemos a descrever. Maltratada será se nada for feito! Caminha de olhos baixos, que o cansaço no-los traz quase sempre assim: «Vou-me embora!», «E o que farás?», «Não sei!», «Não sei!», «Não sei!».

 

HUBERTO

carpenter, carpinteiro
Foto: Hőbér Szabolcs

A luz do poente transforma todas as janelas. Huberto não o pensava, mas sentiu-o.

Ao aproximar-se da velha carpintaria encerrada, tornaram-se mais agudas as palpitações sobre a caixa cardíaca, como se o debicasse sem piedade o alfinete de um pássaro.

O vidro ainda sujo de serrim, o pedaço de sabão e o pequeno lábis rombudo no parapeito, os cavaletes e algumas tábuas ainda ao alto contra o perpianho musgoso e engrentado, o silêncio onde antes era um alarido de serras e compressores, o vazio daquele miolo (onde já não se viam homens e máquinas, mas somente as paredes de pedra e o negrume), a impressão de que ali ainda era e não era já a sua carpintaria, a chegada da noite, o trevo e as urtigas, os silvados nascidos ao redor (sufocando a memória de cinquenta anos de trabalho), estas todas impressões húmidas e sujas deixaram-no prostrado.

Permaneceu assim muito tempo, quieto, segregando uma ou outra lágrima mais incontrolada. Vinha de longe o procissionar de vozes e de cânticos em direção à igreja. Via ziguezaguear o lento das velas acesas, a mansa contrição dos fanáticos. Detestava a religião.

Depois do calor da tarde, a brisa que agora se levantava até nem lhe pareceu desagradável. Entrava pelas portas e janelas abertas da profunda alma que nele, como anéis de um carvalho, ou duma faia, ou de um ulmeiro se alargara respeitosamente. Respirou. O perfume conjugado das laranjeiras e da bergamota, das tílias e glicínias tardias, das ervas e do milho que despontava fê-lo recuar. Olhou o quarto decrescente da lua, o brilho de Vénus a um canto, o de Júpiter a outro canto do horizonte. Maio sempre fora um poema difícil de escrever: apesar de todas as coisas boas, de que valia ter vivido para chegar ali? Onde estavam todos os companheiros que consigo haviam cortado, aparado, aplainado, esculpido, pregado, colado, envernizado os melhores instantes da vida?

A morte avançava com a dissimulação de uma serpente, cruel e inequívoca.

Sentado no mesmo mocho de granito onde costumava abrir a marmita de alumínio e comer o caldo, sentia-o mais que pensava. Estava só. Era como um sonho.

 

SVEN

Sven Fennema 07
Foto: Sven Fennema

 

A última vez que alguém atravessaria os corredores era aquela. Sven procedia a uma revista final às cargas de explosivos. Assim que desse o seu ok, as entradas do edifício seriam seladas e a equipa poria em marcha a demolição. Ali, onde existia agora o antigo hospital, existiria apenas uma montanha de escombros e pó e, uma ou duas semanas mais tarde, um espaço amplo e limpo no sul da cidade para a construção de um hotel.

O engenheiro caminhava devagar, subindo e descendo degraus, empurrando portas emperradas, pondo-se de cócoras para vistoriar fios e cabos elétricos. A luz sumira-se já, tornando os gestos mais dramáticos e belos, como sempre acontece na penumbra ou numa despedida.

O capacete, as botas e o colete retrofletor esponjoso não transmitiam, contudo, a segurança a que acostumara. Em dado momento, quando o foco da sua lanterna se cruzou com o letreiro MORGUE, Sven sentiu um arrepio. Ali não havia nada: uma porta fechada, um retângulo de vidro fosco, um dístico, silêncio e mais nada. Ainda assim, uma covardia súbita impedia-o de entrar.

Ao longe, numa qualquer sala ventilada demais, provavelmente por culpa dalguma janela sem resguardo, uma porta bateu, um qualquer carrinho, maca ou estante com rodas desatou a cair, aos tropeços, por uma das muitas escadarias deste labirinto, fazendo ecoar com estardalhaço o esqueleto metálico em que se desfazia. Sven ficou paralisado.

– Olsson, estás aí? Allô?

Uma aragem gélida, inundada de mofo, passou-lhe pelo rosto, pela boca, pelo pescoço. Horrível, enjoativa, trespassante.

– Allô? Olsson?

– Sim, estou aqui!

– Conferiste o setor 3?

– Estou a fazê-lo.

Agora a escuridão era mais visível, uma presença, uma certeza. Corredor após corredor (longos e penosos,  repletos de átomos alheios e atentos), Sven via tudo, o vir do nada e o ir para o nada, o chegar de longe para longe chegar, o desaparecer do antes no depois, a matéria que teimosamente se recusava a ceder, a morrer, a extinguir-se.

– Não te esqueças de verificar os anexos subterrâneos!

– Sim, estou a descer. Vou vê-los agora.

Sven via tudo, e tudo era sem mais sentido do que caminhar, assassinando no seguinte o passo anterior, sempre assim, sempre assim, como um pensamento, um acidente, uma ilusão.

ELA É UMA MÃE

Little mother, pequena mãe, pequeña madre, petite mére
Foto: Dorothea Lange

 

A garota segurava ao colo uma criança de ano e meio, dois no máximo. Os circunstantes olhavam-nas com um misto de curiosidade e falta dela.

–Então, e os vossos pais?

A garota, frágil como todas as garotas, amparando (sem se queixar, com mil cuidados) a criancinha que abria grandes olhos negros por cima do círculo da chupeta cor de rosa, nada respondeu.

– Devem ser ciganas.

– São romenas!

– É o mesmo!

– Tens fome, pequenina?

A garota recuou. Não gostava que fizessem perguntas à bebé. Muito menos que lhe tocassem no rosto.

– O melhor em todo o caso seria chamar alguém.

– Já chamaram!

– Ah sim? E quem chamaram?

– A GNR, penso eu.

– Muito bem.

Sem pestanejar, dando às vezes um jeito no embrulho que apertava (para lhe corrigir a posição, ou mitigar o esforço da coluna), a garota não desarmou. Que os chinelos de pano, a roupa sórdida, os cabelos desgrenhados não iludissem. Ali ninguém tocava na sua bebé.  Ninguém lha tirava!

– Que meninas tão amorosas!

– Dói a alma só de olhar a pequenita de chucha na boca!

– Dizem que para aí estão há dois ou três dias…

– Ao deus-dará?

– Sim!

– E alimentam-se de quê?

– Eu sei lá! De esmolas…

Mas a guarda não vinha e as pessoas, que remédio, iam à sua vida! A garota, não perdeu tempo. Ágil e forte, como todas as mães verdadeiras ou improvisadas deste mundo, desapareceu levando no regaço a pequenita.

Para onde? De que viviam? Sozinhas? E como foram ali parar? As mais das vezes, já se sabe, perguntamos por perguntar.

FIM DE TARDE

Akira Takaue
Foto: Akira Takaue

 

Quando o semáforo fez o carro parar, ele pôs-se a olhar em volta. A cidade caía já na grande penumbra de outono, engolindo as formas até ao céu ferrete entrecortado pela caixaria negra dos edifícios mais altos.

Era a sensação de ter vivido já esta experiência que o agitava.

Nesta parte da Baixa, os sinais vermelhos duram uma eternidade, mesmo ao sábado, mesmo estando a avenida quase deserta. Os olhos encontraram e detiveram-se no interior iluminado de uma lojinha vintage.

Dezenas de candeeiros em exposição, acesos, semelhantes a pequenos lustres, a ágeis medusas contorcendo-se, a candelabros e rosáceas, com os seus cristais, com os seus brilhos opacos e transparentes, com o revérbero irisado dos seus primas pendendo, fizeram-no sentir como numa imensa festa em silêncio. Era uma saudade (apesar de a palavra não o satisfazer) de antigos livros que lera, de antigos filmes que vira, de antigas casas e de noites antigas onde permanecera. Sempre gostara de lojas de candeeiros, ainda que não soubesse dizer porquê. Deslumbrava-o essa luz simétrica, dividida, multiplicada, bela, repleta de rútilos dançando nas paredes e nos espelhos. De resto, admitamos, ninguém sabe explicar muito bem as razões por que uma determinada luz o fascina ou fere, aborrece ou tranquiliza. A luz é talvez uma escolha psicanalítica.

Viu-se a si mesmo, muitos anos antes, conduzido no velho Talbot dos pais, quem sabe à mesma hora crepuscular, neste mesmo cruzamento, olhando a mesma vitrina. A memória confundia-o. Na negritude fria desse fim de tarde, aquele instante era como um aluvião de bem-estar sobre um oceano de desconhecidas e inimagináveis proporções.

O verde substituiu o encarnado. O carro arrancou. Estava atrasado para a consulta. O que quer que o médico da especialidade lhe dissesse podia esperar.

CAÇA AO TALENTO

Johannes Glännman
Foto: Johannes Glännman

— Diga-me, então: do que é que ele é capaz?

— Bem, sabe recitar de cor alguns dos trechos mais significativos de algumas das mais importantes obras da literatura universal!

— Bah! – cortou o diretor com um gesto cheio de desprezo. – Hoje ninguém se importa já com a literatura universal. Além disso, para fazer o que ele faz, temos a Wikipédia.

— Compreendo… – disse, um tanto descorçoada, outro tanto envergonhada, a jovem treinadora de pássaros cultos.

— Bem, já conhece o caminho não é verdade?

— Conheço o caminho, sim, obrigada!

Afagou o pequeno gaio-comum e saiu. Era uma manhã como as outras. Nem sequer mais fria.