SABES QUE ENVELHECESTE

Els Baltjes
Foto: Els Baltjes

Sabes que envelheceste quando não tu, mas algo em ti se recusa. Quando uma teimosia despida de sol se apodera dos teus sonhos e sabes que os não vais viver. Não és triste, longe disso, mas a felicidade é também ela um pouco impostora. Bebes à noite, às escondidas, tanto para esquecer como para lembrar, e o teu rosto é uma máscara.

Sabes que envelheceste quando te aborrecem os livros, as viagens e a companhia. Olhas para trás e nada descortinas, senão gente e coisas de cinza, sombras, vagas conversas idiotas. Não és triste, que ideia absurda, mas cais em ti com violência como quem é atirado para o interior de uma masmorra. Olhas ao redor e nada reconheces, nem sequer a velha voz onde nasceste, nem sequer o olhar honesto e acutilante de outros dias.

Sabes que envelheceste quando os ossos cantam e tu não. E há mais silêncio e mais pedra em ti, e mais tédio e mais incerteza, e mais terror e mais solidão. Não és triste, olha o disparate, mas as palavras já pouco dizem, ou dizem nada, porque as sentes cada vez mais como um eco fútil, inútil e venenoso, e isso verbera-lo tu com ódio, porque não és triste e desconheces a tristeza.

Sabes que envelheceste quando todos os dias são o mesmo dia, e o antes é já o depois de acontecer, e nada acontece, e tu sabes que envelheceste. Não és triste, detestas que to digam, mas pertences cada vez mais às coisas que amas (e são poucas) e cada vez menos às pessoas que já não sabes ou não podes amar (e são muitas), deslumbrado com o poder do silêncio e com a castidade que nele desconhecias.

Sabes que envelheceste quando deixaste de compreender o confuso mecanismo de salamaleques traiçoeiros, elogios hipócritas, sorrisos concupiscentes, cúpidos materialismos dos novos e afinal de todos os tempos; quando deixaste de suportar esse relógio ancestral de ameaças, avisos e bestiais represálias em que se move, em círculos, a gente de agora, a que veio e a que virá; quando deixaste de aceitar o triunfo da estupidez sobre a razão, o estudo e a sabedoria. Não és triste, triste é quem não o é, mas os teus passos encurtaram, o teu rosto emudeceu, as tuas mãos tornaram-se uma outra forma de metal.

Sabes que envelheceste quando te aceitas desse modo, velho e simples, cru e talvez cruel, sem adornos, supervivente, amigo dos poucos amigos que ainda valem a pena, fiel às paisagens que te acordam noutro tempo e noutro lugar, sem contemplações, mas contemplativo, amargo e todavia doce, de uma doçura que somente os que a ti são semelhantes podem compreender, prezar e, quiçá, amar. Não és triste, o que é ser triste, mas corajoso, coerente, preso ao teu destino como uma árvore às suas raízes.

Sabes que envelheceste quando não precisas de explicar porquê. Não és triste. És tu.

Anúncios

BAILE DE MÁSCARAS

Carnaval,
Foto: Stefan Nielsen

Todos os anos tem lugar na noite de véspera de Carnaval um dos eventos mais importantes da nossa cidade. Histriões escolhidos a dedo, entre as famílias de renome (as abastadas e as falidas), convergem ao salão nobre de um dos nossos palácios para mostrarem o quanto a boa sociedade sabe rir-se de si mesma.

Banqueiros do monopólio, churchills de cachimbo e relógio de bolso, marilyns de vestido levantadiço, einsteins de cabelo eletrizado, gueixas e jogadores de futebol, papas e afrodites de túnica branca (com a sua fíbula de ouro), quixotes e sanchos barrigudos, pares venezianos emplumados, o baile é um catálogo profuso de máscaras e trajes.

Ao contrário dos foliões labregos de rua, aqui impera o charme e o bom gosto: nada de insultos ao poder, nenhuma insinuação de cariz sexual, menos ainda provocações ao juízo corrupto ou ao patronato explorador.

– Este baile melhora de ano para ano – diz com gosto imenso, por entre fumaças de boquilha, Teodora Burmester, uma das sócias fundadoras desta tradição.

– Completamente de acordo, minha querida. Completamente… – anui, com ademane, Bernardo de Souto Avelar, professor universitário. – Isto é o Entrudo, no melhor sentido que lhe dá o meu querido Bakhtin! Uma rebeldia!

Serpentinas e champanhe, música de Brahms e Corradini (misturada com jazz, salsa e até algum pop rock), frases polidas e politicamente corretas, leques e charutos. É um acontecimento na nossa cidade. O veneno da má-língua aqui não entra. Aqui leva-se o fingimento muito a sério.

NOS SONHOS TODOS SOMOS CEGOS

Holger Droste
Foto: Holger Droste

 

Tom K. Maxwell, condutor de um camião de recolha de lixo, não pôde desviar os olhos certa noite da montra de uma conhecida marca de automóveis, onde se anunciava um novo topo de gama, descapotável, vermelho, igualzinho ao que vira em sonhos anos antes.

Sanchez, o eterno parceiro de giro, depois de se certificar que a grua depusera no ponto exato o contentor grande de plástico rígido, disse «Podes arrancar, Max!», mas a atenção do condutor continuou no vidro do stand, incapaz de decidir se via o que sonhara ou se sonhara de facto o que via.

«Arranca, tío! Está um frio de rachar!»

A cidade de Norwich, como todas as cidades à hora em que todos dormem, oferece a quem nela se passeia (não vemos porque não admitir que o trabalho de uma equipa de limpeza seja uma passeio) pensamentos singulares e boas conversas de turno.

«Sempre quis ser engenheiro» explicou, dando ao volante uma guinada mais brusca. «Ai, sim? Engenheiro de quê? Sempre pensei que tivesses falhado uma carreira no baloncesto». «Engenheiro de carros, pá!». «Mecânico, queres tu dizer?». «Não. Engenheiro. Daqueles que desenham grandes máquinas, estás a ver?».

O camião, porém, foi obrigado a parar.

Entravam agora em La Mancha, uma zona suja de bares e vidros partidos. Os pneus calcaram-nos com displicência, como quem esmaga bolotas. O colega de Tom K. saltou para o asfalto, engolido num abrir e fechar de olhos pelo seu próprio bafo. Quis verificar a conexão da grua, que com o seu braço incansável caía uma e outra vez sobre os recipientes apinhados. Entre içá-los, voltá-los do avesso, sacudi-los e pousá-los de novo decorriam sete minutos e quarenta e cinco segundos.

Maxwell, ao comando agora de um painel com pequenas alavancas e botões, comprovou-o pelo espelho retrovisor. Os giros da noite são tranquilos. Para se manter atento, precisa de pormenores novos. Nessa noite havia um vapor a subir do chão como nos filmes noir de que gosta tanto. Além de engenheiro, jogador, segurança em boates e falcatrueiro num negócio de cerveja artesanal, podia ter sido um poeta vagabundo, como certas personagens dos livros que lê.

«Aquele descapotável estava nos meus sonhos há anos!». «Falas de quê?». «A bomba que vimos há pouco…». «O que tem?». «Eu desenhei-o, meu!». «Tu desenhaste-o?». «Tinha-o na minha cabeça há anos, acredites ou não!». «Arranca mas é, tío!».

O ar desinteressado, anafado, tolhido de frio, do espanhol, irritava Maxwell. A espécie humana pode ser tão ignorante. «Às vezes eu sonho coisas, vejo-as antes de acontecerem, meu! Percebes?». «Hombre, nos sonhos todos somos cegos…». «Essa é boa. Eu vejo coisas. Distintamente. E muito antes de se tornarem realidade!». «Prego a fundo, tío. Temos mais de meio setor por fazer!»

Nós, que assistimos a este diálogo, seremos benevolentes. Há pessoas com o dom errado. Nem por isso deixaremos de acreditar nelas.

DE OUTRA FORMA

Mario Jean

Depois de terminada no metro a leitura do romance Samarcanda, que lhe emprestara uma colega de curso, o estudante e admirador de arte antiga Filippo Zanutti não deixou de cismar um segundo no quanto a História nos cumula de estranhos episódios, nos quais, como pela boca de uma sarjeta (ele refletia sobre o naufrágio do Titanic), se escoam peças inteiras de puzzles intricados e agora, por causa disso, indecifráveis.

«É uma lástima que assim seja» pensou.

Saiu para a Piazzale, caminhou um pouco, depois entrou, como faz todos os sábados de manhã, no quiosque das flores, escolheu, pediu e pagou. Em seguida dirigiu-se para o Cimitero Monumentale. Entre todos os lugares de Milão, este era um dos mais interessantes.

«A morte pode ter uma casa decente. E nós podemos visitá-la como hóspedes educados» explicou Zanutti uma vez à florista, que o atendia cheia de curiosidade.

Ultrapassados os portões brancos, o universitário atravessava os corredores silenciosos e caminhava pelas veredas de cascalho, entre ciprestes e formas de mármore, até se abeirar de certa lápide, onde invariavelmente depositava o ramo.

A primeira pessoa a dar-se conta foi Alda Bianchi, viúva, zeladora e vice-presidente da Associazione Amici del Monumentale, que o fez notar aos coveiros, ao pessoal da segurança e, por fim, ao padre Maximiliano Fiore.

«Mas que mal pode existir nisso?» respondeu o sacerdote.

Ainda assim, fez por esclarecer a sua própria dúvida. Encontrou o jovem de cócoras, com um sorriso alheado, dispondo as flores junto à inscrição com o nome ADINA ROSSETTI.

«Meu filho, não pude deixar de reparar no teu extraordinário empenho. A nossa querida atriz tem em ti um admirador exemplar…».

Pondo-se imediatamente de pé, Zanutti mostrou-se algo embaraçado. Não lhe apetecia dialogar, menos ainda naquele seu refúgio, menos ainda com um padre. Escolheu as palavras com cuidado.

«Os gestos não devem ser desperdiçados, nem negligenciados. Gosto de homenagear.»

«Com certeza… Adina Rossetti foi uma mulher talentosa. Dizem, também, que a mulher mais bela da sua geração… Espanta é que um jovem de agora se interesse por alguém falecido há tanto tempo!»

O estudante de arte enristou a expressão.

«O tempo não devia enganar-nos tanto, padre… O senhor sabe perfeitamente que o que viveu ainda vive, viverá para sempre se assim quisermos… A beleza, como o amor, não morre…» replicou, comovido. «De outra forma, Cristo estaria morto!»

Perplexo, surpreendido pela audácia, o padre viu-o afastar-se. «De outra forma, Cristo estaria morto!» murmurou.

Alguém que tivesse escutado estas palavras, poderia com elas, sem dúvida, escrever uma boa história.

ROMÃO

Dr. Mimi
Dr. Mimi

 

Foste a única pessoa que conheci até hoje que não matou um único animal. Exceto talvez os piolhos, se os tiveste alguma vez. Exceto talvez as lombrigas… Foste a primeira pessoa a recusar, numa célebre vindimada, a cabidela da minha avó e a provocar o caos nos grandes potes de ferro, onde a galinha acabava de cozer sob a vigilância de minhas tias e progenitora.

‒ Ó minha mãe, o que é que o homem vai comer?

‒ Eu sei lá o que é que ele vai comer! Olha, come um caldo de coibes!

Cheiravas a sabão clarim (nunca me lembro da feição das pessoas, mas dos cheiros sim – fica-me deles a fotografia penetrante e inesquecível): a camisa de linho arregaçada nas mangas, as calças com suspensórios, as socas de grandes tachas douradas nos pés, a navalha nas mãos e o perfume do sabão (será sempre o melhor de todos), como se nenhuma mácula pudesse tocar-te.

Vejo-te ainda, velho amigo, sentado na mesma tampa de cimento do poço, os cães aninhados entre as tuas pernas, os pássaros a comer-te das mãos (bicando por entre os dedos grossos e cheios de cicatrizes), os pintos amimalhados seguindo-te no quintal, a abelha amestrada que exibias com gosto mas sem vaidade. Vejo-te ainda na mesma posição, quieto e profundo, como um apóstolo fora do tempo.

‒ Isto aqui é uma paz… Assim que debe ser…

Porque aquilo ali, a casa do avô, tinha o seu quê de pacífico, entre eucaliptos e carvalhos, caminhitos de terra batida, tanques e regos de água, ervas e nastúrcios, um cento de plantas de todas as formas e aromas… Aquilo ali era uma paz. Vinham os andorinhões e as magníficas pegas-rabudas… Vinham os ouriços-cacheiros e às vezes a raposa… Vinham os soberbos torvelinhos de ar puro dos campos, das magnólias e árvores de fruto de ao redor da casa.

Mas era com a bicharada que te entendias melhor.

Era com ela que partilhavas a alegria do verbo durar. E os bichos pareciam compreender-te, procurar-te, querer-te. Os gatos preferiam o teu colo. Os pardais respondiam aos teus assobios. As borboletas vinham poisar-te na nuca. As pombas gingando o pescoço pareciam dançar para ti. Vejo-te, ainda, sorrindo e fechando os olhos, como um franciscano fora do tempo, enternecido e um pouco doido.

Uma vez vi-te a ajudar um louva-a-deus a pular a parede até à esquadria da janela e a convidá-lo a ir.

‒ Bai lá à tua bida, meu grande tolo…

E o louva-a-deus, como iria um aranhiço, uma formiga ou uma mosca enjaulada, foi.

‒ Bai lá à tua bida, meu grande tolo…

Lá, em casa do avô (onde, tocados pelas recentes modas francesas, subíamos escaleiras no lugar das escadas e nos deliciávamos com a chofagem, que ventilador era coisa que não se dizia), todos te julgávamos c’est fou, um c’est fou adorável, adorável e raro, por causa daquela coisa nas minas.

– Trabalhei acajo quinze anos nas minas de Llombera, em Espanha. Aquilo era duro… quinhentos metros abaixo do chão, ou mais …

Andava já na escola. Quinhentos metros eram dez vezes seguidas o nosso recreio. E sempre para baixo, como num abismo.

‒ Nem as mulas queriam ir… Bem lhe punham bendas nos olhos, mas as coitadas já sabiam pró que iam… Punham-se a dar pinotes…

‒ Ó Sinhor Romão, e as mulas iam lá pra baixo porquê?

‒ Atão? Para ajudar nos bagões…

Não há quem resista a uma boa história contada na primeira, nem a uma boa crónica revista na terceira pessoa. Nós éramos olhos e ouvidos e um nariz. Um bando de miúdos esquecidos das mãos, das fisgas e das caixas de fósforos, caçando imaginariamente o breu e os sons que subiam da terra, aonde tu te entranhavas doze horas por dia, de picareta em punho.

– Depois sucedeu o que tinha de suceder.

– O que sucedeu?

– A explosão.

– Qual explosão?

– Foi um arrebentamento… Um morreu logo. Outro morreu depois. Eu fiquei todo desfeitinho, as tripas bieram cá para fora, mas escapei… Para dizer a berdade, não sei como escapei!… Tiberam de as pôr num lençol. E cum elas assim postas à minha beira fui parar ao hospital… Depois disso nunca mais trabalhei…

Imagino agora, à distância limpa em que os factos se veem melhor, o relâmpago ensurdecedor, o sismo nas galerias do inferno (tábuas esfarrapadas, o elevador avariado, o urro das alimárias), o cadáver e os corpos esfacelados, o sangue espirrado nos filões do minério, o pânico nos olhos imersos em escuridão, em suor e em cansaço, tu levado numa ambulância anacrónica, desde as montanhas até Madrid, moribundo, com as vísceras ensacadas num lençol arranjado à pressa.

Foste a única pessoa que sabia já em miúdo ser uma pessoa única. E eu respirava o cheiro do sabão, sem poder compreender que aquela tua serena brancura ao sol (a navalha nas mãos, as socas de grandes tachas douradas nos pés, as calças com suspensórios, a camisa de linho arregaçada nas mangas, em cima da tampa do poço) pudesse alguma vez ter sido conspurcada pelo horror de uma noite tamanha.

Escrevo para ti, Romão, com saudade. Cada vez mais preso a esse maravilhoso arquipélago formado pelas memórias, intocado e intocável, onde sobressaem rostos e nomes e façanhas. Talvez por compreender cada vez menos este oceano desprezível de dias informes e sem fundo. Tu eras soberbo (um c’est fou) e eu devia-te, devo-te há muito, este texto. Se em algum lado estiveres, um abraço, o meu abraço, velho amigo!

O LOUCO

Foto: Péter Aczél
Foto: Péter Aczél

O louco deteve-se diante do maravilhoso Steinway. Tocado daquele modo, qualquer um de nós sentiria a mesma comoção. Era o terceiro andamento da Sonata 14, opus 27, de Beethoven. As lágrimas principiaram a balbuciar e a pele arrepiou-se-lhe num calafrio sincero.

O pianista no centro do plano parecia tomado pelo êxtase dos mártires. Esperava que a lâmina o degolasse a qualquer instante, podia jurar que a morte lhe pesava já sobre o ombro esquerdo, respondia-lhe com movimentos alucinados, como se pudesse viver de modo absoluto a vida que restava. Enquanto as teclas pudessem devolver o génio da composição, continuaria tocando e tocando.

O louco fez deslizar a arma, quase cego. Mal podia ver com o torpor das lágrimas. E quando se preparava para golpear a vítima, o realizador disse «corta». Num gesto de contrariado autocontrolo, o louco apertou com veemência o cabo do punhal e suspirou. Houve aplausos. A equipa de produção tomou o lugar. A maquilhagem foi retocada. Na mão o peso morto do objeto. O louco escutou as últimas recomendações. Sabia (sabia-o há muito) que a mão sedenta mais cedo ou mais tarde lhe não obedeceria. Berraram «Take 2». A música encheu de novo o grande salão romântico. Uma sombra percorreu as paredes. O louco deteve-se. Respirou fundo. A sonata quebrava as últimas moléculas de paz.

Diante do piano de cauda o louco deteve-se. Como a morte podia desoprimi-lo! Exatamente como o guião ditava.

UM EMBRULHO

Sebastian Prioteasa
Foto: Sebastian Prioteasa

 

Eufórico com o embrulho do correio, Carlo Lambrigello abriu-o ainda assim sem pressa.

Tacteou a caixa do CD, leu o título (achou bela a imagem da capa), regozijou-se por ter nas mãos um objeto da Deutsche Grammophon, e só então o introduziu no leitor de CDs do automóvel.

A essa hora já a noite tomava conta da autoestrada. Labaredas sombrias ardiam nas margens do céu.

Escutou com grande comoção o álbum do princípio ao fim. Depois da primeira vez, repetiu o «Beata Viscera Mariae Virginis» de Pérotin, cantado pelo Coro da Capela Sistina e por Cecilia Bartoli. O canto da soprano, acalentada pelo sopro murmurado das outras vozes, pareceu-lhe sobrenatural, vindo das entranhas da própria alma. Não pôde conter as lágrimas.

O maestro Massimo Palombella e o crepúsculo acabavam de lhe proporcionar um momento místico. Sentiu-se pequeno e vulgar, contrito e solitário, limpo e aniquilado.

Nas cercanias de Chiusi fez um desvio para a estação de serviço.

Depois de limpar os olhos e de se assoar, Lambrigello abriu devagar a porta do carro e saiu para sorver o tremendo ar de outono da Toscana. Na sua cabeça alguma confusão havia-se instalado:

O que fizera na vida de realmente assombroso? De indiscutivelmente belo e perfeito? De imprescindível?

O professor de Belas-Artes caminhou um pouco pelo baldio onde camiões e camionistas se alinhavam, num misto de faróis, roncos mecânicos, cheiro de combustível e calão.

Sim, o que o distinguia daqueles homens e mulheres atascados em vileza? Tudo. Nada.

Sentiu vontade de urinar. E de comer alguma coisa. E de beber café. A viagem até Roma fatigava-a cada vez mais. Tantas necessidades!

Pôs-se a mirar a autoestrada, o movimento frenético dos veículos que nela partem e regressam. Também ele queria chegar a casa, voltar ao ventre bendito do silêncio, do vento frio, da terra batida.

«Chegar a casa. Mas que porra é chegar a casa» perguntou. Os transeuntes surpreendidos não souberam o que dizer.

A pergunta, de qualquer modo, não lhes fora dirigida.

O EREMITA

Derek Galon
Foto: Derek Galon

 

 

O EREMITA

I

A meio e no alto do bosque fica o eremitério. Escassa gente atravessou estes portões nos últimos cem anos e nas centúrias anteriores quem o fez pôde descrevê-lo como nós o descreveremos agora: é um lugar ermo, tosco, bendito, impoluto.

Os adjetivos nada dizem, reconheçamos. Haverá quem deseje um relato pormenorizado sobre as suas escadarias, sobre as suas varandas e jardins incultos, sobre a cozinha com forno e celas desertas, sobre o oratório. Mas nem esses serão bem sucedidos. Não há que descrever mais do que paredes e arestas descarnadas, granitos com manchas de humidade e tenebrosos entrançados de silvas ameaçando o lintel das janelitas, junto à cumeeira do tugúrio.

Tudo se mantém inalterado desde a era dos primeiros santos que aqui resgataram a sua existência ao bulício e ao sorvedouro das grandes cidades. A natureza só não submergiu por completo esta edificação pelo caridoso ofício do irmão Anthony Montague, a quem cabe a guarda destas vetustas e gastíssimas lâminas, com que vai limpando como pode as balaustradas, os tetos e as esquinas de pedra musgosa.

Mas o visitante importar-se-ia sobretudo com o silêncio.

De manhã à noite, a maior gratidão do eremita é para o depurado silêncio que brota de todas as coisas em redor. O bom silêncio envolve-o numa paz profunda. E ao ter-se a ele acostumado, disciplinou tal forma o ouvido que pode com facilidade alcançar os mínimos estalidos, os mais distantes assobios, o sussurro da água nas fontes do bosque, a súbita mudança do soprar do vento na cabeleira dos pinheirais. Ao mastigar o bocado de pão à noite, os estertores da boca ou o crepitar da lenha tornaram-se palavras inteligíveis de que gosta mais do que das antigas, cujo significado lhe pareceu tantas vezes embaciado e inútil. Mesmo as orações, que medita e repete várias vezes ao dia e durante o serão, prefere pronunciá-las sem articular a língua, dizendo-as com o seu timbre de voz interior, tão belo e abafado tanto tempo. O silêncio tornou-se o seu modo de estar com Deus e o único motivo por que vale a pena continuar vivo.

Montague vive no eremitério há somente cinco anos. Veio de Dublin, onde foi casado e onde exerceu os cargos mais distintos na vida política e também na empresa multinacional EMPIRE.

Depois de nesse dia de outono ter contemplado na paisagem a formação de bulcões, sobre uma brisa quente e pressaga, lava-se agora à chuva abundante da noite com um quadrado de sabão. A tempestade faz as sombras mais suspeitas, com rebrilhos de relâmpago. Ao lume tem o eremita o seu caldo de feijão e sobre a mesa o De Civitate Dei, que vem há muito decompondo gulosamente em epifania e amor pelo próximo.

Depois de se secar num monte de trapos, sentindo a pele exalar o doce torpor da purificação, Montague dirige o olhar para o firmamento. Há no imo da sua alma qualquer reminiscência druídica, pois a natureza por si só o comove como um deus e lhe apetece alimentar-se de raízes e ervas para reencontrar um caminho perdido.

Escuta então um restolho. Um restolho e um gemido. Julga ouvir, também, o mover das bisagras e o raspar de metal sobre um lancil. Não tem dúvidas de que algo ou alguém vem aí. A pele empola-se, os pelos estão eriçados. Nunca lhe sucedeu igual. A sua santidade, tão duramente procurada nestas paragens, não o impede de apossar-se do tronco de carvalho que lhe serve de cajado e de o projetar defensivamente. É uma arma tão boa como qualquer outra e não tendo outra é esta melhor ainda. Um halo argênteo e azulado corre as paredes, invade-lhe o interior do casebre. Prepara-se para brandir o que segura nas mãos, quando uma voz o imobiliza.

– Olá, está aqui alguém?

II

A rapariga sorria e agradeceu muito o cuidado. Encontrar um chão seguro, poder abrigar-se da chuva e comer algo quente era muito melhor do que podia esperar. Não sabia explicar como ali fora parar, apenas que se perdera do seu grupo e que caminhara sozinha e desesperada durante horas, especialmente depois de anoitecer.

«Graças a Deus, descobrira aquele oásis no meio do deserto!»

Montague, aturdido, envergonhado, estremeceu ao som da palavra «Deus». Deitou uma concha de sopa no prato dela. Achou que talvez fosse avareza. Serviu-lhe outra concha. Não sabia se devia sentar-se a seu lado ou se devia comer num canto da cozinha. Ela falava, falava depressa, repleta de gratidão e de ruído. Como a rapariga não se decidia a começar a comer e o olhava fixamente, ele sentiu-se na obrigação de a acompanhar. Partilharam a refeição, depois de rezarem. Montague não percebia bem o que ela dizia, não tanto pela rapidez da sua fala, mas sobretudo porque o coração lhe batia descompassado e lhe tolhia a lucidez.

«Vivo muito perto de Cardiff, mas sou de Bristol. Na última década vivi em sete países diferentes. Adoro explorar a natureza, sabe? Passo a vida a viajar e a fotografar os sítios mais encantadores do nosso planeta…»

O lume, avivado pela mão diligente do eremita, parecia mais rubro que um rubi. Na face angulosa do granito, a silhueta da rapariga aparecia distorcida, como se da cabeça aos pés inúmeras hastes se descobrissem e a tornassem monstruosa. Por outro lado, a sua voz, vencida agora pelo cansaço e pelo sono, era menos vigorosa, mas muito mais dócil, quase sedutora.

«Quase não abriu a boca… E eu tão tagarela… Fale-me de si. Afinal, é o meu querido salvador… O que seria de mim, se o não tivesse descoberto esta noite?»

Os pelos dos braços e das pernas de Montague voltaram a erriçar. Depois de ter desaprendido determinadas facetas do mundo, aquela linguagem perturbava-o, tornava-o de novo refém de um mecanismo de que se libertara, a seguir à morte da sua mulher, muitos anos antes. O silêncio e o isolamento trouxeram-lhe o caminho do êxtase e encerraram atrás de si portas e corredores de cuja memória não estava já muito certo.

«Não sei o que lhe diga… Vivo só… Aqui… Há muitos anos…»

«Meu Deus, estou tão fascinada! O senhor é um daqueles santos, que se afastaram do mundo para conquistar o direito ao Paraíso!… Tão bonito!»

«Sim.»

«Não consigo imaginar o que tem sido viver longe de tudo! Sem conforto. Sem tecnologia. Sem o toque de uma outra pessoa!»

«Vivo com Deus.»

«Mas Deus é amor. Deus quer que nós amemos, que nos amemos uns aos outros!»

E ao proferir as palavras «Deus» e «amor», a rapariga soergueu o tom, como para espicaçar o entendimento de Montague. Sorria. Para sublinhar o poder do seu raciocínio, colocou-lhe a mão por cima da sua própria mão. O contacto da pele delicada com a pele áspera surpreendeu mais o eremita do que a afoiteza das palavras. O sorriso da rapariga fê-lo recuar. Precisava de retirar-se para orar. Tinha já passado o tempo devido.

Então, a rapariga aproveitou para lavar os dois pratos, estender o saco-cama, cuidar como podia da higiene pessoal. Depois despediu-se do anfitrião, sorriu com um «Boa noite, meu salvador!» e deitou-se.

Montague, mais uma vez, não conseguiu decidir entre usar a sua cela ou acompanhar a rapariga. Não raras vezes precisou de lidar com vermes e répteis, atraídos pela humidade ou pelo calor daquele antro. Receou que soasse a má criação não velar pelo sono da sua visita. Tanto mais que as horas noturnas durante as tempestades lhe pareciam um ensejo para descortinar a vontade de Nosso Senhor.

Ficou, por isso, diante da lareira, não muito longe do perfume que a rapariga exalava e que o entontecia. Era como uma tentação.

Rezou. Pediu perdão a Deus por todas as impurezas que nesse final de dia o pudessem ter cometido. Especialmente, quando se lembrou de Rose, a sua falecida mulher. Porque se lembrou dela nesse final de dia, sim, não da Rose murchando numa cama de hospital, mas da Rose do namoro e do casamento, bonita e insensata, que o desafiava a toda a hora, sem temer ou admitir sequer a têmpera do pecado.

«Não consegue dormir? Ou simplesmente nunca dorme?»

Montague estremeceu. A rapariga dirigiu-lhe nova pergunta.

«Assustei-o?»

«Não.»

Apesar da fadiga, do calor da fogueira, do som aconchegante da água precipitando-se das alturas, a rapariga explicou que não conseguia adormecer. Intrigava-a aquele modo de vida de Montague, aquela decisão de voltar as costas ao mundo, aquele silêncio e solidão no alto e no meio da floresta.

«Não voltei as costas ao mundo…Voltei-me para Deus…»

A rapariga abriu o fecho do saco-cama, soergueu-se (dorso encostado à mochila) e, iluminada pelas achas, disse que também Zaratustra viveu nas montanhas, mas que ao cabo de dez anos, segundo as sentenças de Nietzsche, precisou de voltar para junto dos seus semelhantes.

Um pouco depois, o eremita e ela, na mesma posição em que haviam jantado, estavam um dia diante o outro, sentados à mesa. No mesmo tom sereno, no mesmo ritmo apaziguado, disse muitas palavras doces. De quando em vez, a rapariga mexia no cabelo e sorria. A camisola que envergava tornava-lhe o desenho dos seios mais óbvio, como se ao mesmo tempo os guardasse e os expusesse. Montague não ouviu quase nenhuma das palavras que lhe foram destinadas.

Então, animada pelo assentimento do eremita, reparando mais na beleza dos seus olhos azuis (que as barbas desleixadas não podiam senão evidenciar), afogueada pela gratidão que sentia em relação a esse homem invulgarmente casto e sóbrio (mais atraente lhe parecia o seu carácter assim), a rapariga tomou-lhe as mãos e beijou-as, acariciou-lhe o rosto, percorreu com os dedos a comissura dos lábios e, por fim, beijou-os também. Montague nada fez para interromper estes desvelos.

III

O eremita acorda sempre antes alba. Hoje não. Os olhos, terrivelmente cansados, avistam uma leve coluna tisnada a subir e a tocar o cume da cozinha. É uma língua de fumo que sai do raizeiro sobre a laje da lareira. Sobressalta-se, de chofre, ao dar-se conta das orações negligenciadas. Sente frio. A fome revolve-lhe o estômago. Recorda-se da tempestade, que durante a noite recrudesceu. Agora que os sentidos recobram o seu préstimo, percebe também um perfume diferente no ar, pairando como uma memória difusa. Lava o rosto, medita as primeiras orações, come um pouco de pão e, então, sim, compreende a indolência do seu corpo: acode-lhe à cabeça a rapariga.

Não pode descortinar um único sinal dela. Não percebe quando, como e porque partiu. No chão, onde o saco-cama foi estendido, não se perscruta o mínimo vestígio. Somente o areão e alguma folha ressequida, algum inseto sossegado e em trânsito entre esconsos.

Montague, aturdido, lembra-se do corpo nu da rapariga, do corpo quente e meigo que roçou no seu próprio corpo e o submeteu. Mas o chão, o puro chão do seu tugúrio, nada informa sobre o amor que ali existiu.

A rapariga, cujas palavras irresistíveis, cujo sorriso invencível, cuja doçura o fizeram mergulhar num sono profundo, desapareceu. Procura um só indício de que a sua cabeça o não engana. Na pedra onde costuma lavar o seu prato, não pode avistar senão um prato. Não possui dois pratos, aliás. Em cima da mesa, na exata posição em que o deixou ontem, o De Civitate Dei de Santo Agostinho.

A demanda prossegue. Fora, a manhã mostra-se esplêndida, como todas as manhãs de sol que sucedem às noites de procela. Montague verifica o granito sem lama da escadaria, a pequena vereda de acesso sem sulcos ou estrias de calçado, o portão que permanece tão fechado como um segredo por confessar. Treme.

O que foi tudo? Um sonho? Uma visita do demónio?

O frio fá-lo tiritar. Sente-se horrivelmente só. Pela primeira vez, nesse lustro, as forças faltam-lhe. O que foi tudo aquilo? Uma epifania? Uma prova de fé a que Deus o sujeitou?

Treme. Sente-se doente. Na pedra da lareira acumula-se a cinza da noite. Nenhum calor, nenhuma chama, nenhuma centelha aviva os seus olhos. Somente um fiozinho de fumo resta no corpo ardido do raizeiro. Montague pensa que chegou o seu momento: divino ou demoníaco, o sopro da vida está prestes a expirar. Não sabe, não o censuremos, que interpretação dar a tudo isto…

27 e 28 de outubro de 2017

 

VIAGEM

Yvette Depaepe
Foto: Yvette Depaepe

A meio da viagem que repete todas as manhãs entre Estocolmo e Uppsala, Arthur Ekelöf precisou de fazer um desvio. Estacionou o Volvo de última geração na entrada de um parque de merendas, desligou o telemóvel e todos os outros dispositivos eletrónicos anichados na pasta, saiu do automóvel, subiu as golas do sobretudo e sentou-se.

Foi a primeira vez em quase duas décadas.

A cabeça, repleta de sons e de imagens, nada pôde ver ou escutar durante muitos minutos. A impressão de que o coração batia mais depressa e de que os olhos nada descortinavam com nitidez (como se uma película suja os embaciasse) assustou-o. Era como se presa às solas dos sapatos viesse uma outra vida, parasitária, de que supunha não ser já capaz de separar-se.

Gritou. Gritou outra vez. Gritou com raiva.

– Então, é isto a minha vida?

O sangue acorreu-lhe ao rosto, as mãos mudaram de cor.

Depois, Arthur começou a ouvir pequenos sons ao perto e ao longe, por exemplo a revoada de gralhas que ia e vinha doidamente quando gritava. Notou, também, as diferentes entoações dos ramos dos pinheiros empurrados pelo vento. E o despenhar-se de quando em vez de uma pinha.

Sentiu-se limpar. Era como os pulmões abertos deixassem respirar a sua alma. Como se a alma lhe dilatasse no tronco amarfanhado. Como se o tronco retorcido se endireitasse.

O tempo. Quanto tempo? Aqui, sentado num banco de madeira, neste parque vazio?

Só a aceleração e a travagem dos camiões, além, lhe recordava a irreverência inusitada desse dia. Não precisou de lutar sequer contra a sensação de remorso ou contra qualquer mal-estar provocado pela falta ao emprego. Os seus alunos teriam de contentar-se com uma explicação. Os seus alunos? Que se lixassem os seus alunos!

– Quarenta anos, porra! Tenho quarenta anos! E sinto-me tão perdido quanto um barco de pesca em alto mar, longe de todos os ancoradouros. Estou perdido, porra!

A fome e o cansaço instalaram-se. E também uma tristeza enorme, indisfarçada, sem consolação. Sozinho, entre a caruma seca e a bolsa de silêncio que o envolvia, Arthur sentiu as cócegas do nariz ultrapassá-lo. Teve a certeza de que não saberia dominar-se. E de feito lançou-se num choro violento, sem freio, alavancando obscuras frustrações, misérias, sentimentos de dor, cinza calcada e esquecida. Chorou como uma criança magoada, traída, exposta.

Uma comiseração tão profunda era-lhe estranha. Depois de chorar, o professor de Filosofia ficou em silêncio. Um silêncio total, de pássaro ferido nas asas. O céu foi-se despojando lentamente da energia solar, mergulhando numa paz de outono inteiramente nova, como se cada elemento tivesse reaprendido a ocupar com sobriedade o seu lugar.

Arthur ergueu-se.

O corpo, entorpecido, vacilou. Pôs-se a contemplar a paisagem ao redor. Viu um casebre ao longe, no cimo de uma colina, sob nuvens de um tom violeta. Viu os debruns azul ferrete de um lago. Viu embarcações atravessando serenamente o tapete da água, onde o vento compunha e descompunha rugas de um alarme poético, até aí nunca pressentido. A sua existência, passada nas grandes cidades, alheia a esse bucolismo tão belo e tão intemporal, pareceu-lhe estúpida, opressiva, hostil.

Sorriu com escárnio. Como podia ter-se enganado tanto acerca de tudo?

Abriu a porta do carro como quem abre com desprezo um caixão. A morte estava ali, à espera de o levar de volta. Pronta, seguramente, para lhe gritar, ameaçar, punir. Sabe Deus o rancor que se teria acumulado desde o meio da manhã no seu correio eletrónico, no seu correio de voz, em mensagens de espanto, desespero e deceção através das redes sociais!

O que lhe diriam? Como se justificaria ele? Teria coragem para dizer simplesmente «Tirei o dia por conta da minha vida»?

Arthur sorria. Já não com troça de si mesmo, mas com orgulho. Desobedecera a si mesmo, em defesa de si próprio. Tinha a absoluta certeza de que o Volvo o não apanharia em falso.

Reentrou na autoestrada, iluminada agora por centenas de faróis alinhados e sequenciais.

Tinha a absoluta certeza de que iria reencontrar-se algures.

UM VELHO

Hari Sulistiawan - old man
Foto: Hari Sulistiawan

 

Um velho seguia na direção do monte mais alto do seu país. Pelo caminho cruzou-se com viandantes da terra e outros de fora, os quais se mostraram curiosos com a sua rota solitária e difícil. Não poucos o procuraram dissuadir:

– Bom homem, em frente encontrarás somente montanhas e desfiladeiros. De modo algum esta jornada é para alguém que pretenda viajar sozinho, ainda para mais com a tua idade…

Mas o velho prosseguiu lentamente a marcha. Nem uma só vez duvidou que lhe faltariam as pernas ou os pulmões para ultrapassar os obstáculos. Apoiado num cajado, atingiu por fim o cume mais elevado do seu trilho, bem no cocuruto de uma cordilheira. Aí sentou-se a contemplar o mundo ao redor e em baixo.

– Toda a minha vida fui um velho. Agora que sei o que a juventude é posso finalmente descansar…

Moral da história: no alto de uma montanha, pode-se facilmente encontrar frases que enchem o nosso ouvido.