A INFÂNCIA

infância
Foto: Nanouk el Gamal – Wijchers

O lugar mais belo do mundo, volto a dizê-lo, já o disse tantas vezes, é a infância. De dentro das suas fronteiras sorriem velhos desdentados, velhos que conheci e que amei e que recordo agora, entre talhões de ciprestes e grandes anjos de mármore; sorriem gestos que se perderam e que regressam às tantas, num gesto involuntário, como decalcado por misteriosas mãos; sorriem memórias difusas que me ocorrem nas viagens, entre músicas dos anos 80, no ir e vir de paisagens de choupos e de várzeas. O lugar mais belo subsiste apenas no amor que dele me ficou. E ele ficou por inteiro, por atacado e para sempre!

Havia na aldeia uma alcunha a servir de tapete à porta de cada casa, alcunhas inexplicáveis, indescritíveis, intraduzíveis (próprias dos caras de merda, dos caga-baixinho, dos pica-peidos, dos espreita-cus, dos mijões, dos coça-pirocas, dos reis-bandalhos, dos caça-pardejos, dos parrecos, dos chicharros, dos escaravelhos, dos grilos, dos vacas, dos chouriços, dos presuntos, dos cabaços, dos repolhos, dos tarrucos, dos bigorros, dos choinos, dos ganheis, dos chupius, dos vinte-e-uns, dos belezas, dos pírdigos, dos estúrdias, dos sovacos), cada qual com o dignitário pai de família, espécie de general supremo, para quem as conversas convergiam a fim de se dissipar confusões de identidade.

– A que bateu na filha do Florêncio maldito é sobrinha do Afonso perna

– A Neuza?

– Não, mulher! A Neuza é filha. Estou a falar da São. Da sobrinha. Da São passareta!

– Qual São?

– Rais parta! A São que casou com o filho do Toninho bravo!

– Ah!

– Essa…

Existia, sobretudo, o poderoso ofício de cada qual. Cada pessoa era um mester, um trabalho, uma função, tão específicos e tão inconfundíveis que se substituíam quase sempre ao nome próprio, ou que lhe acrescentavam uma aura de prestígio social ainda hoje tocantes, se lhes toco com a saudade: o sr. Bernardino tanoeiro, o Esteves capador, o sr. Marcelino guarda-rios, o Bilinho jornaleiro, o Nando curtidor, a Leonor curandeira (bruxa, com morada aberta e, nessa formidável condição, capaz de incorporar o espírito dos vivos e dos mortos), o Zequinha guarda-soleiro, o sr. Moás vedor e bufarinheiro, a Lídia dos mancebos (mamuda, libertina, iniciadora sexual, vulgívaga, prostitutíssima), et coeteraet coeteraet coetera

As frases cirandavam com o vento, conforme a intensidade do assunto:

– Aquele grande filho da puta do moleiro vai ouvi-las: isto é lá farinha? Isto é farelo, caralho!

– Guida, olha-me só que rico bacalhau comprei ao almocreve para o Natal…

– O marmanjo do amola-tesouras levou-me vinte mil réis por me passar as facas pelo esmeril e olha lá se elas cortam.

– Mila, ó mulher, diz-me tu: ouviste o sardinheiro a apitar?

A infância habitava as varandas no verão e os telhados no inverno; habitava as cortes (todas as casas tinham uma corte, um bácoro, um cabrito, coelhos a criar); habitava as velhas lareiras e as adegas, os alpendres, os casebres de serventia duvidosa; habitava as ruas, sobretudo elas, as ruas onde eu e incontáveis miúdos em permanente algazarra brincávamos ao esconde-esconde, às apanhadas, aos cowboys, à cachaleira, à macaca, à roda, à cabra-cega, ao jogo do saco; as ruas onde com incrível poder de invenção narrávamos histórias de fantasmas e de lobisomens, histórias de gambozinos e minas mal-afamadas (esconderijo de mouras velhas de lenço preto na cabeça e verruga no nariz), histórias de feios anões que apareciam entre as samambaias junto da raiz dos carvalhos, histórias de duendes e enigmáticos animais que eram afinal homens e mulheres vítimas de encanto (porque, sendo uns e outras ou o sétimo filho ou a sétima filha, não lhes deram os imprevidentes pais o nome de Adão ou o nome de Eva, assim os condenando a vaguearem nas noites de lua cheia por sete freguesias, até que algum corajoso fizesse neles sangue e assim os desencantasse).

As ruas eram pontos de encontro espontâneos, onde se terminava o que vinha do adro da igreja, dos corredores da casa do povo, da matança do porco além, da grande fogueira que se ergueu para queimar o pai das orelheiras aquém, do velório de fulano, do enterro de sicrana. Velhos e crianças, mães ou pais, ninguém desperdiçava a oportunidade de pôr em dia a conversa sobre uma garrafa de aguardente de zimbro que se achou lá em casa, sobre o jogo do pião por vingar, sobre uma camisa linho ou de cambraia, sobre a poda, sobre uns quantos almudes de azeite, sobre a venda de uma turina, sobre vinho para comprar.

As ruas eram por si só uma medida social de difícil quantificação. 

Delas, do mau solão, do péssimo cascalho, das lajes tortas, crescia um ruído honesto de carros de bois a chiar e cascos de animais, o estampido dos tamancos (com as suas tachas salientes), o pregão dos lavradores, o ribombo dos fueiros a cair, o eco da pipa desamparada, o alvoroço, às vezes os gritos, muitas vezes os berros. Nessas ruas morria no mesmo instante em que começava (para gáudio de todos) a correria de um desgraçada que aparecia à esquina, e logo atrás dele, furiosa, sem lhe poupar nos insultos, brandindo uma chibata, a mãe que o ameaçava com a polinheira, com a tareia de criar bicho, com a sova como nunca se vira. Entre essas magras ruas enormes da infância animava-se uma gente que era humana e com tempo, que era próxima e sem máscara, gente que ria, segredava, discutia, negociava, aconselhava, fazia vénia ao senhor padre, sugeria uma mezinha, propunha um defumadouro, essa gente de pele áspera e olhar vivo, pequena, mal nutrida, dobrada pelo trabalho duro, essa gente que foi morrendo aos poucos e de que às vezes me recordo nas viagens, entre laivos de uma dor sem definição, como quem viaja no tempo e se espanta do tamanho da viagem.

A infância habitava as colinas até às nuvens e por elas deslizava até ao bosquezito e aos pinhais e aos pomares, ziguezagueava entre os sulcos que a água tomava nos agros de milho e afundava-se na azenha, no escumar do ribeiro, na parte mais funda, naquela que preferíamos para mergulhar nos dias de calor. A infância nadava connosco e com os alfaiates nos bancos de algas e agriões, soltava gargalhadas triunfantes ao cruzar a pontezinha e seguia, pacificamente, para além dela, pelo meio de outros campos, de outros montes, de outros bosques, de outras aldeias, de outros lugares quietos, até se perder de vista.

A infância era, também, o cheiro da terra. O cheiro da terra revolvida pelo arado, da terra que enxadas diligentes extirpavam das ervas, o cheiro da terra puxados nos sarilhos, trazida de poços abertos, à picareta: um cheiro húmido, alcalino, áspero de terra que se mostrava ainda envolta em raízes e que apresentava, conforme a maior ou menor penumbra de onde vinha, uma cor e uma textura mais e menos surpreendente. A infância era um círculo de compasso sobre essa terra, pois tudo o que fazíamos nela radicava: jogávamos futebol no areão dos baldios, corríamos nos caminhitos rurais e quelhos enlameados, ajudávamos os adultos a semear e a colher nas leiras ao pé dos tanques, entrávamos nas grutas formadas por grandes penedias pré-históricas e argila ocre, saltitávamos nos lameiros sobre alpondras, trepávamos aos montes para nos abastecermos de cascas de eucalipto, et coeteraet coeteraet coetera. A terra estava-nos nas unhas sujas, nas grandes joelheiras barrentas sobre as calças de fazenda, na mochila imunda a pegajar de resina, nos brinquedos que manuseávamos sobre montanhas de salão e areia (era uma época de casas em construção), nas folhas esquálidas do caderno escolar (que com ódio levávamos escrevíamos, entre cinco partidas do jogo do galo), no rosto saudável e repleto de escoriações. A terra fazia parte de nós, estava-nos na alma!

A infância era, sobretudo e em suma, um modo de acontecer. E acontecia, sobretudo, no Natal!

Emociona-me, confesso, pensar nos esplendorosos natais da infância. Nesses ainda a salvo do frémito das luzes, das filas para os centros comerciais, dos cartões de crédito, do cínico vazio das montras cheias, do amor barulhento, sujo e devastador dos presentes espampanantes e compensadores que hoje se oferecem.

Na infância, o Natal era o musgo fresco, limpo e piedoso do presépio. Era o pinheiro alumiado por gastas fitas coloridas, quase sagradas. Era a confissão a que nos obrigava a catequese, o arrependimento sincero das luminosas culpas que rezávamos no ato de contrição, de joelhos, diante do sacrário com a velinha acesa, a quem dirigíamos a súplica de que o Menino Jesus relevasse as nossas fraquezas e nos deixasse uma lembrança no sapatinho (podia ser uma pijama, um par de chinelos, uns sapatos, ou m par de luvas, quem sabe um casaco novo, quente, que envaidecesse a manhã do dia 25 de mistura com as fantasias e o maço de cigarros de chocolate no bolso). E ficava a promessa, a pungida promessa, de ajudarmos em casa a descascar as batatas na Consoada, a desvestir as odiosas cebolas, a quadricular o alho, a vigiar o bacalhau empilhado e de molho no latão da Castrol. 

O Natal era esse vislumbre do feerismo que nos vinha dos criativos anúncios da televisão em formato de animação (propagandeando lotarias, bombocas e camisolas térmicas), essa magia que nos chegava dos livros com ilustrações e edificantes histórias (sobre casas onde ardiam maravilhosas lareiras acolhedoras, acerca de arcas onde luzia um ouro reparador, a propósito de mesas que rescendiam a peru assado, umas e outras – todas – com finais felizes, recolhendo meninos desvalidos e idosos solitários, mulheres doentes e artistas miseráveis à beira do suicídio). O Natal iluminava-nos por dentro, em silêncio, perenemente, ao modo de um conto de Dickens. 

O Natal era ainda parco, belo e veemente!

E talvez isto me diga que envelheci.

Julgo que envelhecemos quando compreendemos que esse reino poderoso nos escapa, nos morre, nos não aceita de volta. Quando nos damos conta (com espanto e dor) que algures na viagem perdemos contacto com a terra, com os cheiros das plantas, com os lugarejos entretanto desfigurados, com os campos que deram lugar a bairros e loteamentos manhosos, que perdemos contacto com os pinhais abatidos (hoje fábricas, armazéns e oficinas), que perdemos contacto com os velhos desdentados (cujo nome e uma vaga fotografia oxidam em lápides), que perdemos contacto com os objetos e profissões que de um instante para o outro se tornaram obsoletos e inúteis, que perdemos contacto com os costumes que nos passaram a merecer reprovação e horror, que perdemos contacto com a inocência que nos despatriou, com o Natal que não reconhecemos e que nos não reconhece mais…

O lugar mais belo do mundo é, sem dúvida, a infância. 

Daqui a cinquenta anos, alguém escreverá o mesmo (com nostalgia atroz) sobre este tempo de agora num tempo porventura irreconhecível, paupérrimo, robótico, numa era holocientífica de nanogadgets, tecnocidades, ciberfamílias, microssentimentos, inumanidade.

Nessa altura (espero) ter-me-á sido reservado o derradeiro descanso, orgânico e natural, recordado discretamente no mesmo retrato oval que agora me comove. E talvez outros se comovam comigo. Será bom sinal, diga-se. Nem tudo estará, então, perdido!

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VOZES DE BURRO

Fotografia: Antonio Grambone
Fotografia: Antonio Grambone

 

No começo da rua Franquelim Pimenta batia na sola dos sapatos com fúria. E era depois de lhes pôr em cima uma camada bastante de cola industrial, de lhes cuspir uma gosma de álcool e de imprecações, enquanto os olhos iam e vinham, conforme o movimento dos pares de pernas das senhoras e raparigas do colégio.

— Minha menina, ai que rico tacão!

A boca tartamudeava, com os pequenos pregos presos nos lábios. Havia quem se zangasse, quem respondesse ao piropo ordinário.

‒ Malcriado!

Mas o aparato de loiras com as mamas ao léu nos calendários e o garrafão meio escondido entre as pilhas de sapatos e chinelos por arranjar, tinha o efeito de um repelente. O Pimenta ficava na sua. As senhoras e raparigas ofendidas na delas. Tudo em ordem. Quem não queria piropo não passava perto da sua lojinha. Que culpa tem um homem de vir ao mundo com um par de olhos, menino?

O estabelecimento do Pimenta ficava na rua dos artesãos, paredes meias com a carpintaria-funerária Campos Elísios, com as máquinas de costura da Dona Eufrásia e com o botequim do Sr. Maciel Bemposta. Um pouco adiante, na mesma rua, havia uma loja de ceras e santinhos, uma padaria, um garageiro, um ourives, um serralheiro e a farmácia. Tudo muito misturado, tudo enfileirado, comércio para as dores do corpo e para as da alma.

Nessa rua aprendi eu a maior parte dos provérbios que conheço. Por exemplo que “Vozes de burro não chegam ao céu”.

O ditado veio, entre outras, da boca do sapateiro. O artista percebia de quase tudo. Quando lhe negavam uma evidência ou o contrariavam razoavelmente, zurrava logo:

 ̶  Sabe vossemecê uma coisa? Vozes de burro não chegam ao céu!

Alguém lhe punha em causa a soma a lápis de uma conta, alguém lhe atribuía um dito de véspera, alguém lhe negava as virtudes dos rebuçados de Régua, alguém lhe falava mal do Sporting, e o Pimenta, apimentado:

 ̶  Sabe o amigo uma coisa? Vozes de burro não chegam ao céu!

 ̶  Está a chamar-me burro?

 ̶  Tem vossemecê orelhas a condizer…

 ̶  Como?

 ̶  Estou a chamar-lhe burro, jumento, jerico!!!

Se a coisa não passava, se a teima ia mais além, tornava-se o insulto de monta.

 ̶  Ó meu grandessíssimo filho da puta, quer você ver como elas se fazem aqui nesta loja?

E voava a camurça de um sapato, um botim de senhora, uns tamancos…

Houve alturas em que me assustei. O Pimenta, esgazeado, ameaçava um cliente, o cliente raspava-se, o projétil cortava-nos – como uma bateria inimiga, a escassos centímetros da testa ‒ a linha fina do horizonte.

‒ Isto, menino, é uma cambada de burros! Não percebem um caralho da vida… Bem me dizia a minha mãezinha, vozes de burro…

A mochila vinha de arrasto, a pontapé. A escola arrasava: reis de Portugal sim; contas de dividir não; verbos sim; prova real não… De modo que sair dos portões de ferro da escola, dobrar a esquina, escutar o sábio calão do Pimenta era uma alegria, uma cura, uma catarse.

‒ Faça-me lá a conta, Sr. Franquelim…

‒ Ora, deixe cá ver: solas, pomada, … ‒ Como está, D. Etelvina? ‒ berrava de súbito cá para fora; … ora, deixe cá ver: nove e quatro treze e dois dezasseis… e vai um ‒ Olá, Senhor Doutor, bom dia! Como passou? ‒ gesticulava; … ora, portanto, e vão dois…

Conseguia até esquecer os ralhos, as ameaças, os puxões de orelhas, a numeração romana. Nada me dava mais prazer do que excomungar a sala de aula, ouvindo e compreendendo o vivo movimento do mundo. Nada como a genica linguística do Peyroteo do calçado, olá para um, vai tu à merda para outro, cuspo e martelo, como passou, Senhor Doutor para a frente, que rico tacão para trás, martelo e cuspo, sempre assim, o dia inteiro, com o lápis (de papel dizia ele) aninhado na orelha…

A didática não tinha fim. Sabia que um dia me faria falta. Ouvia-se até chegar a casa. Sobrepunha-se mesmo ao barafustar da peixeira com a modista, à política debatida entre o funesto loiro da loja dos penhores e o taxista, à voz dos reformados que atiravam a bisca, às vizinhas que cortavam na casava. Franquelim Pimenta era um professor no seu palco. O calão engrossava.

De modo que uma vez disse na aula:

‒ Foda-se, Severo… És um cagarolas!

O Severo queria copiar o gerúndio dos verbos estrugir, burilar, transcorrer (do alçapão benigno da professora saíam verbos simpáticos), mas tinha medo.

Eu, que me dispunha a ajudar, disse com enorme prestígio gramatical:

‒ Foda-se, Severo… És um cagarolas!

Veio a reprimenda. Violenta, eriçada, húmida de saliva. A sala tremeu desde os caboucos até ao forro de cortiça no teto. Respondi-lhe. Aí não se ficou a mão da professa, que me ficou gravada nas bochechas. Cinco dedos, uns dez anéis, um par de estalos de cada lado ‒ certeiros, sapudos, impressivos.

A minha mãe (que certamente me trataria da saúde) pediu desculpa. Aquilo não se repetiria, Senhora Professora…

‒ Que lhe disseste tu mais, meu tratante?

‒ Chorei, supliquei… O que dói uma colher de pau, senhores!

‒ Que disseste tu à professora, meu carbonário?

Deus furioso exigia a verdade.

‒ Fala, bandido! Que disseste tu à tua professora?

Olhos esbugalhados, gritos, imprecações, a promessa de que o meu pai ia saber de tudo… Considerei. Vacilei. Já chegava de pancada.

‒ Vozes de burro não chegam ao céu…

‒ O quê?

‒ Foi o que eu disse à professora, mãe – confessei por fim, imerso em ranho…

‒ Ah, meu maldito…, meu macareno… Ai, que eu mato-te!… – disse a minha progenitora à beira de uma síncope, enquanto eu fugia, enquanto eu me atirava pela janela à rua, enquanto eu fugia também deste lado da guerra, para procurar abrigo, algures, a meio da terra de ninguém, nalguma trincheira…