Foto: Carlos Lopes Franco
Foto: Carlos Lopes Franco

Há em todos nós um campeão, um campeão verdadeiro e irredutível, um campeão invencível, para lá dos trastes que nos tornámos (ou nos tornaram), um campeão de calções e berlindes no bolso a olhar pasmado o capador de porcos com a subtração orgulhosa ao alto, um campeão de ditados e contas de dividir, de lágrimas e joelhos esfolados, a correr pelo meio de carreiros de tojo, atrás das melhores cascas de eucalipto para fazer ventoinhas

(alguém acredita que duas casquinhas cruzadas de eucalipto e um pauzito a meio, a intersecioná-las, davam duas horas de brincadeira?),

um campeão cheio de resina no cós e lama nos sapatos, de cabelo muito macio, loiro, atrevido até, sonhando com minas e cisternas abandonadas, a cismar de boca aberta e com um fio de baba a sair-lhe sorrateiro no aspeto que teria um gambuzino

(“vê lá se te apanha um gambuzino!”),

rindo de um riso inequívoco e belo, de um riso maravilhoso com dentes incisivos em falta, de tudo o que fosse inseto e passasse pachorrento pelo meio das mãos,  das lagartas peludas aos lucanos 

(as célebres “bacaloiras”), 

mãos que se intrometiam nervosamente (às vezes, desajeitadamente) nos ninhos dos pardais e se comoviam com o ar esgrouviado dos pintos acabados de nascer, rindo de um mundo que era então muito mais do que tempo e espaço, réguas relógios, um mundo em que tudo se fazia a direito e pelo direito, sem pressa e sem ânsia, apenas pelo prazer de se descobrir e viver.

Há um campeão aí. Um campeão que se está a rir de nós, daquilo em que nos tornámos (ou nos fizeram tornar), um campeão de nariz moncoso, a rir do tipo de ar fino e voz melodiosa que abre a porta de nossa casa e atende o nosso telefone e responde a cada frase com um “Certamente, sôtor!”, um campeão que vem de muito longe e se ri da mulher (das crianças) diante do movimento de acrobata da aranha que desce do estuque

(“Jorge! Tira-me essa coisa daqui! Tira-me essa coisa daquiiiiiiii!”).

Esse campeão, esse rosto cheio de segurança, de cinco anos, a ajudar a chamuscar o porco, a raspar-lhe o pelo com uma faca velha, afiada numa correia de cabedal. Esse campeão do sarrabulho e das sopas de vinho, a correr outra vez pelo meio dos pedregulhos e das urzes, saltitando como um animal montês, caindo e pondo-se em pé numa fração de segundos, com o coração aos pulos, atrás de grilos e joaninhas, a cantar “Lá em cima está o tiro-liro-liro”

(“Lá em cima está o tiro-liro-liro,  ⁄  Cá em baixo está o tiro-liro-ló…),

é nele que eu penso agora, como num santo protetor, a quem pedisse a especial graça de me sacudir o torpor, de me afastar as ideias amaneiradas, de me exorcizar o mau-humor, de me endireitar as costas vergadas pela escoliose e pela deceção, de me fazer olhar em profundidade a paisagem, sem metafísica (como o Caeiro), feliz apenas, intacto apenas, vivo apenas

(Há quanto tempo não olho uma paisagem como deve ser!).

O tempo pega-se-nos. Apaga os campeões. Avilta-nos. Tão limpos e exatos, tão politicamente precisos, e polidos, e doces neste ar de eunucos de fato e gravata

(Querido, não te esqueças do jantar dos Croft! Doutor, a reunião com o Secretário de Estado ficou marcada para as dezassete! Jorge, estás proibido de faltar ao meeting amanhã à noite!).

O tempo arrasa. Aboneca-nos. Faz de nós marionetas, uma espécie de homenzinhos de palha para me servir de Eliot

(Jorge, não acho nada bem que andes a falar aos nossos filhos dessas pinderiquices de quando eras garoto!),

torna-nos uns velhacos, uns frouxos, incapazes de defender o sagrado quinhão da nossa memória mais acesa

(Vê lá, comporta-te, querido, não dês azo a selvajarias cá em casa!).

E, no entanto, o campeão continua inteiro. Não cedeu só um milímetro. Transpira por todos os poros a saúde indefetível dos seres que se não vergam, se não envergonham, se não deixam subornar, boicotar, asfixiar pela cobardia

(Estás cá, querido? Vais ao menos a prestar atenção ao volante?),

a correr, a foçar entre os taludes, a agarrar répteis e pássaros distraídos, a observar com minúcia operações e cerimoniais de matadouro, a comer e a beber rijamente feliz, indestrutivelmente feliz, como quando a prova dos nove confirma um cálculo, como quando o coro das meninas ergue brados ao ar, como quando a funcionária em seu auxílio avança com uma vassoura em riste, e nós fugimos, e nós rimos, e nós sentimos o prazer indizível de missão cumprida…

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