Foto: Jacek Komorowski
Foto: Jacek Komorowski

Dificilmente cabem na nossa memória coisas tão importantes como as que nela entraram pela porta enorme e pelas frinchas da infância, coisas tão vagas como aquela vez em que nos puseram em cima de um triciclo no jardim relvado para fazer uma foto artística, ou tão profundas e inesquecíveis como aquela outra ocasião em que um avô nos acordou de madrugada e nos levou consigo à pesca, no rio.

Diga-se que era um rio enorme, fumegante, rodeado de incontáveis variedades de árvores caducas e de pinheiros, onde havia uma pontezinha antiga, ao estilo romano, bem como uma azenha, já com a sua roda e rodízios bastante desgastados. Essa ida à pesca ficou-me gravada de tal modo nas profundezas do meu ser que posso ainda agora, sem grande prejuízo de sentimentos ou esforço de cabeça, recuperar o estilo da cana, as galochas verde tropa o cantil, o barrete e toda a panóplia de minudências usadas para apanhar as trutas: os carretos suplente, os anzóis coloridos, a caixinha com a linha ou o engodo, diga-se uma pequena lata com vermes repelentes, que eram a delícia da pequenada…

O rio, que hoje não é tão enorme, não é sequer grande, exceto nos dias de inverno, em que ganha alguma da antiga expressão assustadora, já não tem pescadores nas suas margens. Aconteceu-lhe a desgraça das fábricas de tintos e dos campos de cereais, que o empestam de químicos e de outras impurezas nauseabundas. Não há peixe que sobreviva a tamanho aviltamento, nem gente capaz de protestar comigo contra os novos empresários de cinco à coroa, quando a convoco a protestar na rua, ou a pedir contas ao Ministério do Ambiente. Vermes mais asquerosos do que de antigamente ocupam lugares poderosos, contra os quais pouco se pode fazer. E, assim sendo, deixou de ser possível recuperar a idílica imagem de avós e netos juntos, enfrentando o frio da manhã, conversando intimidades e esperando pacientemente o momento de triunfo em que um corpo prateado vem morder o isco e dar luta até emergir por fim às mãos experimentes do maior herói que pode haver em nossas vidas!

Havia uma mítica ressonância associada à palavra truta! Apanhar uma truta era o mesmo que ver o capitão do Benfica levantar a Taça no Jamor. Era mais do que isso. Era ver confirmados os méritos desse velhote que dava lições de vida e percebia um pouco de tudo e que nunca falhava: em segredo rezava para que não falhasse, sem ele perceber, exatamente como um adepto fervoroso reza na bancada para que a sua equipa não o deixe ficar mal… Depois, quando regressávamos os dois a casa para o almoço e com o poderoso peixe nas mãos, garbosamente em riste, vinha todos ver bem “o que era pescar!”

— Temos aqui homem! Temos aqui homem para a cana, sim senhor!» – repetia o avô, pondo-me a mão nos ombros, para me gabar os méritos de ajudante e a vocação de pescador domingueiro.

Mas ajudante era-a também noutras coisas, a bem dizer em tudo. E quando a ajuda não me era pedida, forçava eu a que ma aceitasse ele, até mesmo quando se tornava um estorvo de tão solícita. Porque empoleirado lá no alto, a podar, ou a bater nos aros de alguma pipa, muito concentrado na sua tarefa de agricultor e tanoeiro, via-se o ancião a braços com a ferramenta que eu lhe surripiava, de tanto querer imitá-lo. E era então uma pachorrenta irritação apelando a minha avó que tomasse conta de mim.

— Maria Amélia, Maria Amélia!…Leva-me daqui o dianho do moço!…

Preciso de explicar, em respeito à verdade, que na casa velha, pulando e correndo, entrando e saindo pelas portas quase nunca fechadas, trepando pelos bardos ou lurando ervilhais havia não um mas um bando de diabos! Éramos com efeito meia dúzia de primos nascidos na mesma altura, que punha em alvoroço a bicharada das cortes, os galinheiros e a mansa passarada no meio dos campos… Minha avó, já então a contas com a artrose, incapaz de suster tanta ruína de cultura e o cacarejo histérico ameaçava de longe com o pau da bengala:

— Anda, meu mafarrico… quando te apanhar, vais tê-las todas juntas!

Ou, então:

— Quando a tua mãe vier, vais tê-las certinhas. Ai vais, meu bandido!

Raramente havia o ajuste de contas prometido, talvez por alguma falta de memória, aliada à perda de destreza locomotora. Ou talvez porque passada a violência do crime, num estardalhaço de ovos partidos ou cebolinho arrancado, viesse o ato de contrição. Lá ia o réu, de orelha baixa, guardando ao pau alguma distância prudente, pedir perdão.

— Ó Vó, desculpe!

— Anda aqui, moço, que eu não te oiço bem!

— Não vou… que você bate-me!

— Meu manca-mulas, vais apanhá-las! Vais apanhá-las certinhas… É como dois e dois ser quatro!

Escuso de explicar que todos juntos, ou dois, ou três sequer, fazíamos guerra à paciência de um santo. Porque dois, ou três, ou todos juntos, parecíamos magnetizados por uma criatividade facínora que nos escapava em estando sozinhos. Não era propriamente raro algum vizinho vir dar sinal lá em casa do netinho que se havia guindado a um ramo de pinheiro, ou que fora comprar um maço de Definitivos à tasca de Porinhos. E era aí um ai-jesus, com muito e bem aplicado puxão de orelhas, respetiva notificação aos progenitores e consequente bofetada da grossa! Porque, repito, todos juntos éramos o diabo em cuecas…

Guardada nessas memórias, como num estojo de mogno, resiste uma das mais pícaras peripécias que é possível narrar. O meu leitor divirta-se com ela.

Minha tia Alexandrina fazia parte dos zeladores da paróquia, assistindo-lhe entre outras tarefas a de ir buscar religiosamente todos os sábados de manhã o reforço das hóstias, que deveriam ser consagradas e oferecidas no serviço religioso do fim de semana. Era um tupperware cheio delas, embrulhado num pano carmim de veludo, que ela depunha no aparador cuidadosamente, longe do nosso olhar, ao lado do terço de madrepérola e do seu missal de bolso.

Ora deu-nos do mafarrico a infeliz ideia de irmos destapar o tupperware, esvaziar o recheio e alimentar uma carnavalesca missa, celebrada na cozinha de lenha pela minha prima Madalena. Para improvisar os sagrados ícones, demos olhadura em volta confiscando tudo o que se parecesse com eles, desde um castiçal a um caneco de alumínio, ligeiramente assemelhado ao cibório que havia lá na Igreja. A missa durou e durou, com a chusma de pecadores percorrendo de joelhos o soalho e respondendo, como se a coisa fosse a sério, ao blasfemo convite da comunhão, para mais untado de Tulicreme, para ter mais graça:

— Corpo de Cristo?

— Amém!

Estranhando o nosso coletivo silêncio e sempre agarrada à saudosa bengala, assim nos foi a avó a todos encontrar…

Dispenso de adiantar conclusões, como a feia descompostura de nossa Tia, ou as bofetadas, ou o castigo de ir detalhar tudo ao senhor padre em confissão (que tapava os lábios e enchia as bochechas coradas, cada vez eu que lhe explicava de novo a ideia do Tulicreme), ou a proibição expressa de mexer no que quer que fosse da tia Alexandrina, de resto a única que não contribuíra até aí (nem mesmo depois daí), com qualquer rebento seu para o nosso vistoso e conhecido grupelho de traquinas…

Dificilmente cabem na nossa memória coisas tão importantes como as que narrei. E passando por elas, tão de leve quanto é possível passar os dedos por velhas folhas de cartapácio, sinto crescer desta saudade uma inexprimível luz de vida e de amor, só possível divisar com a distância e com a adultez. O meu leitor saberá do que falo, não o duvido, e por isso me compreenderá esta alegria triste, de pessoa que olha e não vê, procura e não encontra, e no entanto e no entanto encontra, como numa miragem ou numa alucinação…

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