Pascual Nuñez
Foto: Pascual Nuñez

Se algum lugar mítico se conserva em casa dos meus pais, esse lugar é o sótão. Aí, mesmo debaixo das telhas, sob as traves de madeira, onde a luz elétrica nunca chegou e onde aranhas solitárias cortinam o silêncio, sobrejaz uma multidão de caixas com candeeiros, tapetes e livros de costura (pesados tomos de capa dura sem qualquer préstimo), faianças e um antigo aparelho de radiofonia. Mas aí, no meio da escuridão, onde os anos fizeram queimar cotos de vela e fósforos, resistem, também, sobretudo, as coleções! Calendários, porta-chaves, discos de vinil, pósteres (do Benfica e da Seleção, dos Pink Floyd e dos Pearl Jam), revistas das Seleções do Reader’s Digest e do Tio Patinhas. Aí, aonde sobe a luz da lanterna, como Cousteau descia com ela ao fundo dos oceanos, o tesouro principal são as lendárias malas dos brinquedos, as que guardam os espécimes adorados da infância e, agarradas a eles, as melhores memórias!

Tudo passou depressa daí em diante: cresceu-se; foi-se para a universidade; estudou-se Trubetzkoy e Martinet; discutiu-se Sartre e Camus entre imperiais e pires de tremoços; obteve-se o canudo; passou-se a cirandar pelo país, ensinando a putos malcriados aquela mesma disciplina que em miúdo se detestava; passou-se a dizer mal do Governo; escreveu-se um ou uns quantos livros; plantou-se uma árvore ou um bosque delas; viajou-se pelo estrangeiro; amou-se, sofreu-se e voltou-se a amar; de repente há uma criança magnífica em casa e alguém pergunta «O que é feito dos teus brinquedos?». E é então que a escada de tesoura regressa.

Durante anos, a entrada para o sótão (pela dispensa) foi-me vedada. De maneira que quando à sorrelfa penetrei pela primeira vez esse ambiente, onde o depósito da água e respetivas tubagens tomavam o aspeto de uma máquina cardíaca, fiquei atordoado com o recheio dos misteriosos caixotes. Era apenas um garoto surpreendido com o lugar menos visitado da casa. Mas esta tarde, ao encavalitar-me no estreito suporte que me levou de novo ao alto, senti o que sente o arqueólogo, quando ao escavar obstinadas camadas de saibro e de areia se vê confrontado com objetos que compõem toda a história do tempo. Senti o que se sente algures numa cave ou numa arrecadação, quando se reconhece e recupera em simultâneo pedaços da pessoa que fomos aos cinco, aos dez ou aos vinte anos. Senti a forte comoção que enche decerto de mágoa e de felicidade a palavra saudade, mas que é mais intensa do que ela, porque é o abalo de um reencontro – com (o toque, com o cheiro, com a textura de) objetos misteriosamente subtraídos à nossa convivência e de chofre, agora, caoticamente, resgatados da penumbra e do pó. Ocorreu-me que, ao cabo de tanto tempo e de tamanha distância, a vida paradoxalmente talvez nunca tenha existido fora do mesmo instante e do mesmo lugar onde desfilam cubos de rubik, ursos de peluche, automóveis de corrida, pistas de comboio, puzzles e conjuntos de legos

Cada uma dessas miniaturas da fórmula 1, cada camião, caterpílar ou carro dos bombeiros, cada jogo de tabuleiro (do Monopólio do Topo Giggio), cada jogo de cubos (em especial, o da Branca de Neve e dos Sete Anões), cada avião e cada paraquedista, cada soldado de chumbo e cada replicazinha em pvc do Dartação e respetivos colegas Moscãoteiros, cada tambor ou viola de plástico, cada ferramentazinha de metal e madeira construída pelo meu pai (sobremaneira invejadas pelos outros fedelhos da rua, por não haver quem tivesse joguetes iguais), cada um destes maravilhosos objetos transporta com extraordinária precisão os dias passados, os amigos, as conversas, as fantasias, os recantos onde em tardes pachorrentas, depois das aulas ou no verão, nos juntávamos para brincar. Cada um desses objetos foi personagem das fantasias que púnhamos em marcha na terra batida, na areia ou nos jardins da vizinhança, de onde se elevava o aroma da relva cortada e que para sempre me obrigou a associá-lo ao insuperável fascínio dos anos 80, quando as férias grandes iam de junho aos começos de outubro, e quando havia a extravagante liberdade de andarmos na rua até a noite cair ou os berros da mãe de um e de outro nos chamarem para o jantar. No verão, ao crepúsculo, a rua era disputada por grupos de meninas que riscavam os quadrados do jogo da macaca, e pelos rapazes que a riscavam com o formato de um campo de futebol. Não poucas vezes, a insuficiência de jogadores de um lado ou do outro motivou curiosas misturas, como sucedia com as canções de roda (em especial, com a «Fitinha Azul» ou com «A Borboleta Branca»).

Empolgavam-me a cabra-cega ou o jogo dos cowboys, o jogo da caça ou o esconde-esconde. Quando éramos poucos, entretínhamo-nos com um humílimo o jogo do galo ou com os berlindes. Não me recordo naturalmente de todos os jogos em que participei ou do nome que lhes dávamos. Mas recordo-me da miudagem algazarrando rua abaixo, rua acima, ocupando as casas em construção, encontrando esconderijos nos sítios e lugares mais bizarros, dessa miudagem que se procurava sem medo, rancor ou manias, que partilhava com a mesma alegria um carro telecomandado (recebido de um tio de França) ou um simples carrinho de linhas, daqueles de madeira, que as mães gastavam no tempo em que as mães ainda sabiam usar a agulha e o dedal…

Tristemente estes jogos, essa miudagem, aqueles dias encantadores desapareceram. Primeiro devagar, depois tão depressa que mal pude compreender como se desmoronava o melhor dos mundos.

Ao descer as terríveis escadas em V perguntam-me risonhos se sempre encontrei os meus brinquedos. Uma estranha perturbação impede-me de responder, de compreender sequer o que seja encontrar um tal tesouro. Se pudesse; se houvesse um tal primeiro prémio de lotaria; se me fosse dada a oportunidade de trocar tudo o que conquistei por um regresso, ainda que breve, a tais dias distantes… «Sim, sim, sim… os brinquedos estão bem guardados. Melhor é que assim continuem, onde e como estão»!

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