Na cabeça enviesada de um doente passam-se coisas inexplicáveis, coisas como decerto as que descreve o senhor Brás Cubas nas suas Memórias Póstumas, labirínticas coisas que são o eco da batalha entre o devaneio e a razão, que é como quem diz entre a febre e doses cavalares de ben-u-ron. Por qualquer motivo da …
Das brincadeiras e dos brinquedos que nos ficam
. Se algum lugar mítico se conserva em casa dos meus pais, esse lugar é o sótão. Aí, mesmo debaixo das telhas, sob as traves de madeira, onde a luz elétrica nunca chegou e onde aranhas solitárias cortinam o silêncio, sobrejaz uma multidão de caixas com candeeiros, tapetes e livros de costura (pesados tomos de …
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O mais puro amor entre todas as formas possíveis de amar
. E de um momento para o outro damos connosco a embalar uma bebé nos braços, recuperando velhas canções esquecidas e antigos berços de madeira, reaprendendo tarefas tão simples como uma muda de fraldas ou lidando com outras bem mais complexas, como a gestão do tempo ou a míngua de horas de sono. Porque quando …
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Coisas de fedelhos
. Dificilmente cabem na nossa memória coisas tão importantes como as que nela entraram pela porta enorme e pelas frinchas da infância, coisas tão vagas como aquela vez em que nos puseram em cima de um triciclo no jardim relvado para fazer uma foto artística, ou tão profundas e inesquecíveis como aquela outra ocasião em …
Ingrid, alguma verdade é ainda possível
. Ao entrar no aeroporto de Arlanda, de regresso a Paris, pude constatar uma vez mais o primoroso sistema de organização de transportes sueco. Em muita da sinalética espacial lê-se a palavra hub, que significa grosso modo coração de uma rede de comunicações, viárias, aéreas, marítimas, mas no caso também digitais, cibernéticas, por satélite. Os …
Tango
. Na penumbra do salão, o rosto procurado regressa do meio das sombras. Não tens mais de vinte anos, tempo de juventude destilado na minha própria alma desavinda. É por ti que venho, hoje, ontem, noutras noites. Rosto de quem sabe ainda sonhar, de quem pode existir a salvo das rodas dentadas do relógio maldito. …
Na mesa de trabalho
. Na mesa de trabalho cabem agora somente objetos imprescindíveis. Um dicionário atualizado, a Bíblia, cadernos de sebenta, uma lapiseira e algumas canetas de pincel (de tinta preta), um cinzeiro (com a função exclusiva de pisar papéis) e um volume de poemas de Tomas Tranströmer, no lugar que foi já de Elaine Feinstein, Salah Stétié, …
Passear o cão
. Saio com o cão. As noites são agora demasiado longas. Descemos a avenida sob o halo mortiço dos postes elétricos. O ar frio volteia sob o foco das luminárias, penetra cada poro do casaco. Bela fotografia: triste, mas bela. Ao fim da tarde repetimos o caminho. Ele farejando com avidez não sei que imponderados …
Dois livros
. Em casa havia pouquíssimos livros. De modo que a chegada misteriosa desses dois fez da minha vida um milagre de conversão, ela que se destinava aos fornos de uma padaria: refiro-me ao primeiro tomo da História Universal de H. G. Wells (edição Livros do Brasil) e aos Contos da Montanha de Miguel Torga (uma …
Fazer versos
. Metade da minha turma reprovou no final do 5.º ano. Éramos uma turbamulta pouco polida e mal preparada intelectualmente. Eu escapava. Quem o dizia era o Padre Lobo, professor de Religião e Moral. Mesmo assim fui obrigado a pedir desculpa, diante de toda a classe, e em pé, sobre o estrado, à professora de …
Isto é poesia
. Quantas vezes me apeteceu escrever um poema e não pude! Quantas vezes a rotina da profissão se entrepôs entre mim e o silêncio, entre mim e o caderno! Quantas vezes algo semelhante a uma fome veio roer-me por dentro, angustiar-me, espicaçar-me e (sem que o soubesse porquê, sem que pudesse saciá-la) obcecar-me como a …
