André Kertész(Mauna Kea, Kmuela (Honolu), 1974)
Foto: André Kertész

Quantas vezes me apeteceu escrever um poema e não pude! Quantas vezes a rotina da profissão se entrepôs entre mim e o silêncio, entre mim e o caderno! Quantas vezes algo semelhante a uma fome veio roer-me por dentro, angustiar-me, espicaçar-me e (sem que o soubesse porquê, sem que pudesse saciá-la) obcecar-me como a voz de um chamamento. É dessa fome que eu falo, da poesia, do prazer daqueles instantes de invenção no tampo da secretária, do rumorejar da caneta de aparo deslizando sobre a folha. Enternecimento este comum aos que escrevem, aos poetas sobretudo…

A poesia imita de muito perto os batimentos e o ritmo da própria vida. Compreendê-la significa em grande medida compreender a natureza do homem, o mistério do mundo, a ontologia das coisas. Alguém há muito a cotejou com um diamante, um que fosse apenas reconhecível pela sensibilidade e pelo talento dos que por hábito delapidam diamantes iguais.

Por outro lado, a poesia é árdua, muito pouco definível, complexa de mais para que possa ser um objeto ensinável ou explicável, ou consumível! Não só mas também por isso verificamos a fraca relevância do texto poético no mercado editorial, onde os grandes romances, ensaios e reportagens (para não falar de outros) passam das montras às mãos do público leitor como navios descomunais, num oceano onde somente um ou outro livro de poesia incontornável granjeia medir forças.

Também não é isso o mais importante. Quem se devota a esta arte, quem a escreve, quem a lê, quem a edita, apega-se menos ao corrupio dos mercados do que à ebulição surpreendente e única e avassaladora das palavras. A poesia é “isto”, o requinte de um dizer na corda bamba, para alguns não-entendimento, para outros a linguagem (ou a língua) que melhor exprime as pulsões do homem, a que oferece o campo mais vasto de visão e descoberta.

Sejam bem-vindos os que não desistiram, os que não desistem, de amar a soberana disciplina do pouco, da palavra olhada sem rodeios, da mensagem legível na mais pura nudez do mecanismo triangular da boca, da cabeça e do coração.

Prefácio meu à antologia Isto é Poesia, Labirinto (2004)

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