Walking the dog (Jeroen Oosterhof)
Foto: Walking the dog (Jeroen Oosterhof)

Saio com o cão. As noites são agora demasiado longas. Descemos a avenida sob o halo mortiço dos postes elétricos. O ar frio volteia sob o foco das luminárias, penetra cada poro do casaco. Bela fotografia: triste, mas bela. Ao fim da tarde repetimos o caminho. Ele farejando com avidez não sei que imponderados sinais, eu buscando restos de pensamentos e meditações de outras idas.

Terminado o alcatrão, entramos em linha reta pela direita num lugarejo onde sobem altos muros de pedra, sobre os quais se mantêm de pé os ferros das ramadas. Formam sobre as nossas cabeças uma armação quadrangular. Estamos na terra batida. As fontes de luz rareiam, mas aumentam em contrapartida as bátegas de névoa e com elas o doce cantar da água. Brota do alto, do cano enferrujado que sobressai de uma pedra talhada, espécie de fontanário, sobre um tanque encalacrado entre as paredes de duas casas antigas; depois flui constante ao longo de estreitos canais formados no meio de compridas lajes paralelas. À superfície nada-lhe uma cama de musgo e nenúfares. Um recanto antigo, palco noutros tempos de idílios entre lavradores e belas moças com cântaros à cabeça.

O cão conhece o caminho. Embrenha-se já na mata, num pequeno bosque que precisamos de atravessar. Galgo a pedra que divide as propriedades, no ponto de interseção dos quatro pontos cardeais. Outrora chamavam-lhe portelo de cão, aonde acorriam almas inquietas com o braseiro dos defumadouros com que exorcizavam maus-olhados e bruxedos. O som da água vai-se tornando mais distante, substituído pelo quebrar dos galhos debaixo das botas. Preciso de avançar com a lanterna em riste para não tropeçar nos sulcos profundos desenhados pela chuva na terra ou para evitar os destroços de carvalhos, faias e olmos. Há raízes emergindo, nodando formas bizarras, serpenteando o fino carreiro por onde paulatinamente nos perdemos…

Nilo fareja, corre com euforia, dispensando os rigores da visão. Estamos no meio do silêncio e do negrume. Nenhuma casa ou luz humana se vislumbra ao redor. Por momentos apago a lanterna. O frio é intenso, físico, atravessa-me os ossos, ascende em colunas de nevoeiro desde o regato mais ao fundo. Como num sonho, sinto-me entregue ao reino das sombras e dos elementos. Observo o céu. Perco-me na amplitude das constelações que se revelam num recamado de metal argênteo. Libertas do ruído de outras candeias menores, as constelações chegam em cachos cósmicas, poalhas suspensas no firmamento como pequenos cristais sobre um tapete negro de veludo. Sempre me pareceram mais limpas e lídimas as estrelas nestes meses do gelo.

Alarmado ou apenas curioso, Nilo regressa. Convida-me a prosseguir jornada. O bafo que lhe sai da boca é veemente. Espanta-se da minha quietude, do meu êxtase, da ausência de movimento. A lua, reduzida a uma fímbria de claridade, atravessa a silhueta óssea das árvores. Em algum momento das nossas vidas já vimos algo parecido. Doem-me as extremidades dos dedos e do nariz. Como num sonho sinistro, imagino o abraço monstruoso destas assombrações, do esqueleto formado pela articulação de todos os ramos descarnados procurando agarrar-me e reduzir-me à escravidão de criança surpreendida pelas criaturas da noite. Um arrepio devolve-me ao tempo e ao espaço.

Acendo de novo a lanterna. Acicatado por Nilo, forço um andamento rápido. Junto dos castanheiros a água fumega. Através da folhagem rasteira de campos devolutos, o animal corre como um louco soltando roncos de perdigueiro. Aqui a humidade é mais álgida ainda, mais negra a escuridão, mais lamacento o areão que pisamos. Mas os cheiros são também mais puros, mais soberbos, mais vívidos, mistura de excrescências silvestres e agrárias com o odor das folhas em decomposição. Estamos no meio do nada. Um quilómetro atrás, um quilómetro à frente generosas lareiras fazem subir aos telhados a malha esbranquiçada do fumo. Dentro das casas aquecidas, das cozinhas rescendentes, dos quartos calafetados e atapetados, onde o ecrã luminoso de pequenos retângulos de tecnologia apurado conectam este mundo a todo o mundo, a civilização prospera. Mil metros de distância… Mas aqui, junto à vetusta azenha desmantelada (de que sobram ao alto, até ao lintel, as pedras de granito onde a hera principiou há muito o entrançado do seu vagar), aqui no mais prístino silêncio dos campos, dos choupos, do funcho, das hortelãs, aqui onde as corujas perseguem já ratos ocasionais, aqui estamos em pleno século XIX. Sou de algum modo o último herdeiro consciente de uma civilização que se reproduziu, floresceu e declinou, última testemunha de um tempo que se fez lívida reverberação de fantasma diante da lanterna.

Os meus antepassados aqui nasceram, viveram e morreram. Guerras se aproximaram e eclodiram, armistícios se assinaram, viagens lunares e inventos extraordinários foram notícia e mudança na sociedade dos homens. Grandes artistas e pensadores impuseram novos paradigmas de beleza e reflexão nos dois séculos que me separam deste silêncio de aldeia. Mas aqui, nesta ilha que o progresso esqueceu e marginou, tudo permanece, tudo como o veria o meu tetravô moleiro a esta mesma hora, quando por uma corda conduzisse as mulas ajoujadas de sacos de farinha. Tudo igual, ou apenas mais envelhecido, e mais silencioso, e mais espetral.

O corpo treme-me de frio, mas resiste. Porque há dentro dele um fio de consciência que sabe estar a assistir a algo único e raro como seja o derradeiro suspiro de um tempo prestes a ser aniquilado pela força brutal e irreversível de outro tempo. Todos os meus mortos me acenam dos confins aonde os levou a morte. E, por isso, é belo e doloroso atravessar este pensamento todos os dias, todas as noites, com o meu cão. E, por isso, é doloroso e inconsolável regressar ao alcatrão, ao frio elétrico de todas as veredas e estradas que se avolumam para cá da casa extinta dos lavradores, onde o óxido e o silêncio selaram para sempre amplos portões de ferro.

Nilo volta. A noite é agora profunda. Volta para me resgatar ao meu próprio abismo, à espiral suicida de todas as galáxias que torvelinham na minha alma. Traz-me de volta a casa, segurando-me pela trela, ofegante e com a língua de fora, vencido pela sede e pelo cansaço, vencido pelo esplendor da revelação. Sim, as noites são agora demasiado longas. Demasiado. E ninguém, absolutamente ninguém, pode entendê-lo.

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