Estamos quase, filho!

family day
Fotografia de Samanta

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Daqui tenho da cidade uma visão ótima: ao mesmo observo-lhe os céus, as torres das igrejas, os telhados, as águas-furtadas, as luzes de conjunto (as que emanam das lâmpadas dos semáforos e das montras, dos campanários e dos holofotes dos grandes edifícios do Estado, dos faróis dos carros e dos postes elétricos); e observo-lhe os becos, a pacatez de uma ou duas travessas mais próximas e mais escondidas, a escuridão que cai sobre o pavimento e sobre as acácias, os lanços de escadas que compõem os labirintos (como num desenho de Escher) e por onde sobem e descem, assim sucede agora mesmo, mães com filhos ao colo.

Os meus olhos voam para esta ternura. No empedrado ecoam as solas de uns botins e a mulher de sobretudo preto que os calça aperta mais o cobertor que envolve a sua criança.

– Estamos quase a chegar, filho!

Novembro está prestes a terminar e é este vapor. Mal o sol se põe, ele cresce dos canaletes e avança até à soleira das portas, engolindo os gatos e os tapetes de rua, fazendo mais misteriosa a aparência das esquinas seguinte e anterior, tornando extraordinário o gesto de rodar a chave na ranhura e de entrar em casa.

– Já estamos, filho! Já cá estamos!

Daqui é-me mais saudosa a alegria das horas nos sinos. Tocam as Trindades, repenica-se o som, que começa a lembrar o Natal. No colo da mãe, a criança aconchegada, protegida, acalentada, vê e escuta e sente a mutação destes dias de quase inverno que o são já. Ainda há instantes o fascinavam o efeito de neve nos vidro da loja de brinquedos, o vivo das cores misturadas nas butiques e retrosarias (dourados e vermelhos, o azul de um estrela no cocuruto de um pinheiro, os prateados e alaranjados e verdes, as fitas e laços e pais natais e presépios que surgem nos recantos), os néones nos mercadinhos de bacalhau e nas pastelarias. Tudo mais belo, porque contrastante com o húmido dos passeios e o bafo esforçado das bocas silenciosas.

– O Menino Jesus está quase a nascer, sabes?

Há, apesar da soturnidade do frio, algo que faz encontrar os transeuntes consigo mesmos. A criança, bem embrulhada, gosta desta sensação que principia a reconhecer, mesmo não a compreendendo.

– E ele vai trazer-te uma prendinha!

Se não estivesse tão rouco, se não lhe doesse tanto a garganta, se lhe não soubesse tão bem esse cómodo abraço da mãe, esse silêncio entrecortado por frases repletas de feerismo, talvez lhe perguntasse «O quê?», «O que me vai trazer o Menino Jesus?». Mas hoje só lhe apetece chegar a casa, sair do espaço fumegante e gélido onde os passos da mãe soam expostos e desamparados. Hoje só quer encontrar as boas paredes de sua casa, dentro das quais se sentirá seguro e segura a mulher que o trouxe ao mundo.

É tarde. Novembro está no fim. Daqui vê-se tudo. As imagens surgem duplicadas, como num filme, como numa história que corresse somente nas retinas próprias. Tenho, por isso, de guardá-lo para mim. Nem podia ser de outro modo!

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O domingo está prestes a fechar

Lars van de Goor
Fotografia de Lars van de Goor

Apresento-me à entrada do bosque como fiz durante anos por esta altura. O cão segue-me, farejando com o contentamento eufórico deste regresso dos dois a um lugar de ambos.

O bosque é o mesmo e é outro. A nostalgia faz crescer em cada uma destas grandes árvores uma sombra mais triste. A ausência parece irreparável, como se em mim algo me não perdoasse os muitos dias perdidos, a indiferença, o envelhecimento.

Já quase é noite. Convém a intrusos como nós que assim seja. Vimos saquear o ar frio, tomar de assalto a terra húmida, esmagar o corpo inteiriço das bolotas num horror de insetos esmagados, invadir junto com o alvoroço das gralhas as mesmas neblinas que descem até ao rio, até às ruínas do moinho onde tantas vezes a lua me pareceu arder sozinha num poema por escrever.

Sou um melancólico, assumo.

Vou atrás do Nilo. Ele saberá guiar-me pelos mesmos lugarejos musguentos de outrora. Quem sabe, mediar a reconciliação do homem com o espaço. Sigo-o sem uma fala, como um penitente, arrependidíssimo. É domingo e eu fujo, fujo de mim mesmo, vazio e repleto, voltado do avesso, entrando num lugar onde a lanterna mal alumia e tudo é uma luz.

Acabei um livro, venci uma doença, ensinei a uma fornada de alunos mais, amei e fui amado, amo e sou amado, vejo à minha volta o contorno de cada coisa e de cada pessoa, reconheço em mim o poder de fazer mexer algo, de empurrar um ramo, de pontapear uma pedra, de ultrapassar um regato ou uma lamaçal. E, no entanto, sinto-me um saco vazio, uma boca e um ouvido escancarados para o abismo, um par de pernas e de pés caminhando num modo de autómato para o negrume.

Sou um lamechas, admito.

Neste preciso ponto da caminhada, acocoro-me para erguer uma folha de carvalho: o halo incide sobre as nervuras, os dedos seguem o recorte, percorrem cada uma dessas linhas radiais, regressam à grande estrada ao centro. Centenas de outras folhas iguais, de um tom indeciso (vermelhas, douradas, castanhas, alaranjadas) cobrem o chão e são cobertas pela líquida itinerância dos vapores noturnos. E eu penso que todas (centenas, milhares de folhas juncando o chão) são a metáfora das nossas vidas, cada qual uma história, cada uma qual história distinta, com os seus episódios principais e secundários e terciários. Todas caídas, outonais, derrotadas pelo mesmo sopro que nos sepulta e torna anónimos recortes amontoados no bosque umbroso da história.

O cão ladra. Reclama a minha presença agora que descortinou o fio perdido de um qualquer novelo temporal. Sigo-o. É domingo. É noite cerrada. Odeio os domingos. Preciso de andar sempre com uma lanterna ligada aos domingos, como se tudo à minha volta fosse tão de breu como de breu é o âmago deste bosque.

Sou um insatisfeito, reconheço.

Fujo muitas vezes de mim. Fujo para uma autoestrada, para uma saída sem nome, depois para uma estrada de terra batida, até ser impossível fugir mais. Fujo como os dedos fogem pelas nervuras de uma folha de carvalho, cheio de uma terrível utopia, saturado de boas e péssimas decisões.

O cão envelheceu terrivelmente. Mesmo sem o ver, adivinho-lhe o pelo áspero, desarranjado, em tufos. O caminhar incerto. As orelhas descaídas. O focinho encarquilhado, esfolado. É o mesmo e é outro, ainda que repetindo os passos exatos das outras vezes, dos tempos em que se aventurava a trepar os muretes divisórios e a penetrar as luras sob as grandes raízes das faias.

Já quase é inverno. O frio de novembro não é brincadeira nenhuma. Agarro-me ao casaco com o ar desesperado do náufrago que encontrou uma tábua. O bafo é agora mais branco, como uma cortina breve. O domingo está prestes a fechar. Ao fim de tanto tempo sou eu quem me não me reconhece. A lanterna acendeu a lua. Ela veio. Salvar-me talvez. Escrever com a sua voz sublime o que as palavras estão querendo dizer. E não sabem ainda.

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O homem muito triste

sadness, o homem muito triste
Fotografia de Miroslav Mominski

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Cruzo-me com este homem quase todos os dias no caminho para a escola. No ângulo de cimento de um murete, acompanhando a curva apertada de um caminho secundário, ocupa com a sua sombra todo o lado esquerdo do vidro do carro, e tão singular a sua comum figura que nunca resisto a deitar-lhe, muito de viés, uma mirada curiosa.

É um velho triste. Apoiado numa bengala (seria mais correto admitir que a bengala se tornou um grande braço caindo na terra), lança o rosto num movimento de rede, como quem não sabe se vai ou o que vai apanhar do dia. Julgo que me vê passar e que me não vê passar. Porque gasta os dias a olhar sem ver, fixado num ponto onde nenhum automóvel chega, nem decerto nenhuma mirada curiosa e comovida, a bengala debaixo da mão como um pilar muito hirto, pensando quem sabe, quem sabe lembrando, quem sabe cismando na curta viagem entre a infância e essa idade de tão frias e de tão feias emanações.

É um velho triste. Barba branca e rala, aguçando o queixo numa expressão inquisidora. Pele tão velha como a boca velha e escancarada, que parece arfar. Uma máscara. Todo ele numa expressão que tanto se diria alheada, distante da realidade, como nela achando e arregalando uma epifania.

O carro leva-me por lugares que me dão muitas vezes o primeiro verso, a primeira linha, a primeira impressão de uma fotografia. Às vezes, como aqui e agora, ao interceptar este ancião, sinto uma cobardia inexplicável. Finjo que não percebo o que é óbvio, que não toco o que palpável. Ponho-me a mexer nalgum manípulo, troco de estação de rádio, fiscalizo criminosamente o ecrã do telemóvel. Aquela expressão triste do velho, porém, está lá, entrou, já me não permite evasivas. Volto-me, esforço-me por não olhar, mas zás, olhei-o nos olhos! O carro já me pôs noutra rua, noutra estrada, noutro ângulo de outra luz.  Mas aquela expressão de casa abandonada enche-me o vidro dianteiro. É inútil fazer de conta. É ridículo. É, provavelmente, hipócrita e cruel.

Ponho-me em devaneios morais. E, se em lugar de acelerar, eu encostasse, me apeasse, lhe propusesse um cigarro, quisesse saber o nome, lhe escutasse a vida? Se, em vez de fingir que o dever me chama muitos quilómetros à frente, admitisse que me chama aqui o dever de confortar, de saber, de vestir pele humana  e tripas humanas, cabeça humana, coração humano?

É um velho triste. Encontro-o rodeado pelas mesmas casas solitárias, pelas mesmas ervas bravas, pelo mesmo céu mortiço, junto ao mesmo alcatrão sujo e irregular. Uma cena de meia dúzia de segundos, enquanto o carro resfolega e ao longe uma sirene apita para a mudança de turnos. Dou por mim a observá-lo pelo retrovisor, como quem se dá conta que a oportunidade passou, que a separar o futuro do passado há uma estreitíssima ponte,  o presente não existe, braços e tronco vergados, lá atrás, como se ameaçasse despenhar-se, estilhaçar-se, partir-se todo, lá muito atrás, mal se vê agora, como se somente a bengala se importasse, agora é um pontinho, a reta levou-me a uma rua mais larga, uma lomba, agora já não se vê, uma subida, uma curva, e zás, já o horizonte é outro.

É um velho tristíssimo. A cena repete-se. Fica-me no vidro, junto com o cadáver dos mosquitos e a meia-lua do pó. Sou forçado a rememorá-la, preso a um remorso que os outros perdoariam, mas eu não perdoo.

Acabo por esquecê-lo, assim que retiro a chave ignição e me lanço numa corrida para a porta da escola, em cima da hora, sempre a pisar o risco, homem livre, homem preso, cheio de fé e sem fé. Caminho com o rosto um pouco levantado demais, olhos num ponto indecifrado do infinito, incapaz de pensar no que quer que seja.

Antes que o pergunte a mim mesmo, respondo: não, não sei porque tem de ser assim!

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Crónica de um domingo de outono

Yvette Depaepe
Fotografia de Yvette Depaepe

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Foi bom ter vindo.

É sempre bom chegar a esta praia, desagrilhoar-me do carro, seguir longamente pela marginal, pedir nesta e em nenhuma outra casa um café tirado, bebê-lo às escondidas do mar, deixar-me em paz, como um desses áceres ou plátanos da anterior avenida, com a sensação de que sou um derrotado mas um herói, cansado mas digno, silencioso mas cheiinho de palavras (às quais dou ordem para se absterem, enquanto o café aquece), descontente mas satisfeito, sem pressa mas ansioso por regressar ao cheiro forte da salsugem. Regressar é sempre bom, ótimo, revigorante.

«Deseja mais alguma coisa?»

Desejo, sim. Em primeiro lugar, libertar-me da gente estúpida (é impressão minha, ou a gente estúpida vem sempre morar para o pé da nossa porta?). Em segundo lugar, prender-me definitivamente aos gestos de excelência, às pessoas maravilhosas que os sabem interpretar, como essa garota que me não sai da cabeça, cuja história me repetiram há dias.

«Olhe, professor, então não é que um desses meninos com trissomia se apaixonou por ela! Todos a fazerem troça no recreio e ele a chorar. Então, a garota foi ter com o menino, limpou-lhe as lágrimas, abraçou-o, deu-lhe a mão e levou-o…»

Gosto de vir também por esta razão. Para estar comigo, para pôr estas narrativas na ordem (a nossa cabeça é um caderno caótico), para descortinar lógicas submersas nas máscaras que as coisas vestem todos os dias.

«Aqui tem o seu troco, senhor…»

Gosto da sensação do frio, da brisa veemente que me faz inchar o casaco de náilon e me enche o rosto com salpicos de espuma. Gosto destes prédios à retaguarda, calados, inofensivos, como molduras de vinhetas de banda-desenhada. Gosto destas palmeiras baloiçando, baloiçando agora e sempre que aqui estou, fazendo-me sentir em território amigo, mesmo se o outono obscureceu já demasiadamente a paisagem.

«De modo que a rapariguinha, esta mesma de que estamos a falar, teve um acidente na sexta-feira à noite. Um horror…»

Os ténis têm, é incrível, o seu modo automático de me guiar, de me levar sem que os sinta. Nem dou pelos semáforos deixados para trás, do paredão e dos pescadores solitários, do farol, das rugas de água verde acinzentadas (além quase negras), que crescem e se desfazem no molhe, pelas gaivotas que me vistoriam com o seu movimento circular, pelas folhas de jornal com restos de castanhas assadas que civilizadamente algum transeunte deixou de presente ao mundo.

«A coitadinha tirou carta há tão pouco tempo. O carro ficou debaixo de um camião, todo desfeito, professor! Morreu logo ali! Uma rapariguinha tão boa, tão educada… Um horror!»

Nem damos conta.

As palavras atam-se-nos com perícia. Por mais que as expulsemos, elas têm um modo muito seu de voltar. E nunca vêm sós. Trazem imagens, memórias, cenas inverosímeis. Como este magote que se acotovela do lado de fora da janela da mercearia, onde o senhor da funerária cola o fúnebre papel debruado de preto, com a sua cruz, com a foto, com o nome da rapariguinha bonita, com as informações imprescindíveis, com a dor da família enlutada.

«Sempre lhe digo, professor: vão os melhores e os filhos da mãe ficam, nunca lhes acontece nada… Passam sempre entre os pingos da chuva… Não percebo!»

Não demora a chuva.

Gosto deste lugar, do modo como a cabeça se me enche aqui de vazio. Nem damos conta de como a cabeça precisa tanto do vazio, tanto do silêncio, tanto da sombra, tanto de se apagar como se apaga às vezes o azul do mar debaixo de nuvens tão carregadas de dor como estas nuvens aqui!

«Tenho muita pena deste rapazinho deficiente, nem imagina! Ainda não percebeu bem o que sucedeu à amiga…»

É sempre bom caminhar sem destino, o casaco mais apertado, a tarde levando-me para muito longe (nunca sei para vou nestas tardes em que me vejo sem âncora), o frio lavando-me, a cabeça cada vez mais leve, os ténis voando (em breve estarei noutra dimensão), o mar sempre ao lado, o mar correndo quem sabe, às tantas, dentro de mim.

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Caleton Blanco

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Caleton Blanco - Lanzarote
Fotografia de arquivo pessoal (2017)

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Viajamos no tempo quando nele se equivoca o corpo, revendo-se no acontecido, ou porventura antecipando-o. Grande enigma, porém, é a sensação de regresso aonde nunca se esteve, como este asfalto interminável em linha reta (uma lomba além, outra mais longe ainda), esta mole de lava e lapíli, esta areia branca em pequenas dunas até ao mar (mais branca onde o basalto é mais negro), este verdeazul da água que agora mesmo me parece um convite libidinoso, assim tão calçado e tão vestido eu, grande enigma será, porque me sinto de novo em casa não a tendo antes conhecido, e ainda a viagem não acabou. Chega-se a Caleton Blanco por estraditas empoeiradas, entre filas de automóveis e jipes estacionados onde calhou. É-se recebido pelo flamenco, pelo cheiro bendito da carne na grelha (famílias inteiras à roda das salsichas, do entrecosto, das costeletas), que um pai, um tio, um avô diligentes manuseiam com a arte, acompanhados sempre da inevitável Tropical, que outras mãos, zelosas, lhes municiam, ou que vão buscar à geleira, essa também parte do ritual. Repito que me parece isto uma viagem no tempo e que viajamos no tempo quando, como aqui, nos parece a ida à praia uma grande festa e a não incomodam os anúncios publicitários nem o velhaco snobismo de quem a transformou num estado social, onde a carne rescendente, a música popular e as famílias inteiras já não são bem-vindas nem cabem onde a vaidade e o pedantismo ergueram restaurantes com estrelas Michelin e resorts à prova de pobres. Em Caleton Blanco a soberba água transparente e cálida, de um toque aveludado que nos faz estremecer, ainda é de todos e, também por isso, viajamos no tempo, também por isso fotografamos o que por instantes nos parece um paraíso quem sabe gozando derradeiros dias tranquilos. é uma da tarde. prosseguimos viagem. Uma tabuleta indica-nos Órzola à direita, Arrieta em sentido oposto. O aroma da carne grelhada persegue-nos alguns quilómetros. Sentimos fome. Uma fome irresistível.

Caleta de Famara, 26.08.2018

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Los Charcones (Playa Blanca)

Los Charcones, Lanzarote
Foto de arquivo pessoal (2018)

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Depois de atravessarmos, a pé e debaixo de um sol inclemente, uma vasta planície de terra árida, onde cicatrizam sulcos de chuvadas distantíssimas no tempo e piroclastos repletos de pó (aqui e além um desses prodigiosos arbustos carnudos, nascidos e crescidos rente ao chão, acinzentados e em forma de cato), chegámos ao hotel em ruínas. Dizes-me que aqui moraram os ciganos. E, de facto, a cerca de arame foi derribada e nas varandas postas portadas de madeira, estores, pequenas peças de mobiliário, provas de um improviso de vida que víramos já lá atrás, em restos de fogo no meio de pedras que para esse fim terá juntado quem aqui pernoitou. Nunca terminaram este edifício, que alberga aos ombros, como o gigante Atlas, um pedaço do mundo. Estamos na costa, o oceano bate com ímpeto nas rochas, rochas tortuosas, em cujas arestas pomos os pés em modo de degraus, descendo com prudência até ao lugar que me querias mostrar. Chamam-lhe Los Charcones e é esplendoroso. A maré baixou, as cavidades sem água rutilam com os estiletes do sal, de um branco que fere os olhos. Mas a beleza a que me trazes é outra, são estes olhos que a toda a volta impressionam, pequenas lagoas de um sem-fim de verdes graduados, profundos, como vidros para as entranhas do estranho mar que neles se encafuou, vertiginosos anfractos que não paramos de fotografar e entre os quais caminhamos com um arrepio. Isto é bonito, não achas? Julgo que sorrio em vez de responder-te, um pouco embriagado, vendo o azul e o verde digladiar-se num empenho de espuma e de espanto. É meio-dia, o sol bate-nos em cheio, não sei bem em que planeta. 

Caleta de Famara, 29.08.2018

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Sabes que envelheceste

Els Baltjes
Fotografia de Els Baltjes

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Sabes que envelheceste quando não tu, mas algo em ti se recusa. Quando uma teimosia despida de sol se apodera dos teus sonhos e sabes que os não vais viver. Não és triste, longe disso, mas a felicidade é também ela um pouco impostora. Bebes à noite, às escondidas, tanto para esquecer como para lembrar, e o teu rosto é uma máscara.

Sabes que envelheceste quando te aborrecem os livros, as viagens e a companhia. Olhas para trás e nada descortinas, senão gente e coisas de cinza, sombras, vagas conversas idiotas. Não és triste, que ideia absurda, mas cais em ti com violência como quem é atirado para o interior de uma masmorra. Olhas ao redor e nada reconheces, nem sequer a velha voz onde nasceste, nem sequer o olhar honesto e acutilante de outros dias.

Sabes que envelheceste quando os ossos cantam e tu não. E há mais silêncio e mais pedra em ti, e mais tédio e mais incerteza, e mais terror e mais solidão. Não és triste, olha o disparate, mas as palavras já pouco dizem, ou dizem nada, porque as sentes cada vez mais como um eco fútil, inútil e venenoso, e isso verbera-lo tu com ódio, porque não és triste e desconheces a tristeza.

Sabes que envelheceste quando todos os dias são o mesmo dia, e o antes é já o depois de acontecer, e nada acontece, e tu sabes que envelheceste. Não és triste, detestas que to digam, mas pertences cada vez mais às coisas que amas (e são poucas) e cada vez menos às pessoas que já não sabes ou não podes amar (e são muitas), deslumbrado com o poder do silêncio e com a castidade que nele desconhecias.

Sabes que envelheceste quando deixaste de compreender o confuso mecanismo de salamaleques traiçoeiros, elogios hipócritas, sorrisos concupiscentes, cúpidos materialismos dos novos e afinal de todos os tempos; quando deixaste de suportar esse relógio ancestral de ameaças, avisos e bestiais represálias em que se move, em círculos, a gente de agora, a que veio e a que virá; quando deixaste de aceitar o triunfo da estupidez sobre a razão, o estudo e a sabedoria. Não és triste, triste é quem não o é, mas os teus passos encurtaram, o teu rosto emudeceu, as tuas mãos tornaram-se uma outra forma de metal.

Sabes que envelheceste quando te aceitas desse modo, velho e simples, cru e talvez cruel, sem adornos, supervivente, amigo dos poucos amigos que ainda valem a pena, fiel às paisagens que te acordam noutro tempo e noutro lugar, sem contemplações, mas contemplativo, amargo e todavia doce, de uma doçura que somente os que a ti são semelhantes podem compreender, prezar e, quiçá, amar. Não és triste, o que é ser triste, mas corajoso, coerente, preso ao teu destino como uma árvore às suas raízes.

Sabes que envelheceste quando não precisas de explicar porquê. Não és triste. És tu.

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Viagem

Floresta, Norbert Maier
Fotografia de Norbert Maier

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A primeira impressão que se tem no meio da floresta, ao atravessar-se a cortina de luz entre as árvores, é o chapinhar das botas na terra húmida. O desenho da sola fica sotoposto nos carreiros ao longo de caminhos macios de musgo e folhas oxidadas para logo se perder nos pedregulhos duros por onde é preciso continuar. Sobe-se, trepa-se a custo os carreiros dos lobos. As fragas são uma especialidade morosa, exigente. Os pulmões sentem o ar álgido da montanhas. O silêncio pressiona os ouvidos, fá-lo como uma grande bolsa de paz a que se não está acostumado. Dói por isso caminhar, respirar, escutar a ausência de ruído. Algo aqui rodeia permanentemente a cabeça e os ombros, corta a pele, invade as unhas, poisa nos lábios, cai dentro de nós como água num odre vazio.

Atinge-se um ponto alto. Daqui avista-se o desenho acidentado das penhas, o serrilhado da copa das árvores, a linha branca e lisa das neblinas, o vago monótono azul da cordilheira cada vez mais ao fundo. Às costas a mochila pesa mais. A existência, pelo contrário, é agora leve como uma pluma. Em nós, como num envelope selado com lacre, está o instante: no aqui e no agora, vive o eu!

O trilho amplia-se. Vê-se a linha verde do rio. De braços abertos e olhos fechados sentimo-nos querer tombar no abismo. Em nós, como nos pássaros, cresce o apelo da vertigem. Pudéssemos arremessarmo-nos e ir, ir e alcançar o horizonte. Em frente o espaço é uma fronteira. Precisamos de vencê-la. Ela é o intervalo entre nós e nós mesmos, entre nós e – quem sabe –  o nosso deus. Minúsculos e enormes, como as figuras de Caspar David Friedrich, abrimos os sentidos. 

A viagem conduz-nos a um labirinto de antigas veredas. Empilham-se verdes e amarelos e ocres e vermelhos outoniços, acotovelam-se ramos de nogueiras e de carvalhos, ulmeiros, teixos, juníperos, amieiros, zelhas, medronheiros, azereiros, castanheiros, fumega o curso de uma levada. A água é de uma pureza comovente, límpida de tão nova, fria de tão intocada. Desce, corre já, serpenteia a floresta, onde orelhas, antenas, chifres, se voltam na nossa direção. Somos intrusos neste jardim. Aqui pernoitam as derradeiras ninfas, os últimos faunos. Aqui bocas selvagens ignoram a nossa fala e desprezam-na. O curso da água segue até a uma pequena clareira. A primeira cabana recebe-nos. É terrível o efeito desta aparição. Outras mais acima e mais abaixo. O homem aqui está. E eu vim também. Eu estou aqui. Eu, que sempre aqui pertenci, não sou deste lugar. O bafo repete-se. É um aldeamento.

A civilização multiplica a presença de objetos. Um telemóvel toca, vibra, fere a ductilidade das formas. Há casacos coloridos, gorros, luvas em movimento. Risos, vozearia, alguém disparando um flash. O alarido assusta o pundonor do pensamento das árvores. Interrompendo a sua filosofia milenar, as rochas desabam. Um garoto empoleirado num píncaro grita. Esboroado, o instante transforma-se em eco. Adultos furiosos alcançam-no, imprecações, uma bofetada, choro. A maldição humana. Aqui estou.

À noite, entre toros e grossas panelas de ferro fundido, as chispas avermelhadas saltitam. Chia, crepita, estala, rumoreja a lareira. Os outros deixaram-me finalmente. Tenho-me a mim. Trouxe vinho e um caderno. Imaculados, os segundos seguram-me ao nada. A música de Brahms (sexteto de cordas, opus 36) adormenta-me. Penso em coisas. Não chega a ser uma narrativa, somente fugazes iluminações. Logo a penumbra as envolve. Penso em ti. Mas também tu és efémera. Penso numa escadaria helicoidal. Subo e desço à infância. Subo e desço a cada coisa que produzi. Subo e desço ao absurdo. A solidão é o espelho de quem sempre fugimos. O vinho e o caderno são supérfluos. Para que continuo eu a fugir?

Regressa-se. A floresta é hostil. Quem aqui vive não ama quem aqui não pertence. Mas regressa-se a que lugar? Volto-me. Cada pegada que aqui deixei é um fóssil. Eu, que sempre aqui pertenci, não sou deste lugar. Mas a que lugar pertenço eu? Intacta a garrafa, vazio o caderno. O princípio do mundo talvez seja assim…

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Tu partiste, eu esqueço-me de tudo

manhã, Marc Apers
Fotografia de Marc Apers

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A manhã é dolente. Tu partiste. Eu esqueço-me de tudo. Na praceta, as pessoas repetem o dia anterior. Recebo notícias. Os pássaros voam eufóricos sobre os telhados. Alguém diz «Bom dia». Cheira-me a pão torrado. Dou-me conta das extremidades frias, geladas, dos meus dedos. Respondo «Bom dia» a alguém. Podia pensar na operação, em política, poesia, futebol, comida, viagens. Apetece tanto um café. A manhã é dolente. Tu partiste. Eu não penso em nada. «Bom dia, Lopes». Dou-me conta do meu corpo, abandonado sobre o meu corpo. Pesado como um fardo. Dou-me conta que existo, respiro, silvo. Respondo «Bom dia», «Bom dia», «Bom dia», maldição! Partiste. Vais casar. Dou-me conta que nenhum país é mais longínquo do que o casamento. Dou-me conta que todas as minhas mulheres partiram. Que me doem as falangetas, as falanges, os ossos, os olhos, tudo… «A arrogância é a maior das nossas máscaras e a pior das nossas pernas». Tão bem-dito. Tão maravilhosamente esculpido no meu silêncio. «Tenho idade bastante para to dizer, certeza suficiente para me não arrepender, temperamento para não ficar calada. És um equívoco. Melhor, Miguel, vives num». A manhã é dolente. Uma aragem gélida trespassa-me, como o bafo de uma maldição. Sinto a pele arrepiada, as entranhas em lume, o meu nome percutido, repetido, sem sentido, como a pele maltratada de um tambor. «E quem te pediu a opinião?». Cheira-me a alfazema. A limos. Aos ácidos de uma oficina de carros. A luz queima-me os cílios, o rosto, a alma confusa. «Se não fores tão hipócrita como julgo que não és, saberás admitir que me perdeste». E a aragem fria e a luz quente são opostos que incomodam, como indecisões do tempo. Não penso em nada. Nem sequer na castidade da roupa que cheira a sabão Clarim. Nem sequer na beleza difícil do caderno aberto, das folhas vazias, lisas, sem linhas, limpas. Nem sequer na esquadria que se me oferece da paisagem para lá desta janela aberta, de vidros amplos e imaculados. «Como se fosses uma santa, hem…». E as palavras formam nós, encordoam-se em gânglios assustadores, enrijecem, são duras e selvagens como cerdas que fazem sangrar o silêncio. E as gavetas, os cabides nus, os armários sem as tuas coisas, são fossas abissais onde ecoam, como submarinos, as minhas mãos desamparadas. «Como se ele fosse melhor do que eu…». Dou-me conta que existo, respiro, silvo, fumo. Dou-me conta que não pensar em nada é pensar em alguma coisa. Longínquos pensamentos cósmicos, ontológicos. Remotos pensamentos como as remotas estrelas que explodem numa baba inalcançável de ruído e luz. Dou-me conta do tempo. Do leve e cruel e agora persistente chicotear do remorso. «Um dia vais perceber, Miguel», «Um dia vais arrepender-te tanto», «Um dia compreenderás como às vezes se teve tudo e se perde tudo para sempre, Miguel!». A manhã é dolente. Tu partiste. Eu esqueço-me de tudo. Das frases que soam como os imperturbáveis mármores dos sábios. «Sou como sou». Do olhar derradeiro, olhos nos olhos, semente de dor, de deceção, de despedida. «Um dia, Miguel». E fumo. Fumo incontáveis cigarros na manhã de maio, atento ao mundo que gira e se não arrepende de coisa alguma. Preso ao ar que circula e sega como obsidiana os laços minúsculos entre mim e as coisas. Sorrindo sem querer para aquele dia em que, no lugar onde cheira a cimento fresco e grandes pulmões rotativos enchem de ar as galerias, nos vimos pela primeira vez. Os teus grandes olhos azuis! «Ele é o homem certo para ti. Sim, casa-te lá!». Não penso em absolutamente nada. Dou-me conta de mim. «A arrogância é a maior das nossas máscaras e a pior das nossas pernas». Que raio de filosofia. Sempre detestei os sábios e os que imitam os sábios. Cheira-me a canela, a caramelo, a chocolate quente. A manhã é dolente. Tu partiste. Sinto fome, sinto uma fome imensa, uma fome voraz. «Um dia, Miguel». Sim! Seja como for, adeus!

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Sempre em frente

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Fotografia de Tookapic

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Ao inverter a marcha, os pneus desenham no saibro desolado a imagem, o som inesquecível de uma despedida. A noite é gélida e oca, inútil como a casca de um fruto seco. O que soa por dentro agora é um chocalhar de palavras soltas, cascalho, memórias de uma ferocidade extrema. A imagem e o som de uma despedida. Os pneus chiam levemente sobre o alcatrão. A cabeça é um deserto. Curvas, solavancos, travagens repentinas. Frases desconjuntadas e assassinas, como pedras pontiagudas. Depois, outra vez a marcha. E a cabeça distante, como naqueles dias em que atiramos seixos ao rio. Como naqueles dias em que fazemos círculos à toa no caderno. Como naqueles dias em que acendemos fósforos por acender e nos hipnotizamos com a chama mortiça de uma recordação. A noite é um ventre. Uma prisão. Sufocamos.

– Um dia perceberás o que te quis dizer…

– Um dia perceberás o que acabas de perder…

Subitamente, cega-nos o clarão de um pensamento. Holofote doloroso, o remorso. Depois, subitamente, a raiva. O acelerar do carro. O cheiro da embraiagem, da borracha queimada no asfalto. O incêndio da razão.

– És um merdas… Sempre foste um falhado…

– Merdas és tu… Não te admito, ouviste…

A melancolia é uma peçonha. Voltamos a ouvir o velho álbum dos Röyksopp. Voltamos a pensar nas coisas por fazer (o atraso é agora desastroso, incomensurável, irreparável). Voltamos a desejar nunca ter saído da cabeça adolescente. As viagens. Os livros. As memórias límpidas. Os cadernos perfumados pelas longínquas especiarias.

– Porra…

A melancolia é um poço. Cismamos. Todo o nosso ser é, de alto a baixo, um pilar em queda. Um império prestes a desmoronar-se. As antigas dúvidas são as novíssimas dúvidas. Os velhos dilemas pesam agora como o próprio ar que se bebe em travos arfantes. Vetustas cicatrizes abrem e sangram. Quem somos nós, porra?

– És um merdas… Bem que me tinham avisado…

– Ouve… Tem lá cuidadinho com que o dizes… Não te admito…

Havia, outrora, outro caminho. Havia neste corpo outra pessoa. Os pensamentos correm como chispas alucinadas. As imagens sobrepõem-se, atropelam-se, obnubilam. Há em nós um azedume de fiasco. De prejuízo. De tempo perdido. O carro resfolega.

– Porra…

Bem gostaríamos de acreditar naquela frase do Eugénio. O nosso destino somos nós. Então, por que carga de água, queremos estas mágoas a repetir-se. Esta vileza de nos esmagarmos contra o nosso próprio sonho. Porquê?

– Um dia perceberás o que te quis dizer…

Não, definitivamente estamos fartos. Saturados. Incapazes de tolerar, transigir, perdoar. Basta. Curvas, solavancos, travagens repentinas. O maldito semáforo. Esta covardia de respeitar o vermelho. Não seria mais fácil irmos sempre em frente, sem filtros, arrependimentos, considerações metafísicas? O que quer que sejamos é agora um peso, uma ninharia, um farrapo (sabemos sempre manusear tão sabiamente as metáforas aniquiladoras). Somos um bocejo. Uma esquírola. Uma vergôntea feia. Uma secreção. Somos ridículos. O carro quase adormece…

– Um dia perceberás o que acabas de perder…

Apostamos que do outro lado alguém se ri desta balofa, incompreensível, miserável frase de recurso. Talvez a maldita sorte ande a mofar de nós. A noite engole-nos. A noite cresce. A noite devora estes e todos os outros argumentos vãos. O clarão dos holofotes cega-nos. As lágrimas podem agora, finalmente, tropeçar nos escombros. Como autómatos, os pneus conduzem-nos. Estamos a caminho de algum lado. Estaremos sempre em caminho. A maldita cabeça repete, como o eco através da garganta, «Não colecciones dejectos o teu destino és tu.» As feridas doem. Nunca presumi que não devessem doer. Bem gostaríamos de acreditar naquela frase do Eugénio. Voltamos a desejar nunca ter saído da cabeça adolescente. As viagens. Os livros. As memórias límpidas. Os cadernos perfumados pelas longínquas especiarias. A estrada é em frente. Apenas em frente. Sempre em frente.

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