Floresta, Norbert Maier
Foto: Norbert Maier

A primeira impressão que se tem no meio da floresta, ao atravessar-se a cortina de luz entre as árvores, é o chapinhar das botas na terra húmida. O desenho da sola fica estampado nos carreiros ao longo de caminhos macios de musgo e folhas dourado-avermelhadas para logo se perder nos pedregulhos aguçados por onde é preciso continuar. Sobe-se, trepa-se a custo, nos meticulosos lances de lobo solitário. As fragas são uma especialidade demorada, exigente, tal como suportar o silêncio. Ao mesmo tempo que os pulmões sentem regenerar-se no ar álgido das montanhas, o silêncio pressiona os ouvidos, fá-lo como uma grande bolsa de paz a que se não está acostumado. Dói por isso escutar, sentir a ausência de ruído, senti-la rodear a cabeça e os ombros, cortar a pele, entranhar-se nas unhas e nos lábios, senti-la cair dentro de nós como água num odre vazio.

Caminha-se até a um ponto alto. Lá avista-se o desenho acidentado das penhas, o serrilhado da copa das árvores, a linha branca e lisa das neblinas, o vago monótono azul da cordilheira cada vez mais ao fundo. Às costas a mochila pesa uma tonelada. A existência, pelo contrário, é agora leve como uma pluma. Em nós, como num documento calafetado com lacre, o selo do instante: aqui e agora, o eu!

O trilho amplia-se. Vê-se daqui a linha verde do rio. De braços abertos e olhos fechados sentimo-nos querer tombar no abismo. Em nós, como nos pássaros, cresce o apelo da vertigem, do voo. Pudéssemos arremessarmo-nos sobre o abismo e alcançar inteiro o horizonte. O espaço em frente é uma fronteira. Havemos de vencê-la. Ele é o intervalo entre nós e nós mesmos, entre nós e, quem sabe, o nosso deus. Minúsculos e enormes, como as figuras românticas de Caspar David Friedrich, abrimos os sentidos ao firmamento. Olhamo-lo, escutamo-lo, respiramo-lo, tocamo-lo, degustamo-lo. Não cessamos de absorver a dádiva do vivido. Em frente é o precipício. E nós sabemos que cada instante é um precipício em frente. De olhos fechados e braços abertos deixamo-nos ir…

Depois, a viagem conduz-nos a um labirinto de antigas veredas. Debaixo do volume matizado de verdes e amarelos e ocres e vermelhos outoniços, dos ramos engastalhados das nogueiras e carvalhos, ulmeiros, teixos, juníperos, amieiros, áceres, choupos, zelhas, medronheiros, azereiros, castanheiros, de um ou outro pinheiro bravo, o curso da levada. A água é de uma pureza comovente, límpida de tão nova, fria de tão intocada. Desce. Corre já. Invade a floresta, onde, discretos, orelhas, antenas, chifres, se voltam na nossa direção. Somos intrusos neste jardim. Somos os expulsos do Éden. Aqui pernoitam, temos a certeza, as derradeiras ninfas, os últimos faunos. Aqui, bocas selvagens ignoram a nossa fala e desprezam-na. O curso da água segue até a uma pequena clareira. A primeira cabana recebe-nos. É terrível o efeito desta aparição. Outras mais acima e abaixo. O homem aqui está. E eu vim também. Eu estou aqui. Eu, que sempre aqui pertenci, não sou deste lugar. O bafo repete-se. É um aldeamento. A civilização multiplica a presença de objetos. Um telemóvel toca, vibra, fere a ductilidade das formas. Há casacos coloridos, gorros, luvas em movimento. Risos, vozearia, alguém disparando um flash. O alarido assusta o pundonor do pensamento das árvores. Interrompendo a sua filosofia milenar, as rochas desabam. Um garoto empoleirado num píncaro grita. Esboroado, o instante transforma-se em eco. Adultos furiosos alcançam-no, imprecações, uma bofetada, choro. A maldição humana não tem fim. Eu estou aqui.

À noite, entre toros e grossas panelas de ferro fundido, as chispas avermelhadas saltitam. Chia, crepita, estala, rumoreja a lareira. Os outros deixaram-me finalmente. Tenho-me a mim. Trouxe vinho e um caderno. Imaculados, os segundos seguram-me ao nada. A música de Brahms (sexteto de cordas, opus 36) adormenta-me. Penso em coisas. Não chega a ser uma narrativa, somente fugazes iluminações. Logo a penumbra as envolve. Penso em ti. Mas também tu és efémera. Penso numa escadaria helicoidal. Subo e desço à infância. Subo e desço a cada coisa que produzi. Subo e desço ao absurdo. A solidão é o espelho de quem sempre fugimos. O vinho e o caderno são supérfluos. Para que continuo eu a fugir?

Regressa-se. A floresta é hostil. Quem aqui vive não ama quem aqui não pertence. Mas regressa-se a que lugar? Volto-me. Cada pegada que aqui deixei é um fóssil. Eu, que sempre aqui pertenci, não sou deste lugar. Mas a que lugar pertenço eu? Intacta a garrafa, vazio o caderno. O princípio do mundo talvez seja assim…

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