. Esperou que a escrita voltasse. Todas as manhãs, com o lápis afiado sobre o caderno, o escritor aguardava a primeira frase: alguém lha ditaria, algo lha faria lembrar, algures um relâmpago explodiria no cavername cerebral. Mas a escrita não voltava. O escritor preparara-se para essa crise. Sabia que em alturas críticas da vida a …
Deus
. A pequena igreja enche-se com o ressoar dos tacões. O estampido cresce pela nave e sobe aos altares. Depois dele é o rumor das preces, uma longa murmuração gelada, um marulho de bocas dançantes repetindo-se. O efeito destes dois ecos consecutivos distrai quem ali não encontrou ainda o seu canal para a Providência. O …
Uma primavera
. Nesse ano a primavera manifestou-se muito cedo. Em meados de dezembro, em vez do frio e da chuva, os aldeãos, veem as mimosas a amarelar e no mês seguinte já as magnólias vão despontando, tal como a flor das cerejeiras. Não chove e o sol atordoa as velhas, que se põem a namorar os …
Frau Welt
. A seguinte interrogativa ocorreu a Jürgen Altman, uberista, na manhã de vinte e quatro de fevereiro de dois mil e vinte e dois, quando se deslocava a Großbeeren, nos arredores de Berlim. No painel eletrónico do seu novíssimo Mercedes vermelhavam os números 11:53. «O meu bisavó era nazi. O meu avó comunista. A minha …
Nós gostamos da neblina
. M. caminhava com pressa nessa manhã. Fazia-o por causa do frio, mas outrossim em virtude do hábito (no verão caminhava igualmente apressado; talvez, neste caso, por causa do calor). De todas as partes da cidade, por onde a água corresse, subia uma neblina espessa e álgida que engolia tudo: um olhar não demasiadamente perspicaz …
Um pedreiro
. Era um pedreiro quase analfabeto, originário de uma das aldeias mais recônditas de França, daquelas que vemos poisadas como ninhos de grifos nos píncaros das montanhas. No entanto, as suas mãos cortavam, cinzelavam e ornavam os blocos de granito com a prodigiosa sabedoria com que os autores escrevem tratados. A catedral precisava de obras, …
“Vem!”
. Acordava e logo se vestia à pressa, saindo de casa com uma maçã nas mãos, tirada a correr do saco com as poucas compras que abandonara no dia anterior sobre a mesa. Entrava esbaforido num dos elevadores da empresa, a esbarrar-se nas pessoas e nas portas, e se lhe perguntavam porque não acordava mais …
O túmulo de Vulca
. Visto do alto, é um telhado de quatro águas caindo para um pátio interior (o implúvio), onde neste preciso momento se encontra Vulca, a observar fascinado um grande pássaro negro a não mais do que dez passos de distância. É o primeiro dos oito dias da semana, dia de mercado, e Vulca aguarda visitas …
Big RIP
. Escreve poemas durante a noite, dentro dos sonhos, na parte mais obscura do sonhar. Quando acorda, resta-lhe na cabeça e na boca (provavelmente no interior arrefecido dos olhos, também) amontoados de cinza. Do que escreve sobra-lhe apenas isso. Não se recorda de nenhum dos poemas ditos em voz alta, poemas seus, nascidos do contraste …
Nascer do dia
. Acorda todos os dias muito cedo. Faz o menos barulho possível enquanto trata da higiene pessoal e de tomar o pequeno-almoço. Há pessoas a dormir e a necessitar do trabalho profundo dos sonhos. Quando abre a janela do quarto, espreita sempre com muito interesse: a adivinhação da luz ou da falta dela (conforme a …
O jardim amarelo
. É um terreno de cinco hectares e meio, com socalcos e linhas imperfeitas, onde, consoante a época do ano, amarelam áleas de mimosas e gingko bilobas, renques de bordos e sibipirunas, canteiros de dálias e de hibiscos, talhões de calêndulas e de astromélias, vasos com lantanas e zínias, bacias de plástico e bidões com …
O fabricante de violinos
. para a Céu Ruggero Montefforti foi batizado no dia 22 de novembro de 1925, com apenas três dias de idade, na pequena igreja medieval de Santa Cecília, em Chizzola, localidade alpina pertencente à comuna de Ala, na região de Trentino-Alto Ádige. A sua morte prematura era um dado adquirido no seio familiar, pelo que …
Prodígio de Natal
. No alto de uma colina, fora do perímetro da vila, escorraçadas pelas muralhas pedregosas do grande castelo mandado erguer por Fernando, rei de Leão, restam de pé – ainda que votadas ao abandjono dos homens (sem teto, portas, vidros ou vitrais, sem espécie alguma de madeiras, soalho, mobílias, figuras de santos, anjos ou pombas …
Festa de São Nicolau
. Saskia observa o quadro uma vez mais. É um prazer que guarda desde a infância. Todos os anos no dia do santo patrono, cumpre o ritual de se passear pelos corredores do Rijksmuseum, de abrir para o passado esta janela imensa que Jan Steen pintou, de se intrometer na cena familiar da noite de …
O acordeonista
. Depois da guerra, regressou a casa. A História conta-nos muito acerca dos maus regressos, desses que a literatura (desde Agamémnon) sabe escorripichar e que a psiquiatria aproveita cada vez melhor. Regressou sem um tostão, sem uma cicatriz visível, sem uma memória acolhedora, sabendo já – no momento em que desceu o derradeiro passo do …
