Jackson David
Fotografia de Jackson David

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A seguinte interrogativa ocorreu a Jürgen Altman, uberista, na manhã de vinte e quatro de fevereiro de dois mil e vinte e dois, quando se deslocava a Großbeeren, nos arredores de Berlim. No painel eletrónico do seu novíssimo Mercedes vermelhavam os números 11:53.

“O meu bisavó era nazi. O meu avó comunista. A minha mãe odiava ambos. Eu desprezo os três. Que raio se passa comigo?”

No interior do carro, de pernas cruzadas, deitando um certo olhar à paisagem, seguia uma mulher maravilhosamente bem feita. Altman, pelo retrovisor, colhia aos bocados elementos para posterior descrição: cabelos negros compridos, nariz pequeno, expressão lúbrica dos olhos rasgados, envergava uma saia de cabedal encurtada pela posição do corpo, botas de vinil vermelhas, com um longo fecho reluzente, unhas impecavelmente esculpidas e longas, da mesma cor.

Hipnotizado pelo perfume profundamente insinuante, o condutor não sabia discernir entre o corpo de uma atriz, de uma empresária, de uma influenciadora nas redes sociais, ou de uma acompanhante. Achava-a em todo o caso uma mulher extraordinária.

Na rádio insistia-se numa notícia: a Rússia invadira a Ucrânia.

Jürgen Altman pensava de si para si como todas as nações cedem um dia ao que nelas existe de mais tentador: o desejo que vampirizar as nações vizinhas.

“A Rússia foi uma velha camponesa até aos czares, uma operária insossa até à Perestroika, e agora, debaixo dos punhos de Putin, uma esposa demente, incapaz de se decidir a tomar os comprimidos todos ou a rejeitar os comprimidos todos.”

A mulher pagou. Vê-la de pé, com as pequenas maletas da Louis Vuitton enfiadas no braço sobressaltou Altman. Parara em frente a um condomínio de luxo, todo envidraçado, modernista, com belos jardins em socalcos, descendo de varanda em varanda até às piscinas. Ela afastou-se, com intencional bamboleio, caminhando como caminham todas as mulheres superiores. Altman pagaria para a ter consigo meia dúzia de minutos, pedisse ela o que pedisse.

Na viagem de regresso a Berlim, voltou a pensar na guerra, nos delírios de posse do ser humano, no parasitismo intrínseco à espécie.

Subitamente, acendeu-se-lhe um outro pensamento perturbador.

Parou o carro e pôs-se a verificar na Internet. Passava o dedo com rapidez no ecrã do seu iPhone, cada vez mais persuadido de que a familiaridade do rosto da sua última cliente se devia a algo visto recentemente, numa roda de amigos. Não demorou muito a encontrá-la numa página de encontros sexuais.

Sem margem para dúvidas era ela. Melhor, ela não era ela, mas ele. Ou por outra, ela ou ele ou ambos era uma pessoa transgénero. Apreciadíssima, aparentemente.

Altman principiou a imaginar o corpo destituído das suas marcas femininas, a longa cabeleira posta de parte, o batom apagado, as unhas falsas retiradas, as sombras da barba reaparecendo na pele lavada e natural, o sexo urinando de pé na sanita. Sentiu uma tontura.

Com furor pisou o pedal de aceleração.

Na Antenne Bayern, a sua estação de rádio favorita, continuavam a falar da Ucrânia, de Putin, do horror iminente, no meio de hits dos anos 80.

Na cabeça de Jürgen Altman instalou-se a ideia de que todos devíamos ser brutais, imitar o Putin, limpar como Hitler, arrasar esta gente híbrida, que é o asco da humanidade. O seu bisavó tinha sido nazi, o avó comunista, a mãe odiava ambos. Ele desprezava os três. De resto, nós desprezamos todos por isto ou por aquilo.

Que raio se passa connosco?