O retábulo

Retábulo
Foto de arquivo pessoal

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O retábulo (um pequeno painel em três partes, com a Virgem e o Menino ao centro e anjos nos volantes direito e esquerdo) foi descoberto no interior de uma pequena igreja românica de meados do século XIII.

O caruncho absorvera de tal forma a madeira e a pátina as cores e firmeza das santas figuras que a paróquia desistira havia muito desse objeto como se de lixo sagrado se tratasse. Em diversas ocasiões, podia deduzir-se do rol de “baixas” de sucessivos inventários, fora a peça despromovida pela ignorância dos zeladores (especialmente após o terramoto de fevereiro de 1969) a entulho, junto com infindáveis baldes de talha esmagada e vitrais partidos.

Ainda assim, ninguém sabia explicar bem como, o retabulozinho que sofria de carcomas e padecera de gretamentos de calor e mofos de humidades, que padecera da incúria secular dos homens e do sagrado aborrecimento divino, foi salvo para reaparecer na gaveta de um pesado armário de sacristia, embrulhado num pano de estamenha, sem maior cuidado que o não estar exposto ao relento e ao convite displicente dos ratos.

A técnica, Andreza Merino, uma estagiária da capital, pertencente a uma das brigadas móveis, descobriu-o acidentalmente durante uma visita ao norte, quando, no âmbito do seu doutoramento, demandava por uma escultura de São Romão de Antioquia. Ninguém ali se opôs a que levasse ela consigo a impensável relíquia, sobretudo depois da promessa que fez de interceder junto do Ministério para salvar o negligenciadíssimo recheio do templo medieval: os sinos e telhas cambando miseravelmente, o soalho carcomido e rangente, os caixotins e predelas manchados, os altares rachados, a talha sem brilho, os serafins desasados e repletos de úlceras, o Menino Jesus de Praga invadido pela lepra, o coração da Senhora das Dores negro das setes espadas que a ferrugem venceu.

A jovem, calçando luvas de proteção, avaliou e fotografou então cuidadosamente o ícone tresdobrado. Espantou-se da profunda degradação das tábuas, do entalhamento, da pintura. A imagem tripartida aparecia como uma planície de terra árida, repleta de gretas, aqui e além (em crateras terríveis) desprovida já de tinta, semelhante no seu todo a um moribundo repleto de chagas.

Com a ajuda de uma pinça, Andreza retirou os fragmentos avulsos e mal seguros, dispondo-os na mesa de trabalho pela mesma ordem em que surgiam no tabuleiro. Eram como lascas inúteis e insoldáveis. Depois, usando uma sonda, calculou o grau de resistência e fixidez da restante pintura. Raspou meticulosamente, com um bisturi, a base de madeira aonde haveriam de regressar os pedaços soltos, de forma a limpá-la do gesso e dos restos de cola. Larvas fossilizadas de besouro, que urgia remover, haviam formado cavidades. Sobre elas, nas fendas entre as tábuas, sob as finas camadas de madeira pintada, para dentro das monstruosas falhas, injetou uma solução de resina (mais tarde aplicaria outra de solvente ativo). Fez no reverso correr uma trincha embebida num líquido idêntico para saturar os poros e as galerias escavados pelos daninhos insetos. Demorou dias nesta simples operação de reforçar e estabilizar a estrutura do painel.

Depois derramou, sobre as zonas nascidas da decapagem e servindo-se de uma espátula, uma solução esbranquiçada de gesso acrílico. Deixou-a secar e repetiu duas vezes o processo. Só então pôde pincelá-las com uma espécie de goma transparente e, como quem reconstitui um puzzle, devolver ao seu lugar de origem cada pedaço. Em seguida, de molde a pressionar e a reuni-los à madeira original, aplicou sobre películas acamadas de silicone e feltro a ponta de um ferro quente. Tinham passado duas semanas.

Experimentou, seguidamente, em copos graduados de vidro, usando pipetas e cotonetes, teste após teste, a dosagem certa de metiletilcetona para iniciar a limpeza das tintas. Paulatina, maravilhosamente, como um rosto que de súbito se vê iluminado e aquecido pelo sol de uma manhã de março, principiou a renascer nos movimentos cautelosos dos seus dedos, uma Virgem de cabelos loiros e ondulados, coberta por um manto azul esverdeado e uma auréola diáfana, segurando com a mão esquerda Jesus e poisando a direita sobre um livro aberto, esplendorosamente preenchido de linhas e góticas inscrições. O Menino, nédio, rosado, cingido já pela coroa de espinhos que o haveria de atormentar, voltava o rosto sobre a mãe num misto de interrogação e piedade, como se também ele soubesse já que o seu belo rosto jovem (na casta expressão que Botticelli ensinou) teria de enrugar e envelhecer na armadilha do sofrimento que Deus lhe destinava. Era de resto uma cena doméstica, como a mesa e o cesto de coloridos frutos deixava concluir. Depois, aos poucos, a cada movimento circular do algodão e do produto gelatinoso, também aos anjos tutelares (um, à direita, tocando uma pandeireta; outro, à esquerda, soprando para uma flauta de pã) foi restituída a luz primitiva. Merino usou, por fim, um verniz para proteger e separar o cromado primitivo das intervenções que viessem posteriormente a ser feitas.

Com paciência, com amor, a jovem técnica passou ao alto relevo envolvente, usando todos os instrumentos e materiais de douradura de que pôde servir-se. Com um coxim cortou pequenos segmentos de folhas de ouro e com uma paleta fê-los cair sobre os rebordos. Depois, com um pincel, servindo-se de uma pequena tina onde misturara pigmentos diversos de mica, deslizou sobre os rebordos restaurando o rútilo primitivo. O brilho era agora tão belo e tão veemente que Merino confirmou a sua suspeita: a peça que tinha em mãos seguia a escola de Gregório Lopes, em tudo similar ao óleo que o artista deixou na charola de um dos altares do Convento de Tomar. Era uma obra-prima!

Faltava ainda, contudo, recuperar as perdas na imagem, os pedaços que o tempo fizera desaparecer. Andreza colocou o retábulo sobre um cavalete e recorrendo aos conhecimentos do tratteggio principiou, repetindo incansavelmente as tentativas de seleção cromática, a preencher os lapsos, a completar os traços interrompidos, a tornar una, prístina e perfeita a cena retratada.

Quando ao cabo de sete meses deu por concluído o restauro, aplicados os produtos finais de fixação e proteção da madeira e das tintas, designadamente um verniz ultravioleta 292 para estabilização do anverso, deixou-se invadir pelo sentimento de humildade e gratidão de que tanto falava o seu orientador no Departamento de Conservação e Restauro.

Documentou profusamente o trabalho feito. Depois viajou de novo ao norte do país. Na paróquia discutiu-se muito o lugar onde exibir o tríptico. O padre desconfiou dos ladrões, o sacristão suspeitou do telhado ameaçador, as beatas lamentaram a pequenez física do retábulo, toda a gente se esqueceu de agradecer a Andreza Merino, a quem de resto, se sobejava o talento, o devia a Nosso Senhor.

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A seita

Fotografia de Gilles Quesnot

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A seita, desobedecendo a Martinho de Dume, seguia o tempo pagão.

Lues, Martes, Mércores, Joves, Vernes, Saturnes, Soles eram dias de podar e queimar a lenha inútil, lavrar e semear, pastorear as ovelhas, criar os bácoros, dias de mondar, ceifar e moer o grão, enxertar as videiras, sacrificar a Juno a melhor das reses, recolher o mel e a própole, agradecer os frutos e abençoar o vinho novo, dias de lavar com água de uma fonte pura e cinza doméstica os altares ancestrais, dias de festejar com címbio os casamentos, de libar com a arféria, de celebrar os ciclos da lua e do sol e as velhas divindades que habitam os bosques e os rios e as noites gélidas do mês de Jano e das Februas.

O cronista João de Biclaro explica que no reinado de Leovigildo «eram estes pagãos em número incontável», mas que no tempo de seu filho Recaredo principiaram a cessar, à medida que o catolicismo ia extirpando os resquícios que suevos deixaram, erguendo cruzes onde antes se venerara os ídolos, elevando nos pedestais das igrejas e guardando nos nichos das capelas imagens de santos que depunham e esqueciam em definitivo as estátuas dos falsos deuses e deusas de Roma. «Somente em poucas aldeias e rincões alguns restavam, tão renitentes e fanáticos que nem a lâmina das espadas, nem as ameaças de impiedosos castigos os ensinavam a seguir a verdadeira fé de Cristo». Cheio de sarcasmo, chama-lhes João «purissima huius spei omnium» («os mais puros de todos»).

Viterico, o monarca assassino de Liúva, tolerou a seita, outros a perseguiram. Como tantas vezes sucede na História, a memória dos «puríssimos» foi sepultada e desenterrada muitas vezes. Como cacos de uma ânfora, chegou aos nossos dias.

Quem sabe por que divinas mãos trazida!

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A interdição de sonhar

Shoayb Hesham Khattab
Fotografia de Shoayb Hesham Khattab

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Qutuz, o sultão, rei dos mamelucos, decretou a proibição dos sonhos. Que ninguém sonhasse, sob pena de se lhe ser oferecida a viagem, violenta, para o mundo dos mortos.

Ninguém sonhava, portanto, no Cairo e em todo o vasto país que descia com o Nilo e se dirigia a leste, para lá do Mar Vermelho, até à Península Arábica. Ninguém sonhava. Sonhar era um veneno, tão nocivo quanto um preparado de cicuta ou a cuspidela certeira de uma naja. Por causa dos sonhos os homens acolhiam recados dos anjos e dos demónios, por causa deles erguiam esperanças, alimentavam revoluções, depunham imperadores, cortavam cabeças. Mesmo os sonhos mais comezinhos e inocentes (os que vogam no interior dos olhos das crianças, por exemplo) potenciam desgraças, inquietam a castidade das paredes domésticas, abrem grandes brechas na terracota, juntam-se aos beduínos tresmalhadores, conspiradores, urdidores de guerras e de mártires.

As mulheres apertavam grandes lenços negros à cabeça, para que as suas noites fossem tão escuras por dentro como por fora, sem estrelas, sem luar, sem oníricas imagens e vozes que pudessem ser recordadas de manhã. Os homens prendiam aos pulsos grilhetas e pesadas esferas de chumbo, não fossem as suas mãos tentadas a levantar-se no imo do deserto e segurar as rédeas de um dromedário, o cabo de um alfange, a frente de uma rebelião. Às crianças amordaçavam-lhes a alegria, o entusiasmo, a euforia. Tão pouco lhes destapavam a boca durante o descanso, porque muitas vezes é na calada do sono que se lavanta mais alto o mais fundo e irreprimível dos destinos.

Foi então que nasceu a lenda. Alguém se lembrou de afirmar que comendo tâmaras se obtinha o silêncio e o segredo tão asperamente procurados por toda aquela geração de não-sonhadores. Era como a resina da goma arábica com que se calafetava os interstícios no adobe para impedir que os escorpiões penetrassem sorrateiros nos quartos. Comendo tâmaras, ficava a boca tão saciada e tão fechada quanto a gula do sultão quando lhe traziam jovens amantes para serenar as desconfianças e horrores noturnos.

Em todos os bazares do reino tornou-se este fruto mais procurado do que o ouro ou a seda. Transacionava-se um punhado de tâmaras secos por caxemira pura.

Por essa razão deixaram os pobres de poder comê-las. Por causa dessa fome, não puderam nunca os pobres deixar de sonhar.

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O casamento

Thierry Boitelle
Fotografia de Thierry Boitelle

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Era um nevoeiro tão intenso que a manhã parecia perder-se dentro de si própria. Mal se avistava o perfil das árvores e o campanário e o rio de álgidas águas que corria ali propínquo.

A noiva chegou. Dir-se-ia que o branco decidira engolir toda a cidade, deixando-a suspensa de cada passo que a conduzia das escadas à nave central e ao altar. Prisioneiras da galilé, laterais uma e outra, as estátuas de António de Pádua e da Virgem Maria. No rosto de ambos, reverbera a vermelhidão da chama das velas e círios que o sacerdote fizera acender. A catedral, vazia, gélida, perfeita, ecoava.

A noiva entregou a mão ao noivo e os dois as mãos ao padre que os casou. Ela tinha sido homem e era agora mulher. Ele tinha sido mulher e era homem agora. Assim se encontravam e apaziguavam, finalmente, seres e sexos transviados, errantes, renascidos dos abismos humanos. Deus, que tudo vê e sabe tudo, não se zangava com o seu corpo transformado, nem sequer com o ministro que no sacramento os unia com marido e mulher. Era uma catarse. Toda a cidade se limpava do esterco, da imundície das feias palavras e horrorosas ameaças que praticara com aqueles dois.

Nunca se vira um nevoeiro assim. Era como se um manto de futuro arrependimento se levantasse já da memória mais crua. Os olhos míopes nada viam ainda. Somente os olhos acesos dos santos ardiam, os da Virgem puríssima e os de António, padroeiro dos fecundadores.

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O presépio

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Pintura de Antonio Allegri (Correggio)

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Esperava-se nesse Natal de 1521 um milagre. Todo o Danúbio fora infestado de turcos, depois que Solimão tomou a cidade de Belgrado e se dispunha agora a despedaçar o reino da Hungria. Os otomanos espezinhavam e matavam, mas pior do que isso exigiam o horroroso devsirme, o tributo sobre o sangue. As crianças eram carregadas sem pingo de piedade pelos oficiais estrangeiros e levadas em cestos, à garupa dos cavalos ou das mulas; convertiam-nas depois à religião inimiga, transformando-as em máquinas de guerra leais ao sultão, esquecidas de tudo quanto tinham sido e de tudo que poderiam ter sido. Assim Solimão, o Magnífico, punia os cristãos, roubando-lhe a terra dos antepassados e deixando que os antigos filhos se transformassem nos castigadores vindouros.

Na ilha de Čakljanac, na pequena igreja bem a meio das duas margens do rio, alguém se lembrara de repetir a tradição do santo italiano de Greccio. Construíram, portanto, junto ao altar uma cabana com toros e colmo e dispuseram as figuras de barro. Eram figuras tão reais que a comoção se apoderou dos crentes e do padre. Rezava-se com lágrimas suplicantes para que os soldados do sultão não cumprissem o odioso imposto, e por isso as mães apertavam os filhos e ecoavam mais alto as palavras do pregador.                                                    

Da cidade de Nándorfehérvár tinha partido uma guarnição. E foi em muito má hora que ali chegou, nessa noite pura em que toda a aldeia se reunia para celebrar o nascimento do salvador da humanidade. Os brutais janízaros irromperam pelo templo e fizeram cumprir a determinação do califa e imperador, retirando-os pela força (erguendo os sabres, arreganhando os dentes, cuspindo impropérios) os rapazes que deveriam tornar-se, eles próprios, a futura guarda do sultão.

Conta-se que nessa noite, desse teatro de barro, madeira e palha, desapareceu misteriosamente para nunca ser encontrada a figura do Menino Jesus. Que todos as figuras adquiriram a feição pungente de um velório e que os próprios anjos tapavam o rosto com as mãos castíssimas que deveriam erguer-se em solene devoção.

Este presépio é, ainda, o mais bizarro do mundo.

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O pecado

Jochen Bongaerts
Fotografia de  Jochen Bongaerts

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Era um padre jovem. Gostava ainda de recordar as coisas que fizera na aldeia antes de ser ordenado. O pensamento vogava às vezes para a pontezinha sobre o qual contemplava o riacho, a água muito limpa, os alfaiates flutuantes, as algas adormecidas, os pequenos peixes escuros. Gostava sobretudo de apertar em ambas as mãos as bênçãos que se cruzavam no seu caminho: sementes de nêsperas e de tâmaras, bolotas, grandes castanhas vergonteadas, nozes, seixos polidos. Algo profundamente seu lhe inspirava essa ciência da palpação, como se o tato, o desocultar da pele, o ardor dos dedos conjugados, o fizesse compreender melhor os desígnios do Senhor.

Isso mesmo foi o que disse, quando o surpreenderam, ofegante, de olhos fechados, abraçando-a pelas costas, acariciava hipnotizado, com frémito, com volúpia, os belos seios de Irene, a moça que havia semanas o servia na paróquia.

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Fósforos

Fotografia de Svetlin Yosifov

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O velho recolhia todos os paus de fósforo que podia encontrar. Primeiro julgaram-no um desses artesãos que constroem castelos e navios. Mas ninguém lhe viu vez alguma arte ou obra, e por isso com o tempo passaram a ver nele um doido.

Os pequenos paus ardidos dão uma impressão bela do que é a nossa vida e do que a nossa morte é. Alguns são facilmente decapitados, outros mantêm inteira a cabeça cínzea e o tronco chamuscado. Unidos uns aos outros com paciência e vagar, eles erguem paliçadas, pontes, jangadas entre o reino dos vivos e o reino dos mortos. São como poemas escritos para durar um instante de milagre e para sempre de tristeza. É preciso compreendê-los.

Em dezembro, quando os dias se apagam mais cedo, muito próximo do Natal, encontraram o velho morto em casa. Jazia estendido no chão, no interior de uma gaiola gigantesca, composta por milhares e milhares desses encantadores pedaços de madeira queimada. Era um pobre mausoléu.

Nele se guardava ou prendia o velho, ninguém até hoje foi capaz de decifrar de quê ou porquê.

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O diospireiro

Fotografia de Ernesto Scarponi

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Nessa Consoada não houve neve, apenas chuva e vento. À volta da lareira não foram postos os potes de ferro, nem se escutaram vozes concordantes, extasiadas e nostálgicas. A velha cozinha recebeu somente um hóspede. Viera para cumprir o voto: enquanto fosse vivo, ainda que por uma noite no ano, aquelas paredes sairiam da ténebra e do silêncio e seriam adoçadas pelo brasume e pela sombra cada vez mais tremelicante das suas mãos. Tinha esse dever.

Sobre a longa mesa de pinho abriu a garrafa, desembrulhou o jantar, sentiu o abandono garroteá-lo, mastigou sem gosto. Os talheres enferrujados da casa, a lareira mascarrada e mal desentupida, a ausência de cânticos, a falta do aroma da canela pareceram-lhe a parte significativa e incompreensível do seu destino. Era o último, tinha essa obrigação!

Estendeu ao comprido do soalho, paralelo ao lume, um saco-cama, deitou-se nele e ao cabo de muito tempo adormeceu. Quando horas mais tarde abriu as janelas, foi surpreendido pela luz lavada, veemente, puríssima da nova manhã. Havia rútilos e revérberos macios e dolorosos, que os olhos aceitavam e rechaçavam ao mesmo tempo.

Saiu então para o pátio, caminhou pelo horto, andou no meio das ervas e das árvores, seguindo os regatos e os trilhos da murta. O cheiro do verde era tão intenso que em mais do que uma ocasião se sentiu compelido a descer as pálpebras e a aspirar em longos haustos o que da terra invisivelmente se erguia. A dada altura parou a contemplar um diospireiro. Estava ainda carregado de frutos: velhos e encarquilhados dióspiros, repletos de bolor, iluminavam os ramos quase secos, dando-lhe uma cor de cobre e de fogo e uma feição amicíssima.

O homem espantou-se. Não podia entender como, ao invés de todos os outros em volta, aquele diospireiro não tivesse sido despojado pela intempérie ou pelos pássaros famintos. Comovia aquela visão do tempo miraculosamente adormecido. Com algum esforço de imaginação, o homem conseguiu ver o desenho e o amor das árvores incontáveis que nessa altura do ano as crianças decoram com enfeites, luzes e flocos de algodão. Sentiu então que não estava só, que nalguma parte deste ou do outro mundo o aconchegavam.

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«O Moscardo» na Escola Secundária de Fafe

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Há pouco mais de uma semana, a Biblioteca da Escola Secundária de Fafe recebeu-me calorosamente em mais uma viagem de O Moscardo e Outras Histórias, praticamente na celebração do aniversário do seu lançamento.

Ora, é desse tempo e dessa viagem que se têm construído algumas das minhas melhores memórias recentes. Porque o livro, que se quis sem editora e imaculadamente meu, deixou e vai deixando de me pertencer, lido e analisado já por leitores de todo o país, de idades tão distintas como as que separam os meus jovens sobrinhos dos meus pais, de lugares tão diferentes como os que vão de uma amada aldeia incrustada na serra algarvia a uma universidade nos EUA ou a uma ilha do Pacífico.

No dia 28 último, alunos e professores do Agrupamento de Escolas de Fafe deram voz aos pequenos contos do meu livro, iluminando-a com a voz e a música e o teatro e a ciência da sua leitura. Chovia tanto nessa feia tarde de novembro. E foi (e já) uma memória tão bonita!

Ainda que pessoalmente haja agradecido ao Carlos Afonso e à Sara Freitas, ao Augusto Lemos e à Gabriela, à Esperança e ao António Joaquim, aos colegas de Departamento e aos que dele não fazem parte mas que quiseram assistir ao encontro literário em torno de O Moscardo, aos alunos das turmas 10.º J e 12.º M, aos funcionários envolvidos, reitero o meu muito obrigado!

Dessa sessão resultaram as belas fotografias que deixo em rodapé e a leitura da Sara Freitas que hoje publico (bem-hajas, Sara!) e que passará doravante a pertencer ao arquivo crítico desta página.

Posso somente, e em jeito de súmula, desejar que este grande inseto (António Joaquim Gonçalves lembrou oportunamente o significado do moscardo, animal espezinhador dos camponeses) continue a voar. E a perturbar o nosso silêncio.

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Tocata e fuga

Foto de arquivo pessoal (2019)

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Daqui avista-se mar e rio.

O mar e as formações rochosas que descem do paredão até à linha dos seixos e à espuma. Se por elas saltitamos, vemos charcos salgados e pequenos tufos de funcho-do-mar (resistindo a tudo, semelhantes a borracha), e muitas vezes o pôr do sol. Em cima, no parquezinho onde o verde dos chorões se ilumina todo o ano, perfilam-se as autocaravanas dos turistas estrangeiros, automóveis com casais de meia idade em silêncio, às vezes um ou outro solitário cismando ou o cano de uma objetiva sobre um tripé. Em baixo, no abismo do grito das gaivotas, o eco da rebentação, o chiar da areia quando as ondas recuam, a linha da água encapelando-se, embatendo nos rochedos, esbranquiçada, mansa e violenta, até ao ponto de focagem em que o céu, as nuvens e o sol nela se fundem.

Mas também o rio e a cidade, também esta neblina que agora se ergue da praia e torna mais belos, quase feéricos, os pontos de luz ao longe, nos postes elétricos, nas janelas banhadas pela claridade azul dourada do fim de tarde, essa cortina de vapor que nos confunde as formas e as cores e se entranha na roupa. O rio que é decerto não mais do que um rodapé sobre o qual os nossos olhos distantes principiam a derivar da realidade, a fantasiar, a narrar o mesmo sonho de sempre («Um dia hei de aqui viver!»). A cidade que tão bem se conhece, mas que nos parece outra, tranquila assim, adormecida, silenciosa da Foz à Ribeira, da Ponte D. Luís ao farol e à pérgula, ao terminal de cruzeiros, à refinaria e às praias de Leça, ao fundo, além, na penumbra já.

Fujo.

Os meus sábados são (por esta altura da existência) lugares. Em cada um deles coso e descoso e volto a coser uma certa pele vadia que me acompanha desde criança. Gosto de me perder nas paisagens, de me esquecer nelas, de me redescobrir vivo no silêncio e nas coisas que toco com mãos livres e ávidas.

Como Bach, como Pessoa, como van Gogh ou Sorolla (que comparação esta!), componho, escrevo e retrato em simultâneo. E compondo, escrevendo, retratando (verdade ou fantasia, não importa), sinto-me aconchegado a outro eu que neste espaço e neste tempo deseja permanecer (um dia) para compor, escrever e retratar mais dentro, mais profundamente, mais em paz consigo mesmo, feliz de se juntar à maresia, ao areal, ao frio, às silhuetas que aqui (ao crepúsculo) se multiplicam e renascem e hão vir muitas vezes para matar a morte que lentamente os mata, como a mim a morte me mata sem pressa. É algo como uma concha mental e cardíaca. Um dia hei de aqui viver!

Fujo, portanto.

Os meus sábados servem para caminhar pela costa, para me deliciar com plantas e aves a que raros prestam atenção, para criar poemas que ninguém lê, para fotografar os avanços do oceano e da velhice na minha vida.

Por muito que me esforce, não consigo transferir para as palavras esse maravilhamento. Seria prudente, como Caeiro, ficar-me pelo sentir. O amor que me permite disparar o flash é à prova de grandes discursos. O mar e o rio, as ondas e a cidade, a neblina e o frio que se levantam deste sábado, neste miradouro, são talvez um prémio, a recompensa de dias difíceis que me pedem mais do que me posso dar.

Talvez seja algo que nos acontece a todos: perdemos aos poucos o controlo do quem somos e do que fazemos. Talvez nos sobre esta nesga de ilusão, este clarão que se acende quando o dia se apaga e o lusco-fusco transforma tudo numa enorme presença cósmica. Talvez este banco de pedra, onde me sento, seja aquele umbigo do mundo a que chamavam na Antiguidade «ônfalo» e punham dentro de uma gruta habitada por uma sibila.  Talvez, como eu, milhões de humanos precisem de fugir de si uma vez por semana para de novo se reconhecerem na mais ampla e formidável escuridão.

Daqui avista-se o mar e o rio. O que quer que eles signifiquem.

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