Kanenori
Fotografia: Kanenori

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Nesse ano a primavera manifestou-se muito cedo.

Em meados de dezembro, em vez do frio e da chuva, os aldeãos, veem as mimosas a amarelar e no mês seguinte já as magnólias vão despontando, tal como a flor das cerejeiras. Não chove e o sol atordoa as velhas, que se põem a namorar os pássaros debaixo das parreiras cobertas de glicínias.

– Isto é o fim do mundo! – repete aos saltos um doido sem eira nem beira.

Os anciãos benzem-se, os novos (se os houvesse) não se interessariam nem por estes, nem por aquele, tão pouco pelo cio precoce dos pardais que enchem os telhados. Em que pensam os novos nunca se saberá, sobretudo se os não há por perto.

Aqui tudo o que é longe não existe. Os benefícios da civilização pararam na eletricidade e na água que cai das torneiras. Antes era preciso andar de cântaro ao ombro e acender velas e candeeiros de petróleo. As modernas formas de escravidão ainda não chegaram aqui. Todos caminham de olhos levantados e falam diretamente pelo ar, de porta para porta, ou da rua para a janela, no meio dos campos, entre cancelos e taludes. Há somente um telefone, que toca uma ou duas vez por semana. Por ele mantém-se a aldeia informada das novidades de fora e os forasteiros inteirados da normalidade das coisas por cá.

Um pequeno arroio atravessa o amontoado de casas. Nos dias gélidos sobe por ele um vapor puríssimo formando uma cortina esbranquiçada, que durante a noite (acesa pela claridade da lua) se estende pela paisagem, penetrava as frinchas de xisto e se acerca das camas. Todos aqui estão acostumados a esta presença óssea.

– Isto é o fim do mundo! – repete, cheio de entusiasmo, o doido dos saltos.

Caminhando sem pressa, com a foicinha entalada na omoplata, um dos idosos transporta debaixo de um braço a erva para o gado. Outro põe carqueja sob a trempe para acender a lareira. Uma das senhoras, ainda com olhos jovens, tricota uma tira de lã grosseira (sabe Deus o que dali virá).

O silêncio envolve todas estas imagens. O silêncio é um manto poderoso. Se algum destes moradores geme, ou chora, ou fala em voz alta para que os ouvidos oiçam uma voz, não o escutam os outros. O silêncio esconde decerto o grande pensamento comum: este estranho fenómeno da primavera vinda tão fora de tempo.

Os perfumes do gelo e da lenha molhada (natalícios por direito próprio) não vieram. Em vezes deles, a paisagem cheira à tépida alegria de março, às mornas flores de abril.

– Isto é o fim do mundo! – há de repetir, ainda, o doido dos pulos.

Nós, que nada compreendemos de coisas raras e estranhas, diremos que o mundo está voltado do avesso. Nem o Paraíso escapa.