. «Não suporto gente desprovida de talento» repetia o Sr. Administrador. Aquelas tempestades porta adentro metiam medo. Éramos todas raparigas engraçadas, escolhidas a dedo. Todas recrutadas nas melhores escolas industriais da região, política da empresa, bonitas, muito asseadas, com o curso feito. Um orgulho. O Senhor Administrador, com aquele ar severo, até se esquecia de …
O homem que pedia cigarros
. O homem chegou e sentou-se na mesa ao lado. Suspirou. Fê-lo tantas vezes e tão fundo que conseguiu a minha atenção. Foi o bastante. Endireitou a posição da cadeira de modo a ficar mais próximo. Sorriu. Pediu um cigarro. Dei-lho. Não tardou a contar-me a sua vida. ‒ O meu problema são estes dentes …
O António
. Estou a vê-lo, ao pé de mim, a desembrulhar consoladamente caramelos de fruta, sentado na soleira da porta, com as calças arregaçadas, socos nos pés, a tesoura da poda presa à ilharga, numa presilha de couro, como um polícia com o cassetete. Nunca compreendi essa necessidade de ter sempre à mão a tesoura da …
Um passeio a pé
. Princípios de setembro ao cair da tarde: o outono enviou já os seus emissários. Para lá das portas das casas de pedra, desde o fundo dos lagares, emerge e vibra como uma corda de guitarra o aroma intenso do mosto. Embrulhamo-nos nele como num antigo provérbio: por onde os nossos passos vão, ele acompanha-nos …
Jorge Luis Borges
. O que têm em comum João de Panónia e Aureliano de Aquileia, o missionário David Brodie e o romancista Pierre de Menard, o assassino Avelino Arredondo e o poeta Ollan, a bela Ulrica e Abenjacan (o Bohkari), a vingadora Emma Zunz e um velho professor de Cambridge, que fortuitamente encontra o seu duplo jovem, …
Avós
. Tive a felicidade de conhecer todos os meus avós e a infelicidade de os ver partir a todos. O primeiro a deixar-nos, o pai de minha mãe, morreu com cancro não tinha completado cinco anos. A minha avó paterna despediu-se quando tinha vinte e um. Passou-se tudo há tanto tempo. As memórias filtraram os …
Um homem desempregado
. A fila no Centro de Emprego é uma lombriga roendo as entranhas desde o começo da manhã. Passam centenas de automóveis, os autocarros da Carris, os táxis, os peões, a meia dúzia de biciclistas matutinos, as carrinhas cheia de pressa dos correios, outras centenas de automóveis, uma ambulância histérica, os idosos agarrados aos andarilhos, …
Espécie de elegia
. «A coisa mais triste do mundo é assistir ao espetáculo de um humorista que perdeu a piada» disseste certa vez enquanto empurravas o charuto com a língua e humedecias as palavras com bourbon do forte. «Assistir a uma trampa destas pá, que tristeza!» Não me lembro do nome do artista nem das anedotas que …
A propósito do absurdo
. Um homem precisa apenas de escolher um banco e de sentar-se. Precisa de ficar atento, esperar, justapor os factos. Em breve estará tão saturado deles que a sua impressão da cidade e do ser humano terá sofrido uma sensível mutação. Um cachorro é atraído à porta de um talho. Hesita, olha desconfiado, as patas …
O ato terminal
. Ao colocar na varanda a sua bela orquídea, é possível que na cabeça dessa mulher tenham surgido pensamentos complexos. «Da próxima vez que tocar este vaso já muita coisa terá passado». «Se voltar a ver-te, minha querida orquídea, é porque a vida deu uma lição de força em que jamais acreditei». «Quantas vezes entre …
Cada poema é um Big-Ban prodigioso
. «Só nos meus poemas encontro morada» escreveu Jan Jacob Slauerhoff. Cito-o por não precisar de outras palavras para dizer exatamente o mesmo, por comodidade portanto. Mas por defesa também, para não me servir de argumentos mais terríveis para justificar a franciscana fortuna que juntei em quase quatro década de vida. Aos muitos que se …
Cada um de nós viaja para o lugar de todos
. . No preciso instante em que o autor destas palavras escreve a vírgula à direita, zarpa em direção a um ponto cada vez mais minguado no horizonte um batelão. Nele vai um moço de quem me afeiçoei nos últimos anos, moço generoso, antigo aspirante a um posto na Marinha, com ideias próprias, porém com …
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O dia em que me ensinaste a voar
. Foi há tanto tempo que começo a duvidar se esse dia realmente existiu, avô. A memória das coisas e a memória dos sonhos às vezes flutuam tão perto que deixamos de as distinguir. Queria ser igualzinho a ti. Usar uma bengala, como a tua bengala. Segurar na cabeça uma boina de feltro escuro, como …
Uma maçã
. Houve um momento na minha vida em que as expressões «cirurgia», «recobro», «cuidados intensivos», «cateter», «convulsão», «estável» e outras afins foram estranhamente próximas. Estava desempregado, mas isso não era importante. A minha namorada quis acabar tudo: eu esqueci-lhe o nome num mês. Lembro-me é do hospital. Das zonas húmidas. Dos cheiros seguindo-nos pelo corredor …
Só para te agradecer, Vicente
. Gosto da tua maneira simples de pensar. Simples, clara, objetiva. Entras-nos pela vida dentro como um canalizador, trajando fato-macaco, com a mala das ferramentas na mão, verificando o problema, passando os dedos pela comissura da boca e, antes mesmo de haver a possibilidade de uma queixa, atirando a resposta. ‒ O teu problema, Zé …
