Foto: S. J. Carter
Foto: S. J. Carter

Houve um momento na minha vida em que as expressões «cirurgia», «recobro», «cuidados intensivos», «cateter», «convulsão», «estável» e outras afins foram estranhamente próximas. Estava desempregado, mas isso não era importante. A minha namorada quis acabar tudo: eu esqueci-lhe o nome num mês.

Lembro-me é do hospital. Das zonas húmidas. Dos cheiros seguindo-nos pelo corredor como fantasmas. Das janelas gradeadas abrindo para um jardim inculto, onde gatos tristes miavam para nós com infinita tristeza. Lembro-me dos botões do elevador, das dedadas no espelho, dos restos de fita-cola onde antes teria existido um AVISO da administração. Lembro-me finalmente dos maxilares, que me doíam ao aproximar-me do quarto onde o meu pai convalescia. Lembro-me do odor intenso a cremes gordurosos, a emplastros e compressas, a óleos e loções usados na enfermaria da secção de Cirurgia Plástica. Esses cheiros ainda hoje os sinto, como sonhos complexos transbordados dalgum depósito da minha memória.

As mais das vezes sentia-me só, desamparado, alvo desse cruzar de rostos que é como o entrechocar de pedras no espaço. Sentia-me só. Desamparado. As árvores lá fora continuavam árvores, os aviões os mesmos aviões riscando o céu, a cidade a mesma cidade. E, porém, eu sentia-me profundamente desamparado e tudo era diferente, como se as árvores fossem outras árvores, os aviões outros aviões, a cidade uma estranha paisagem insuflável, tremendo debaixo dos meus olhos.

Vivida na primeira pessoa, alimentada pelo nosso coração, uma história é realmente HISTÓRIA. E, tal como sucede a uma povoação dizimada por um terramoto, por uma tempestade, por um incêndio descomunal, a minha história era já uma vida nova a recomeçar, enxertada numa existência em ruínas.

Aconteceu-me ser surpreendido um par de vezes por circunstâncias ainda mais extraordinárias do que as que vivia já ‒ até no decurso de um cataclismo se pode alcançar uma certa normalidade. Aconteceu ser surpreendido pelo lugar vazio onde esperava ver um doente abatido e traumatizado. «Complicações» é o nome que se costuma dar a este tipo de surpresas. Nunca as visitas chegam a perceber bem as causas e os efeitos imediatos das ditas «complicações», nem o que nelas há de incúria e incompetência dos serviços hospitalares, que se defendem e escondem num emaranhado vocabular, repleto de tecnicismos e impessoalidade. As visitas compreendem apenas a gravidade das coisas com duas singelas, cruas, desumanizadas frases:

‒ Sinto muito! Houve uma complicação!

Habituei-me ao vagar das horas. Ao desfilar dos pijamas e dos adesivos em cruz. Ao ar zangado das batas brancas. Ao ar insosso dos tabuleiros com massa e ervilhas. Aos gatos tristes lambendo-se entre os arbustos feios. À luz fria das ambulâncias. Habituei-me à solidão das máquinas de café. Ao desamparo dos grandes relógios do corredor. Às viagens de cá para lá na autoestrada sombria.

Havia uma médica bonita. A única boa impressão daquele lugar naquele tempo era os olhos rasgados da médica anestesista. Havia um banco comprido, de madeira, anacrónico, no meio do corredor. Uma ou outra vez nos sentámos juntos para o «ponto de situação». Era uma médica metódica, incapaz de multiplicar palavras acessórias. Para exemplificar e ilustrar o que dizia socorria-se de um bloco de notas, onde desenhava órgãos e sistemas e metabolismos e crises, com setas e sinais de movimento, como se veem nos manuais de Medicina. Tratou-se sempre por «você», embora não existisse entre nós diferença de idade. Tratou-se sempre por «você», mesmo sem ter usado a palavra «você» uma única vez. Quando pretendia conversar comigo mais a sério pedia a uma enfermeira que chamassem «o filho». Abria a porta do seu gabinete com um sorriso formal, forçado, diplomático; fazia com a mão o sinal do «entre», do «sente-se», do «oiça-me, se faz favor». Começava sempre (começou sempre) por um «receio não ter boas notícias». Lembro-me que o desamparo era maior junto da médica bonita. Lembro-me de a minha cabeça vogar à toa, aturdida pelos prefixos e sufixos atarraxados a palavras dolorosas, meio enigmáticas, totalmente desconhecidas… Lembro-me de pesquisar, de ver dia após dia dissiparem-se os últimos farrapos de inocência. Vivida na primeira pessoa, alimentada pelo desespero, todas as histórias se tornam cicatrizes, cicatrizes indeléveis e imortais…

Certo dia, quando atirava a cabeça para dentro das mãos, como se atira uma bola de basquetebol, quando penava no mesmo banco anacrónico a meio do corredor, quando esperava que as lágrimas renunciassem ao ofício fácil de saírem da toca obscura, sentou-se na outra ponta um dos sujeitos de pijama e robe da ala norte. Olhei-o por entre os dedos, apanhado pelo desconforto da sua presença. Era um homem de meia-idade, como o meu pai. Um homem com um horroroso penso a meio da garganta, franzino, barba mal aparada, farripas desgovernadas e oleosas, olhar vazio, alma caída sobre uns chinelos comuns de quarto. Senti ímpetos opostos: levantar-me, ficar, cumprimentá-lo, esperar que fosse embora… Na verdade tinha uma vaga ideia do indivíduo. Alguém me dissera algo sobre ele não «bater bem da cabeça». Não pude confirmá-lo. O facto é que o nosso silêncio, o seu olhar vazio, o mútuo desconhecimento, o tê-lo na outra extremidade do mesmo banco curto e anacrónico tornava o instante demorado e embaraçoso. Inesperadamente ouvi estas palavras perfeitamente inesquecíveis:

‒ Não faz ideia das saudades que eu tenho de comer uma maçã!

Endireitei a cabeça. Julgo que o tronco também. Tenho a certeza que todo o meu ser (de alto a baixo) se endireitou. Considerei o homenzinho com surpresa, estupor, perplexidade. Considerei o curativo sobre a laringe, o olhar espetado contra a luz magra do outono, o robe de malha impregnado de todos os odores que faziam daquelas quatro paredes enormes um território devastador.

‒ Não pode comer maçãs?

‒ Pois não…

Seguiu-se um silêncio duplamente comovido. Infeliz.

‒ Pois não… Há dois meses e meio que não provo sólidos… tiraram-me um cancro… nem sequer fumava muito, sabe?… agora não posso comer coisas duras…

Licenciei-me em Línguas e Literaturas, venci prémios escolares e literários, fui aclamado em comícios políticos, assinei ensaios, fiz pós-graduações, dei aulas durante a centenas de alunos… Era ali, contudo, um osso lascado, um pedaço de tijolo, uma coisa inerte. Não pude erguer uma só palavra sábia, razoável, de conforto.

‒ Passo bem sem as outras coisas… mas das maçãs, não faz ideia! Sinto cá umas saudades de comer uma…

Nada pude dizer. Pela primeira vez na minha vida percebi na boca, na cabeça, nas entranhas, uma voragem de palavras e pensamentos. Incapaz de dizer, como hoje sou incapaz de calar: o homem, sempre com o mesmo olhar vazio, sempre com a mesma tristeza, leve como empalhado, levado pelo mesmo vento silencioso que o trouxe, foi-se afastando pelo corredor, passo lento, cada vez mais frágil, cada vez mais gravado na memória.

O meu pai regressou a casa após um mês e um dia de internamento. Do sujeito pouco pude apurar depois disto, sequer o nome, sequer o resultado da sua luta. Penso muitas vezes na maçã que lhe apetecia, na maçã que desprezamos dia após dia, enquanto nos distrai uma multidão de coisas inconfessavelmente estúpidas, superficiais, inúteis. E sei (há sempre uma lição, com sublinhado, no final das melhores histórias) que uma vida completamente nova irrompeu em mim, nascido em algum baldio da alma, vinda pela boca de algum anjo da guarda: quem sabe, quem sabe…

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