Serban Mestecaneau
Foto: Serban Mestecaneau

Gosto da tua maneira simples de pensar. Simples, clara, objetiva. Entras-nos pela vida dentro como um canalizador, trajando fato-macaco, com a mala das ferramentas na mão, verificando o problema, passando os dedos pela comissura da boca e, antes mesmo de haver a possibilidade de uma queixa, atirando a resposta.

‒ O teu problema, Zé Carlos, é que te metes sempre com miúdas… Estás a precisar de uma gaja a sério…

Peço-te para falares mais baixo. Há gente a olhar. O que não se dá hoje em dia por uma boa novela ao vivo e a cores? Mas tu ignoras os decibéis apropriados a uma intervenção de fundo em áreas tão sensíveis. Tu és mais de descarregar a ferramenta toda, de te pores à volta dos canos martelando-os com uma chave de fendas, franzindo o sobrolho a cada pancada seca, fazendo aquela careta de quem está prestes a dar com a ratada), tu és daqueles que não engonham, dos que têm sempre uma imensa certeza profissional.

‒  Meu amigo, isto é assim: ou mandas tu, ou mandam elas! Mulheres e carros são iguais: as novas trazem mais eletrónica, mas deixam-nos ficar mal em qualquer barranco… Já as velhas, pá; as velhas aguentam tudo! Até levar no…

‒ Caramba, homem! Fala mais baixo…

Sei que no fundo tens razão. Sei que no fundo sou um fraco. Quando me divorciei da Dulce as coisas pareceram-me o fim do mundo. Mas tu, qual anjo do Apocalipse, apareceste carregando uma trombeta dourada.

‒ Olha-me só este marmanjo! Só te falta chorar e pedir que te limpem os moncos!

A princípio odiei-te. Odiei-te como se odeia um inimigo. Quis esmurrar-te a cara. Tive ganas de exigir respeito. De marcar território. Mas sou no fim de contas um fraco. E tu tens o diabo do calão e os trejeitos de um cómico a teu favor. Falas das coisas como se passasses descalço pelas brasas sem te queimares. Sabes fazer-nos a caricatura sem maldade, mas com malícia.

‒ Meu amigo, isto é assim: as gajas são como as caldeiras de aquecimento. Primeiro avaria-se o radiador, depois a bomba de circulação. Quando dás por ela fodeu-se a centralina, depois a sonda da temperatura, por fim o acumulador… Por muito que queiras consertar a coisa, aquilo já não aquece. Mais te vale comprar uma nova! Entendes-me?

Sei que no fundo tens razão. As coisas não podem marcar-nos para sempre. Um indivíduo precisa de levantar a cabeça, entender-se consigo mesmo, rebuscar o sopro das coisas passadas, encarar o futuro, vencer… Mas eu sou daqueles que preciso de um empurrão. Sou daqueles que só lá vai com um pontapé no traseiro. E quando te peço a opinião já a conheço. Adivinho sempre o que dirás, mas preciso de escutar tudo. Preciso que fales grosso, que me agarres pelos colarinhos, me insultes, me ponhas em sentido.

‒ Mas porque te enfias tu na cama com essas tipas mimadas, pá? Nunca ouviste dizer que quem se deita com miúdos…

‒ Acorda molhado…

‒ Mijado, Zé Carlos! Acorda todo mijadinho, pá!

Conto-te as coisas, explico o desta vez, defendo-me. A voz às vezes treme, some-se. Quero falar grave, mas um soluço vem espreitar como a cabeça de uma lagartixa. E tu, que és um tipo impecável (tolo, mas impecável), lá me confidencias coisas que talvez sejam mentira…

‒ Pá, a Dulce está um caco! Dá-se mal com o outro gajo… Vi-a há duas semanas… Está um caco, pá!

Os amendoins custam mais a engolir. A cerveja parece ferver. Porcaria de cerveja. Fazem-na cada vez pior… E tu dás a estocada final.

‒ Sempre te digo que tipos como tu merecem o melhor! As gajas gostam de bater com a cabeça, pá… Problemas delas… Tu mereces melhor!

Nunca te disse isto. Mas preciso de dizer que te admiro! Nunca to disse, mas hoje vou dizê-lo. Mereces que to diga isto como se diz uma mariquice, como uma golfada de água límpida e abundante, vinda lá das entranhas da terra.

‒ És um tipo impecável, Vicente!

‒ Ora, deixa-te lá de coisas!… Então, pá? Que é isso?…

Porque a vida nos faz viajar quilómetros. Porque a vida nos empurra devagar e ao mesmo tempo depressa, como se empurra uma manada, para o centro do seu próprio labirinto. E um indivíduo acorda às vezes com a sensação de já não conhecer o caminho de volta.

‒ És um amigalhaço Vicente!…

‒ Está bem, está bem… Deixa-te de coisas, pá…

Porque às vezes acordamos com aquela sensação de habitarmos um inferno. E o inferno é (ou tem-me parecido), a alienação, o esquecimento, a perda. E quando sabemos exatamente o que vale ao todo a nossa existência ficamos a olhar do alto de um abismo a pequenez que nos coube em sorte.

E por isso gosto da tua maneira simples de pensar. Simples, clara, objetiva. Entrando-nos pela vida dentro sem tardar e sem filosofias, como um canalizador com a mala das ferramentas, mastigando o palito, confiando o bigode, sabendo antes mesmo de ver de ver o problema a solução.

‒ Precisas de uma mulher a sério, Zé Carlos!

‒ Preciso, Vicente! Preciso, sim!

Porque às vezes acordamos com aquela sensação de habitarmos um inferno. E mal podemos imaginar o anjo da guarda que, miraculosamente, algo ou alguém guardou para nós. Mal podemos imaginar… mal podemos…

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