Foto: Adalena
Foto: Adalena

 «Não suporto gente desprovida de talento» repetia o Sr. Administrador. Aquelas tempestades porta adentro metiam medo. Éramos todas raparigas engraçadas, escolhidas a dedo. Todas recrutadas nas melhores escolas industriais da região, política da empresa, bonitas, muito asseadas, com o curso feito. Um orgulho. O Senhor Administrador, com aquele ar severo, até se esquecia de dizer «Bom dia». Entrava e era o pânico!

Lembro-me bem. Exigente, coca-bichinhos, sempre a catar o erro ortográfico, o acento a menos, a vírgula a mais, muito perfumado (colónia 4711, explicava a Genoveva, que nessas coisas sabia mais do que as outras!), sempre muito autoritário… O perfume invadia as mesas alinhadas, fazia ricochete nas teclas e nos carretos, atingia as folhas dactilografadas. Mesmo nas nossas costas, nós víamos o Sr. Administrador da cabeça aos pés, altivo, louro, com os óculos de osso, olhos azuis, lindos de morrer, o rosto impecavelmente escanhoado, o casaco escuro, com o monograma dourado, os sapatos de pele. Tão novo, o Sr. Administrador. Tão adulto. E nós temíamos-lhe as entradas de rompante na Secretaria. Adorávamos que entrasse.

Nós, raparigas escolhidas a dedo. Tão indefesas. Prestes a quebrar. Aquele perfume do punha-nos a cabeça a andar à roda! Aquela voz autoritária, sem se exaltar, aquele sotaque estrangeiro, arrastando os erres, «Não suporrrto gente desprrrovida de talento». E nós cheias de susto. Nós muito felizes, sempre à espera que o Sr. Administrador entrasse. E nos olhasse olhos nos olhos. E nos bafejasse com o hálito fresco da pasta medicinal. E nos dissesse «Isto precisa de ser retificado!» Ah, aquele sotaque ficava no ouvido: «Prrrecisa de prrrestar mais atenção, Alzirrra!»

Eu queria ser atriz. Mas não pude. Queria ter sido escritora. Mas não me deixaram. Nem professora. Nem hospedeira da TAP. De modo que dei por mim a chorar no princípio. Mas depois habituei-me. Depois gostei um pouco mais. Trabalhar na empresa era uma espécie de passaporte. Abria-se portas com o cartão, a fotografia, o número mecanográfico, a assinatura maravilhosamente caligrafada do Sr. Administrador no cartão: Hans Emanuel von Rosenstock! Ia-se ao médico e havia um aceno de aprovação. Ia-se a tribunal e havia uma vénia respeitosa. Na paróquia, ao fim de semana, davam-me passagem. A empresa era um mundo à parte. O Sr. Administrador, como todos os alemães da sua família, tinha muita aceitação. E nós, que o detestávamos a princípio, começámos a gostar do Sr. Administrador. Algumas de nós, quer dizer praticamente todas, ou seja todas, tínhamos aquela fantasia das meninas. Sonhávamos em segredo, sem mostrar a pegada.

O meu pai queria-me para o Ricardo. O meu foi engenheiro na FRINIL antes de se reformar. E o Ricardo, que era engenheiro também, ficou no lugar do meu pai. Bom rapaz. Vinha lá a casa, trazia doces, trazia flores, gostava de conversar com o velhote, de o consultar, de beber aguardente, café e chocolate Toddy. O Ricardo era segundo a minha mãe «O melhor de dois mundos». Bonito, elegante, nunca dizia palavrões, era do Sporting, não se metia na política, ganhava bem…

Mas a Genoveva confessou-me que o Sr. Administrador gostava de uma de nós. Como o sabia ela? Fácil: a Genoveva sabia sempre tudo! Aquela amiga do Barreiro, que lia as cartas, dava-lhe todo o tipo de informações. Além disso, a Genoveva tinha amigas nas duas margens e pelo país fora. Havia sempre uma que a ajudava a resolver um problema. Se era por causa de um negócio, ligava «àquela que trabalhou no gabinete do Doutor Teixeira Pinto». Se precisava de uma consulta de otorrino, lá seguia com o dedo o número apontado na agenda. Se era um ajuste de contas, telefonava a uma amiga que conhecia um amigo que mexia os cordelinhos na Polícia Internacional. E eu admirava e temia a Genoveva, sempre tão expedita!

Pois a Genoveva garantiu-me uma vez, enquanto vertia o chá e eu me engasgava com o bolo de limão, que o Sr. Administrador gostava muito de uma de nós em segredo. O Ricardo também me amava em segredo. Quer dizer, não tanto assim. Porque, ao contrário do Sr. Administrador, o Ricardo era um pouco infantil e trapalhão. Babava-se a comer, fumava Kentucky, e começava muitas vezes frases por «O que uma mulher precisa». E nunca acertava! De resto, era um rapaz jeitoso. Percebia muito de contas e de cabos elétricos. O meu pai estimava-o. A minha mãe insistia:

‒ Este rapaz é o melhor de dois mundos, Alzira!

Não tivesse queimado os meus diários, saberia dizer a data certa em que aquilo foi… Eu escrevia. Poesia, diários, coisas de rapariga… Muitas vezes pensei no cabelo loiro, nos olhos azuis, nos lábios finos de serafim, no hálito limpo do Sr. Administrador. Estava sozinha na Secretaria, ele entrava de rompante, ficava mudo, com uma folha nas mãos, olhava-me olhos nos olhos, e depois agarrava-me, beijava-me com fervor, confessava:

‒ Querrro-te, Alzirrra! Querrro casarrr contigo, Alzirrra!

Mas eu queimei tudo. Foi na altura em que o Doutor Oliveira Salazar ficou doente. A minha mãe também ficou doente nessa altura, uma desgraça nunca vem só; estava tão certa de que a minha vida ia mudar para sempre… A Genoveva convenceu-me a ir com ela ao Barreiro. As cartas diziam tudo. Via-se o destino nelas tão nitidamente como se vê do Cristo Rei uma mulher a estender a roupa numa janela de Alfama nos dias de primavera. O Sr. Administrador amava uma de nós, ia deixar a mulher, preparava-se para desafiar as leis dos homens e de Deus… E eu tinha a certeza que era de mim de que ele gostava!

‒ Este rapaz é o melhor de dois mundos, Alzira!

E eu sonhava com a proeza. Sonhava acordada, por causa das insónias. Sabia que aquela embirração, aquela dureza, aquele modo de me repreender não passava de fogo de vista. Podia jurá-lo. Podia senti-lo. Em breve me tomaria nos braços. Quase vomitava com a ansiedade. As minhas colegas iriam odiar-me. O Ricardo iria odiar-me. Os meus pais iriam odiar-me. Mas o apelido von Rosenstock podia muito! Depressa me perdoariam, me admirariam, me temeriam!

Foi quando a bomba caiu. O Sr. Administrador, o admirável empresário a quem os ministros e bispos vinham com mãos ambas apertar as mãos, fugiu do país. Fugiu para o Brasil. Fugiu é uma palavra excessiva. Talvez deva ficar-me por um esgueirou-se. Viajou. Na bagagem levou milhares de contos de reis, os nossos salários, os lucros e as dívidas da empresa, o futuro e a Genoveva!

‒ Querrro-te, Alzirrra! Querrro casarrr contigo, Alzirrra!

Chorei todas as noites durante muitas noites. O Ricardo vinha, como um cachorro triste, consolar-me. Havia de encontrar outro trabalho. Ele mesmo metera uma cunha na CUF. Depois bebia aguardente com o meu pai, depois café de chicória com a minha mãe, depois chocolate quente comigo:

‒ Este rapaz é o melhor de dois mundos, Alzira!

De modo que nunca mais acreditei em adivinhos, bruxos, videntes, astrólogas, cartomantes, quiromantes, magos e médiuns. Casei-me com o Ricardo, com quem fui sempre infeliz, a quem nunca dei um único filho, com quem nunca partilhei afinidades, a quem nunca perdoei que fosse mole, meigo, bom rapaz! O Ricardo morreu há dez anos. A Genoveva morreu há um ano, contaram-me. O Sr. Administrador, regressado ao país entretanto, morreu ontem. E a mim, que não chorei a morte do Ricardo, a quem a morte da Genoveva nem alegrou nem entristeceu, doeu-me como uma facada a notícia…

‒ Querrro-te, Alzirrra! Querrro casarrr contigo, Alzirrra!

Nunca ter recebido aquele tratamento por tu do Sr. Administrador, ter sido desprovida de talento (daquele talento que torna uma mulher mulher, amada, desejada, única, divina!), agora que o levam, balançando no caixão, dói-me como a minha própria morte… Queria ser atriz, escritora, professora, hospedeira, mulher, mãe. Quis o destino que tudo isso fosse com os diários para o fogão. Talvez as cartas mo tivessem revelado, acreditasse eu em adivinhos, bruxos, videntes, astrólogas, cartomantes, quiromantes, magos e médiuns. De modo que dou por mim a chorar outra vez. Mas depois habituo-me. Tenho a certeza que sim. Tenho a certeza que sim…

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