Pobrezinhos velhinhos

. As casas dos pobrezinhos começavam ao pé da escola primária. Eram pequenas e coloridas, com portas e janelas sempre abertas e soleiras maravilhosamente gastas, onde se vinham sentar, à vez, os pobrezinhos e os cães dos pobrezinhos. Havia muitos cães diferentes, porque havia também muitos pobrezinhos. Que eram sempre muito atenciosos. Apesar de pobrezinhos, não lhes faltava que dizer …

Bêbedos

. Nesse país cada vez mais intocável e sagrado, havia gente boa e má (como houve e haverá sempre em todas as eras da humanidade) e havia os bêbedos, que eram uma porção à parte, lendários pelas façanhas e pelo sofrimento, cuja postura errante (quase sobre-humana) lhes não permitia caber com rigor em nenhum dos …

A última vez

. para a Ângela, in memoriam . Entrei no hospital dominado pela vertigem da fraqueza, por imagens incontáveis, em ebulição, incapazes de fabricar entre si um único pensamento. Suponho que fiz um esforço, que soube manter-me firme. O maxilar dorido. O coração acelerando. As mãos subtil, sub-repticiamente suando. Disseram-me «Coragem, João». Nos corredores as pessoas choravam. Disseram «Aqui é sempre …

Gosto do silêncio

  «Os olhos percutentes encontram os meus. Quem diria que são olhos dormentes? O silêncio. O silêncio. Quando o azul desce, e se transforma no negro chumbado da noite, acende-se sobre ele uma densidade que o protege, e lhe permite continuar a vadiar. Convido-o para o meu quarto, que se desfaz na espuma do texto.» Maria …

A solidão

. A televisão ainda ligada não tem réplica. O som atravessa as paredes, evapora-se ou subsome-se, não sei, transforma-se em rumor, decompõe-se em nada ou alcança o tudo, não sei. Sobre o sofá o homem respira. O sofá é invólucro da mesma tristeza: ganhou as formas do corpo, prende-o, afunda-o, dita-lhe uma espécie de submissão. …

Lembro-me de tudo

. A praia esvaziava-se até à melancólica reunião das gaivotas. Era então uma profusão de sulcos em forma de cunha e gritos selvagens. O ronco do mar, com o ir vir das ondas, desfazia-se num som borbulhante de espuma e cansaço, como se também o mar arquejasse e pedisse a noite. O vento erguia nuvens …

Tudo gente boa

. Sempre foi um defeito considerável este meu hábito de meter conversa e querer conhecer as pessoas. Não consigo ficar-me pelo «Bom dia», «Boa tarde», «Como está?», «Como tem andado?». Às duas por três, estou a saber a alcunha, a parentela, a história do divórcio, os resultados dos exames médicos, os sonhos de infância de …

Cheiros

. Algures no rinencéfalo, guardadas como numa gaveta secreta, os cheiros da minha vida. O do café, dos sabonetes, das flores de laranjeira e das tílias, do tojo, o cheiro fresco das folhagens de uma figueira, o cheiro da roupa acabada de apanhar do estendal (perfumando o espaço com o seu sabão Clarim), o cheiro …