Foto: Philippe Gillotte
Foto: Philippe Gillotte

Algures no rinencéfalo, guardadas como numa gaveta secreta, os cheiros da minha vida. O do café, dos sabonetes, das flores de laranjeira e das tílias, do tojo, o cheiro fresco das folhagens de uma figueira, o cheiro da roupa acabada de apanhar do estendal (perfumando o espaço com o seu sabão Clarim), o cheiro das amêndoas torradas, o cheiro dos bolos de laranja no forno, o cheiro do pão acabado de cozer, o cheiro das maçãs no pomar, da hortelã e do funcho e da murta e da relva acabada de cortar nas manhãs de verão, o cheiro da praia, da maresia, das algas, das areias, das dunas, dos orégãos, o cheiro dos frutos maduros, das uvas americanas, o cheiro da lenha, do fumo das pinhas acesas, o cheiro dos livros (dos novos, forte, a celulose; dos antigos, adocicado e morno, como a luz do outono), o cheiro dos objetos revestidos a couro, da pele dos bebés, o cheiro da tinta que usa num aparo, o cheiro de alguém que nos faz tremer as mãos, o cheiro do amor… 

Algures numa parte de mim, alojada como um pinhão na sua casca pura, ajoelhada na terra, bulindo nas raízes dalguma árvore da quinta, a memória da vida respira em longos sorvos poéticos a harmonia da vida. Desde criança que assim sou. 

Não raro, espanto a assistência: 

‒ Hoje cheira a Natal. 

‒ A Natal? 

E eu precipito-me na vã tentativa de explicar que os elementos circulam livremente no espaço, ínfimas moléculas de algo físico misturado com a minha própria mitologia das coisas. Talvez seja um sintoma de hiperosmia. Talvez seja apenas a minha costela de aldeão. Talvez seja apenas a sensível loucura de preferir os elementos isolados na sua alegre individualidade. Porque o cheiro de cada coisa é um hino ao universo diferente de todos os hinos de todas as outras coisas. Porque a resposta do hipocampo de cada um de nós é uma resposta e um apelo e uma mensagem: os cheiros que amamos são a parte do universo que nos torna felizes! 

E assim, sou feliz quando a minha caneta rescende. Quando o vinho tinge as toalhas de mesa num almoço de família. Quando um cigarro (ou um charuto) selam uma jantarada de amigos. Sou feliz quando uma essência, uma especiaria, um aroma de baunilha ou de lavanda ou de bergamota invocam velhas memórias de infância e benfazem e bem-dispõem e abençoam uma noite de solidão, ao lado de um tronco de oliveira na salamandra. Ou quando acaricio e beijo e sinto o teu corpo nu, por onde escorre subtil e macio como um pensamento, a fragrância selvagem de uma ilha do Pacífico. Ou quando, de manhã, o mesmo corpo (agora casto e quieto e mole como uma cócega) me absorve os últimos farrapos de sono e comigo se abandona a uma massagem quente óleo de jojoba. Sou feliz quando abro as janelas e uma euforia de magnólias e de ervas e terra enxuta vem limpar-me dos inexatos desesperos do inverno. Sou feliz, enfim, quando nalguma parte da etmoide, escassa como uma célula, breve como um impulso nervoso, o meu ser roubou ao vasto universo uma semelhança, um reconhecimento, um rasto da sua existência passada e futura. Algo como o cheiro dos lápis de cera. Algo como o odor do cabedal de um blusão ou de uma saia. Algo como o hálito fresco a menta. Algo como um travo de canela sobre um pastel da nata ou sobre uma taça de leite-creme… 

‒ Hoje cheira a Natal? 

‒ A Natal? 

E a audiência sorri, condoída desta doença de não reconhecer o tempo, de haver no meu olfato um erro de cálculo, de existir algo natalício numa noite de fins de setembro, quando a vaga formação de cristais de gelo me conduz por uma estrada pessoalíssima, de onde as memórias saltam como pólenes misteriosos. Porque no meu cérebro o Natal, mais do que um tempo ou um lugar, é um estado de alma! Uma espécie de labareda que as narinas instigam e insuflam. Uma teia poderosa de alusões, associações e induções, a que não sei responder senão deste modo simples e equívoco: 

‒ Hoje cheira a Natal. 

E não espero que compreendam. 

‒ A Natal? 

Porque os cheiros são, com ou sem fogo poético, estados de alma. Puros estados de alma! Todos o sabemos desde sempre, mesmo porventura não o sabendo… E, por isso, gosto deste aroma de pipocas, deste chocolate quente, desta vertigem de essências na perfumaria, desta fricção de roupas lavadas e expostas nas lojas, do ar frio à saída que nos acomete, de mistura com uma presença húmida, aparentada com o musgo ou o iodo do mar, e que é a respiração da chuva. E, por isso, ébrio dos cheiros da rua, gosto de caminhar por entre os charcos, invadido à uma por vagos rumores de bolbos submersos e plátanos molhados, padarias em laboração, essências selvagens de mulheres e homens transeuntes, anónimos, desconhecidos, à procura do seu ninho de felicidade… Estados de alma, portanto: com ou sem fogo poético, puros estados de alma… Não lhes parece?

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