Foto: Eduardo Gageiro
Foto: Eduardo Gageiro

Nesse país cada vez mais intocável e sagrado, havia gente boa e má (como houve e haverá sempre em todas as eras da humanidade) e havia os bêbedos, que eram uma porção à parte, lendários pelas façanhas e pelo sofrimento, cuja postura errante (quase sobre-humana) lhes não permitia caber com rigor em nenhum dos dois braços da balança maniqueísta.

Aprendi a entender-me com eles.

Havia, não muito longe da casa dos meus avós, uma taberna. Que frequentava esporadicamente por se vender nela, além de vinho, aguardente e bacalhau frito, pastilhas elásticas, chupas e cigarrinhos de chocolate. A malta da cirrose e a malta das cáries dentárias encontravam-se ali, por assim dizer, numa associada veneração do vício. As mãos zelosas que despejavam a perdição do fígado em copinhos e copos de quartilho eram as mesmas que nos enchiam as sacolas eufóricas com imperdoáveis gulosices de que ainda hoje sinto uma saudade imensa, especialmente bombocas e chocolates Imperial.

Regresso aos bêbedos.

Havia-os espalhados pelas duas divisórias da taberna. Formavam, grosso modo, dois partidos. Os ruidosos, que batiam cartas e faziam grandes manifestações de poder, os fanfarrões portanto. Nos quais se incluíam os mais populares e célebres, por estarem, por regra, ligados ao Sagrado Coração de Maria e aos PPD. Neles se incluíam muitos dos antigos delatadores da PIDE. Que eram ótimos nas opas vermelhas das procissões e péssimos em casa, aonde chegavam, com o cinto nas mãos, dispostos a bater na mulher e nos filhos pequenos e em quem lhes fizesse frente. Um ou dois destes alegres borrachões foram, já depois do 25 de abril, atraídos ao engano e acabaram com uma faca nas costas. Mas disso não me lembro, por não ter nascido a tempo da epopeia geral e das tragédias particulares. Recordo-mo dos relatos, isso sim, que nas noites de verão, ou nas de inverno, faziam sem grande censura desses tempos de viril combate e ajuste de contas.

Havia, do e por outro lado, os silenciosos. Os ébrios que engoliam solitariamente canecas de carrascão e comiam solitariamente a broa e o fígado com cebolada. Ainda antes da Revolução, costumavam dizer «O Salazar é um filho da puta» e costumavam dizer mal da vida. Mas isto só quando cambaleavam e caíam nas bermas a horas mortas. Alguns, que falaram ainda antes das horas mortas, e que gozavam da fama de vermelhos, foram prontamente internados na Rua do Heroísmo (no Porto), em Peniche e em Caxias. Não tanto para um tratamento alcoólico. Mais para uma saudável cura ideológica, que incluía no seu plano terapêutica pancadaria, tortura de sono e ameaças à família. Julga-se que nestes factos se justificam os narrados derradeiramente no parágrafo anterior.

Menos encarnados, e menos amparados por isso pelos braços da PIDE, muitos destes homens sem prole e patroa caíam onde calhava e ficavam ‒ como bebés ‒ encolhidos até que o dia fosse dia, e o chiar dos carros de bois e o estrépito das socas dos lavradores os despertassem… Conheci algumas destas personagens, assisti, aliás, aos seus pavorosos e (porque não confessá-lo sem hipocrisia) hilariantes trambolhões.

De entre todos os beberrões famosos, o mais extraordinário foi o Manelzinho Cesteiro. Cesteiro nas horas vagas, avinhado nas de expediente. Tinha um rádio. Que era grande e com duas poderosas colunas, uma pega, muitos botões e teclas, uma antena gigante. Aos poucos chegava-nos com progressiva nitidez a festa ambulante («Casei c’ uma velha / Da Ponta do Sol / Deitei-a na cama e o raio da velha rasgou-me o lençol»), cantada a duas vozes, a do Maximiano de Sousa e a do meu bêbedo preferido.

Sentia, então, uma felicidade única. Uma felicidade sem mácula, idêntica à que me chegava da roupa branca no estendal rescendendo a sabão Clarim. Porque era tudo pitoresco. Magnificamente alegre. Divertido. E o Manelzinho Cesteiro, pernas escarranchadas, interrompendo de súbito a marcha, rádio às costas, repetia na sua voz roufenha: «Tornei-a a deitar. / Tornou a rasgar. / Perdi a cabeça e atirei co’a velha de perna p’ró ar». E a felicidade era aquilo: o tijolo estereofónico, a cantarola, o cambalear assustador, a mulher do Manelzinho (furiosa, a vir resgatá-lo do riso público), a voz do Manelzinho a ir-se, sempre bem-disposta, muito fanhosa, repetindo a historieta da velha atirada de perna para o ári do Max: «Ó menina da Camacha, / Diz de mim o que quiseres, / Menos que não tenho jeito p’ra agasalhar as mulheres…»

Não me lembro dos cestos, que eram o seu ganha-pão. Da mulher, que era uma matrona minhota, de buço mais espesso que um bigode, só muito vagamente. Da filharada já pouco sei. Dispersou-se pela Andorra, pela Suíça, pelo Luxemburgo. Lembro-me bem, isso sim, de certa manhãzinha de domingo, quando no regresso da catequese, ouvi este desgraçado homem choramingando. Tinha caído num silvado. Pedi ajuda. Lá o retiraram. A cabeça apareceu cheia de escoriações, as mãos sangrando, a roupa esquálida. Aos fedores da bodega tinham-se-lhe acrescentado o das próprias fezes e urina. Davam-lhe o braço, abanavam a cabeça, repreendiam-na com dureza. Sem rádio, sem cantoria, sem felicidade de espécie alguma, o Manelzinho Cesteiro era tão só uma criatura repulsiva.

A miséria humana julgo tê-la compreendido pela primeira vez. Uma pena infinita fez-me detestar a fraqueza do espírito. O homem gemia. Sem rádio, sem cantoria, sem felicidade de espécie alguma, ia-se. E foi. Tão triste que bebia cada vez mais. E depois dele foram, outros companheiros de sina. Praticamente todos. Inchados e amarelentos, tremelicantes, destituídos da aura que primeiro os celebrizou. Até que por fim também a taberna morreu, emparedada por fileiras de blocos e ervas daninhas. À espera de demolição.

E esses bêbedos não regressaram.

Como sempre sucedeu com aqueles que ousaram quebrar regras, aqueles que secretamente admirei sempre, este punhado de homens regressa às vezes ao meu pensamento. Escuto-lhes a algazarra, os impropérios, as cartas batidas com furor nas mesas de pinho, o derrubar das garrafas, o caminhar trôpego, o rádio, a voz nasalada («Casei c’uma velha / Da Ponta do Sol…»), as mulheres furiosas, as ameaças, os beijos surripiados no meio da rua, tudo. E sorrio.

Aprendi a entender-me com eles.

Habitam cada vez mais esse país longínquo, depurado, cheio de nostálgicas reverberações e ecos, espantosas reminiscências, figuras lendárias, emoções e saudades.  Não foram pessoas boas nem más. O tempo libertou-os de toda a absolvição e de qualquer condenação. Eram uma porção à parte. O leitor compreende o que digo. E escute. Escute bem. Em dias de sol, quando a roupa ao sol for um baloiçar de perfume e de ternura, talvez lhe chegue uma voz fanhosa, alegre, de homem aos esses: «Ó menina da Camacha, / Diz de mim o que quiseres, / Menos que não tenho jeito p’ra agasalhar as mulheres…».

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