Outra sobre livros

Xelo Moya 03
Fotografia de Xelo Moya

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No momento em que escrevo estas palavras estou tomado por uma fúria descontrolada, que entre outros perversos efeitos psicomotores me faz escrever cada palavra como se tivesse nascido malaio, russo ou etíope, de modo que a fúria de fúria se alimenta e às tantas estou a martelar no teclado e a fazer dramáticas caretas para o ecrã branco à minha frente, parede de luz e de silêncio que me ignora, aliás, as graves razões por detrás e o significado de cada esgar de louco que lhe lanço. Não, não é um ótimo começo de crónica. É só um começo. De resto, imagino que quem me lê (dois ou três amigos que não atiraram ainda a toalha ao chão, para me servir de uma metáfora da moda) se pergunte quais serão, enfim, os motivos de uma tal perturbação, ou se questione (não o duvido) se o autor destas palavras não estará apenas a ganhar tempo para encontrar alguma coisa que valha a pena ser dita, andando daqui para ali e dali para acolá, às voltas e às voltas, a espalhar a fúria, como se espalha cinza, ou uma punhado de sal no gelo. Não, definitivamente o juízo não me acompanha!

Adianto a explicação: andando eu, esta tarde, em verificação de certos cartapácios e obras menos procuradas, descobri que uma infiltração de água cá em casa, uma dessas malditas entradas da chuva, quando há chuva (e este inverno tem havido muita, Deus seja louvado), veio descendo uma e outra e outra vez, sempre em segredo, sobre uma das mais altas estantes da minha biblioteca, e, assim mesmo, sem avisar, fez-me apodrecer (não é exagero, é apodrecimento sem tirar nem pôr) mais de metade da minha extensa e preciosa coleção de pintura da Taschen, levando consigo seis romances de Milan Kundera, um de Gabriel García Márquez (tudo Publicações Dom Quixote), umas quantas recolhas de contos (entre eles três dos sete volumes de contos de Anton Tchékhov, edição da Relógio d’Água), entre outros títulos que nem vale a pena aqui chamar à récita. Vi tudo com incredulidade. Vi o empastamento das folhas, vi o encarquilhamento da humidade, os círculos monstruosos, cancerosos, do bolor. Toquei na ferida. A polpa dos dedos levantou sem dificuldade páginas inteiras da minha religião principal, e pedaços, nesgas de papel, ângulos de prosa e pinturas imortais, que (a salvo de semelhantes infiltrações) jazem felizmente enxutas nas salas dos museus mais diversos do mundo…

Se não for inconveniente, nem excessivamente efeminado, permita-me o leitor (uso o singular, mesmo convencido de que serão afinal dois ou três) que chore. Permita-me que sofra o desgosto outra vez, que o reviva devagar com o secador do cabelo em riste, que faça ainda um derradeiro esforço para salvar o insalvável, e que gema, que grite, que berre, que barafuste, que bata com o punho, que ameace a frincha maldita por onde desceu esta gangrena, que ameace com dinamite e depois com cal e tinta o maldito lugar por onde o mal veio ao mundo. Ao meu escritório pelo menos!

E chegado a este ponto, ainda sem ter conseguido iniciar a crónica, devo explicar o seguinte: há uns dois meses, quando alinhava os poemas do meu último livro; quando precisei de qualquer coisa que sabia o que era mas não de quem; quando percebi que era uma citação de Mário de Cesariny de Vasconcelos, descobri o que não se deve descobrir. Que emprestei o Manual de Prestidigitação e não mo devolveram. E como um mal leva a outro, como uma falha nos aviva a memória de falhas anteriores, dei-me conta de ter emprestado também Horto de Incêndio de Al Berto e de não o ter em casa. E um tomo das crónicas de Fernão Lopes (dedicado a el-Rei D. Pedro). E também um romance de Isabel Allende (quem o tiver em sua posse, faça bom proveito). E era justamente para conhecer a real dimensão do problema que me propus fazer uma vistoria. Pelo que me propunha escrever uma crónica, a começar assim:

«Por causa de um prospeto conheci a poesia de Al Berto, por causa de um flyer conheci a de Mário Cesariny de Vasconcelos. Dois superpoetas do século XX (que viram a esquina do milénio), dois inconformados, dois rebeldes que (cada um à sua maneira) ganharam fama de malditos, ou, pelo menos, de mal-amados.

Se Horto de Incêndio me abriu a porta para o poeta de O Medo, foi o extraordinário «Discurso ao príncipe de Epaminondas, mancebo de grande futuro» que me deu a conhecer Manual de Prestidigitação e, depois dele, Nobilíssima Visão, Pena Capital, A Cidade Queimada, Titânia e, já no mestrado, Louvor e Simplificação de Álvaro de Campos (que afinal já conhecia, na versão mais curta de Nobilíssima Visão) e O Virgem Negra. Sigo a ordem por que os li e não a que seguiu o autor ao escrevê-los ao longo de meio século de paciência, polémicas e amor incondicional à arte de Homero.

Só esta tarde, aquando de uma arrumação que aqui não importa esmiuçar, é que me lembrei de o ter emprestado e não o ter recebido de volta. E porque o emprestei a alguém que agora se encontra em parte incerta, só esta tarde me inteirei da perda. Estou consternado! Os livros não são emprestáveis, especialmente os de poesia: eu já o devia ter percebido, eu que somo até hoje reveses consideráveis em relação a Mário de Sá-Carneiro, Herberto Helder, Sophia de Mello Breyner Andresen e Wisława Szymborska (neste caso derradeiro com a sorte de haver, entretanto, podido comprar um novo exemplar do volume “desaparecido”) e, por alguma razão os citei de início, também Al Berto e Cesariny.

Moral da história: venho por este meio, fria, solene e publicamente declarar a minha absoluta, voluntária e inegociável indisponibilidade para ceder doravante por empréstimo, ou outro igual expediente, qualquer livro de poesia, podendo nos restantes casos, desde que não seja a minha porção de teatro (grego, de Goldoni, Ibsen, Lorca, Brecht e Beckett), de ensaios (com Lourenço e Steiner à cabeça), ou de ficção (portuguesa, europeia, universal), considerar a hipótese de. Repito: os livros não são emprestáveis, nem riscáveis, nem dobráveis, nem sujáveis com impressões digitais, nem são bons lugares para guardar os números do Euromilhões e números de telemóvel. Pela parte que me toca, sou fundamentalista do livro limpo, do livro impecável, do livro inteiro e intacto, como o tipógrafo o pôs no mundo. E, dito isto, calo-me, porque o que tinha a dizer disse!»

Isto era a minha proposta. Mas compreendi que uma tal crónica, além de breve, além de estranha (seria realmente aquilo uma crónica), além de provocadora, não seria bastante para conter a expressão de miséria humana que revoluteia dentro do meu sangue a estas horas, tendo tomado eu conhecimento do desastre a que aludi inicialmente e que continua a empurrar-me as omoplatas para baixo, como uma carga de cimento sobre os ombros. Tonto, triste, totalmente desolado. Alitero em para sublinhar musicalmente o elegíaco tom em que me vou esta noite deitar, já não tomado pela fúria, mas tão só pela mágoa e frustração, de quem ama os livros (certos livros mais do que os outros) e os perdeu à força de os querer guardar no lugar mais extremo da sua caverna. Moral da história: antes os tivesse emprestado!

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Bibliotecas

Biblioteca do Mosteiro de Strahov
Fotografia de Jan Gravekamp

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Entre as mais poderosas imagens que o meu cérebro construiu do mundo, conta-se a do lugar imenso, insondável, sagrado, das bibliotecas. Um tal território não é apenas espaço, nem apenas depósito, nem apenas silêncio de livros. Mas verbo, verbo incontido e multiplicado, verbo prestes a conjugar-se, prestes a parir, prestes a replasmar o próprio verbo divino que é, desde S. João, o começo e a duração dos tempos. Um tal território é sede do fascínio e do abismo, do poema e do pó, da palavra e do vazio. Porque as bibliotecas são, muito para lá da metáfora do labirinto em que Borges as refundou, a metáfora da luz em que sonho eu!

A primeira que amei era escassa, mal iluminada, nos fundos de uma escola velha e obsoleta. Administrava-a uma funcionária carrancuda, sempre sentada e com o aquecedor aos pés, para quem a maçada de ter alunos a pedir-lhe que abrisse os armários (sábia e prudentemente fechados a cadeado) só competia com a maçada de ter de levantar-se de duas em duas horas para ir à casa de banho. Ainda assim, foi dentro das suas paredes que me repastei com aventuras do Superpato, ou com os vinte e um volumes do quinteto inesquecível de Enid Blynton, ou com as histórias e Pica-Pico e da Gaivota Laila de Friedrich Wolf. Benditos seis metros quadrados e repletos de mofo, onde me inteirei do bruxedo da Galinha Verde que Ricardo Alberty generosamente partilhou.

Ganhar coragem para entrar e desafiar os óculos em armação de osso da matrona, que uma vez retirados significavam cólera ou impaciência pelo menos, foi o primeiro sinal de que nascera para aquilo. E aquilo, que era muito diferente quando o professor Miguel Monteiro lá estava, deu-me a primeira noção do saber, do saber incalculado e incalculável que está à mão de semear e que, ao mesmo tempo, nos foge da mão.

Preciso de homenagear este homem. Professor de Língua Portuguesa (como eu me haveria de tornar), ele foi o poeta do giz, aquele que nos lia em voz alta fábulas de Esopo e contos de Hans Christian Andersen, excertos das fantasias de Júlio Verne e contos russos, quadras de António Aleixo ou de Fernando Pessoa, aquele que nos falava dos mitos e do teatro grego, que nos ensinou que texto quer dizer tecido, ou que as palavras mais não são do que roldanas que nos ajudam a puxar pesos enormes e que por isso devemos mantê-las bem oleadas, próximas e disponíveis. Não tive outro professor assim. Nenhum que haja conseguido de forma igual penetrar a carapaça (quase sempre oca) da burocracia e nos tenha feito ler, falar, ouvir e escrever com paixão, com amor e com sentido estético no que, dentro de uma língua, há de passional, amoroso ou literário.

Foi ainda o professor Miguel Monteiro quem nos desafiou a inscrever-nos como sócios na Biblioteca Municipal. O precioso cartão plastificado, com o nome e o número escritos à mão, foi mais do que a possibilidade de conhecer a Casa da Cultura, requisitar livros e levá-los para casa. Foi o passaporte para um mundo solene, cujas estantes e móveis austeros se deixavam antecipar pelo aroma da cera e da madeira, cujas amplas janelas (banhadas ora pela luz do sol ora pela chuva) se mantinham tão longe e tão perto da rua quanto o desejável. Havia com efeito um mundo para lá e outro para cá das vidraças, ambos tão deliciosos quanto imiscíveis pelo olhar, o que me faz, desde então, e num assomo de nostalgia, espreitar o céu aberto e o bulício sem som (como num filme mudo) a partir de dentro, e os lustres e pesadas lombadas, os leitores dobrados e silenciosos, a partir da rua. Em mim subsiste muito do antigo adolescente; primeiro com Altino do Tojal e Dumas; depois com os dicionários de latim e de grego, com enciclopédias, atlas e histórias universais, com Carl Sagan e Herbert Reeves, com as Memórias do Cárcere de Camilo debaixo do braço. Alcunhavam-me de Crânio e eu de néscios. As duas batalharam durante anos, na pior das guerras de difamação.

Quando nasceu a minha irmã Catarina, quando ingressei na Faculdade de Letras, o intelectual estava feito. Feito, mas com impurezas graves e falhas maiores. Não conhecia dezenas de autores portugueses (não me atrevo a cifrar a quantidade de estrangeiros), não dominava bem o inglês, não viajara, não dispunha de conhecimentos categóricos no que concerne à vida noturna, vivia recluso de ideias humanistas do tempo do senhor Damião de Góis, pese não o seguir no exemplo da erudição. Para os meus colegas de curso, apresentava o aspeto de um monge tardio e mais ou menos provinciano. E por essa razão me abastardei. Não apenas com a leitura compulsiva dos franceses, dos americanos, dos italianos, dos ingleses, dos alemães, dos russos (preferi quase sempre os que não integravam o currículo), como sobretudo com as surtidas para o jornal académico (onde frequentei tertúlias e publiquei uma ou duas crónicas de ocasião), ou com as bebedeiras na Ribeira, na Foz e na Boavista. Quase perdi o terceiro ano.

Ainda assim, e porque os amigos eram bons e muitos nesses anos venturosos, lá me endireitei e acabei a tempo. E porque precisava de silêncio e de solidão, o lugar onde me resgatei ao precipício foi a majestosa biblioteca sobre o Rio Douro, na ainda chamada «Vista Panorâmica». Poiso dos marrões, dos grupinhos de estudantes idiotas e das beldades de Filosofia, ela era o refúgio dos três ou quatro poetas que então já se afirmavam, com Daniel Faria à cabeça. E era o meu refúgio também. Como no filme de Wim Wenders, Der Himmel Über Berlin, que a saudosa professora Vera Lúcia Vouga exibia sempre às suas turmas, em Introdução aos Estudos Literários, eu imaginava-me uma dessas vozes interiores que declamavam de si para si Homero, Kierkegaard ou Noam Chomsky.

Vem-me muitas vezes à memória o profundo contraste de luz e sombra nesse espaço, uma torre com meia dúzia de pisos, onde li Dante, Petrarca, Gôngora, António Vieira, Poe, Machado de Assis, Baudelaire ou Breton. Não poucas vezes me exigiram silêncio, porque me distraio facilmente. Não poucas vezes me perdi a cismar nos rabelos e embarcações de carga que transpunham o horizonte, acompanhados pelo grito das gaivotas e pelos meus olhos fartos de Linguística, de Literatura ou de Metodologia. Lamentavelmente, não me assiste o dom da paciência que transforma homens comuns em excecionais. Fui sempre um leitor fantasista e um pouco tolo.

Em 2011 estive em Praga. Aí visitei a biblioteca do Mosteiro de Strahov, um exemplar da sua espécie que me comoveu até às lágrimas. Não é muito diferente da biblioteca do Convento de Mafra, por exemplo, mas, como muitas vezes sucede com as civilizações a norte, é mais despojada, mais pura, mais livros, mais saber, mais biblioteca! Sempre quis folhear um desses códices medievais, com iluminuras e letras em estilo gótico. Quis o destino que esse privilégio me pudesse ter sido dado em terras eslavas, nas mesmas salas e corredores por onde circularam Tycho Brahe e Johannes Kepler. E por tê-lo conseguido aí, sempre Praga morará no meu coração, como morará sempre a pequena biblioteca do Ciclo Preparatório ou a do meu quarto, onde guardo apenas os livros de poesia inquestionáveis!

Perguntaram-me há tempos se conhecia a nova biblioteca de Alexandria. Não conheço, infelizmente. Mas também esta moderna não me seduz como seduziria a outra, a histórica, aquela que desde os relatos de Heródoto e Tucídides me incendeiam a imaginação. Aliás, como as bibliotecas de Jorge Luis Borges ou a dos copistas d’O Nome da Rosa de Umberto Eco. Porque um ingrediente transforma um depósito de livros numa biblioteca, ou, na sua ausência, uma biblioteca num simples depósito de livros: a vontade de ficar, de permanecer, de regressar.

E é, por isso, que me orgulho de ter criado na Vila de Arões, onde vivo (no edifício da sua Junta de Freguesia), uma biblioteca. Pequena, mas funcional. Escassa, mas disponível. Incompleta, mas preparada para crescer. E é, por isso, também, que não poderia deixar de homenagear aqueles que trabalham todos os dias nas bibliotecas escolares, e que as convertem num espaço de acolhimento, de aprendizagem e de prazer. Não conheci nenhuma mais ativa, nem mais humana, nem mais bem-sucedida do que a da Escola E. B. 2, 3 do Viso, no Porto, sob o cuidado da Emília Pinho e da sua equipa. E, por isso, também ela me ficou. No coração, claro está!

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Delírios

Paula Rego, «A Sereiazinha», 2003
Paula Rego, «A Sereiazinha», 2003

           

Na cabeça enviesada de um doente passam-se coisas inexplicáveis, coisas como decerto as que descreve o senhor Brás Cubas nas suas Memórias Póstumas, labirínticas coisas que são o eco da batalha entre o devaneio e a razão, que é como quem diz entre a febre e doses cavalares de ben-u-ron.

Por qualquer motivo da minha compleição física, sou achacado a delírios, tão mais indescritíveis quanto fascinantes: sou amiúde um pássaro sobrevoando a minha casa e o meu bairro, vendo ao pormenor os vizinhos a assar pimentos e sardinhas nos respetivos fogareiros e a fazer-me sinais ameaçadores lá de baixo, como se fosse intenção minha roubar-lhes o petisco. Outras vezes, sou outra vez criança e fujo da escola, porque a minha professora tem uns horríveis lábios vermelhos e quer-me por força beijar. Não é raro ser abordado por personagens históricas, que sobem da tumba para me fazerem interrogatórios ou pedir conselhos. Já houve um que me veio pedir a devolução de dinheiro que alegadamente me emprestara… De todos o mais espantoso foi o velho Marquês de Pombal, que insistia roubar-me o telemóvel e ameaçava despir-me em público se não lho entregasse…

Recuperado destes episódios de bullying psicótico, pude rir ou ficar seriamente convencido de ser semilouco. Mas a loucura é uma caso muito mais complexo do que se pensa; quem assim o afirma é Emil Kraepelin, que diz também «alto lá e para o baile»: nem todos os fenómenos de perturbação mental são propriamente um caso de psicose, demência, neurastenia, histeria ou esquizofrenia. A febre não faz do seu portador um louco, como o livro de filosofia debaixo do braço de um estudante não o torna propriamente um filósofo.

Assim sendo, incapaz de decidir-me quanto ao que me cabe de manifestamente louco, ou ao que é exclusivamente do domínio da febre, comecei a anotar algumas dessas fabulosas aventuras, convencido de poder servir-me delas como delas se serviram nos seus livros Baudelaire ou Borges, embora num caso o absinto, no outro a cegueira tivessem dado uma ajuda preciosa no aprofundamento e correção das ideias. Simplesmente, não pude divisar até hoje como me seria útil descrever num poema o quanto fugi do sinistro Popeye (que me aterrorizou a infância e não só por causa dos espinafres odiosos), ou como dar seguimento numa novela às façanhas conjuntas com Zorro, o meu maior herói masculino até ter-se abandalhado com Antonio Banderas…

A verdade é que os meus delírios possuem pouca literatura: é lá coisa que se aproveite Dom Sebastião ser apanhado a fumar e a faltar à lição de piano? E que dizer de Afonso Henriques a levar dois estalos por faltar ao respeito à catequista? «Aqui quem manda sou eu, meu menino» — e di-lo com uma faca em riste. Não poderia explicar numa história da minha lavra porque leva o primeiro rei de Portugal um par de bofetadas da catequista, ou porque lhe chama essa terrível figura de avental «meu menino», ou porque recita ela a catequese empunhando uma faca de degolar galinhas…

Paula Rego, acostumada a visões deste calibre, dir-me-ia existir qualquer coisa de freudiano nos meus textos. E eu haveria de escutá-la com comedimento, com pundonor, com excitação. Porque me convenceria de habitar em mim, afinal, algum ADN de artista. Mas era preciso que eu soubesse multiplicar literatura a partir desses achados piréticos. Infelizmente, a única coisa que consigo é esgotar a paciência àqueles que me trazem chá e panos molhados à cama, me trocam os lençóis e me obrigam a mudar de pijama.

Pela minha parte, recupero de um fim de semana em que me fui tomado por um mistura de constipação e de gastroenterite (infundado o receio de gripe A). Na minha cabeça, como no areal repleto de despojos de A Sereiazinha, que Rego pintou em 2003, jazem incontáveis e incongruentes fantasmas de episódios mentais, que em breve serão recolhidos pelas vigorosas mãos dos meus enfermeiros domésticos.

Porque definitivamente há circunstâncias com que lido mal e de que tiro escasso partido. Invejo quem o faz, ou fez, como o grande Machado de Assis, por exemplo, que levou longe o talento de fazer render a contrariedade da doença. Mas os grandes são grandes, e com a devida vénia me retiro… para a sopa de arroz.

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Das brincadeiras e dos brinquedos que nos ficam

Pascual Nuñez
Fotografia de Pascual Nuñez

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Se algum lugar mítico se conserva em casa dos meus pais, esse lugar é o sótão. Aí, mesmo debaixo das telhas, sob as traves de madeira, onde a luz elétrica nunca chegou e onde aranhas solitárias cortinam o silêncio, sobrejaz uma multidão de caixas com candeeiros, tapetes e livros de costura (pesados tomos de capa dura sem qualquer préstimo), faianças e um antigo aparelho de radiofonia. Mas aí, no meio da escuridão, onde os anos fizeram queimar cotos de vela e fósforos, resistem, também, sobretudo, as coleções! Calendários, porta-chaves, discos de vinil, pósteres (do Benfica e da Seleção, dos Pink Floyd e dos Pearl Jam), revistas das Seleções do Reader’s Digest e do Tio Patinhas. Aí, aonde sobe a luz da lanterna, como Cousteau descia com ela ao fundo dos oceanos, o tesouro principal são as lendárias malas dos brinquedos, as que guardam os espécimes adorados da infância e, agarradas a eles, as melhores memórias!

Tudo passou depressa daí em diante: cresceu-se; foi-se para a universidade; estudou-se Trubetzkoy e Martinet; discutiu-se Sartre e Camus entre imperiais e pires de tremoços; obteve-se o canudo; passou-se a cirandar pelo país, ensinando a putos malcriados aquela mesma disciplina que em miúdo se detestava; passou-se a dizer mal do Governo; escreveu-se um ou uns quantos livros; plantou-se uma árvore ou um bosque delas; viajou-se pelo estrangeiro; amou-se, sofreu-se e voltou-se a amar; de repente há uma criança magnífica em casa e alguém pergunta «O que é feito dos teus brinquedos?». E é então que a escada de tesoura regressa.

Durante anos, a entrada para o sótão (pela dispensa) foi-me vedada. De maneira que quando à sorrelfa penetrei pela primeira vez esse ambiente, onde o depósito da água e respetivas tubagens tomavam o aspeto de uma máquina cardíaca, fiquei atordoado com o recheio dos misteriosos caixotes. Era apenas um garoto surpreendido com o lugar menos visitado da casa. Mas esta tarde, ao encavalitar-me no estreito suporte que me levou de novo ao alto, senti o que sente o arqueólogo, quando ao escavar obstinadas camadas de saibro e de areia se vê confrontado com objetos que compõem toda a história do tempo. Senti o que se sente algures numa cave ou numa arrecadação, quando se reconhece e recupera em simultâneo pedaços da pessoa que fomos aos cinco, aos dez ou aos vinte anos. Senti a forte comoção que enche decerto de mágoa e de felicidade a palavra saudade, mas que é mais intensa do que ela, porque é o abalo de um reencontro – com (o toque, com o cheiro, com a textura de) objetos misteriosamente subtraídos à nossa convivência e de chofre, agora, caoticamente, resgatados da penumbra e do pó. Ocorreu-me que, ao cabo de tanto tempo e de tamanha distância, a vida paradoxalmente talvez nunca tenha existido fora do mesmo instante e do mesmo lugar onde desfilam cubos de rubik, ursos de peluche, automóveis de corrida, pistas de comboio, puzzles e conjuntos da Legos.

Cada uma dessas miniaturas da fórmula 1, cada camião, caterpílar ou carro dos bombeiros, cada jogo de tabuleiro (do Monopólio do Topo Giggio), cada jogo de cubos (em especial, o da Branca de Neve e dos Sete Anões), cada avião e cada paraquedista, cada soldado de chumbo e cada replicazinha em pvc do Dartação e respetivos colegas Moscãoteiros, cada tambor ou viola de plástico, cada ferramentazinha de metal e madeira construída pelo meu pai (sobremaneira invejadas pelos outros fedelhos da rua, por não haver quem tivesse joguetes iguais), cada um destes maravilhosos objetos transporta com extraordinária precisão os dias passados, os amigos, as conversas, as fantasias, os recantos onde em tardes pachorrentas, depois das aulas ou no verão, nos juntávamos para brincar. Cada um desses objetos foi personagem das fantasias que púnhamos em marcha na terra batida, na areia ou nos jardins da vizinhança, de onde se elevava o aroma da relva cortada e que para sempre me obrigou a associá-lo ao insuperável fascínio dos anos 80, quando as férias grandes iam de junho aos começos de outubro, e quando havia a extravagante liberdade de andarmos na rua até a noite cair ou os berros da mãe de um e de outro nos chamarem para o jantar. No verão, ao crepúsculo, a rua era disputada por grupos de meninas que riscavam os quadrados do jogo da macaca, e pelos rapazes que a riscavam com o formato de um campo de futebol. Não poucas vezes, a insuficiência de jogadores de um lado ou do outro motivou curiosas misturas, como sucedia com as canções de roda (em especial, com a «Fitinha Azul» ou com «A Borboleta Branca»).

Empolgavam-me a cabra-cega ou o jogo dos cowboys, o jogo da caça ou o esconde-esconde. Quando éramos poucos, entretínhamo-nos com um humílimo o jogo do galo ou com os berlindes. Não me recordo naturalmente de todos os jogos em que participei ou do nome que lhes dávamos. Mas recordo-me da miudagem algazarrando rua abaixo, rua acima, ocupando as casas em construção, encontrando esconderijos nos sítios e lugares mais bizarros, dessa miudagem que se procurava sem medo, rancor ou manias, que partilhava com a mesma alegria um carro telecomandado (recebido de um tio de França) ou um simples carrinho de linhas, daqueles de madeira, que as mães gastavam no tempo em que as mães ainda sabiam usar a agulha e o dedal…

Tristemente estes jogos, essa miudagem, aqueles dias encantadores desapareceram. Primeiro devagar, depois tão depressa que mal pude compreender como se desmoronava o melhor dos mundos.

Ao descer as terríveis escadas em V perguntam-me risonhos se sempre encontrei os meus brinquedos. Uma estranha perturbação impede-me de responder, de compreender sequer o que seja encontrar um tal tesouro. Se pudesse; se houvesse um tal primeiro prémio de lotaria; se me fosse dada a oportunidade de trocar tudo o que conquistei por um regresso, ainda que breve, a tais dias distantes… «Sim, sim, sim… os brinquedos estão bem guardados. Melhor é que assim continuem, onde e como estão»!

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Coisas de fedelhos

Jacek Komorowski
Fotografia de Jacek Komorowski

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Dificilmente cabem na nossa memória coisas tão importantes como as que nela entraram pela porta enorme e pelas frinchas da infância, coisas tão vagas como aquela vez em que nos puseram em cima de um triciclo no jardim relvado para fazer uma foto artística, ou tão profundas e inesquecíveis como aquela outra ocasião em que um avô nos acordou de madrugada e nos levou consigo à pesca, no rio.

Diga-se que era um rio enorme, fumegante, rodeado de incontáveis variedades de árvores caducas e de pinheiros, onde havia uma pontezinha antiga, ao estilo romano, bem como uma azenha, já com a sua roda e rodízios bastante desgastados. Essa ida à pesca ficou-me gravada de tal modo nas profundezas do meu ser que posso ainda agora, sem grande prejuízo de sentimentos ou esforço de cabeça, recuperar o estilo da cana, as galochas verde tropa o cantil, o barrete e toda a panóplia de minudências usadas para apanhar as trutas: os carretos suplente, os anzóis coloridos, a caixinha com a linha ou o engodo, diga-se uma pequena lata com vermes repelentes, que eram a delícia da pequenada…

O rio, que hoje não é tão enorme, não é sequer grande, exceto nos dias de inverno, em que ganha alguma da antiga expressão assustadora, já não tem pescadores nas suas margens. Aconteceu-lhe a desgraça das fábricas de tintos e dos campos de cereais, que o empestam de químicos e de outras impurezas nauseabundas. Não há peixe que sobreviva a tamanho aviltamento, nem gente capaz de protestar comigo contra os novos empresários de cinco à coroa, quando a convoco a protestar na rua, ou a pedir contas ao Ministério do Ambiente. Vermes mais asquerosos do que de antigamente ocupam lugares poderosos, contra os quais pouco se pode fazer. E, assim sendo, deixou de ser possível recuperar a idílica imagem de avós e netos juntos, enfrentando o frio da manhã, conversando intimidades e esperando pacientemente o momento de triunfo em que um corpo prateado vem morder o isco e dar luta até emergir por fim às mãos experimentes do maior herói que pode haver em nossas vidas!

Havia uma mítica ressonância associada à palavra truta! Apanhar uma truta era o mesmo que ver o capitão do Benfica levantar a Taça no Jamor. Era mais do que isso. Era ver confirmados os méritos desse velhote que dava lições de vida e percebia um pouco de tudo e que nunca falhava: em segredo rezava para que não falhasse, sem ele perceber, exatamente como um adepto fervoroso reza na bancada para que a sua equipa não o deixe ficar mal… Depois, quando regressávamos os dois a casa para o almoço e com o poderoso peixe nas mãos, garbosamente em riste, vinha todos ver bem “o que era pescar!”

— Temos aqui homem! Temos aqui homem para a cana, sim senhor!» – repetia o avô, pondo-me a mão nos ombros, para me gabar os méritos de ajudante e a vocação de pescador domingueiro.

Mas ajudante era-a também noutras coisas, a bem dizer em tudo. E quando a ajuda não me era pedida, forçava eu a que ma aceitasse ele, até mesmo quando se tornava um estorvo de tão solícita. Porque empoleirado lá no alto, a podar, ou a bater nos aros de alguma pipa, muito concentrado na sua tarefa de agricultor e tanoeiro, via-se o ancião a braços com a ferramenta que eu lhe surripiava, de tanto querer imitá-lo. E era então uma pachorrenta irritação apelando a minha avó que tomasse conta de mim.

— Maria Amélia, Maria Amélia!…Leva-me daqui o dianho do moço!…

Preciso de explicar, em respeito à verdade, que na casa velha, pulando e correndo, entrando e saindo pelas portas quase nunca fechadas, trepando pelos bardos ou lurando ervilhais havia não um mas um bando de diabos! Éramos com efeito meia dúzia de primos nascidos na mesma altura, que punha em alvoroço a bicharada das cortes, os galinheiros e a mansa passarada no meio dos campos… Minha avó, já então a contas com a artrose, incapaz de suster tanta ruína de cultura e o cacarejo histérico ameaçava de longe com o pau da bengala:

— Anda, meu mafarrico… quando te apanhar, vais tê-las todas juntas!

Ou, então:

— Quando a tua mãe vier, vais tê-las certinhas. Ai vais, meu bandido!

Raramente havia o ajuste de contas prometido, talvez por alguma falta de memória, aliada à perda de destreza locomotora. Ou talvez porque passada a violência do crime, num estardalhaço de ovos partidos ou cebolinho arrancado, viesse o ato de contrição. Lá ia o réu, de orelha baixa, guardando ao pau alguma distância prudente, pedir perdão.

— Ó Vó, desculpe!

— Anda aqui, moço, que eu não te oiço bem!

— Não vou… que você bate-me!

— Meu manca-mulas, vais apanhá-las! Vais apanhá-las certinhas… É como dois e dois ser quatro!

Escuso de explicar que todos juntos, ou dois, ou três sequer, fazíamos guerra à paciência de um santo. Porque dois, ou três, ou todos juntos, parecíamos magnetizados por uma criatividade facínora que nos escapava em estando sozinhos. Não era propriamente raro algum vizinho vir dar sinal lá em casa do netinho que se havia guindado a um ramo de pinheiro, ou que fora comprar um maço de Definitivos à tasca de Porinhos. E era aí um ai-jesus, com muito e bem aplicado puxão de orelhas, respetiva notificação aos progenitores e consequente bofetada da grossa! Porque, repito, todos juntos éramos o diabo em cuecas…

Guardada nessas memórias, como num estojo de mogno, resiste uma das mais pícaras peripécias que é possível narrar. O meu leitor divirta-se com ela.

A minha tia Alexandrina fazia parte dos zeladores da paróquia, assistindo-lhe entre outras tarefas a de ir buscar religiosamente todos os sábados de manhã o reforço das hóstias, que deveriam ser consagradas e oferecidas no serviço religioso do fim de semana. Era um tupperware cheio delas, embrulhado num pano carmim de veludo, que ela depunha no aparador cuidadosamente, longe do nosso olhar, ao lado do terço de madrepérola e do seu missal de bolso.

Ora deu-nos do mafarrico a infeliz ideia de irmos destapar o tupperware, esvaziar o recheio e alimentar uma carnavalesca missa, celebrada na cozinha de lenha pela minha prima Madalena. Para improvisar os sagrados ícones, demos olhadura em volta confiscando tudo o que se parecesse com eles, desde um castiçal a um caneco de alumínio, ligeiramente assemelhado ao cibório que havia lá na Igreja. A missa durou e durou, com a chusma de pecadores percorrendo de joelhos o soalho e respondendo, como se a coisa fosse a sério, ao blasfemo convite da comunhão, para mais untado de Tulicreme, para ter mais graça:

— Corpo de Cristo?

— Amém!

Estranhando o nosso coletivo silêncio e sempre agarrada à saudosa bengala, assim nos foi a avó a todos encontrar…

Dispenso de adiantar conclusões, como a feia descompostura de nossa Tia, ou as bofetadas, ou o castigo de ir detalhar tudo ao senhor padre em confissão (que tapava os lábios e enchia as bochechas coradas, cada vez eu que lhe explicava de novo a ideia do Tulicreme), ou a proibição expressa de mexer no que quer que fosse da tia Alexandrina, de resto a única que não contribuíra até aí (nem mesmo depois daí), com qualquer rebento seu para o nosso vistoso e conhecido grupelho de traquinas…

Dificilmente cabem na nossa memória coisas tão importantes como as que narrei. E passando por elas, tão de leve quanto é possível passar os dedos por velhas folhas de cartapácio, sinto crescer desta saudade uma inexprimível luz de vida e de amor, só possível divisar com a distância e com a adultez. O meu leitor saberá do que falo, não o duvido, e por isso me compreenderá esta alegria triste, de pessoa que olha e não vê, procura e não encontra, e no entanto e no entanto encontra, como numa miragem ou numa alucinação…

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Ingrid, alguma verdade é ainda possível

All i have is this picture in a frame (Rolland Flinta)
Fotografia de Rolland Flinta

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Ao entrar no aeroporto de Arlanda, de regresso a Paris, pude constatar uma vez mais o primoroso sistema de organização de transportes sueco. Em muita da sinalética espacial lê-se a palavra hub, que significa grosso modo coração de uma rede de comunicações, viárias, aéreas, marítimas, mas no caso também digitais, cibernéticas, por satélite. Os suecos, como todos os povos do norte da Europa, viajam muito, viajam depressa, viajam com conforto e dentro dos horários. Nada que me tivesse apanhado de surpresa. Mas sobretudo viajam discretamente, desatentos aos parceiros de banco ou de carruagem. Usam ostensivos e poderosos headphones que lhes concedem o dom do ensimesmamento ou, aos meus olhos talvez, o terrível autismo que é a capacidade de ninguém trocar palavra com ninguém durante, digamos, uma viagem de duas horas…

Quando comentei com Ingrid esta caraterística tão luterana, espantou-se que ficasse muito admirado por “ser assim na Suécia”, porque julgava que era assim em todo o mundo civilizado. E não via nesse individualismo um sinal de frieza, antes de emancipação.

– Desde o período da fome, ou talvez mesmo antes, ninguém se mete na vida de ninguém. Não toleramos sequer a ideia de que alguém se intrometer na nossa vida, ou muito menos que nós nos intrometamos na vida de alguém…

– Mas, e se alguém, por exemplo, precisar de uma palavra amiga?

– Então, deve marcar uma consulta no médico… percebes?

Ocorreu-me que num país como Portugal esta convicção pudesse ser interpretada como um feroz sinal dos tempos modernos, muito distante daqueles dias em que era possível assistir a uma animada conversa entre vizinhas à varanda, ou a um ternurento oaristo junto a um carro de feno. Mas ocorreu-me também que em Lisboa, numa estação de metro, nada é diferente do que acabo de assistir neste país belo e frio.

– Ingrid, sou de uma região onde ainda é possível despoletar um colóquio animado com um perfeito desconhecido, a propósito do tempo que faz, sobre uma notícia lida em voz alta no jornal, ou por causa de um gato que sai disparado do interior de um talho com um pedaço de fiambre na boca…

Ingrid ri, ri com vontade do meu gato sorrateiro afiambrando a sua oportunidade, como um desses vadios que rondam os cais de todas as cidades de mar. Mas presume anacrónica, para não dizer improvável, uma vida urbana capaz de reunir ao mesmo tempo universidades, hospitais, bares, cinemas, teatros ou museus e gente que sem mais nem quê se volta na cadeira de café e pede ao senhor da mesa ao lado para tomar parte num coro de protesto contra o governo ou contra o árbitro de futebol tendencioso…

– Garanto-te que no Norte de Portugal não é nada estranho que duas pessoas, que nunca se viram em toda as suas vidas, nem se conhecem de lado nenhum, possam entabular uma saudável cavaqueira sobre o assunto mais inesperado e mais banal que possas imaginar. Chegarão por certo, e no andamento dessa conversa, a partilhar intimidades…

– Não posso acreditar!

E di-lo num inglês que traduzo mal, porque deveria antes verter num NÃO POSSO  ACREDITAR!

Explico o significado afetivo da palavra cavaqueira, intraduzível como tantas palavras que, retendo alguma semelhança com outras palavras, não significam exatamente o mesmo. E ao detalhá-lo com pormenor, com recurso ao folclore bairrista de uma cidade como Porto, Braga ou Guimarães, dou-me conta da espécie de criaturas proto-históricas com quem me imagina convivendo diariamente esta bela loira de olhos azuis, e que agora me ouve desfiar peripécias da minha terra como extraídas de um alfarrábio das Mil e Uma Noites

– Compreendo que as coisas aqui tenham evoluído tremendamente. Basta ler os contos de Selma Lagerlöf ou de Stig Dagerman, ambos nascidos na província, para percebermos o avanço da secularização na Suécia, da capital para a periferia…

– Secularização?

– Sim, secularização de uma sociedade, que era ainda há pouco mais de um século profundamente dependente da agricultura e das tradições… Olha, ainda não há muito li as memórias de Tomas Tranströmer e ele di-lo exatamente nesses termos…

– Bem, julgo que não teria esta conversa com o Lasse ou com muitas outras pessoas que conheça, João. Embora respeite a tua paixão pelo medievalismo, não creio que a Suécia se tenha propriamente esvaziado de espiritualidade… Ou de religião… Pelo contrário, somos um país cheio de múltiplas crenças em pacífica convivência…

Sim, sim, sim! Agrada-me discutir factos, apreender ideias, pôr à prova a verdade das minhas próprias convicções. Ingrid, uma jovem professora de Malmö em trânsito por várias cidades da Escandinávia, seduz-me profundamente com esse seu perfume de saber nórdico, que sempre se apõe e nunca se impõe, igual a um avô, ou a um amigo, que nos ralha sem jamais levantar a voz. Mas preocupa-me que esta geração de europeus, ofuscados pele denominador comum da americanização (outra forte palavra esgrimida entre nós), não seja capaz de albergar o antigo, o autêntico, o tradicional, nem esteja predisposta a preservá-lo das múltiplas invasões que o ameaçam…

– Falas dos chineses, dos islâmicos, dos indianos ou dos africanos?

– Ingrid, falo somente daquilo que não é capaz de dialogar connosco! Daquilo que invade a Europa e não a respeita!

– Dos chineses, dos islâmicos, dos indianos e dos africanos, portanto?

— Penso que entre eles haverá quem possa significar uma ameaça à Europa, sobretudo os extremistas, como se tem visto! Mas prefiro não designar grupos, porque sabemos que isso é uma questão complexa e provavelmente mal delimitada…

— João (e delicia-me o esforço de ditongar a palavra Joau), existe preconceito e é esse preconceito a verdadeira ameaça àquilo que chamas de “integridade europeia”. Se é que há uma “integridade europeia”.

– Corro o risco de ser mal compreendido…

– Porque o Breivik fez o que um dos teus terroristas não foi capaz, certo?

Sinto-me cansado. Viajamos para o Parque Nacional de Dalby, num Volvo de última geração, devidamente credenciado por uma entidade independente, a quem cabe a responsabilidade de zelar pelo bom funcionamento de um sistema que preconiza a segurança como prioridade absoluta. E, no entanto, sinto que é esta segurança que não deixa ver ameaças ideológicas e, decerto também económicas (que Diabo, como não falar delas, se vivo num país cheio de dívidas), espreitando já dos nichos dos bairros operários das maiores cidades de uma das melhores nações do mundo. Ou começo a duvidar de uma qualquer minha paranoia (e quando digo minha, digo nossa, do sul).

– Admito que precisamos de prestar algum cuidado em relação a grupos de estrangeiros muito específicos… Mas a alma deste país é a tolerância. E a tolerância é uma conquista que não se pode desperdiçar de qualquer maneira… Compreendes?

Compreendo, evidentemente. Mas eu não disse outra coisa, nem penso noutra coisa desde que iniciámos esta curta viagem para sul. Pelo que volto atrás para clarificar, para impedir males-entendidos.

– Sou profunda e sinceramente aberto à convivência com outras culturas, aliás muitas vezes desafiei a minha gente a respeitar a diferença e calar anedotas e comentários racistas… Mas não me sinto tranquilo neste momento, em que pessoas vindas de fora não respeitam as leis estabelecidas por séculos de luta e apuramento ideológico, por constituições soberanas e por sã convivência das suas comunidades.

– Falas, por exemplo, daqueles que obedecem somente à xaria?

– Sim, Ingrid. Esses, por exemplo!

A minha condutora fica pensativa, faz o volante deslizar suavemente ora para a esquerda ora para a direita, acompanhando as curvas e contracurvas de uma estrada decalcada de algum anúncio publicitário. A sensação de conforto contagia, a cada quilómetro percorrido faz-nos desejar pertencer a ela para sempre, como não tivéssemos nascido senão para obtê-la e fruí-la e defendê-la com unhas e dentes. Mas isso porque nasci em Portugal e não na província de Skåne… E ao pensá-lo, enquanto os olhos de Ingrid se concentram na condução, dou-me conta da terrível cortina que principia a remover-se diante os meus próprios olhos. Porque esse conforto que me embriaga, faz-me divisar por momentos a aspiração que, sem dúvida (e outra não podia ser), divide e sempre dividiu todos os povos que existem e existiram sobre a Terra.

– Penso que a posse do conforto demarca insanavelmente aqueles que toleram daqueles que se rebelam e extremam posições…

– Desculpa, amigo, não percebi!

– No fundo no fundo, o que distingue as civilizações é a posse do conforto ou a agonia de ter de lutar por ele. Os que sempre conheceram um conforto, igual por exemplo ao que sinto aqui dentro do teu carro, não precisam de lutar em nome de nada, nem de Deus, nem de uma qualquer ideologia. Porque o conforto é o máximo a que podem aspirar na sua existência humana. Já o encontraram. Ao passo que todos os outros, os que não podem aspirar a mais do que uma desforra divina, ou a uma desforra bélica, ou a uma desforra qualquer, esses nunca poderão transigir com os afortunados. É uma questão tão simples, Ingrid…

– Tão darwiniana, queres tu dizer!

– Exatamente!

Suponho que obtive algum alívio, porque as argumentações improvisadas me deixam sempre prostrado, a meio caminho do que penso e do que gostaria de poder dizer. Mais ou menos como alguém que tivesse penetrado na escuridão de uma mina até meio do seu percurso e não sabe se deve regressar ao princípio, ou se pelo contrário deve avançar até ao fim…

Suponho, também, que no final de cada conversa me fica este desconforto. Um desconforto irritante, porventura análogo ao que sentiram os amantes da ciência após o descrédito das leis deterministas e o advento de Einstein ou Heisenberg. Falo do velho catecismo das minhas convicções, das velhas ideias feitas, que repetidas em voz alta se começam a parecer estúpidas, serôdias e incompreensíveis. E o desconforto é o resultado de duvidarmos agora de tudo.

– Achas-me uma pessoa provinciana, não é verdade, Ingrid?

– Não, amigo. Penso que és uma pessoa atenta. Talvez devêssemos estar mais atentos a tudo o que nos rodeia… seguir-te o exemplo!

– O exemplo?

– Sim. Imitar essa tua atitude inquiridora, ou inconformista!

Fico calado, observando ao largo o Atlântico, o mesmo Atlântico que conheço desde bebé, estranhando quiçá ver-me tão longe de casa. Além, as ruínas de um antigo forte, tão semelhante aos escombros que adornam a costa portuguesa, também ela permeável a milénios de itinerância e invasões. Acontece-me muitas vezes: preciso de tempo para digerir e aceitar o que é ainda provisório, rebelde e novo. Não tão novo que o não devesse ter pensado antes. Ter pensado, por exemplo, nos gloriosos séculos de escravatura infligidos por um império que nos encheu de vaidade e de igrejas. Porque tudo é relativo e cruel, quando visto e pensado à luz soberana de um ângulo diferente… E é como se prova haver entendimentos terrivelmente dissonantes nas nossas palavras.

Ingrid estaciona o carro. Sorri complacente a tudo o que em vinte minutos de caminho se disse e contradisse. Mas já as palavras voam para o limiar do esquecimento. Uma fila de visitantes aguarda a compra do ingresso, famílias inteiras câmaras a tiracolo, disfrutando do sol macio de um verão curto mas vívido e limpo. Penso nos poemas de Lindqvist, nas belas descrições que aqui, agora, se tornam carne na minha própria carne.

Agora, um mês depois, ao entrar no aeroporto de Arlanda, de regresso a Paris, pude constatar uma vez mais o primoroso contraste dos suecos com os outros povos. Seguros da sua segurança, respeitam-na em vez de a defenderem histericamente como os americanos, ou de a contestarem violentamente como os latinos, por exemplo. E tudo isso é uma impressão difícil de articular em pensamento, ou sequer em palavras.

Julgo que passamos a vida a influenciar-nos reciprocamente, sem podermos jamais encontrar o norte magnético de alguma verdade. Se fosse possível existir alguma.

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Tango

Tango, Tomek Dyczewski
Fotografia de Tomek Dyczewski

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Na penumbra do salão, o rosto procurado regressa do meio das sombras. Não tens mais de vinte anos, tempo de juventude destilado na minha própria alma desavinda. É por ti que venho, hoje, ontem, noutras noites. Rosto de quem sabe ainda sonhar, de quem pode existir a salvo das rodas dentadas do relógio maldito. Rosto belo, em cuja pele deslizo dedos de amor, rosto insubmisso de mulher dançarina, rosto de puro erotismo e perdição.

Em nenhuma outra boca me apetece tanto o travo de um cohiba, o sabor dividido de um scotch, a negra reminiscência do café ou a palavra quero. Contigo trouxeste o cálido sangue argentino, o tango maravilhoso, que ao mesmo tempo é linguagem e ausência de linguagem, inexatidão de movimentos e o perfeito instante em que dois corpos se batem num duelo de sedução.

Vieste no momento em que precisava de ti. Aconteceste quando não esperava que pudesse renascer dos meus ossos de cinza. Trouxeste o fulgor de uma existência não tocável pelas misérias de um tempo e de um espaço concretos. Mais longe, ou mais fundo do que todas as outras mulheres, tu soubeste tocar sem medo a pedra fria do meu coração. Comigo te cruzaste, algures, nesta redonda casa onde tudo a todos é dado a desejar e a perder: tu disseste que ficasse e eu fiquei.

Por isso, por ti, vim todas as noites, hoje, ontem, sempre. És bela e não apenas pela firmeza da cintura, pela doce comissura dos lábios, pelo alarde de perfume que te atravessa as formas ou pelo delicado rodar das unhas. Conheço-te a admiração pela música, pela poesia (de Borges, de Neruda, de Lorca, de Víctor Jara; não de Pessoa: Eso lo detesto yo, como a todos los eunucos!), pelo vinho francês, pelos charutos cubanos, pelos pastéis de Belém, pela absoluta liberdade de todos os sentimentos, em ti nascidos e por nascer.

Disseste:

No tengo nombre, ni edad! Tengo sueños! Tuya seré mientras mío seas tú!

Nunca verdadeiramente te possuí, nem jamais em rigor poderia exercer sobre ti a posse. Pertences a uma espécie de seres que nos marcam com ferros, como para sublinhar o privilégio ou a desgraça de um dia havermos merecido a sua paixão. Haverá, quando muito, uma em dez mil vidas oportunidade igual de ser-se personagem numa tal história.

Diante dos espelhos, sob o lustre gigante (que mais se imagina pertencer a um grande salão vienense), a dança incorpora-me nos subúrbios de um outro tempo: solitário, o bandónion cresce; rostos anónimos, incontáveis, observam-nos da sombra; a canção é de uma tristeza esmagadora, um sismo de Piazzolla; tu rastejas a meus pés, imploras atenção, num menear desolado de quadris; sou uma criatura distante, o elegantemente panamá descaído, a barba por fazer, o casaco pendurado ao ombro num disfarce de másculo desdém, fato escuro, numa silhueta rio-platense que te faz chorar (Tan guapo, mi amor! Tan lindo!), tudo numa absoluta ironia de papéis trocados.

Perguntei:

O que farei um dia quando, milímetro por milímetro, me consumir este incêndio de imprevistas labaredas, se deixar de merecer o teu amor?

Disseste:

Pues, pase lo que pase, jamás te olvidaré, cariño!

Na penumbra do quarto, onde somente dedos frágeis de luz fissuram a janela, contemplo uma vez mais o teu corpo vencido e vencedor…

Haverá na vida de um homem, quando muito, uma sorte destas em mil, em cem mil, num milhão.

Porém amar e ser-se amado por uma mulher tão bela não é felicidade, mas angústia; incerteza terrível quanto ao destino, quanto à volúvel benquerença dos deuses… E, por isso, amar-te e ser-se amado por ti enlouqueceu-me os olhos e a boca. E tu que me salvaste, és tu que aos poucos agora me perdes, sem que disso tenhas consciência… ou culpa!

Em silêncio, como cedendo ao meu próprio e voluntário abismo, ao tango que me ensinaste, como para garantir a minha memória na tua memória, deixo-te assim mesmo, dormindo; deixo-te assim mesma, como sempre acontece nas frágeis aparições da vida, refém dos teus sonhos incontáveis, sem idade ou nome…

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Na mesa de trabalho

The Travel Writer, (Deviant Mind)
Fotografia de Deviant Mind

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Na mesa de trabalho cabem agora somente objetos imprescindíveis. Um dicionário atualizado, a Bíblia, cadernos de sebenta, uma lapiseira e algumas canetas de pincel (de tinta preta), um cinzeiro (com a função exclusiva de pisar papéis) e um volume de poemas de Tomas Tranströmer, no lugar que foi já de Elaine Feinstein, Salah Stétié, Ian Hamilton, Wisława Szymborska, Ruth Fainlight, Anise Koltz ou Czesław Miłosz. Tenho também as gavetas apetrechadas com a subsistência: uma resma de papel, uma caixa com duas canetas de aparo e respetivas cargas de tinta, uma coleção de livros de bolso da Assírio & Alvim, uma agenda, montes de cadernos antigos (de que não fui ainda capaz de me separar) e um isqueiro elegante (capeado em pele e metal, muito elogiado por amigos e parceiros de tertúlias, quando principiava a publicar há pouco mais de uma década e o ostentava em cigarros de ocasião).

Sobre o tampo da mesa, impecavelmente arrumado e limpo (sobretudo, do pó) há também um candeeiro vermelho que me ficou dos tempos universitários, e cujo design me fascinou na época. Há ainda, por último, uma ampulheta, objeto este sem qualquer serventia, e por isso o mais casto e importante de todos. Como é pesado, imagino que um dia, se me entrar pela janela do escritório um larápio, me possa finalmente ser propício usá-lo…

Ultimamente, quatrocentas páginas de produção poética minha dividem com estes escassos objetos o retângulo de madeira. São o fruto de quase seis anos de criação e divulgação em blogue. Foram mais, mas a salamandra incinerou num primeiro instante os “devaneios”, resultado, evidentemente, de noites mal dormidas ou do álcool!

Tanta filharada junta espatifa-me a paciência. Um a um, vou-lhes passando a boca por cima e sublinhando a mercê de cada qual. Ou então riscando-lhe uma cruz, com a preciosa anotação de «Lixo», com que o cesto tem engordado, a ponto de ter também uma caixa de cartão ao lado, para acolher a rejeição. Não sou, reconheço, um crítico imparcial, ou ser benquisto da minha própria literatura. Sempre suportei mal em mim mesmo o rigor, quase despotismo, da abordagem. E tudo porque, com horror de fiscal, considero os meus poemas francamente defeituosos, em particular por causa dos erros de musicalidade, por causa de lapsos na disposição formal, ou, no pior dos casos, por causa da falta de ideia, pura e simples!

É-me penoso ler e reler-me!

Aliás, essa a minha grande inveja em relação a outros, que me confessam o prazer (e até o júbilo) de juntarem as suas coisas num livro. Porque no lado de cá da rua, também há quem saiba combinar maravilhosamente a roupa com os assessórios.

Não é o meu caso, lamentavelmente. Aliás, vem muito a propósito narrar a peripécia que em 2005 deu origem ao volume dias desiguais. Desesperado e com o ultimato do editor a fazer-se ouvir cada vez mais alto (tinha os poemas, mas não a sua ordem de sucessão), precisei de espalhar pelo soalho de um apartamento desabitado toda a minha obra, mais ou menos como fazem os polícias nos filmes de polícias com as provas de crime dos serial-killers. E foi do chão (e não do céu aureolado de alguma musa) que me caiu a lógica do livro, se alguma lógica é possível…

Sou, com efeito, péssimo a arrumar-me. Neste momento, com cerca de quatrocentas páginas, a coisa parece-se com um bazar marroquino. Há de tudo, dos poemas curtos (à laia de epigramas) a poemas de fôlego com que me atafulhei de reflexão metapoética. Enfronhado nesta feira de palavreado, procuro o melhor do melhor, alguma manifestação de génio com que sacie a fome dos meus vinte e cinco leitores e justifique horas e horas e mais horas inumeráveis de ofício.

A eliminação, porém, é dolorosa. Quer dizer, a princípio é. Porque imponho a máxima do “tudo ou nada”. Uma vez reprovada a folha, não há reciclagem que lhe valha. Nenhum poeta gosta de esbanjar vestígios de incompetência artística ou de fragilidade intelectual. Todo o poeta, pelo menos por princípio e pretensão, é divino. E também as divindades punem mortalmente. Porque também as divindades cometem fífias e delas se desgostam. E se desgostam mais das testemunhas da sua fraqueza. Pela parte que me toca, a minha divindade roça às vezes o olimpo de uma taberna.

Ato contínuo, e para não me perder mais em labirintos retóricos, direi que a eliminação age como a tempestade sobre o alcatrão: apaga-lhe os indícios da imundície. Nada, exceto a perfeição, deverá sobreviver em poesia. A lei de Darwin, no fim de contas, é também a lei da literatura! A memória do sistema, já Bloom o afirmou com todas as letras, é um processo de branqueamento contínuo, metáfora simpática para dizer apagamento. E eu antecipo-me ao tempo. Eu voluntariamente apago!

Para me compensar de tamanha empresa, faço-me acompanhar por chocolate amargo (setenta por cento de cacau). Podia ser uísque, mas julgo-me incapaz de tanta virilidade: diria como Graham Greene “I’m not Hemingway, for God’s sake!”. E o chocolate sempre é mais barato. Diga-se que mais limpo também. Diga-se, ainda, que não tão mau para a vesícula…

Não, reler-me é penoso!

E fazê-lo com um tão grande caudal de escrita será o décimo terceiro trabalho de Hércules. Cá estarei nos próximos tempos para o conseguir. Pouco a pouco, peneirando e peneirando, à cata de pepitas que, oxalá, façam do meu próximo livro um bom motivo para continuar vivo e apaixonado pela vida! Há que reconhecer: um bom poema, nascido das nossas mãos, é motivo suficiente para tanto…

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Passear o cão

Walking the dog (Jeroen Oosterhof)
Fotografia de Jeroen Oosterhof

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Saio com o cão. As noites são agora demasiado longas. Descemos a avenida sob o halo mortiço dos postes elétricos. O ar frio volteia sob o foco das luminárias, penetra cada poro do casaco. Bela fotografia: triste, mas bela. Ao fim da tarde repetimos o caminho. Ele farejando com avidez não sei que imponderados sinais, eu buscando restos de pensamentos e meditações de outras idas.

Terminado o alcatrão, entramos em linha reta pela direita num lugarejo onde sobem altos muros de pedra, sobre os quais se mantêm de pé os ferros das ramadas. Formam sobre as nossas cabeças uma armação quadrangular. Estamos na terra batida. As fontes de luz rareiam, mas aumentam em contrapartida as bátegas de névoa e com elas o doce cantar da água. Brota do alto, do cano enferrujado que sobressai de uma pedra talhada, espécie de fontanário, sobre um tanque encalacrado entre as paredes de duas casas antigas; depois flui constante ao longo de estreitos canais formados no meio de compridas lajes paralelas. À superfície nada-lhe uma cama de musgo e nenúfares. Um recanto antigo, palco noutros tempos de idílios entre lavradores e belas moças com cântaros à cabeça.

O cão conhece o caminho. Embrenha-se já na mata, num pequeno bosque que precisamos de atravessar. Galgo a pedra que divide as propriedades, no ponto de interseção dos quatro pontos cardeais. Outrora chamavam-lhe portelo de cão, aonde acorriam almas inquietas com o braseiro dos defumadouros com que exorcizavam maus-olhados e bruxedos. O som da água vai-se tornando mais distante, substituído pelo quebrar dos galhos debaixo das botas. Preciso de avançar com a lanterna em riste para não tropeçar nos sulcos profundos desenhados pela chuva na terra ou para evitar os destroços de carvalhos, faias e olmos. Há raízes emergindo, nodando formas bizarras, serpenteando o fino carreiro por onde paulatinamente nos perdemos…

Nilo fareja, corre com euforia, dispensando os rigores da visão. Estamos no meio do silêncio e do negrume. Nenhuma casa ou luz humana se vislumbra ao redor. Por momentos apago a lanterna. O frio é intenso, físico, atravessa-me os ossos, ascende em colunas de nevoeiro desde o regato mais ao fundo. Como num sonho, sinto-me entregue ao reino das sombras e dos elementos. Observo o céu. Perco-me na amplitude das constelações que se revelam num recamado de metal argênteo. Libertas do ruído de outras candeias menores, as constelações chegam em cachos cósmicas, poalhas suspensas no firmamento como pequenos cristais sobre um tapete negro de veludo. Sempre me pareceram mais limpas e lídimas as estrelas nestes meses do gelo.

Alarmado ou apenas curioso, Nilo regressa. Convida-me a prosseguir jornada. O bafo que lhe sai da boca é veemente. Espanta-se da minha quietude, do meu êxtase, da ausência de movimento. A lua, reduzida a uma fímbria de claridade, atravessa a silhueta óssea das árvores. Em algum momento das nossas vidas já vimos algo parecido. Doem-me as extremidades dos dedos e do nariz. Como num sonho sinistro, imagino o abraço monstruoso destas assombrações, do esqueleto formado pela articulação de todos os ramos descarnados procurando agarrar-me e reduzir-me à escravidão de criança surpreendida pelas criaturas da noite. Um arrepio devolve-me ao tempo e ao espaço.

Acendo de novo a lanterna. Acicatado por Nilo, forço um andamento rápido. Junto dos castanheiros a água fumega. Através da folhagem rasteira de campos devolutos, o animal corre como um louco soltando roncos de perdigueiro. Aqui a humidade é mais álgida ainda, mais negra a escuridão, mais lamacento o areão que pisamos. Mas os cheiros são também mais puros, mais soberbos, mais vívidos, mistura de excrescências silvestres e agrárias com o odor das folhas em decomposição. Estamos no meio do nada. Um quilómetro atrás, um quilómetro à frente generosas lareiras fazem subir aos telhados a malha esbranquiçada do fumo. Dentro das casas aquecidas, das cozinhas rescendentes, dos quartos calafetados e atapetados, onde o ecrã luminoso de pequenos retângulos de tecnologia apurado conectam este mundo a todo o mundo, a civilização prospera. Mil metros de distância… Mas aqui, junto à vetusta azenha desmantelada (de que sobram ao alto, até ao lintel, as pedras de granito onde a hera principiou há muito o entrançado do seu vagar), aqui no mais prístino silêncio dos campos, dos choupos, do funcho, das hortelãs, aqui onde as corujas perseguem já ratos ocasionais, aqui estamos em pleno século XIX. Sou de algum modo o último herdeiro consciente de uma civilização que se reproduziu, floresceu e declinou, última testemunha de um tempo que se fez lívida reverberação de fantasma diante da lanterna.

Os meus antepassados aqui nasceram, viveram e morreram. Guerras se aproximaram e eclodiram, armistícios se assinaram, viagens lunares e inventos extraordinários foram notícia e mudança na sociedade dos homens. Grandes artistas e pensadores impuseram novos paradigmas de beleza e reflexão nos dois séculos que me separam deste silêncio de aldeia. Mas aqui, nesta ilha que o progresso esqueceu e marginou, tudo permanece, tudo como o veria o meu tetravô moleiro a esta mesma hora, quando por uma corda conduzisse as mulas ajoujadas de sacos de farinha. Tudo igual, ou apenas mais envelhecido, e mais silencioso, e mais espetral.

O corpo treme-me de frio, mas resiste. Porque há dentro dele um fio de consciência que sabe estar a assistir a algo único e raro como seja o derradeiro suspiro de um tempo prestes a ser aniquilado pela força brutal e irreversível de outro tempo. Todos os meus mortos me acenam dos confins aonde os levou a morte. E, por isso, é belo e doloroso atravessar este pensamento todos os dias, todas as noites, com o meu cão. E, por isso, é doloroso e inconsolável regressar ao alcatrão, ao frio elétrico de todas as veredas e estradas que se avolumam para cá da casa extinta dos lavradores, onde o óxido e o silêncio selaram para sempre amplos portões de ferro.

Nilo volta. A noite é agora profunda. Volta para me resgatar ao meu próprio abismo, à espiral suicida de todas as galáxias que torvelinham na minha alma. Traz-me de volta a casa, segurando-me pela trela, ofegante e com a língua de fora, vencido pela sede e pelo cansaço, vencido pelo esplendor da revelação. Sim, as noites são agora demasiado longas. Demasiado. E ninguém, absolutamente ninguém, pode entendê-lo.

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Dois livros

Magic book (Mirijam)
Fotografia de Mirijam

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Em casa havia pouquíssimos livros. De modo que a chegada misteriosa desses dois fez da minha vida um milagre de conversão, ela que se destinava aos fornos de uma padaria: refiro-me ao primeiro tomo da História Universal de H. G. Wells (edição Livros do Brasil) e aos Contos da Montanha de Miguel Torga (uma velhíssima edição de autor). Julgo que vieram ao engano, trazidos por um primo distraído, para serem reduzidos a tiras, que era o nosso modo de fingir as notas verdadeiras. Vinham ambos muitos amachucados e riscados, perfeitos para alguém como eu, que nesses dias detestava coisas muito direitas.

Devo explicar que quando era mais novo tudo me parecia mais simples, mais visceral, mais antagónico, e belo também. Não estava acostumado a luxos. Uma lupa ou um jogo de monopólio eram para mim objetos distantes que só os meninos com sorte possuíam. Sorte era a palavra que me vinha à cabeça em vez de dinheiro, porque aos cinco ou seis anos já eu entendia as nuances discriminatórias da sociedade. Os objetos, quando me chegavam às mãos, quando os manuseava, quando os fazia funcionar por ação dos meus próprios dedos, ganhavam foro de coisas míticas. E eles chegavam, porque afinal também eu tinha alguma sorte: foi assim que me apareceram um porta-chaves em formato de pequeno revólver (tal e qual o revólver do cowboy John Wayne – saberá Deus como idolatrava John Wayne); foi assim que me apareceram, entre outros, um realejo todo cromado, um jogo eletrónico da Pantera Cor-de-Rosa, uma pista de comboio.

Mas os livros tardavam. O primeiro que comprei adquiri-o numa feirinha de escola aos onze anos: foi ele Histórias do Bichinho Qualquer de Sílvia Montarroyos. Também esse o recordo com imensa saudade, em particular com a história da Bola de Sabão que adormecera num mundo limpo e lírico de campos e rios cantantes e acordara para um mundo de fábricas e poluição. Não menos me comoveu o susto do Sapo Ti, que escutara em certo jardim a conversa terrível sobre um sapoti apetitoso e que decidira fugir para escapar às facas de cozinha … Coisas da língua, coisas da vida que eu amava já com escrúpulos de intelectual.

Volto à História Universal de H. G. Wells. Sempre nutri um fascínio especial pela história, induzido pelas lendas que me narrava o meu pai à noite, junto da lareira, histórias reais e fantasiadas, como as façanhas de Viriato contra os romanos ou a Tomada de Lisboa aos mouros por Afonso Henriques. Mas Wells ia muito mais longe, levava-me ao começo do mundo, ao Big Bang, depois aos dinossauros, depois aos primórdios da civilização. A sua História vinha acompanhada de legendas, de ilustrações que me espantavam, sobretudo no tocante às criaturas primitivas, cujas escamas, chifres e mandíbulas monstruosos me faziam sentir tão mais confortável neste tempo de quietas galinhas e gatos preguiçosos.

O livro vinha escrito numa linguagem escorreita, apenas negligenciada por grossas manchas de humidade que o anterior dono não fora capaz de precaver. Um crime. E o criminoso deixara também surripiar umas quantas páginas no final e a capa. Teria dado já então todos os meus porta-chaves em troca de um exemplar integral daquele cartapácio repleto de sagacidade e amistoso arianocentrismo. Creio que o volume terminava algures no período de formação do império de Alexandre Magno, depois de novelisticamente nos deixar a par de todas as intrigas da corte de Filipe, seu pai.

Com os Contos da Montanha de Miguel Torga sucedeu algo parecido. Li-lhes com paixão a linguagem incontida, onde o realismo cru (com inúmeras agulhadas do calão) e as boas intrigas se combinavam rudemente. O volume não vinha em melhor estado do que outro, muito semeado de notas a lápis sublinhando passagens obscuras de mulheres adúlteras, homens castrados, ladrõezecos de sacristia e beatas hipócritas. Mesmo sem compreender completamente aquela escrita, achava-a verdadeira, naquilo que a verdade pode em literatura significar autenticidade e beleza.

Li-o umas três vezes de fio a pavio, admirando o seu exotismo montanhês, absorvendo as suas expressões regionalistas, rindo nos mesmos sítios onde a parvoíce das personagens ou a graça do narrador galgavam os portões do sono e aqueciam (até a fazer cheirar a queimado) a lâmpada do candeeiro.

Dessa sucessão terrível de peripécias ficaram-me em particular os contos «A Ressurreição» e «Um roubo». Quando anos mais tarde pude lecionar nas minhas aulas o último destes dois, foi com choque que me apercebi de como Torga já não criava leitores entusiastas.

Os anos, a informática, a pós-modernidade reduziram Faustino e a sua tentativa gorada (“numa noite medonha, cheia de água”) de assaltar a capela da Senhora da Saúde em qualquer coisa semelhante a uma pilha de palavras incompreensível e enfadonhas…

Julgo que há uma idade em que nos podemos tornar tudo.

Nessa época em que os livros começavam finalmente a circular cá por casa, desisti dos velhos arroubos panificadores para me concentrar no poder (incrivelmente abstrato) das palavras. Quis ser professor de História, depois cientista (antropólogo, talvez), depois jornalista, depois professor de Língua Portuguesa, enfim escritor. Já aos catorze anos, quando acabei «Madalena», o meu primeiro conto (que haveria de queimar com muito outro entulho pessoal no fim da licenciatura), sabia que as grandes escolhas se devem a acasos tão ridículos como o dar de caras com dois livros esfarrapados e cheios de sabedoria.

Nessa altura não tinha computador nem sequer a máquina de escrever – que viria anos depois –, apenas sebentas de papel reciclado e canetas da Bic. E também o resto que já não sei, nem quero explicar…

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