. . Ao inverter a marcha, os pneus desenham no saibro desolado a imagem, o som inesquecível de uma despedida. A noite é gélida e oca, inútil como a casca de um fruto seco. O que soa por dentro agora é um chocalhar de palavras soltas, cascalho, memórias de uma ferocidade extrema. A imagem e …
Isto
. Ultimamente rasuro muito. Rasuro folhas de papel reciclado e rasuro pensamentos. Rasuro conversas e silêncios. Rasuro convites para almoçar e idas ao cinema. Rasuro velhas preferências e a possibilidade de encontrar para elas um remédio, um remendo, um refrigério. Rasuro planos e sonhos e antigos devaneios de adolescente. Rasuro intenções, recordações, ilusões. Rasuro até a música, até Mozart, Bach, …
Da saudade que nós sentimos das pessoas que nos morrem ainda vivas
. Há dores que doem mais do que as outras dores. É um absurdo. Dói-nos tudo quando dói assim. Dói-nos o corpo ao alto, os ossos, o intervalo entre os ossos, os olhos, dentro dos olhos, a boca, a garganta, os pulmões inchando e desinchando, o estômago, os rins, as costas, as mãos, os cabelos até à última ponta …
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Uma promessa que te faço
. Todas as pessoas prestam. Mais que não seja para nos ensinarem a preciosa lição de que não podemos confiar nelas. Que saudades, avô! Massajo a cabeça com o champô, sinto o frio rodear-me o corpo por todos os lados, a chuva a cair do outro lado da parede, o sono a puxar-me de longe (da infância), …
Que bem que se está aqui!
. As manhãs são prodigiosas. As manhãs de sábado e de domingo. As manhãs das férias e dos feriados, dos dias de café silencioso e olhos fechados contra o sol. As manhãs de música barroco e de janelas abertas. As manhãs de caderno em cima da mesa e caneta de aparo. As manhãs de depois de termos feito amor, …
Crónica das palavras que nos (não) farão falta
. Chegará uma altura em que preferiremos não ter proferido uma única palavra, meu amor. Será o silêncio a dizer por nós o que as palavras não podem. Porque as palavras, como os aleijões, como os paralíticos, como os corpos encarquilhados pelo reumatismo, não conseguirão dar mais um passo. Limitar-se-ão a ter querido. A esboçar …
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O Professor Arcílio
. É difícil recompor em palavras os tiques do professor Arcílio Pinto. Diria que o tornou famoso o costume de bater com as costas da mão direita na boca e a ir empurrando ao nariz e pela testa fora até à sonora fungadela final, com que se despedia do espasmo e se concentrava de novo em nós, caloiros …
Crónica dos nomes próprios
. A infância pertence, também, aos nomes próprios. A minha aquilatou alguns preciosos e inesquecíveis: uma Donzília, um Eleutério, um Zeferino, uma Porcina, dois Franquelins, uma Hermengarda, salvo erro três Casimiros, uma Engrácia e um Barnabé. Não me lembro de outro Barnabé. Lembro-me do meu primo. Quando se irritavam com o meu primo Barnabé chamavam-lhe Barrabás. Entre Barnabé e Barrabás firmou-se …
Pobrezinhos velhinhos
. As casas dos pobrezinhos começavam ao pé da escola primária. Eram pequenas e coloridas, com portas e janelas sempre abertas e soleiras maravilhosamente gastas, onde se vinham sentar, à vez, os pobrezinhos e os cães dos pobrezinhos. Havia muitos cães diferentes, porque havia também muitos pobrezinhos. Que eram sempre muito atenciosos. Apesar de pobrezinhos, não lhes faltava que dizer …
Quando foi a última vez que assististe a um nascer do sol?
. «Quando foi a última vez que assististe a um nascer do sol?» perguntaste. Sabias que responderia com uma negativa. «Não me lembro», «Não faço a mínima ideia», «Meu caro, não sei dizer». Adquiriste, sem que isso me penalizasse por aí além, a expressão triunfante de um retor. «Mas, como podes tu escrever sobre coisas que não vives?», «Que eventualmente …
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Do velho hábito de cuidar dos velhos
. Vejo a minha mãe a cuidar da minha avó, a colher rapando o fundo do prato, enquanto quieta, como uma garota velha, a minha avó se entregava a esse cuidado, frágil, absorta em nebulosos pensamentos indecifráveis, consoladoramente. O último dos seus vícios: um copo de vinho às refeições. Com a bênção de São Gonçalo de Amarante, cujo báculo …
Talvez as palavras nos adoeçam
. Não sou, como muitos pensam, bom com as palavras. Sou péssimo com elas. A relação é difícil, cada vez menos pacífica. Como se o nosso amor tivesse terminado. Obceca-me o rigor das definições e dos sentidos. E as palavras obstinam-se num significar autónomo, autómato, automático, como se quisessem sentir por mim o que (real, …
Gosto do silêncio
«Os olhos percutentes encontram os meus. Quem diria que são olhos dormentes? O silêncio. O silêncio. Quando o azul desce, e se transforma no negro chumbado da noite, acende-se sobre ele uma densidade que o protege, e lhe permite continuar a vadiar. Convido-o para o meu quarto, que se desfaz na espuma do texto.» Maria …
Lembro-me de tudo
. A praia esvaziava-se até à melancólica reunião das gaivotas. Era então uma profusão de sulcos em forma de cunha e gritos selvagens. O ronco do mar, com o ir vir das ondas, desfazia-se num som borbulhante de espuma e cansaço, como se também o mar arquejasse e pedisse a noite. O vento erguia nuvens …
Tudo gente boa
. Sempre foi um defeito considerável este meu hábito de meter conversa e querer conhecer as pessoas. Não consigo ficar-me pelo «Bom dia», «Boa tarde», «Como está?», «Como tem andado?». Às duas por três, estou a saber a alcunha, a parentela, a história do divórcio, os resultados dos exames médicos, os sonhos de infância de …
