O retábulo

Retábulo
Foto de arquivo pessoal

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O retábulo (um pequeno painel em três partes, com a Virgem e o Menino ao centro e anjos nos volantes direito e esquerdo) foi descoberto no interior de uma pequena igreja românica de meados do século XIII.

O caruncho absorvera de tal forma a madeira e a pátina as cores e firmeza das santas figuras que a paróquia desistira havia muito desse objeto como se de lixo sagrado se tratasse. Em diversas ocasiões, podia deduzir-se do rol de “baixas” de sucessivos inventários, fora a peça despromovida pela ignorância dos zeladores (especialmente após o terramoto de fevereiro de 1969) a entulho, junto com infindáveis baldes de talha esmagada e vitrais partidos.

Ainda assim, ninguém sabia explicar bem como, o retabulozinho que sofria de carcomas e padecera de gretamentos de calor e mofos de humidades, que padecera da incúria secular dos homens e do sagrado aborrecimento divino, foi salvo para reaparecer na gaveta de um pesado armário de sacristia, embrulhado num pano de estamenha, sem maior cuidado que o não estar exposto ao relento e ao convite displicente dos ratos.

A técnica, Andreza Merino, uma estagiária da capital, pertencente a uma das brigadas móveis, descobriu-o acidentalmente durante uma visita ao norte, quando, no âmbito do seu doutoramento, demandava por uma escultura de São Romão de Antioquia. Ninguém ali se opôs a que levasse ela consigo a impensável relíquia, sobretudo depois da promessa que fez de interceder junto do Ministério para salvar o negligenciadíssimo recheio do templo medieval: os sinos e telhas cambando miseravelmente, o soalho carcomido e rangente, os caixotins e predelas manchados, os altares rachados, a talha sem brilho, os serafins desasados e repletos de úlceras, o Menino Jesus de Praga invadido pela lepra, o coração da Senhora das Dores negro das setes espadas que a ferrugem venceu.

A jovem, calçando luvas de proteção, avaliou e fotografou então cuidadosamente o ícone tresdobrado. Espantou-se da profunda degradação das tábuas, do entalhamento, da pintura. A imagem tripartida aparecia como uma planície de terra árida, repleta de gretas, aqui e além (em crateras terríveis) desprovida já de tinta, semelhante no seu todo a um moribundo repleto de chagas.

Com a ajuda de uma pinça, Andreza retirou os fragmentos avulsos e mal seguros, dispondo-os na mesa de trabalho pela mesma ordem em que surgiam no tabuleiro. Eram como lascas inúteis e insoldáveis. Depois, usando uma sonda, calculou o grau de resistência e fixidez da restante pintura. Raspou meticulosamente, com um bisturi, a base de madeira aonde haveriam de regressar os pedaços soltos, de forma a limpá-la do gesso e dos restos de cola. Larvas fossilizadas de besouro, que urgia remover, haviam formado cavidades. Sobre elas, nas fendas entre as tábuas, sob as finas camadas de madeira pintada, para dentro das monstruosas falhas, injetou uma solução de resina (mais tarde aplicaria outra de solvente ativo). Fez no reverso correr uma trincha embebida num líquido idêntico para saturar os poros e as galerias escavados pelos daninhos insetos. Demorou dias nesta simples operação de reforçar e estabilizar a estrutura do painel.

Depois derramou, sobre as zonas nascidas da decapagem e servindo-se de uma espátula, uma solução esbranquiçada de gesso acrílico. Deixou-a secar e repetiu duas vezes o processo. Só então pôde pincelá-las com uma espécie de goma transparente e, como quem reconstitui um puzzle, devolver ao seu lugar de origem cada pedaço. Em seguida, de molde a pressionar e a reuni-los à madeira original, aplicou sobre películas acamadas de silicone e feltro a ponta de um ferro quente. Tinham passado duas semanas.

Experimentou, seguidamente, em copos graduados de vidro, usando pipetas e cotonetes, teste após teste, a dosagem certa de metiletilcetona para iniciar a limpeza das tintas. Paulatina, maravilhosamente, como um rosto que de súbito se vê iluminado e aquecido pelo sol de uma manhã de março, principiou a renascer nos movimentos cautelosos dos seus dedos, uma Virgem de cabelos loiros e ondulados, coberta por um manto azul esverdeado e uma auréola diáfana, segurando com a mão esquerda Jesus e poisando a direita sobre um livro aberto, esplendorosamente preenchido de linhas e góticas inscrições. O Menino, nédio, rosado, cingido já pela coroa de espinhos que o haveria de atormentar, voltava o rosto sobre a mãe num misto de interrogação e piedade, como se também ele soubesse já que o seu belo rosto jovem (na casta expressão que Botticelli ensinou) teria de enrugar e envelhecer na armadilha do sofrimento que Deus lhe destinava. Era de resto uma cena doméstica, como a mesa e o cesto de coloridos frutos deixava concluir. Depois, aos poucos, a cada movimento circular do algodão e do produto gelatinoso, também aos anjos tutelares (um, à direita, tocando uma pandeireta; outro, à esquerda, soprando para uma flauta de pã) foi restituída a luz primitiva. Merino usou, por fim, um verniz para proteger e separar o cromado primitivo das intervenções que viessem posteriormente a ser feitas.

Com paciência, com amor, a jovem técnica passou ao alto relevo envolvente, usando todos os instrumentos e materiais de douradura de que pôde servir-se. Com um coxim cortou pequenos segmentos de folhas de ouro e com uma paleta fê-los cair sobre os rebordos. Depois, com um pincel, servindo-se de uma pequena tina onde misturara pigmentos diversos de mica, deslizou sobre os rebordos restaurando o rútilo primitivo. O brilho era agora tão belo e tão veemente que Merino confirmou a sua suspeita: a peça que tinha em mãos seguia a escola de Gregório Lopes, em tudo similar ao óleo que o artista deixou na charola de um dos altares do Convento de Tomar. Era uma obra-prima!

Faltava ainda, contudo, recuperar as perdas na imagem, os pedaços que o tempo fizera desaparecer. Andreza colocou o retábulo sobre um cavalete e recorrendo aos conhecimentos do tratteggio principiou, repetindo incansavelmente as tentativas de seleção cromática, a preencher os lapsos, a completar os traços interrompidos, a tornar una, prístina e perfeita a cena retratada.

Quando ao cabo de sete meses deu por concluído o restauro, aplicados os produtos finais de fixação e proteção da madeira e das tintas, designadamente um verniz ultravioleta 292 para estabilização do anverso, deixou-se invadir pelo sentimento de humildade e gratidão de que tanto falava o seu orientador no Departamento de Conservação e Restauro.

Documentou profusamente o trabalho feito. Depois viajou de novo ao norte do país. Na paróquia discutiu-se muito o lugar onde exibir o tríptico. O padre desconfiou dos ladrões, o sacristão suspeitou do telhado ameaçador, as beatas lamentaram a pequenez física do retábulo, toda a gente se esqueceu de agradecer a Andreza Merino, a quem de resto, se sobejava o talento, o devia a Nosso Senhor.

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A seita

Fotografia de Gilles Quesnot

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A seita, desobedecendo a Martinho de Dume, seguia o tempo pagão.

Lues, Martes, Mércores, Joves, Vernes, Saturnes, Soles eram dias de podar e queimar a lenha inútil, lavrar e semear, pastorear as ovelhas, criar os bácoros, dias de mondar, ceifar e moer o grão, enxertar as videiras, sacrificar a Juno a melhor das reses, recolher o mel e a própole, agradecer os frutos e abençoar o vinho novo, dias de lavar com água de uma fonte pura e cinza doméstica os altares ancestrais, dias de festejar com címbio os casamentos, de libar com a arféria, de celebrar os ciclos da lua e do sol e as velhas divindades que habitam os bosques e os rios e as noites gélidas do mês de Jano e das Februas.

O cronista João de Biclaro explica que no reinado de Leovigildo «eram estes pagãos em número incontável», mas que no tempo de seu filho Recaredo principiaram a cessar, à medida que o catolicismo ia extirpando os resquícios que suevos deixaram, erguendo cruzes onde antes se venerara os ídolos, elevando nos pedestais das igrejas e guardando nos nichos das capelas imagens de santos que depunham e esqueciam em definitivo as estátuas dos falsos deuses e deusas de Roma. «Somente em poucas aldeias e rincões alguns restavam, tão renitentes e fanáticos que nem a lâmina das espadas, nem as ameaças de impiedosos castigos os ensinavam a seguir a verdadeira fé de Cristo». Cheio de sarcasmo, chama-lhes João «purissima huius spei omnium» («os mais puros de todos»).

Viterico, o monarca assassino de Liúva, tolerou a seita, outros a perseguiram. Como tantas vezes sucede na História, a memória dos «puríssimos» foi sepultada e desenterrada muitas vezes. Como cacos de uma ânfora, chegou aos nossos dias.

Quem sabe por que divinas mãos trazida!

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A interdição de sonhar

Shoayb Hesham Khattab
Fotografia de Shoayb Hesham Khattab

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Qutuz, o sultão, rei dos mamelucos, decretou a proibição dos sonhos. Que ninguém sonhasse, sob pena de se lhe ser oferecida a viagem, violenta, para o mundo dos mortos.

Ninguém sonhava, portanto, no Cairo e em todo o vasto país que descia com o Nilo e se dirigia a leste, para lá do Mar Vermelho, até à Península Arábica. Ninguém sonhava. Sonhar era um veneno, tão nocivo quanto um preparado de cicuta ou a cuspidela certeira de uma naja. Por causa dos sonhos os homens acolhiam recados dos anjos e dos demónios, por causa deles erguiam esperanças, alimentavam revoluções, depunham imperadores, cortavam cabeças. Mesmo os sonhos mais comezinhos e inocentes (os que vogam no interior dos olhos das crianças, por exemplo) potenciam desgraças, inquietam a castidade das paredes domésticas, abrem grandes brechas na terracota, juntam-se aos beduínos tresmalhadores, conspiradores, urdidores de guerras e de mártires.

As mulheres apertavam grandes lenços negros à cabeça, para que as suas noites fossem tão escuras por dentro como por fora, sem estrelas, sem luar, sem oníricas imagens e vozes que pudessem ser recordadas de manhã. Os homens prendiam aos pulsos grilhetas e pesadas esferas de chumbo, não fossem as suas mãos tentadas a levantar-se no imo do deserto e segurar as rédeas de um dromedário, o cabo de um alfange, a frente de uma rebelião. Às crianças amordaçavam-lhes a alegria, o entusiasmo, a euforia. Tão pouco lhes destapavam a boca durante o descanso, porque muitas vezes é na calada do sono que se lavanta mais alto o mais fundo e irreprimível dos destinos.

Foi então que nasceu a lenda. Alguém se lembrou de afirmar que comendo tâmaras se obtinha o silêncio e o segredo tão asperamente procurados por toda aquela geração de não-sonhadores. Era como a resina da goma arábica com que se calafetava os interstícios no adobe para impedir que os escorpiões penetrassem sorrateiros nos quartos. Comendo tâmaras, ficava a boca tão saciada e tão fechada quanto a gula do sultão quando lhe traziam jovens amantes para serenar as desconfianças e horrores noturnos.

Em todos os bazares do reino tornou-se este fruto mais procurado do que o ouro ou a seda. Transacionava-se um punhado de tâmaras secos por caxemira pura.

Por essa razão deixaram os pobres de poder comê-las. Por causa dessa fome, não puderam nunca os pobres deixar de sonhar.

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O casamento

Thierry Boitelle
Fotografia de Thierry Boitelle

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Era um nevoeiro tão intenso que a manhã parecia perder-se dentro de si própria. Mal se avistava o perfil das árvores e o campanário e o rio de álgidas águas que corria ali propínquo.

A noiva chegou. Dir-se-ia que o branco decidira engolir toda a cidade, deixando-a suspensa de cada passo que a conduzia das escadas à nave central e ao altar. Prisioneiras da galilé, laterais uma e outra, as estátuas de António de Pádua e da Virgem Maria. No rosto de ambos, reverbera a vermelhidão da chama das velas e círios que o sacerdote fizera acender. A catedral, vazia, gélida, perfeita, ecoava.

A noiva entregou a mão ao noivo e os dois as mãos ao padre que os casou. Ela tinha sido homem e era agora mulher. Ele tinha sido mulher e era homem agora. Assim se encontravam e apaziguavam, finalmente, seres e sexos transviados, errantes, renascidos dos abismos humanos. Deus, que tudo vê e sabe tudo, não se zangava com o seu corpo transformado, nem sequer com o ministro que no sacramento os unia com marido e mulher. Era uma catarse. Toda a cidade se limpava do esterco, da imundície das feias palavras e horrorosas ameaças que praticara com aqueles dois.

Nunca se vira um nevoeiro assim. Era como se um manto de futuro arrependimento se levantasse já da memória mais crua. Os olhos míopes nada viam ainda. Somente os olhos acesos dos santos ardiam, os da Virgem puríssima e os de António, padroeiro dos fecundadores.

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O presépio

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Pintura de Antonio Allegri (Correggio)

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Esperava-se nesse Natal de 1521 um milagre. Todo o Danúbio fora infestado de turcos, depois que Solimão tomou a cidade de Belgrado e se dispunha agora a despedaçar o reino da Hungria. Os otomanos espezinhavam e matavam, mas pior do que isso exigiam o horroroso devsirme, o tributo sobre o sangue. As crianças eram carregadas sem pingo de piedade pelos oficiais estrangeiros e levadas em cestos, à garupa dos cavalos ou das mulas; convertiam-nas depois à religião inimiga, transformando-as em máquinas de guerra leais ao sultão, esquecidas de tudo quanto tinham sido e de tudo que poderiam ter sido. Assim Solimão, o Magnífico, punia os cristãos, roubando-lhe a terra dos antepassados e deixando que os antigos filhos se transformassem nos castigadores vindouros.

Na ilha de Čakljanac, na pequena igreja bem a meio das duas margens do rio, alguém se lembrara de repetir a tradição do santo italiano de Greccio. Construíram, portanto, junto ao altar uma cabana com toros e colmo e dispuseram as figuras de barro. Eram figuras tão reais que a comoção se apoderou dos crentes e do padre. Rezava-se com lágrimas suplicantes para que os soldados do sultão não cumprissem o odioso imposto, e por isso as mães apertavam os filhos e ecoavam mais alto as palavras do pregador.                                                    

Da cidade de Nándorfehérvár tinha partido uma guarnição. E foi em muito má hora que ali chegou, nessa noite pura em que toda a aldeia se reunia para celebrar o nascimento do salvador da humanidade. Os brutais janízaros irromperam pelo templo e fizeram cumprir a determinação do califa e imperador, retirando-os pela força (erguendo os sabres, arreganhando os dentes, cuspindo impropérios) os rapazes que deveriam tornar-se, eles próprios, a futura guarda do sultão.

Conta-se que nessa noite, desse teatro de barro, madeira e palha, desapareceu misteriosamente para nunca ser encontrada a figura do Menino Jesus. Que todos as figuras adquiriram a feição pungente de um velório e que os próprios anjos tapavam o rosto com as mãos castíssimas que deveriam erguer-se em solene devoção.

Este presépio é, ainda, o mais bizarro do mundo.

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O pecado

Jochen Bongaerts
Fotografia de  Jochen Bongaerts

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Era um padre jovem. Gostava ainda de recordar as coisas que fizera na aldeia antes de ser ordenado. O pensamento vogava às vezes para a pontezinha sobre o qual contemplava o riacho, a água muito limpa, os alfaiates flutuantes, as algas adormecidas, os pequenos peixes escuros. Gostava sobretudo de apertar em ambas as mãos as bênçãos que se cruzavam no seu caminho: sementes de nêsperas e de tâmaras, bolotas, grandes castanhas vergonteadas, nozes, seixos polidos. Algo profundamente seu lhe inspirava essa ciência da palpação, como se o tato, o desocultar da pele, o ardor dos dedos conjugados, o fizesse compreender melhor os desígnios do Senhor.

Isso mesmo foi o que disse, quando o surpreenderam, ofegante, de olhos fechados, abraçando-a pelas costas, acariciava hipnotizado, com frémito, com volúpia, os belos seios de Irene, a moça que havia semanas o servia na paróquia.

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Fósforos

Fotografia de Svetlin Yosifov

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O velho recolhia todos os paus de fósforo que podia encontrar. Primeiro julgaram-no um desses artesãos que constroem castelos e navios. Mas ninguém lhe viu vez alguma arte ou obra, e por isso com o tempo passaram a ver nele um doido.

Os pequenos paus ardidos dão uma impressão bela do que é a nossa vida e do que a nossa morte é. Alguns são facilmente decapitados, outros mantêm inteira a cabeça cínzea e o tronco chamuscado. Unidos uns aos outros com paciência e vagar, eles erguem paliçadas, pontes, jangadas entre o reino dos vivos e o reino dos mortos. São como poemas escritos para durar um instante de milagre e para sempre de tristeza. É preciso compreendê-los.

Em dezembro, quando os dias se apagam mais cedo, muito próximo do Natal, encontraram o velho morto em casa. Jazia estendido no chão, no interior de uma gaiola gigantesca, composta por milhares e milhares desses encantadores pedaços de madeira queimada. Era um pobre mausoléu.

Nele se guardava ou prendia o velho, ninguém até hoje foi capaz de decifrar de quê ou porquê.

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O diospireiro

Fotografia de Ernesto Scarponi

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Nessa Consoada não houve neve, apenas chuva e vento. À volta da lareira não foram postos os potes de ferro, nem se escutaram vozes concordantes, extasiadas e nostálgicas. A velha cozinha recebeu somente um hóspede. Viera para cumprir o voto: enquanto fosse vivo, ainda que por uma noite no ano, aquelas paredes sairiam da ténebra e do silêncio e seriam adoçadas pelo brasume e pela sombra cada vez mais tremelicante das suas mãos. Tinha esse dever.

Sobre a longa mesa de pinho abriu a garrafa, desembrulhou o jantar, sentiu o abandono garroteá-lo, mastigou sem gosto. Os talheres enferrujados da casa, a lareira mascarrada e mal desentupida, a ausência de cânticos, a falta do aroma da canela pareceram-lhe a parte significativa e incompreensível do seu destino. Era o último, tinha essa obrigação!

Estendeu ao comprido do soalho, paralelo ao lume, um saco-cama, deitou-se nele e ao cabo de muito tempo adormeceu. Quando horas mais tarde abriu as janelas, foi surpreendido pela luz lavada, veemente, puríssima da nova manhã. Havia rútilos e revérberos macios e dolorosos, que os olhos aceitavam e rechaçavam ao mesmo tempo.

Saiu então para o pátio, caminhou pelo horto, andou no meio das ervas e das árvores, seguindo os regatos e os trilhos da murta. O cheiro do verde era tão intenso que em mais do que uma ocasião se sentiu compelido a descer as pálpebras e a aspirar em longos haustos o que da terra invisivelmente se erguia. A dada altura parou a contemplar um diospireiro. Estava ainda carregado de frutos: velhos e encarquilhados dióspiros, repletos de bolor, iluminavam os ramos quase secos, dando-lhe uma cor de cobre e de fogo e uma feição amicíssima.

O homem espantou-se. Não podia entender como, ao invés de todos os outros em volta, aquele diospireiro não tivesse sido despojado pela intempérie ou pelos pássaros famintos. Comovia aquela visão do tempo miraculosamente adormecido. Com algum esforço de imaginação, o homem conseguiu ver o desenho e o amor das árvores incontáveis que nessa altura do ano as crianças decoram com enfeites, luzes e flocos de algodão. Sentiu então que não estava só, que nalguma parte deste ou do outro mundo o aconchegavam.

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O rei e o monge

Daniel Fleischhacker
Fotografia de Daniel Fleischhacker

Teodorico, o Rei tinha-o mandado chamar e ele foi. Três dias de jornada até perto da capital, até à praia onde o esperava um ror de gente. O desgrenhado eremita entrou no areal, trajando farrapos, segurando um longo cajado, sem um esgar de ansiedade, medo ou hesitação. À medida que avançava para o baldaquino ou tenda real abria-se à sua frente uma clareira de espaço e de silêncio. Por fim, João deteve-se diante do monarca.

Teodorico levantou-se impressionado e deu um pequeno passo na sua direção, mas o monge barbudo recuou um passo maior ainda. Depois, em modo de compasso, o monge escreveu com o cajado um círculo na areia. Ninguém poderia nele entrar, sob pena de extrema maldição e vergonha para a posteridade. O bispo enojou-se do cheiro e do aspeto dos seus andrajos, os nobres arregalaram os olhos, o povo sussurrou.

Teodorico sentou-se e disse:

– Bom homem, agradeço que tenhas vindo. Há muito que te procuro. Os meus batedores trouxeram a boa notícia de que vinhas. Sei da tua santidade, conto com ela para que me ilumines o pensamento!

Os guardas trouxeram então, atados e sujos, sem sinal da anterior opulência e de magnificência, o deposto Almostancir e seis dos seus filhos, califa e senhores das ricas províncias do sul, terras ímpias e infiéis, em cujos palácios se cultivava agora o hábito de lançar seguidores da religião de Cristo a covis de leões e de víboras.

Teodorico não sabia que destino dar a tais prisioneiros. Confundia-o o amor devido ao próximo e o ódio merecido a estes distantíssimos inimigos da fé. Dar-lhes a morte atentava contra os preceitos, deixá-los vivos contra a vitória dos seus exércitos e a segurança do seu império.

– Este homem, rei nascido e agora execrado, matou impiedosamente, com ódio absoluto, incontáveis dos nossos irmãos. Quis a mão de Deus que se fizesse justiça. Tu, o mais desapegado dos filhos de Deus, que escolheste as montanhas para refúgio de todos os perigos do mundo, dirás o que fazer com ele e com os seus descendentes!

O monge ouviu estas e todas as palavras de Teodorico.

– Escutei as palavras do nosso bispo (o bispo afetou uma vénia ao ser apontado pelo rei), escutei as palavras dos meus generais (os chefes militares endireitaram mais o tronco), escutei os homens mais sensatos de entre os mesteirais e camponeses (os representantes do povo ergueram orgulhosamente o rosto), mas em boa verdade o digo: Deus por ti falará!

Viviam-se tempos agónicos, apocalípticos. Nunca como então, no virar do milénio, se desejara com tal veemência o ouro, em lado nenhum como ali se desprezava tanto o sagrado exercício de Paulo de Tebas, Antão ou Macário, santos anacoretas. Era preciso que as Escriturasvoltassem a ser lidas, era preciso que as palavras de Jesus voltassem a soar, nesse terrível século de lutas, limpas e desembestadas, como soaram outrora nas praias da Judeia.

O eremita olhou o rei nos olhos, profundamente, demoradamente, afetivamente. Depois sentou-se no meio do círculo, fechou os olhos, cruzou as pernas, colocou sobre elas o bordão e permaneceu imóvel, ausente, sem uma palavra, durante muito tempo. Teodorico, inquieto, escutava os cochichos crescentes dos conselheiros, o murmurar da multidão, o abespinhar das ondas, o grito selvagem das gaivotas.

Por fim, cansado, impaciente, cheio de tédio, perguntou.

– Então?

O asceta abriu os olhos de novo, levantou-se, fitou o céu e, brandindo o cajado, declarou:

– Porque me perguntas, Teodorico, o que tu próprio sabes já?

O corpo dos prisioneiros pendia, exausto, macerado, sem esperança. Teodorico, o Rei voltou a inquirir.

– Como podes tu saber o que eu sei?

– Foste ungido. A tua semente nasceu da semente d’Aquele que entre nós viveu um dia, as palavras d’Ele habitam as tuas palavras, o que Ele disse tu o dirás… Não perguntes mais!

Depois, perfurando pelo meio da multidão, pelo mesmo caminho por onde veio, o eremita partiu, infundindo nela o mesmo temor de antes. Afastavam-se os homens à passagem, juntavam as mulheres curiosas cabeças nas suas costas. Em breve desaparecia, sumindo-se na floresta que havia de o levar aos lugares trogloditas onde gastava os seus dias.

O monge dissera nada e tudo dissera. As suas palavras eram a afirmação de uma ideia, mas podiam sê-lo também da ideia contrária. Teodorico, perplexo, quis saber o que pensavam os outros da enigmática resposta do monge João.

Era um doido, declarou o anelado bispo: a resposta dele era um opróbrio, uma estultice, uma marca do demónio. O que o eremita quis dizer era óbvio, defenderam os generais, olho por olho, dente por dente: aqueles cães moiros mereciam ser atirados a um poço e deixados apodrecer à fome e ao frio! Isso não, corrigiram os homens do povo, devia era negociar-se a sua vida, exigir-se os resgates devidos a um rei e a príncipes: se o nosso dinheiro é útil, o do inimigo é-o duas vezes mais, para curar as feridas da guerra!

Teodorico levantou-se. Todos se ajoelharam.

Era mister que olhasse para o fundo, para dentro, para onde não podia mais enganar-se. Ele sabia, sim. O monge acertara. O paradoxo é inerente à condição de mandar.

Beijou a cruz que trazia no peito e ergueu-a para que os infiéis conhecessem o novo poder. Depois, brandindo a espada fê-la descer sobre as odiosas cordas que sujeitavam os cativos. Libertou-os, sem saber porque o fazia ou com que riscos. Ordenou que os montassem nos cavalos saqueados.

E eles foram, pelo mesmo caminho do eremita, a caminho da floresta. Ninguém sabia em direção a que deserto.

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O velho político

Sergei Smirnov
Fotografia de Sergei Smirnov

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O velho político estava bastante confiante. Ia defrontar o antigo partido nas eleições do outono e dar uma valente lição aos ex-correligionários, provando ser capaz, sozinho, de derrotar toda uma máquina de angariar votos e de eleger-se à boa maneira antiga: berrando e prometendo, prometendo e berrando. O velho político tinha de si a mais alta estima, ele era uma instituição!

No início do debate, o jornalista moderador, à maneira de um introito, colocou um par de questões a cada candidato. Eram sete ao todo. O velho político terminava a ronda. Tinha bebido. Estava bastante bem-disposto. As faces vermelhuscas não ajudavam à imagem. mas sabia exatamente o que dizer.

– Começo por questioná-lo sobre o leitmotiv da sua candidatura independente: vinte anos ao serviço e agora a decisão de enfrentá-lo. Porque o faz? Não receia que muitos dos seus camaradas vejam nesta sua candidatura um ato de traição?

O velho político tinha resposta para aquilo.

– Oiça. É uma falsa questão. Eu não posso ser mais conotado com o partido a que pertenci. Foram outros tempos! Tenho uma visão nova sobre os mesmos problemas…

– Perdoe a insistência, mas não admite a hipótese de haver alguma contradição em liderar um partido duas décadas, ser eleito sucessivamente nas suas listas e agora refutá-lo liminarmente?

– Nem pouco, nem mais ou menos… Sou um homem com visão, um cidadão livre, com convicções próprias! Esta terra precisa de um pulmão. Temos de a catapultar…

– Terra que liderou durante vinte anos…

– Sim, mas com a minha equipa agora…

– Porque pensa que conseguirá fazer no próximo mandato o que não conseguiu em cinco?

O velho político vermelhava agora ostensivamente, sorrindo com afetação. Havia mais candidatos na sala e não lhes fora dirigida qualquer questão com a mesma veemência. Irritava-o já o tom, os esgares, a insistência do jornalista moderador, para não falar da sua muito provável falta de isenção.

– Oiça! Do que esta terra precisa é de uma de uma liderança forte e experiente. Sou o candidato mais cotado. Tenho experiência e prestígio. Sei bater às portas certas!

Rapidamente o atacaram os adversários. Oportunismo, nepotismo, clientelismo, cizentismo. Acabados em ismo, as palavras soam como chocalhos. O velho político não se livrava do coro crítico que lhas pendurava como vis medalhas ao pescoço. Da plateia às escuras chegavam invisíveis imprecações rudes.

– Corrupto!

O candidato mais à direita soltou a língua.

– O senhor é a pessoa nesta sala menos capaz de entender o futuro e, mormente, de o assegurar. É responsável pelas decisões mais vergonhosas de que há memória na nossa terra, no período democrático… Se houvesse justiça neste país, o senhor estaria preso!

Atenazado pelo rigor, força e juventude dos seus adversários, acossado pelo passado recente a que não eximir-se, vencido pelo torpor do bom alentejano que fizera juntar  à feijoada, o velho político principiou a descambar.

– Esse investimento, a que o senhor chama de «negociata», senhor candidato, é uma mais-valia para esta cidade. Todos, exceto o senhor naturalmente, sabem isso… De resto, o senhor no meu lugar, e conhecendo-o eu como conheço, tinha metido umas boas milenas ao bolso. Mas isso é outra questão…

O jornalista moderador precisou de acalmar os ânimos e de lembrar ao velho político e a todos os senhores candidatos o dever de elevação e de respeito pela democracia.

Mas logo ao primeiro ensejo, o velho político destratou a jovem candidata do partido ecologista, que o inquiria sobre benefícios e benfeitorias alegadamente associadas à sua presidência e a diversas empresas poluidoras.

– Ó senhora candidata, ou menina (talvez seja mais correto tratá-la por menina), suponho que ainda usava cueiros quando eu já governava esta terra. Faça o obséquio de não me vir com pedagogia. Os empresários são, toda a gente sabe isso, a alma de uma região. Não se seja, ou não se faça de pretensiosa, de inocente ou de parva!

Os apupos vieram sob os mais variados registos. Repreendido, admoestado, confrontado com ferocidade por todos os rivais, enxovalhado pela escura assistência, posto perante factos de que se esquecera ou de que não pretendia recordar-se, humilhado pela sua prestação errática diante uma geração diferente daquela que o erguera em braços, o velho político sentia encurralar-se-lhe o raciocínio e roncarem as entranhas. Os gases corriam de víscera em víscera, tomando de assalto o sossego de que tanto necessitava numa hora tão cruel.

Discutidas, arengadas, propostas as melhores, rejeitadas as ideias mais espúrias, chegou-se à fase final do debate.

Quando o candidato do centro-direita, no seu timbre descansado, fazia já o apelo final ao eleitorado, escutou-se um arroto. Foi sonoro e explosivo.

O orador interrompeu-se, surpreendido. Depois, como querendo mascarar o que parecia ser um momento embaraçoso na sala, prosseguiu. Mas teve de parar novamente, quando de novo à sua esquerda, berrando como um sopro de trombone (em escalas diferentes nos diferentes microfones), se escutou indisfarçável, longo e superior o efeito terrível da flatulência.

Os olhares voltaram-se todos na mesma direção. Escarlatíssimo, a espirrar sangue, aceso com um rubi pelos holofotes, o velho político pediu desculpa.

Não houve forma de dominar as gargalhadas, as casquinadas alvares, o apupo de uns e de todos. Nem o caudal de ferozes caricaturas que doravante se publicaram, pintaram e reproduziram em som, a cores e em tarjas insultantes.

Por essa, ou por outras superiores razões, o velho político não foi capaz de reeleger-se.

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