Lars van de Goor
Foto: Lars van de Goor

 

Apresento-me à entrada do bosque como fiz durante anos por esta altura. O cão segue-me, farejando com o contentamento eufórico deste regresso dos dois a um lugar de ambos.

O bosque é o mesmo e é outro. A nostalgia faz crescer em cada uma destas grandes árvores uma sombra mais triste. A ausência parece irreparável, como se em mim algo me não perdoasse os muitos dias perdidos, a indiferença, o envelhecimento.

Já quase é noite. Convém a intrusos como nós que assim seja. Vimos saquear o ar frio, tomar de assalto a terra húmida, esmagar o corpo inteiriço das bolotas num horror de insetos esmagados, invadir junto com o alvoroço das gralhas as mesmas neblinas que descem até ao rio, até às ruínas do moinho onde tantas vezes a lua me pareceu arder sozinha num poema por escrever.

Sou um melancólico, assumo.

Vou atrás do Nilo. Ele saberá guiar-me pelos mesmos lugarejos musguentos de outrora. Quem sabe, mediar a reconciliação do homem com o espaço. Sigo-o sem uma fala, como um penitente, arrependidíssimo. É domingo e eu fujo, fujo de mim mesmo, vazio e repleto, voltado do avesso, entrando num lugar onde a lanterna mal alumia e tudo é uma luz.

Acabei um livro, venci uma doença, ensinei a uma fornada de alunos mais, amei e fui amado, amo e sou amado, vejo à minha volta o contorno de cada coisa e de cada pessoa, reconheço em mim o poder de fazer mexer algo, de empurrar um ramo, de pontapear uma pedra, de ultrapassar um regato ou uma lamaçal. E, no entanto, sinto-me um saco vazio, uma boca e um ouvido escancarados para o abismo, um par de pernas e de pés caminhando num modo de autómato para o negrume.

Sou um lamechas, admito.

Neste preciso ponto da caminhada, acocoro-me para erguer uma folha de carvalho: o halo incide sobre as nervuras, os dedos seguem o recorte, percorrem cada uma dessas linhas radiais, regressam à grande estrada ao centro. Centenas de outras folhas iguais, de um tom indeciso (vermelhas, douradas, castanhas, alaranjadas) cobrem o chão e são cobertas pela líquida itinerância dos vapores noturnos. E eu penso que todas (centenas, milhares de folhas juncando o chão) são a metáfora das nossas vidas, cada qual uma história, cada uma qual história distinta, com os seus episódios principais e secundários e terciários. Todas caídas, outonais, derrotadas pelo mesmo sopro que nos sepulta e torna anónimos recortes amontoados no bosque umbroso da história.

O cão ladra. Reclama a minha presença agora que descortinou o fio perdido de um qualquer novelo temporal. Sigo-o. É domingo. É noite cerrada. Odeio os domingos. Preciso de andar sempre com uma lanterna ligada aos domingos, como se tudo à minha volta fosse tão de breu como de breu é o âmago deste bosque.

Sou um insatisfeito, reconheço.

Fujo muitas vezes de mim. Fujo para uma autoestrada, para uma saída sem nome, depois para uma estrada de terra batida, até ser impossível fugir mais. Fujo como os dedos fogem pelas nervuras de uma folha de carvalho, cheio de uma terrível utopia, saturado de boas e péssimas decisões.

O cão envelheceu terrivelmente. Mesmo sem o ver, adivinho-lhe o pelo áspero, desarranjado, em tufos. O caminhar incerto. As orelhas descaídas. O focinho encarquilhado, esfolado. É o mesmo e é outro, ainda que repetindo os passos exatos das outras vezes, dos tempos em que se aventurava a trepar os muretes divisórios e a penetrar as luras sob as grandes raízes das faias.

Já quase é inverno. O frio de novembro não é brincadeira nenhuma. Agarro-me ao casaco com o ar desesperado do náufrago que encontrou uma tábua. O bafo é agora mais branco, como uma cortina breve. O domingo está prestes a fechar. Ao fim de tanto tempo sou eu quem me não me reconhece. A lanterna acendeu a lua. Ela veio. Salvar-me talvez. Escrever com a sua voz sublime o que as palavras estão querendo dizer. E não sabem ainda.

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