Os moleiros

Fotografia de Donald Giannatti

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Havia uma floresta enorme de castanheiros, carvalhos e choupos, no interior da qual existiam um riacho, uma azenha e uma pequena casa, seguida de outra e ainda de uma terceira.

Depois da floresta vicejavam os campos, as vinhas e a aldeia. O alto da colina era o lugar da igreja, onde muitos séculos antes os romanos haviam construído um templo a Apolo, ou a Hermes Trismegisto, ou talvez a Minerva.

Nos dias de verão, passavam muitos pés pela mancha verde, suportando o peso do cereal depois transformado em farinha. Mas, no outono, a lama separava-os uns dos outros, como se vivessem todos em países longínquos, e só com muito esforço se sabia alguma coisa dos três irmãos moleiros.

Alguém, uma vez, um homem centenário, explicou:

– Oh, esses mofinos (que Nosso Senhor os tenha) morreram afogados na mesma noite, quando uma grande tempestade os tirou da cama e a água, à traição, os levou pela frente.

– Como pode isso ser, avozinho, se são eles quem nos mói o grão?

O nevoeiro abate-se amiúde sobre as copas despidas, deixando tudo submerso à semelhança de um sonho. Quando o sol por fim penetra pelo meio dos ramos nus, rebrilham pelo chão húmido as folhas recortadas e os espinhos boquiabertos com as suas castanhas.

Da floresta original resta um pedaço amoroso, ao longo do qual caminham hoje crianças de escola e cães de companhia, velhos comidos pela nostalgia e almas intranquilas.

Há quem jure que ao escurecer um som de metal e de pedras pesadas em movimento sobe das sombras ao fundo. E que a voz dos moleiros se escuta, numa darandina de altercações, a encher às pazadas e a pesá-los os sacos dos fregueses.

Isto enquanto, a não muitos passos dali, o sino repete as Trindades e um murmúrio, ou choro, se agita no caudal quase inofensivo do ribeirinho.

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Viagem

Floresta, Norbert Maier
Fotografia de Norbert Maier

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A primeira impressão que se tem no meio da floresta, ao atravessar-se a cortina de luz entre as árvores, é o chapinhar das botas na terra húmida. O desenho da sola fica sotoposto nos carreiros ao longo de caminhos macios de musgo e folhas oxidadas para logo se perder nos pedregulhos duros por onde é preciso continuar. Sobe-se, trepa-se a custo os carreiros dos lobos. As fragas são uma especialidade morosa, exigente. Os pulmões sentem o ar álgido da montanhas. O silêncio pressiona os ouvidos, fá-lo como uma grande bolsa de paz a que se não está acostumado. Dói por isso caminhar, respirar, escutar a ausência de ruído. Algo aqui rodeia permanentemente a cabeça e os ombros, corta a pele, invade as unhas, poisa nos lábios, cai dentro de nós como água num odre vazio.

Atinge-se um ponto alto. Daqui avista-se o desenho acidentado das penhas, o serrilhado da copa das árvores, a linha branca e lisa das neblinas, o vago monótono azul da cordilheira cada vez mais ao fundo. Às costas a mochila pesa mais. A existência, pelo contrário, é agora leve como uma pluma. Em nós, como num envelope selado com lacre, está o instante: no aqui e no agora, vive o eu!

O trilho amplia-se. Vê-se a linha verde do rio. De braços abertos e olhos fechados sentimo-nos querer tombar no abismo. Em nós, como nos pássaros, cresce o apelo da vertigem. Pudéssemos arremessarmo-nos e ir, ir e alcançar o horizonte. Em frente o espaço é uma fronteira. Precisamos de vencê-la. Ela é o intervalo entre nós e nós mesmos, entre nós e – quem sabe –  o nosso deus. Minúsculos e enormes, como as figuras de Caspar David Friedrich, abrimos os sentidos. 

A viagem conduz-nos a um labirinto de antigas veredas. Empilham-se verdes e amarelos e ocres e vermelhos outoniços, acotovelam-se ramos de nogueiras e de carvalhos, ulmeiros, teixos, juníperos, amieiros, zelhas, medronheiros, azereiros, castanheiros, fumega o curso de uma levada. A água é de uma pureza comovente, límpida de tão nova, fria de tão intocada. Desce, corre já, serpenteia a floresta, onde orelhas, antenas, chifres, se voltam na nossa direção. Somos intrusos neste jardim. Aqui pernoitam as derradeiras ninfas, os últimos faunos. Aqui bocas selvagens ignoram a nossa fala e desprezam-na. O curso da água segue até a uma pequena clareira. A primeira cabana recebe-nos. É terrível o efeito desta aparição. Outras mais acima e mais abaixo. O homem aqui está. E eu vim também. Eu estou aqui. Eu, que sempre aqui pertenci, não sou deste lugar. O bafo repete-se. É um aldeamento.

A civilização multiplica a presença de objetos. Um telemóvel toca, vibra, fere a ductilidade das formas. Há casacos coloridos, gorros, luvas em movimento. Risos, vozearia, alguém disparando um flash. O alarido assusta o pundonor do pensamento das árvores. Interrompendo a sua filosofia milenar, as rochas desabam. Um garoto empoleirado num píncaro grita. Esboroado, o instante transforma-se em eco. Adultos furiosos alcançam-no, imprecações, uma bofetada, choro. A maldição humana. Aqui estou.

À noite, entre toros e grossas panelas de ferro fundido, as chispas avermelhadas saltitam. Chia, crepita, estala, rumoreja a lareira. Os outros deixaram-me finalmente. Tenho-me a mim. Trouxe vinho e um caderno. Imaculados, os segundos seguram-me ao nada. A música de Brahms (sexteto de cordas, opus 36) adormenta-me. Penso em coisas. Não chega a ser uma narrativa, somente fugazes iluminações. Logo a penumbra as envolve. Penso em ti. Mas também tu és efémera. Penso numa escadaria helicoidal. Subo e desço à infância. Subo e desço a cada coisa que produzi. Subo e desço ao absurdo. A solidão é o espelho de quem sempre fugimos. O vinho e o caderno são supérfluos. Para que continuo eu a fugir?

Regressa-se. A floresta é hostil. Quem aqui vive não ama quem aqui não pertence. Mas regressa-se a que lugar? Volto-me. Cada pegada que aqui deixei é um fóssil. Eu, que sempre aqui pertenci, não sou deste lugar. Mas a que lugar pertenço eu? Intacta a garrafa, vazio o caderno. O princípio do mundo talvez seja assim…

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