PARQUE NACIONAL DE TIMANFAYA

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Fotos de arquivo pessoal (2018)

El 1 de septiembre de 1730, entre 9 y 10 de la noche, se abrió de pronto la tierra a dos leguas de Yaiza, cerca de Chimanfaya. Desde la primera noche se formó una montaña de considerable altura de la que salieron llamas que estuvieron ardiendo durante diecinueve días seguidos.
Relato de Andrés Lorenzo Curbelo Perdomo, cura de Yaiza, intitulado Diario de apuntaciones de las circunstancias que acaecieron en Lanzarote cuando ardieron los volcanes, año de 1730 hasta 1736

ao quarto dia entranhámo-nos no centro-sul da ilha: de manhã Tinajo, à tarde San Bartolomé, Tías, La Gería, Uga, Yaiza. volto a espantar-me com a limpeza e brio dos lanzarotenhos, em cujas povoações não permanecem muito tempo à solta o maldito plástico ou o maldito ruído. fotografo a estrada, uma reta gigantesca que, submergindo de quando em quando num declive, reaparece quilómetros mais à frente, até se perder de vista, muito longe, no sopé de uma das escuras montanhas que por cá proliferam. depois fazemos um desvio para subir lentamente, de curva em curva, até ao lugar onde nos recebe um diabo de pernas escancaradas e braços abertos, cauda pontiaguda, a segurar uma tábua com a legenda PARQUE NACIONAL DE TIMANFAYA

dominada por vulcões sucessivos, a paisagem repete-se. talvez por isso, a boca procura agora mais fundo para dizer melhor, para dizer diferente. esperamos uma hora, apeados, dentro do carro, numa monstruosa fila que quase não avança, observando os cones que se multiplicam de lés a lés, de cores tão vivas como o açafrão e o ocre, o vermelho, o laranja, o verdete, ou o marrom, cores muito misturadas, sotopostas, em estrias, em cachos, escorrendo umas sobre as horas. esperamos. às vezes a beleza cansa, facto blasfemo mas verdadeiro. esta beleza confunde os sentidos. não, não há palavras para ela

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entramos no que chamam Islote de Hilario, centro nevrálgico do parque onde o visitante pode estacionar a sua fatigada viatura, dar satisfação às premências humanas, observar em círculo toda a extensão do fenómeno geológico que alimenta este poema, embarcar num autocarro turístico, assistir à prova de fogo, pasmar-se com o jorro de água fervente cuspido a meia dúzia de metros de altura, descansar, comprar recordações. fotografo quase com obsessão, aqui, ali, além, o calor aperta (nada que se compare aos quatrocentos graus que sopram da boca da terra), tu trazes os bilhetes, também nós viajaremos pela estreitíssima rota asfaltada, entre píncaros e vales, a que chamam Vale de Tranquilidade

pelos vidros sujos chega-nos o bizarro elenco que as colunas de cinza fabricaram, fileiras de chaminés e maciços de lava, estranhas formas nodosas e retorcidas que lembram fósseis, crateras e encostas policromáticas, minerais, inóspitas, lunares, nenhuma tão bela como a Caldera del Corazoncillo. assim o diz a gravação que escutamos em castelhano, inglês e alemão, a que nos recorda a grande erupção de 1 de setembro de 1730, a narrativa dramática do padre de Yaiza, a lenda do eremita Hilário, os povoados férteis sepultados debaixo de toneladas de magma

não sabemos decidir se é este lugar um hino à vida ou à morte. prometi escrever sobre o assunto. tanto tempo depois, a dúvida mantém-se

20.08.2019

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HARÍA

Haría
Foto de arquivo pessoal (2018)

 

descemos a Haría, depois de serpentearmos uma montanha onde as curvas e contracurvas nos traziam ciclistas solitários e retângulos repletos de aloé vera. as casas são tão brancas como as folhas deste caderno, branco imaculado que se estende com os muros ao campanário de uma igrejinha e ao relevo dos poços. li que chamam oásis a este povoado, porventura à conta destas palmeiras que cresceram e balançam entre jardins negros de pedra-pomes, ou, quem sabe, por causada paz que repousa com o pôr do sol nas pequenas ruas sem gente

o carro desliza no asfalto num som dormente e quase tão discreto quanto os lagartos que me garantem existirem nesta ilha e que ainda não vi e talvez não veja. uma rapariga sobe agora em sentido oposto ao nosso, por dentro de um reduto particular, calcando com dificuldade o chão feito desta rocha, tão idêntico ao cascalho que chocalha e desequilibra, mas mais mole e muito mais escuro. paramos para fotografar a vista do vilarejo. é estrangeira a rapariga, como estrangeiros somos nós, inglesa decerto, uma entre milhares. afeta o mesmo ar perplexo de quem escreve estas palavras e se atreveu a invadir uma propriedade para lhe pisar o quadrado de cinza dura ao redor dos catos

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Foto de arquivo pessoal (2018)

 

voltamos ao carro, retomamos a viagem, avançamos para o centro da povoação, a tarde já muito próxima da noite. impressiona a limpeza geral, o desenho arrumado das habitações de estilo colonial, o aprumo das paredes e do alcatrão, o ruído disciplinado das lojas, cafés e das casas de pasto, uma certa dúvida de que Haría exista de facto ou seja parte de um conto por contar. aqui como em toda a parte, os homens precisam do seu vinho para celebrar. vejo mesas de madeira e jarros de sangria e t-shirts brancas erguendo os braços para brindar. estamos perto do Corona, o maior dos fornos adormecidos de Lanzarote

quando nos metemos a uma das vias rápidas, perto do mar, escureceu já. as luzes do carro esforçam-se por abrir os nossos olhos ensonados. faço perguntas e tu respondes, retas infindáveis, placas toponímicas com nomes estranhos (Tabayesco, Máguez, Ye, Guinate, Guatiza, Teguise, Arrieta – eco da língua guanche), trânsito quase nenhum. digo não me importava de aqui ficar, gosto deste sossego, cheio de cosmopolita tentação, tu ris. pensas decerto que isto é um bluff. e, no entanto, falo cheio de verdade, quem sabe de premonição

Caleta de Famara, 24 de agosto de 2018

MUITO TARDE

Mats Persson
Foto de Mats Persson

 

Era tarde. Adiante de Lampedusa, o homem deixou de bater os remos. Não fazia a mínima ideia de para onde ir. Pôs-se a imaginar a profundidade do mar no ponto exato em que se encontrava. Pensou também que daí a horas todo o orbe se cobriria de estrelas e que, entre elas, se avistariam generosamente anos-luz de negrume e de solidão. As ilhas mais próximas estariam a uma distância imprecisa, como nos poemas fatais de Heliodoro. Ali era o centro, o princípio e o fim do mundo. Não era fácil.

O homem não sabia porque lhe acorriam tantos pensamentos e tão avulsos. Talvez no fundo de toda aquela água imensa jazesse ainda alguma falua egípcia ou algum birreme romano, com as suas ânforas intactas, com o seu vinho e o seu azeite, com o seu garum ibérico, com os seus óleos e essências fenícias. Ou quem sabe os restos fossilizados de um dos companheiros de Ulisses. Ou dalgum soldado da primeira, da segunda, da terceira guerras púnicas. Ou dalgum dos muitos inimigos de Napoleão e de Rommel e do general Montgomery. Tantos ossos ali sepultados!

O homem não via porque não crer na possibilidade de ali intersecionar, ao acaso, eras e nomes, memórias e sensações. O seu barquito tranquilizava-se no doce ondular da luz e da maré. A viagem trouxera-o sem destino. Apetecia-lhe, não sabia bem, voltar, continuar ou permanecer para sempre assim. Não era fácil.

Recolheu os remos e deitou-se. Aos poucos foi tomado pelo sono. Apenas uma ou outra ave cruzavam o azul, onde os seus olhos viam o agitar dos fosfenos. Acudiu-lhe que se sentiria assim Augusto antes das batalhas, embalado quem sabe nas galés imperiais pelo poema de Virgílio e pelas ondas traiçoeiras do Mare Nostrum. Suetónio aludiu à narcolepsia e à cobardia deste Otávio, antes das batalhas. O homem cedia ao cansaço. Pavorosas palavras teimavam fazer-se escutar na sua cabeça. Imperador ou não, ser-se humano faz-nos descer e subir nas mais perturbadoras ilusões. Por fim, o homem adormeceu.

A cabeça conduziu-o a uma terra cuja existência desconhecia. Tantos livros investigara, tantas viagens fizera, tantos relatos conseguira interiorizar que aquele podia muito bem ser um dos lugares fabricados pela razão e pelo sonho. Talvez o tivesse descrito Platão ou Heródoto. Ou Thomas More. Ou Orwell. Ou ninguém. Mais tarde, quando tentou recordar-se, não pôde descrevê-lo como desejava.

Havia um cais, pelo menos assim lhe pareceu o ajuntamento de embarcações coloridas e oscilantes, de mastros e cordames que rangiam quase sem se mexer. Uma grande escadaria levantava-se do mar e com ela nascia toda uma cidade até a um palácio retilíneo, em cujo propileu assentavam, lado a lado, uma estátua de Apolo e outra de Minerva. Não só a arquitetura lhe parecera antiga (helénica), como os habitantes da cidade, envergavam túnicas e se cumprimentavam erguendo a mão.

O homem admirou-se de aí não se sentir estrageiro. Com efeito, também ele trajava assim, também ele trazia às costas (preso por uma fíbula) um manto vermelho. Também ele ostentava na mão direita uma bracelete de ouro e calçava as mesmas sandálias com que os outros pisavam as mesmas lajes de mármore. O homem acreditou compreender a língua que aí se falava, mas quando quis reconstituir esse sonho não soube discernir qual língua era, se vetusta e morta, se a sua própria língua que os anacrónicos habitantes falavam com enorme desembaraço.

Do mesmo modo, não percebia como pôde caminhar entre as ruas amplas da cidade incógnita sem se perder. Ou como descortinou sobre certa porta esculpidos os números 3e (e não, por exemplo, a versão romana III, VI e IX). Mesmo sem compreender o absurdo desse pormenor, viu-se a entrar e a demorar-se na prelação de um matemático sobre eles. Havia nas palavras daquele sábio uma teia de significações, de associações, de perfeitas combinações entre os três e respetivos múltiplos. Observou na sala três pequenas mesas alinhadas, seis estantes repletas e nove retratos na parede (reparou de imediato nos de Arquimedes, Copérnico e Einstein). Havia seis janelas, seccionadas tanto na vertical como na horizontal em três partes, perfazendo cada uma delas portanto nove vidros. Havia frescos, retratos, bustos alusivos às nove musas, às três graças, aos deuses olímpicos (seis pintados à direita, seis à esquerda). Ali zumbiam três computadores, onde seis alunos (aos pares) indagavam profundas cadeias de informação, indiferentes à palestra. Também ali nove velas ardiam em cada um dos três enormes candelabros que iluminavam o espaço. E viu um fresco enorme, onde os nove círculos do Inferno, as três cabeças de Cérbero e as seis cabeças de Cila se desenhavam com cores sombrias. Ao rememorar tudo isso, o homem sorriu, dando-se conta da profunda algaraviada mental que jamais poderia pôr em palavras. E reconheceu o orador. Era Nikola Tesla. O mundo podia ser representado por uma cabana infinita, onde os números 3, 6 e 9 atavam pontas geométricas, dentro das quais a vida se organizava infinitiva e infinitesimal. Mas nenhum lógica podia unir aquele inventor àquele lugar.

Aturdido pela mescla e pela quantidade de informação, o homem desejou pertencer a outro espaço. Sentiu a respiração faltar-lhe. Era como quando na universidade, antes do esgotamento, se deixava vencer por dúvidas e por questões sem resposta. Temia soçobrar dentro de si mesmo e de enlouquecer.

Não muito depois, sem transição, viu-se no vislumbre de pórfiro e de jaspe de uma praça.

Encimando outras portas, havia letras, símbolos, garatujos, legendas, cunhas hieroglíficas, frases lapidares, anotações, alienígenas, logótipos de marcas internacionais. Numa rua mais ampla abria-se o mercado. Aí vendia-se um pouco de tudo: impressionantes granizados de uma mole de cores e de sabores, livros, quinquilharia, material informático de primeiríssima qualidade (maravilhosamente espelhado, delicado e plastificado), pizas, fruta, artigos de couro, peixe ao retalho, toda a sorte de pedras semipreciosas, perfumes, discos de vinil, cartazes antigos e moedas de todas as proveniências. O mercado, ordenado na sua desordenada aglutinação de elementos, eternizava-se. Era uma babel. O homem sentiu náuseas.

Percebia-se que a humanidade, na densa pegada sobre o tempo, é ácida. Aquele lugar possuía algo de caravançarai e de europeu, de fascinante e de repulsivo. Até a melhor arte é assim, visto ser artificial e resultado de um pensamento. Ao contrário da natureza, que é perfeita e holística, a criação humana é fragmentária e imperfeita, absurda e derivativa.

O homem flainou um pouco até se deter em frente de uma citarra enorme, em exposição numa espécie de tenda bélica, entre punhais, bestas, fundas, revólveres, lêiseres e sílexes do início do Antropocénio. O toque da lâmina, macio e gélido, era a face da morte. Talvez nela residissem ainda microscópicas presenças daqueles que por ela perderam a respiração. Segurava nas mãos não apenas um símbolo, mas uma concreta demonstração da perversa inteligência da humanidade. Mais uma vez, uma espécie de enjoo deu sinal de si.

Além disso, uma impressão de frio (cada vez mais indisfarçável), foi tomando conta de si. Era como se uma película húmida e desagradável o cobrisse da cabeça das aos pés. Não conseguia compreender completamente esta mudança, tanto mais que ali, naquela estranhíssima cidade o sol parecia irradiar imutável e velho, como um deus lá no alto.

Para toda a parte, de toda a parte, iam e vinham rostos. Rostos que o olhavam, que o ignoravam, que lhe provocavam impressões desencontradas, rostos de mercadores e de solitários, rostos de velhos e de imberbes, rostos de mulheres e de servos, rostos impressivos e expressivos, todos eles belos e serenos como personagens de um filme de Bergman.

O homem desceu. Havia agora um edifício em forma de zigurate, à base do qual os seus pés o levavam. Não era já uma bela construção, mas uma difícil passagem pela miséria de homens e mulheres que se acantonavam nas varandas e terraços: proscritos, ladrões, leprosos, prostitutas, refugiados, órfãos, mendigos, idosos lamurientos, mutilados, desdentados, descabelados, fétidos, gente repleta de fealdade, chagas e abomináveis traços de loucura. Era um gueto, um depósito de lixo humano, através do qual o caminho se mostrava perigoso e obsceno. Lanços de escadas abruptos faziam-no ter medo de cair. Era preciso olhar, quando os olhos não queriam ver. Era preciso pensar, quando a cabeça queria esquecer. Era vertiginoso e sujo. O homem chegou ao fundo.

Na exata aresta em que findava o último degrau de granito, principiava um chão paupérrimo de terra batida, desidratado e empoeirado, infeto. Começava aí um cemitério de tendas, que se multiplicavam a perder de vista pelo serpentar do leito de um rio seco. Os seus passos tornaram-se inseguros. Por mais que se esforçasse por manter o equilíbrio, sentia-se cambalear. Algo vertiginoso insinuava-se no seu sonho, pese não o descortinar ainda. Uma algazarra, um alarido, um estertor, uma gritaria súbita fê-lo arrepiar-se. No meio do pó, por entre farrapos arrastados,  cresceu a figura de um rinoceronte, que corria a toda a brida na sua direção. O homem paralisou. Ouvia os grunhidos coléricos do animal, possuído de um rancor sem limites. Via o chifre em riste derribando à sua passagem fios improvisados de roupa e corpos negros anémicos. Eram rugidos medonhos, cavernosos, como se proviessem não de uma boca, mas de uma tuba. Que aflição!

Foi neste preciso ponto que o homem despertou. O barco balançava com força, com o vento que se levantara, com a agitação da maré, com a proximidade de um enorme navio de carga que não parava de roncar, avivando-lhe os deveres da mareação.

Lançou os remos de novo à água e pôs-se a batê-los atarantado. O grande animal de carga passou. Ao fundo, avistavam-se já as luzes da ilha de Linosa. Seriam sete e meia, oito horas. Uma fragata da Guardia Costiera deslocava-se mansamente no seu encalço. Que pesadelo! Desde que abandonara o trabalho em Pádua, não sentia tamanha desconsideração por si próprio.

A noite, como uma capa, pesava-lhe nos ombros. Mais do que nunca, prostrava-o a ideia de que a sua vida era um perfeito naufrágio. Os remos supliciavam-no, porque a corrente o arrastava para uma zona de rochedos. Lutava contra ela, como se por fim tivesse encontrado um sentido para a sua existência sexagenária.

O grande holofote da Guardia Costiera cortou as águas, muito para além de si. A cerca de meia milha, a estibordo, empurrado para os mesmos escolhos observou um bote e uma multidão de coletes amarelos. O homem percebeu que a guarda acelerava em sua perseguição. A voz do comandante replicava ordens, palavras duras, avisos. Eram africanos.

Ficaram nessa mesma noite detidas em Agrigento, num centro de controlo de emigração. Eram noventa e quatro (sete das quais, crianças).

Resgatado na mesma fragata, o esgotado professor Silvio Graziani (dadas e recebidas todas as explicações e recomendações) foi deixado tranquilamente na praia de Pozzolana, no mesmo porto e à mesma hora em que o último ferry da vulcânica Linosa descarregava os derradeiros passageiros e viaturas.

Atracou o seu pequeno barco a uma boia de amarração. Nessa altura já não se sentia confuso. Em rigor, não já sentia nada, nem sequer se valia a pena sentir. Era apenas tarde, muito tarde.