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Havia uma floresta enorme de castanheiros, carvalhos e choupos, no interior da qual existiam um riacho, uma azenha e uma pequena casa, seguida de outra e ainda de uma terceira.
Depois da floresta vicejavam os campos, as vinhas e a aldeia. O alto da colina era o lugar da igreja, onde muitos séculos antes os romanos haviam construído um templo a Hermes Trismegisto, ou talvez a Apolo, ou quem sabe a Minerva.
Nos dias de verão passavam muitos pés pela mancha verde, suportando o peso do cereal depois transformado em farinha. Mas no outono as lamas separavam uns dos outros, como se vivessem todos em países longínquos, e só com muito esforço se sabia alguma coisa dos três irmãos moleiros.
Alguém, um homem centenário, uma vez explicou:
– Oh, esses mofinos (que Nosso Senhor os tenha) morreram afogados na mesma noite, quando uma grande tempestade os tirou da cama e a água, à traição, os levou pela frente.
– Como pode isso ser, avozinho, se são eles quem nos mói o grão?
O nevoeiro abate-se amiúde sobre as copas despidas, deixando tudo submerso à semelhança de um sonho. Quando o sol por fim penetra pelo meio dos ramos nus, rebrilham pelo chão húmido as folhas recortadas e os espinhos boquiabertos com as suas castanhas.
Da floresta original resta um pedaço amoroso, ao longo do qual caminham hoje crianças de escola e cães de companhia, velhos comidos pela nostalgia e almas intranquilas.
Há quem jure que ao escurecer um som de metal e de pedras pesadas em movimento sobe das sombras ao fundo. E que a voz dos moleiros se escuta, numa darandina de altercações, a encher às pazadas e a pesá-los os sacos dos fregueses.
Isto, enquanto a não muitos passos dali o sino repete as Trindades e um murmúrio, ou choro, se agita no caudal quase inofensivo do ribeirinho.
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