Marcus Claesson
Foto: Marcus Claesson

Logo pela manhãzinha o cheiro do café espalha-se pela casa, intenso e delicado como os pés de uma criança. Minha mãe sempre acordou cedo. Foi ela a primeira pessoa no mundo a quem admirei o vício. Fá-lo fresco, de borra, todas as manhãs, na velhinha cafeteira de alumínio: a água ferve, depois são duas colheres e meia (das de sopa) bem medidas com a preciosa farinha escura lá dentro; a mexedura produz o característico som de castanholas e também uma pasta em espiral, girando firmemente como as primeiras galáxias, isto até a borra assentar. Quando na superfície se acumula uma película semelhante a uma nata vulcânica, a mesma colher levanta-a e deixa respirar o café que pode, finalmente, ser vertido numa chávena (das grandes). Minha mãe gosta de esmigalhar a broa, juntar-lhe o açúcar, submergir tudo e comer a mistura como se come o melhor dos acepipes. Isto é feito numa tigela (ou malga) das do caldo. É um pequeno-almoço minhoto, generoso, excelente para a diabete e para a azia… Eis um original retrato da infância.

O vício, como a cor dos olhos, uma fortuna ou determinadas doenças, herda-se. Eu sou herdeiro do vício de café! Herdeiro da malga com broa e dos rituais do preparo da borra. Herdeiro do vício que não admite censura ao vício: que mal pode haver em gostar-se assim de café? Herdeiro da vontade de conversar sob o protetorado da chávena! Entretanto fui introduzindo rituais novos à conta das máquinas: no tempo da saudosa de cápsulas, fazia-me abastecer delas como o poeta Teixeira de Pascoes se abastecia de onças de tabaco (“Dá para aguentar uma guerra!”, explicava ele); agora, neste tempo de máquina de cachimbo, encho a despensa de sacos de cinco quilos de sólido, granulado, aromático café torrado, normal ou seleto, da Colômbia ou africano, em cujo interior gosto de mergulhar a volúpia dos dedos, como se o fizesse de facto num alforge de ouro. Eis um retrato decalcado da infância.

Entre o primeiro e o segundo retratos há toda uma longa caminhada. Estou certo que em algum momento desta história pessoalíssima do café me seduziu um terceiro retrato: o de Fernando Pessoa, composto por Almada Negreiros, em 1954. Nele vemos a pose imortalizante do poeta, que anda há seis décadas a inspirar a pose dos inspirados da literatura: a mão direita do autor de Mensagem poisando sobre uma folha manuscrita, a esquerda segurando um cigarro aceso, uma caneta atravessando horizontalmente o papel, o número dois da revista Orpheu e sobretudo o recipiente do açúcar e a chávena de café! Nesse retrato vemos o homem de génio emoldurado por uma profusão de linhas direitas, quadrados e losangos em geométrica e estudada correção, numa referência limpa ao êxtase do conhecimento. Pessoa, o frio e empedernido Pessoa, assim nos ficou morando na memória fotográfica, como o poeta das finas arquiteturas mentais, o príncipe da intelectualidade! Mas felizmente, do poeta sobra também nesse retrato o fumo do seu cigarro e a chávena do seu café! Suporto-lhe menos bem a excelente poesia do que esse gesto raro, prosaico, humano, de apego ao vício!

Ora, começando nos anos da faculdade, e sem pretender imitar a personagem de Almada Negreiros, também eu me venho surpreendendo não poucas vezes de caneta e caderno, cigarro e chávena de café em cima da mesma mesa de madeira, em incontáveis cafés do país e do estrangeiro. É uma vinheta clássica. Na história da humanidade, sucedeu à efígie do poeta de cabeça adornada de louros a estampa do poeta entranhado numa penumbra de salão, pensativo, dessacralizado e ruinoso, bebendo (entre outros preciosos estimulantes) o néctar dos trópicos. Pelo menos desde Baudelaire essa é a figura de moeda que andamos todos perseguindo, de norte a sul do universo… Vejo-me nas esplanadas do Porto, no fim (ou mesmo durante o período) das aulas, a garatujar reflexões de densíssima atividade cerebral. Imagino o olhar circunspeto dos vizinhos de mesa, a curiosidade do turista ocasional, a admiração da menina que me serve. Aí estou eu, senhores e senhoras, munido de caneta de aparo, caderno de capa dura impecavelmente branco, uma cabeça aturdida pela tropelia de André Breton, escrevendo compenetrado, fluente, ruidoso, escrevendo material que tive o decoro de destruir atempadamente, antes mesmo do enxovalho dos amigos e da crítica. Julgo que à aura ajudava a barba crescida, a boina e o sobretudo pretos de fazenda. Suponho que a postura vaga, o semblante alienado, os maços de Marlboro completavam o figurão. Estamos em 1997 ou 98. Atingia o paroxismo do pedantismo. Perdi muito por isso! Mas o café, o café, senhoras e senhores, era já então o mais honesto que tinha no ofício não oficial de escritor! Hélas! Foi ele que me levou a conhecer tascos, botequins e casas de chá, onde encontrei alguns “deuses mundanos”, alguns dos mais notáveis habitantes do “Parnaso terreal”, para me servir de José Craveirinha, mas sobretudo onde encontrei pela primeira vez o trilho solitário do homem abençoado, ou amaldiçoado (nunca saberei destrinçar), pela sina da palavra, pela emulação ao retrato de Pessoa.

Depois vieram as viagens. Do Café Gijon, em Madrid (onde Ruy Belo entreteceu palavrosamente alguns dos seus melhores poemas), ao magnífico Lobkowicz, em Praga; do Majestic, no Porto, aos soberbos terraços mediterrânicos, protegidos ao mesmo tempo por panos e lonas listradas e pela literatura de Camus, Naguib Mahfouz, e Amin Maalouf, anda o meu coração vagueando de novo. O café, não especialmente o tabaco, foi sempre o meu melhor companheiro de jornada intelectual. Ele e o poema serviram-se amplamente de mútuo pretexto ao longo dos anos; são já como independentes de mim; são já como duas almas livres que combinam encontrar-se de quando em vez, usando para o efeito o meu corpo, como se usa um bufete de hotel em dias de secreto oaristo! São como dois entes, “ligados ou desligados por nós obscuros” (como creio que Salah Stétié disse), que continuamente me encantam e escravizam!

Nos últimos tempos tenho-me ocupado com o silêncio. Gosto de contemplar. Descobri com o admirável historiador José Mattoso o dom e as vantagens da contemplação! Todo o imenso chinfrim das palavras impressas, lá chega a manhã em que o descobrimos, incomoda! Todo o imenso alarido das nossas palavras torna-se, por contraste com a pureza do silêncio, uma vileza, um desperdício, uma tontaria. Estou na biblioteca vazia da minha Vila. Vazia de gente, não de bons livros. É um espaço pequeno, contíguo ao bar. Pelas frinchas, por baixo da porta, chega o aroma subtil e contínuo do café: considero, com a certeza de um teorema testado muitas vezes, que jamais hei de livrar-me disto. Apetecem-me de imediato, como extensões mecânicas da minha pessoa, a chávena e a caneta… Esforço-me sobre-humana, desesperadamente, por vencer ambas. A contemplação exige distância, exige a semiobscuridade da cela monacal! Exige abstinência, sacrifício!

Mas como na chávena de Pessoa, como na malga de broa de minha mãe, como facilmente depreenderá o leitor, acabo esta crónica sorvendo até ao último suspiro de uma dádiva, o café, o bom, demoníaco, maravilhoso café que me trouxe a estas palavras de elogio e, perdoe-se-me a blasfémia, de veneração! E então, sim, “algures, as coisas calam-se / Leves de tão duras”, notou-o ainda Stétié.

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