Bodas de Ouro

Fotografia do arquivo familiar (1976)

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Devia saber que há assuntos sobre os quais não se fala. Devia saber isso e respeitar a lei do silêncio. Mas sou um desgovernado em tudo. Ocorreu-me, praticamente em contramão, que calar uma coisa tão grande seria ainda mais criminoso. E, por isso, peguei no lápis – no lápis de desenho que às vezes me parece um fóssil – e pus-me a atirar palavras para um maço de folhas, a tentar a sorte.

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Olho para a vossa fotografia e custa-me a crer que esteja ali meio século do mundo. Do vosso, do nosso mundo, do mundo de todos. Cinquenta anos são muito tempo. Guardam demasiadas memórias. Cinquenta anos são uma arrecadação sentimental. Beliscam a epopeia.

Sempre gostei muito desta fotografia. O pai com o fato impecável de tweed (as lapelas largas em bico no casaco, as calças de corte direito, ligeiramente à boca de sino na bainha, a gravata larga e escura, a contrastar com a camisa branca de colarinho pontiagudo). A mãe no seu vestido de algodão encorpado (mangas compridas, volumosas nos braços – as bishop sleeves, que tanto furor fizeram na época –, cintura fina, floral, o acanho enganador).

Sempre me pareceu um assombro a grenha muito penteada do pai, as patilhas robustas, os sapatos com tacão reforçado (para não parecer muito mal ao lado de uma mulherona alta e elegante). Sempre gostei das luvas brancas na sua mão esquerda, num trejeito cinematográfico a imitar Dean Martin e Roger Moore.

Sempre me pareceu espantosa a formosura da mãe, menina cheia de recato (quase envergonhada) e, simultaneamente, repleta de coragem (quase desafio). Sempre me pareceu indescritível o seu ar de Grace Kelly, de braço poisado no braço do recém-marido, pisando a terra batida como se o fizesse no mármore de um palácio.

Olho para a vossa fotografia e custa-me a crer que esteja ali tanto tempo junto.

Quando há pouco mais de um mês casei, batalhou dentro da minha cabeça a ideia obsidiante de não deslustrar o vosso apuro, a vossa graça, o toque subtil do vosso entendimento.

Um casamento é uma coisa séria, é uma coisa para a vida, é um passo de gigante. Estávamos em 1976, o país vinha da revolução, havia no ar sonhos misturados com estilhaços da pobreza. Espanta-me que de tais dias tenha chegado esta prodigiosa tira de papel, aliás todo um álbum de belíssimos retratos a preto e branco, mostrando os primeiros momentos da vossa felicidade conjugal.

O copo de água foi debaixo da ramada na casa dos avós. Língua de vaca estufada com ervilha, arroz de cabidela, vitela e cabrito assados. Estava lá a família toda: os avós (ainda jovens, sem tromboses, cancros, dor), os tios (nenhum amuado, corcovado ou falecido), alguns primos (quase todos na meninice), amigos (as filhas da D. Porcina brutais nas suas minissaias e grandes olhos oblíquos à Brigitte Bardot), o Padre Valdemar (um miúdo entre miúdos, acabado de chegar de Pamplona), um ou outro incógnito, cujo nome nunca saberei.

Olho para a vossa fotografia e custa-me a crer que não tenha passado de moda e continue a servir de farol. A vossa juventude comove de se ver tão a nu.

A mãe, lindíssima – leve e luminosa, como uma bonina branca (foste um homem de sorte, pai). O pai, enigmático, sorrindo – cavalheiro, dengoso, afetando ares de homem importante (que o é e tu sabes, mãe).

Desconheço a identidade do fotógrafo. Apenas que era retornado e profissional. Que pena não lhe poder ter agradecido o exímio trabalho. Nunca me disseram o lugar exato onde foi captada a imagem. Nem a hora rigorosa. Nem a cor do Opel Kadett à vossa retaguarda (seria branco, bege, amarelo, cinza). Arrependo-me de não haver feito mais perguntas. A idade – cá está – traz-nos exigências idiotas. Dou-me conta de que esses pormenores me interessam hoje, pese não servirem para nada. Entusiasma-me a narrativa toda. A vida.

Olho para a vossa fotografia e vejo toda uma paisagem de amor.

Os anos que passam não se atrevem a desmaiá-lo, mesmo invadindo com manchas criminosas o relevo das imagens. Máculas hediondas, semelhantes a úlceras, vêm tomando conta do álbum fotográfico. Suspeito que a miopia da saudade queira levar tudo consigo. Há dias em que essa juventude parece querer extinguir-se. Mas há também os outros dias. Esses, estes dias em que a clareza do espírito retoma o ponto de partida e ninguém, nada, nem mesmo a morte, consegue apagar o que a luz gravou nas chapas: a serena candura dos rostos, a expressão, o sopro e a alegria dos gestos, o fundo vago do eucaliptal, o farol dilatado do automóvel espiando-vos então, como eu vos espio agora.

Sempre achei formidável a oposição de postura, de feitios, de cores, de olhares. Não porque os sapatos brancos de uma, ou os sapatos pretos do outro signifiquem alguma coisa. Mas porque admitem divergência de gostos e comunhão de vontades. Sempre achei que o seu quê de vaidoso no pai e o seu q.b. de acanhado na mãe combinavam esplendidamente. A fotografia é um achado, um tesouro que amo, e hoje – dia das vossas bodas de ouro – parece-me ela mais conspícua, mais majestosa, mais terna.

Olho para a vossa fotografia e desconfio que não tenha passado tempo nenhum – como cinquenta anos? – e que vos recusais a retroceder ou a avançar. Estais muitíssimo bem assim, assim sem tirar nem pôr, a mãe apenas lindíssima, o pai somente cavalheiríssimo, a amparar, a segurar a eternidade.

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© João Ricardo Lopes (2026)

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