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O Mosteiro Azul, nos alcantis dos Monti Lessini, recebe nos nossos dias apenas três frades: Fra Leno, Fra Filippo e Fra Vincenzo.
São velhos amorosos, sem dentes, sem nevoeiro nos olhos, sem tempo a perder. Todas as manhãs cantam as laudes, rezam a missa, comem o prato de aveia com mel, trabalham a terra, descansam à beira do poço, meditam em silêncio acerca dos mistérios da vida e da morte, dormem um pouco e sonham com a eternidade. Preferem conversar menos e escutar mais, convencidos de que a voz de Deus se pode encontrar ao redor, não importa se nas suas três pequenas trouxas de carne, se nas montanhas grandes do Véneto, se no zumbido de uma abelha.
«Quando se sente feliz, Nosso Senhor gosta de assobiar-nos» observa extasiado Fra Vincenzo.
«Nos dias de silêncio, a voz do Criador chega-nos até do rio Ádige» murmura na cela Fra Filippo, sentindo um misto de frio e de calor a trepar dos pés da cama e a deslizar devagar até ao travesseiro.
«Limpando bem o coração, conseguimos alcançar as cordas do universo, porque todas ao fim e ao cabo tocam ao mesmo ritmo, que é o compasso do Pai Celestial» cogita muitas vezes Leno, o mais adestrado dos três nas coisas do pensamento.
Todas as tardes caminham pelo claustro, murmurando a “Regra”, extirpando ervas daninhas, endireitando o caule retorcido de uma rosa, vigiando as videiras, empilhando lenha, amassando o pão. O vento às vezes sopra mais forte e, então, eles enchem-se de lágrimas, porque o vento é linguagem que os seus ouvidos conhecem melhor do que nós.
Nas noites de luar, o granito cor de plumbago emite um revérbero poderoso. Ao longe, ao alto, na profundidade do horizonte, é como se as paredes seculares produzissem um fogo imaculado, igual ao que Moisés avistou na sarça do Monte Sinai.
Os vizinhos mais próximos, a léguas de distância, suspeitam que os três anciãos possuem mais de cem anos cada um. Mais de cento e dez. Talvez cento e vinte, ou mais ainda. São velhos misteriosos, pequeninos, cheios de ânimo, risonhos. Como crianças. Como os filhos ternurentos dos amigos que queremos pegar ao colo.
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© João Ricardo Lopes (2026)
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