Acerca de um cuidador

Fotografia de Lucas George Wendt

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para a Céu

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Depois do divórcio, Inácio Liberto perdeu-se, como o outro, no meio de uma floresta selvagem e escura. Nenhum lugar neste mundo o detinha muito tempo e a nenhum reconhecia como parte da sua vida. Era um errante, um foragido, uma assombração.

Uma vez entrou numa aldeiazinha encastoada numa ribanceira sobre o rio Douro. A carripana, que lhe servia de transporte e de teto, trepou as curvas e contracurvas até principiar a deitar fumo.

Liberto deixou-a à beira de um fontanário e abriu os olhos. Pelo meio dos montes lobrigou o caudal do rio: do comprido corpo azul das águas cresciam, empoleirados uns nos outros, pequenas casas brancas e ciprestes muito direitos, onde gente-formiga se mexia com lentidão comovente.

Contava este homem sessenta anos. Sem casa, dinheiro, amigos, ideias ou crenças, sem amor ou esperança, subiu a pé daquele ponto.

Alívio. Assim se chamava a localidade. Inácio Liberto andou por entre muros, portas e gente desconfiada. Por instinto, abriu os portões de ferro do único sítio onde lhe não mediram a pobreza, aqueles onde letras em ferro forjado diziam «Última Morada».

Sentou-se, avaliou os talhões de terra numerados à romana, leu os nomes das lápides, comoveu-se com as datas escassas dos nados-mortos. Havia poucas flores. Havia jarras tombadas. Havia círios diminuídos a um forma de lixo. Havia pó por toda a parte.

Liberto despejou baldes de água, varreu com as cerdas amargas de uma vassoura velhíssima o chão esquálido. Limpou com o tecido das próprias mangas retratos quase extinguidos de homens e mulheres que ali escureciam num lampejo de memória. Colou vidros e cacos, trouxe flores silvestres, rezou ave-marias.

No caos da sua cabeça, acendeu-se o pensamento seguinte: como podem os vivos descuidar da razão, fingindo não saber que tudo se destina ao mesmo apagamento?

De Alívio passou a outra terreola e desta a outra e a outras. Em todas se escondia um cemiteriozinho. A impotência dos mortos enchia-o de comiseração. A indiferença dos vivos de raiva.

A piedade fazia-o pensar e o pensamento devolveu-lhe um sentido de vida.

Consta que ainda por lá anda. Não sabemos a que desterros se refere exatamente . Pedimos, pelo facto, as nossas desculpas.

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© João Ricardo Lopes (2026)

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