O Mosteiro Azul

Fotografia de Simon Wiedensohler

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O Mosteiro Azul, nos alcantis dos Monti Lessini, recebe nos nossos dias apenas três frades: Fra Leno, Fra Filippo e Fra Vincenzo.

São velhos amorosos, sem dentes, sem nevoeiro nos olhos, sem tempo a perder. Todas as manhãs cantam as laudes, rezam a missa, comem o prato de aveia com mel, trabalham a terra, descansam à beira do poço, meditam em silêncio acerca dos mistérios da vida e da morte, dormem um pouco e sonham com a eternidade. Preferem conversar menos e escutar mais, convencidos de que a voz de Deus se pode encontrar ao redor, não importa se nas suas três pequenas trouxas de carne, se nas montanhas grandes do Véneto, se no zumbido de uma abelha.

«Quando se sente feliz, Nosso Senhor gosta de assobiar-nos» observa extasiado Fra Vincenzo.

«Nos dias de silêncio, a voz do Criador chega-nos até do rio Ádige» murmura na cela Fra Filippo, sentindo um misto de frio e de calor a trepar dos pés da cama e a deslizar devagar até ao travesseiro.

«Limpando bem o coração, conseguimos alcançar as cordas do universo, porque todas ao fim e ao cabo tocam ao mesmo ritmo, que é o compasso do Pai Celestial» cogita muitas vezes Leno, o mais adestrado dos três nas coisas do pensamento.

Todas as tardes caminham pelo claustro, murmurando a “Regra”, extirpando ervas daninhas, endireitando o caule retorcido de uma rosa, vigiando as videiras, empilhando lenha, amassando o pão. O vento às vezes sopra mais forte e, então, eles enchem-se de lágrimas, porque o vento é linguagem que os seus ouvidos conhecem melhor do que nós.

Nas noites de luar, o granito cor de plumbago emite um revérbero poderoso. Ao longe, ao alto, na profundidade do horizonte, é como se as paredes seculares produzissem um fogo imaculado, igual ao que Moisés avistou na sarça do Monte Sinai.

Os vizinhos mais próximos, a léguas de distância, suspeitam que os três anciãos possuem mais de cem anos cada um. Mais de cento e dez. Talvez cento e vinte, ou mais ainda. São velhos misteriosos, pequeninos, cheios de ânimo, risonhos. Como crianças. Como os filhos ternurentos dos amigos que queremos pegar ao colo.

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© João Ricardo Lopes (2026)
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Perdão divino

Fotografia de Thierry Boitelle
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No ano de 1317 morreram nos curtos dias do mês de fevereiro o abade de Saint-Michel e três dos seus frades. Sujeita ao luto, ao rigor das chuvas intermináveis do inverno, à fome prolongada, ao medo de alguma incontrolável fulminação divina, o mosteiro manteve-se numa penumbra obstinada até fins de março. Fecharam o scriptorium e a sala do capítulo e os monges permaneciam quase todo o tempo em oração, encerrados nas suas celas, meditando na calamidade imensa que se abatera sobre o mundo sem poupar os próprios servos do Senhor.

Mas uma manhã o sino, empurrado por uma brisa amena que juntava a respiração do mar e os perfumes das flores, das ervas e da terra seca, começou a tocar sozinho. Os frades saíram para o claustro e para os jardins, atravessaram os pátios iluminados pelo clarão das magnólias, voltaram a olhar para a luz benévola onde o canto dos pássaros parecia sussurrar a própria voz do Criador. Tinha passado a Quaresma, era o domingo da Ressurreição. Nunca até aí os meandrosos caminhos da Providência lhes haviam parecido tão bem explicados.

Abriram os pesados portões e as leves janelas de vitrais em forma de treliça. Deixaram que o ar morno se passeasse pelos corredores, lavasse as escadarias empoeiradas, erguesse um pouco as folhas de pergaminho coloridas, subisse aos altares e ao zimbório.

Nada existia na vida terrena como o sinal do perdão de Deus. E por isso todos choravam.

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