ÓDIO À MEDIOCRIDADE

Marco Gentini

 

«Um escritor não é a soma dos seus livros, é a fuga ao livresco. Um escritor não escreve. Inventa.»

Pedro-Daniel Névio, Escoriações

 

A casa do escritor ficava no subúrbio norte, numa área sossegada, a seguir a campos, entre curtos eucaliptais. Lembro-me do cheiro a limpo, do perfume da alfazema, da frescura da mobília, do odor dos sofás de cabedal. Lembro-me da porta aberta do escritório, das estantes escorrendo das paredes, escondendo-as, de um ou outro quadro de Kandinsky no intervalo dos livros, do adágio de Mozart, do violino de Itzhak Perlman, da meia sombra e da meia luz tapando o vaso das orquídeas e alumiando o formidável persa azul aos pés, no tapete, do ar muito quieto do seu corpo quando lhe anunciaram a minha visita.

O escritor concedeu-me uma entrevista, autografou-me sete dos seus livros, ofereceu-me um volume de poesia em edição limitada, corrigiu nele um verso terrível, teimoso, com caneta de feltro, abraçou-me no fim.

«Cuidado com a mediocridade. Odeie-a.»

Era quase noite quando regressei à cidade, ao centro, às banais lentejoulas dos meus comparsas no círculo intelectual. Na madrugada seguinte vim para a varanda queimar papéis. Fi-lo sem arrependimento. Voltaria a fazê-lo na minha vida. Repeti-me a repreensão de Horácio, «Inutilia truncat», que hoje é a minha divisa.

O escritor, agora que o leio dobradamente, póstumo, sem peias, é um génio. Não engaja frases ou versos, fá-los encontrar-se com leveza e com verdade. Não lhes disfarça o vazio com efeitos de pirotecnia, enche-os com amor. Dele escasso se diz, nada se escreve, pouquissimamente se indagou nesta década seguinte à sua morte.

Penso muitas vezes nesse encontro, nessa tarde de outubro, nessa literária mediocridade absurda que ao redor de nós se levanta como um circo, como um cerco, repleta de aplausos lorpas, provincianos, reles, serôdios, babujados, amacacados, odiosos.

Tanta razão, escritor!

Vêm dizer-me «Fulano publicou», «Sicrana vai publicar» e é um tédio. Bocejo por vislumbre, lendo já de roldão, à laia de adivinho, tantas páginas repletas de mais do mesmo, da mesma retórica (retoricazinha, vá lá) balofa, oca, medíocre, que enche cada vez mais escaparates de livrarias e estantes de bibliotecas. Bocejo de pensar que aí vem mais do mesmo, da mesma merda ociosa que pulula nos cantinhos de jornal, com estrelas, panegíricos, recomendações de leitura…

Horrível.

Por cá a malta distrai-se, distrai, facínora. Distraiu, distraiu-se sempre. Não há que fazer. Prefere cantar teias de aranha a ver paisagens, embora espreite pela mesma janela. É uma questão de «escala do olhar» como escreveu Fiama. E em terra de cegos, já se sabe…

Hoje acordei com saudades dos dias em que amava a literatura como uma religião. Sim, escritor, odeio a mediocridade. Deve ser isso o que terei de ensinar a quem me lê. Talvez seja uma questão de apostolado. Talvez tenha de pregar no deserto ou aos peixes. Sublinhei a lápis grosso «Um escritor não é a soma dos seus livros, é a fuga ao livresco. Um escritor não escreve. Inventa.» E é exatamente assim.

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A INFÂNCIA

infância
Foto: Nanouk el Gamal – Wijchers

O lugar mais belo do mundo, volto a dizê-lo, já o disse tantas vezes, é a infância. De dentro das suas fronteiras sorriem velhos desdentados, velhos que conheci e que amei e que recordo agora, entre talhões de ciprestes e grandes anjos de mármore; sorriem gestos que se perderam e que regressam às tantas, num gesto involuntário, como decalcado por misteriosas mãos; sorriem memórias difusas que me ocorrem nas viagens, entre músicas dos anos 80, no ir e vir de paisagens de choupos e de várzeas. O lugar mais belo subsiste apenas no amor que dele me ficou. E ele ficou por inteiro, por atacado e para sempre!

Havia na aldeia uma alcunha a servir de tapete à porta de cada casa, alcunhas inexplicáveis, indescritíveis, intraduzíveis (próprias dos caras de merda, dos caga-baixinho, dos pica-peidos, dos espreita-cus, dos mijões, dos coça-pirocas, dos reis-bandalhos, dos caça-pardejos, dos parrecos, dos chicharros, dos escaravelhos, dos grilos, dos vacas, dos chouriços, dos presuntos, dos cabaços, dos repolhos, dos tarrucos, dos bigorros, dos choinos, dos ganheis, dos chupius, dos vinte-e-uns, dos belezas, dos pírdigos, dos estúrdias, dos sovacos), cada qual com o dignitário pai de família, espécie de general supremo, para quem as conversas convergiam a fim de se dissipar confusões de identidade.

– A que bateu na filha do Florêncio maldito é sobrinha do Afonso perna

– A Neuza?

– Não, mulher! A Neuza é filha. Estou a falar da São. Da sobrinha. Da São passareta!

– Qual São?

– Rais parta! A São que casou com o filho do Toninho bravo!

– Ah!

– Essa…

Existia, sobretudo, o poderoso ofício de cada qual. Cada pessoa era um mester, um trabalho, uma função, tão específicos e tão inconfundíveis que se substituíam quase sempre ao nome próprio, ou que lhe acrescentavam uma aura de prestígio social ainda hoje tocantes, se lhes toco com a saudade: o sr. Bernardino tanoeiro, o Esteves capador, o sr. Marcelino guarda-rios, o Bilinho jornaleiro, o Nando curtidor, a Leonor curandeira (bruxa, com morada aberta e, nessa formidável condição, capaz de incorporar o espírito dos vivos e dos mortos), o Zequinha guarda-soleiro, o sr. Moás vedor e bufarinheiro, a Lídia dos mancebos (mamuda, libertina, iniciadora sexual, vulgívaga, prostitutíssima), et coeteraet coeteraet coetera

As frases cirandavam com o vento, conforme a intensidade do assunto:

– Aquele grande filho da puta do moleiro vai ouvi-las: isto é lá farinha? Isto é farelo, caralho!

– Guida, olha-me só que rico bacalhau comprei ao almocreve para o Natal…

– O marmanjo do amola-tesouras levou-me vinte mil réis por me passar as facas pelo esmeril e olha lá se elas cortam.

– Mila, ó mulher, diz-me tu: ouviste o sardinheiro a apitar?

A infância habitava as varandas no verão e os telhados no inverno; habitava as cortes (todas as casas tinham uma corte, um bácoro, um cabrito, coelhos a criar); habitava as velhas lareiras e as adegas, os alpendres, os casebres de serventia duvidosa; habitava as ruas, sobretudo elas, as ruas onde eu e incontáveis miúdos em permanente algazarra brincávamos ao esconde-esconde, às apanhadas, aos cowboys, à cachaleira, à macaca, à roda, à cabra-cega, ao jogo do saco; as ruas onde com incrível poder de invenção narrávamos histórias de fantasmas e de lobisomens, histórias de gambozinos e minas mal-afamadas (esconderijo de mouras velhas de lenço preto na cabeça e verruga no nariz), histórias de feios anões que apareciam entre as samambaias junto da raiz dos carvalhos, histórias de duendes e enigmáticos animais que eram afinal homens e mulheres vítimas de encanto (porque, sendo uns e outras ou o sétimo filho ou a sétima filha, não lhes deram os imprevidentes pais o nome de Adão ou o nome de Eva, assim os condenando a vaguearem nas noites de lua cheia por sete freguesias, até que algum corajoso fizesse neles sangue e assim os desencantasse).

As ruas eram pontos de encontro espontâneos, onde se terminava o que vinha do adro da igreja, dos corredores da casa do povo, da matança do porco além, da grande fogueira que se ergueu para queimar o pai das orelheiras aquém, do velório de fulano, do enterro de sicrana. Velhos e crianças, mães ou pais, ninguém desperdiçava a oportunidade de pôr em dia a conversa sobre uma garrafa de aguardente de zimbro que se achou lá em casa, sobre o jogo do pião por vingar, sobre uma camisa linho ou de cambraia, sobre a poda, sobre uns quantos almudes de azeite, sobre a venda de uma turina, sobre vinho para comprar.

As ruas eram por si só uma medida social de difícil quantificação. 

Delas, do mau solão, do péssimo cascalho, das lajes tortas, crescia um ruído honesto de carros de bois a chiar e cascos de animais, o estampido dos tamancos (com as suas tachas salientes), o pregão dos lavradores, o ribombo dos fueiros a cair, o eco da pipa desamparada, o alvoroço, às vezes os gritos, muitas vezes os berros. Nessas ruas morria no mesmo instante em que começava (para gáudio de todos) a correria de um desgraçada que aparecia à esquina, e logo atrás dele, furiosa, sem lhe poupar nos insultos, brandindo uma chibata, a mãe que o ameaçava com a polinheira, com a tareia de criar bicho, com a sova como nunca se vira. Entre essas magras ruas enormes da infância animava-se uma gente que era humana e com tempo, que era próxima e sem máscara, gente que ria, segredava, discutia, negociava, aconselhava, fazia vénia ao senhor padre, sugeria uma mezinha, propunha um defumadouro, essa gente de pele áspera e olhar vivo, pequena, mal nutrida, dobrada pelo trabalho duro, essa gente que foi morrendo aos poucos e de que às vezes me recordo nas viagens, entre laivos de uma dor sem definição, como quem viaja no tempo e se espanta do tamanho da viagem.

A infância habitava as colinas até às nuvens e por elas deslizava até ao bosquezito e aos pinhais e aos pomares, ziguezagueava entre os sulcos que a água tomava nos agros de milho e afundava-se na azenha, no escumar do ribeiro, na parte mais funda, naquela que preferíamos para mergulhar nos dias de calor. A infância nadava connosco e com os alfaiates nos bancos de algas e agriões, soltava gargalhadas triunfantes ao cruzar a pontezinha e seguia, pacificamente, para além dela, pelo meio de outros campos, de outros montes, de outros bosques, de outras aldeias, de outros lugares quietos, até se perder de vista.

A infância era, também, o cheiro da terra. O cheiro da terra revolvida pelo arado, da terra que enxadas diligentes extirpavam das ervas, o cheiro da terra puxados nos sarilhos, trazida de poços abertos, à picareta: um cheiro húmido, alcalino, áspero de terra que se mostrava ainda envolta em raízes e que apresentava, conforme a maior ou menor penumbra de onde vinha, uma cor e uma textura mais e menos surpreendente. A infância era um círculo de compasso sobre essa terra, pois tudo o que fazíamos nela radicava: jogávamos futebol no areão dos baldios, corríamos nos caminhitos rurais e quelhos enlameados, ajudávamos os adultos a semear e a colher nas leiras ao pé dos tanques, entrávamos nas grutas formadas por grandes penedias pré-históricas e argila ocre, saltitávamos nos lameiros sobre alpondras, trepávamos aos montes para nos abastecermos de cascas de eucalipto, et coeteraet coeteraet coetera. A terra estava-nos nas unhas sujas, nas grandes joelheiras barrentas sobre as calças de fazenda, na mochila imunda a pegajar de resina, nos brinquedos que manuseávamos sobre montanhas de salão e areia (era uma época de casas em construção), nas folhas esquálidas do caderno escolar (que com ódio levávamos escrevíamos, entre cinco partidas do jogo do galo), no rosto saudável e repleto de escoriações. A terra fazia parte de nós, estava-nos na alma!

A infância era, sobretudo e em suma, um modo de acontecer. E acontecia, sobretudo, no Natal!

Emociona-me, confesso, pensar nos esplendorosos natais da infância. Nesses ainda a salvo do frémito das luzes, das filas para os centros comerciais, dos cartões de crédito, do cínico vazio das montras cheias, do amor barulhento, sujo e devastador dos presentes espampanantes e compensadores que hoje se oferecem.

Na infância, o Natal era o musgo fresco, limpo e piedoso do presépio. Era o pinheiro alumiado por gastas fitas coloridas, quase sagradas. Era a confissão a que nos obrigava a catequese, o arrependimento sincero das luminosas culpas que rezávamos no ato de contrição, de joelhos, diante do sacrário com a velinha acesa, a quem dirigíamos a súplica de que o Menino Jesus relevasse as nossas fraquezas e nos deixasse uma lembrança no sapatinho (podia ser uma pijama, um par de chinelos, uns sapatos, ou m par de luvas, quem sabe um casaco novo, quente, que envaidecesse a manhã do dia 25 de mistura com as fantasias e o maço de cigarros de chocolate no bolso). E ficava a promessa, a pungida promessa, de ajudarmos em casa a descascar as batatas na Consoada, a desvestir as odiosas cebolas, a quadricular o alho, a vigiar o bacalhau empilhado e de molho no latão da Castrol. 

O Natal era esse vislumbre do feerismo que nos vinha dos criativos anúncios da televisão em formato de animação (propagandeando lotarias, bombocas e camisolas térmicas), essa magia que nos chegava dos livros com ilustrações e edificantes histórias (sobre casas onde ardiam maravilhosas lareiras acolhedoras, acerca de arcas onde luzia um ouro reparador, a propósito de mesas que rescendiam a peru assado, umas e outras – todas – com finais felizes, recolhendo meninos desvalidos e idosos solitários, mulheres doentes e artistas miseráveis à beira do suicídio). O Natal iluminava-nos por dentro, em silêncio, perenemente, ao modo de um conto de Dickens. 

O Natal era ainda parco, belo e veemente!

E talvez isto me diga que envelheci.

Julgo que envelhecemos quando compreendemos que esse reino poderoso nos escapa, nos morre, nos não aceita de volta. Quando nos damos conta (com espanto e dor) que algures na viagem perdemos contacto com a terra, com os cheiros das plantas, com os lugarejos entretanto desfigurados, com os campos que deram lugar a bairros e loteamentos manhosos, que perdemos contacto com os pinhais abatidos (hoje fábricas, armazéns e oficinas), que perdemos contacto com os velhos desdentados (cujo nome e uma vaga fotografia oxidam em lápides), que perdemos contacto com os objetos e profissões que de um instante para o outro se tornaram obsoletos e inúteis, que perdemos contacto com os costumes que nos passaram a merecer reprovação e horror, que perdemos contacto com a inocência que nos despatriou, com o Natal que não reconhecemos e que nos não reconhece mais…

O lugar mais belo do mundo é, sem dúvida, a infância. 

Daqui a cinquenta anos, alguém escreverá o mesmo (com nostalgia atroz) sobre este tempo de agora num tempo porventura irreconhecível, paupérrimo, robótico, numa era holocientífica de nanogadgets, tecnocidades, ciberfamílias, microssentimentos, inumanidade.

Nessa altura (espero) ter-me-á sido reservado o derradeiro descanso, orgânico e natural, recordado discretamente no mesmo retrato oval que agora me comove. E talvez outros se comovam comigo. Será bom sinal, diga-se. Nem tudo estará, então, perdido!

O DOMINGO ESTÁ PRESTES A FECHAR

Lars van de Goor
Foto: Lars van de Goor

 

Apresento-me à entrada do bosque como fiz durante anos por esta altura. O cão segue-me, farejando com o contentamento eufórico deste regresso dos dois a um lugar de ambos.

O bosque é o mesmo e é outro. A nostalgia faz crescer em cada uma destas grandes árvores uma sombra mais triste. A ausência parece irreparável, como se em mim algo me não perdoasse os muitos dias perdidos, a indiferença, o envelhecimento.

Já quase é noite. Convém a intrusos como nós que assim seja. Vimos saquear o ar frio, tomar de assalto a terra húmida, esmagar o corpo inteiriço das bolotas num horror de insetos esmagados, invadir junto com o alvoroço das gralhas as mesmas neblinas que descem até ao rio, até às ruínas do moinho onde tantas vezes a lua me pareceu arder sozinha num poema por escrever.

Sou um melancólico, assumo.

Vou atrás do Nilo. Ele saberá guiar-me pelos mesmos lugarejos musguentos de outrora. Quem sabe, mediar a reconciliação do homem com o espaço. Sigo-o sem uma fala, como um penitente, arrependidíssimo. É domingo e eu fujo, fujo de mim mesmo, vazio e repleto, voltado do avesso, entrando num lugar onde a lanterna mal alumia e tudo é uma luz.

Acabei um livro, venci uma doença, ensinei a uma fornada de alunos mais, amei e fui amado, amo e sou amado, vejo à minha volta o contorno de cada coisa e de cada pessoa, reconheço em mim o poder de fazer mexer algo, de empurrar um ramo, de pontapear uma pedra, de ultrapassar um regato ou uma lamaçal. E, no entanto, sinto-me um saco vazio, uma boca e um ouvido escancarados para o abismo, um par de pernas e de pés caminhando num modo de autómato para o negrume.

Sou um lamechas, admito.

Neste preciso ponto da caminhada, acocoro-me para erguer uma folha de carvalho: o halo incide sobre as nervuras, os dedos seguem o recorte, percorrem cada uma dessas linhas radiais, regressam à grande estrada ao centro. Centenas de outras folhas iguais, de um tom indeciso (vermelhas, douradas, castanhas, alaranjadas) cobrem o chão e são cobertas pela líquida itinerância dos vapores noturnos. E eu penso que todas (centenas, milhares de folhas juncando o chão) são a metáfora das nossas vidas, cada qual uma história, cada uma qual história distinta, com os seus episódios principais e secundários e terciários. Todas caídas, outonais, derrotadas pelo mesmo sopro que nos sepulta e torna anónimos recortes amontoados no bosque umbroso da história.

O cão ladra. Reclama a minha presença agora que descortinou o fio perdido de um qualquer novelo temporal. Sigo-o. É domingo. É noite cerrada. Odeio os domingos. Preciso de andar sempre com uma lanterna ligada aos domingos, como se tudo à minha volta fosse tão de breu como de breu é o âmago deste bosque.

Sou um insatisfeito, reconheço.

Fujo muitas vezes de mim. Fujo para uma autoestrada, para uma saída sem nome, depois para uma estrada de terra batida, até ser impossível fugir mais. Fujo como os dedos fogem pelas nervuras de uma folha de carvalho, cheio de uma terrível utopia, saturado de boas e péssimas decisões.

O cão envelheceu terrivelmente. Mesmo sem o ver, adivinho-lhe o pelo áspero, desarranjado, em tufos. O caminhar incerto. As orelhas descaídas. O focinho encarquilhado, esfolado. É o mesmo e é outro, ainda que repetindo os passos exatos das outras vezes, dos tempos em que se aventurava a trepar os muretes divisórios e a penetrar as luras sob as grandes raízes das faias.

Já quase é inverno. O frio de novembro não é brincadeira nenhuma. Agarro-me ao casaco com o ar desesperado do náufrago que encontrou uma tábua. O bafo é agora mais branco, como uma cortina breve. O domingo está prestes a fechar. Ao fim de tanto tempo sou eu quem me não me reconhece. A lanterna acendeu a lua. Ela veio. Salvar-me talvez. Escrever com a sua voz sublime o que as palavras estão querendo dizer. E não sabem ainda.

O HOMEM MUITO TRISTE

sadness, o homem muito triste
Foto: Miroslav Mominski

Cruzo-me com este homem quase todos os dias no caminho para a escola. No ângulo de cimento de um murete, acompanhando a curva apertada de um caminho secundário, ocupa com a sua sombra todo o lado esquerdo do vidro do carro, e tão singular a sua comum figura que nunca resisto a deitar-lhe, muito de viés, uma mirada curiosa.

É um velho triste. Apoiado numa bengala (seria mais correto admitir que a bengala se tornou um grande braço caindo na terra), lança o rosto num movimento de rede, como quem não sabe se vai ou o que vai apanhar do dia. Julgo que me vê passar e que me não vê passar. Porque gasta os dias a olhar sem ver, fixado num ponto onde nenhum automóvel chega, nem decerto nenhuma mirada curiosa e comovida, a bengala debaixo da mão como um pilar muito hirto, pensando quem sabe, quem sabe lembrando, quem sabe cismando na curta viagem entre a infância e essa idade de tão frias e de tão feias emanações.

É um velho triste. Barba branca e rala, aguçando o queixo numa expressão inquisidora. Pele tão velha como a boca velha e escancarada, que parece arfar. Uma máscara. Todo ele numa expressão que tanto se diria alheada, distante da realidade, como nela achando e arregalando uma epifania.

O carro leva-me por lugares que me dão muitas vezes o primeiro verso, a primeira linha, a primeira impressão de uma fotografia. Às vezes, como aqui e agora, ao interceptar este ancião, sinto uma cobardia inexplicável. Finjo que não percebo o que é óbvio, que não toco o que palpável. Ponho-me a mexer nalgum manípulo, troco de estação de rádio, fiscalizo criminosamente o ecrã do telemóvel. Aquela expressão triste do velho, porém, está lá, entrou, já me não permite evasivas. Volto-me, esforço-me por não olhar, mas zás, olhei-o nos olhos! O carro já me pôs noutra rua, noutra estrada, noutro ângulo de outra luz.  Mas aquela expressão de casa abandonada enche-me o vidro dianteiro. É inútil fazer de conta. É ridículo. É, provavelmente, hipócrita e cruel.

Ponho-me em devaneios morais. E, se em lugar de acelerar, eu encostasse, me apeasse, lhe propusesse um cigarro, quisesse saber o nome, lhe escutasse a vida? Se, em vez de fingir que o dever me chama muitos quilómetros à frente, admitisse que me chama aqui o dever de confortar, de saber, de vestir pele humana  e tripas humanas, cabeça humana, coração humano?

É um velho triste. Encontro-o rodeado pelas mesmas casas solitárias, pelas mesmas ervas bravas, pelo mesmo céu mortiço, junto ao mesmo alcatrão sujo e irregular. Uma cena de meia dúzia de segundos, enquanto o carro resfolega e ao longe uma sirene apita para a mudança de turnos. Dou por mim a observá-lo pelo retrovisor, como quem se dá conta que a oportunidade passou, que a separar o futuro do passado há uma estreitíssima ponte,  o presente não existe, braços e tronco vergados, lá atrás, como se ameaçasse despenhar-se, estilhaçar-se, partir-se todo, lá muito atrás, mal se vê agora, como se somente a bengala se importasse, agora é um pontinho, a reta levou-me a uma rua mais larga, uma lomba, agora já não se vê, uma subida, uma curva, e zás, já o horizonte é outro.

É um velho tristíssimo. A cena repete-se. Fica-me no vidro, junto com o cadáver dos mosquitos e a meia-lua do pó. Sou forçado a rememorá-la, preso a um remorso que os outros perdoariam, mas eu não perdoo.

Acabo por esquecê-lo, assim que retiro a chave ignição e me lanço numa corrida para a porta da escola, em cima da hora, sempre a pisar o risco, homem livre, homem preso, cheio de fé e sem fé. Caminho com o rosto um pouco levantado demais, olhos num ponto indecifrado do infinito, incapaz de pensar no que quer que seja.

Antes que o pergunte a mim mesmo, respondo: não, não sei porque tem de ser assim!

CRÓNICA UM DOMINGO DE OUTONO

Yvette Depaepe
Foto: Yvette Depaepe

 

Foi bom ter vindo.

É sempre bom chegar a esta praia, desagrilhoar-me do carro, seguir longamente pela marginal, pedir nesta e em nenhuma outra casa um café tirado, bebê-lo às escondidas do mar, deixar-me em paz, como um desses áceres ou plátanos da anterior avenida, com a sensação de que sou um derrotado mas um herói, cansado mas digno, silencioso mas cheiinho de palavras (às quais dou ordem para se absterem, enquanto o café aquece), descontente mas satisfeito, sem pressa mas ansioso por regressar ao cheiro forte da salsugem. Regressar é sempre bom, ótimo, revigorante.

«Deseja mais alguma coisa?»

Desejo, sim. Em primeiro lugar, libertar-me da gente estúpida (é impressão minha, ou a gente estúpida vem sempre morar para o pé da nossa porta?). Em segundo lugar, prender-me definitivamente aos gestos de excelência, às pessoas maravilhosas que os sabem interpretar, como essa garota que me não sai da cabeça, cuja história me repetiram há dias.

«Olhe, professor, então não é que um desses meninos com trissomia se apaixonou por ela! Todos a fazerem troça no recreio e ele a chorar. Então, a garota foi ter com o menino, limpou-lhe as lágrimas, abraçou-o, deu-lhe a mão e levou-o…»

Gosto de vir também por esta razão. Para estar comigo, para pôr estas narrativas na ordem (a nossa cabeça é um caderno caótico), para descortinar lógicas submersas nas máscaras que as coisas vestem todos os dias.

«Aqui tem o seu troco, senhor…»

Gosto da sensação do frio, da brisa veemente que me faz inchar o casaco de náilon e me enche o rosto com salpicos de espuma. Gosto destes prédios à retaguarda, calados, inofensivos, como molduras de vinhetas de banda-desenhada. Gosto destas palmeiras baloiçando, baloiçando agora e sempre que aqui estou, fazendo-me sentir em território amigo, mesmo se o outono obscureceu já demasiadamente a paisagem.

«De modo que a rapariguinha, esta mesma de que estamos a falar, teve um acidente na sexta-feira à noite. Um horror…»

Os ténis têm, é incrível, o seu modo automático de me guiar, de me levar sem que os sinta. Nem dou pelos semáforos deixados para trás, do paredão e dos pescadores solitários, do farol, das rugas de água verde acinzentadas (além quase negras), que crescem e se desfazem no molhe, pelas gaivotas que me vistoriam com o seu movimento circular, pelas folhas de jornal com restos de castanhas assadas que civilizadamente algum transeunte deixou de presente ao mundo.

«A coitadinha tirou carta há tão pouco tempo. O carro ficou debaixo de um camião, todo desfeito, professor! Morreu logo ali! Uma rapariguinha tão boa, tão educada… Um horror!»

Nem damos conta.

As palavras atam-se-nos com perícia. Por mais que as expulsemos, elas têm um modo muito seu de voltar. E nunca vêm sós. Trazem imagens, memórias, cenas inverosímeis. Como este magote que se acotovela do lado de fora da janela da mercearia, onde o senhor da funerária cola o fúnebre papel debruado de preto, com a sua cruz, com a foto, com o nome da rapariguinha bonita, com as informações imprescindíveis, com a dor da família enlutada.

«Sempre lhe digo, professor: vão os melhores e os filhos da mãe ficam, nunca lhes acontece nada… Passam sempre entre os pingos da chuva… Não percebo!»

Não demora a chuva.

Gosto deste lugar, do modo como a cabeça se me enche aqui de vazio. Nem damos conta de como a cabeça precisa tanto do vazio, tanto do silêncio, tanto da sombra, tanto de se apagar como se apaga às vezes o azul do mar debaixo de nuvens tão carregadas de dor como estas nuvens aqui!

«Tenho muita pena deste rapazinho deficiente, nem imagina! Ainda não percebeu bem o que sucedeu à amiga…»

É sempre bom caminhar sem destino, o casaco mais apertado, a tarde levando-me para muito longe (nunca sei para vou nestas tardes em que me vejo sem âncora), o frio lavando-me, a cabeça cada vez mais leve, os ténis voando (em breve estarei noutra dimensão), o mar sempre ao lado, o mar correndo quem sabe, às tantas, dentro de mim.

VOLTO ÀS CRÓNICAS

Jay Satriani
Foto: Jay Satriani

Recomeçar é o mais difícil. Destapo, tapo, volto a poisar a caneta, ponho-me a andar pela casa, a tocar nos objetos, a retocar-lhes a posição (as gavetas guardam ainda segredos), a anotar mentalmente os ruídos que me chegam de todas as partes, regresso à mesa, abro o caderno, destapo a caneta, a cabeça parece oca, cheia de ecos e de pó, digo em voz alta coisas obscenas, a noite sufoca, tapo e volto a poisar a caneta.

(«Deves fazê-lo com tesão, com paixão, com amor, com tudo. De outro modo não o faças!»)

A casa é curta, as coisas estão tão perto que lhe escuto o respirar, cansa-me a polpa dos dedos. Não há meio de descortinar um fio condutor, uma ideia razoavelmente capaz, um devaneio suficientemente promissor. Falta-ma às palavras profundidade, abertura, sentido. Sufoco nelas como numa gruta. Sufoco. Ponho-me a caminhar de novo às escuras, num derradeiro esforço de espeleólogo, através de obstáculos invisíveis e intransponíveis.

(«O pior de um escritor é esse desespero de homem falido, de macho que confessa a sua impotência na cama!»)

Às vezes o sofá é uma solução. Embrutecido como uma alimária no meio do lamaçal, ligo a televisão e ponho-me a clicar à toa. Às vezes tenho sorte, quando me esbarro com uma dessas relíquias da era monocromática. Há dias revi um programa do Bob Ross (o mesmo despenteado volumoso, a mesma camisa, o mesmo timbre paralisante da voz, os mesmos nomes fabulosos na paleta (branco titânio, azul prussiano, siena escuro, ocre amarelo, castanho van dike), o mesmo «Beat the devil out of it», o mesmo riso cheio de bonomia). Mas a maior parte limito-me a fechar os olhos, a esperar que as coisas deslizem, circulem, corram no movimento de caleidoscópio por dentro dos olhos. Adormeço entre frases soltas como um elefante sedado.

(«Quando sabes que não podes ganhar a guerra, limita-te a garantir que não morres na guerra. Dias melhores virão.»)

Às vezes os sonhos escrevem tudo sozinhos. Vejo-me de repente no meio de uma praça ampla, ornada de colunas brancas e estátuas de mármore. Tu voltaste inteira, com o teu rosto bonito, a tua voz melodiosa, com o teu decote generoso, o teu medo de errar as perguntas e não saber ouvir as respostas. É horrível. Beijamo-nos e fazemos amor, mas num piscar de olhos estamos de costas voltadas, tu a choramingar, eu a pensar que era bom desaparecer num passe de mágica, poder escapulir-me como uma lagartixa pela fresta de uma parede. Tudo tão vivo e tão claro, tão competentemente paragrafado, que acabo por acordar com os olhos cavados e uma sensação de vómito na boca.

(«Não escrevas com o aparo. Tão pouco com as palavras. Escreve com a vida. Que ela desenhe círculos de ar e de luz no teu caderno.»)

Recomeçar é uma tarefa desmedida. Há rabiscos e rasuras nas folhas que violento com ímpetos de homicida. À minha volta, vindos da janela, há cheiros complexos (talvez dessas plantas repletas de veneno nesta terra que as multiplica: umbelas de cicuta, tintureiras infestantes, ramos de lobélias, cachos de dedaleiras), há a presença multiplicada dos vizinhos desamparados pela inteligência (insultando-se por causa dos estacionamentos, do fedor provindo dos sacos do lixo, do patear e do ganir do cachorro), há o ácido paladar das ameaças que faço a mim mesmo, indeciso entre sair e ficar, continuar ou desistir.

(«Convenhamos, meu caro: a literatura excita, a mediocridade oscita!»)

Debato-me entre querer muito e não querer mais, entre sentar-me à mesa de trabalho, com a Pelikan alinhada com o Moleskine, e sentar-me à mesa da cervejaria Munique, com uma Erdinger a escorrer gotas de âmbar e um prato de tremoços a compensar-me aos poucos a poética desapiedada. De maneira que penso nas palavras do velho professor de Estudos Literários e me ocorre que a maior humilhação é não perceber o instante em que se é humano e não se tem forma para subir ao Olimpo, o pavoroso instante em que um indivíduo puxa de um cigarro e renasce na miserável solidão de saber que tudo é inútil e estéril como vento que passa.

VOZES DE BURRO

Fotografia: Antonio Grambone
Fotografia: Antonio Grambone

 

No começo da rua Franquelim Pimenta batia na sola dos sapatos com fúria. E era depois de lhes pôr em cima uma camada bastante de cola industrial, de lhes cuspir uma gosma de álcool e de imprecações, enquanto os olhos iam e vinham, conforme o movimento dos pares de pernas das senhoras e raparigas do colégio.

— Minha menina, ai que rico tacão!

A boca tartamudeava, com os pequenos pregos presos nos lábios. Havia quem se zangasse, quem respondesse ao piropo ordinário.

‒ Malcriado!

Mas o aparato de loiras com as mamas ao léu nos calendários e o garrafão meio escondido entre as pilhas de sapatos e chinelos por arranjar, tinha o efeito de um repelente. O Pimenta ficava na sua. As senhoras e raparigas ofendidas na delas. Tudo em ordem. Quem não queria piropo não passava perto da sua lojinha. Que culpa tem um homem de vir ao mundo com um par de olhos, menino?

O estabelecimento do Pimenta ficava na rua dos artesãos, paredes meias com a carpintaria-funerária Campos Elísios, com as máquinas de costura da Dona Eufrásia e com o botequim do Sr. Maciel Bemposta. Um pouco adiante, na mesma rua, havia uma loja de ceras e santinhos, uma padaria, um garageiro, um ourives, um serralheiro e a farmácia. Tudo muito misturado, tudo enfileirado, comércio para as dores do corpo e para as da alma.

Nessa rua aprendi eu a maior parte dos provérbios que conheço. Por exemplo que “Vozes de burro não chegam ao céu”.

O ditado veio, entre outras, da boca do sapateiro. O artista percebia de quase tudo. Quando lhe negavam uma evidência ou o contrariavam razoavelmente, zurrava logo:

 ̶  Sabe vossemecê uma coisa? Vozes de burro não chegam ao céu!

Alguém lhe punha em causa a soma a lápis de uma conta, alguém lhe atribuía um dito de véspera, alguém lhe negava as virtudes dos rebuçados de Régua, alguém lhe falava mal do Sporting, e o Pimenta, apimentado:

 ̶  Sabe o amigo uma coisa? Vozes de burro não chegam ao céu!

 ̶  Está a chamar-me burro?

 ̶  Tem vossemecê orelhas a condizer…

 ̶  Como?

 ̶  Estou a chamar-lhe burro, jumento, jerico!!!

Se a coisa não passava, se a teima ia mais além, tornava-se o insulto de monta.

 ̶  Ó meu grandessíssimo filho da puta, quer você ver como elas se fazem aqui nesta loja?

E voava a camurça de um sapato, um botim de senhora, uns tamancos…

Houve alturas em que me assustei. O Pimenta, esgazeado, ameaçava um cliente, o cliente raspava-se, o projétil cortava-nos – como uma bateria inimiga, a escassos centímetros da testa ‒ a linha fina do horizonte.

‒ Isto, menino, é uma cambada de burros! Não percebem um caralho da vida… Bem me dizia a minha mãezinha, vozes de burro…

A mochila vinha de arrasto, a pontapé. A escola arrasava: reis de Portugal sim; contas de dividir não; verbos sim; prova real não… De modo que sair dos portões de ferro da escola, dobrar a esquina, escutar o sábio calão do Pimenta era uma alegria, uma cura, uma catarse.

‒ Faça-me lá a conta, Sr. Franquelim…

‒ Ora, deixe cá ver: solas, pomada, … ‒ Como está, D. Etelvina? ‒ berrava de súbito cá para fora; … ora, deixe cá ver: nove e quatro treze e dois dezasseis… e vai um ‒ Olá, Senhor Doutor, bom dia! Como passou? ‒ gesticulava; … ora, portanto, e vão dois…

Conseguia até esquecer os ralhos, as ameaças, os puxões de orelhas, a numeração romana. Nada me dava mais prazer do que excomungar a sala de aula, ouvindo e compreendendo o vivo movimento do mundo. Nada como a genica linguística do Peyroteo do calçado, olá para um, vai tu à merda para outro, cuspo e martelo, como passou, Senhor Doutor para a frente, que rico tacão para trás, martelo e cuspo, sempre assim, o dia inteiro, com o lápis (de papel dizia ele) aninhado na orelha…

A didática não tinha fim. Sabia que um dia me faria falta. Ouvia-se até chegar a casa. Sobrepunha-se mesmo ao barafustar da peixeira com a modista, à política debatida entre o funesto loiro da loja dos penhores e o taxista, à voz dos reformados que atiravam a bisca, às vizinhas que cortavam na casava. Franquelim Pimenta era um professor no seu palco. O calão engrossava.

De modo que uma vez disse na aula:

‒ Foda-se, Severo… És um cagarolas!

O Severo queria copiar o gerúndio dos verbos estrugir, burilar, transcorrer (do alçapão benigno da professora saíam verbos simpáticos), mas tinha medo.

Eu, que me dispunha a ajudar, disse com enorme prestígio gramatical:

‒ Foda-se, Severo… És um cagarolas!

Veio a reprimenda. Violenta, eriçada, húmida de saliva. A sala tremeu desde os caboucos até ao forro de cortiça no teto. Respondi-lhe. Aí não se ficou a mão da professa, que me ficou gravada nas bochechas. Cinco dedos, uns dez anéis, um par de estalos de cada lado ‒ certeiros, sapudos, impressivos.

A minha mãe (que certamente me trataria da saúde) pediu desculpa. Aquilo não se repetiria, Senhora Professora…

‒ Que lhe disseste tu mais, meu tratante?

‒ Chorei, supliquei… O que dói uma colher de pau, senhores!

‒ Que disseste tu à professora, meu carbonário?

Deus furioso exigia a verdade.

‒ Fala, bandido! Que disseste tu à tua professora?

Olhos esbugalhados, gritos, imprecações, a promessa de que o meu pai ia saber de tudo… Considerei. Vacilei. Já chegava de pancada.

‒ Vozes de burro não chegam ao céu…

‒ O quê?

‒ Foi o que eu disse à professora, mãe – confessei por fim, imerso em ranho…

‒ Ah, meu maldito…, meu macareno… Ai, que eu mato-te!… – disse a minha progenitora à beira de uma síncope, enquanto eu fugia, enquanto eu me atirava pela janela à rua, enquanto eu fugia também deste lado da guerra, para procurar abrigo, algures, a meio da terra de ninguém, nalguma trincheira…