Crónica do velho adolescente

Fotografia de Rory Hennessey

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«O melhor lugar do mundo é onde nos apetece ancorar a alma.» Não sei quem afirmou isto, se o devo atribuir a algum dos meus livros, ou se na verdade o pensei e escrevi eu próprio. A frase ginga na cabeça e é bela, apetece apanhá-la a caminho de um parágrafo. Sinto-me tão bem aqui, a tomar conta dela. Aqui, à beira-mar, a ler um dos poucos jornais portugueses que se aproveitam. A ler-lhe mais precisamente o suplemento de viagens que sai uma vez por semana. Sinto-me tão bem aqui, a cismar na eterna questão da casa que sonho construir. E a desejar construí-la em geografias que a sugestão onírica me faz desejar, geografias tão remotas como o Japão ou a Islândia, uma ilha mediterrânica ou o Brasil…

Vem-me à memória, também, a outra frase: «A nossa casa encontramo-la onde encontramos a nossa felicidade.» É provavelmente outra daquelas sentenças engenhosas, sem autor, que nasceram com a humanidade, provavelmente outra frase tão vadia quanto a própria humanidade que a engendrou, provavelmente na cabeça de alguém em trânsito pelo mundo, em busca de casa e felicidade. Provavelmente.

Entretenho-me a passar os olhos pela revista e a cogitar na vida («Cogito ergo sum» riscou Descartes). Os últimos tempos, não falando sequer de outras mercês, têm-me proporcionado mãos cheias de leitura e de reflexão: a revista a explicar-me que o maior glaciar da Islândia se chama Vatnajökull, como devo e quando devo ir à Islândia, onde posso dormir e comer na Islândia, e eu a considerar que os vulcões da Islândia e os lagos de água quente da Islândia e os nutridos rebanhos da Islândia podiam bem ser um caminho para mim. Entre ascetas, seria mais um!

Mas depois, alguém entorna um copo. O feitiço quebra-se com o olhar de uma mãe, que se pasma para a faceirice da sua bebé, ao colo. Logo me acode que, entre neves eternas e centrais geotérmicas, me desfariam as saudades da Salomé.

A revista passa então a propor-me a Borgonha dos bons vinhos. Nunca deixei de acalentar a ideia de me retirar para uma dessas vilinhas francesas, com o seu castelo medieval e com as suas colinas recortadas de vinha. Aprenderia a linguagem das uvas, entranhando-me na terra e nos taninos, imitando esses leigos que chegam do EUA e da Austrália para se entregarem à missão última das suas existências — comprar meia dúzia de hectares de terra, deitar abaixo velhas culturas monacais e plantar castas dos melhores Pinot Noir, esperando que ao cabo de anos, ou mesmo de décadas de pura obstinação, emergisse por tentativa-erro, como nas histórias dos cientistas, o prodígio de um vinho divino.

Porém, eu sou pouco versado em fermentação de uvas. Não posso declarar-me discípulo de Rudolf Steiner, nem de Nicolas Joly. O que me levaria a habitar os escuros e húmidos domínios dos lagares e das caves, onde o precioso néctar se conserva como se conserva um segredo? Provavelmente falta-me o sentido dessa alquimia, que dos gregos se transmitiu aos romanos e dos romanos aos mosteiros de toda a Europa… Sou um enólogo incapaz, para quem uma garrafa do melhor maduro de Borba contenta tanto quanto a pior zurrapa de Alenquer. Falta-me língua!

É um bom suplemento de jornal, este, o que seguro nas mãos. Não se impacienta com as minhas recusas. Apresenta-me devaneios tão variados, tão irrecusáveis, que num momento me faz subir a Victoria Peak, em Hong-Kong, e noutro descer as formidáveis Cataratas do Niágara. Leva a interessar-me tanto pela casta Moulay-Idriss, como pela babilónica Bangkok. A não menos me seduzir pela Buenos Aires de Borges do que pela Estocolmo de Tranströmer. O devaneio é cosmopolita! De resto, ler e pensar são a parede de vidro de dentro e de fora do eu. Por instinto, por gosto pessoal, por formação e hábito, gosto de me exercitar em ambas. Gosto da escrita que banha na distância. Gosto deste suplemento.

«O melhor lugar do mundo é onde nos apetece ancorar a alma.» Não sei se o velho adolescente que sonhava atravessar, como Rimbaud ou Indiana Jones, desertos e desfiladeiros, selvas e mares adversos, já morreu. Nem se os seus motivos ainda permanecem na mesma cabeça e no mesmo coração que os acalentou: ir de comboio ou de barco, de camelo ou a pé pelos lugares onde a poesia se recita ainda nas pedras vermelhas e no horizonte dourado das palmeiras… não deixar que a fortuna ultrapasse a mochila com a máquina fotográfica e os cadernos de viagem!

«A nossa casa encontramo-la onde encontramos a nossa felicidade» repito a mim mesmo. Sinto agora esse abandono que nos chega sem querer pela mão invisível do vento.

Abandono, essa bela palavra que significa tanto hoje como nos dias de Bashô. Abandonar uma crença, um estilo de vida, pessoas, a casa primitiva, tudo! Tudo o que for preciso por causa do melhor lugar do mundo. Seremos ainda capazes? Serei?

Não, não quero escrever sobre a escrita. Não mais. Os últimos tempos têm-me mostrado o inevitável vazio da escrita em efeito de espelho: a imagem que se reflete a si mesma é um corredor oco, povoado de espetros descarnando-se até ao infinito. Retomo, por isso, as duas frases que se enlaçam, que principiam a torturar-me, que de súbito dão em conspirar contra a minha consciência, contra o muito que perdi nas últimas duas décadas. Retomo-as porque nos últimos tempos essa casa, essa missão, essa felicidade, me parecem tão improváveis como dolorosamente inúteis. «Estou como doente, como incapaz de procurar» diz uma das personagens de Thomas Mann.

E porque estou sentado numa esplanada, e porque leio o jornal, porque me ponho a cismar nas grandes questões que ocupam o nervo ciático da humanidade, fico tão absorto, tão estúpido, tão longínquo que não vejo, por exemplo, a minúscula metáfora enorme de um formigueiro fluindo debaixo da minha cadeira: uma lenta procissão, acumulando imperturbável (aqui sobre o empedrado como na mais recôndita floresta da Amazónia) as migalhas da vida.

Abandono, essa bela palavra que significa tanto hoje como nos dias do poeta-soldado Bashô. Abandonar o conforto e as certezas, abandonar essa prisão do medo que nos impede de viver. Abandonar velhos amores pela possibilidade do amor.

Eis porque fecho o jornal e, triste talvez ainda, provavelmente ainda infeliz, ainda insatisfeito não o duvido, me consolo com a bela luz de maio — esta que me traz de volta a mim mesmo, essa que como infinitas migalhas de esperança me faz erguer, caminhar com pressa, com urgência, de regresso ao carro, à vida, ao tempo perdido.

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Café

Fotografia de Abílio Silveira

Logo pela manhãzinha o cheiro do café espalha-se pela casa, intenso e delicado como os pés de uma criança. Minha mãe sempre acordou cedo. Foi ela a primeira pessoa no mundo a quem admirei o vício. Fá-lo fresco, de borra, todas as manhãs, na velhinha cafeteira de alumínio: a água ferve, depois são duas colheres e meia (das de sopa) bem medidas com a preciosa farinha escura lá dentro; a mexedura produz o característico som de castanholas e também uma pasta em espiral, girando firmemente como as primeiras galáxias, isto até a borra assentar. Quando na superfície se acumula uma película semelhante a uma nata vulcânica, a mesma colher levanta-a e deixa respirar o café que pode, finalmente, ser vertido numa chávena (das grandes). Minha mãe gosta de esmigalhar a broa, juntar-lhe o açúcar, submergir tudo e comer a mistura como se come o melhor dos acepipes. Isto é feito numa tigela (ou malga) das do caldo. É um pequeno-almoço minhoto, generoso, excelente para a diabete e para a azia… Eis um original retrato da infância.

O vício, como a cor dos olhos, uma fortuna ou determinadas doenças, herda-se. Eu sou herdeiro do vício de café! Herdeiro da malga com broa e dos rituais do preparo da borra. Herdeiro do vício que não admite censura ao vício: que mal pode haver em gostar-se assim de café? Herdeiro da vontade de conversar sob o protetorado da chávena! Entretanto fui introduzindo rituais novos à conta das máquinas: no tempo da saudosa de cápsulas, fazia-me abastecer delas como o poeta Teixeira de Pascoes se abastecia de onças de tabaco («Dá para aguentar uma guerra!», explicava ele); agora, neste tempo de máquina de cachimbo, encho a despensa de sacos de cinco quilos de sólido, granulado, aromático café torrado, normal ou seleto, da Colômbia ou africano, em cujo interior gosto de mergulhar a volúpia dos dedos, como se o fizesse de facto num alforge de ouro. Eis um retrato decalcado da infância.

Entre o primeiro e o segundo retratos há toda uma longa caminhada. Estou certo que em algum momento desta história pessoalíssima do café me seduziu um terceiro retrato: o de Fernando Pessoa, composto por Almada Negreiros, em 1954. Nele vemos a pose imortalizante do poeta, que anda há seis décadas a inspirar a pose dos inspirados da literatura: a mão direita do autor de Mensagem poisando sobre uma folha manuscrita, a esquerda segurando um cigarro aceso, uma caneta atravessando horizontalmente o papel, o número dois da revista Orpheu e sobretudo o recipiente do açúcar e a chávena de café! Nesse retrato vemos o homem de génio emoldurado por uma profusão de linhas direitas, quadrados e losangos em geométrica e estudada correção, numa referência limpa ao êxtase do conhecimento. Pessoa, o frio e empedernido Pessoa, assim nos ficou morando na memória fotográfica, como o poeta das finas arquiteturas mentais, o príncipe da intelectualidade! Mas felizmente, do poeta sobra também nesse retrato o fumo do seu cigarro e a chávena do seu café! Suporto-lhe menos bem a excelente poesia do que esse gesto raro, prosaico, humano, de apego ao vício!

Ora, começando nos anos da faculdade, e sem pretender imitar a personagem de Almada Negreiros, também eu me venho surpreendendo não poucas vezes de caneta e caderno, cigarro e chávena de café em cima da mesma mesa de madeira, em incontáveis cafés do país e do estrangeiro. É uma vinheta clássica. Na história da humanidade, sucedeu à efígie do poeta de cabeça adornada de louros a estampa do poeta entranhado numa penumbra de salão, pensativo, dessacralizado e ruinoso, bebendo (entre outros preciosos estimulantes) o néctar dos trópicos. Pelo menos desde Baudelaire essa é a figura de moeda que andamos todos perseguindo, de norte a sul do universo… Vejo-me nas esplanadas do Porto, no fim (ou mesmo durante o período) das aulas, a garatujar reflexões de densíssima atividade cerebral. Imagino o olhar circunspeto dos vizinhos de mesa, a curiosidade do turista ocasional, a admiração da menina que me serve. Aí estou eu, senhores e senhoras, munido de caneta de aparo, caderno de capa dura impecavelmente branco, uma cabeça aturdida pela tropelia de André Breton, escrevendo compenetrado, fluente, ruidoso, escrevendo material que tive o decoro de destruir atempadamente, antes mesmo do enxovalho dos amigos e da crítica. Julgo que à aura ajudava a barba crescida, a boina e o sobretudo pretos de fazenda. Suponho que a postura vaga, o semblante alienado, os maços de Marlboro completavam o figurão. Estamos em 1997 ou 98. Atingia o paroxismo do pedantismo. Perdi muito por isso! Mas o café, o café, senhoras e senhores, era já então o mais honesto que tinha no ofício não oficial de escritor! Hélas! Foi ele que me levou a conhecer tascos, botequins e casas de chá, onde encontrei alguns “deuses mundanos”, alguns dos mais notáveis habitantes do “Parnaso terreal”, para me servir de José Craveirinha, mas sobretudo onde encontrei pela primeira vez o trilho solitário do homem abençoado, ou amaldiçoado (nunca saberei destrinçar), pela sina da palavra, pela emulação ao retrato de Pessoa.

Depois vieram as viagens. Do Café Gijon, em Madrid (onde Ruy Belo entreteceu palavrosamente alguns dos seus melhores poemas), ao magnífico Lobkowicz, em Praga; do Majestic, no Porto, aos soberbos terraços mediterrânicos, protegidos ao mesmo tempo por panos e lonas listradas e pela literatura de Camus, Naguib Mahfouz, e Amin Maalouf, anda o meu coração vagueando de novo. O café, não especialmente o tabaco, foi sempre o meu melhor companheiro de jornada intelectual. Ele e o poema serviram-se amplamente de mútuo pretexto ao longo dos anos; são já como independentes de mim; são já como duas almas livres que combinam encontrar-se de quando em vez, usando para o efeito o meu corpo, como se usa um bufete de hotel em dias de secreto oaristo! São como dois entes, «ligados ou desligados por nós obscuros» (como creio que Salah Stétié disse), que continuamente me encantam e escravizam!

Nos últimos tempos tenho-me ocupado com o silêncio. Gosto de contemplar. Descobri com o admirável historiador José Mattoso o dom e as vantagens da contemplação! Todo o imenso chinfrim das palavras impressas, lá chega a manhã em que o descobrimos, incomoda! Todo o imenso alarido das nossas palavras torna-se, por contraste com a pureza do silêncio, uma vileza, um desperdício, uma tontaria. Estou na biblioteca vazia da minha Vila. Vazia de gente, não de bons livros. É um espaço pequeno, contíguo ao bar. Pelas frinchas, por baixo da porta, chega o aroma subtil e contínuo do café: considero, com a certeza de um teorema testado muitas vezes, que jamais hei de livrar-me disto. Apetecem-me de imediato, como extensões mecânicas da minha pessoa, a chávena e a caneta… Esforço-me sobre-humana, desesperadamente, por vencer ambas. A contemplação exige distância, exige a semiobscuridade da cela monacal! Exige abstinência, sacrifício!

Mas como na chávena de Pessoa, como na malga de broa de minha mãe, como facilmente depreenderá o leitor, acabo esta crónica sorvendo até ao último suspiro de uma dádiva, o café, o bom, demoníaco, maravilhoso café que me trouxe a estas palavras de elogio e, perdoe-se-me a blasfémia, de veneração! E então, sim, «algures, as coisas calam-se / Leves de tão duras», notou-o ainda Stétié.

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À maneira antiga

Ingrid Nilsson
Fotografia de Ingrid Nilsson

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Volto à maneira antiga. Limpo a máquina de escrever, atiro-lho o peso para cima da mesa, trago papel, uma resma dele, escolho um dicionário (nunca se sabe), vou ao frigorífico à cata de uma Super Bock. Acabo por regressar com uma lata de Coca-Cola. Depois introduzo uma folha, enrolo-a, acerto os cantos no carreto e começo.

«Ultimamente sinto-me nostálgico. Rebusco nas gavetas objetos de uso passado. Por exemplo, uma caneta de aparo em prata. Por exemplo, um isqueiro dos tempos da universidade. Por exemplo, um rosário dos dias de quando sabia rezar. Por exemplo, um moleskine com os restos de bilhete de avião e uma fotografia de Ingrid. Sinto-me nostálgico, como se sente às vezes o coração mais acelerado, ou o sono mais invencível depois do jantar. As gavetas guardam coisas estranhas. Por exemplo, chaves a que esqueci as concomitantes portas. Por exemplo, números de telefone que deixaram de ter nome. Por exemplo, relógios que há muito calaram os ponteiros. Por exemplo, pequenos cartões prometendo o amor feroz das amantes do Burlador de Sevilla

O velho tear tipográfico sacode a mesa, prensando cada letra de cada palavra com o amor de uma cansada ponderação. O vagar do processo é a sua beleza mais sublime. Sofre-se com o percutir das teclas, com o tilintar da campainha no final de cada linha, com o ruído seco do manípulo à esquerda empurrado para cada linha seguinte. Escrever assim é um jogo desamparado, como o trapezista que se liberta da rede e arrisca competir consigo mesmo.

«Sempre fui um nostálgico. Já a nostalgia tomava conta de mim quando nasci. A vida é nostálgica. Toda a criação é um ato de saudade das origens. De resto, gosto de brincar com as datas, de relacionar acontecimentos que aparentemente nada possuem em comum. Nasci no dia em que Elvis deu o último concerto da sua carreira, em Los Angeles. Nunca gostei das canções de Elvis, até conhecer-te em 16 de agosto, em latitudes inusuais. Tu, uma fã de Elvis, na data em que passavam precisamente 35 anos da morte do velho ídolo americano.

Elvis nasceu a 8 de janeiro de 1935. Gosto de brincar com as datas. Nunca gostei das canções de Elvis. Mas para ti cantei You’re always on my mind».

Não posso estimar a quantidade de textos escritos aqui. A fita bicolor conserva ainda o cheiro húmido, sóbrio, dessa tinta que outrora, nos tempos do Liceu, fizeram nascer sonetos e odes e os primeiros escritos em prosa. Escrevia muito já então. Fiz bem não deixar rasto dessa literatura. O tempo, com exceção para Jean-Nicolas Arthur, não tolera os rasgos de inspiração juvenil. Nem de qualquer outro tipo de inspiração não inspirada. Podemos passar toda uma existência ao lado dessa imensa felicidade. Ou podemos, como no caso de Rimbaud, encontrá-la antes dos vinte anos!

«You’re always on my mind é uma canção que conhecia aos Pet Shop Boys. Sou da década do pop, perdoarás. Cantei-a para ti num desses bares de karaoque, que povoam a Kungsgatan. Ultimamente tenho-a cantado mais vezes. Ando nostálgico. Sou um nostálgico, perdoarás. Tu replicaste The Wonder of you. Será possível que me haja entretanto apaixonado por essa canção? A nostalgia é uma relação complicada com a matéria que nos gera os sonhos e nos conduz a visão. Será possível que nos tivéssemos realmente apaixonado?»

Esta máquina de escrever esteve parada muitos anos. Guardada no escritório, dentro de um armário, dentro de uma caixa. Os anos deveriam tê-la estragado. Observo com comiseração a tecla com o símbolo §. Pressionava-a no final dos meus escritos de dezasseis anos, a separar as entradas de um diário. Com ela construía uma divisória a vermelho, cuja memória fotográfica me faz lembrar também as aulas de Práticas Administrativas e a bela professora ruiva do 8.º ano. Chama-se Ludovina. Porquê Ludovina perguntava-me…

«Será possível que ainda nos possamos realmente apaixonar? Digo, neste tempo de falsas imagens e armadilhas? Será possível que, ao cabo de tantos anos de escrita e devaneios, tenha possivelmente encontrado em ti uma alma concêntrica?»

Mas os anos, que tudo corroem, preservam miraculosamente fragmentos fundamentais da nossa existência. Abro a janela para libertar o fumo do cigarro. Ultimamente tenho fumado. Pouco, mas regularmente. O cigarro ajuda-me a situar o horizonte. Tenho lido Hemingway e Malraux. A culpa é deles! Tem-me apetecido novamente ter nascido noutro tempo, algures num país inteligente. Sou um nostálgico. Abro e fecho gavetas, deito ao caixote do lixo cartões e porta-chaves, despeço-me dos adereços do fracasso…

«Tu escreves poesia, também. Escreve-la numa magnífica Corona, herdada, explicaste, da tua avó Ebba; que também escrevia, explicaste, que conviveu com Artur Lundkvist e a mulher, Maria Wine.»

Sou um nostálgico. Um nostálgico progressista, talvez. Ou progredido! Depois de tantos anos, não pude resistir ao apelo da saudade. Tenho-me aqui, preso ao teclado humilde, dividido entre uma lata de gasosa e a música de Elvis, entre a saudade das viagens que não vivi nas verdes colinas de África e as viagens que talvez não repita nos brancos cumes da Suécia.

«E tu escreves poesia, também. Porque te recusas a ser igual a todos os que deixaram de acreditar na humanidade, explicaste. Escreve-la porque és herdeira da tua avó que foi uma mãe para ti, porque a poesia é um vínculo com o além, explicaste».

Volto ao passado. Volto ao cru martelar das palavras, escrevendo-as para talvez as destruir, talvez para me deslumbrar com a vaga semelhança entre mim e os mestres. Não me importo. Não me desilude a certeza do fim. Vivi o suficiente, vivo o bastante em cada cigarro que subtraio e acrescento à noite. As palavras saem limpas, gravadas num vaivém delirante de hastes metálicas e sons anacrónicos. Tudo perfeitamente saído de um filme, ou da memória.

«Será possível ainda o amor, Ingrid? O amor que é o contrário da morte, segundo a etimologia e os mais versados entendidos da latinidade? Digo, neste tempo de armadilhas e falsas esperanças? Será?»

A máquina sacode a mesa. Fá-la trepidar madrugada fora como um tear tipográfico, como um coração pulsando mecanicamente, como um adolescente feliz da sua própria estrada sideral, ordenando e desordenando as frases, à maneira antiga. Escrevo.

«Volto à maneira antiga. Limpo a máquina de escrever, atiro-lho o peso para cima da mesa, trago papel, uma resma dele, escolho um dicionário (nunca se sabe), vou ao frigorífico à cata de uma Super Bock. Acabo por regressar com uma lata de Coca-Cola. Depois introduzo uma folha, enrolo-a, acerto os cantos no carreto e começo.»

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Sempre uma questão de tempo

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Fotograma do filme «Casablanca» (Warner Bros)
Fotograma do filme Casablanca (Warner Bros, 1942)

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Começo esta crónica com o piano de Ryuichi Sakamoto em fundo. É uma balada tão calma, tão pungente, que um leitor mais sensível se entregaria de imediato ao devaneio por entre jardins e lagos do Japão, junto a uma casa de chá, debaixo de frondosas tílias, segurando a luva delicada de uma mulher cujo nome convém não dizer… É uma dessas baladas que levam às lágrimas o leitor mais sensível, quando em lugar de tudo o que acabo de descrever, só as memórias ocupam o seu pensamento… Talvez ocorra a alguém que um tal som de piano em fundo se usava no tempo de certos filmes a preto e branco, porventura dalgum dos clássicos que revemos nas noites solitárias de inverno, ou nos ásperos dias de alguma separação recente. Pela minha parte, ocorre-me o imortal Casablanca, a lendária dupla que Humphrey Bogart e a maravilhosa Ingrid Bergman protagonizaram, o Sam que Dooley Wilson encarnou, tocando para todo o sempre As Time Goes By

Começo com a lareira acesa, com um copo de Terra do Zambujeiro em cima da mesa, com um livro de Manuel Hermínio Monteiro nas mãos. Porque a verdade é só uma: escrevo por causa deste Urzes, compilação de pequenos textos que o saudoso editor deixou dispersos em jornais e revistas ao longo da sua incomparável existência física.

Podia ter começado, aliás, com uma citação sua, algo como «Em Portugal, o escritor vive na solidão que nem a pompa fúnebre que os poderes montam para a sua morte consegue disfarçar.»

Podia prolongar a citação, deixar que penetrasse fundo o sentido da crítica, que magoasse a sua mágoa, permitir que ficasse escrito também «Mal se extingue o bramido das carpideiras, o escritor fica duplamente soterrado. A sua obra, ou fica à mercê dos herdeiros que, salvo honrosas e conhecidas exceções, nada têm a ver com a obra nem com a vida de quem biologicamente lhes tocou, ou fica dispersa e esquecida como uma cidade imperial soterrada.» Porque a verdade é só uma: escrevo por simpatia, por desejo de replicar algo que leio e que me consola profundamente. Manuel Hermínio Monteiro é um ser fascinante, uma das poucas pessoas que lamento nunca ter conhecido pessoalmente.

Começo esta crónica com o suave ondular das notas musicais, com um piano que me faz esquecer a intensa mediocridade do meio, que me faz perdoar as traições do meio, que me faz iludir o desprezo pelo meio. E quando digo meio digo-o em sentido abrangente, inscrevendo, circunscrevendo nele escritores, editores, leitores, críticos, professores, premiadores de mérito, castigadores de reputações… Porque nem todos no meio são tão puros, generosos ou competentes quanto o foi em vida (e mesmo depois da sua morte) o Manuel Hermínio Monteiro. Porque muitos são meras aflorações rasteiras da grande árvore da literatura, gente escarninha, vil, ególatra, mas acima de tudo desprovida de talento! Porque o nosso meio tresanda hoje, como tresandava no tempo de Camões, a compadrio, lisonja e hipocrisia. Porque, escreveu-o ainda o antigo diretor da Assírio & Alvim, «O escritor dispõe da grande força do poder criador, mas perante o socioeconómico, com as suas leis de mercado, as estratégias editoriais, o gosto dominante, etc., o seu poder é reduzido.» Isso explica o profundo esquecimento de homens e mulheres do meio como Ângelo de Lima, Fialho de Almeida, Soeiro Pereira Gomes, Manuel da Fonseca, Ruy Cinatti, Alberto de Lacerda ou Fiama Hasse Pais Brandão. Isso explica o desconhecimento quase generalizado (fora dos muros universitários) da obra primorosa de autores vivos como Fernando Echevarría, José Agostinho Baptista ou António Franco Alexandre. Ou o ostracismo a que foi votado Altino do Tojal.

E quando o meio é francamente viciado, o país responde-lhe com desdém. Repego nas palavras ironicamente certeiras de Manuel Hermínio Monteiro: «o país tem é que criar centros culturais megalómanos. Criar comissões comemorativas. Organizar projectos de repercussão internacional, campeonatos mundiais de futebol.»

Mas talvez não seja um problema apenas ou fundamentalmente português. Gerrit Komrij fugiu à Holanda natal para se refugiar em Trás-os-Montes. José Rentes de Carvalho abandona ainda Portugal durante largas temporadas para se refugiar em Amesterdão. E não abjurou Thomas Bernhard da sua Áustria arrogante? Não se está positivamente nas tintas o Herberto Helder para o país? Para o meio? O meio faz as suas vítimas em toda a parte! Ou então destemidos opositores. Isso faz-me pensar…

De maneira que a cabeça pesa, com o piano de Ryuichi Sakamoto em fundo (mais poderosa do que o gosto dominante, mais aguda do que o elogio académico, mais duradoura do que cem cordas encordoadas de interesses comuns e políticas livreiras). De maneira que amo mais profundamente o copo de vinho que tenho à minha disposição, ou as labaredas da lareira reacesa por causa do frio, ou o devaneio por entre jardins nipónicos, de mão dada com belas mulheres loiras de filmes imortais.

Um escritor pode ser solitário. Ou pode ser que nunca seja só. O sono vence-me a resistência dos ossos e do orgulho. Remato com uma última citação do homem a quem, deliciado, leio a crónica «Elogio do Escritor»:

«Ele é dos poucos a quem a luz do Sol entrega sonhos. É assim que Deus lhe paga. E este é o mais belo plano de todo o filme.» Podia ter começado por aqui. Teria dado uma belíssima crónica.

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Ser mãe

Tim Kraaijvanger
Fotografia de Tim Kraaijvanger

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Durante a viagem que me levou no passado verão do Algarve ao norte da Europa reli as muitas páginas de Cem Anos de Solidão esbarrando, porventura involuntariamente, a propósito sem dúvida da centenária Úrsula Iguarán, noutro significado para a palavra mãe: porque na palavra mãe cabem significados tão vastos e tão diversos como os que desfilam no caleidoscópio de acontecimentos, nomes, geografias, gerações, metamorfoses, nascimentos e mortes do texto de Gabriel García Márquez. Essa mulher (sucessivamente mãe, avó, bisavó, trisavó e tetravó) representa no colapso de toda a solidão, e para me servir de uma legenda de Salvador Dalí, a persistência da memória.

Longe, nas planícies escandinavas, com o mesmo Atlântico em fundo, senti saudades da minha mãe. Eu, homem de trinta e cinco anos, senti saudades da mulher ainda não velha que me trouxe ao mundo, da mulher que inumeráveis vezes me amamentou, agasalhou, velou em noites febris, me narrou histórias da Branca Flor e do João Sem Medo, me ensinou as primeiras orações e os provérbios mais subtis, me fez acreditar numa ética (hoje provavelmente anacrónica) que abjura do poder e do dinheiro, me fez amar a simplicidade e a poesia silenciosa das pequenas formas de existência, me levou às letras e humanidades. Longe, nos cumes da Suécia, compreendi pela primeira vez a asfixia do ser exposto a uma solidão desamparada. Pela primeira vez na minha vida senti a possibilidade de ter cavado no lugar da minha alma um buraco, uma estrada sem retorno. Pela primeira vez compreendi porque clamam pela mãe todos os soldados moribundos, em todas as guerras do mundo.

Os anos trouxeram-me o decoro e a prudência. Reconheço que a vida é um fenómeno precioso, muito acima das palavras e das formas de consciência. Reconheço que há vínculos sagrados sobre os quais é redutor falar. Porque ser mãe é uma ciência complexíssima, como tão bem o demonstram o sofrimento de uma tia minha enlouquecida pela perda do filho (como nas tragédias de Sófocles), ou mais eloquentemente ainda o nascimento da Salomé, criança que trouxe à minha mãe em particular (à avó Alice), a suprema alegria de o ser duas vezes. Mãe é a terrível condição de pretender tudo, de abdicar de tudo, de concentrar tudo, tudo no triunfo incalculável de gerar uma vida e de nela deixar inscrito o poema maior possível: o amor de felizes lágrimas infelizes!

Nunca poderei ser mãe (invejo-o possessiva e veementemente às mulheres), mas pude pressenti-lo uma ou outra vez. Explico: em 1998 fui submetido a uma operação cirúrgica, que me obrigou a um internamento de oito dias. À data a minha irmã Catarina contava apenas três anos, tendo eu suposto que as suas visitas ao hospital não lhe ficariam registadas. Explico também que havendo entre nós um intervalo exato de dezoito anos sempre cuidei dela como de uma filha, cabendo-me, entre outras tarefas ao longo da sua infância, a de a aconchegar na cama. Numa dessas noites de leitura dos contos de Grimm, de algumas cócegas e depois da luz apagada, quando a imaginava adormecida já, quando passava eu próprio pelas brasas, sussurrou-me a garotinha qualquer coisa como isto: «Sabes? Quando  eu era pequenina e tu estavas no hospital, chorei muito porque tinha pena de ti e a mãe ficou tristinha!» Confesso lágrimas abundantes e silenciosas, de uma felicidade infeliz, de uma sinceridade que transborda e não tem definição. Ser mãe é isso, imagino que seja isso: chorar muitas vezes, sinceramente, em silêncio!

Anos mais tarde, numa fatídica noite de maio, quando o aparato das sirenes e o pirilampo das ambulâncias anunciava aqui na Vila o atropelamento simultâneo de várias mulheres no regresso da igreja, quando ninguém sabia dizer ao certo quem eram as desafortunadas, quando ninguém podia negar que houvesse vítimas mortais (havendo, pelo contrário, quem asseverasse que haveria muitas), quando ninguém podia acercar-se do ponto do sinistro por causa da barreira policial, quando se sabia unicamente que eram mulheres vindas do serviço religioso em honra de Nossa Senhora (e a minha mãe contava-se entre elas), entrei em pânicoPorque não estava preparado para o pior dos cenários. Porque aquele podia (e não foi, felizmente) o pior dos cenários. Porque no caderno de encargos de uma mãe consta obrigatoriamente o de preparar um filho para a sua desaparição – e talvez nunca estejamos preparados: eu não estava! Porque ser mãe é o empenho nobilíssimo para o conseguir, para antecipar-nos o sofrimento administrando-o aos poucos. Porque ser mãe é procurar criar em nós uma espécie de imunidade, de resistência ao colapso, de amor e memória que a prolongue e nos prolongue no tempo.

Herberto Helder, em versos de superior condensação, resume o que podem ser todas as mães, todas as Úrsulas Iguarán, todas as mães ensandecidas pela perda, todas as mães que um dia nos criaram e rejubilam com uma neta nos braços: «As mães são as mais altas coisas/ que os filhos criam, porque se colocam/ na combustão dos filhos, porque/ os filhos estão como invasores dentes-de-leão/ nos terrenos das mães.» Abençoadas sejam, pois, todas, todas as mães a que não sabemos, a que não soubemos tantas, tão incontáveis e ignominiosas vezes, dizer sequer obrigado! Porque ser mãe, por último, será não desamar a quem lhe devota a ingratidão e o silêncio. Abençoadas sejam por tantas, tão incontáveis e prodigiosas horas de perdão!

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