Foto - Casablanca, Warner Bros
Foto: Warner Bros (a partir do filme «Casablanca»)

Começo esta crónica com o piano de Ryuichi Sakamoto em fundo. É uma balada tão calma, tão pungente, que um leitor mais sensível se entregaria de imediato ao devaneio por entre jardins e lagos do Japão, junto a uma casa de chá, debaixo de frondosas tílias, segurando a luva delicada de uma mulher cujo nome convém não dizer… É uma dessas baladas que levam às lágrimas o leitor mais sensível, quando em lugar de tudo o que acabo de descrever, só as memórias ocupam o seu pensamento… Talvez ocorra a alguém que um tal som de piano em fundo se usava no tempo de certos filmes a preto e branco, porventura dalgum dos clássicos que revemos nas noites solitárias de inverno, ou nos ásperos dias de alguma separação recente. Pela minha parte, ocorre-me o imortal Casablanca, a lendária dupla que Humphrey Bogart e a maravilhosa Ingrid Bergman protagonizaram, o Sam que Dooley Wilson encarnou, tocando para todo o sempre As Time Goes By

Começo com a lareira acesa, com meia garrafa de Zambujeiro em cima da mesa, com um livro de Manuel Hermínio Monteiro nas mãos. Porque a verdade é só uma: escrevo por causa deste Urzes, compilação de pequenos textos que o saudoso editor deixou dispersos em jornais e revistas ao longo da sua incomparável existência física.

Podia ter começado, aliás, com uma citação sua, algo como “Em Portugal, o escritor vive na solidão que nem a pompa fúnebre que os poderes montam para a sua morte consegue disfarçar.”

Podia prolongar a citação, deixar que penetrasse fundo o sentido da crítica, que magoasse a sua mágoa, permitir que ficasse escrito também “Mal se extingue o bramido das carpideiras, o escritor fica duplamente soterrado. A sua obra, ou fica à mercê dos herdeiros que, salvo honrosas e conhecidas exceções, nada têm a ver com a obra nem com a vida de quem biologicamente lhes tocou, ou fica dispersa e esquecida como uma cidade imperial soterrada.” Porque a verdade é só uma: escrevo por simpatia, por desejo de replicar algo que leio e que me consola profundamente. Manuel Hermínio Monteiro é um ser fascinante, uma das poucas pessoas que lamento nunca ter conhecido pessoalmente.

Começo esta crónica com o suave ondular das notas musicais, com um piano que me faz esquecer a intensa mediocridade do meio, que me faz perdoar as traições do meio, que me faz iludir o desprezo pelo meio literário. E quando digo meio digo-o em sentido abrangente, inscrevendo, circunscrevendo nele escritores, editores, leitores, críticos, professores, premiadores de mérito, castigadores de reputações… Porque nem todos no meio são tão puros, generosos ou competentes quanto o foi em vida (e mesmo depois da sua morte) o Manuel Hermínio Monteiro. Porque muitos são meras aflorações rasteiras da grande árvore da literatura, gente escarninha, vil, ególatra, mas acima de tudo desprovida de talento! Porque o nosso meio tresanda hoje, como tresandava no tempo de Camões, a compadrio, lisonja e hipocrisia. Porque, escreveu-o ainda o antigo diretor da Assírio & Alvim, “O escritor dispõe da grande força do poder criador, mas perante o socioeconómico, com as suas leis de mercado, as estratégias editoriais, o gosto dominante, etc., o seu poder é reduzido.” Isso explica o profundo esquecimento de homens e mulheres do meio como Ângelo de Lima, Fialho de Almeida, Soeiro Pereira Gomes, Manuel da Fonseca, Ruy Cinatti, Alberto de Lacerda ou Fiama Hasse Pais Brandão. Isso explica o desconhecimento quase generalizado (fora dos muros universitários) da obra primorosa de autores vivos como Fernando Echevarría, José Agostinho Baptista ou António Franco Alexandre. Ou o ostracismo a que foi votado Altino do Tojal!

E quando o meio é francamente viciado, o país responde-lhe com desdém. Repego nas palavras ironicamente certeiras de Manuel Hermínio Monteiro: “o país tem é que criar centros culturais megalómanos. Criar comissões comemorativas. Organizar projectos de repercussão internacional, campeonatos mundiais de futebol.”

Mas talvez não seja um problema apenas ou fundamentalmente português. Gerrit Komrij fugiu à Holanda natal para se refugiar em Trás-os-Montes. José Rentes de Carvalho abandona ainda Portugal durante largas temporadas para se refugiar em Amesterdão! E não abjurou Thomas Bernhard da sua Áustria arrogante? Não se está positivamente nas tintas um Herberto Helder, que queriam Nobel da Literatura? O meio faz as suas vítimas em toda a parte! Ou então destemidos opositores. Isso faz-me pensar…

De maneira que a cabeça pesa, com o piano de Ryuichi Sakamoto em fundo (mais poderosa do que o gosto dominante, mais aguda do que o elogio académico, mais duradoura do que cem cordas encordoadas de interesses comuns e políticas livreiras). De maneira que amo mais profundamente o copo de maduro que tenho à minha, ou as labaredas da lareira reacesa por causa do frio, ou o devaneio por entre jardins nipónicos, de mão dada com belas mulheres loiras de filmes imortais…

Um escritor pode ser solitário. Ou pode ser que nunca seja só. O sono vence-me a resistência dos ossos e do orgulho. Remato com uma última citação do homem a quem, deliciado, leio a crónica «Elogio do Escritor»:

“Ele é dos poucos a quem a luz do Sol entrega sonhos. É assim que Deus lhe paga. E este é o mais belo plano de todo o filme.” Podia ter começado por aqui. Teria dado uma belíssima crónica!

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