É indescritível a sensação de atordoamento que experimenta este viajante nesta parte do mundo, onde se presenciam factos como os que a seguir se enumeram.
Estamos em Moinaque, no noroeste do Usbequistão. O viajante sobe a uma plataforma de madeira, que facilmente se confunde com o passadiço de um porto. Os barcos lá estão, ali, acolá, mais além, tombando uns a estibordo, outros para bombordo, completamente enferrujados, esquecidos, agonizando sobre o leito arenoso do que foi até há escassas décadas uma das margens do mar de Aral. O viajante recebem-no num tugúrio nascido, algures aí, no meio do antigo perímetro lacustre.
Rustam Kerinov conduz um pequeno rebanho de cabras por entre as quilhas e as âncoras oxidadas. Leva ao ouvido um rádio de pilhas, na boca um cigarro quase completamente encarquilhado, nos olhos a devastação enorme de um ofendido.
«Aqui agora estão a plantar arbustos» explica Serik Tolvashev. «É difícil suportar as tempestades de sal».
«Arbustos?»
«Sim, fileiras de saxaul. Plantam-nos a intervalos de um metro. Para que cresçam e limpem o solo».
O viajante mal respira. A poeira embrulha a cidade-fantasma e cai como uma praga bíblica sobre o pelo dos animais. Chicoteia o casco doloroso das embarcações. Em boa verdade, nada segura o vento, nada se opõe aos minúsculos grãos de sal e de areia amalgamados e em movimento.
«De que se alimentam vocês agora» pergunta o estrangeiro.
Ao longe, Rustam Kerinov já não se vê. Do aparelhito anacrónico chegam, a custo, as notas de Boys don’t cry. Será uma alucinação pensa o viajante. Será um sonho, aqui coisa nenhuma é uma certeza: será uma daquelas circunstâncias absurdas de coisas que se misturam no tempo errado no lugar errado.
«Do pouco que nos sobrou da água, do nada que nos ficou de terra fértil, comemos o que calha» diz Serik Tolvashev.
Neste pedaço da geografia usbeque (mais correto seria escrever caracalpaque), as temperaturas descolam no mês de julho. O anfitrião serve um chá na sua cabana improvisada. Na única estante que nela se sustém, o viajante reconhece um velho exemplar do Corão. Fora destas paredes frágeis zune a força de um demónio, de um desastre, de um male sem nome. Mas a fé, a fé em Deus é maior do que o vento monstruoso capaz de embalsamar os vivos. A fé habita cada pedaço do mundo e é capaz de regenerá-lo.
O viajante ao poisar as mãos no chão sente um estremecimento. Vinte, talvez trinta anos atrás, no preciso ponto onde está o tapete estendido era o fundo de um lago. Sobre a sua do viajante nadariam carpas e lúcios, nadariam sargos e rutilos, nadariam bagres e solhas, nadaria pela certa algum esturjão formidável.
O estrangeiro pensa no pescador Rustam Kerinov, no pescador Orazbay Qobil, no pescador Marat Allanazarov, no vendedor de peixe Almas Dosivov, no encarregado da fábrica de conservas Madi Dyussenbayev, em todos os que nesta jornada conheceu já e se lamentam do mar desviado, roubado, evaporado – do mar de que sobrou o sal maldito e as ossadas dos barcos, do mar transformado em pó.
Nesta banda do que foi o grande azul de Aral, a finitude é imensa. Existe nela algo de nostálgico e de belo, como sempre sucede com a decadência no mundo. Mas suplanta-a a dimensão do sofrimento. Milhões de litros de água transviados para alimentar a ganância e o erro. Ao viajante chega-lhe o pensamento de que o sofrimento é a maior de todas as obras de que o ser humano foi capaz até hoje.
Serik Tolvashev conta como aqui perdeu o pai num naufrágio no início dos anos sessenta, era ele ainda uma criança, viva ainda a água que o matou.
Ao viajante custa-lhe acreditar. Mas aconteceu, numa rara tempestade vinda do Cazaquistão, em meados de fevereiro.
«Morreu o meu pai. O tio Dmitry escapou por um triz. Foi um infortúnio.»
Ironias ferozes atravessam-se-nos ao caminho, a sensação é indescritível. O viajante, por exemplo, falhou um concerto dos The Cure em Glastonbury há um par de meses, mas escutou-os há instantes, debaixo de uma súbita tormenta de pó. O viajante vê uma doca à entrada do deserto e escuta o estertor de velhos barcos gementes que afundam na terra enxuta. O mesmo viajante bebe – para se hidratar numa tarde escaldante de verão –, um chá a ferver, depurado pela temperatura elevada das impurezas da água péssima de Moinaque. O viajante – ironia suprema – é informado de que, no sítio exato onde Serik Tolvashev lhe serviu a bebida, sessenta anos andados às arrecuas, um naufrágio vitimou o seu o pai.
Quando regressar a casa, este estrangeiro talvez omita, por prudência, alguns pormenores. A vida, na sua pródiga maquinação, sempre pareceu uma mentira. E quem levará a sério, admitamos, a narrativa de um viajante mentiroso?
O rapaz gostava de coisas antigas. Todo ele, digamo-lo, caía para o antiquado. A começar pelo pullover sem mangas, de um tom amarelo pastel. Não havia uma única mulher no escritório que o não achasse piroso.
Depois havia aquela coisa entre o nariz e o lábio superior, aquela pelagem a parecer-se com um bigode, ou um buço, e que o tornava mais feio e antipático. E as raras palavras que dirigia aos colegas não ajudavam:
– Pode, por obséquio, arremessar esse agrafador na minha direção?
Era realmente muito desagradável. Ser-se interpelado de um modo cortês, à antiga, dificilmente pode aceitar-se num espaço onde crápulas e devassas se prestam todos os dias a uma feroz demonstração de animalidade.
Ponhamo-nos de acordo: o escritório é um lugar errado para se pedir o que quer que seja por favor. Ainda menos com palavras que ninguém entende.
O rapaz possuía outro grande defeito. Chamava-se Valdemiro. Valdemiro Perestrelo. Não convém hoje que se seja chamado de Valdemiro e Perestrelo. Não perguntemos porquê.
Outra disformidade merece ser assinalada. Embora fosse calmo, o rapaz escrevia demasiado depressa. Matraqueava o teclado do computador com força, com vigor, com fanatismo, num estilo que importunava toda a gente.
O chefe de departamento alertou-o em várias ocasiões para os perigos de uma escrita rápida:
– Fixe o que lhe vou dizer, Perestrelo: não me escreva coisas como “Recebemos com agrado o seu pedido” apagando uma letra na palavra pedido, entendeu? Nem que “Vamos verificar a sua conta” com uma letra a menos na palavra conta. Tem ido malta para o olho de rua por causa deste tipo de equívocos…
Mas o rapaz não se enganava. Possuía treino e devoção, outro grande mal nos dias que correm.
Habitava um apartamento modesto cheia de objetos obsoletos. Dedicava-se a traduzir Shakespeare. Fazia-o de um modo bastante simples: primeiro espreitava o texto original, depois repetia-o sotto voce, a seguir martelava na máquina de escrever a sua versão. Não usava dicionário.
A máquina de que se servia – uma pesadíssima Remington, modelo 12 de 1930 – nas noites mais criativas do rapaz prensava o papel num delírio que não deixava ninguém dormir no prédio.
O treino de Valdemiro vinha daqui.
Datilografava sem necessidade de conferir as teclas redondas. Fazia-o depressa e bem. Limitava-se a corrigir de quando em quando a posição dos oculinhos redondos. No fundo, alimentava o seu modo de vida, que nos parece tão bom como qualquer outro.
Foi, por isso, um espanto ouvir-lhe na manhã do dia de anteontem o insulto.
O chefe de que falámos atrás, impacientou-se com qualquer coisa. Incomodou toda a gente no escritório e toda a gente no escritório descarregou no rapaz, de tendência calado e sorumbático.
O insulto é uma prova corriqueira da nossa fraqueza. Ou das nossas fraquezas.
Esquecemos – e não será desprezível mencioná-lo – que a máquina de escrever de Valdemiro Perestrelo era gaga. Gaguejava nos P e nos A. Por vezes, quando o seu dedo tradutor apertava contra as respetivas teclas, havia um soluço e saíam dois caracteres juntos, ambos mal desenhados. Isso, admitamos, aborrece. Isso estragava, se não a boa disposição, o ótimo papel munken de que o rapaz se servia.
Porque lembramos isto? Porque a nossa cabeça se enreda amiúde em aborrecimentos de que nos não livramos facilmente.
De maneira que o colega mais chegado lhe disse algo como isto:
– Ó pancrácio, tem lá cuidado ou ainda rebentas a mesa!
De maneira que Valdemiro se interrompeu uns vinte segundos e, tomado por uma ira mansa, respondeu a direito e sem rodeios:
– Peço-lhe encarecidamente, Rui Maciel, que vá à berdamerda…
Um insulto, ainda que proferido por alguém desacostumado de os proferir, é sempre motivo de coletiva indignação. Assinalemos aqui o despropósito: não se manda ninguém à berdamerda, menos ainda quando se traduz Shakespeare.
O rapaz sofria de noctambulismo. Durante a noite, empunhando uma vela, passeava para a frente e para trás pelos corredores da pensão e só ao cabo de algum tempo regressava ao quarto em paz.
É claro que esta história já tem algum tempo. Hoje ninguém passeia pelos corredores das pensões durante a madrugada.
O rapaz procurava o seu amor: ia sem saber que ia, voltava ao ponto de partida sem perceber que partira. Um autómato. Não oferece dúvida que este é o proceder dos que padecem da enfermidade. Nas últimas vezes fazia uma paragem diante a entrada do quarto 107.
Alguém que queria saber mais seguia-o cheio de curiosidade. Quiçá habitasse um quarto lá ao fundo, na ponta oposto do mesmo corredor. Talvez entreabrisse silenciosamente a porta à hora certa (os curiosos estão sempre a par das horas certas) e espreitasse, seguro de poder ver sem ser visto.
O rapaz carregava a candela com a mão direita e com a outra mão escrevia a giz (era, portanto, canhoto) qualquer coisa. Depois prosseguia a sua jornada sonâmbula e não acontecia mais nada. Esta coisa de escrever a giz era recente. Fazia-o com gestos lentos e macios, quase sussurrantes.
De manhã cedo a porta do quarto 107 rangia docemente, deixando sair para a penumbra do espaço comum a boa luz da manhã que nele já se havia instalado. A jovem professora de francês saía para o trabalho, uma rapariga muito bonita, de cabelos loiros encaracolados e olhos safíricos.
Vexadíssima, lia as misteriosas palavras e apagava-as com um lenço, não sem primeiro deitar uma mirada em redor.
Mais uma vez, quem isto observava regozijava-se com o segredo. Devia regozijar-se, porque abdicava do seu próprio sono. Quem trabalha precisa de dormir e nós sabemos que entre a escrita e a limpeza das palavras decorriam horas escassas.
Uma noite o rapaz demorou-se um pouco mais. Escreveu um poema. Era um bom poema, garantiram-nos. A rapariga leu-o na manhãzinha seguinte e hesitou. Vieram outros poemas e outras hesitações. Às tantas a professora passou a usar um lápis e a registar as palavras que lhe dedicavam num caderninho. Estava rendida.
Mas quem seria o poeta. Nos quatro pisos da pensão juntava-se muita gente, jovem, menos jovem, velha. Havia um rapaz bem-apessoado, o do número 114: só se cruzavam ao fim de semana, por trabalharem em diferentes turnos. Ela encarou-o com interesse, mas ele lia as Flores de Baudelaire e nem lhe pôs os olhos em cima.
Como gostaria de conhecer o autor daqueles versos tão belos e tão saturados de ternura!
Alguém conhecia o segredo.
Mas os segredos deixam de ser segredos quando revelados. E nada se sobrepõe ao prazer imenso de o gozar a sós, como fará Deus amiúde lá no Céu, ou onde quer que Ele viva. Além disso, quem pode prever as consequências de uma intromissão (bastante espúria, aliás) na narrativa de terceiros?
Esta é uma autoestrada que Ole Henriksen conhece bem.
Sobe e desce a E6 muitas vezes ao volante do seu Scania V8, um camião poderoso de 770 cavalos, atravessando (como agora) túneis pacientes em paisagens montanhosas, pontes ultramodernas sobre abismos azuis, florestas a perder de vista, cobertas boa parte do ano pela neve e por espinhos de gelo, mas também aldeias pitorescas cheias de cor, entre cidades grandes, frias e incaracterísticas, atravessando, enfim, a sua própria memória, repleta de vislumbres e de ecos e de vozes.
Viajar viaja-se de muitas maneiras sabemo-lo todos. Ole sabe-o mais do que nós.
De Trondheim a Oslo são seis horas e meia bem contadas, quinhentos quilómetros para sul, a que se seguirão outros quinhentos em sentido oposto, sem distrações, para transportar tudo aquilo que a espécie humana consegue decompor, embalar, vender e possuir dentro de quatro paredes.
Hoje, por exemplo, é responsável por uma carga de cerveja, toneladas e toneladas dela diretamente para um armazém da capital, que a fará distribuir (não tarda) pelos inumeráveis bares e restaurantes da Grünerløkka.
Ole nem sempre se desloca sozinho. O irmão Bjoern acompanha-o nos trajetos internacionais e não raro revezam-se na condução. Antes dele quem o fazia era Frigga, a mulher com quem casou e de quem se divorciou há não muitos anos.
Frigga era, sem dúvida a companheira ideal. Sabia gerir como ninguém o tempo de falar e o tempo de calar. Erguia no meio do nada uma narrativa, uma lenda, uma memória, uma frase pertinente. E possuía, além de olhos maravilhosamente bem feitos (cor de âmbar), uma voz sedosa, sem crispação e sem veneno. Nunca lhe escutou um ralho, um protesto, uma altercação. Frigga foi a melhor das mulheres e ele, digamo-lo nós sem rodeios, o pior dos maridos. E, por esse motivo, continua a amá-la e a aceitar o castigo penosíssimo de a não ter junto a si.
Bjoern, por seu lado, é um borrachão. Nas vésperas das grandes viagens, é necessário repetir-lhe regras, ameaçá-lo, fazê-lo dormir, vistoriar-lhe os bolsos do anoraque.
Portanto, a solidão não é muito má. A solidão enche-nos de pensamentos e os pensamentos, pese às tantas doerem demasiado, são o nosso modo de sobreviver. Acresce que no interior e no alto de um camião se pode captar, como pelo vidro de um ecrã, imagens que dificilmente se perdem nas anteparas da cabeça. Entre as imagens que aprendeu a valorizar, Ole aprecia o recorte acidentado dos lagos e dos fiordes, as linhas intermináveis de abetos, o dorso descarnado das cordilheiras do leste, especialmente no inverno, quando acima do manto espesso que nelas se acumula bruxuleiam as chamas verdes das auroras boreais.
Aprendeu a ver e aprendeu a escutar. Todas estas e muitas outras coisas em que não reparava vieram com Frigga, com a sua mania de as enfiar em versos.
Certa vez, perto de Esbjerg, na Dinamarca, brindou-o com esta observação:
– Que magnífica praia, Ole! As gaivotas assim todas poisadas parecem o nevoeiro à beira-mar, não parecem? Que estampa maravilhosa. Olha, estou mesmo a imaginar Hokusai ou Ohara Koson a pintá-la…
Para o motorista, as coisas não tinham de parecer-se com nada. Eram o que eram. Não se lhe afigurava muito sério que se dissessem as coisas como Frigga as dizia, sobretudo se por meio de palavras ritmadas, curtas, nada espontâneas.
Noutra ocasião, numa das encostas do Hardanger, saiu-se com uma ainda melhor:
– Para, para o camião, meu querido. Vamos encher os pulmões com o ar frio, enchê-los com o perfume daquele pomar!
Como podia ele parar o camião? As coisas na vida real passam-se de outro modo. Há compromissos, objetivos, prazos a cumprir. Encher os pulmões com o ar frio? Então, para que raio mantinha o ar condicionado naquela temperatura? Por quem, senão por ela, conservava a cabine do Scania tão esmeradamente cómoda, tão dedicadamente limpa, tão perfeitamente climatizada?
– Sabes do que me lembrei, Ole? De um poema de Kobayashi. É assim:
O brilho do sol. Na carne das cerejas um moscardo cai.
É um belo poema, não concordas, Ole? Dele ou de Bashô, já não sei ao certo… Mas é lindo! Não achas, querido?
Antes estas palavras soavam-lhe incompreensíveis. Agora já não. Ole Henriksen pensa que é espantoso ter permanecido tanto tempo na obscuridade.
Frigga amava a pintura, a literatura, a música, sobretudo as do Japão, essa exótica nação que ela queria visitar e ele nem por isso. Frigga sabia imensas coisas da civilização nipónica. Partilhava constantemente histórias de artistas, de guerreiros, de tradições, falava de flores, de árvores, de ilhas abençoadas. Reproduzia anedotas, mostrava-lhe gravuras do Fuji, aludia ao budismo, chegou a comprar e a aprender a dedilhar um shamisen. Oh, o som que saía daquela maldita viola!
Tudo isso o incomodava. Preferia que ela fosse uma pessoa normal, uma mulher mais igual às outras, capaz de proferir insultos, de comer fast-food, de aguentar em terra firme a cabeça sonhadora, capaz de o seduzir com insinuações animalescas, obscenas, escatológicas.
Ole fartou-se. Por culpa da sua estupidez, frequentou casas erradas.
Tudo isso regressa agora. O divórcio abriu devagar fissuras enormes, abriu em si como numa lona rasgões dificilmente reparáveis.
Agora que o sol passa, ele vê. Vê dentro de si moscardos entontecidos, cerejas rebrilhantes, o privilégio da ordem e da harmonia. Agora tudo é diferente. Os horários esvaziam-no, o ruído dos empilhadores irrita-o, a comida das estações de serviço provoca-lhe azia e náuseas. Agora tudo é diferente, embora demasiado tarde.
O primeiro haiku ocorreu-lhe justamente numa dessas estações de serviço, em Odda, no momento em que fumava no sítio exato (uma mesa de madeira, sob os troncos combinados de grandes bordos e plátanos) onde o fazia noutros tempos com a mulher.
Era outubro. A oxidação das árvores não lhe passou despercebida. Vieram-lhe à cabeça e depois à boca, quase involuntariamente, os três versos que reproduzimos:
O outono… Folhas de ouro e rubi crepitam no chão.
Espantou-se com o jogo de palavras. Depois de urinar à socapa, como gostava depois dos cigarros, repetiu a pequena composição em voz baixa, de si para si, e decidiu apontá-la num caderninho, apondo no final a data e o lugar.
Pouco tempo depois, registou um novo texto:
Cego inverno. Triste, a água congela nos olhos.
Ulvsvåg, 22/12/2014
Nesse precioso bloco de folhas foi registando outros poeminhas, que aprecia cada vez mais, que relê amiúde, que a espaços corrige. Não se julga senhor da técnica, mas anima-o a vontade de observar mais longe e mais fundo a natureza empírica dos elementos e de extrair dessa observação a voz de Frigga, como se em vez da sua fosse a voz dela a que dita os haikus.
Abril. Renascem bosques sombrios: a luz atravessa-os.
Brémen (Alemanha), 15/04/2015
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Talhão de papoilas. O vento medroso brinca com fogo.
Carcassone (França), 10/05/2015
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Se ouves o melro, rejubila. A tua alma vive.
Cantuária (Inglaterra), 21/06/2015
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Pasmo jovem… Olhos e nariz rendidos à cizânia.
Essex (Inglaterra), 22/06/2015
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A voz das ervas.
Os pássaros erguem-na
depois da chuva.
Dover (Inglaterra), 24/06/2015
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Cinzas da luz. De manhã também em nós Se acende o riso.
Calais (França), 24/06/2015
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Mantém na boca a beleza da noite. Vãs as palavras…
Antuérpia (Bélgica), 26/06/2015
Ole passou a registar com igual cuidado as palavras que lhe suscitam maior curiosidade e as que considera úteis para a sua escrita. Usa um velho dicionário escolar, onde sublinha a lápis o vocabulário mais apetecível. Dá por si a misturar termos e a lamentar que algumas palavras tenham mais ou menos sílabas do que as necessárias. Também se ofende bastante com a falta de rigor dos colegas de ofício, que estropiam a todo o instante o norueguês e o contaminam por tudo e por nada com empréstimos de outros idiomas. Ole considera muito criticável a preguiça, a mania, a ignorância dos motoristas profissionais em questões de língua materna.
Quanto à sua escrita, talvez decida publicar estas composições num livro. É algo de que se orgulharia, sim. Se o fizer, há de dedica-lo a Frigga, à sua Frigga, à laia de pedido de perdão.
Tristeza. O lago volta-nos as costas, a lua foge.
Mjellum/Mjøsa, 30/06/2015
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Pensamentos. Água podre e estanque que urge vazar.
Trondheim, 18/08/2015
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Prestes a partir, os últimos pássaros fecham círculos.
Estocolmo (Suécia), 20/09/2015
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Silêncio. Ao longe chocalham as pedras da montanha.
Bolzano (Itália), 18/10/2015
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Rio e mar drapejam o mesmo azul. Pulmões inchados.
La Coruña (Espanha), 20/10/2015
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Abre-te na luz ou no escuro. Sê nu como um fruto.
Bilbao / San Sebastián (Espanha), 21/10/2015
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Madrugada. A brisa espicaça a luz, meus olhos ardem
Oslo, 23/10/2015
No regresso a Trondheim existe um lugar bendito onde consegue, infalivelmente, descortinar outras variantes da sua poesia. Fica em Ler, um vilarejo no condado de Trøndelag. Sempre que na E6 se cruza com essa localidadezinha, vêm-lhe ao espírito as palavras meigas de Frigga.
– Sabes que na língua dos portugueses, Ole, o nome desta terra significar ler?
Deu para rir. A língua dos portugueses será bem estranha. Ler é um nome insignificante. Uma terreola a meio de lugares realmente importantes. Depois do divórcio, porém, a placa toponímica com esta palavra passou a constituir uma rememoração dura, os portugueses e a sua língua uma gente mais distante e esquisita, aliás, todas as palavras assim analisadas fora do seu contexto uma treta inconsolável.
Mas agora tudo voltou ao seu poiso. A vilazinha deste município de Melthus (com um nome que em português significa ler) despoleta em si o desejo de escrever novos poemas. As palavras ostentam, verdadeiramente, um poder muito seu de chocar e de nos seduzir. Em Ler Ole escreve. Assinalamos, como prova deste facto, este haiku que leva a data de 3 de janeiro de 2018.
Arte do pouco. O mestre alumia versos de ouro.
Não pretendemos fatigar quem nos lê com aquilo que o motorista profissional Ole Henriksen rabiscou e que foi recopiando para cadernos progressivamente maiores e mais luxuosos. A confiança e a vaidade são aspetos que devemos relevar nos poetas, sobretudo nos que em circunstâncias dolorosas fazem parturir os seus versos.
É o caso.
Maio. Rosas bravas junto ao mar, rochas castas, húmidas.
Aveiro (Portugal), 19/05/2019
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Sangue e alcatrão. Três cerejas esmagadas, luta de pardais.
Guarda (Portugal), 20/05/2019
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A toutinegra no parapeito. Coração de mármore.
Malmö (Suécia), 06/06/2019
•
Este malmequer. Em torno do sol, leves, pétalas voam.
Costa frísia (Países Baixos), 21/06/2019
•
A borboleta. sobre o rosto da luz escrita pura.
Oslo, 06/07/2019
•
Noite de verão. O lume das paredes morde as costas.
Jaén (Espanha), 20/07/2019
•
Pancadas do sino. Às vezes o coração frio bate.
Sevilha (Espanha), 21/07/2019
Deixámos para o fim as derradeiras composições que pudemos ler, à pressa, à puridade, num acesso de curiosidade, numa das certamente poucas ocasiões em que as suas mãos se terão distraído e negligenciado o segredo num aparcamento, em Oppdal.
Valha-nos a amizade de longa data que sustentamos com Ole Henrikson e as nossas (incontroversas) melhores intenções literárias. Contamos, a despeito disso, com a melhor discrição dos nossos leitores.
«A fome veio para ficar» disse o padre Paolo Gentile, pondo os olhos muito longe, nos vitrais, na pomba do Espírito Santo, nos olhos atordoados dos apóstolos.
Na aldeia, os ricos tinham-se tornado remediados, os remediados pobres, os pobres em gente miserável. Tudo por culpa da chuva, da chuva que não havia modos de cair, dos campos transformados em camas de pó, das árvores secas, dos rios vazios… Tudo por culpa da ganância, dos açambarcadores poderosos, dos cruéis monopolistas que impunham os preços. Do pouco faziam muito e o muito do pouco engordava-os. Os monopolistas açambarcadores eram os únicos a dar-se bem com a fome, a lucrar com ela, a compreender verdadeiramente as homílias do padre. Eram os únicos a manter a contradição: por isso, tornavam-se mais intocavelmente inumanos, iguais aos próprios santos para onde Paolo Gentile dirigia o olhar cismoso e condoído.
Havia pessoas a precisar de massa, de arroz, ovos, carne, azeite, pessoas que pouco tempos antes doavam com facilidade massa, arroz, ovos, carne e azeite. Não se percebia bem como tinham tropeçado na desgraça, como tão depressa, tão meticulosamente, tão à vontade as havia castigado o destino.
O padre erguia ambos os braços em grandes gestos apelativos, lembrava Cristo, circumpunha exemplos pródigos de amor e de solidariedade pelo próximo. Repetia a máxima de São Columba de que «A roda da fortuna mexe tantas vezes e tão depressa que ninguém está a salvo do seu cirandar cruel». Contudo as esmolas eram iguais à terra gretada. Tocavam-lhes as mãos e logo desapareciam em farrapos polvorentos, grãos irrisórias de coisa nenhuma.
Em Sant’Angelo, a carestia foi enorme nesse tempo. Cozinhava-se algum peixe com algas uma vez por dia e não raro desenterrava-se tubérculos e raízes de arbustos. Usava-se ervas bravas e folhas de urtiga para suprir a falta de fruta e hortaliça. Os afortunadas que as encontrassem podiam apanhar bagas e amoras, se o sol as não havia crestado. E com elas almoçam ou jantavam.
No início do outono, o céu encheu-se de ódio e cobriu toda a ilha com nimbos. A chuva mergulhou sobre Forio, Casamicciola Terme, Ischia, Piano Liguori, Serrana Fontana, enxurrando em simultâneo terrenos agrícolas, veredas, baldios, canteiros e jardins. O ocre, o almagre, o grés, o amarelo do capim extenuado, transformaram-se em feios espelhos de água barrenta. Os silos, onde os agiotas guardavam com mil olhos e dez mil canos de espingarda o caviloso recheio de sua avarícia, não puderam impedir que a tempestade e o aluvião entrassem pelas frinchas, pelas janelas, pelos telhados varridos e encarquilhados, pelos umbrais sem porta.
De modo que então, sim, tudo se perdeu. E a fome, único poder legitimado, assenhoreou-se das almas cristãs como uma praga bíblica, como uma verdade, como uma paga violenta e irrespondível, com nenhuma, com toda a razão…
Durante a noite Emerenciano Castanheira voava. O corpo descobria-se livre e leve, abria os braços e punha-se a subir e a esvoaçar à volta da casa, cada vez mais depressa, cada vez mais alto, cada vez mais amplamente, em círculos, como um pássaro enlouquecido.
Era um sonho recorrente. Emerenciano via-se a encostar a escada de eucalipto à parede nascente, junto ao limoeiro, a trepar por ela até ao telhado, como se fosse limpar uma chaminé, e depois, empoleirado sobre uma das empenas, contemplado o casario ao redor, acontecia exatamente o que se disse atrás: Emerenciano batia os braços e voava.
A vertigem da ascensão compensava-a a vista: tudo tão pormenorizado, tão realista, tão coerente que não podia ser senão verdade: o defeito das telhas, a casota do cão lá em baixo, e o animalzinho com as patas de fora, os grandes postes de eletricidade com ninhos de cegonhas, a torre piramidal da igreja que afinal se parecia um quadrado cortado por um enorme X entre os ângulos, a copa dos grandes choupos e as veias averdiscadas dos arroios pelo meio da terra ocre, tudo coerente, realista, pormenorizado, até chegar ao branco das nuvens e aí se perder de susto, na confusão láctea do nevoeiro.
Quando despertava, Emerenciano Castanheiro sentia-se muito bem-disposto. Orgulhoso até. No final destes seus voos oníricos, a vida parecia-lhe outra, mais divina, mais sabedora de coisas indiscretas (nos sonhos, a sua visão de ave atingia amores clandestinos de mulheres casadas com moços da tropa, negócios proibidos de candongueiros de café e cigarros, roubos nos alambiques e nos lagares de azeite, até as lágrimas que as mulheres camponesas engoliam, quando triplamente vergadas pela condição de género, do trabalho, de mães pobres). Do alto apanha-se tudo e os braços valentes e os olhos acutilantes de que Emerenciano Castanheira dispunha eram armas nada despiciendas. Numa palavra, sentia-se um explorador.
Admitamos que um felizardo, também. Quantos de nós não gostaríamos de, no despudor dos sonhos, ampliada pela lente destes voos, termos da vida e da vizinhança uma visão tão certa?
Felizmente, Emerenciano era ajuizado e discretíssimo. As palavras precisam de um travão e ele sabia-o. O que à sua cabeça vinha na sua cabeça ficava. Era melhor assim. Muito melhor!
Meter lenha na fornalha era, em todo o caso, o melhor que tinha a fazer. Enquanto os filhos discutiam, o ancião enfiava gravetos e cavacos pela portinhola do fogão e dava um jeito às costas para que quando o calorzinho as encontrasse as pudesse aquecer com outro cuidado.
Mas o que discutiam os filhos?
Justamente o que fazer consigo. E não era fácil. Viviam todos em lugares muito separados entre si, cada qual com a sua ranchada de miúdos, cada um a contas com a vidinha respetiva. E deve fazer-se bem as contas, oh se se deve! Falecida e enterrada a mãe, estando todos ali reunidos, a oportunidade era de ouro.
Quem tomaria conta do velho?
Nenhum dos oito rapazes, nem sequer a rapariga mostrou interesse, paciência ou disponibilidade para ficar com ele ou levá-lo para longe.
O velhote escutava absorto. Era mister que se começasse com os preparativos da Quadra: a casa precisava de ser limpa; ele mesmo iria com a tesoura da poda cortar os ramos de gilbardeira e fazer com eles a vassoura e varrer com ela a fuligem incrustada nas telhas. Era tempo de lavar com sabão as panelas de ferro, tirar do sal as peças de carne, tirar do serrim as uvas guardadas em setembro, tirar das arcas o linho e as pratas. Era mister que se preparasse o presépio e os quartos e essa comprida mesa onde se haveria de sentar a multidão de filhos, noras e netos que haveriam de partilhar a noite de Consoada.
O frio punha-lhe os ouvidos em riste: a gritaria batia-lhe nos tímpanos como lâminas de gelo. Porque discutiam aqueles rapazes? Aquela moça tão boa, tão igual à mãe, tão parecida com essa mulher que em quase três das quatro partes do século foi a sua?
Em todo o caso, o melhor era manter vivo o lume, esquecer as misérias do mundo, trazer de volta os gestos de antigamente – aqueles de que se alimenta genuinamente um homem. As costas e os pés esquentados são um consolo para o qual não existem palavras…
Sim, quem tomaria conta do velho?
Verdade seja dita: já poucos hoje acreditam em milagres de Natal.
Em Albitreccia, a meio do vilarejo, numa colina sobre o bosque, ergue-se como uma ilhota de pedra a pequena igreja medieval. Ou o que dela sobrou.
Os séculos despiram-na impiedosamente. Primeiro dos sinos e do ouro litúrgico, depois das imagens ricamente esculpidas em cedro e dos frescos, por fim dos vitrais e dos telhados, das portas e da pia batismal. Os lavradores chegaram a usá-la para guardarem as reses. Agora nem os vadios ali querem entrar. É só um amontoado de granito e tábuas mal pregadas, dispersas pelo chão barrento.
Um professor estrangeiro afirma que na pedra do tímpano, em letras quase apagadas, se lê que foi consagrada no ano de 701 a Santa Luzia de Siracusa. Com efeito, muitos são aqueles que, saindo ou entrando no bosque nos últimos dias de outono ali veem luzes misteriosas. Falam em centenas de velas acesas, ardendo no meio da solidão.
Os céticos admitem que a lua cheia, reluzindo em folhas húmidas da carvalho, criam esse revérbero magnífico. Especialmente quando as neblinas não ocultam inteiramente a paisagem e ampliam o efeito ótico.
Muitos são aqueles que creem que os mortos ali rezam de novo, uma vez por ano, não sabem se sabe se pela sua, se pela nossa salvação.
No centro da cidade, no lugar que tinha sido uma floresta de amieiros no tempo dos celtas, fizeram os romanos nascer um grande jardim de figueiras. Acredita-se que em homenagem à deusa Pomona, ou como lembrança da Figueira Ruminal do Capitólio. Outros, porém (versão mais crível), asseguram que os soldados de Sulpício Galba plantaram ali um bosque de carvalhos-brancos, evocativo daquele outro bosque em que moravam as dríades querquetulanas, em Roma, junto à muralha de Sérvio.
Esse carvalhal sagrado existia ainda no tempo do visigodos, porque (um cronista contemporâneo de Santo Isidoro declara-o) “com madeira de um roble dos antigos pagãos construíram a Hermenegildo o féretro, encimado por uma grande cruz esculpida, por amor da qual mandou Leovigildo, seu pai, cortar-lhe a cabeça. E a inumeráveis outros godos mártires deram a morte e os enterraram com lenhos trazidos da mesma mata”.
Uma centúria se passou, ou pouco mais. Os omíadas de Tárique subiram de África, passaram a fio de espada o rei Rodrigo, trucidaram sem piedade os nazarenos que lhes faziam frente, pilharam e incendiaram vilarelhos, escravizaram servos e senhores das cidades da sua conquista, e aos poucos, num vagar de séculos, levantaram do solo carbonizado e ensanguentado planícies magníficas de amendoeiras.
Com elas branquejou a paisagem muito tempo, até Alfonso, filho de Urraca, imperador da Hispânia, ordenar que fossem arrancadas todas essas árvores e, para melhor purgação dos vestígios islâmicos, abrissem no lugar onde elas frutificavam os caboucos de um mosteiro cisterciense. Quis o destino que os monges de S. Roberto cultivassem nos seus vergéis e bosquedos toda a espécie de plantas e ervas e árvores. Um deles, Frei Juan de Zamora, lendo muitas vezes cartapácios de antanho com cronicões e memórias preciosas, meditando amiúde sobre os desígnios do Senhor, tão esquecido da barbárie humana, sugeriu que no centro do claustro, a ladear o belo repuxo de águas cristalinas, plantassem cinco romãzeiras.
Assim fizeram e ainda hoje, no lugar que foi de amieiros, figueiras, carvalhos e amendoeiras, vermelheja, tantas quantos os dedos de uma mão, as cinco árvores do romeiral. Uns afirmam que em louvor das cinco chagas de Cristo. Outros, porém (tese erudita, menos defensável), asseveram que para homenagear todo o sangue inocente, derramado em dois milénios de terrível predação.
O desespero levou Bartinik Sendecki, na manhã do vigésimo nono aniversário, a procurar certo tijolo esburacado onde escondia uma anacrónica Tokarev TT 30. Não pôde retirá-la de dentro da peúga sem estremecer: ao fim e ao cabo, uma arma – qualquer que seja a sua forma origem, a sua idade, a sua forma de matar, é um objeto incerto e um teste ao livre-arbítrio.
Cansado, doente, sem dinheiro, vítima do azar, da solidão, de si mesmo (aos poucos começava a odiar-se com fanatismo), Sendecki dispunha de um recurso inestimável: o poder de fogo de uma pistola que andara no coldre do bisavô durante a Segunda Grande Guerra e que desaparecia e reaparecia agora a cada vinte anos, à medida que mudava de casa e de mãos e que por uma ou por outra razão, era preciso ocultá-la das rusgas da polícia.
O que fazer?
Sendecki imaginou todos os cenários: suicidar-se, assaltar um banco, penhorá-la. O desespero, embora seja bastante dramático. Abandonou o apartamentozinho decrépito na Wawrzyszew disposto a mudar alguma coisa, a cometer um ato, a avançar nalguma direção.
Tinha fome. Para sermos rigorosos, não comia em condições desde que lhe comera um prato de Żurek cinco dias antes. Quando cruzou a terceira esquina, na Sándora Petöfiego, em direção ao Parque Wyspa, deteve-se diante de uma furgoneta amarela e azul. Era um dos milhares de negócios ambulantes de Varsóvia. Vendia cachorros quentes e sodas. O cheiro das salsichas aquecidas, embrulhadas em molho e pão, tão perto das suas narinas e da sua boca embruteceu-o.
Decidiu roubar ali mesmo o primeiro instante da sua nova vida. O que tinha a perder?
Mas não foi capaz. A rapariga, de um louro fulvo e sedoso, Anna Gralówna, sorriu-lhe com enorme simpatia. Tinham sido colegas de carteira na escola preparatória, tinham fumado juntos um dos primeiros cigarros, tinham dados beijos e trocado carícias.
«Há quanto tempo, Bart!» foi o que conseguiu escutar, antes de cair de borco no cimento duro.
Nada mais terrivelmente humilhante do que confessar a imprudente tristeza de não ter que comer. Anna fez questão de lhe segurar o cachorro nas mãos, enquanto disfarçadamente secava as lágrimas com as costas da mão. «Bartinik Sendecki, temos muito que conversar. Temos sim, meu menino!»
No interior do bolso, a Tokarev pouco pesava. Muda e cheia de vergonha, esforçava-se por se manter quieta. Muito mudados estavam os tempos na Polónia. Limitar-se a ficar oculta, como uma mentira precocemente inutilizada. Se isto era coisa que se fizesse a uma filha da Revolução! Se era!