Foto: Przemyslaw Chola

Viu a jovem instrutora de fitness a discursar diante de uma multidão apoteótica. A beleza do corpo aliada à bela escolha de palavras e, sobretudo, à forma bela como unia os seus gestos repletos de graciosidade e de sinceridade desconcertou-o.

Sempre imaginara as pessoas intelectuais como rostos cavados e cinzentos, corpos curvados e bamboleantes. E sempre olhara as pessoas que cultivam o corpo como cérebros ocos e fúteis. A jovem deixou-o desgraçadamente preso. Ele, um homem do poder, pensou imediatamente em colher o dia.

Quando ao cabo de alguns dias de ensaio, lhe dirigiu sem pudor um convite, ela recusou-o. Ele recompôs-se da desfeita, concitou os nervos a um leque de frases ambíguas, de promessa e de ameaça, e insistiu. A jovem voltou a rechaçá-lo, enojada. Tinha marido, tinha princípios, tinha a juventude. Ele, velho porco, na qualidade de dirigente do partido, de pai de família e de avô, de líder carismático, deveria ter juízo, deveria acima de tudo ter respeito.

O assunto foi sempre um não-assunto. Quando a despediram do ginásio e quando, com muita pena, prescindiram dos serviços do marido no escritório de advogados, também foi um não-assunto. Os não-assuntos são, de resto, terríveis no nosso país, onde tudo o que vem à boca não passa de saliva e às vezes um pouco de raiva, também.