Cada poema é um Big-Ban prodigioso

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Fotografia de NASA

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«Só nos meus poemas encontro morada» escreveu Jan Jacob Slauerhoff. Cito-o por não precisar de outras palavras para dizer exatamente o mesmo, por comodidade portanto. Mas por defesa também, para não me servir de argumentos mais terríveis para justificar a franciscana fortuna que juntei em quase quatro década de vida. Aos muitos que se queixam do amor e de uma cabana oponho eu a miséria ainda maior de não possuir nem uma coisa nem outra. Porque esta servidão (ocorreu-me o último título de Herberto Helder) o é no sentido pleno da palavra servir. Servir a poesia é, em última análise, nascer, viver e morrer com a poesia, ao lado, para ela e por causa dela… Servidão sem renúncia, sem protesto, sem arrependimento, servidão que torna tudo o mais secundário, incompleto ou incompreensível.

Mas moro também na poesia dos outros. Na sageza dos truques de linguagem. Na metáfora que o tempo lavou ‒ como a um espelho ‒ com sais e sabão. No ímpeto e jactância de uma estrofe, que ao passar por nós ‒ pela nossa língua ‒ levanta as pequenas chamas vacilantes e acaba incendiando-nos os olhos por dentro. No brilho intenso de uma imagem original, pura e espontânea, como o movimento de um abelhão ao deparar-se com canteiro de amores-perfeitos que salpica o lado de fora da nossa janela. Moro na poesia com a paz e o desprendimento de um santo eremita, de um sem-abrigo, de um louco, que no final de cada dia regressa ao seu tugúrio, à sua manta, à sua cela silenciosa. E que consolo habitar o miolo dos livros! Degustar com frenesi o cheiro a papel reciclado, como o das revistas do Tio Patinhas, o aroma da celulose, o odor perfeito do papel novo, semiplastificado, como o dos baralhos de cartas ou dos manuais escolares, acabados de estrear. E que prazer manusear antigos cadernos de sebenta, guardanapos, meias folhas aproveitadas, velhas agendas, cartões e panfletos já esquecidos, com versos, rasuras, anotações e correções feitas com a caneta de aparo, surpreendentemente lúcidos, agradavelmente melódicos, imageticamente vivos… 

E é por isso que troquei sempre o Audi pela poesia de Homero, Camões, Whitman e Pessoa. Foi também por essa razão que hipotequei a casa, salvando somente os volumes de Arquíloco, Catulo, Dante, Baudelaire, Eliot, Breton, Celan, Miłozs, Tranströmer, Al Berto. E esqueci-me da data do nosso casamento, quando às tantas acabava numa mesa de café uma longa respiração, como as que Ruy Belo me ensinou, lidas em voz alta por Luís Miguel Cintra, junto ao mar, em tardes de inverno, quando as finanças, os altares, as multidões, os ruídos todos me angustiavam de uma forma que jamais conseguirei explicar-te. Troquei-te por Safo, por Emily Dickinson, por Akhmátova, por Sylvia Plath, por Sophia, por Fiama, por Elaine Feinstein, por Wisława Szymborska. E tu nunca me perdoaste. E eu nunca procurei o teu perdão. E tu decidiste, como outros faziam no óstraco, condenar-me ao pior dos exílios, que é e há de ser sempre o do desprezo. 

Não tenho emenda. Não há remédio para isto. Nenhuma solução. Divorciei-me deste tempo, divorciado ele mesmo da poesia. Divorciado ele próprio da função principal do tempo, que é o de cavar crateras na nossa memória, como as da lua, onde acolhêssemos como a luz dos charcos os dias limpos, onde acolhêssemos como a lama dos charcos os turvos redemoinhos dos remorsos e do sofrimento. Divorciei-me deste tempo que não entende de espiritualidade, que se tornou belo e artificial como os antigos bezerros de ouro, artificial e belo como as frases ocas que leio todos os dias em todos os lugares e na boca das pessoas que me não entendem. Não tenho emenda. Sou viciado na pior das anfetaminas, no puro ecstasy das palavras que são música, religião e verdade. Sou viciado em POIESIS! 

Mas mais do que isso. Sou viciado numa certa forma de querer existir. Sou viciado na preferência pelo profundo e pelo complexo, pelo subtil e pelo difícil, pelo que é ineficaz, imprestável e impagável, pelo que às vezes é vão e muitas vezes é efémero. Viciado por exemplo numa fuga de Bach ou numa elegia de Eleni Karaindrou, por oposição a todo o que é forró, pimba ou kitsch. Viciado por exemplo num bom filme de Fellini ou de Antonioni, de Wim Wenders ou de Alexander Payne, em troca dos quais mandaria incinerar todas as telenovelas da TVI. Viciado numa boa ópera de Mozart ou de Rossini, numa boa peça de Ibsen ou de Brecht (nem falo dos muito amados e adorados helénicos), numa boa conversa sobre antropologia ou astrofísica, viciado num bom café, amante dos melhores Cohiba, apreciador de uma reserva de Mouchão, naquela mousse de manga especialmente cremosa, nesse pudim de limão que apenas uma pessoa sabe fazer.

Ser viciado em poesia é o diabo! Habituamo-nos a luxos incomensuráveis, incontornáveis, irremediáveis, aos quais votamos não apenas a gula do instante, como sobretudo as epifanias que valem versos e uma eternidade (pelo menos o desejo de uma eternidade no prolongamento do nosso olhar). Ser viciado em poesia (que o são também aqueles que escrevem equações ou partituras, aqueles que modelam cerâmica ou coreografam pulsões) é uma porta aberta para o princípio, para o reconhecimento de que nos nossos gestos (nos mais ínfimos e risíveis) se repete o começo do cosmos, o movimento inicial, vital, verbal que acelera as veias e nos torna senhores da nossa própria ausência. 

Milhões de páginas foram escritas sobre o mesmo assunto, em centenas de línguas, em milhares de universidades, mais objetiva ou mais subjetivamente. Do que dela disseram Aristóteles, Horácio, Wordsworh, Edgar Alan Poe, Derrida, Octavio Paz, João Cabral de Melo Neto, Bloom, George Steiner se fizeram códices e volumes imensos. Pura repetição! Ainda ecoam nas paredes da minha cabeça as frases eruditas com Ruy Belo procura agadanhar Na Senda da Poesia (1969) os grandes filões desta arte, que é religião e mito, ilusionismo e música, ciência e pão, amor e morte. 

Cada poema (conforme deixei escrito em certo apontamento de 1998) é uma reedição do universo, cada um é a busca de uma ordem no caos permanente, a crença num lugar eterno como se crê num qualquer ponto abstrato, no movimento de cá para lá e de lá para cá do pêndulo. 

O dito apontamento, escrito em caligrafia descuidada, provavelmente embriagada pela recente leitura de Gilles Deleuze, num caderno muito sujo pela cinza dos cigarros, não é grande coisa, admito. Gostava de filosofar, de tentar dizer por palavras minhas o que outros haviam porventura escrito com solene profundidade. Mas ficou aí o meu Credo, lídima profissão de fé, que o tempo não viria senão a corroborar: 

«Nada em poesia é inócuo ou arbitrário. Nem sequer o silêncio que intervala as palavras, e as intervala entre o instante e o infinito. Nem sequer o modo como um homem ou uma mulher decidem viver para melhor a segregarem, como o fazem e o fizeram as límpidas abelhas de todos os tempos. Nada em poesia é inocente. Cada poema é um Big-Bang prodigioso. Somos poesia e à poesia havemos de tornar, não no fim, mas outra vez e sempre no princípio.»

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Cada um de nós viaja para o lugar de todos

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Helmut Newton_young woman
Fotografia de Helmut Newton

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No preciso instante em que o autor destas palavras escreve a vírgula à direita, zarpa em direção a um ponto cada vez mais minguado no horizonte um batelão. Nele vai um moço de quem me afeiçoei nos últimos anos, moço generoso, antigo aspirante a um posto na Marinha, com ideias próprias, porém com um desgosto a morder-lhe o coração desde que em Itália, num bordel, conheceu uma dessas mulheres fatais, sicilianas, mistura de sangue latino e mourisco, capazes, como o próprio diabo, de roubar-nos a alma indefesa e de elevar-nos à condição imerecida de mártires. 

‒ Pois então o senhor fala-me de amor? 

‒ Eu falo sempre de amor, meu caro jovem. 

‒ O senhor começa a parecer um poeta… 

‒ E tu começas a parecer-me um bom ouvinte! 

‒ Bem, o senhor diz as coisas de um modo… 

‒ A mim só me interessa perguntar e nunca dar respostas ou ter certezas… 

Lisboa ofende-se facilmente com as opiniões de um velho. Não digo toda a Lisboa, não pelo menos a que atraca aqui, neste antro de gente de mar e rio sem nome, sem passado, sem destino certo. Gente que vem beber aguardente e cismar ao pôr-do-sol, estivadores corruptos, marujos desencaminhados, antigos pescadores de olhos baços, com medo da saudade do mar. 

Uma tarde o moço sentou-se no outro lado da mesa. Vinha bêbado já. A conversa durou menos do que um braço-de-ferro contra um maricas. 

‒ Você aí, com esse ar de intelectual. Está-me a foder a paciência… 

Não respondi. Não foi preciso. Puseram-no imediatamente na rua a pontapé. Meia dúzia de chapadas depois, o moço voltou para pedir desculpa. Mas estava tão bêbado que se pôs a chorar. Chegara de Messina havia três semanas. 

‒ Deixei de acreditar nas pessoas… 

‒ Isso não é uma doença, meu amigo. Isso é a cura! 

No coração do próprio universo, nas cordas incandescentes dos triliões de sóis sobre as nossas cabeças e debaixo dos nossos pés há sempre o rosto de uma mulher. Que ela possa incendiar-nos de alto a baixo, em profundidade, para sempre é coisa que não me surpreende. Sou já tão cheio de idade que todas as histórias diferentes me parecem aos poucos a mesma história. 

À minha frente, caído numa ridícula prostração de macho abatido, um desgraçado ensarilha-me na sua história. Escuto-a sem pressa, sem perturbação, sem surpresa, com os seus ziguezagues, com os seus parênteses, com as suas heroicas fanfarronices: uma mulher de beleza inigualável, o ciúme, a promessa de vingança, o ajuste de contas, facas, um tipo no chão (ou dois), uma fuga precipitada até a um cais sórdido, depois o tribunal marcial e o castigo, a expulsão, e agora somente a rememoração de lençóis interditos, somente o macho com cio e com saudade… 

‒ Nunca mais tive paz… 

‒ Nada do que contas é assim tão extraordinário, meu rapaz… 

‒ O que mais me dói é a falta que me faz o perfume dela. 

‒ O perfume? 

‒ O cheiro do corpo. Não conheci outro paraíso até hoje. Um homem aninha-se nele e deseja morrer assim, como se estivesse a nascer outra vez. Mas o senhor não ia entender isto, nem que lho explicasse mil vezes… 

Tão néscio és, meu caro jovem. As regras do amor são eternas. Valem tanto hoje como no tempo de Cleópatra. Tão verdadeiras neste instante como no dia em que o primeiro marinheiro fugiu da Sicília, amaldiçoado pela peste. Como se um homem chegado a esta idade, como se este corpo mirrado não tivessem conhecido a mesma inexplicável sedução que te faz enlouquecer no interior da tua própria masmorra. Como se o amor, girando eternamente na mesma calha em espiral não fosse o ADN da espécie. 

Passaram-se entretanto três anos. No preciso instante em que escrevo estas palavras já o batelão se dissipou com o nevoeiro dourado do horizonte. Duas vezes por semana nos reencontramos. Às vezes a aguardente é toda a linguagem que temos em comum. Às vezes, como um relâmpago inesperado de verão, tu recomeças a litania. 

‒ Pois então o senhor fala-me de amor? Por uma puta? 

‒ Falo de amor, meu caro. Falo do teu amor!

‒ Sabe lá o que é o amor! 

Com nostalgia leio nos teus olhos a nostalgia. Há sempre o rosto de uma mulher. Essa mulher que te consome as entranhas. Olhos negros como corredores mal alumiados e perigosos, a pele macia e perfumada, os seios duros. A mesma labareda que um dia nos lambe o coração virgem e nos abandona, em cinzas, nus, expostos, à miséria de sobreviver-lhe e de lhe acalentar a memória. 

‒ O cheiro do corpo dela… É dele que me recordo todos os dias… 

Leio nos teus olhos a nostalgia, a impotência e o ciúme e a loucura de três anos de distância, três anos de homens possuindo-lhe o corpo, três anos de álcoois e peixe frito, três anos em que tornaste num igual a estes farrapos que aqui entre semeiam os crimes de saguão, a desobediência militar, o contrabando, a vingança… 

‒ Um homem aninha-se nele e quer morrer assim, como se estivesse a nascer outra vez… Não ia entender nem que lho explicasse mil vezes.

‒ Estou certo, meu amigo, que somos o movimento oposto das árvores. Dos ramos crescemos para as raízes… Com o passar do tempo cada um de nós viaja para o lugar de todos. Esse lugar, essa terra quente e apaziguada, espera-me há muito. O nevoeiro vem chegando, penetrando cada vez mais os meus ossos. Mas tu és jovem. Tu ainda podes tudo. Tens de lancetar essa ferida terrível e tresloucada.

‒ Deixei de acreditar nas pessoas.

‒ Basta! 

Conheço uma só forma de curar o mal do amor. Que é multiplicá-lo! 

No preciso instante em que anoto estas últimas palavras, regozija-te, meu caro amigo. Todos os meus pertences couberam numa caixa, numa chave. Leva-la contigo, sem compreender. A italiana, posso corrobora-lo é ainda muito bela. Bom trabalho me deu encontrá-la, trazê-la, instalá-la, deixá-la de presente a quem precisa de fé. O tempo ensinou-me a errar todos os caminhos para encontrar apenas um. A mim nunca me importaram as respostas ou as certezas. Sou um homem descrente. Mas por uma vez desejo não ter-me enganado. 

‒ Um homem aninha-se nele e quer morrer assim, como se estivesse a nascer outra vez.

Não precisas sequer de explicá-lo, meu bom amigo. As regras do amor são eternas. Eternas! Não ias entendê-lo agora, nem que to explicasse mil vezes.

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O dia em que me ensinaste a voar

Jay Satriani
Fotografia de Jay Satriani

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Foi há tanto tempo que começo a duvidar se esse dia realmente existiu, avô. A memória das coisas e a memória dos sonhos às vezes flutuam tão perto que deixamos de as distinguir. Queria ser igualzinho a ti. Usar uma bengala, como a tua bengala. Segurar na cabeça uma boina de feltro escuro, como a tua boina de feltro. Sentir cruzados nas costas uns suspensórios como os teus. Ser igualzinho a ti. Rir como tu rias, caminhar devagar como tu caminhavas, puxar de uma escada e subir a uma macieira, como tu fazias. Ir à algibeira e puxar de uma navalha de osso, como a tua navalha; cortar a maçã em pedaços e comê-la com os olhos postos no infinito, como tu fazias com os olhos, quando comias uma maçã e te sentavas na soleira da porta, esperando que o sol acabasse a sua volta e te viesse sorrateiramente a noite. Foi há tanto tempo, avô, que principio a desconfiar da minha cabeça e, sobretudo, do meu coração traiçoeiro… 

Lá chegou o dia em que te confessei esse devaneio. Tinha tantos… Tu sorrias. Tão devagar que o sorriso, como a luz da tarde, parecia de gesso e sem fim. Tu sorrias, como se de lá de muito longe (da tua própria infância), te acenasse um miúdo igual a mim… Como se lá do arrebol doutro século, amparado por um velho igual a ti, te acenasse a vaga recordação de um sonho igual ao meu sonho. Tinha tantos, avô… Escutavas sempre com ternura infinita, mesmo quando te contei esse meu sonho de querer ter umas asas e voar. Mesmo se me ralhasses por trepar aos bardos e às arvores e aos telhados. Porque eu queria voar. Porque eu queria parecer-me com os pássaros e estudar o azul. Porque eu queria conhecer as coisas como as conhece o vento quando ergue em torvelinho o pó e nos tomba o cavalo de pau… E tu sorrias, sorrias com esse sorriso belo de quem compreende os sonhos sem os manchar com a ironia ou o sarcasmo. Tu sorrias como se sorri ao sol, quando as tardes demoram e nos espera uma noite em solidão. E isso é o ofício sagrado dos avós. E essas são as tardes mais infinitas que nos ficam, mesmo quando a memória começa a duvidar de si mesma e as horas se parecem mais curtas do que as horas de antigamente e o sorriso mais doente e a soleira mais estreita e os sonhos mais impossíveis… 

‒ Pois tu queres voar, meu filho? 

‒ Pois quero! 

Queria ser igualzinho a ti. Vestir como tu camisas de flanela. Fumar como tu maços de Definitivos. Usar como tu, à cintura, uma tesoura da poda e ir indo pelo meio dos campos aparando e limpando os ramos, contemplando o milagre das estações sucessivas, esperando que o tempo cumprisse a sua palavra e te levasse em paz… Igualzinho a ti. 

‒ E se te fizesse um papagaio de papel para aprenderes a subir ao céu? 

‒ Eia, isso queria eu! 

E seguir, confiar, agasalhar-me na sabedoria dos teus gestos. Ver-te juntar numa mesa cartão e cola, sisal e paus descamados de giesta. Ver-te com decisão erguer um trapézio, enquanto me bebias o espanto e semeavas em mim esse amor que abre brechas nas paredes densas da morte. 

‒ Pois tu queres voar, meu filho? 

‒ Pois quero! 

Foi há tanto tempo, avô! Custa acreditar há quanto já. Ainda os outeiros tinham a magia dos outeiros. Ainda os dentes de leão vogavam sem medo, roçagando-se suavemente na nossa boca. Ainda o azul que os pássaros bebem se podia olhar no espelho límpido dos charcos escavados pelas chuvas de março. Ainda a terra era livre e perfumada. Ainda os dias eram perfeitos na sua dádiva de poesia. 

‒ E se segurasses neste novelo para eu te explicar como se faz? 

‒ Eia, isso queria eu! 

E és tu, velho trôpego, és tu quem me vem à cabeça, tu, devorado pela artrose, consumido pelas dores (quantas vezes me comovo ao lembrá-lo), és tu quem eu vejo ainda correndo, mancando, gemendo sobre as ervas, falseando ridiculamente os passos, para que esse mágico losango de cartão pudesse ascender ao lugar dos sonhos, para que eu pudesse aprender sozinho a arte dolorosa de acreditar… 

Não sei por que me recordo agora de tudo isto. 

‒ Pois tu queres voar, meu filho? 

‒ Pois quero! 

Nem porque se tornou cega a luz azul de março. Nem porque se tornou seca a cratera dos charcos. Nem porque se tornaram tão pesadas as asas do amor que me ensinaste. Nem porque deixei de saber erguer ao alto, como um pedaço de mim, como uma extensão de mim, esse trapézio de cartão, preso a um novelo de sisal. Foi há tanto tempo que começo a duvidar se esse dia realmente existiu. Perdoa, avô! 

‒ E se hoje fizéssemos um corrupio? 

‒ Eia, isso queria eu! 

Nem porque não sei sair correndo como tu, a mancar, suportando as dores, para que as pás coloridas de uma pequena ventoinha pudessem, como os pequenos pardais distraídos da primavera, que depois de curados tu soltavas, acreditar e voar. Porque isso era o meu sonho. E não sei (o tempo tem destas coisas) como fui capaz de o esquecer…

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Uma maçã

S. J. Carter - Apple
Fotografia de S. J. Carter

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Houve um momento na minha vida em que as expressões «cirurgia», «recobro», «cuidados intensivos», «cateter», «convulsão», «estável» e outras afins foram estranhamente próximas. Estava desempregado, mas isso não era importante. A minha namorada quis acabar tudo: eu esqueci-lhe o nome num mês.

Lembro-me é do hospital. Das zonas húmidas. Dos cheiros seguindo-nos pelo corredor como fantasmas. Das janelas gradeadas abrindo para um jardim inculto, onde gatos tristes miavam para nós com infinita tristeza. Lembro-me dos botões do elevador, das dedadas no espelho, dos restos de fita-cola onde antes teria existido um AVISO da administração. Lembro-me finalmente dos maxilares, que me doíam ao aproximar-me do quarto onde o meu pai convalescia. Lembro-me do odor intenso a cremes gordurosos, a emplastros e compressas, a óleos e loções usados na enfermaria da secção de Cirurgia Plástica. Esses cheiros ainda hoje os sinto, como sonhos complexos transbordados dalgum depósito da minha memória.

As mais das vezes sentia-me só, desamparado, alvo desse cruzar de rostos que é como o entrechocar de pedras no espaço. Sentia-me só. Desamparado. As árvores lá fora continuavam árvores, os aviões os mesmos aviões riscando o céu, a cidade a mesma cidade. E, porém, eu sentia-me profundamente desamparado e tudo era diferente, como se as árvores fossem outras árvores, os aviões outros aviões, a cidade uma estranha paisagem insuflável, tremendo debaixo dos meus olhos.

Vivida na primeira pessoa, alimentada pelo nosso coração, uma história é realmente HISTÓRIA. E, tal como sucede a uma povoação dizimada por um terramoto, por uma tempestade, por um incêndio descomunal, a minha história era já uma vida nova a recomeçar, enxertada numa existência em ruínas.

Aconteceu-me ser surpreendido um par de vezes por circunstâncias ainda mais extraordinárias do que as que vivia já ‒ até no decurso de um cataclismo se pode alcançar uma certa normalidade. Aconteceu ser surpreendido pelo lugar vazio onde esperava ver um doente abatido e traumatizado. «Complicações» é o nome que se costuma dar a este tipo de surpresas. Nunca as visitas chegam a perceber bem as causas e os efeitos imediatos das ditas «complicações», nem o que nelas há de incúria e incompetência dos serviços hospitalares, que se defendem e escondem num emaranhado vocabular, repleto de tecnicismos e impessoalidade. As visitas compreendem apenas a gravidade das coisas com duas singelas, cruas, desumanizadas frases:

‒ Sinto muito! Houve uma complicação!

Habituei-me ao vagar das horas. Ao desfilar dos pijamas e dos adesivos em cruz. Ao ar zangado das batas brancas. Ao ar insosso dos tabuleiros com massa e ervilhas. Aos gatos tristes lambendo-se entre os arbustos feios. À luz fria das ambulâncias. Habituei-me à solidão das máquinas de café. Ao desamparo dos grandes relógios do corredor. Às viagens de cá para lá na autoestrada sombria.

Havia uma médica bonita. A única boa impressão daquele lugar naquele tempo era os olhos rasgados da médica anestesista. Havia um banco comprido, de madeira, anacrónico, no meio do corredor. Uma ou outra vez nos sentámos juntos para o «ponto de situação». Era uma médica metódica, incapaz de multiplicar palavras acessórias. Para exemplificar e ilustrar o que dizia socorria-se de um bloco de notas, onde desenhava órgãos e sistemas e metabolismos e crises, com setas e sinais de movimento, como se veem nos manuais de Medicina. Tratou-se sempre por «você», embora não existisse entre nós diferença de idade. Tratou-se sempre por «você», mesmo sem ter usado a palavra «você» uma única vez. Quando pretendia conversar comigo mais a sério pedia a uma enfermeira que chamassem «o filho». Abria a porta do seu gabinete com um sorriso formal, forçado, diplomático; fazia com a mão o sinal do «entre», do «sente-se», do «oiça-me, se faz favor». Começava sempre (começou sempre) por um «receio não ter boas notícias». Lembro-me que o desamparo era maior junto da médica bonita. Lembro-me de a minha cabeça vogar à toa, aturdida pelos prefixos e sufixos atarraxados a palavras dolorosas, meio enigmáticas, totalmente desconhecidas… Lembro-me de pesquisar, de ver dia após dia dissiparem-se os últimos farrapos de inocência. Vivida na primeira pessoa, alimentada pelo desespero, todas as histórias se tornam cicatrizes, cicatrizes indeléveis e imortais…

Certo dia, quando atirava a cabeça para dentro das mãos, como se atira uma bola de basquetebol, quando penava no mesmo banco anacrónico a meio do corredor, quando esperava que as lágrimas renunciassem ao ofício fácil de saírem da toca obscura, sentou-se na outra ponta um dos sujeitos de pijama e robe da ala norte. Olhei-o por entre os dedos, apanhado pelo desconforto da sua presença. Era um homem de meia-idade, como o meu pai. Um homem com um horroroso penso a meio da garganta, franzino, barba mal aparada, farripas desgovernadas e oleosas, olhar vazio, alma caída sobre uns chinelos comuns de quarto. Senti ímpetos opostos: levantar-me, ficar, cumprimentá-lo, esperar que fosse embora… Na verdade tinha uma vaga ideia do indivíduo. Alguém me dissera algo sobre ele não «bater bem da cabeça». Não pude confirmá-lo. O facto é que o nosso silêncio, o seu olhar vazio, o mútuo desconhecimento, o tê-lo na outra extremidade do mesmo banco curto e anacrónico tornava o instante demorado e embaraçoso. Inesperadamente ouvi estas palavras perfeitamente inesquecíveis:

‒ Não faz ideia das saudades que eu tenho de comer uma maçã!

Endireitei a cabeça. Julgo que o tronco também. Tenho a certeza que todo o meu ser (de alto a baixo) se endireitou. Considerei o homenzinho com surpresa, estupor, perplexidade. Considerei o curativo sobre a laringe, o olhar espetado contra a luz magra do outono, o robe de malha impregnado de todos os odores que faziam daquelas quatro paredes enormes um território devastador.

‒ Não pode comer maçãs?

‒ Pois não…

Seguiu-se um silêncio duplamente comovido. Infeliz.

‒ Pois não… Há dois meses e meio que não provo sólidos… tiraram-me um cancro… nem sequer fumava muito, sabe?… agora não posso comer coisas duras…

Licenciei-me em Línguas e Literaturas, venci prémios escolares e literários, fui aclamado em comícios políticos, assinei ensaios, fiz pós-graduações, dei aulas durante a centenas de alunos… Era ali, contudo, um osso lascado, um pedaço de tijolo, uma coisa inerte. Não pude erguer uma só palavra sábia, razoável, de conforto.

‒ Passo bem sem as outras coisas… mas das maçãs, não faz ideia! Sinto cá umas saudades de comer uma…

Nada pude dizer. Pela primeira vez na minha vida percebi na boca, na cabeça, nas entranhas, uma voragem de palavras e pensamentos. Incapaz de dizer, como hoje sou incapaz de calar: o homem, sempre com o mesmo olhar vazio, sempre com a mesma tristeza, leve como empalhado, levado pelo mesmo vento silencioso que o trouxe, foi-se afastando pelo corredor, passo lento, cada vez mais frágil, cada vez mais gravado na memória.

O meu pai regressou a casa após um mês e um dia de internamento. Do sujeito pouco pude apurar depois disto, sequer o nome, sequer o resultado da sua luta. Penso muitas vezes na maçã que lhe apetecia, na maçã que desprezamos dia após dia, enquanto nos distrai uma multidão de coisas inconfessavelmente estúpidas, superficiais, inúteis. E sei (há sempre uma lição, com sublinhado, no final das melhores histórias) que uma vida completamente nova irrompeu em mim, nascido em algum baldio da alma, vinda pela boca de algum anjo da guarda: quem sabe, quem sabe…

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Só para te agradecer, Vicente

Serban Mestecaneau
Fotografia de Serban Mestecaneau

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Gosto da tua maneira simples de pensar. Simples, clara, objetiva. Entras-nos pela vida dentro como um canalizador, trajando fato-macaco, com a mala das ferramentas na mão, verificando o problema, passando os dedos pela comissura da boca e, antes mesmo de haver a possibilidade de uma queixa, atirando a resposta.

‒ O teu problema, Zé Carlos, é que te metes sempre com miúdas… Estás a precisar de uma gaja a sério…

Peço-te para falares mais baixo. Há gente a olhar. O que não se dá hoje em dia por uma boa novela ao vivo e a cores? Mas tu ignoras os decibéis apropriados a uma intervenção de fundo em áreas tão sensíveis. Tu és mais de descarregar a ferramenta toda, de te pores à volta dos canos martelando-os com uma chave de fendas, franzindo o sobrolho a cada pancada seca, fazendo aquela careta de quem está prestes a dar com a ratada), tu és daqueles que não engonham, dos que têm sempre uma imensa certeza profissional.

‒  Meu amigo, isto é assim: ou mandas tu, ou mandam elas! Mulheres e carros são iguais: as novas trazem mais eletrónica, mas deixam-nos ficar mal em qualquer barranco… Já as velhas, pá; as velhas aguentam tudo! Até levar no…

‒ Caramba, homem! Fala mais baixo…

Sei que no fundo tens razão. Sei que no fundo sou um fraco. Quando me divorciei da Dulce as coisas pareceram-me o fim do mundo. Mas tu, qual anjo do Apocalipse, apareceste carregando uma trombeta dourada.

‒ Olha-me só este marmanjo! Só te falta chorar e pedir que te limpem os moncos!

A princípio odiei-te. Odiei-te como se odeia um inimigo. Quis esmurrar-te a cara. Tive ganas de exigir respeito. De marcar território. Mas sou no fim de contas um fraco. E tu tens o diabo do calão e os trejeitos de um cómico a teu favor. Falas das coisas como se passasses descalço pelas brasas sem te queimares. Sabes fazer-nos a caricatura sem maldade, mas com malícia.

‒ Meu amigo, isto é assim: as gajas são como as caldeiras de aquecimento. Primeiro avaria-se o radiador, depois a bomba de circulação. Quando dás por ela fodeu-se a centralina, depois a sonda da temperatura, por fim o acumulador… Por muito que queiras consertar a coisa, aquilo já não aquece. Mais te vale comprar uma nova! Entendes-me?

Sei que no fundo tens razão. As coisas não podem marcar-nos para sempre. Um indivíduo precisa de levantar a cabeça, entender-se consigo mesmo, rebuscar o sopro das coisas passadas, encarar o futuro, vencer… Mas eu sou daqueles que preciso de um empurrão. Sou daqueles que só lá vai com um pontapé no traseiro. E quando te peço a opinião já a conheço. Adivinho sempre o que dirás, mas preciso de escutar tudo. Preciso que fales grosso, que me agarres pelos colarinhos, me insultes, me ponhas em sentido.

‒ Mas porque te enfias tu na cama com essas tipas mimadas, pá? Nunca ouviste dizer que quem se deita com miúdos…

‒ Acorda molhado…

‒ Mijado, Zé Carlos! Acorda todo mijadinho, pá!

Conto-te as coisas, explico o desta vez, defendo-me. A voz às vezes treme, some-se. Quero falar grave, mas um soluço vem espreitar como a cabeça de uma lagartixa. E tu, que és um tipo impecável (tolo, mas impecável), lá me confidencias coisas que talvez sejam mentira…

‒ Pá, a Dulce está um caco! Dá-se mal com o outro gajo… Vi-a há duas semanas… Está um caco, pá!

Os amendoins custam mais a engolir. A cerveja parece ferver. Porcaria de cerveja. Fazem-na cada vez pior… E tu dás a estocada final.

‒ Sempre te digo que tipos como tu merecem o melhor! As gajas gostam de bater com a cabeça, pá… Problemas delas… Tu mereces melhor!

Nunca te disse isto. Mas preciso de dizer que te admiro! Nunca to disse, mas hoje vou dizê-lo. Mereces que to diga isto como se diz uma mariquice, como uma golfada de água límpida e abundante, vinda lá das entranhas da terra.

‒ És um tipo impecável, Vicente!

‒ Ora, deixa-te lá de coisas!… Então, pá? Que é isso?…

Porque a vida nos faz viajar quilómetros. Porque a vida nos empurra devagar e ao mesmo tempo depressa, como se empurra uma manada, para o centro do seu próprio labirinto. E um indivíduo acorda às vezes com a sensação de já não conhecer o caminho de volta.

‒ És um amigalhaço Vicente!…

‒ Está bem, está bem… Deixa-te de coisas, pá…

Porque às vezes acordamos com aquela sensação de habitarmos um inferno. E o inferno é (ou tem-me parecido), a alienação, o esquecimento, a perda. E quando sabemos exatamente o que vale ao todo a nossa existência ficamos a olhar do alto de um abismo a pequenez que nos coube em sorte.

E por isso gosto da tua maneira simples de pensar. Simples, clara, objetiva. Entrando-nos pela vida dentro sem tardar e sem filosofias, como um canalizador com a mala das ferramentas, mastigando o palito, confiando o bigode, sabendo antes mesmo de ver de ver o problema a solução.

‒ Precisas de uma mulher a sério, Zé Carlos!

‒ Preciso, Vicente! Preciso, sim!

Porque às vezes acordamos com aquela sensação de habitarmos um inferno. E mal podemos imaginar o anjo da guarda que, miraculosamente, algo ou alguém guardou para nós. Mal podemos imaginar… mal podemos…

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Sempre gostei das suítes de Bach

Norbert Maier
Fotografia de Norbert Maier

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Venho passear neste parque quando os dias, como sacos de gelo, pesam estranhamente sobre o corpo e o paralisam. Venho para estar só. Para não ter de olhar para o visor do telemóvel. Para não precisar de ir ao Facebook. Venho para escutar os meus passos na terra molhada. Para ler devagar os meus pensamentos, com a precisão de uma quiromante a inspecionar-nos as linhas enviesadas da mão. Às vezes venho com o cão, mas muitas mais atrelado apenas à minha sombra. Ultimamente é de silêncio que preciso. E de verdade. Preciso de vir para poder continuar a acreditar nessa coisa ampla, desconcertante e bela que é a vida. 

O parque é enorme. O maior da cidade. As árvores são quase todas centenárias. O lago a meio, que no verão se enche de turistas e de gansos selvagens, é neste mês uma espécie de espelho petrificado. Nele, como na cabeça de um velho, há memórias prisioneiras. E eu sinto os vidros boiar, quebrados por funcionários diligentes, a quem cabe impedir que os peixes morram lá em baixo, asfixiados e sombrios. O parque é uma clareira brutal entre os arranha-céus. Uma das minhas personagens inquieta-se. 

‒ Devia haver gente a fazer o mesmo às pessoas. A impedir que tetos e paredes frias, transparentes e intransponíveis as afastem umas das outras. A impedir que uma solidão irremediável as faça morrer sozinhas. Não acha? 

Respondo que sim. Que devia haver funcionários capazes do milagre de impedir que tetos e paredes de gelo construam solidão. Capazes de tratar das pessoas como se trata dos peixes neste lago! Respondo que uma terrível maldição se abateu sobre a mais inteligente das formas animais, a ponto de a destruir por dentro. A ponto de lhe apodrecer o coração, que é o mais valioso que as pessoas têm dentro de si. Respondo que sim. Respondo que andamos todos a falar de afetos com ciência, mas sem afeto. Respondo que os parques são lugares onde talvez pudéssemos todos aprender um pouco com o silêncio. E com ele chegar à verdade. E com ela chegar à razão por que festejamos as datas e nos entregamos a uma espécie de euforia coletiva quando as datas chegam e nos comportamos como se soubéssemos o que as datas celebram, sem sermos capazes daquilo que celebramos! 

Sempre gostei das suítes de Bach. Sempre gostei de me entregar ao devaneio matemático dessa obra-prima do século XVIII. Sempre gostei da paz e do amor que nelas transborda do homem e o religa às estrelas e às coisas mínimas. E é por isso que hoje caminho pelo parque com os headphones postos; com o cachecol embrulhado no pescoço; com as personagens partilhando as minhas luvas de pele, olhando o mesmo que eu, questionando o que há muito se tornou em mim uma insaciável interrogativa. 

‒ O que significa acreditar? 

Por estes dias a cidade converteu-se, como seria de prever, numa insaciável feira de cifrões, luzes e reclames natalícios, vagas insinuações de hinos de amor e promessas de paz, alusões à fé e à esperança na humanidade, tudo muito entremeado por produtos de alta tecnologia, roupa interior e marcas de vinho. 

‒ O que significa acreditar? 

A cidade converteu-se em filas irascíveis nos mercados, insultos nos parques de estacionamento, azedas obrigações familiares que o cartão de crédito atenua. 

‒ O que significa acreditar? 

Como os antigos santos afasto-me, refugio-me nos possíveis lugares de eremitério. Por exemplo neste parque enevoado e vazio. Por exemplo na escrita. Por exemplo em cada um dos seis movimentos (prelúdio, allemande, courante, sarabanda, galanteria, giga) das seis maravilhosas suítes que Johann Sebastian Bach compôs para violoncelo. Com elas me aproximo dessas vozes que dentro de mim rodopiam e me interrogam, me fazem abrir portas e janelas sobre os domínios obscuros da razão. 

‒ O que significa acreditar? 

‒ Não sei, porra! 

Como posso saber o que significa acreditar quando me ensinaram o verbo, tanto a propósito do puto nascido numa qualquer gruta ancestral da Palestina, como dos cimos do poder, dinheiro, conforto, supremacia, a que a humanidade se propôs desde sempre? 

‒ Não sei, porra! 

Venho passear neste parque quando os dias, como insuportáveis alucinações, me desgostam e me tornam vítima da pele que herdei. Quando, como hoje, desacredito profundamente na humanidade, na hipócrita humanidade que me ensinou a hipocrisia! Venho para estar só. Para não ter de olhar para o visor do telemóvel. Para não precisar de ir ao Facebook. Venho para dizer Não sei, porra!, para escutar com emoção, com uma profunda paz interior as suítes de Bach, para escutar os meus passos na terra molhada, para compreender o peso deixado pelas minhas botas no tempo e no espaço!

‒ Não sei, porra!

Não sei o que significa acreditar. Se ao menos pudesse a humanidade valer-se a si mesma, cuidar dos seus próprios males, cumprir metade dos seus sonhos… Se ao menos meia humanidade gostasse das coisas que não têm preço, que não se compram, que não se oferecem embrulhadas… 

Venho para estar só. Venho passear neste parque quando os dias, como sacos de gelo, pesam estranhamente sobre o corpo e o paralisam. Ultimamente é de silêncio que preciso. E de verdade. Não sei o que significa acreditar. Sei tão-só que nalguma parte do universo, nalguma galáxia ou hipergaláxia, nalguma nesga física ou metafísica do espaço-tempo, algo ou alguém terá resposta para essa pincelada de ilusão que nos submerge, algo ou alguém capaz de abrir brechas na redoma de gelo que, como aos peixes de Hyde Park, nos ameaça asfixiar nesta manhã fria de dezembro.

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Crónica do depois

Mirjam Delrue
Fotografia de Mirjam Delrue

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No fim acabamos sempre nisto, fogo roendo as entranhas, labaredas encarquilhando a alma, combustão pulverizando o silêncio… Tu sabes como é fácil um incêndio deflagrar, contaminar tudo, espalhar-se… Basta ver como dançam as chamas, ver como são levianas, enganadoras… E não falo das chamas-chamas, físicas, químicas, comburentes. Falo de amor. Falo da desilusão. Tu sabes, do amor. Labaredas roendo as entranhas, chamuscando, devastando, consumindo, ardendo mais alto, reduzindo tudo a pó.

Durante anos olhei para nós sem suspeita. Fomos felizes, casados, comprometidos. Partilhámos corredores na mesma empresa, cafés, conversas, confidências… Depois dividimos piropos, promessas, alianças. Trocámos tudo pela mesma casa, pela mesma cama, pelo mesmo sonho. Tudo muito sincero (nada na minha vida foi tão sincero como as coisas que fiz e quis ter feito contigo): viajámos juntos, cozinhámos juntos, comentámos juntos o Meia Noite em Paris de Woody Allen, fizemos amor juntos (não, não é incomum um casal fazer amor em separado), juntos fumámos muitas vezes o último cigarro da Marlboro, juntos revimos a vida, refizemos promessas esboroadas, renascemos (com gel de banho Guerlain e quantidades massivas de uma ternura nova e desconhecida) debaixo do mesmo chuveiro.

No fim de contas isso.

Isso, a razão por que anda o mundo como anda, aos trambolhões, diga-se. Isso, o substrato filosófico de teses de vinte volumes. O epistema que pesa nos óculos descaídos do estudante de Física e o obriga a examinar pela milionésima vez ao microscópio ultrassofisticado. Isso, o que fervilha na testosterona e o que faz mexer as cotações da bolsa. Isso que é o suprassumo da coexistência social, ou, como diria o respeitadíssimo doutor Sigmund Freud, o dínamo da espécie. Isso, o amor, caramba!

No fim acabamos sempre a pesá-lo numa balança de braços. Sabes do que falo. Falo do amor, do rumo inexplicável das coisas, porque as coisas seguem sempre rumos inexplicáveis ‒ digamos que elas fogem ao nosso controlo ou que reagem ao nosso controlo. As coisas são como são e o amor é como o bom tempo ‒ um dia farta-se do sol. Foi assim que os meus casacos desarrumados sobre a cama (sabes bem que eu ia pendurá-los no cabide, se me desses tempo) formaram um cataclismo. Foi assim que os teus berros se tornaram demasiado agudos, se tornaram agulhas insuportáveis (sou misófono, tu sabias). Foi assim que a tua mãe ganhou ares de bruxa, sempre com palpites, sempre a meter a colherada, sempre a resmungar. Tu conheces-me, sabes que não sou homem de levar um estalo sem reagir com um murro (falo em sentido figurado, tu conheces-me, sabes que sou um figurão). Foi assim que as coisas começaram a perder o sentido. Houve uma ocasião em que deitei fora um maço de tabaco, sem o ter encetado sequer.

As coisas seguem sempre rumos inexplicáveis. Quero dizer, acabámos nós um de cada lado, eu a dizer mal de ti, tu de mão dada com outro fulano… Primeiro cheguei a julgar que te matava. Depois que morria. Julguei que fosse ciúme. Ou remorso. Ou apenas mau perder. Mas não. Aquilo era só a impressão de tempo perdido, de apatia, de descrença na humanidade. Aquilo era só o meu quero-lá-saber. Se tivesse a hipótese de apagar tudo, como se apaga as linhas de giz numa ardósia, tenho a certeza de que o fazia. Sem pestanejar, juro. Não por ressentimento. Apenas por comodidade. Só para evitar qualquer possibilidade de me misturar a ti quando estou a lambuzar-me com um hambúrguer e te vejo a passear aos sábados, no Centro Comercial, com um tipo-cara-de-kokeshi. Apenas para impedir estas labaredas a estalar no estômago cada vez que me esfrego com gel de banho Guerlain no duche e sinto a falta do teu corpo colado ao meu. Unicamente para não ter de ouvir a tua voz sempre que preciso de preparar uma mala de viagem e te imagino a a azucrinar-me. Somente para não ficar arrependido cada vez que faço uma pausa para café lá no escritório e não me apetece tomá-lo com nenhuma das miúdas novas e me ponho a espiar-te, de saia curta (cada vez mais subida), sorriso enorme, a tagarelar no bufete com o sobrinho do patrão, o snob amaricado com quem andas agora.

Juro que não é mau perder. Nem remorso. Nem ciúme.

Sempre imaginei o dia em que, velhos ambos, seguíssemos juntos por uma alameda de árvores em direção ao paraíso. Talvez me entendas, acredito que no fundo me entendes. Sempre imaginei um jardim enorme e nós os dois, de mão dada, amparando-nos um ao outro, como dois troncos velhos e inseparáveis. Sempre imaginei que, apesar de tudo, seríamos os dois no fim.

Mas afinal dou por mim a cismar nas chamas da lareira, tu agarrada a outro, eu a cocar o teto, tu a imaginar-te feliz, eu a escrever crónicas enxabidas, tu a tomar conta de ti e a tomar conta dele, eu a repetir baixinho versos de Garrett. O divórcio tem-me feito sentir uma dor esquisita. Uma pontada, uma dilaceração, um mal-estar que não sei o que é, mas que não é ciúme, nem remorso, nem (juro que não é) mau perder.

Dou por mim a citar de cor «Ai! não te amo, não; e só te quero / De um querer bruto e fero…». E a perguntar-me: que raio se passa comigo, que fogo é este que rói as entranhas, mas apenas à noite, ao deitar. Até vir o sono. Até ele apagar tudo. Como chuva sobre carvões, como água sobre cinza.

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Pessimismos e happy ends: um guião, o filme

Sven Fennema
Fotografia de Sven Fennema

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Acordei esta manhã encavalitado num ponto de interrogação: porque somos todos tão pessimistas? Todos, sim! Ou quase todos! A esmagadora maioria dos espécimes da espécie! Pessimistas, avessos à ideia de sorte, descrentes de que o happy-end ainda se vende nos mercearias antigas e nas lojas gourmet, aziagos, autorrebaixadores, soturnos. Porquê?

Eu sou um dos tais.

A vida deu-me sempre com o rolo da massa e é caso para dizer que me habituei a caçar o meu quinhão de felicidade e a fugir através de buracos impossíveis na parede. Sou dos que acham que isto não vai passar, que isso não tem remédio, que aquilo não se resolve num passe de mágica. Sou dos que pedem por favor que não me massajem as costas com meia dúzia de palmadas amigas e o ego com duas frases exclamativas. Sou dos que pensam que a minha equipa ainda vai sofrer um golo nos cinco minutos derradeiros do jogo, que desaba num desânimo invencível se ela tem só meia hora para empatar a porcaria do jogo. É-me inato descrer na possibilidade de um golo salvador a meia hora do fim.

Eu sou dos tais, dos derrotistas, desse partido principal de homens e mulheres calejados.

E, contudo, acordei esta manhã a meditar em factos inegáveis e objetivos históricos. Escapei com menos de dois anos aos ataques da bronquite e da asma. Escapei a um atropelamento aos doze. Mais tarde a um aparatoso acidente de viação. Escapei a uma peritonite apendicular aos vinte e um. Escapei, aliás, a quase todas as ites que vêm certificadas na legislação (otites, gengivites, gastroenterites, a uma parotidite infeciosa). Escapei intacto a todas as turmas de todas as escolas por onde passei, como professor, formador, estagiário ou simples assessor pedagógico (muitos afundaram nestas selvas não cartografadas). Escapei a manobras partidárias e a habilidades políticas. Escapei aos desgostos, às perdas, às renúncias e aos vexames. Escapei até ao tribunal terrível do espelho e aos castigos da consciência, algures no alçapão da alma (ou do córtex cerebral). Ainda não morri neste país demente e corrupto!

Pessimista até dizer chega.

E, porém, esta manhã acordei rodeado por um silêncio de pássaros cantando (peço encarecidamente que saiam e batam a porta, se se põem para aí, do outro lado da parede branca, a assinalar-me paradoxos, oxímoros e nonsenses). Acordei desempregado, mas saudável. Abatido pela fadiga, mas depois de uma noite intensa de escrita. Triste, mas feliz. Porque acordei. Porque aqui estou, diante vós, confessando-me pessimista em greve, derrotista em crise, se calhar (afinal) talvez um pouco, um pouco mais, de otimista, vencedor até aqui nos palcos em que a vida e a morte debateram posições e se convenceram de que o seu jogo de xadrez deve continuar.

Acordei agarrado à bengala de uma profunda meditação.

Porque nos acontece (não raro) desatarmos a questionar tudo. E quando digo tudo, quero dizer tudo. Mais ou menos como quando decidimos arrumar umas coisas na garagem e damos por nós a remodelar a casa, a pintar as paredes, a trocar de carro. E eu acordei assim, triste, feliz, falando em voz alta para mim mesmo em silêncio, perguntando, respondendo, questionando.

Que raio! Porque não levantar o traseiro e fazer alguma das coisas que sempre quisemos ter feito? Porque não meter na cabeça de uma vez por todas que somos tipos fantásticos, com humor, charme, inteligência? Porque arrastar, como uma sombra, como o peso de uma maldição, a crença de que acabaremos mal, enxotados, sarnentos, lambendo as feridas? Porque não preferir a luz limpa de uma narrativa boa, com final memorável? Se os amigos não faltam? Se a cabeça, mesmo muitas vezes no meio das nuvens, continua acesa e a fervilhar de ideias? Se o coração cicatrizou de todas as punhaladas e ainda bate?

Talvez tenhamos nascidos gauches como Carlos Drummond de Andrade, mas não nascemos avessos à simpatia, nem à confiança, nem à certeza de que quem iniciou este filme (com um argumento de tal qualidade) o pode terminar melhor ainda. Deus, os deuses, as leis da Física Quântica, todas as leis do universo, parecem ter sabido sempre acomodar as coisas. Admitamo-lo: a própria existência é um acidente feliz.

Bebo, por isso, o meu café matinal com aquela sensação de que algo em mim aconteceu, de que qualquer coisa transmudou, como quando um grânulo de areia sai finalmente de dentro da peúga atormentada. De resto, o mais extraordinário dos epílogos, como num filme de mestre, é aquele sobre o qual nada sabemos, de que pouco suspeitamos, em que nos resta esperar. E este, o da vida, não duvidemos, é obra para limpar os óscares todos!

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Um povo que não ama a poesia é um povo estúpido: ponto!

Victor More
Fotografia de Victor More

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Aceitemos o facto: nós, os portugueses, estamo-nos positivamente marimbando para a poesia. Acrescentemos essa a outras famigeradas sinas: nós, os portugueses, damos o litro a escrever poesia, mas estamo-nos nas tintas para a poesia dos outros. Nós, os portugueses, como os demais povos que já foram um dia burgueses, que tiveram já na sua História a fase do ócio, da novela e dos sonhos cor-de-rosa, gostamos é da Carochinha. Matemática, ópera e poesia é que não! Que horror! São abstrações que dão trabalho (levam séculos a aprender) e tempo é coisa de que nós, os portugueses, não possuímos. Em regra, depois das séries da TVI, do futebol e das tricas políticas, nós, os portugueses, mal conseguimos olhar para a filharada, para as contas nos envelopes por abrir ou para o aviso do condomínio. 

Não custa nada aceitar. Basta aceitar! O facto é este: na terra de Fernando Pessoa, o tuga gosta é do Tony Carreira. Camões é fixe, mas desde que deixou o Benfica é só uma glória enfeitada na praça com merda de pombo. Antero de Quental, Camilo Pessanha, Jorge de Sena, Sophia, Torga são uns chatos que às vezes aparecem mesmo à frente dos nossos olhinhos, escritos nas placas toponímicas. Devem ter sido bons atores de algum Big Brother primitivo. Mas esta rapaziada, este mulherio bronzeado da TVI, este luxo de mamas de silicone e cabelo à moicano depressa faz esquecer os cotas do passado. É a lei do tempo. É tudo sempre a correr. Que o digam os portugueses, que mal começam a ler uma extensa reportagem de dois parágrafos no jornal do metro têm de se interromper, visto a saída ser na estação a seguir. O facto é esse. Aceitemo-lo. Nós, os portugueses, estamo-nos a cagar para a literatura, especialmente para a poesia. 

Pela parte que me toca, contento-me com a meia dúzia de amigos que põem gosto nas minhas publicações do Facebook. Está lá a foto. Está lá a hiperligação. Está lá a citação de qualquer coisa (lidimamente poética) que publiquei no blogue. Tudo muito limpo, muito virtual, muito apelativo. Contento-me em publicar digitalmente, porque entretanto (reza-se por aí) a crise chegou às editoras, que gostam muito dos novos, lhes admiram a coragem, lhes vaticinam prosperidade, mas que entretanto lhes fecham as portas. Menos aos novos já consagrados. Esses são vinho de outra pipa. Esses sempre vendem alguma coisita que dá para cima de quatro dígitos. Desde que escrevam de vez em quando (pode até ser; muitas vezes é) um mau romance. Só para acertar as contas, equilibrar números, projetar a imagem… 

Claro que um poeta pode ter sucesso. Imenso, aliás. Nem precisa de se esforçar por aí além. Pode atirar-se às rimas. Poder aguçar a redondilha. Pode treinar primeiro com quadras de S. João. Ganhar um prémio ajuda. Depois é só pedir um patrocínio à Junta de Freguesia, ou à Câmara, ou ao primo que tem um negócio de fazendas. E lá sai uma «Seara de Versos», umas «Folhas Avulsas», um «Parnaso Popular». Depois é vê-lo faturar! Basta impingir um exemplar a cada cliente, no fim de lhes engraxar os sapatos e limpar as mãos aos desperdícios. Basta estar à porta da igreja, no final da missa. Basta pô-lo no Talho da Dona Rosalina, ao lado dos chouriços e do salpicão! 

Também eu comi o pão que o diabo amassou para chegar às livrarias. Consegui-o a custo, engolindo sapos, entretendo-me com vigaristas, perdendo o tempo a fazer de conta que acreditava nas explicações. De toda a poesia que fiz sair em livro não lucrei até hoje um cêntimo. Exceto, claro, o que ganhei nos prémios. O país não tem como pagar a abundância de génio e de candidatos ao Dicionário da Literatura do Professor Álvaro Manuel Machado. De resto, «direitos de autor» é uma daquelas expressões que provocam asma. Tosse-se muito quando se pronunciam as três palavras. Um tipo com vinte e poucos anos imagina-se a dar autógrafos, a responder às entrevistas, a ser conhecido na rua. Só a calvície faz compreender (mais vale agora do que depois) o sujo pragmatismo do dinheiro. Faz-se perguntas à mesa do café. Volta-se a tossir muito. A conversa, como a viagem daquele agrimensor de Kafka, não leva a lado nenhum… 

Um tipo, por maior poeta e boa pessoa que seja, farta-se. Um dia diz «Puta que pariu esta merda!». Um dia chega mesmo a ameaçar «Meu grande filho da puta, quando pagas o que me deves?». Diz outras coisas afins (limito-me a citar), mas acaba por desistir. Os poetas são seres instáveis, cansam-se depressa, não sabem senão pensar em metafísica. Prova a história (e a fonologia também) que decência não rima com editor. E um poeta, ainda que vibre fundo o desespero, acaba por encontrar outra solução. 

Estamos na época da edição de autor. Estamos a voltar ao começo, ao tempo em que Camões, com Os Lusíadas manuscritos debaixo do braço, ia mendigar esmola para pagar a tipografia. Saibam os portugueses que o caché no tempo de Camões era ridículo. Não, portugueses, era tanga aquilo há pouco: Camões não foi jogador do Benfica. Não, Camões, não era o tipo do Conta-me como foi! Quer dizer, também havia um Camões no Conta-me como foi. Mas estamos a falar doutro Camões, portugueses. Este Camões era poeta: um desgraçado; passou pessimamente. Para compensar deram-lhe um feriado. Sim, portugueses: o 10 de junho! Não, portugueses: tenho a certeza de que Camões não jogou no Benfica! 

Mas os feriados são caros — não queiramos ouvi-lo da boca do Primeiro-Ministro! Não conto, portanto, que me deem um. Nem que me fique o nome gravado numa tabuleta, depois de uma rotunda, ou à entrada para um beco sem saída. Nem que me leiam (com voz rouca, pose melodramática, lágrimas nos olhos) nos saraus semanais da associação cultural e recreativa, sita na rua-de-não-sei-que-antigo-ministro-do-ultramar. 

Contento-me com a minha meia dúzia de leitores. Com a perspetiva de que melhores dias surjam no horizonte e com eles uma geração inteligente, capaz de saborear um poema como se saboreia um pitéu; capaz de ler um poema como se lê a bula da Aspirina, com inteligência e sobriedade; capaz de ensinar aos filhos um poema como se ensina um conto popular ou uma adivinha… E não digo um poema recolhido do Jornal de Notícias. Digo um poema de Luiza Neto Jorge, um poema de Nuno Júdice ou um poema de Herberto Helder. 

Estou a exagerar? Não, nós, os portugueses, é que estamos demasiado acostumados ao pouco. E a pouquidão (a palavra existe e assenta-nos que nem uma luva) não nos tem levado senão a preservar nos genes, com o passar dos séculos, contra o ardor da História (como num frigorífico) a mesquinhez, a futilidade e a inveja. Por contraponto, um povo capaz de vibrar com um bom poema será (é) um povo inteligente, sensível e evoluído. 

Não peço glória. Peço um povo em condições. Foda-se, portugueses! Isso é pedir muito?

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Amélia Tarruca

Amélia Pereira (1936)
No seu casamento, em 1936

in memoriam

A minha avó Amélia nasceu há precisamente um século! Não é fácil encontrar palavras que descrevam esta mulher, essa matriarca cujos dias terminaram em grande sofrimento físico, desprovida de fala, paralisada e incapaz de alimentar-se. Expirou no preciso lugar onde escrevo estas palavras, o mesmo pequeno quarto que a viu atravessar um longo outono até perder-se no nevoeiro da cegueira, quem sabe rodeada pela memória dos seus mortos e das muitas imagens que aquilatou em vida.

Nas redondezas ficou conhecido como Mélia Tarruca, nome que ainda hoje perdura, associado a gratas recordações dos que a conheceram e lhe sobreviveram. Era desbocada, sim, capaz do palavrão intempestivo. Era enérgica e reativa, a ponto de comprar uma pistola de cerâmica (dizem que igualzinha a uma pistola de verdade) para ajustar contas na taberna com o marido adúltero. Era humana e sensível, de uma humanidade e sensibilidade genuínas, timbradas pela fome e pela miséria, por duas grandes guerras, pela necessidade de se sujeitar às agruras de um tempo em que nem os campos nem a indústria emergente eram garantias de sustento… Havia sempre um naco de broa, uma gabela de couves, meio caneco de feijão, meia dúzia de ovos, às vezes uma galinha para dar a quem precisasse. A míngua tornou equitativa e generosa a gente desta mesma aldeia onde lhe fizeram um funeral sem fim…

Se fosse viva, Amélia Pereira completaria hoje um século. Cem anos de agruras.

Não lhe conheci a adultez, só a velhice. As histórias que dela me chegavam na infância dificilmente podiam coincidir com a anciã acamada, incapaz já de articular palavra que se compreendesse. Minha mãe, que por ela velou até à morte, recebeu-a cá em casa devia eu ter seis ou sete anos. No princípio ainda caminhava um pouco, com a ajuda de uma bengala. Depois houve uma cadeira de rodas. O jornal da paróquia fotografou-a assim, como um bom exemplo cristão. Vieram duas meninas entrevistar, uma munida de caneta e caderno, outra com a máquina fotográfica. Recordo-me vagamente de tudo isto, que era para mim a distinção de classe, a vaidade de possuir uma avó famosa.

Com o tempo a saúde esfumou-se. Havia que pôr-lhe fralda. Eu ia comprá-las à farmácia. Eram sacos enormes, que não me custavam carregar, porque naquela época os miúdos eram todos homenzinhos e sofria-se de vergonha quando não se podia carregar pesos como um adulto. Minha mãe contou então com a ajuda de minha tia Conceição e ambas davam as voltas, como se dizia, à velhinha. Às vezes havia visitas. Com o tempo rarearam. Porque as pessoas deixaram de ter um motivo para vir. Porque a conversa era a bem dizer um monólogo. Minha avó respondia com monossílabos, revirando os olhos, de quando em quando deixando correr as lágrimas … Sei tudo isto porque espreitava por detrás da porta, à espera que as visitas trouxessem um cartucho com doces… Ou bananas. Incompreensivelmente as visitas traziam cachos de bananas e eu ficava fascinado com as visitas que as deixavam amarelejar em cima da cómoda e se despediam da minha avó como se faz a uma criança pequena, com inflexões de voz artificiais e claramente paternalistas.

Só compreendi exatamente quem foi esta mulher após a sua morte. Muita gente me contou sobre ela histórias preciosas, informando-me do seu caráter tenaz e frontal. Por exemplo, a história de quando descobriu a amizade do meu avô, seu marido, por certa mulher de índole incerta. Avisada por vizinhos, entrou de rompante na tasca onde os adúlteros confraternizavam com a escumalha do vinho e das cartas. Pediu que lhe enchessem o vasilhame do azeite e puxou da pistolita.

«Manelzinho, encha-me esta botelha de azeite, enquanto eu vou ali fazer duas mortes!».

A amante fugiu espavorida pela porta. Meu avô, espavorido também, lançou-se por uma janela alta, em direção às traseiras da taberna. Morreria sem saber onde a mulher tinha obtido a arma e onde a guardara. De caco, explicam-me, entre risos, E também esse pormenor ele ignorou até ao fim dos seus dias. Mas o bastante para acabar com as veleidades românticas fora do casamento!

Contam-me que, já com vários filhos pequenos, se deslocava a pé até Vizela, para trabalhar numa fábrica têxtil. Aí cuidava do mais novo, deixando a casa entregue à filha mais velha, pouco mais que uma criancinha. Trabalhava-se muito, ganhava-se pouco, desfazia-se a saúde nos teares e na violenta desagregação do mundo rural em que havia nascido a década de 30. Mas também aí se moldava a têmpera combativa e o arregaçar de mangas que tornou a família incapaz de aceitar que o céu lhe caia em cima sem ao menos ensaiar uma resposta.

Dos filhos que teve sobreviveram sete. Quatro raparigas e três rapazes (dois dos quais mobilizados para a Guerra do Ultramar: um chegando no dia em que o outro partia; o terceiro fugindo para França, a salto). Não se diga que enfrentou a triste sina de os enterrar, porque não aconteceu tal, felizmente. Meus tios regressaram todos, sãos e salvos. Ainda hoje são sete os filhos que sobrevivem, com suas mazelas, mas vivos e amigos uns dos outros. Quantas famílias não se podem gabar do mesmo?

Se fosse viva, minha avó Amélia talvez nos desse com a bengala e nos chamasse alguns nomes pouco simpáticos. Metia-nos na ordem. Era assim com as filhas, por exemplo.

Contam que amanheceu o dia em que determinado padre se aproximava pelo caminho rural, mesmo ao lado da casa velha. Vinha devagar, meditando o seu breviário e os seus pensamentos. O padre, ao que parece, não era boa rês. E o dia corria mal por causa de certo número de frangas que haviam escapado do galinheiro a andavam escarafunchando o cebolo. Minha avó praguejava alto e bom som contra as filhas negligentes. Fizeram-lhe notar a aproximação do clérigo.

«Eu quero que o padre vá para o caralho e vós também, minhas grandes putas!»

Assustado, o padre persignou-se; elas cobertas de vergonha refugiaram-se como puderam. Ficou a velha Tarruca sozinha na leira, de vassoura em riste, berrando e espalhando o terror entre as galinhas tresmalhadas.

É de longe o meu antepassado mais conhecido nas redondezas e, sem dúvida, o ascendente de que mais me orgulho.
Porque esta avó proverbial, que não tinha pejo em desdenhar de um mau padre (hipócrita, ao que parece), era capaz, em contrapartida, de mandar uma filha com um açafate cheio de víveres a casa de fulana, beltrana ou sicrana, a quem o marido dava porrada como milho mas não o dinheiro para se governar.

Sirvo-me das palavras dos outros, da memória dos outros, do regozijo dos outros para compreender a razão deste apreço pelo “politicamente incorreto” que me corre nas veias. Talvez o instinto para desprezar as inutilidades e me conservar num torrão afetivo, que há de ser sempre escasso, mas incorruptível!

Se fosse viva, Amélia Pereira, mãe, avó, criadora de filhos e de netos, faria hoje cem anos. Escrevo no preciso lugar onde expirou, às primeiras horas do dia 27 de setembro de 1994.

Como escritor e cronista da família, cabe-me conservar, pelo menos um pouco mais, este relicário de memórias e de o passar aos outros… Quando explico a algum velhote da terra a minha ascendência, o parentesco com a Mélia Tarruca, logo um amplo sorriso fraterno nos envolve aos dois, como a capa de Martinho.

«A sua avó era uma grande mulher», «A Tarruca era uma mulher muito direita!», «A sua avó matou muita fominha, Deus a tenha!»

Nasceu há cem anos, a 15 agosto de 1913.

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