Crónica dos dias comuns

Paulo Abrantes
Fotografia de Paulo Abrantes

.

A viagem demora três quartos de hora.

É muitas vezes a distância entre mim e eu. Ao fim de meses, a última afirmação parece-se extraordinariamente verdadeira: duas vezes três quartos de por dia multiplicadas por muitos dias é uma soma impressionante de pensamentos, de constatações, de memórias, de tomadas de decisão, além do asfalto, do combustível, das portagens, dos monólogos, dos programas de rádio, das conversas ao telemóvel, das árvores a despir-se, despidas, vestindo-se novamente, dos bandos de pássaros voando numa alucinação de cardume, dos arco-íris e mosquitos esmagados no vidro dianteiro, das ultrapassagens assassinas dos camiões TIR, dos condutores esburacando as fossas nasais com os dedos mindinho e indicador.

A viagem nem sempre é boa. Muitas vezes cansa, cansa mais agora,  exaspera, os olhos ardem, a rota faz bocejar, leva-me ao vazio e dele me leva de volta a casa. Muitas vezes é assim. É um sonho, uma dormência. Abro as janelas, a da esquerda primeiro, a da direita depois, mesmo se lá fora está frio, especialmente se está muito frio. Preciso de me ventilar, de ser açoitado pelo ruído e pelo ar denso, de acordar.

A pior parte da viagem é esta que nos faz tergiversar a vida, como se a viagem não fizesse parte dela e tudo não passasse de um efeito de redoma. A vida pede-nos, aliás propõe-nos, aliás exige-nos uma grande dose de ousadia.

Enquanto o conta-quilómetros vai substituindo números, sorrio em segredo para dentro de mim. E lá estou eu, a gostar outra vez de Antropologia Cultural, a estudar os povos africanos e as tribos da Polinésia, a sonhar com viagens de comboio pelas estepes asiáticas e a fotografar aldeias da Mongólia, da China e do Turmenequistão. Tenho a mochila inchada de cadernos e os rolos da máquina fotográfica repletos de rostos desdentados, lareiras ardendo em casas de terracota e estranhos e curiosos animais parecidos com os nossos animais domésticos mas diferentes dos nossos bichos de estimação. Sou eu sem lamentos ou evasivas, escrevo crónicas de viagens a sério, publico livros que ensinam o quanto o mundo é pequeno visto de dentro e sinto-me puro e veemente, cheio de frases que soam como soam as teclas da máquina de escrever.

Este devaneio volta amiúde. Volta sobretudo em determinados dias da semana e a certa altura no percurso, quando o dia rompe da massa escura das montanhas do Marão. Primeiro o horizonte é só uma película rosada, atravessada pelo fumo translúcido dos aviões («Lá em cima os aviões com o seu rasto aceso parecem caracóis segregando uma baba luminosa» escrevi num conto d’ O Moscardo), depois surge o clarão, o arrebol, a luz de lume do sol. Dura uns segundos apenas, mas a imagem fica e acorda outras imagens acamadas na minha memória. A explosão torna nítidos pormenores que me acompanham durante o dia, mostra o girar das torres eólicas ao longe, os mantos de nevoeiro e de fumo sobre os povoados, a cintilação dos metais e dos vidros em mil casas que alcanço num abrir e fechar de olhos, uma curva da autoestrada além, subindo, reaparecendo, brilhando, para logo desaparecer de novo entre campos e montes.

Sonho comigo num qualquer festival de música eletrónica progressiva (de Oleg Byonic, de Lukas Termena, de Armin van Buuren), num terraço de Nova Iorque a fotografar o Hudson, ou nas escarpas da Irlanda e nos fiordes da Noruega a sentir-me íntimo das paisagens maravilhosas. Sonho comigo passeando nos jardins de Quito, entre as colunas de Tebas, sobre as ruínas do Peru. Volto a emocionar-me com a adolescência rigorosa das aulas de Filosofia e de Jornalismo, disciplinas a que obtive classificações históricas, e por via delas sonho comigo filosofando e noticiando em Alexandria, em Cambridge, em Istambul, em Toronto, em todas as bibliotecas, museus e universidades importantes do mundo.

Sobre mim relampeja o azul das placas sinalizadoras.

Sem dar por ela, aproximo-me do destino, o carro desacelera, avança sem pressa, também ele enfastiado, esgotado, saturado do ramerrame, aquecido pelo esforço dos pneus, cheirando às vezes a uma combustão suja (como se alguma vez pudesse ser limpa) de gasóleo e de travões.  Quando me apeio, sinto um emperramento terrível, uma preguiça de morte, um desapontamento. O desapontamento cresce se se depara com outro rosto desapontado no brilho espelhante da carroçaria. É uma solidão de dois rostos que sendo um são dois rostos reciprocamente desiludidos, um desamparo. Às vezes receio cambalear. Talvez cambaleie, dorido, sem força, pronto para o que der e vier. Nem tenho tempo para perguntar. Se tivesse perguntá-lo-ia talvez. Embora não o jure o aqui. Talvez. Apenas talvez.

Que viagem foi esta que eu fiz?

.

Coisas tão perfeitas

balcony, varanda
Fotografia de Marc Huybrighs

.

Ao sol está agora uma roupa tão branca que parece, sob a força do primeiro, uma cascata de lâmpadas acesas. Devo dizer que nunca vi uma cascata assim, é uma metáfora, pelo que a expressão é meio absurda. Mas também nunca a roupa me pareceu faiscar tanto como esta que vai batendo no lado de fora da parede, produzindo às vezes um ruído mais forte, que, junto com a luz, a torna viva e bela.

Empurra-a uma corrente amornada, de brisa para vento, já de mistura com a fragrância de certas flores e plantas de fim de inverno. A roupa cheira maravilhosamente a sabão marselha, e esse perfume enovelado no primeiro entra-me pela janela como um saltitão inesperado e faz-me sorrir. Sorrio muitas vezes a coisas destas género, a episódios (digamos) de importância nenhuma a que tendo amar mais do que às coisas de importância capital.

Desde que se acorda anda-se à volta de meia dúzia destas ninharias para com elas atar um poema. Infelizmente, o peso das prioridades, a sombra delas, o zumbido das suas horríveis asas frenéticas impede-nos de chegar ao âmago das imagens e dos sons, das palavras que se procuram.

Uma pessoa lida épica e estoicamente, silenciosamente, com problemas deste jaez. A chávena do café secou, o caderno com as rasuras lembra uma confusão de fios telefónicos, a caneta tapada e destapada é um homem que não sabe se é capaz ainda de amar a sua mulher. O proveito é escasso, a mesa é o palco de um drama anónimo (nada anódino), os papéis amarrotados fazem doer as mãos, e mais que elas os pulsos, e mais que os pulsos os olhos.

Nessas alturas apetece o disparate.

Por isso, abre-se uma janela e fica-se a espantar. Os clarões descem até nós pelo telhado, saltitam e gorjeiam pelo meio dos algerozes, ondulam no estendal, acendem o mármore do parapeito, cintilam nos vidros distantes, correm no céu à velocidade das nuvens. Ou então, folheiam connosco o livro antigo que não paramos de visitar, renascem nas antigas estrofes sublinhadas a lápis, explodem na coda de um canto que o autor escreveu para um filme. Os clarões são castos, sensíveis, exatos, difíceis de tão precisos que são.

O poema dentro de nós volta a dar sinal de si. É como um tremor de terra. Um pequeno sismo para que saibamos que a água continua a jorrar, ouro freático debaixo de dolorosas camadas de pedra.

Tira-se outro café da máquina. Abre-se um caderno novo. Experimenta-se outro aparo, outra tinta, outras sílabas viscerais. Sob a mão protetora do livro visitado, escavamos o nosso próprio sulco no silêncio. A manhã vibra de viva, é imprescindível que o poema à sua maneira o diga, o implique, o conquiste. Devo notar que a catarse é perfeita.

Assim o escrevi. 

COISAS TÃO PERFEITAS

a bigorna de Amakuni,
os movimentos de Má Vlast,

as formas híbridas, paradoxais, engenhosas de Maurits Cornelis Escher

a varanda, o impossível,
bardana, aspargo, alecrim, calêndulas,
como se pudesse cada manhã persegui-lo melhor ou pela primeira vez

.

Estamos quase, filho!

family day
Fotografia de Samanta

.

Daqui tenho da cidade uma visão ótima: ao mesmo observo-lhe os céus, as torres das igrejas, os telhados, as águas-furtadas, as luzes de conjunto (as que emanam das lâmpadas dos semáforos e das montras, dos campanários e dos holofotes dos grandes edifícios do Estado, dos faróis dos carros e dos postes elétricos); e observo-lhe os becos, a pacatez de uma ou duas travessas mais próximas e mais escondidas, a escuridão que cai sobre o pavimento e sobre as acácias, os lanços de escadas que compõem os labirintos (como num desenho de Escher) e por onde sobem e descem, assim sucede agora mesmo, mães com filhos ao colo.

Os meus olhos voam para esta ternura. No empedrado ecoam as solas de uns botins e a mulher de sobretudo preto que os calça aperta mais o cobertor que envolve a sua criança.

– Estamos quase a chegar, filho!

Novembro está prestes a terminar e é este vapor. Mal o sol se põe, ele cresce dos canaletes e avança até à soleira das portas, engolindo os gatos e os tapetes de rua, fazendo mais misteriosa a aparência das esquinas seguinte e anterior, tornando extraordinário o gesto de rodar a chave na ranhura e de entrar em casa.

– Já estamos, filho! Já cá estamos!

Daqui é-me mais saudosa a alegria das horas nos sinos. Tocam as Trindades, repenica-se o som, que começa a lembrar o Natal. No colo da mãe, a criança aconchegada, protegida, acalentada, vê e escuta e sente a mutação destes dias de quase inverno que o são já. Ainda há instantes o fascinavam o efeito de neve nos vidro da loja de brinquedos, o vivo das cores misturadas nas butiques e retrosarias (dourados e vermelhos, o azul de um estrela no cocuruto de um pinheiro, os prateados e alaranjados e verdes, as fitas e laços e pais natais e presépios que surgem nos recantos), os néones nos mercadinhos de bacalhau e nas pastelarias. Tudo mais belo, porque contrastante com o húmido dos passeios e o bafo esforçado das bocas silenciosas.

– O Menino Jesus está quase a nascer, sabes?

Há, apesar da soturnidade do frio, algo que faz encontrar os transeuntes consigo mesmos. A criança, bem embrulhada, gosta desta sensação que principia a reconhecer, mesmo não a compreendendo.

– E ele vai trazer-te uma prendinha!

Se não estivesse tão rouco, se não lhe doesse tanto a garganta, se lhe não soubesse tão bem esse cómodo abraço da mãe, esse silêncio entrecortado por frases repletas de feerismo, talvez lhe perguntasse «O quê?», «O que me vai trazer o Menino Jesus?». Mas hoje só lhe apetece chegar a casa, sair do espaço fumegante e gélido onde os passos da mãe soam expostos e desamparados. Hoje só quer encontrar as boas paredes de sua casa, dentro das quais se sentirá seguro e segura a mulher que o trouxe ao mundo.

É tarde. Novembro está no fim. Daqui vê-se tudo. As imagens surgem duplicadas, como num filme, como numa história que corresse somente nas retinas próprias. Tenho, por isso, de guardá-lo para mim. Nem podia ser de outro modo!

.

Muito obrigado!

IMG_4779
Pompeu Miguel Martins, João Ricardo Lopes e Paula Morais

.

Não podia deixar de me dirigir e de agradecer a todos os amigos que ontem viajaram até Fafe e/ou se deslocaram ao auditório da Biblioteca Municipal para assistirem ao lançamento do meu O Moscardo e Outras Histórias.

Foi magnífica, afetuosa e soberba a sessão. Revi pessoas de quem gosto muito e de quem há muito os trabalhos da vida me vinham separando. Fui surpreendido pela presença de ex-alunos, colegas, vizinhos, camaradas, leitores que quiseram conhecer os meus contos, empregando nas suas palavras de afeto o que na vida em sociedade há de mais belo e bondoso: a estima!

Agradeço, por isso, à Regina Novais e ao Renato Leite o terem trazido Mozart ao convívio dos presentes. E com que doçura!

O Moscardo e Outras Histórias_Fafe (2)
Assistência no Auditório da Biblioteca Municipal de Fafe

.

Agradeço ao vereador Pompeu Miguel Martins o introito generoso e intimista que proporcionou, recordando como ninguém o faria o meu percurso literário, desde a pedra que chora como palavras e o Prémio de Revelação de Poesia Ary dos Santos, que a ambos nos fez jornadear até Grândola no outono de 2001 (17 anos passaram já).

Agradeço à Paula Morais a fantástica recensão que escreveu e que partilhou com o público, aventurando-se pel’ O Moscardo com a segurança de um mestre, que é, e de uma amiga, que tem sido. Impagável é esse gesto de me ler tão bem e tão em profundidade. E tão repleta de simpatia!

Agradeço à minha irmã Catarina a produção deste vídeo, que me enche de orgulho e de alegria.

O Moscardo e Outras Histórias_Fafe (3)
Sessão de autógrafos

.

E agradeço-lhe, ainda, a ela, à Marta e à Céu o apoio logístico dado durante a sessão, na organização e na venda do livro.

Agradeço aos funcionários da Biblioteca Municipal, em particular ao sr. Joaquim Gonçalves e à Carla Vaz, ligados à preparação do espaço e à receção dos visitantes.

E no fim volto ao começo deste agradecimento. A todos os que viajaram (do Porto, de Leiria, de Lanzarote, de Cinfães, de Matosinhos, de Póvoa de Lanhoso, de Felgueiras, de Guimarães, de Santo Tirso, de Braga, de Famalicão, de Amarante), a todos os que sendo de Fafe (tendo porventura tantos outros afazeres) não quiseram deixar de me acompanhar neste passo, o meu MUITO OBRIGADO!

O domingo está prestes a fechar

Lars van de Goor
Fotografia de Lars van de Goor

Apresento-me à entrada do bosque como fiz durante anos por esta altura. O cão segue-me, farejando com o contentamento eufórico deste regresso dos dois a um lugar de ambos.

O bosque é o mesmo e é outro. A nostalgia faz crescer em cada uma destas grandes árvores uma sombra mais triste. A ausência parece irreparável, como se em mim algo me não perdoasse os muitos dias perdidos, a indiferença, o envelhecimento.

Já quase é noite. Convém a intrusos como nós que assim seja. Vimos saquear o ar frio, tomar de assalto a terra húmida, esmagar o corpo inteiriço das bolotas num horror de insetos esmagados, invadir junto com o alvoroço das gralhas as mesmas neblinas que descem até ao rio, até às ruínas do moinho onde tantas vezes a lua me pareceu arder sozinha num poema por escrever.

Sou um melancólico, assumo.

Vou atrás do Nilo. Ele saberá guiar-me pelos mesmos lugarejos musguentos de outrora. Quem sabe, mediar a reconciliação do homem com o espaço. Sigo-o sem uma fala, como um penitente, arrependidíssimo. É domingo e eu fujo, fujo de mim mesmo, vazio e repleto, voltado do avesso, entrando num lugar onde a lanterna mal alumia e tudo é uma luz.

Acabei um livro, venci uma doença, ensinei a uma fornada de alunos mais, amei e fui amado, amo e sou amado, vejo à minha volta o contorno de cada coisa e de cada pessoa, reconheço em mim o poder de fazer mexer algo, de empurrar um ramo, de pontapear uma pedra, de ultrapassar um regato ou uma lamaçal. E, no entanto, sinto-me um saco vazio, uma boca e um ouvido escancarados para o abismo, um par de pernas e de pés caminhando num modo de autómato para o negrume.

Sou um lamechas, admito.

Neste preciso ponto da caminhada, acocoro-me para erguer uma folha de carvalho: o halo incide sobre as nervuras, os dedos seguem o recorte, percorrem cada uma dessas linhas radiais, regressam à grande estrada ao centro. Centenas de outras folhas iguais, de um tom indeciso (vermelhas, douradas, castanhas, alaranjadas) cobrem o chão e são cobertas pela líquida itinerância dos vapores noturnos. E eu penso que todas (centenas, milhares de folhas juncando o chão) são a metáfora das nossas vidas, cada qual uma história, cada uma qual história distinta, com os seus episódios principais e secundários e terciários. Todas caídas, outonais, derrotadas pelo mesmo sopro que nos sepulta e torna anónimos recortes amontoados no bosque umbroso da história.

O cão ladra. Reclama a minha presença agora que descortinou o fio perdido de um qualquer novelo temporal. Sigo-o. É domingo. É noite cerrada. Odeio os domingos. Preciso de andar sempre com uma lanterna ligada aos domingos, como se tudo à minha volta fosse tão de breu como de breu é o âmago deste bosque.

Sou um insatisfeito, reconheço.

Fujo muitas vezes de mim. Fujo para uma autoestrada, para uma saída sem nome, depois para uma estrada de terra batida, até ser impossível fugir mais. Fujo como os dedos fogem pelas nervuras de uma folha de carvalho, cheio de uma terrível utopia, saturado de boas e péssimas decisões.

O cão envelheceu terrivelmente. Mesmo sem o ver, adivinho-lhe o pelo áspero, desarranjado, em tufos. O caminhar incerto. As orelhas descaídas. O focinho encarquilhado, esfolado. É o mesmo e é outro, ainda que repetindo os passos exatos das outras vezes, dos tempos em que se aventurava a trepar os muretes divisórios e a penetrar as luras sob as grandes raízes das faias.

Já quase é inverno. O frio de novembro não é brincadeira nenhuma. Agarro-me ao casaco com o ar desesperado do náufrago que encontrou uma tábua. O bafo é agora mais branco, como uma cortina breve. O domingo está prestes a fechar. Ao fim de tanto tempo sou eu quem me não me reconhece. A lanterna acendeu a lua. Ela veio. Salvar-me talvez. Escrever com a sua voz sublime o que as palavras estão querendo dizer. E não sabem ainda.

.

Convite

convite bom

Caríssim@s amig@s,

O meu abraço, antes de mais!

Depois de um período de sete anos sem publicar, partilharei neste final de 2018 O Moscardo e Outras Histórias, um livro de ficção que reúne 86 contos, numa viagem que principia no Rijksmuseum, em Amesterdão, e termina na Casa de Saramago, em Lanzarote.

O lançamento do livro terá lugar no Auditório da Biblioteca Municipal de Fafe, no próximo dia 17 (sábado), pelas 15h30, cabendo a sua apresentação a Paula Morais, professora e investigadora que também o posfacia.

Honrar-me-ia sobremaneira a vossa presença nesta sessão!

Saudações amigas,

João Ricardo Lopes

Parque Nacional de Timanfaya

IMG_3863
Fotos de arquivo pessoal (2018)

.
El 1 de septiembre de 1730, entre 9 y 10 de la noche, se abrió de pronto la tierra a dos leguas de Yaiza, cerca de Chimanfaya. Desde la primera noche se formó una montaña de considerable altura de la que salieron llamas que estuvieron ardiendo durante diecinueve días seguidos.
Relato de Andrés Lorenzo Curbelo Perdomo, cura de Yaiza, intitulado Diario de apuntaciones de las circunstancias que acaecieron en Lanzarote cuando ardieron los volcanes, año de 1730 hasta 1736

.

Ao quarto dia entranhámo-nos no centro-sul da ilha: de manhã Tinajo, à tarde San Bartolomé, Tías, La Gería, Uga, Yaiza. volto a espantar-me com a limpeza e brio dos lanzarotenhos, em cujas povoações não permanecem muito tempo à solta o maldito plástico ou o maldito ruído. fotografo a estrada, uma reta gigantesca que, submergindo de quando em quando num declive, reaparece quilómetros mais à frente, até se perder de vista, muito longe, no sopé de uma das escuras montanhas que por cá proliferam. depois fazemos um desvio para subir lentamente, de curva em curva, até ao lugar onde nos recebe um diabo de pernas escancaradas e braços abertos, cauda pontiaguda, a segurar uma tábua com a legenda PARQUE NACIONAL DE TIMANFAYA.

Dominada por vulcões sucessivos, a paisagem repete-se. talvez por isso, a boca procura agora mais fundo para dizer melhor, para dizer diferente. esperamos uma hora, apeados, dentro do carro, numa monstruosa fila que quase não avança, observando os cones que se multiplicam de lés a lés, de cores tão vivas como o açafrão e o ocre, o vermelho, o laranja, o verdete, ou o marrom, cores muito misturadas, sotopostas, em estrias, em cachos, escorrendo umas sobre as horas. esperamos. às vezes a beleza cansa, facto blasfemo mas verdadeiro. esta beleza confunde os sentidos. não, não há palavras para ela.

.

IMG_3885.JPG

.

Entramos no que chamam Islote de Hilario, centro nevrálgico do parque onde o visitante pode estacionar a sua fatigada viatura, dar satisfação às premências humanas, observar em círculo toda a extensão do fenómeno geológico que alimenta este poema, embarcar num autocarro turístico, assistir à prova de fogo, pasmar-se com o jorro de água fervente cuspido a meia dúzia de metros de altura, descansar, comprar recordações. fotografo quase com obsessão, aqui, ali, além, o calor aperta (nada que se compare aos quatrocentos graus que sopram da boca da terra), tu trazes os bilhetes, também nós viajaremos pela estreitíssima rota asfaltada, entre píncaros e vales, a que chamam Vale de Tranquilidade.

Pelos vidros sujos chega-nos o bizarro elenco que as colunas de cinza fabricaram, fileiras de chaminés e maciços de lava, estranhas formas nodosas e retorcidas que lembram fósseis, crateras e encostas policromáticas, minerais, inóspitas, lunares, nenhuma tão bela como a Caldera del Corazoncillo. assim o diz a gravação que escutamos em castelhano, inglês e alemão, a que nos recorda a grande erupção de 1 de setembro de 1730, a narrativa dramática do padre de Yaiza, a lenda do eremita Hilário, os povoados férteis sepultados debaixo de toneladas de magma.

Não sabemos decidir se é este lugar um hino à vida ou à morte. prometi escrever sobre o assunto. tanto tempo depois, a dúvida mantém-se.

20.08.2018

.

O homem muito triste

sadness, o homem muito triste
Fotografia de Miroslav Mominski

.

Cruzo-me com este homem quase todos os dias no caminho para a escola. No ângulo de cimento de um murete, acompanhando a curva apertada de um caminho secundário, ocupa com a sua sombra todo o lado esquerdo do vidro do carro, e tão singular a sua comum figura que nunca resisto a deitar-lhe, muito de viés, uma mirada curiosa.

É um velho triste. Apoiado numa bengala (seria mais correto admitir que a bengala se tornou um grande braço caindo na terra), lança o rosto num movimento de rede, como quem não sabe se vai ou o que vai apanhar do dia. Julgo que me vê passar e que me não vê passar. Porque gasta os dias a olhar sem ver, fixado num ponto onde nenhum automóvel chega, nem decerto nenhuma mirada curiosa e comovida, a bengala debaixo da mão como um pilar muito hirto, pensando quem sabe, quem sabe lembrando, quem sabe cismando na curta viagem entre a infância e essa idade de tão frias e de tão feias emanações.

É um velho triste. Barba branca e rala, aguçando o queixo numa expressão inquisidora. Pele tão velha como a boca velha e escancarada, que parece arfar. Uma máscara. Todo ele numa expressão que tanto se diria alheada, distante da realidade, como nela achando e arregalando uma epifania.

O carro leva-me por lugares que me dão muitas vezes o primeiro verso, a primeira linha, a primeira impressão de uma fotografia. Às vezes, como aqui e agora, ao interceptar este ancião, sinto uma cobardia inexplicável. Finjo que não percebo o que é óbvio, que não toco o que palpável. Ponho-me a mexer nalgum manípulo, troco de estação de rádio, fiscalizo criminosamente o ecrã do telemóvel. Aquela expressão triste do velho, porém, está lá, entrou, já me não permite evasivas. Volto-me, esforço-me por não olhar, mas zás, olhei-o nos olhos! O carro já me pôs noutra rua, noutra estrada, noutro ângulo de outra luz.  Mas aquela expressão de casa abandonada enche-me o vidro dianteiro. É inútil fazer de conta. É ridículo. É, provavelmente, hipócrita e cruel.

Ponho-me em devaneios morais. E, se em lugar de acelerar, eu encostasse, me apeasse, lhe propusesse um cigarro, quisesse saber o nome, lhe escutasse a vida? Se, em vez de fingir que o dever me chama muitos quilómetros à frente, admitisse que me chama aqui o dever de confortar, de saber, de vestir pele humana  e tripas humanas, cabeça humana, coração humano?

É um velho triste. Encontro-o rodeado pelas mesmas casas solitárias, pelas mesmas ervas bravas, pelo mesmo céu mortiço, junto ao mesmo alcatrão sujo e irregular. Uma cena de meia dúzia de segundos, enquanto o carro resfolega e ao longe uma sirene apita para a mudança de turnos. Dou por mim a observá-lo pelo retrovisor, como quem se dá conta que a oportunidade passou, que a separar o futuro do passado há uma estreitíssima ponte,  o presente não existe, braços e tronco vergados, lá atrás, como se ameaçasse despenhar-se, estilhaçar-se, partir-se todo, lá muito atrás, mal se vê agora, como se somente a bengala se importasse, agora é um pontinho, a reta levou-me a uma rua mais larga, uma lomba, agora já não se vê, uma subida, uma curva, e zás, já o horizonte é outro.

É um velho tristíssimo. A cena repete-se. Fica-me no vidro, junto com o cadáver dos mosquitos e a meia-lua do pó. Sou forçado a rememorá-la, preso a um remorso que os outros perdoariam, mas eu não perdoo.

Acabo por esquecê-lo, assim que retiro a chave ignição e me lanço numa corrida para a porta da escola, em cima da hora, sempre a pisar o risco, homem livre, homem preso, cheio de fé e sem fé. Caminho com o rosto um pouco levantado demais, olhos num ponto indecifrado do infinito, incapaz de pensar no que quer que seja.

Antes que o pergunte a mim mesmo, respondo: não, não sei porque tem de ser assim!

.

Crónica de um domingo de outono

Yvette Depaepe
Fotografia de Yvette Depaepe

.

Foi bom ter vindo.

É sempre bom chegar a esta praia, desagrilhoar-me do carro, seguir longamente pela marginal, pedir nesta e em nenhuma outra casa um café tirado, bebê-lo às escondidas do mar, deixar-me em paz, como um desses áceres ou plátanos da anterior avenida, com a sensação de que sou um derrotado mas um herói, cansado mas digno, silencioso mas cheiinho de palavras (às quais dou ordem para se absterem, enquanto o café aquece), descontente mas satisfeito, sem pressa mas ansioso por regressar ao cheiro forte da salsugem. Regressar é sempre bom, ótimo, revigorante.

«Deseja mais alguma coisa?»

Desejo, sim. Em primeiro lugar, libertar-me da gente estúpida (é impressão minha, ou a gente estúpida vem sempre morar para o pé da nossa porta?). Em segundo lugar, prender-me definitivamente aos gestos de excelência, às pessoas maravilhosas que os sabem interpretar, como essa garota que me não sai da cabeça, cuja história me repetiram há dias.

«Olhe, professor, então não é que um desses meninos com trissomia se apaixonou por ela! Todos a fazerem troça no recreio e ele a chorar. Então, a garota foi ter com o menino, limpou-lhe as lágrimas, abraçou-o, deu-lhe a mão e levou-o…»

Gosto de vir também por esta razão. Para estar comigo, para pôr estas narrativas na ordem (a nossa cabeça é um caderno caótico), para descortinar lógicas submersas nas máscaras que as coisas vestem todos os dias.

«Aqui tem o seu troco, senhor…»

Gosto da sensação do frio, da brisa veemente que me faz inchar o casaco de náilon e me enche o rosto com salpicos de espuma. Gosto destes prédios à retaguarda, calados, inofensivos, como molduras de vinhetas de banda-desenhada. Gosto destas palmeiras baloiçando, baloiçando agora e sempre que aqui estou, fazendo-me sentir em território amigo, mesmo se o outono obscureceu já demasiadamente a paisagem.

«De modo que a rapariguinha, esta mesma de que estamos a falar, teve um acidente na sexta-feira à noite. Um horror…»

Os ténis têm, é incrível, o seu modo automático de me guiar, de me levar sem que os sinta. Nem dou pelos semáforos deixados para trás, do paredão e dos pescadores solitários, do farol, das rugas de água verde acinzentadas (além quase negras), que crescem e se desfazem no molhe, pelas gaivotas que me vistoriam com o seu movimento circular, pelas folhas de jornal com restos de castanhas assadas que civilizadamente algum transeunte deixou de presente ao mundo.

«A coitadinha tirou carta há tão pouco tempo. O carro ficou debaixo de um camião, todo desfeito, professor! Morreu logo ali! Uma rapariguinha tão boa, tão educada… Um horror!»

Nem damos conta.

As palavras atam-se-nos com perícia. Por mais que as expulsemos, elas têm um modo muito seu de voltar. E nunca vêm sós. Trazem imagens, memórias, cenas inverosímeis. Como este magote que se acotovela do lado de fora da janela da mercearia, onde o senhor da funerária cola o fúnebre papel debruado de preto, com a sua cruz, com a foto, com o nome da rapariguinha bonita, com as informações imprescindíveis, com a dor da família enlutada.

«Sempre lhe digo, professor: vão os melhores e os filhos da mãe ficam, nunca lhes acontece nada… Passam sempre entre os pingos da chuva… Não percebo!»

Não demora a chuva.

Gosto deste lugar, do modo como a cabeça se me enche aqui de vazio. Nem damos conta de como a cabeça precisa tanto do vazio, tanto do silêncio, tanto da sombra, tanto de se apagar como se apaga às vezes o azul do mar debaixo de nuvens tão carregadas de dor como estas nuvens aqui!

«Tenho muita pena deste rapazinho deficiente, nem imagina! Ainda não percebeu bem o que sucedeu à amiga…»

É sempre bom caminhar sem destino, o casaco mais apertado, a tarde levando-me para muito longe (nunca sei para vou nestas tardes em que me vejo sem âncora), o frio lavando-me, a cabeça cada vez mais leve, os ténis voando (em breve estarei noutra dimensão), o mar sempre ao lado, o mar correndo quem sabe, às tantas, dentro de mim.

.

«O Moscardo e Outras Histórias»

IMG_4736

.

Acabar um livro é uma pretensão inútil. Um livro não é acabado nunca, pela simples razão de que o autor o rescreveria mil vezes se tivesse oportunidade e paciência, pela mais correta razão de que o leitor (juiz absoluto) o há de ler de um modo em que lhe pareça sempre mais acertado, mais correto e mais perfeito, pela definitiva razão de que o tempo o recontextualiza, o mantém em aberto (mesmo que pareça fechado), agitando as suas palavras, as suas ideias, o seu alcance…

E, por isso, me parece quase doentio que tenha sofrido nas últimas semanas para concluir, terminar, encerrar O Moscardo. Pede-mo a gráfica (em desespero de causa, que os prazos são imperiosos). Pede-mo a família (contagiada pela loucura e pelo cansaço das minhas sucessivas correções). Pedem-mo os amigos (desejosos que a promessa de anos se cumpra e os contos vejam a luz do dia – que a da noite, a luz das lâmpadas e a do ecrã do computador, já eles têm por mãe neste demoradíssimo parto). Pedem-mo os colegas de escola (para quem estes textos serão, assim esperam eles e eu, motivo de análise e de estudo e, mais ainda, de entretenimento e deleite nas aulas). Pedem-mo a minha consciência e a minha vontade e o meu orgulho, seguros de que chegado eu à idade de quarenta e um anos devo acreditar no que acredito sem reservas e contaminação, valendo isto para O Moscardo como para o enorme resto de que a minha vida é feita.

Arrisco a frase: acabei há cerca de uma hora a derradeira correção. E, com ela, ou depois dela, guardo a terrível sensação de que as 274 páginas aquilatam muito e muito pouco! E não é falsa modéstia, nem oxímoro gratuito, nem obsessão. É antes a manifestação em mim do quanto poderia ter escrito em vez daquilo. É a angústia de saber que mais uns meses e talvez pudesse chegar a outro lado, não diria a uma obra-prima, mas a uma obra-irmã, dando à voz que discorre nas 86 histórias uma maior ousadia, uma volúpia mais sublime, uma atenção mais apaixonada sobre o objeto do seu interesse. O único mérito que julgo ter-me escapado aqui e acolá: a coragem de se despir integralmente!

Para o bem ou para o mal, O Moscardo voará. A partir de agora, deixa de estar nas minhas mãos.

.