Bruges

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Fotos de arquivos pessoal (2019)

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Chegámos à cidade ao início da tarde. depois de nos apearmos do autocarro, avançámos por uma espécie de pista de tartã em direção ao centro. havia um casal de russos, havia de minuto a minuto o som espaçado de uma bicicleta (todo o ruído ali, aliás), havia a memória fixa de Amesterdão, dos subúrbios húmidos onde crescem álamos e nevoeiro, do Vondelpark pejado de corvos e estrangeiros, dos quadros de Brueghel reproduzidos em calendários de bolso.

Sempre gostei de lugares onde se chega a pé aos lugares, onde as árvores e a poesia crescem juntas na mesma água e na mesma terra, digo, na mesma luz, onde o silêncio é tão limpo quanto o chão e o vidro das janelas.

Entrámos em Bruges por uma grande praça ladeada de casas antigas, hotéis, um curioso edifício feito de grandes tubos verticais por onde o vento ecoa, exportando um som indefinivelmente musical e alienígena. traçámos a nossa rota anárquica, observando as grandes cúpulas das igrejas e os nichos dos santos, fotografando o nome das ruas e as singulares numerações pintadas nas paredes de tijolo, apontando mentalmente pormenores (a rapariga das tranças a transportar os manuais escolares novos, o leão flamengo a dançar na bandeira amarela sobre os telhados, as extravagâncias de chocolate nesta e naquela vidraças).

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Caminhámos em meia lua, depois em reta, por cima de ladrilhos artísticos, através de uma pontezinha, nas traseiras de uma catedral, lado a lado com os barcos repletos de turistas.

Sobre um canal dois octogenários de mão dada abraçaram-se, depois deram um beijo. vimos sorrisos trocistas, ouviram-se exclamações em pelo menos três línguas. a tarde pareceu-nos  uma cortina dourada caindo sobre os jardins. julgo que terei dito algo a propósito de Bruges ser uma dessas cidades onde gostaria de viver.

Não creio ter sido escutado. na verdade, ainda é.

27.09.2019

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Muito obrigado!

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Pompeu Miguel Martins, João Ricardo Lopes e Paula Morais

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Não podia deixar de me dirigir e de agradecer a todos os amigos que ontem viajaram até Fafe e/ou se deslocaram ao auditório da Biblioteca Municipal para assistirem ao lançamento do meu O Moscardo e Outras Histórias.

Foi magnífica, afetuosa e soberba a sessão. Revi pessoas de quem gosto muito e de quem há muito os trabalhos da vida me vinham separando. Fui surpreendido pela presença de ex-alunos, colegas, vizinhos, camaradas, leitores que quiseram conhecer os meus contos, empregando nas suas palavras de afeto o que na vida em sociedade há de mais belo e bondoso: a estima!

Agradeço, por isso, à Regina Novais e ao Renato Leite o terem trazido Mozart ao convívio dos presentes. E com que doçura!

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Assistência no Auditório da Biblioteca Municipal de Fafe

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Agradeço ao vereador Pompeu Miguel Martins o introito generoso e intimista que proporcionou, recordando como ninguém o faria o meu percurso literário, desde a pedra que chora como palavras e o Prémio de Revelação de Poesia Ary dos Santos, que a ambos nos fez jornadear até Grândola no outono de 2001 (17 anos passaram já).

Agradeço à Paula Morais a fantástica recensão que escreveu e que partilhou com o público, aventurando-se pel’ O Moscardo com a segurança de um mestre, que é, e de uma amiga, que tem sido. Impagável é esse gesto de me ler tão bem e tão em profundidade. E tão repleta de simpatia!

Agradeço à minha irmã Catarina a produção deste vídeo, que me enche de orgulho e de alegria.

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Sessão de autógrafos

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E agradeço-lhe, ainda, a ela, à Marta e à Céu o apoio logístico dado durante a sessão, na organização e na venda do livro.

Agradeço aos funcionários da Biblioteca Municipal, em particular ao sr. Joaquim Gonçalves e à Carla Vaz, ligados à preparação do espaço e à receção dos visitantes.

E no fim volto ao começo deste agradecimento. A todos os que viajaram (do Porto, de Leiria, de Lanzarote, de Cinfães, de Matosinhos, de Póvoa de Lanhoso, de Felgueiras, de Guimarães, de Santo Tirso, de Braga, de Famalicão, de Amarante), a todos os que sendo de Fafe (tendo porventura tantos outros afazeres) não quiseram deixar de me acompanhar neste passo, o meu MUITO OBRIGADO!

Convite

convite bom

Caríssim@s amig@s,

O meu abraço, antes de mais!

Depois de um período de sete anos sem publicar, partilharei neste final de 2018 O Moscardo e Outras Histórias, um livro de ficção que reúne 86 contos, numa viagem que principia no Rijksmuseum, em Amesterdão, e termina na Casa de Saramago, em Lanzarote.

O lançamento do livro terá lugar no Auditório da Biblioteca Municipal de Fafe, no próximo dia 17 (sábado), pelas 15h30, cabendo a sua apresentação a Paula Morais, professora e investigadora que também o posfacia.

Honrar-me-ia sobremaneira a vossa presença nesta sessão!

Saudações amigas,

João Ricardo Lopes

Parque Nacional de Timanfaya

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Fotos de arquivo pessoal (2018)

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El 1 de septiembre de 1730, entre 9 y 10 de la noche, se abrió de pronto la tierra a dos leguas de Yaiza, cerca de Chimanfaya. Desde la primera noche se formó una montaña de considerable altura de la que salieron llamas que estuvieron ardiendo durante diecinueve días seguidos.
Relato de Andrés Lorenzo Curbelo Perdomo, cura de Yaiza, intitulado Diario de apuntaciones de las circunstancias que acaecieron en Lanzarote cuando ardieron los volcanes, año de 1730 hasta 1736

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Ao quarto dia entranhámo-nos no centro-sul da ilha: de manhã Tinajo, à tarde San Bartolomé, Tías, La Gería, Uga, Yaiza. volto a espantar-me com a limpeza e brio dos lanzarotenhos, em cujas povoações não permanecem muito tempo à solta o maldito plástico ou o maldito ruído. fotografo a estrada, uma reta gigantesca que, submergindo de quando em quando num declive, reaparece quilómetros mais à frente, até se perder de vista, muito longe, no sopé de uma das escuras montanhas que por cá proliferam. depois fazemos um desvio para subir lentamente, de curva em curva, até ao lugar onde nos recebe um diabo de pernas escancaradas e braços abertos, cauda pontiaguda, a segurar uma tábua com a legenda PARQUE NACIONAL DE TIMANFAYA.

Dominada por vulcões sucessivos, a paisagem repete-se. talvez por isso, a boca procura agora mais fundo para dizer melhor, para dizer diferente. esperamos uma hora, apeados, dentro do carro, numa monstruosa fila que quase não avança, observando os cones que se multiplicam de lés a lés, de cores tão vivas como o açafrão e o ocre, o vermelho, o laranja, o verdete, ou o marrom, cores muito misturadas, sotopostas, em estrias, em cachos, escorrendo umas sobre as horas. esperamos. às vezes a beleza cansa, facto blasfemo mas verdadeiro. esta beleza confunde os sentidos. não, não há palavras para ela.

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Entramos no que chamam Islote de Hilario, centro nevrálgico do parque onde o visitante pode estacionar a sua fatigada viatura, dar satisfação às premências humanas, observar em círculo toda a extensão do fenómeno geológico que alimenta este poema, embarcar num autocarro turístico, assistir à prova de fogo, pasmar-se com o jorro de água fervente cuspido a meia dúzia de metros de altura, descansar, comprar recordações. fotografo quase com obsessão, aqui, ali, além, o calor aperta (nada que se compare aos quatrocentos graus que sopram da boca da terra), tu trazes os bilhetes, também nós viajaremos pela estreitíssima rota asfaltada, entre píncaros e vales, a que chamam Vale de Tranquilidade.

Pelos vidros sujos chega-nos o bizarro elenco que as colunas de cinza fabricaram, fileiras de chaminés e maciços de lava, estranhas formas nodosas e retorcidas que lembram fósseis, crateras e encostas policromáticas, minerais, inóspitas, lunares, nenhuma tão bela como a Caldera del Corazoncillo. assim o diz a gravação que escutamos em castelhano, inglês e alemão, a que nos recorda a grande erupção de 1 de setembro de 1730, a narrativa dramática do padre de Yaiza, a lenda do eremita Hilário, os povoados férteis sepultados debaixo de toneladas de magma.

Não sabemos decidir se é este lugar um hino à vida ou à morte. prometi escrever sobre o assunto. tanto tempo depois, a dúvida mantém-se.

20.08.2018

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«O Moscardo e Outras Histórias»

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Acabar um livro é uma pretensão inútil. Um livro não é acabado nunca, pela simples razão de que o autor o rescreveria mil vezes se tivesse oportunidade e paciência, pela mais correta razão de que o leitor (juiz absoluto) o há de ler de um modo em que lhe pareça sempre mais acertado, mais correto e mais perfeito, pela definitiva razão de que o tempo o recontextualiza, o mantém em aberto (mesmo que pareça fechado), agitando as suas palavras, as suas ideias, o seu alcance…

E, por isso, me parece quase doentio que tenha sofrido nas últimas semanas para concluir, terminar, encerrar O Moscardo. Pede-mo a gráfica (em desespero de causa, que os prazos são imperiosos). Pede-mo a família (contagiada pela loucura e pelo cansaço das minhas sucessivas correções). Pedem-mo os amigos (desejosos que a promessa de anos se cumpra e os contos vejam a luz do dia – que a da noite, a luz das lâmpadas e a do ecrã do computador, já eles têm por mãe neste demoradíssimo parto). Pedem-mo os colegas de escola (para quem estes textos serão, assim esperam eles e eu, motivo de análise e de estudo e, mais ainda, de entretenimento e deleite nas aulas). Pedem-mo a minha consciência e a minha vontade e o meu orgulho, seguros de que chegado eu à idade de quarenta e um anos devo acreditar no que acredito sem reservas e contaminação, valendo isto para O Moscardo como para o enorme resto de que a minha vida é feita.

Arrisco a frase: acabei há cerca de uma hora a derradeira correção. E, com ela, ou depois dela, guardo a terrível sensação de que as 274 páginas aquilatam muito e muito pouco! E não é falsa modéstia, nem oxímoro gratuito, nem obsessão. É antes a manifestação em mim do quanto poderia ter escrito em vez daquilo. É a angústia de saber que mais uns meses e talvez pudesse chegar a outro lado, não diria a uma obra-prima, mas a uma obra-irmã, dando à voz que discorre nas 86 histórias uma maior ousadia, uma volúpia mais sublime, uma atenção mais apaixonada sobre o objeto do seu interesse. O único mérito que julgo ter-me escapado aqui e acolá: a coragem de se despir integralmente!

Para o bem ou para o mal, O Moscardo voará. A partir de agora, deixa de estar nas minhas mãos.

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Haría

Haría
Foto de arquivo pessoal (2017)

 

Descemos a Haría, depois de serpentearmos uma montanha onde as curvas e contracurvas nos traziam ciclistas solitários e retângulos repletos de aloé vera. As casas são tão brancas como as folhas deste caderno, branco imaculado que se estende com os muros ao campanário de uma igrejinha e ao relevo dos poços. Li que chamam oásis a este povoado, porventura à conta destas palmeiras que cresceram e balançam entre jardins negros de pedra-pomes, ou, quem sabe, por causada paz que repousa com o pôr do sol nas pequenas ruas sem gente.

O carro desliza no asfalto num som dormente e quase tão discreto quanto os lagartos que me garantem existirem nesta ilha e que ainda não vi e talvez não veja. Uma rapariga sobe agora em sentido oposto ao nosso, por dentro de um reduto particular, calcando com dificuldade o chão feito desta rocha, tão idêntico ao cascalho que chocalha e desequilibra, mas mais mole e muito mais escuro. Paramos para fotografar a vista do vilarejo. É estrangeira a rapariga, como estrangeiros somos nós, inglesa decerto, uma entre milhares. Afeta o mesmo ar perplexo de quem escreve estas palavras e se atreveu a invadir uma propriedade para lhe pisar o quadrado de cinza dura ao redor dos catos.

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Haría - Lanzarote
Foto de arquivo pessoal (2018)

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Voltamos ao carro, retomamos a viagem, avançamos para o centro da povoação, a tarde já muito próxima da noite. Impressiona a limpeza geral, o desenho arrumado das habitações de estilo colonial, o aprumo das paredes e do alcatrão, o ruído disciplinado das lojas, cafés e das casas de pasto, uma certa dúvida de que Haría exista de facto ou seja parte de um conto por contar. Aqui como em toda a parte, os homens precisam do seu vinho para celebrar. vejo mesas de madeira e jarros de sangria e t-shirts brancas erguendo os braços para brindar. estamos perto do Corona, o maior dos fornos adormecidos de Lanzarote.

Quando nos metemos a uma das vias rápidas, perto do mar, escureceu já. As luzes do carro esforçam-se por abrir os nossos olhos ensonados. Faço perguntas e tu respondes, retas infindáveis, placas toponímicas com nomes estranhos (Tabayesco, Máguez, Ye, Guinate, Guatiza, Teguise, Arrieta – eco da língua guanche), trânsito quase nenhum. Digo não me importava de aqui ficar, gosto deste sossego, cheio de cosmopolita tentação, tu ris. Pensas decerto que isto é um bluff. E, no entanto, falo cheio de verdade, quem sabe de premonição.

Caleta de Famara, 24 de agosto de 2018

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Caleton Blanco

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Caleton Blanco - Lanzarote
Fotografia de arquivo pessoal (2017)

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Viajamos no tempo quando nele se equivoca o corpo, revendo-se no acontecido, ou porventura antecipando-o. Grande enigma, porém, é a sensação de regresso aonde nunca se esteve, como este asfalto interminável em linha reta (uma lomba além, outra mais longe ainda), esta mole de lava e lapíli, esta areia branca em pequenas dunas até ao mar (mais branca onde o basalto é mais negro), este verdeazul da água que agora mesmo me parece um convite libidinoso, assim tão calçado e tão vestido eu, grande enigma será, porque me sinto de novo em casa não a tendo antes conhecido, e ainda a viagem não acabou. Chega-se a Caleton Blanco por estraditas empoeiradas, entre filas de automóveis e jipes estacionados onde calhou. É-se recebido pelo flamenco, pelo cheiro bendito da carne na grelha (famílias inteiras à roda das salsichas, do entrecosto, das costeletas), que um pai, um tio, um avô diligentes manuseiam com a arte, acompanhados sempre da inevitável Tropical, que outras mãos, zelosas, lhes municiam, ou que vão buscar à geleira, essa também parte do ritual. Repito que me parece isto uma viagem no tempo e que viajamos no tempo quando, como aqui, nos parece a ida à praia uma grande festa e a não incomodam os anúncios publicitários nem o velhaco snobismo de quem a transformou num estado social, onde a carne rescendente, a música popular e as famílias inteiras já não são bem-vindas nem cabem onde a vaidade e o pedantismo ergueram restaurantes com estrelas Michelin e resorts à prova de pobres. Em Caleton Blanco a soberba água transparente e cálida, de um toque aveludado que nos faz estremecer, ainda é de todos e, também por isso, viajamos no tempo, também por isso fotografamos o que por instantes nos parece um paraíso quem sabe gozando derradeiros dias tranquilos. é uma da tarde. prosseguimos viagem. Uma tabuleta indica-nos Órzola à direita, Arrieta em sentido oposto. O aroma da carne grelhada persegue-nos alguns quilómetros. Sentimos fome. Uma fome irresistível.

Caleta de Famara, 26.08.2018

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Los Charcones (Playa Blanca)

Los Charcones, Lanzarote
Foto de arquivo pessoal (2018)

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Depois de atravessarmos, a pé e debaixo de um sol inclemente, uma vasta planície de terra árida, onde cicatrizam sulcos de chuvadas distantíssimas no tempo e piroclastos repletos de pó (aqui e além um desses prodigiosos arbustos carnudos, nascidos e crescidos rente ao chão, acinzentados e em forma de cato), chegámos ao hotel em ruínas. Dizes-me que aqui moraram os ciganos. E, de facto, a cerca de arame foi derribada e nas varandas postas portadas de madeira, estores, pequenas peças de mobiliário, provas de um improviso de vida que víramos já lá atrás, em restos de fogo no meio de pedras que para esse fim terá juntado quem aqui pernoitou. Nunca terminaram este edifício, que alberga aos ombros, como o gigante Atlas, um pedaço do mundo. Estamos na costa, o oceano bate com ímpeto nas rochas, rochas tortuosas, em cujas arestas pomos os pés em modo de degraus, descendo com prudência até ao lugar que me querias mostrar. Chamam-lhe Los Charcones e é esplendoroso. A maré baixou, as cavidades sem água rutilam com os estiletes do sal, de um branco que fere os olhos. Mas a beleza a que me trazes é outra, são estes olhos que a toda a volta impressionam, pequenas lagoas de um sem-fim de verdes graduados, profundos, como vidros para as entranhas do estranho mar que neles se encafuou, vertiginosos anfractos que não paramos de fotografar e entre os quais caminhamos com um arrepio. Isto é bonito, não achas? Julgo que sorrio em vez de responder-te, um pouco embriagado, vendo o azul e o verde digladiar-se num empenho de espuma e de espanto. É meio-dia, o sol bate-nos em cheio, não sei bem em que planeta. 

Caleta de Famara, 29.08.2018

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Jorge Luis Borges

Jorge Luis Borges por Life 1
Fotografia da revista «Life»

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O que têm em comum João de Panónia e Aureliano de Aquileia, o missionário David Brodie e o romancista Pierre de Menard, o assassino Avelino Arredondo e o poeta Ollan, a bela Ulrica e Abenjacan (o Bohkari), a vingadora Emma Zunz e um velho professor de Cambridge, que fortuitamente encontra o seu duplo jovem, no mesmo banco diante o rio Charles?

Jorge Francisco Isidoro Luis Borges Acevedo ‒ Borges ‒ conheceu o mundo há 115 anos, em Buenos Aires, neste dia 24 de agosto. Ele, um dos maiores/ melhores contistas de todos os tempos, anotou um dia «Não sei se sou um bom escritor; penso ser um excelente leitor» (Prólogo de Biblioteca Pessoal)[1]. Falsa ou sincera, a modéstia de Borges é gritante, já que a sua obra constitui um caso raro de criativa reformulação de tópicos e temas literários. Como ele próprio escreveu, «Se o Universo consta de um número finito de termos, é rigorosamente capaz de um número infinito de combinações (…).» (História da Eternidade). Os textos que nos deixou são do mesmo modo, metonimicamente, um recombinar constante de temas e de termos, em que afirmou a singularidade do seu génio. 

Depressa identificamos as suas obras-primas. Contos como «O outro», «O espelho e a máscara», «A noite das mercês», «Utopia de um homem que está cansado», «O Livro de Areia», «O imortal», «Os teólogos», «A casa de Astérion», «A busca de Averróis», «O Aleph», «A Biblioteca de Babel», «História de Rosendo Juárez», «O outro duelo», ou «Evangelho Segundo São Marcos» (só para dar alguns exemplos) evidenciam as linhas mestras de uma narrativa repleta de incursões bibliográficas (sem dúvida, bibliófilas), personagens fabulosas, círculos e labirintos, bibliotecas e desertos, paisagens exóticas e alegóricas, símbolos e grafismos, duplicações e perplexidades, erudição e criatividade. Borges será um tanto hermético (a complexidade do pensamento coincide pouco com a ligeireza), mas é igualmente um Ícaro, que quis alçar a sua visão a tudo o que jamais existiu, um homem sedento da vertigem do saber e da síntese, como se deduz da leitura de um dos seus melhores textos, porventura dos mais difíceis também: «(…) o lugar, onde estão, sem se confundirem, todos os lugares do globo, vistos de todos os ângulos. (…) Então vi o Aleph (…). Nesse instante gigantesco, vi milhões de atos deleitosos ou atrozes; nenhum me assombrou tanto como o facto de todos ocuparem o mesmo ponto, sem sobreposição e sem transparência. O que viram os meus olhos foi simultâneo: o que transcreverei a seguir, sucessivo, porque a linguagem assim o é.» (O Aleph). 

Mas o culto e oculto Borges, o homem discreto e cego que não logrou o Nobel da Literatura, que albergou nas veias sangue judeu, gaúcho e português, além de contista, ensaísta, professor, bibliómano e bibliotecário, foi um poeta. Numa nótula sobre A inteligência das flores de M. Maeterlinck confessou que «Do espanto nasce também a poesia.» (Biblioteca Pessoal) e esse espanto disseminou-o ele numa obra poética em que sublimou os átomos da vida e do sonho, do belo e da força (à semelhança, do que antes dele, havia feito Walt Whitman em Canto de Mim Mesmo): «No meu secreto coração louvo-me e justifico-me: / Testemunhei o mundo; confessei a estranheza do mundo. / Cantei o eterno: a clara lua que regressa e as maças do rosto que o amor prefere. / Comemorei com versos a cidade que me cinge / e os arrabaldes que me desterram. / Eu disse assombro onde outros dizem apenas costume. / Perante a canção dos tíbios, acendi a minha voz em poentes. / Os antepassados do meu sangue e os antepassados dos meus sonhos / exaltei e cantei. / Já fui e sou.» (poema «Quase Juízo Final», Obra Poética, vol. 1). Sobre a distinção poesia/ prosa cristalizou este pensamento, de que me apoderei com entusiasmo: «Suspeitei uma ou outra vez que a distinção radical entre a poesia e a prosa está na diferentíssima expectativa de quem as ler: a primeira pressupõe uma intensidade que não se tolera na última.» (História da Eternidade). 

Admirador de As Mil e uma Noites (que colecionou em diferentes versões), de Swift, ou de Kipling, de Tomas de Quincey, Stevenson, Poe, Wilde, de Dostoiévski, Melville, Eça de Queirós (a quem comentou O Mandarim), de Kafka, Herman Hesse, Henri Michaux ou de Dino Buzzati, Borges procurou na literatura universal de todos os tempos (ele que estudou o Gilgamesh, a Ilíada, a Eneida, as kenningar islandesas, os escritos medievais europeus e árabes, a poesia oriental) o mesmo assombro, o mesmo exotismo, a mesma paixão pelo insólito que deixou transparecer nos versos citados e em praticamente toda a sua obra ficcional. 

O escritor argentino é ele próprio um caso assombroso ‒ insólito ‒ de reinvestimento literário. Ou, se preferimos, de devoção pela literatura. Não se limitou a ler a obra dos outros, a comentá-la, a publicá-la (envaidece-o ter dado à estampa o primeiro conto de Julio Cortazar), a procurá-la e a adquira-la em edições de toda a espécie ‒ incluindo raridades bibliográficas (como as que enuncia no conto «O outro»). Borges criou a sua escrita dos outros!, como se a sua própria literatura mais não fosse do que uma falsa História da Literatura, ou como se a História da Humanidade mais não fosse do que uma cíclica remissão para a Literatura. 

No conto «O Livro de Areia» fala-nos de um livro que não tem «princípio nem fim»: «O número de páginas deste livro é extremamente infinito. Nenhuma é a primeira; nenhuma, a última.» Em «O imortal» reproduz o manuscrito de um legionário romano que alcançou a Cidade dos Imortais, algures no deserto africano, onde Homero (um dos muitos da tribo dos trogloditas), lhe explica a simetria do mundo, isto é, «O conceito do mundo como sistema de preciosas compensações»: «Existe um rio cujas águas dão a imortalidade: noutra região qualquer haverá outro rio cujas águas a apaguem.» Em «Pierre Menard, autor de Quixote» (no livro Ficções), deparamo-nos com um exercício monográfico (com toda a secura, objetividade e erudição do estilo) onde se dá conta da «empresa complexíssima e de antemão fútil» do autor francês de «produzir umas páginas que coincidissem ‒ palavra por palavra e linha por linha ‒ com as de Miguel de Cervantes», porque (e a frase é uma das inúmeras que facilmente citaríamos a Borges) «Todo o homem tem de ser capaz de todas as ideias…». Por sua vez, em «Os teólogos» ‒ um dos mais extraordinários que compôs ‒ recria, decalca, sugere a disputa de dois teólogos cristãos, cuja escrita originou não só o ciúme, como a condenação de um e o castigo do outro, numa espécie da roda da fortuna, alegoria da própria instituição literária, do sucesso e do fracasso, da glória e da desgraça, que pode um texto e um autor conhecer ao longo do tempo. 

O leitor borgesiano sente-se perdido na multiplicidade de situações, citações e alusões em que a realidade textual parece confundir-se e acoplar-se à realidade extra-textual. Depressa aprenderá a suspeitar e a desvalorizar a verdade dos factos narrados e a preferir o deleite da verosimilhança (mesmo que no domínio do fantástico). Depressa se dará conta que o grande leitmotiv de Borges é a alegoria do labirinto, da mise en abîme: «Não despertaste a vigília, mas um sonho anterior. Esse sonho está dentro de outro, e assim segue até ao infinito, que é o número de grãos de areia. O caminho que terás de fazer é interminável e morrerás antes de teres despertado realmente.» (conto «A escrita de deus», O Alpeh). 

O estilo transgressivo de Borges revela-se, por outro, na extrema facilidade com que ‒ promovendo a indefinição de géneros literários ‒ constrói os seus textos. Quem lê a sua História da Eternidade apropria-se de um conjunto de ensaios que convocam o estilo narrativo (a voz que condensa a informação chega a parecer a voz de um narrador de ficção). Em contrapartida, os seus contos estão pejados de notas bibliográficas e transcrições, semelhantes em tudo às que se exigem ao discurso ensaístico. Deleita-se o autor em sublinhar os seus próprios pensamentos, citando fragmentos e autores que o ajudaram a criar o seu próprio texto, porque «Durante muitos anos acreditei que me seria dado conseguir uma boa página mediante variações e novidades. Agora, completados os setenta, julgo ter encontrado a minha voz» (confessa no Prólogo d’ O Relatório de Brodie). 

Termino, declarando Borges um dos numes do meu panteão. As afinidades não se discutem, nem se explicam. Quando delas me dei conta pela primeira vez, escrevi o conto «A Solidão de Borges» (texto que mantenho inédito), onde não apenas o homenageio (tomando-lhe de empréstimo o gosto pela transgressão e pelo fantástico), como experimento a mesma dose de gozo pela subversão da realidade, ao ficcionar o encontro com ele (morto em 1986) na Lisboa dos nossos dias.  

Admiro-o profundamente, leio-o amiúde, cito-lhe palavras cheias de luz, como estas que poderia subscrever uma a uma: «Ao longo do tempo, a nossa memória vai formando uma biblioteca díspar, feita de livros, ou de páginas, cuja leitura foi uma felicidade para nós e que gostaríamos de publicar. (…) Os professores, que são quem dispensa a fama, interessam-me menos pela beleza do que pelos vaivéns e pelas datas da literatura e pela prolixa análise dos livros que se escreveram para essa análise, não para o prazer do leitor.» (Biblioteca Pessoal). 

[1] Sirvo-me das edições portuguesas da Quetzal.

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Amélia Tarruca

Amélia Pereira (1936)
No seu casamento, em 1936

in memoriam

A minha avó Amélia nasceu há precisamente um século! Não é fácil encontrar palavras que descrevam esta mulher, essa matriarca cujos dias terminaram em grande sofrimento físico, desprovida de fala, paralisada e incapaz de alimentar-se. Expirou no preciso lugar onde escrevo estas palavras, o mesmo pequeno quarto que a viu atravessar um longo outono até perder-se no nevoeiro da cegueira, quem sabe rodeada pela memória dos seus mortos e das muitas imagens que aquilatou em vida.

Nas redondezas ficou conhecido como Mélia Tarruca, nome que ainda hoje perdura, associado a gratas recordações dos que a conheceram e lhe sobreviveram. Era desbocada, sim, capaz do palavrão intempestivo. Era enérgica e reativa, a ponto de comprar uma pistola de cerâmica (dizem que igualzinha a uma pistola de verdade) para ajustar contas na taberna com o marido adúltero. Era humana e sensível, de uma humanidade e sensibilidade genuínas, timbradas pela fome e pela miséria, por duas grandes guerras, pela necessidade de se sujeitar às agruras de um tempo em que nem os campos nem a indústria emergente eram garantias de sustento… Havia sempre um naco de broa, uma gabela de couves, meio caneco de feijão, meia dúzia de ovos, às vezes uma galinha para dar a quem precisasse. A míngua tornou equitativa e generosa a gente desta mesma aldeia onde lhe fizeram um funeral sem fim…

Se fosse viva, Amélia Pereira completaria hoje um século. Cem anos de agruras.

Não lhe conheci a adultez, só a velhice. As histórias que dela me chegavam na infância dificilmente podiam coincidir com a anciã acamada, incapaz já de articular palavra que se compreendesse. Minha mãe, que por ela velou até à morte, recebeu-a cá em casa devia eu ter seis ou sete anos. No princípio ainda caminhava um pouco, com a ajuda de uma bengala. Depois houve uma cadeira de rodas. O jornal da paróquia fotografou-a assim, como um bom exemplo cristão. Vieram duas meninas entrevistar, uma munida de caneta e caderno, outra com a máquina fotográfica. Recordo-me vagamente de tudo isto, que era para mim a distinção de classe, a vaidade de possuir uma avó famosa.

Com o tempo a saúde esfumou-se. Havia que pôr-lhe fralda. Eu ia comprá-las à farmácia. Eram sacos enormes, que não me custavam carregar, porque naquela época os miúdos eram todos homenzinhos e sofria-se de vergonha quando não se podia carregar pesos como um adulto. Minha mãe contou então com a ajuda de minha tia Conceição e ambas davam as voltas, como se dizia, à velhinha. Às vezes havia visitas. Com o tempo rarearam. Porque as pessoas deixaram de ter um motivo para vir. Porque a conversa era a bem dizer um monólogo. Minha avó respondia com monossílabos, revirando os olhos, de quando em quando deixando correr as lágrimas … Sei tudo isto porque espreitava por detrás da porta, à espera que as visitas trouxessem um cartucho com doces… Ou bananas. Incompreensivelmente as visitas traziam cachos de bananas e eu ficava fascinado com as visitas que as deixavam amarelejar em cima da cómoda e se despediam da minha avó como se faz a uma criança pequena, com inflexões de voz artificiais e claramente paternalistas.

Só compreendi exatamente quem foi esta mulher após a sua morte. Muita gente me contou sobre ela histórias preciosas, informando-me do seu caráter tenaz e frontal. Por exemplo, a história de quando descobriu a amizade do meu avô, seu marido, por certa mulher de índole incerta. Avisada por vizinhos, entrou de rompante na tasca onde os adúlteros confraternizavam com a escumalha do vinho e das cartas. Pediu que lhe enchessem o vasilhame do azeite e puxou da pistolita.

«Manelzinho, encha-me esta botelha de azeite, enquanto eu vou ali fazer duas mortes!».

A amante fugiu espavorida pela porta. Meu avô, espavorido também, lançou-se por uma janela alta, em direção às traseiras da taberna. Morreria sem saber onde a mulher tinha obtido a arma e onde a guardara. De caco, explicam-me, entre risos, E também esse pormenor ele ignorou até ao fim dos seus dias. Mas o bastante para acabar com as veleidades românticas fora do casamento!

Contam-me que, já com vários filhos pequenos, se deslocava a pé até Vizela, para trabalhar numa fábrica têxtil. Aí cuidava do mais novo, deixando a casa entregue à filha mais velha, pouco mais que uma criancinha. Trabalhava-se muito, ganhava-se pouco, desfazia-se a saúde nos teares e na violenta desagregação do mundo rural em que havia nascido a década de 30. Mas também aí se moldava a têmpera combativa e o arregaçar de mangas que tornou a família incapaz de aceitar que o céu lhe caia em cima sem ao menos ensaiar uma resposta.

Dos filhos que teve sobreviveram sete. Quatro raparigas e três rapazes (dois dos quais mobilizados para a Guerra do Ultramar: um chegando no dia em que o outro partia; o terceiro fugindo para França, a salto). Não se diga que enfrentou a triste sina de os enterrar, porque não aconteceu tal, felizmente. Meus tios regressaram todos, sãos e salvos. Ainda hoje são sete os filhos que sobrevivem, com suas mazelas, mas vivos e amigos uns dos outros. Quantas famílias não se podem gabar do mesmo?

Se fosse viva, minha avó Amélia talvez nos desse com a bengala e nos chamasse alguns nomes pouco simpáticos. Metia-nos na ordem. Era assim com as filhas, por exemplo.

Contam que amanheceu o dia em que determinado padre se aproximava pelo caminho rural, mesmo ao lado da casa velha. Vinha devagar, meditando o seu breviário e os seus pensamentos. O padre, ao que parece, não era boa rês. E o dia corria mal por causa de certo número de frangas que haviam escapado do galinheiro a andavam escarafunchando o cebolo. Minha avó praguejava alto e bom som contra as filhas negligentes. Fizeram-lhe notar a aproximação do clérigo.

«Eu quero que o padre vá para o caralho e vós também, minhas grandes putas!»

Assustado, o padre persignou-se; elas cobertas de vergonha refugiaram-se como puderam. Ficou a velha Tarruca sozinha na leira, de vassoura em riste, berrando e espalhando o terror entre as galinhas tresmalhadas.

É de longe o meu antepassado mais conhecido nas redondezas e, sem dúvida, o ascendente de que mais me orgulho.
Porque esta avó proverbial, que não tinha pejo em desdenhar de um mau padre (hipócrita, ao que parece), era capaz, em contrapartida, de mandar uma filha com um açafate cheio de víveres a casa de fulana, beltrana ou sicrana, a quem o marido dava porrada como milho mas não o dinheiro para se governar.

Sirvo-me das palavras dos outros, da memória dos outros, do regozijo dos outros para compreender a razão deste apreço pelo “politicamente incorreto” que me corre nas veias. Talvez o instinto para desprezar as inutilidades e me conservar num torrão afetivo, que há de ser sempre escasso, mas incorruptível!

Se fosse viva, Amélia Pereira, mãe, avó, criadora de filhos e de netos, faria hoje cem anos. Escrevo no preciso lugar onde expirou, às primeiras horas do dia 27 de setembro de 1994.

Como escritor e cronista da família, cabe-me conservar, pelo menos um pouco mais, este relicário de memórias e de o passar aos outros… Quando explico a algum velhote da terra a minha ascendência, o parentesco com a Mélia Tarruca, logo um amplo sorriso fraterno nos envolve aos dois, como a capa de Martinho.

«A sua avó era uma grande mulher», «A Tarruca era uma mulher muito direita!», «A sua avó matou muita fominha, Deus a tenha!»

Nasceu há cem anos, a 15 agosto de 1913.

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