O túmulo de Vulca

. Visto do alto, é um telhado de quatro águas caindo para um pátio interior (o implúvio), onde neste preciso momento se encontra Vulca, a observar fascinado um grande pássaro negro a não mais do que dez passos de distância. É o primeiro dos oito dias da semana, dia de mercado, e Vulca aguarda visitas …

Big RIP

. Escreve poemas durante a noite, dentro dos sonhos, na parte mais obscura do sonhar. Quando acorda, resta-lhe na cabeça e na boca (provavelmente no interior arrefecido dos olhos, também) amontoados de cinza. Do que escreve sobra-lhe apenas isso. Não se recorda de nenhum dos poemas ditos em voz alta, poemas seus, nascidos do contraste …

Nascer do dia

. Acorda todos os dias muito cedo. Faz o menos barulho possível enquanto trata da higiene pessoal e de tomar o pequeno-almoço. Há pessoas a dormir e a necessitar do trabalho profundo dos sonhos. Quando abre a janela do quarto, espreita sempre com muito interesse: a adivinhação da luz ou da falta dela (conforme a …

O jardim amarelo

. É um terreno de cinco hectares e meio, com socalcos e linhas imperfeitas, onde, consoante a época do ano, amarelam áleas de mimosas e gingko bilobas, renques de bordos e sibipirunas, canteiros de dálias e de hibiscos, talhões de calêndulas e de astromélias, vasos com lantanas e zínias, bacias de plástico e bidões com …

Prodígio de Natal

. No alto de uma colina, fora do perímetro da vila, escorraçadas pelas muralhas pedregosas do grande castelo mandado erguer por Fernando, rei de Leão, restam de pé – ainda que votadas ao abandjono dos homens (sem teto, portas, vidros ou vitrais, sem espécie alguma de madeiras, soalho, mobílias, figuras de santos, anjos ou pombas …

O acordeonista

. Depois da guerra, regressou a casa. A História conta-nos muito acerca dos maus regressos, desses que a literatura (desde Agamémnon) sabe escorripichar e que a psiquiatria aproveita cada vez melhor. Regressou sem um tostão, sem uma cicatriz visível, sem uma memória acolhedora, sabendo já – no momento em que desceu o derradeiro passo do …

Ciúme

. Enciumada pelo sucesso de uma sua vizinha, no que à sedução de certo homem dizia respeito, uma jovem rapariga de Teerão denuncia-a às autoridades religiosas. Em breve, tem o caminho desimpedido, o homem nos braços, o futuro todo à sua frente. Casam, têm um primeiro filho, fazem obras em casa, os anos passam, têm …

O falsário

  . – Quem é afinal este Georges Le Brun? – perguntou o Procurador. O Oficial de Justiça deu um jeito às sobrancelhas, arqueando-as, encheu os pulmões, levantou-se, abriu um dos armários metálico gigantes, apontou com o polegar à retaguarda e fê-lo deslizar horizontalmente, de maneira a incluir toda uma estante a abarrotar de capas …

Não-assunto

. Viu a jovem instrutora de fitness a discursar diante de uma multidão apoteótica. A beleza do corpo aliada à bela escolha de palavras e, sobretudo, à forma bela como unia os seus gestos repletos de graciosidade e de sinceridade desconcertou-o. Sempre imaginara as pessoas intelectuais como rostos cavados e cinzentos, corpos curvados e bamboleantes. E sempre …

O castigo

. Nesta época do ano, as manhãzinhas são docemente cruéis. Quem acorda gostaria de continuar a dormir. É a única altura do dia em que uma correntezinha fresca alivia a casa, atravessando como um bálsamo os corredores e o pátio. Depois o sol assenta sobre a terra e o calor massacra, obriga homens e animais …

O túmulo

. Da janela e portas da sua oficina, Andreas Agrafiotis, artesão, professor, escultor, septuagenário, avista uma das faces das montanhas Zas. O sol refulge nos cumes e pedreiras arduamente estriadas e escarvadas de mármore, marga, calcário, produzindo um efeito de sede a que ele se habituou há muito. Em Naxos, os minerais coexistem com algumas …